sábado, 25 de agosto de 2012

eles passarão, eu, passarinho





para compor um céu é preciso

haver passarinhos

antes mesmo até

do azul

 

mas é fundamental haver

margens

e um rio para correr nelas

e casas

com quintal, pitangueira

e goiaba no pé

 

quando foi a última vez que fiz algo

pela primeira vez

na vida?

 

comecei perdendo os heróis

na família

no esporte

na música

e na política

 

comecei a perder aos poucos

a audição

a vista

a memória

e a paciência

 

mas não perdi a esperança

vou consultar o pai Maicknuclear:

lê poema

amarra prosa

traz seu texto de volta

em sete dias

 

— esse sim, funciona!

 

domingo, 19 de agosto de 2012

já não




já não ardo
vivo

já não chovo
choro

já não destilo
escrevo

já não tenho
todo

tempo


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

não tenho notícias de mim



a tarde

           dorme

                      a dor

pausa

          o sol

descansa

              o ruído das folhas

dispersa

             o incêndio

da alma

             vou quebrar

                        antigas

 certezas

                e te dar

                        os cacos

da minha

               vaidade

domingo, 12 de agosto de 2012

O corno do Bife (epílogo)

(foto: José António Doutel Martins Coroado)

            Ao fim e ao cabo, depois de calcorrear as casas dos parentes, a Mãe deixou os miúdos com os pais dela, figuras colossais que se gravaram no Menino como tatuagens na alma, e de quem nunca deixará de se lembrar pelo resto dos seus dias; na despedida a mamã disse que eu já era grande (oito anos!) e devia ser forte e ajudar a tomar conta do meu irmãozito, que voltaria logo, e, enquanto e não, deveria obedecer aos avós; como se precisasse: naquela época, um pirralho refilar para um adulto ― que dirá desobedecer! ― era tareia na certa; a Avó não era de economizar nas estampilhas, mas educava mesmo era por meio de seus impagáveis adágios, os quais sempre trazia como que na algibeira a propósito de todo e qualquer assunto: “Homem pequenino é maroto ou bailarino”, “Ovelha que berra, bocado que perde”, “Quem não come por já ter comido, não tem doença de perigo”.

Já o Avô era de fala pouca e certeira; demorava uma eternidade a comer e a contar suas histórias da tropa, enquanto amassava côdeas de pão sentado no escano da cozinha onde se defumavam as alheiras, o presunto e as morcelas; alto e forte como um embondeiro, derretia-se com os netos, jogava à bola com eles dentro de casa (talvez lembrando de seus tempos de guarda-redes); nunca o vi sair à rua sem chapéu, nem ir à missa; preferia os cavalos aos homens e dizia que as motas eram cavalos cegos, pois faziam tudo que as bestas que as montavam queriam sem refugar; foi ele, o Senhor Morgado da Aldeia dos Quatro Montes, que me contou a mãe das verdades dolorosas: “Há só dois tipos de homens: pregos e martelos”; a outra grande revelação, para a qual não estava ainda preparado, veio da Avó:
            ― Comunistas, o catano, o que eles são é COMODISTAS; não gostam de pegar na enxada e ir ganhar a jeira como toda a gente. Ala moleiro, que quem não trabuca, não manduca! Que me venham por cá esses emplosmeiros com as fantochadas da reforma agrária, a ver se não lhes meto o sacho nos cornipos!
Eles não sabem que o sonho
            É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
            A aldeia, que mal e mal conta um milhar de viventes, é um peculiar universo em miniatura, relíquia do Portugal d’antanho; não se escuta aqui o ratatá da metralha como em Angola, quando muito, zurra um burro ao longe e outros replicam logo a seguir; a água potável, ainda vão as mulheres buscar à bica e trazem-na em cântaros sobre rodilhas na cabeça; o sentimento predominante dos aldeões é de apreensão, quando não de reprovação aberta, à pândega lúdico-política do país depois da Revolução de Abril; e principalmente quando se fala da temida reforma agrária ― disseminou-se a crença de que o cidadão possuidor de duas vacas, por exemplo, venha a ter uma delas confiscada pelo governo...
            ― És um labrego do caraças, ó Dez-pras-Duas, não vês que isso é o socialismo? O que nos vão engrampar é com o comunismo, em que o governo fica-te mas é com as duas vacas, pá!...
            O Dez-pras-Duas tinha os pés bem abertos, como ponteiros de relógio, em vez de paralelos como todo mundo, aliás, quase todos em Quatro Montes carregam uma alcunha oriunda de características físicas, morais ou de alguma anedota da pessoa; uma forma de a comunidade reafirmar seu poder, até mesmo sobre o Registo Civil e a vontade das famílias; assim, havia a Chóia, o Merujas, a Lailai, o Saltão, o Caga-na Saquita, o Choninhas, o Caga-no-Almude, o Zé-das-Migas, a Marianinha-do-Cabaz, o Amândio-Pé-de-Chibo, a Laura-dos-Pompons, o Quico Meleiro e o inacreditável... Putaria (!); efectivamente, os apodos não eram palavras como as outras, pois que a ninguém acontecia de pronunciar a nomeada do professor da primária com risotas ou ironias, e até mesmo às crianças era permitido usar a alcunha tremenda do Sô-Psor ― logo nós, que jamais nos ocorria de andar a dizer asneiras graúdas na frente dos mais velhos.
            O Menino não tinha alcunha, compartia o título do Avô (que vinha do tempo da guerra civil) no diminutivo: Morgadinho, dizia o Quico Melo, maluco da aldeia; mas então, no recreio da escola, a palavra lhe é dita, mais que isso, cuspida na cara pelo Armindo Moncoso: “Retornado”!; escusava legenda ou explicação, nem do complemento “de merda” precisava, estava tudo dito; ómessa, que culpa tinha eu de Portugal ter aumentado dez por cento da sua população em menos de um ano, ou de ter nascido português de segunda classe?, e o coitado do meu irmão, que não dormia de medo à noite e precisava que eu lhe contasse histórias, tinha culpa?; éramos sobreviventes de um desastre mental, tínhamos sido atropelados pela marcha insana da história com H maiúsculo ― e também pela história de um povo iludido pela vã glória de mandar.
            Tirei o cinto e comecei a rodá-lo acima da cabeça; era o combinado da nossa guerra dos botões: os “turras” giravam os cintos até se acertarem mutuamente, encurtada a distância, a peleja era na mão, no chute, no arranhão, na mordida, no cuspe, embolados no chão, como fosse; o importante era não fugir da luta, não amochar, alombar sem tugir nem mugir, porque senão, era humilhação para o resto da vida; o Menino provavelmente apanhou, já que era um lingrinhas sem a vocação de amachucar os outros, mas não tinha sido desonrado, que era o que importava; o estrago, porém, estava feito: agora sabia que não ia poder fingir que pertencia àquele mundo, nem, talvez, vir a pertencer a nenhum outro; entre tragédias maiores e menores à minha volta (“retornados” sem teto, pão ou parentes, traumatizados de guerra, um tio que perdera um braço), até que o meu drama era pequeno, mas, por outro lado, este meu pequeno drama era, e ainda é, tudo que tenho.
            Acontece que aos americanos e aos ingleses não lhes interessava ter uma Cuba européia e, assim como fizeram na Itália e na América do Sul, trataram de neutralizar os comunas lusos; a modos que resolveram pressionar a favor dos “retornados” e até lhes adoçaram a boca com rebuçados, afinal, eram o contingente mais anti-esquerda disponível; foi assim que o IARN, instituto de apoio ao retorno dos nacionais, começou a distribuir pelo país todo alimentos doados pela ONU; era uma festa em Quatro Montes: na Casa do Povo distribuía-se leite em pó, embutidos, chocolates (divinos), arroz, açúcar, cereais em flocos, farinha, tudo de qualidade infinitamente superior ao que conhecíamos; o irmão do Avô, tio que havia morado também em Angola, onde tivera um comércio no Cacuaco, também lá ia retirar seus víveres; era um tipo fiche com os miúdos, um contador de anedotas sujas no café e um belo rapioqueiro com as mulheres; andava sempre atrás do gado faldriqueiro, repetia a Avó.
            ― Ê pá, devagar com o andor, não me esbodeguem as caixas... é tudo atamancado às três pancadas nesta terra; olha só o que aqui vai, leiam: Ce-as-cás, le-os-lós... Corned beef; hahaha, isto é pro corno do Bife!
            Riram ao bom rir, porém, estava armada a maca: a lata de carne moída da ONU passou a ser a lata do Bife, ou melhor, do corno do Bife; que, evidentemente, não gostou nada quando soube da pilhéria; fosse por ser corno, ou ter sido, ou porque não lhe agradava que um explorador de pretos, um “retornado” ― ainda que pertencente a família local de certa fidalguia ― andasse a falar barato de gente honesta; o Bife agora andava de navalha à cinta e dizia a quem quisesse ouvir que ia fazer a barba à barriga do Tio-Avô; este, do seu lado, respondia que, se nunca tivera medo aos terroristas das colónias, não ia ter de um patego que não entendia um trocadilho; no fim de semana seguinte iam-se os dois encontrar numa feira de animais no Toural; o Avô estava mais calado que o costume, preocupado com o irmão naquela manhã ao atrelar a Carriça, o Menino ia com ele à feira, excitação e terror compunham a expectativa do desenlace.
            Que não houve, quer dizer, houve, mas foi pacífico; os dois homens puseram-se logo de acordo, se abraçaram e foram tomar uma carraspana na adega de um amigo; juntaram-se os dois à esquina a tocar a concertina e a dançar o solidó; o Avô ainda passou lá e o Menino os viu a tomar uma ginjinha da boa.
            ― Ó seu Teixeira, que isto não são modos de se falar de um cristão... terá esquecido o engaço?, veja que aqui em Portugal há modos, e cousa e tal, não é como lá na África, onde íeis à peida das pretas, mulatas e cabritas, e ficavam-se todos nas tintas...
            ― Ó Bife, deixa-te de lérias, pá. Sabes que não te chamei de corno a ti... ao fim e ao cabo, nesta aldeia o que não falta é disso. Também pudera! Não deixais haver cá uma casa-das-primas, dá no que dá: andam todos com todos, e já não se pode dizer quem é corno e quem não é; se queres saber, o padre ainda é o mais honesto... só tem uma que eu saiba. O ser humano é o mesmo em todo lado, não é Quatro Montes, ou a África, é o país: isto aqui é e sempre foi uma putaria do carago!

