segunda-feira, 15 de junho de 2009



Inverno

Sua luz críspida

Teu abraço nu pela manhã

domingo, 14 de junho de 2009

Dois sonhos, imediatamente depois de fazer amor


Foto João Francisco Verderame


Os olhos negros do dragão a me fitar
Seu corpo imenso me rodeia
A bocarra escancara
E nenhum som se projeta

Estou no meio do olho
Do furacão negro, o negro
Dragão que me circunda
Segura em suas garras

Um ovo

Dourado

Translúcido

Lindo

E o deixa em minhas mãos atônitas
Antes de voar partindo.

*****************************************************************************

Caminho pela larga aléia encurvecida de pedras
Ninguém
Passo por várias portas que não me dizem respeito
Até chegar a uma em especial
A minha porta, após alguns poucos degraus de mármore velho
Como o mármore da casa de minha infância
A porta de madeira, com algum trabalho inespecífico
A maçaneta em metal, a sombra que se anuncia dentro
Do que não ousei desvelar
Era cedo ainda.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Resposta: Valentina é uma Capitu que fala!





Querido Missosso

Primeiramente gostaria de dizer que você não traiu minha confiança e te agradeço do fundo do coração por suas palavras e preocupação. Acho um pouco abusada, um tanto engraçada, um tanto perigosa, a sua idealização da minha pessoa nesse papel que, parece, você me destina: a Grande Dame. De todo modo, é uma necessidade sua.

Essa experiência amorosa com Mr. M se revelou uma entrega ao mistério, uma forma de desalojamento de si mesma em direção ao outro, uma renúncia de aspectos próprios a caminho de um destino que pensei poder compartilhar. É quase, meu amigo, um voltar à pureza da criança, sempre aberta ao que se revela, fluindo com a própria vida!

Amor esse, que por um tempo, foi um verdadeiro portal para vivências do sagrado, onde me abri genuinamente para o sentido da existência e da beleza em ser mulher. Você sempre insistiu neste ponto comigo, “A” mulher é uma construção, já que ninguém nasce “mulher” ― torna-se, segundo Freud ou Simone de Beauvoir.

Viver aberta para a aventura desse encontro foi de uma riqueza ímpar e isso, de fato, não combina com a palavra "migalheira", como me auto-referi. Posso dizer que me abri, que me arrisquei, me recriei, mas chegou a hora de aceitar que essa história chegou a um beco sem saída. Uma intimidade que, de transcendente, se transformou em tóxica como você bem me alertou.

Uma relação sem perspectiva nos joga fora da condição humana e nossa sobrevivência física e emocional fica ameaçada, é uma forma de experimentar morte em vida. Tive inúmeros sonhos e sintomas físicos que me mostraram isso!

A aceitação, desde o início, do lugar de "guardada" talvez já evidenciasse a falta de crescimento, o aprisionamento, a pseudosegurança afetiva que eu entrava. Percebo agora que, ao ser “guardada”, não fui legitimada, ao ser “protegida”, não pude viver a plenitude do que poderíamos alcançar. De que me adianta ficar com o príncipe ao final do jogo? ― a vida só existe no durante, meu amigo.

Estou sendo chamada a olhar que a proximidade com Mr M me revela o que não foi transcendido, transformado e curado em mim. Vou levar um tempo para me desintoxicar, mas já são quase quinze dias sem nenhum tipo de contato com o vício! Hoje é o primeiro do resto dos meus dias, como dizem nos grupos de auto-ajuda.

Meu querido amigo, não deixei de sonhar e continuo a acreditar, como diz Camus, que no inverno, descubro em mim um verão invencível! E você sempre me ajudou nisso, pontuando, relembrando o que vê de melhor em mim. Não sei se te convidei a ser meu espião, te sinto como um guardião, tanto daquilo que tenho de melhor quanto da minha sombra.

Tive um verdadeiro insight com aquela frase: NÃO SE PODE AMAR E SER FELIZ AO MESMO TEMPO. É pensando nessa impossibilidade de amar e ser feliz ao mesmo tempo que entro em relações que confirmem essa crença a meu ver absurda e limitadora. Nisso discordo de você: a vida não é sem sentido nem cruel, é apenas um mar de possibilidades que se abrem a quem as puder enxergar.

