Sua luz críspida
Teu abraço nu pela manhã





Sem título, óleo sobre tela, Bel Teixeira 2008.A sombra de um grito a correr, um grito
cheio de rachaduras na pele da noite lembrada.
Uma noite corria ao longo de janelas sonoras,
imediatas,
levando na sela, abertos como ela,
lenços.
Muito vivos, grandiosos, brancos, atados
a cascos céleres, correndo como sombras
que discordam da forma
como as coisas devem ser,
ou estar, com as patas na mesa da fantasia
noturna.
E são mulheres ou lenços, mulheres de corrida, mulheres-sonho
pousadas
ao abrigo da terra, como uma estrela
pousaria na sombra,
tremendo como as estrelas tremem na escuridão,
ante o poder extraordinário
que há em serem ditas.
O céu está a galope por cima
e elas passam esquecidas, angustiadas
com a noite esquecida/lembrada,
mas que logo, logo, volta a
correr, porque faz parte do desejo das sombras
correr,
correr como os lenços brancos das estrelas
― velas que se apagam à passagem
dos imateriais.
Eu lembro:
os gritos queimam,
como as éguas e suas crinas queimam,
assim como a aragem da noite-água
viva,
aberta, correndo, lembrando.
O miolo da fechadura guarda um segredo,
da palavra pode-se voltar a fazer imagens;
no centro da tormenta
dorme o silêncio.
Às vezes, nossa pessoa cresce a tal ponto
que é engolida pelos seus
ecos.

Ilustração: Thiago Boemeke


Por que razão vem à noite? Para poder cavar em paz e sem pressa, os barulhos da noite o escondem. Qual o motivo do buraco que cava? O buraco não tem motivo, apenas a ausência necessária para que ninguém na casa se julgue inteiro. Ele está dentro da casa. Como sei que está aqui e não escondido no mato? Eu que deixei entrar. É uma fera terrível, destruiu toda uma família de anões. Por que sei que é um lobo? Eu que o criei, desde a barriga da loba. Esperamos a polícia para quem precisa de polícia? Há uma arma, mas não há coragem para usá-la. Por que é que nunca soubemos desse quarto no subsolo? Ele foi lacrado para que, sobre os seus segredos, pudéssemos viver ao rés do chão. Como pode ter certeza de que há crianças na casa? Onde há crianças, há o medo dos lobos. Qual o motivo de os temermos tanto? Um cão pode voltar a ser lobo e vice versa, nós não, estamos condenados a ser uns os lobos dos outros. Então eu vi, ou sonhei que vi: a mulher se aproxima do bebê que chora, pega-o no colo e retira do seu pé um espinho, em seguida cuida do ferimento.