            As guerras são feitas com propaganda, exércitos, soldados, batalhas, bombas e tiros, mas quem as ganha são sempre os poetas; Agostinho Neto, que ganhou a guerra em Angola, era poeta, fraquito, mas era; o Menino descobriu, ouvindo a rádio naqueles anos loucos, a força irresistível da poesia musicada; ele descobriu que a verdadeira pátria não é sequer a língua, como dizia o poeta, mas a poesia; a verdadeira pátria não está nos hinos nacionais, essas xaropadas canalhas sempre a falar de vitórias antigas, dias de glória, pavilhões sagrados, canhões, sangue e nações valentes e imortais; num belo dia de outono, o menino descobriu o verdadeiro hino nacional português, uma canção que termina assim:
            Eles não sabem nem sonham
            Que o sonho comanda a vida
            E que sempre que o homem sonha
            O mundo pula e avança
            Como bola colorida
    Entre as mãos de uma criança

domingo, 5 de agosto de 2012

O corno do Bife (parte 3)




            O professor Mortimer e o capitão Blake, da Scotland Yard, tinham ido passar algumas semanas na encantadora Ilha de São Miguel, a Ilha Verde dos Açores; uma tradição muito antiga considera-a como um dos cumes submersos de Atlântida, misterioso continente desaparecido de que fala o grande filósofo Platão; o professor e o capitão, que não tira o cachimbo da boca nem para ir à casa de banho, vivem à procura do imprevisto e de novas aventuras, por isto logo se metem a explorar as gargantas e desfiladeiros selvagens das proximidades do vale vulcânico das Furnas, dando com a entrada de uma profunda caverna na região conhecida como Forno do Diabo; assim começava o enredo do “Enigma da Atlântida” de Edgar P. Jacobs, história aos quadradinhos que tinha na capa um enxame de naves parecidas a mosquitos encarnados a fugir da Terra; assim me sentia eu, um fugitivo do planeta azul, um náufrago à deriva no Atlântico, assim passei a viver pelo resto da vida: sempre em fuga, sempre pronto a abandonar tudo e todos a qualquer hora e seguir adiante; uma vez perdido “o” lar, percebe-se que sobre a terra não existe lar, apenas hospedagem; sem pouso, nem repouso, só estadia.
            Pousamos em Portugal, aliás, no Porto; “segue sempre por bom caminho”, como dizia o Aniki Bóbó.
            Grândola, vila morena
            Terra da fraternidade
            O povo é quem mais ordena
            Dentro de ti, ó cidade
            A mui nobre, leal e invicta cidade do Porto; aqui moram tios, primos, amigos, parentes e a Avó paterna; o Menino se lembra de quando a mamã do Pai veio visitá-los em Angola e foi-lhe servido mamão: “se não precisei até hoje da papaia, não há de ser agora que a hei de experimentar”; chamam a Avó de mulher-de-armas, pois criou quatro filhos sozinha na dureza do pós-guerra depois de perder o marido para a tísica (e também, dizem, para a boêmia), ela é a senhora Directora de uma escola para meninas que abriu naquele ano para os rapazes; como o ano lectivo ainda não terminara, teria de cumprir um mês e meio antes das férias; no intervalo grande do colégio, enquanto abro a merenda, olho em volta e não vejo mais do que três gajos em todo o pátio ― jogar bola está descartado, paciência, vamos pular corda e brincar ao passa-anel pela primeira vez na vida; durante as aulas, o Menino acumula bilhetes sem assinatura contendo declarações das rapariguitas ― fartura inédita, nunca antes, nunca depois.
            ― Quero, posso e mando! ― o lema da Avó é conciso em cada palavra, verdadeiro em todas as sílabas, adamantino letra a letra; teria existido alguém capaz de a ter feito realmente abaixar a grimpa?, se calhar, nem o Marcelo Caetano, nem o próprio Salazar.
            Este último era um nome que carregava medo e fascínio e raiva e saudade; apenas um nome, mas que nunca saltava sem adjetivos da boca dos adultos: “o fascista do Salazar”, “assassino do Humberto Delgado”, ou, “respeito havia nos tempos do Salazar, não era esta pouca-vergonha”; com efeito, a metrópole mudara muito, os ventos sopravam uma brisa irresponsável, os barómetros de casinha (moça, bom tempo; rapaz, mau tempo) registavam o ar menos opresso, as passeatas a se formar espontaneamente nas esquinas, as tertúlias a brotar como cogumelos nas tascas, as cantorias, as minissaias, as bolsas de ráfia, as calças de ganga apertadas nos tomates, os saltos plataforma ― o Porto, cidade murada de ruas apertadas, de casas espremidas, de prédios unidos à ilharga e passeios estreitos, a foz bravia dos heróis do mar, capital primeira a que os mouros nunca deitaram a unha, tudo como que se tinha banhado de um colorido feérico e musical; aspirávamos inebriados o perfume efémero da liberdade, pois que ainda era tempo de cravos (“rosas em janeiro, minha rainha?”).
            Em cada esquina um amigo
            Em cada rosto igualdade
            Grândola, vila morena
            Terra da fraternidade
            Os meninos, porém, vão ficar com a família da Mãe no norte, lá na aldeia; toca a andar para Trás-os-Montes, Serra do Marão acima, e para cá do Marão, já diz o adágio, mandam os que cá estão; cá neva, mas não se esquia; cá também se fala muito de política e de muitas siglas, mas estas não parecem tão ameaçadoras como as que se ouvia em Luanda: MFA, PPD, CDS, PS, PCP, era o berda-merdas do Bochechas pra cá, o filho-da-côrta do Cunhal pra lá; tudo que consegui saber ao certo é que o Álvaro Cunhal tinha metido nos chavelhos de nos vender a Moscovo (e, Deus seja louvado, não conseguiu), quanto ao Bochechas, consta que nunca tomou a sopinha que a mamã dele tanto pedia; parecia-me ter atravessado o espelho da Alice: a metrópole era pequenina, a colónia (província ultramarina, dizia o outro), grande; Portugal era alegre e festivo, de Angola, só chegavam as notícias tristes dos combates; lá, havia uma guerra por procuração (americanos e sul-africanos do FNLA e da UNITA, contra russos e cubanos do MPLA), enquanto aqui, quase se podia apalpar a esperança; cá, construía-se uma democracia, lá, meus pais, numa cidade sitiada.
            