Com Amor

Valentina (está renascendo em mim)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

nuvens desenhando nuvens

Ilustração M.C. Valente

lua com nuvens

o rio manchado

a cheia imensidão



no pântano

insolúvel dos teus olhos

sombras e desertos



o ipê sem cambacicas e saís

voam tesourinhas e siriris

o cupim apanhado no vôo



mp3, software livre, broadcast yourself

privacidade bisbilhotada

weave web 3.0

terça-feira, 2 de junho de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo





Querida Valentina,

Se você está lendo estas linhas, então já sabe que traí miseravelmente a sua confiança e estou respondendo, talvez da pior forma possível, ao que me disse em nossa última conversa. Pese a meu favor o fato de a haver prevenido que faria de você personagem de uma história que ainda não escrevi, e que talvez nunca escreva, como tantas outras coisas que lhe prometi sem saber se poderia cumprir. Você sempre soube no fundo que isto tinha o potencial de vazar para além dos muros da nossa intimidade singularíssima; da sua parte, espero apenas o perdão, da minha, ofereço o mais candente esforço e sinceridade de que sou capaz. Não sei dizer o que para mim foi pior no seu desabafo: ser atualizado nas indignas/heróicas viravoltas da sua relação obsessiva com o Mr. M., ou escutar o horrendo adjetivo que você se autoaplicou: “migalheira”. Mulher migalheira, como tantas outras que há por aí, foi o que você disse. Arrepiante, preocupante mesmo, a ocorrência de dois absurdos na mesma frase: nem você é igual a tantas ou poucas que por aí andam, nem, o que é muito mais importante, se trata de migalhas, mas do exato oposto essa sua história com M.! É humilhante demais. Mandando às favas o meu orgulho, tenho que lhe dizer, a bem da verdade, que esse seu namoro porno-sado-masô é o sideral oposto do pedaço, da migalha, é, antes, sinal de uma imensa fome de absoluto, de um desejo de transcendência descontrolado; o que vocês vivem dista anos-luz do trivial, é uma ligação tão incomum e rara na intensidade que consome tudo à sua volta. Até a capacidade de auto-ironia, até a sua tão preciosa saúde, minha querida. Sei do que estou falando porque escrever é viver essa mesma oximorosa condição: eu sento aqui diante da folha em branco e acredito que me sento à mesa dos deuses, dos anjos, dos reis, mas acabo a noite de quatro, como um vira-lata, a disputar com os sabujos dos empíreos os restos corrompidos que caíram da mesa onde circulava a ambrosia e o hidromel. Não pense que me escapam as contradições em que vou incorrendo ― não estou preocupado com a coerência, estou preocupado com você ―, cara mia, ter a honra de conviver na época de uma grande mulher é ser testemunha histórica de um colossal, maravilhoso, equívoco de carne e osso. Eu sou o seu espião. Você me convidou a isso, como fez de M. um hacker psicossexual entregando-lhe cegamente todas as senhas do corpo e da alma. Ah, como gostaria de vociferar em prosa chula a pusilanimidade dele ― um homem que não tem a coragem de amar a mulher que deveras ama; mas sei, por experiência própria, que a servidão que lhe assujeita agora é a pior de todas: aquela que faz parte do próprio sangue, a que faz de nós aquilo que somos num deslugar noturno do ser. A verdade é que M. usa com habilidade um segredinho sujo do malestar civilizadinho, a verdade é que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda, no jogo do amor, um homem “vale” mais que uma mulher, mesmo sendo um homenzinho cagalhão e looser, mesmo sendo um alumbramento de mulher como Valentina. São as malditas, hipócritas, escrotas regras do jogo social de ontem, hoje e sempre, que garantem que uns lucram, outros são lesados e todos perdem, porque sobre a primeira expropriação se apóiam todas as outras, porque uma dominação engendra a outra, porque, enfim, uma sociedade de libertos seria uma grande ameaça para a estabilidade da globalização, da contemporaneidade ciniquinha e limpinha. E também porque, amiga, apesar de o mundo ser o que é, não podemos simplesmente aceitá-lo pelo valor de face, como não posso simplesmente deixar de sofrer ao vê-la vivendo na pele dessa heroína às avessas, essa identidade secreta, espécie de existência paralela feita de espera vã e epifanias aflitas. Sim, você ouviu bem, eu lhe disse que essa intimidade é tóxica, voragenta; você piscou para o abismo e ele lhe escancarou a goela puante, as insaciáveis fauces. Valentina, darling, pode ser que a vida não seja nada disso que estou lhe dizendo, não me ouça, não lembre das minhas palavras, mas por favor não desista da sua beleza, da indomável liberdade que há nos seus cabelos, nunca deixe de visitar os jardins do mundo delirante onde vivem os Predicados e as Essências, onde tantas vezes adivinhamos os passos um do outro a correr nas caminheiras. Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, vero, mas não se pode viver sem um sonho assim.
Bjs,

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cinzel Sobre Sonhos, Escultura



Escultor, bato a ferro a pedra da minha vida.

Meu caminho, instintivamente, sempre foi o mais difícil, o lado mais íngreme, o lado escuro de qualquer astro. Não sirvo de exemplo nem para o meu filho, para quem sempre quis uma vida menos dura. Em vão. Lá foi ele, à esquerda na vida, sem entender o que se passa no mundo que não se passa dentro dele. Eu nunca soube fazer de outro jeito. Azar.

Saturno, ao me reger, prometeu o pote de ouro no fim do arco-íris de chumbo; fica assim a recompensa a quem se dedica ao bruto esporte de viver a vida e suas escolhas de um modo que ninguém conhece. Descobrimos que não amamos as mulheres superficiais, mas isso apenas depois de as abraçarmos. Descobrimos que a música que queremos fazer não existe, e quanto à nossa banda, provavelmente apenas o fã-clube da Bulgária será um pouquinho mais expressivo. Nosso pagamento será de tapinhas nas costas e abraços calorosos entre quatro ou cinco iniciados.

É saber, enfim, que a vida valeu muito e que não existia outro caminho, e que a coragem de ter sonhado com um enorme e vistoso lírio branco (e com aquele carrinho que parecia um bizarro carrinho de golfe, cuspindo flores para todos os lados) não era na verdade coragem de amar e ser amado por aquela mulher como ninguém mais o faria, mas a única trilha visível numa bruma que não permitia ver mais que meus próprios passos, mesmo que a dois dedos da morte e do inferno onde muitas vezes caí.

Até agora me ralei um tanto, mas até que foi divertido. Às vezes.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

a paixão carambola os substantivos com os adjetivos


a má arte
(cedo ou tarde)
se revela
arte do mal

a poesia não precisa
ser justa
sincera ou veraz
não precisa nem ser boa

porque a arte
coitada
não é boa, má
nem coitada

nós
somos maus e bons
em variável indeterminada
razão

amar é tão
difícil
quanto a maldade
é simples

sou apenas um peixe
estouvado
uma partícula de tempo
uma pequena coisa doendo

na multidão

terça-feira, 19 de maio de 2009

I feira de saude mental e economia solidaria

“A necessidade de inclusão de produção da vida material pelo trabalho é um aspecto fundamental das relações sociais e diz respeito aos direitos de cidadão dos usuários dos serviços de saúde mental” (Desafios para a desinstitucionalização: censo psicossocial dos moradores em hospitais psquiátricos do Estado de São Paulo. Secretaria Estadual de Sáude/SP).
No dia 23 de Maio (sábado), como parte da Semana da Luta Antimanicomial, a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária do Estado de São Paulo irá realizar a I Feira de Saúde Mental e Economia Solidária.
A I Feira de Saúde Mental e ECOSOL tem como objetivo ser um espaço de sociabilidade, exposição e comercialização de produtos e serviços dos projetos de trabalho e renda e empreendimentos econômicos e solidários, dos trabalhadores e trabalhadoras, usuários da Rede de Saúde Mental do Estado de São Paulo. A I Feira contará com a comercialização de produtos de 25 projetos de trabalho e renda de diversas cidades do Estado de São Paulo.
A I Feira contará também com diversas apresentações culturais e a IV Parada do Orgulho Louco, visando um dialogo com o conjunto da sociedade para mostrar as potencialidades criativas e produtivas dos usuários da Rede de Saúde Mental.
Programação da I Feira de Saúde Mental e ECOSOL:
12:00 - concentração da IV Parada do Orgulho Louco – informações sobre o local na página eletrônica
13:00 - Chegada da Parada do Orgulho Louco na Feira - início
13:30 às 13:30 - música (dj tiago)
13:30 - Ato de Lançamento da Moeda Social Qualquer e fechamento do Ato com o Cordão Bibitantã
14:45 - música e microfone aberto
15:00 - Luis Groove (banda de jazz)
16:00 - DJ Nene
17:30 - dança cigana
18:00 - Ala loucos pela X
18:40 até o final - música (dj tiago)