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O corno do Bife (parte 2)



            ― Ê pá, toca a andar, pá. Daqui pra diante é só sarilho, não viste o que fez o Corujo? Mandou embarcar quase que a empresa toda pro Algarve, aquele é que é fino!, dizem que a camionete Scania que mandou pra Lisboa não tinha nem a primeira prestação paga... E a mulher, então?, levou cosidas à fatiota e à anágua diamantes a não poder mais. Que ficas tu aqui a fazer, criatura? ― coisa rara, o Fábio falava a sério, mais um amigo a avisar inutilmente o Pai; desta vez nem contou a costumeira anedota do conhecido comum cuja mulher metia-se com Luanda inteira, e que o médico lhe havia assegurado tratar-se de uma psicopata: “pois sim, psicopata ou não, pra mim o que ela é, é uma grandessíssima psicoputa!”; riam-se sempre do fecho da anedota, mas nem ele a contou, nem se ouviam muitas risadas ultimamente.
            ― Convença o seu marido a sair o quanto antes, que o que ele tem são ilusões; mexa as quinamas menina, isto vai mas é andar pra trás. Construir um país, pois sim!, tinha a sua graça fazer um país a sério com estes matumbos... não vê como é que eles vivem sem lei nem roque, como os sobas nas cubatas fazem o que querem? As pretas nem usam cuecas, entregam-se a qualquer um, fazem a ginga-ginga às vezes a vários de uma fiada; os filhos depois, está-se a ver, uma zorraria dos infernos... não vai ter como criar os pequerruchos num lugar assim ― Eva, mulher do Fábio, também sente que é hora de partir; aquela vida de almoços na Messe, cervejas na Cuca, jantares no Mandarim e fins de semana a comer santolas e lagostas no Mussulo tinha acabado quando os combates entre os candidatos a libertadores de Angola chegaram às franjas das cidades; o que se via em Luanda era uns poucos soldados portugueses pelas ruas com as fardas desabotoadas, lafranhudos como o Che Guevara, a tresandar a cerveja e liamba.
            Nos primeiros filmes de que o Menino se lembra na vida já havia esta mesma falta de situação, o mesmo deslugar, o exílio secular da família e da raça; sim, porque agora ele tem não só uma cor, mas também uma raça: a raça errada, na hora errada e no país errado ― que agora jura que vai dar certo ―; é isto, vai ser como na história da leoa Elza: passar a vida se adaptando à savana que sempre foi sua, devolver a natureza ao bicho para readquirir alguma humanidade, porque os verbos do homem são desnaturar, desmatar, antinaturar; porque o bicho-homem é uma ausência, e não adianta subir as montanhas de Malanje: ainda quer mais de altura; pode atravessar o deserto de Namibe, e ainda vai lhe faltar solidão; pode contar cada grão de areia que o rio Kuanza lançou à Restinga, continuará impaciente; o animal gente agoniza muitas mortes por sofrer cada despedida, por sentir fome do que não existe, e é por isso que nunca há de estar em casa no mundo, ou fora dele; o Menino já conhece a metrópole (um lugar em preto e branco na sua memória), lá é frio, escuro e come-se o tempo todo, lá não é a sua casa, mas já foi dos Pais; será que vai poder andar por baixo das pontes do Porto, e morar numa rua daquelas do Aniki Bóbó?
            Nem todos fugiam, no entanto, muitos ficavam por cobiça, mangonha, medo de mudar e até falta de onde ir; mas também existia convicção: o Primo ficaria a trabalhar numa rádio revolucionária; os pais dele venderam tudo que tinham no Hucubal, um lugar bravio onde havia gorilas, corsas, panteras e tribos selvagens que caçavam o leão à catana e à flechada; vejo-o sentar-se na nossa sala, passar a mão sobre o naperon bordado que cobre o braço do maple, e anunciar aos incrédulos Pais (a Mãe é prima-irmã dele) a novidade.
            ― Nós não estamos a confundir liberdade com libertinagem... cumprir Abril é descolonizar, democratizar e desenvolver. Há uma grande nação multiétnica a nascer aqui, mas uma de verdade, não o império transcontinental do fascista do Salazar; uma nação que o povo oprimido por cinco séculos de jugo há de erguer com a dignidade da sua luta. Bem sei que achais isto loucura, pode ser, há momentos em que só pela boca dos loucos se ouvem as verdades; as revoluções são esses tempos loucos, perigosos, mas é um privilégio de poucos estar a viver, a realizar, uma revolução de verdade.
            A hora de partir se aproxima, o silêncio aumenta mais, se é que isto é possível; a aletria a sobrar no prato; o Pai a insistir para que a Mãe não lave a louça, afinal, a mulher-a-dias não está de saída da África, ele pede a ela com maus modos que pare de se comportar como se nada estivesse acontecendo; o Pai fica, leva-nos só até ao aeroporto, a Mãe volta para ele assim que nos instalar na metrópole; nada seria igual ao que tinha sido antes, ao que ainda era agora e já estava deixando de ser, sem que ao menos pudéssemos evitar; o Menino tenta ainda, coloca alma sobre as paisagens que aponta, sua memória quer aprisionar os objetos, tocar os cheiros, construir um panteão de máscaras de piedade e terror; mas os instantes fogem, escapam com a força inevitável do rio-tempo, e ensinam ao Menino que a morte é anterior a si mesma e que as crianças são como os profetas: enxergam o óbvio; enfim, embarcávamos para a Catralhamba num vôo noturno da TAP.