Maiores Informações: http://saudeecosol.wordpress.com/

Apoios: Conselho Regional de Psicologia-SP, Secretária Estadual de Saúde, Escola de Enfermagem-USP, Associação Franco Basaglia, Associação Vida em Ação e Fórum Paulista de Economia Solidária.

Endereço: Rua Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 ( Escola de Enfermagem da USP - ao lado do Metrô Clínicas)

domingo, 17 de maio de 2009

Também se recolhem os cacos da sombra que voa

Sem título, óleo sobre tela, Bel Teixeira 2008.

A sombra de um grito a correr, um grito
cheio de rachaduras na pele da noite lembrada.
Uma noite corria ao longo de janelas sonoras,
imediatas,
levando na sela, abertos como ela,
lenços.

Muito vivos, grandiosos, brancos, atados
a cascos céleres, correndo como sombras
que discordam da forma
como as coisas devem ser,
ou estar, com as patas na mesa da fantasia

noturna.

E são mulheres ou lenços, mulheres de corrida, mulheres-sonho
pousadas
ao abrigo da terra, como uma estrela
pousaria na sombra,
tremendo como as estrelas tremem na escuridão,
ante o poder extraordinário
que há em serem ditas.

O céu está a galope por cima
e elas passam esquecidas, angustiadas
com a noite esquecida/lembrada,
mas que logo, logo, volta a
correr, porque faz parte do desejo das sombras
correr,
correr como os lenços brancos das estrelas
― velas que se apagam à passagem
dos imateriais.

Eu lembro:
os gritos queimam,
como as éguas e suas crinas queimam,
assim como a aragem da noite-água
viva,
aberta, correndo, lembrando.

O miolo da fechadura guarda um segredo,
da palavra pode-se voltar a fazer imagens;
no centro da tormenta
dorme o silêncio.
Às vezes, nossa pessoa cresce a tal ponto
que é engolida pelos seus
ecos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mulher com cigarro, técnica mista


bebi raízes

na carne da montanha

dormi

despido por lençóis d’água

envernizado

na tua sala de estar-mogno

não sou de louça!

não tenho margem de manobra

não tenho quadris, nuca, nádegas

nem clarão fugitivo por onde o sentimento siga no encalço

minha cabeça de edemas

agudos

minha face bolachuda de angosturas

kármicas

sete perguntas quem era

sereia, sirene, verbena

veneris die

simultaneamente doce

instantaneamente morno

entregue às margens que estavam ali

enlaçadas ao vislumbre

da sarça ardente

ao corpo mal contado

e narrativo

ao menos deixa

ao menos por hoje

deitar

na cozinha da tua alma

quarta-feira, 13 de maio de 2009

papel aceita tudo

à Tatiana Mayer (in memorian)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

transformei meu amor em noite para te dar as estrelas

Ilustração: Thiago Boemeke

No amor, a multiplicação do nada: dar o que não se tem

Receber do outro o milagre que ele(a) nunca pôde haver

E, neste comércio de impossíveis, construir o mais louco dos paraísos

Quando jovem corria para o abismo, mesmo porque a neblina me cegava

Hoje, caviloso, poupo moedas para a velhice, sentindo que abraço nuvens

Ando às escuras, bem sei

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sonho: O lado escuro do caminho


Eu ando pelo caminho escuro. Ando por seu solo imperfeito, suas manchas esverdeadas, seu piso como tijolos muito gastos pelo tempo. Sua noite particular.

Eu ando pelo caminho do lado escuro, separado dos caminhos comuns que todos trilham, que sai deles e volta, como um atalho que ninguém vê. Eu evito os acidentes que não conheço, fico com medo de pisar em algo estranho ou nojento, mas não paro. Nele é difícil prosseguir, e às vezes acho que andei, mas estou no mesmo lugar. Minha respiração torna-se tão pesada que chega a parar. Angústia. Num susto, volto a respirar.

Eu ando pelo caminho à parte, que tem silêncio, onde a luz diminui, que os outros não conhecem. Temo, mas ao mesmo tempo vou com confiança, pois também é meu. Volto por ele ao lugar já conhecido de onde saí. Mas não sei quanto de mim ficou.

domingo, 26 de abril de 2009

o assombro sempre é maior que a assombração







tréplica de uma falsa polêmica (ô vício!)


Caro D.,

1) Jarbas "às-favas-com-os-escrúpulos" Passarinho emporcalhou, sim (é da natureza das aves), o lugar que ocupou ― e emporcalhou com sangue (é da natureza da meganha). O nobre doxógrafo defende que se rasgue a Lei de Anistia ― o que seria o primeiro momento de auto-reflexão sincera na história do país das "transições suaves" ―, mas não acredito que intimamente leve a sério tal possibilidade, nem alimente a crença em processos judiciais à vera para os envolvidos. Não no país do Gilmar Mendes.

2) Mídia no singular explica-se pelo comportamento de manada, mormente as grandes mídias, pautadas que são pela TV. Compare a grita contra os "excessos" das ações policiais no Massacre da Castelinho durante o governo Saulo de Abreu Fº, digo, Alckmin, com a fuzilaria em cima dos Protógenes Fáusticos, dos Joaquins Policarpos Barbosas. Injustiça minha com Bucci: as polêmicas que entre nós prosperam vão do anódino ao supérfluo, orbitando em torno de ninharias, tecnicidades bacharelescas.

3) O meu jornal ideal é aquele que embrulha o peixe, molha, mas não rasga. Companheiro, vc acha mesmo que defender uma imprensa plural inclui colocar (mais) um canhão na mão de Sarneys, Delfins e Passarinhos? Conte à sua filha de 12 anos sobre a OBAN e depois pergunte se ela gostaria de te ver na companhia dessa galera medonha.

4) Você está certo sobre este ponto. Amei o meu epíteto: "contra-crítica chapa branca", é Gêmeos com ascendente em Gêmeos.

5) Seu nome no alto de um texto me faz pensar. Em dobro. Vc tentou relativizar a "dura", sim, ou talvez não tenha sido tão enfático em condená-la quanto a minha simplicidade de espírito careceria.

6) Estou aceitando parcerias públicas e privadas, vc talvez me compreenda, não tem sido fácil ganhar a vida neste nosso capitalismo de estado. A esquerda brazuca no pós-ditadura tinha (ainda tem) a faca e o queijo na mão, como teve a sua congênere italiana no pós-guerra, e o mesmo dilema moral: as cicatrizes do conflito armado de um lado e, de outro, a vontade de usufruir dos esquemas, de "fazer o que todo mundo faz", nas palavras imorredouras do Nosso Guia. Os compagni que não embarcaram num terrorismo equivocado, temporão e sanguinário, se lambuzaram na versão acomodatícia, com a conseqüente mafianização da vida social, política e econômica do país. Isso levou ao assassinato de Moro e Falcone, isso desagua em Berlusconi e na Lega Nord e agora... Battisti. Deve doer fundo na xenófoba alma peninsular ouvir o ministro brasileiro da Classificação Racial (outro dos seus impagáveis 'tags') afirmar que a justiça italiana não é confiável. Sendo assim, e se vc me permite, é melhor não perturbar demais sua conversão 'neocon' em campanhas revisionistas: colegas e aliados seus, antigos e atuais, poderiam ter constrangimentos na eventualidade do menor rasgo na Lei de Anistia. Cordiais saudações,