(fotos: Matthias Offodile)

domingo, 29 de julho de 2012

O corno do Bife (parte 1)




            Estão todos na sala, calados e constrangidos, não sabem o que dizer, não olham uns para os outros; claro, os Pais negam, mas os miúdos e a criadita já compreenderam que é a última vez que estarão ali, naquela mesa, naquela casa, naquele país que um dia pensaram que podia ser deles; e quem tinha razão era o catraio mais novo, que andava sempre a dizer que íamos todos para a Catralhamba; a Mãe fez uma aletria desastrada que insiste para que comam antes de ir para o aeroporto, a canela mal espalhada, os cabelos de anjo meio esfiapados demais, o leite talvez estragado demais, é a cacimba a dar cabo de tudo, ou talvez a guerra, que faz tudo sair do costume, que fecha o Park Miramar para o brinquedo e faz o pão chegar atrasado e as más notícias antes; e vai levando os vizinhos, os amigos, os professores, como levou a cabeleireira, o sapateiro e os colegas da escola, e faz aumentar os musseques, e traz a música monótona dos morteiros e dos tiros ao longe; o Menino nunca mais vai voltar a comer, sequer a ver, aletria sem nausear, a muitas tias vai fazer desfeita, em muitas casas fará cerimónia, porque já na massa doce do trigo ficou misturado o gosto azedo e distraído daquilo que não se compreende, apenas se vive.
            ― Olhem que perto do que está por vir, os massacres da UPA em sessenta e um vão parecer uma festa saloia... O Almirante Vermelho, este comuna de merda do Rosa Coutinho, vai levar isto aqui, conosco na boleia, à breca! ― o Doutor Cardoso não cansou de o alertar, mas o Pai tinha a cabeça dura das pacaças; achava-se mais esperto e bonito e abençoado do que os outros e custou a acreditar que o pior também acontece de vez em quando.
            ― As notícias não são boas nem de um lado, nem do outro: lá na metrópole, são maluqueiras atrás das outras desde o Vinte e Cinco de Abril, e cá... candengues ainda, já matam e esfolam, cortam mãos e orelhas à catanada por uma galinha; não digo nada se não voltarem ao canibalismo... ― a Dona Judite, esposa do Dr. Cardoso, tem muita paciência com as esquisitices da Mãe, ela, que ficou tão nervosa depois que o mais novo operou a vista na África do Sul; a Mãe é muito atirada, atravessa as falas dos outros, sai-se com assuntos pouco a propósito nas conversas, vive como se andasse no chão de gelatina da lua, onde os americanos espetaram uma bandeira antes dos russos; gasta a vida em infindáveis reuniões de entusiastas da TupperWare, um mundo de plásticos coloridos e felizes, um mundo de modistas da Prenda que copiavam os modelos das Burdas que havia em todas as casas, em que se ia ver as montras da casa Sarita; um mundo em que as mulheres fumavam e enchiam o cabelo de laca e punham lenço para andar de lambreta e usavam vestidos de estampas psicodélicas: O-bla-di-o-bla-dá...
            O Menino só sossegou depois de ver todos os livros que queria levar dentro da mala: os Tintins, os Astérix, os clássicos da Disney, as aventuras de Blake & Mortimer, a Série dos Cinco, Philemon, o náufrago do T; este era mesmo porreiro, a história de um rapaz que o barco afundava e ele ia parar no T do Oceano Atlântico... tínhamos sido despejados de uma existência pacífica para a condição de náufragos em poucos meses desde a Revolução dos Cravos; as conversas dos adultos, que o Menino escuta do alto da escada pretextando sonambulismo, deixaram de comentar os filmes de cowboiada do Trinitá, ou baixar o tom ao falar das marmeladas que fazia a Emanuelle no avião, ou das alhadas do Cantinflas, e de repente se enchem de palavras e siglas enigmáticas: Junta de Salvação Nacional, MRPP, MPLA, FNLA, UNITA, Jonas Savimbi, General Spínola, Holden Roberto, Agostinho Neto; em algumas das janelas do bairro começam a aparecer as bandeiras do Galo Negro: kwacha UNITA, kwacha Savimbi, talvez os pretos financiados por Pretória não nos deitassem ao mar.
            A rádio agora dava as listas dos desaparecidos antes da Simplesmente Maria, as aulas foram interrompidas após uma rajada de Kalashnikov destelhar a escola, a cabeça de um branco espetada num pau foi encontrada à beira da avenida lá para o lado dos Combatentes; o mundo voltava a ser em preto e branco depois de já ter sido a cores no cinema e nas fotografias, que televisão não tínhamos; o que havia era o Miramar, cinema ao ar livre com vista para o mar (já diz o nome), logo ao fim da nossa rua, a Alameda do Príncipe Real, número 14; da varanda da casa, a Criada ensinava ao Menino as cores das pessoas: aquela acolá é uma senhora (podia ser preta ou branca), lá vem um senhor (é branco), aquele lá, a descer do machimbombo, é um preto da tugi; e não se lhe metia na chipala que também ela podia ser uma pretinha do Quitexe, que nunca teve pai conhecido e que a mãe entregou para que pudesse ter comida e educação com os brancos da capital; mas agora, com a famelga massacrada pelos terroristas, também ela teria de fugir para o mundo, náufraga como nós; tínhamos ido todos para a Catralhamba, o puto estava certo.

sábado, 28 de julho de 2012

NIRVANA

A estrada é  longa.
Você vai indo,
vai tropeçando,
e vai caindo,
aos solavancos, aos solavancos.
Cai e levanta, levanta e cai.


Um belo dia
(assim, do nada)
acha uma porta
escancarada
aos cinco sentidos.


Vem o nirvana,
o tal do enlightment, 
e você agora até aninha pássaros.


Curte silêncios,
planta gerânios,
e talvez seja o abrigo
das tempestades.



domingo, 22 de julho de 2012

A mulher de algodão (epílogo)


Vida que segue. Irma tomou o ônibus de volta para o litoral; viagem que transcorreu debaixo de um céu azul sem nuvens, e mudou radicalmente na descida da serra para um fim de tarde chuvoso. Ela ainda não tem como saber, mas cada palavra da médium será confirmada ponto por ponto nas semanas seguintes. Ninguém a espera na rodoviária, o marido está fora da cidade a trabalho. Impossível pegar uma condução: os pontos dos ônibus de linha estão cheios de gente voltando para casa. Resolve ir de táxi.
Então, acontece a única coisa não prevista pela benzedeira do algodão; um dos molambos de gente da calçada se levanta e vem na sua direção.
― Irma, você ainda se lembra de mim? ― um rapaz magérrimo, um ‘nóia’, desses que vagam como zumbis pelas ruas. Mãos e cintura limpas, não está armado.
A moça encara o mendigo dentro dos olhos, o susto dando lugar pouco a pouco ao reconhecimento. ― Lembro sim, você... nós fomos vizinhos há muito tempo, como cê tá mudado...
― Irma, a gente namorou, você esqueceu? Eu fui seu primeiro namorado, e você, o meu primeiro amor...
― Verdade! Mas isso foi há muito tempo; eu era outra pessoa, e você, bem, era uma pessoa...
― Você pode me ajudar?, tem uns cara aí que me prometeram... querem me apagar ― o rapaz balançava os braços, como se desse corda em si mesmo para falar, agarrado a um cobertor exíguo que mal lhe cobria o tronco ossudo. O olhar parecia vagar a uma distância infinita dali.
Deu-lhe dez reais.
Tirou uma licença do serviço na prefeitura, onde trabalhava como técnica de informática. Precisava de tempo livre. Disse para o marido que ia visitar parentes no interior ― o que era rigorosamente verdade ―, só não lhe contou que ia conversar com a mulher que a pôs no mundo pela segunda vez em vinte e seis anos.
Potirendaba, cidadezinha com quinze mil habitantes na região de São José do Rio Preto. Todos lá conhecem a mãe dela, uma filha da elite local que mora numa casa arruinada, infestada por capim-gordura e gatos recolhidos da rua. Os vizinhos deixam-lhe pratos de comida na varanda que ela divide com os bichanos; no fim do dia, passa em um dos dois restaurantes da cidade e recolhe um marmitex para passar a noite trancada e falando alto sozinha.
― O nome dele está anotado nesse papel. Tive medo de um dia esquecer. Pode ter mudado, pode nem ser o nome certo, não sei; era um belo de um safado. Quando soube que as minhas irmãs tinham conseguido me deserdar, caiu no mundo.
Deu-lhe umas roupas velhas que tinha e seguiu caminho. Usavam praticamente o mesmo número de roupa. Percorreu diversas cidades do estado no encalço do pai, em todos os lugares, a mesma história: o sujeito vinha do nada, se amasiava com uma dona rica do local e ficava uns tempos desfrutando do bem bom. Depois, sumia de novo. Trabalho de carteira assinada parecia contra os seus princípios, dava expediente comercial em boteco. Descobriu nestas andanças tios e primos distantes, e mesmo algumas irmãs e irmãos seus, ou metade disso. Nenhum deles tinha pistas ou queria saber do fujão. Era tal e qual o chopim de que Eldenezir falara, espalhando filhos e sofrimento por onde passava. Até que perdeu a pista.
Foi quando se lembrou de uma colega de trabalho que havia passado num concurso; a moça estava lotada na Justiça Estadual e talvez pudesse acessar algum banco de dados de processos criminais. Uma hora um malaco desses dá uma falseta, não é possível ser liso sempre, pensou. As suspeitas da mãe louca (mas nem tanto) eram corretas, ele evitava usar o nome de batismo; mas, numa única vez, lavrou uma escritura com os documentos originais. Havia engabelado uma viúva dona de uma distribuidora de bebidas em Mogi das Cruzes, vendeu um terreno da coitada, e aí... fumaça. Recebeu pena mínima, o crime prescrevera há cinco anos. O registro, no entanto, ficou: estelionato.
A partir daí, o problema mudou dramaticamente de figura: do fio de informação que obteve de testemunhas da época puxou uma linha que a levava de volta para Santos, ou melhor, para a cidade em que morava a irmã dele que lhe lavava as roupas até hoje. E onde, como de costume, também tinha deixado uma cria para trás ― um filho que vinha a ser ninguém menos que seu meio-irmão e legítimo esposo! A identidade verdadeira do seu pai de mentira era uma verdadeira bomba. Uma bomba atômica capaz de arrasar toda a sua vida instantaneamente; um por um, Irma via comprometidos os alicerces daquilo por que mais lutara, a tão sonhada vida “normal”: um bom homem, filhos, casa própria, carro.
Por sorte, a ex-colega do tribunal não tinha como saber destes desdobramentos; ninguém poderia saber, esta a certeza solitária que lhe restara. O que fazer? Estava num mato sem cachorro. Toda a conversa com Eldenezir encaixava nos fatos, incluindo as materializações: o boneco mais moreno, seu marido; a boneca loira, ela. Unidos pelo pé. Horrorizada, compreendia subitamente a força animal que a arrastara para os braços daquele homem, em tudo oposto ao que escolheu para marido. O pior era pensar que não houve justiça dos homens, infernal ou divina capaz de interromper a trajetória daquele ser monstruoso. Como é que os céus tinham permitido tamanha barbaridade?
Recordou do sonho que tivera em Votuporanga e, de repente, a solução lhe veio inteira, simples, clara como água minando da pedra. Não ia deixar aquele vagabundo estragar tudo, não de novo. Comprou uma arma, o passo mais simples: tresoitão com numeração raspada. Achou o ex-namorado nas imediações da rodoviária, levou-lhe uma pedra. Esperou sentada na guia que ele a fumasse. Fez-lhe a proposta indecente: ganhava outra depois de um servicinho. Prometeu que pagaria a dívida dele com os cabeças: os bandidos não iam mais apagá-lo, e assim aquele burro poderia continuar atrás da única cenoura que ainda o fazia puxar a carroça. O rapaz desempenhou: abordou o malandro numa viela quando saía do bar, dois tiros no peito e um na cabeça. Chegou já sem vida ao PS do Ana Costa.
Fim da linha para o Zé Pilintra. O revólver, atirou-o do alto de uma ribanceira perto do rio Diana. Adeus papai, adeus sogrão, descanse na paz dos vermes da terra. Bem feitas as contas, era uma digna filha daquele filho da puta, com a diferença de que não deixaria rabo atrás de si. Pagou o trafica para ‘descer’ o nóia; menos um no mundo. Quem liga? Contabilizou seus três crimes: o aborto, o assassinato do pai e o do zumbi; concluiu que só lhe pesava mesmo o primeiro, abominação que carregaria pelo resto dos seus dias, uma alma pela qual rezava todas as noites. No mais, abriria mão de ter filhos, quem sabe convencia o marido a adotar ― por que não? Mas nada, nem ninguém, a faria desistir da paixão da sua vida. É muito difícil achar o amor verdadeiro hoje em dia.
Quando o marido chegou de noite, encontrou-a apertando um chumaço de algodão ensangüentado sobre o polegar.
― Que foi isso?
― Um corte de nada. A carne... estava fazendo a sua sopa, meu bem.

sábado, 21 de julho de 2012

Manifesto Da Da por uma multidão colorida




aproveite o dia
pode muito bem não haver nada
depois que isto acabar


não enlouqueça
da normalidade da massa


viva Da Da


você é o artista
de si mesmo

terça-feira, 17 de julho de 2012

A mulher de algodão (parte 2)