Missosso

cuspindo fogo

terça-feira, 21 de abril de 2009

o Deus quântico criou o universo, mas não o pode operar


Para o mundo da física, as teorias quânticas descrevem uma série de fenômenos bizarros, como partículas que desaparecem aqui e surgem acolá, ou que se comportam como onda e como partícula a depender da situação, “coisas” que são e não são ao mesmo tempo, etc.; já para a metafísica, as conseqüências são muito mais sérias: um suposto Demiurgo quântico até poderia ter criado o universo, mas não possuiria nenhum controle sobre a sua criatura.

A realidade é um devir contínuo ― como já tinha notado Heráclito ―, e um devir contínuo é um vir-a-ser-alguma-coisa; o que é, e como se determina esse vir-a-ser-alguma-coisa, é onde a porca torce a primeira espiral do rabo: ninguém pode saber com certeza o que vem a seguir, apenas medimos possibilidades disto ou daquilo acontecer. A cada momento o universo precisa refazer suas apostas e, como disse Mallarmé, nenhum lance de dados pode abolir o acaso.

Nada nos garante que o sol vai nascer amanhã, disse Hume, sacudindo Kant de seu sono dogmático. O MUNDO É FUNDAMENTAL E ABSOLUTAMENTE LIVRE PARA FAZER O QUE QUISER NA PRÓXIMA JOGADA. Einstein se revoltou: Deus não joga dados. A possibilidade “zero” de um evento não significa, no mundo quântico, que ele não possa acontecer; o corolário disto confirma Machado de Assis: TUDO pode acontecer.

Stephen Hawking, em sua busca por uma teoria que unificasse todas as forças da física (Theory of Everything), percebeu que um tal conjunto de axiomas seria “completo”, isto é, não possuiria um fora que o balizasse, um metanível que atestasse sua verdade ou falsidade ― violando o Teorema de Gödel.

Nem Deus possui a Equação de Tudo.

fotografemas




terça-feira, 14 de abril de 2009

EULE O LOBO

Por que razão vem à noite? Para poder cavar em paz e sem pressa, os barulhos da noite o escondem. Qual o motivo do buraco que cava? O buraco não tem motivo, apenas a ausência necessária para que ninguém na casa se julgue inteiro. Ele está dentro da casa. Como sei que está aqui e não escondido no mato? Eu que deixei entrar. É uma fera terrível, destruiu toda uma família de anões. Por que sei que é um lobo? Eu que o criei, desde a barriga da loba. Esperamos a polícia para quem precisa de polícia? Há uma arma, mas não há coragem para usá-la. Por que é que nunca soubemos desse quarto no subsolo? Ele foi lacrado para que, sobre os seus segredos, pudéssemos viver ao rés do chão. Como pode ter certeza de que há crianças na casa? Onde há crianças, há o medo dos lobos. Qual o motivo de os temermos tanto? Um cão pode voltar a ser lobo e vice versa, nós não, estamos condenados a ser uns os lobos dos outros. Então eu vi, ou sonhei que vi: a mulher se aproxima do bebê que chora, pega-o no colo e retira do seu pé um espinho, em seguida cuida do ferimento.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Post -Sonho: Lobo



O lobo vem à noite.
Nunca ninguém o vê, mas vê o buraco que ele deixa, cavado no chão, enorme, descomunal. O buraco chega num andar abaixo, uma espécie de subsolo que ninguém conhecia, mas que estava lá, enorme. Estranhamente, o buraco chega a um subsolo que não é exatamente desorganizado, mas é assustador, com suas pilastras imensas, seus tijolos aparentes malcuidados, sua escuridão.
Há uma arma na parede, mas ninguém se anima a esperar pelo monstro. Ele é muito forte, rápido e perigoso. É preciso estar pronto para enfrentá-lo sem dó. A polícia virá pegá-lo, enquanto ficamos escondidos, esperando, mas é inútil. Ele é esperto demais e nunca vem quando o esperam.
Ninguém o encontra.