            Na manhã seguinte chegou cedo ao consultório da benzedeira. Ficou espantada com a quantidade de gente que àquelas horas moças já estava sentada nas cadeiras de plástico branco do corredor; uma espessa maioria de mulheres e idosos, algumas das pessoas com o aspecto muito doente. Fazer o quê? Outra longa espera que enfrentaria dando a volta no rosário, fazendo palavras cruzadas e sudoku. A paciência é a virtude dos fortes, dizia a frase emoldurada na parede.
            ― Sou de Nova Granada, reduto de colonização espanhola no interior de São Paulo, meu pai, franquista e católico fervoroso, no princípio, achou que eu estava mentindo quando comecei a relatar minhas primeiras visões aos quatro anos de idade. Fazia-me ajoelhar no milho para que a dor arrancasse a verdade da boca e a heresia do coração. Não adiantou: continuei a ver fumaça branca quando vinham os espíritos de luz, e fumaça preta quando baixavam os eguns trevosos. Não sendo mentira, então estava louca. Fui levada aos médicos da região, e até da capital, um depois do outro, até que, no último, veio a palavra certa: o meu caso não estava na seara da ciência, era um dom. Começaram a me chamar para ir benzer a casa das pessoas; eu ia lá e começava uma oração, enquanto rezava, o meu guia de transporte, Santo Antônio, dizia no meu ouvido: “Aqui está um trabalho de alta magia enterrado”. Os donos da casa faziam um buraco onde eu indicava, iam furando, furando, até que achavam o quebrante enterrado; de tudo vi sair da terra-mãe: tarântula atada com categute a boneco de cera, caveira com nome gravado, calcinhas negras, até um sapo pregado em cruz com foto costurada na boca... Virgem Santa, o que é a maldade humana! As materializações no algodão vieram bem depois... sabe, no começo não cobrava nada, mas isso não deu pé, passei miséria medonha, madrasta, caí na rua da amargura... Não tinha dinheiro nem pra cagar na rodoviária. Agora, minha filha, me diga: por que estou lhe contando isso tudo? Você faz idéia?
― É... não, quer dizer, acho que é porque eu nunca tinha visto... quer dizer, vindo antes, né? ― Irma não podia estar mais desconcertada com a conversa; um não sei quê no rosto alongado, nos olhinhos miúdos daquela senhora pesadamente perfumada, de sobrancelhas delineadas, cílios postiços e unhas com francesinha pink, jogando búzios enquanto falava, não batia com a líder espiritual do dia anterior.
― Então, criança, tenho setenta e um anos. Parece? Pois bem, estou há muito tempo no ramo da vidência para não ver que você está metida numa pua das grossas. Meu travesseiro é a lista telefônica, meu anjo, sei o número de todo mundo; por exemplo, aquele que tu tirou ontem na fila: não é bom, os algarismos se fecham, inquizilam. Abre o saco, Judas, despeja.
― Hmm, bem, acho que entendi o significado do que veio pra mim ontem, digo, os bonecos de bebê... (suspira) É que eu estou tentando engravidar e perdi uma criança, ainda não tinha nem dois meses...
― Certo. E o outro boneco que veio ligado nesse, é o quê?
― Um... um aborto que eu fiz, foi um erro tão grande na minha vida... ― ela não conseguiu segurar mais nada, abriu a torneira e chorou feito uma bezerra desmamada. ― Ontem sonhei... sonhei um sonho repetido que tinha de menina: eu entrava no banheiro de casa e lá havia um buraco na parede... (suspiro) pelo buraco, entravam uns homens estranhos que levavam meu pai embora; mas não era o pai que me criou, era o outro, o que nunca conheci... e eu não me sentia triste, pensava, melhor levarem ele mesmo.
― Ei, ei, calma, menina. Sua alma é tão nova e já apanhou tanto... não caia nesse angu de caroço; um erro não perde você se tiver fé e se apegar no caminho do bem, das boas obras. Estou vendo também um pássaro chopim rondando você, sabe?, aquele que bota ovo nos ninhos dos outros.
― É que... é que... ai, Jesus Misericordioso há de me perdoar, esse aborto eu fiz grávida do pai de meu marido... sniff, meu sogro é um homem muito do sem vergonha, vive às custas de uma mulher, enquanto passa o rodo em todas as amigas dela, é o capeta! Foi um momento de fraqueza, lhe juro, aquele filho de rapariga é um baita de um papo-doce, caí como uma troncha... mas, a real é que amo o meu marido, ele é um homem como nunca encontrei nem encontrarei na vida, amor verdadeiro... não sei o que me deu...
― Veja bem, quando há macho femeeiro e comedor na história, aparece o Zé Pilintra, em vez de pássaro-cuco. Entenda, não é que isso que você tá me contando já não seja grave o bastante, mas tem algo que não ‘orna’ nesse bololô: quando o caso é de aborto, materializa boneco de bebê; os seus não são. Além disso, dá pra ver que um é homem, mais escurinho, e o outro mulher, loira como você. Outra coisa: estavam amarrados pelo pé...
― Não sei, já não sei de mais nada, nada... tô perdidinha. Não será melhor viver feliz na ignorância? Tem coisas que a gente descobre, e depois já não é mais a mesma... viramos outra pessoa, uma pessoa com uma verdade, e a verdade cria novas solidões.
― Pera lá, pera lá, os meus guias de cabeça tão aqui segredando que você é adotada. Procede?
― Sou sim, meus pais nunca esconderam. Quando fiz dezesseis anos quis... fui lá conhecer minha mãe biológica, fui lá conversar com ela... me contou que o homem dela fugiu quando engravidou, por isso me entregou pra adoção. Daí, não fui mais atrás; quanto mais se mexe em merda, mais fede. E também, já sabia o que precisava.
― Santa Madre, menina, tanto a aprender e tanto por viver... Muitas encarnações pela frente. Às vezes, as aperturas neste plano vêm do tempo que foi, de outras vidas, do lixo cármico que a gente acumulou em outras encadernações... mas, no teu caso, parece que o atraso vem desta passagem mesmo. Você sabe pouco de onde veio pra saber aonde vai.
― Mas que passado é esse que impede o meu futuro? A senhora tá me dizendo para ir atrás... do meu pai de sangue?
― E por que não? Não é nada, não é nada, já é alguma coisa. Vai a gente saber de onde nos vem o enganche... Trabalho de magia é fácil de desfazer, difícil é o que vem da mente, do coração e da língua. Vai com Deus, minha filha.
A consulta terminara. Eldenezir e Irma, cada qual por motivos diferentes, sentiam um vago desassossego.

(desenho: Bruno Urbanavicius, 2012)

sábado, 14 de julho de 2012

A mulher de algodão (parte 1)




            Seguindo religiosamente a ordem das senhas retiradas horas antes, as pessoas se levantam dos bancos de madeira pintada de verde em silêncio e se aproximam do altar. Ninguém conseguiu até hoje explicar o mistério das “materializações” que estão prestes a acontecer diante de todos. A pequena multidão de oitenta consulentes vai se aglomerando num círculo irregular a meio metro do patamar de alvenaria onde fica o altar inusual: um tanque raso, uma cadeira de tira de plástico e uma mesinha com as imagens de Santo Antônio de Pádua, Nossa Senhora do Rosário, Iemanjá e Arádia, alta sacerdotisa da Antiga Religião.
            Carregam na mão, uma, duas, até quinze sacolas de plástico ― dessas há pouco banidas dos supermercados ―, que levarão para casa as materializações; no momento, porém, as sacolinhas contêm apenas algodão em rama e custaram dez reais cada no caixa da Casa Luz da Aurora. Após nova chamada, os romeiros sobem um a um o patamar e acercam-se do tanque de noventa centímetros de diâmetro para desfiar o algodão sobre a água; a superfície fica parecendo um lago juncado de improváveis icebergs, graças à grelha de arame acoplada na borda que mantém os chumaços à tona. O filho mais velho da médium (ela tem dez, seis de sangue e quatro adotivos) rega o algodão com água de mangueira e álcool benzido.
            O sol do começo da tarde derrama sua luz cálida através da porta por onde todos hão de sair, carregando nos braços as suas desgraças; por enquanto, no salão de paredes cobertas de frases motivacionais os presentes estão hipnotizados por aquela mulher de longos cabelos liso-acinzentados totalmente vestida de branco. É segunda feira, o dia consagrado aos que sofrem de problemas familiares, Eldenezir Munhoz dirige algumas palavras de boas vindas ao público, emenda um pai-nosso numa salve-rainha e entra em transe profundo. No momento em que mergulha os braços na maçaroca branca, um frêmito sacode a platéia; o murmúrio se eleva, ressoando no teto de telhas de amianto.
            No rosto da vidente transparece uma mescla de compenetração e cansaço, afinal, este é o seu trabalho há mais de cinco décadas. Eldenezir, conhecida como a “benzedeira do algodão”, a “médium do algodão”, faz surgir do tanquinho circular uma cornucópia de objetos que dão forma aos maus pensamentos, energias ruins e magia negra que todos acumularam ao longo da vida. Ela crava as mãos na pasta que se adensa, molha-se, macula as vestes alvas diante dos olhos atônitos dos espectadores; vai puxando de lá ossos de animais, cacos de vidro, fivelas, bricabraques, panelas, velas coloridas, frascos de perfume, peças íntimas, sapatos, bonecos de cera de pombas-gira, caveiras e exus de todas as estirpes.
            As mãos vão e vêm, ela faz força; como um escultor que enfrentasse gigantesco bloco de pedra, os braços parecem lutar para desentranhar a forma do informe, a matéria dura das felpas pardas. Em menos de meia hora retira dali mais de cem objetos: uma seleção bizarra que resume as dores, as perdas, as separações, as traíragens e as angústias que rapinam a alma dos sofredores. O descosido exército de trastes vai sendo jogado displicentemente por Eldenezir sobre folhas de jornal dispostas na mesa do altar; um outro ajudante-filho as embrulha e acondiciona para a viagem de volta. Com a sacola cheia de suas maldições, o consulente se retira pela porta lateral ― a mesma por onde entra o sol, que agora já arrefece seus raios.
            Irma aguarda receosa a sua vez; agora que está quase chegando o número da senha que tem na mão, hesita. Sente vontade de sair correndo dali, que se dane, já não lhe importa desperdiçar a longa viagem de ônibus desde Santos até Votuporanga, não quer mais saber; quer as respostas menos do que teme obtê-las. Procura distrair-se ouvindo a conversa  de um casal que conheceu na fila.
            ― Senti alívio na hora, é impressionante! Foi como se tirasse um peso de dentro ― ele carrega um osso enorme, talvez de boi, o que significa dificuldades em tudo que realiza.
            ― A gente só leva toba no dia a dia, tudo quase parando, problema financeiro. Aqui a gente ganha um encorajamento, e tem já que vai dar certo, vencer ― a mulher recebeu uma corrente, sinal de que a vida está amarrada.
            Irma se recolhe dentro de si, e é então que nasce a sua materialização. Enquanto desfiava as ramas sobre o tanque, evocara antigas sensações: o frio nevoso da serra, a sombra voadora dos pássaros, os perfumes do mato dormindo, que se juntam na brisa por um breve instante e pousam na água. Cada fibra do algodão se desprendia das suas mãos fazendo vibrar as outras coisas à sua volta, como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, contra a nossa ignorância sobre aquilo de que somos feitos.
            O veredicto da médium é de que deve ficar para uma consulta individual no dia seguinte. Vai lhe custar mais cento e vinte pilas, fora a hospedagem numa pensão. Eldenezir fez questão de não esconder a preocupação com o que saiu para Irma.
           
            

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Rosa faz anos (epílogo)



            Manda para baixo uma boa talagada da pinga esquisitona. A zonzeira danada lhe sobe quase instantaneamente, despenca de cara no tampo da mesa. Quando volta a conseguir erguer meio rosto e olhar em torno, descobre que não está mais na cozinha; endireita-se como pode no que parece ser uma carteira escolar, solitária na saleta abafada de paredes encardidas. Diante dela, sobre um estrado muito precário, de ripas soltas e podres, e com pregos perigosamente expostos, há uma mesa com pastas de arquivo, fitas cassete e fotos espalhadas.
Três homenzinhos minúsculos consultam os papéis e as fotos, fazem caretas e comentários em surdina entre si, põem e tiram freneticamente os óculos pequenos das carantonhas enormes. Vestem uma bata azul excessivamente apertada nos corpinhos gorduchos, o que ajuda a tornar ainda mais ridículos seus movimentos nervosos, e seriam absolutamente idênticos não fosse pelos penteados ― ocorre-lhe que parecem uma pantomima lamentável dos Três Patetas, exceto pelo carequinha que usa um barrete.
― Eh, bem, vamos iniciar o caso da senhora Rosa Maria Nonato de Sousa, 50 anos, que vem tendo pensamentos de auto-eliminação há seis meses... ― começou, como se estivesse lendo, o anãozinho de cabelos espetados em todas as direções.
― ... é nosso dever preveni-la de que esta é a derradeira instância, e que não caberá recurso, portanto, toda decisão tomada aqui... ― o de cabelo preto cortado em cuia prosseguiu do ponto onde o outro pausou, como num jogral.
― É, é isso mesmo: não é porque a sua vida está uma merda, que você vai se matar assim, sem mais... Temos informações precisas de que a senhora fala durante o sono: “Esta vida para quê?”; seu marido nunca escuta porque está sempre pra lá de Marrakesh quando deita ao seu lado... ― o da barretina nem bem acabou de falar, e os outros dois já o apostrofavam com cala-bocas e o cobriam de saraivadas de tabefes. Estabeleceu-se a confusão.
― Ei, ei, querem parar? Podem ao menos me explicar que lugar é este, quem são vocês e o que estamos fazendo? Parem de bater um no outro, já! Vamos, isso não são modos...
― Isso mesmo ― queixou-se o careca, enquanto descia do estrado para buscar o boné caído na confusão ―, vocês sabem muito bem que pra código 13 tem de haver três de nós, não adianta me mandar embora!
― Código 13?...
― É quando a ocorrência envolve tra-la-lás como você, que escolhem sair da sala antes de bater o sinal ― desta vez o máquina-zero não apanhou, mas ganhou olhares de ódio dos outros integrantes da mesa.
― O que esse débil mental quis dizer é que a senhora não passou para o lado de cá, isto é, não inteiramente, ainda há tempo de voltar para trás, retornar para os seus...
― Rosa, nós somos Assessores de Deus, ajudantes do Taumaturgo que criou os céus e a Terra, que lhe presenteou o mais precioso dos dons...
― Sei, com que então não morri, e isto não é o Inferno? ― à menção desta última palavra, um arrepio simultâneo percorreu os corpinhos dos seus interlocutores.
― Oh não, nada disso, não somos servidores de Semihazah, esse maldito entre os malditos, cujo único objetivo é destruir a Criação, obra magna do nosso Mestre.
            ― Estamos aqui para tentar convencê-la a desistir de morrer antes da hora, a seguir em frente... não há outro jogo Rosa: é estar na vida, boa ou ruim, ou nada...
            ― Azazel é que fez os homens acreditarem nessa patranha de vida após a morte, de castigos e recompensas futuras, como se vocês fossem os cachorrinhos de Pavlov que realmente são. Vamos abrir o jogo de uma vez: seu marido é um bosta; seu filho, que está passando cada objeto da casa nos cobres, vai se acabar no crack; sua filha, cérebro de ostra, vai embarrigar dos homens mais inúteis que encontrar... E quem vai cuidar ‘do’ lojinha?
            ― Quer dizer que eu só sirvo para cuidar dos outros? Vocês estão me dizendo que é o Tisnado que anda pondo idéias na minha cabeça?
            ― Claro! A destruição pode até criar uma coisinha ou outra, mas, em algum momento, sempre se volta contra a matéria viva. Porque acha que estamos sempre pressionando contra a pesquisa com células-tronco, o divórcio, a camisinha, o aborto? Não nos importa se o pato é macho, desde que bote ovo...
            ― O seu pensamento de há pouco estava errado: quem mais precisa de você hoje, é o Wanderson. Só ele interessa. Agüenta mais uns dez, quinze aninhos, que custa?
            ― Outra coisa, afaste-se da grande arte, ela põe muita merda na cabeça de pessoas até mais preparadas que você. Artistas têm essa mania de rivalizar com o Taumaturgo; é preciso que a Arte fique em seu lugar: as pessoas comuns podem sentir que há ali luz e trevas, mas nunca devem saber o que é o quê. Como isso foi acontecer com você Rosa, não sabemos; não teve educação, cuidado, carinho, nem outros meios, mas chegou a esse conhecimento.
            ― Tá certo, entendi. Mas é que, queria me encontrar com Deus antes de ir, posso? Um professor lá no museu disse que Ele estava morto...
            ― Er, veja, não vai dar... talvez não agüente a visão direta da Sua grandeza...
            ― Hmm, além disso, Ele está sempre muito ocupado com o Cosmos, você nem imagina a trabalheira que dá...
            ― E também, nega, o Velho tá muito é gagá; você imagine, tem uma eternidade de anos... Já não lembra de porra nenhuma, coitado; quem faz tudo s...
            Aí começou uma barafunda terrível: os dois anõezinhos com cabelos se atiraram sobre o do barrete aos xingos, muquetões, cuspidas e gritos; Rosa teve imensa dificuldade em tirá-los de cima do pobre-diabo. Quase o esganavam.
            ― Bom, já vou indo. Foi um pouco decepcionante saber que Deus já não se lembra de nós, Seus filhos; mas eu também já tinha me esquecido da razão de viver... Como vou fazer para continuar, sabendo o que sei agora?
            ―Não haverá problemas: tudo que vai sobrar na sua memória será um sonho desconexo e estranho; uma história que algo em você contou, mas que se recusará a entender.
Rosa abre bem os olhos, e ainda um pouco tonta, recompõe sua figura enquanto comprova que tudo continua igual na sua cozinha e na sua existência. Sabe, como o holandês lhe ensinou, que a tristeza durará para sempre; mas já não ouve mais o flautim, e as cores do mundo voltaram à imobilidade habitual: tudo na mais perfeita e triste ordem. Talvez seja melhor assim, voltar para a sua rotina grisalha e amorfa, voltar para este país maravilhoso e sem propósito, cruel e macio chamado realidade de todos os dias ― em outras palavras, contentar-se com o que tem para hoje.
Nunca mais voltou a conversar com o menino azul.