sábado, 11 de abril de 2009

o caubói ao entardecer





Um retrato moral resulta mais ambíguo ao poente do que com o sol a pino. Por contraditório que possa parecer, nisto reside a licença poética e um dos vértices do multifacetado “Gran Torino” (2008), filme mais recente de Clint Eastwood, anunciado como o seu último trabalho de ator. Uma luz oblíqua costuma guiar os atos finais dos caubóis de Hollywood: nos westerns, caracteristicamente, este é um combate singular que acontece nos confins da cidade, ao cair da tarde ― fica com vantagem no duelo aquele que se colocar de costas para o crepúsculo.

“Gran Torino”, porém, enfrenta corajosamente as vicissitudes do crepúsculo, em particular os inevitáveis acertos de contas com o passado, o presente e o futuro. O filme começa e termina na morte, sem com isto redundar em fechamento exegético, nem acentuar demasiadamente o registro do trabalho de luto. Embora se preste a balanços de vida, de carreira, de posições políticas (o cineasta é um redneck, republicano e patriota de quatro costados), o plano narrativo não aceita soluções apaziguadoras: Dirty Harry 6 está na pista daquelas perigosas sínteses de que falava Hegel.

Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coréia, viúvo que mora afastado dos filhos e netos num subúrbio de Detroit, é o proprietário de um Ford Gran Torino, modelo 1972. O carro pré-crise mundial do petróleo lembra tristemente a arrogância perdida no centenário da Ford, paradigma da indústria do século XX; somos levados a perfilar homologias históricas e biográficas do personagem numa arquitetura da degradação: o declínio físico a se desdobrar no esgarçamento dos laços familiares, que se espelha na decadência urbana de Detroit, metonímia do combalido setor automobilístico norte-americano, símbolo, por sua vez, do outono da superpotência mundial.

Como os irmãos Cohen em “Onde os fracos não têm vez” (2007), o Eastwood-diretor experimenta com a mistura de gêneros, no caso, o faroeste com o drama de tribunal. Na sala de espera da consulta médica, Kowalski finalmente entende: é um imigrante entre imigrantes, maverick ajustado socialmente, ex-combatente que enfrenta agora o tribunal interior da doença, da velhice e da memória. Neste processo ele recusa tanto a mediação religiosa como a reflexão melancólica; se escolhe, uma vez mais, a via da ação, não está em busca de outro punhado de dólares, mas de conferir sentido(s) à sua trajetória.

A conquista do Oeste mítico encenou a conquista do mundo: no corte rápido da edição ideológica, saía o vingador solitário e entrava o marine. Passagem de bastão que John Rambo realizaria, no imaginário da América e do mundo; afinal, supremacia se faz com guerras e guerras se fazem ultrapassando fronteiras éticas. Os filmes de tribunal representam, assim, um segundo tempo dialético do bang-bang: no momento em que a conduta vai ser escrutinizada pela Lei é que ela atinge a letra, ganha estatuto legal , portanto, social. Jean Genet dizia que era apenas um homem que roubava, depois de condenado, tornou-se um ladrão.

A América (do norte, bem entendido) se tornou o que é por acreditar nos princípios da Lei e da Civilização (ocidentais, bem entendido); a crise atual, ao atingir o núcleo duro do sistema, deixa de ser uma questão econômica e se torna também uma questão de modelo, de visão (e, mais ainda, de administração) do mundo. Esta é a condição pós-moderna descrita por Lyotard, falindo os laços de nacionalidade, as fidelidades étnicas e clânicas, em suma, as “grandes narrativas”, confiamos que a imagem fragmentária do cinema realize a façanha integradora, o terceiro tempo em que a pulsão forja a representação. Monco não é Rambo, Eastwood não é Schwarzenegger, mas o Gran Torino do filme é “verde”, como os carros que Obama deseja para a América.

Kowalski tem dificuldades com a nova ordem, mas não vai contra o inevitável de forma ingênua: não há mais dois exércitos marcando o mapa com vermelho e azul, o que temos é um território instável tomado por gangues. Os créditos descem com o caubói cavalgando sozinho rumo ao horizonte.