terça-feira, 3 de julho de 2012

como não se tornar um conformista mimado (ou retardar a chegada do Alemão)



como já dizia Gordon Gekko:
amadurecer
não é pra mariquinhas!

rebeldia
iniciativa
responsabilidade pessoal
vivência de extremos
estão sendo afastados de nossas vidas
em nome da “gestão de ricos”
oops, de riscos

vamos lá, coragem
afinal
estamos na era das listas:

deixe seus desejos respirarem
observe com paciência
olhe além da próxima esquina
confie no alvoroço da intuição
escute o murmúrio do Universo
libere a sua imaginação
entregue-se ao poder das emoções esquisitas
siga a bússola do seu coração

esse demolidor da sabedoria convencional
rume a passos firmes e medrosos

para o desconhecido

domingo, 1 de julho de 2012

Rosa faz anos (parte 3)



Está na febre de andar. O café forte lhe caiu bem, certamente melhor do que cairia a água sanitária. Sente correr o sangue do corpo e da alma, a euforia dos condenados libertos na hora fatal por uma clemência do rei. Em todo caso teria de sair: na despensa faltavam ovos, farinha de trigo e fermento para o bolo. Resolve evitar a mercearia próxima, a da bruaca, mas neste dia nevoento não se importa muito de dar uma volta maior; tem horas de solidão a preencher antes da hora de ir buscar o menino. Vá alguém saber a quantas da noite o marido volta, a filha, esquece, não vem nem para visitar o próprio filho; mudou de mala e cuia para o muquifo do seu futuro ex, o produtor-funkeiro-DJ. Recebe um SMS no celular, o caçula, pedindo dinheiro. Avisa que vem amanhã pegar ― menos um que lembrou. Só o Neno lhe ligou de manhãzinha.
            O dia até que estaria lindo, se não estivesse tão fechado. Vai cantar um parabéns sozinha com o neto, deixá-lo soprar as velinhas e dormir antes do marido chegar. É uma vida simples e bela, a sua. Rosa só precisa aprender a gostar dela. Só tem que aprender a gostar das ruas de terra deste bairro que se espraia num mar de morros a perder de vista, com as mesmas casas sem reboco, os mesmos moleques empinando pipa, as mesmas ladeiras crivadas de bares, borracheiros, templos e salões de beleza; talvez necessite apenas de um esforço extra para achar graça nesta gambiarra de lugar cortado por uma estradinha de mão dupla onde circulam os ônibus de linha.
            Uma van passa no pinote doido assustando os passantes; um galo canta nos arredores, e ela não consegue se impedir de imaginar uma solução limpa: atropelamento e fuga, os parentes sendo avisados pelo hospital, enterro em caixão fechado ― evitaria assim passar adiante o estigma da sua dor, a família não ficaria marcada. Golpe de fineza e habilidade supremas: imitar as artes inimitáveis do acaso. Uma pancada seca, e pronto!, já não vai mais acordar todos os dias com o peito pesando feito chumbo, movendo-se feito um fantoche, tateando no vazio insípido da sua vida incolor.
            No momento, porém, esse vazio recobra um ligeiro tom de cinza, como o do dia. Rosa caminha de um passo vivo e acelerado, ainda quer alcançar a liberdade, conserva intacta a audácia do jogo, mas logo se dá conta de que o filho precisa muito dela, ainda mais que o marido, e que esta, sim, é uma verdadeira razão para continuar vivendo e para dizer a si mesma que continuaria viva, muito viva. Se ainda houver quem precise dela, ela dirá ao povo que fica.
            Reparou em um homem que cambaleava poucos passos à sua frente; apesar de ter parado de chover, ele continuava com a cabeça embuçada pelo capuz da gandola e as mãos enterradas nos bolsos. A uma hora dessas e já tomou tinguá pra uma semana, pensou. De repente o homem executou uma trôpega meia volta e veio na direção dela. Então o reconheceu e se tranqüilizou, era um pau-d´água da quebrada, já o havia visto muitas vezes; vivia zanzando pelo bairro, falando sozinho e chorando pelos cantos dos bares.
            ― Boa noite ― disse o homem, com graciosa e surpreendente amabilidade.
            ― Quer dizer, bom dia ― ela respondeu.
            ― E quem Deus me manda avisar? Logo a senhora que sabe muito bem que só existe a noite, a escuridão. Durante o dia, só acontece uma única história debaixo do sol. E todos a repetem. Acha que eu sou um bêbado, mas também precisa se afastar de uma garrafa lá na sua cozinha, não é? Tome, basta um gole se quiser morrer de uma vez e para sempre ― sem mais palavra, ele sacou do bolso uma garrafada de pinga curtida em cobra com rolha de lacre, e a colocou no bolso do casaco da atônita aniversariante. Em seguida, embiocou por uma ruazinha lateral, sumindo depois de atravessar a pinguela sobre o córrego de esgoto.
            Voltou para casa sem comprar os ingredientes. Nem tentou seguir o vagabundo, estava por demais atarantada com o episódio todo, com os estranhos modos e os termos com que se dirigiu a ela. Sentou-se novamente à mesa da cozinha. Tirou a botelha com o líquido amarelento do bolso e a examinou; o cheiro era de cana, a cobra lá dentro, uma coral. Logo a alegria de estar sozinha passou e deu lugar na indecisa Rosa ao sentimento contrário, um profundo abatimento por aquela terrível solidão que a casa oferecia. A flauta encantadora tocando ao longe.
            O céu estava esbranquiçado, invadido por um verniz opaco, assim como em sua memória uma brancura opaca ia apagando a lembrança das sensações vividas na conversa de há pouco com o boêmio. Decide testar a sorte: se for só pinga, talvez clareie as idéias, como dizem que o álcool faz com os produtos da cabeça; se for veneno, vai viajar para aquele outro mundo, longínquo e sedutor, no qual vivem o filho do carteiro e o pintor suicida, que é apaixonado por ela.