quarta-feira, 19 de setembro de 2012

defeitos são efeitos (especiais)



o coração que age
é a coragem
de uma outra inteligência
força geradora
viva
generosa
lúdica
perversa

há quem se mova nesta força
na inteireza do feminino
no diálogo de portas semi
cerradas

daqui para a frente o padrão
é a instabilidade
e será preciso engolir o divino
na simplicidade

sentir se atravessado
por novas
pontes

a maçaroca da vida
onde a jornada tece
atraso e mudança

a lembrança do salgado
não é só luz e linha
reta

o que move os heróis
e o que os desvia?

o canto revela a alma
                        revela
                        o canto

sábado, 15 de setembro de 2012

a casa das mil portas (parte final)



            Às vezes tenho a nítida sensação de que não chego realmente a conversar com a minha mãe, é curioso, não consigo lembrar sobre o que eu e ela falamos o dia todo, todos os dias ― e é certo que alguma coisa devemos falar, nem que seja sobre o que está faltando na despensa ―; bem, de qualquer maneira, não deixamos de ser uma família que cultiva uma grande arte: a arte de desconversar. Desconversamos sobre tudo e qualquer coisa, principalmente acerca do que não se pode calar. Não vou aqui negar que careça de argumentos (ela os tem, e como!), nem que lhe falte um certo humor farsante; aliás, para ser inteiramente justa neste relato, devo acrescentar uma anedota ilustrativa das pequenas diversões que a personalidade peculiar de mamãe proporciona à nossa rotina.
            Até porque, venho concluindo ultimamente, a minha família não é muito diferente das outras, só a coisa em casa é um tantico mais arreganhada. Há uma questão a respeito da qual parei de alimentar fantasias: aqui ou alhures, na casa ou na rua, é a mesma chanchada que rege homens e mulheres; o que chama a atenção é que ainda sejam tão poucos os que dão a bofetada no seio da massa que oferece a outra face. Os ‘maus’ agem, e os ‘bons’ não reagem ― a não ser quando se tornam maus. Talvez seja mais prático viver por procuração. E assim caminha a humanidade, Urbi et Orbi.
            Era uma daquelas tardes abafadas de um sábado caduco, estávamos na varanda de casa apreciando o movimento da rua ― que não é de grande interesse, porque os moradores deste bairro parecem se deslocar unicamente dentro de carros indevassáveis para quem está de fora, e suas vidas exalam asseio, sucesso e adequação. Entre uma cusparada e outra dos impropérios costumeiros que a minha genitora dedica aos exemplares da sociedade disponíveis, sem que nos déssemos conta, parou uma mulher no portão de casa. Usava roupas simples mas elegantes, tinha presença, a idade era indefinível a um exame sumário, digamos que estaria entre eu e a minha mãe. Nunca a tinha visto nem mais gorda, nem mais magra.
            ― Aqui é o número 115?
            ― Está aí do lado do portão, se recuar um pouco e souber ler, vai descobrir; e se aproveitar pra seguir seu caminho, melhor ainda ― a mãe sabe como poucos deixar alguém desconfortável no mais alto grau; sem ser uma faladora habitual, possui uma habilidade natural para a retórica de guerrilha. Além disso, tem seus momentos.
            ― É que... precisava falar com a senhora...
            ― Moça, religião já tenho, e compras eu mesma faço na loja.
            ― Não, não é isso... é que, hmm, a conversa tem de ser mesmo particular.
            ― Particular mesmo, aqui, só a propriedade. Se não puder explicar, daí, o que quer, já lhe disse: a calçada é excelente para a senhora continuar seu passeio.
            ― A senhora não me conhece, mas eu sou da sua família... quer dizer, distante... veja, o assunto é muito delicado para lhe falar assim, da rua...
            ― Ah bom, mas por que não falou isso antes? Se é da família, então a coisa muda de figura... mas é que, sabe o quê?, gente velha desconfia de tudo mesmo, veja só: estava ainda agorinha preocupada com uma desconhecida mesmo querendo entrar na minha casa... tu tá me achando com cara de panhonha, é menina?
― Nossa, a senhora está levando tudo pro outro lado... Pelo amor que tem a Deus, me escute, eu preciso muito da sua ajuda...
― Hum, agora você conseguiu, começou a me fazer acreditar em você, família é sempre essa água: quando aparece sem avisar, com certeza é pra pedir alguma coisa! Olhe em volta ― e apontava as paredes de reboco descascado, a nespereira xexelenta, a balaustrada e o jardinzinho da frente tomados por capim-gordura ―, não sobrou muito, né?
― Só espero que tenha sobrado um pouco de boa vontade...
― Que é que você quer dizer?
― ...(suspiro) a Maria Eduarda... minha filha, precisa de um transplante... de medula, virei mundos e fundos, paguei investigador, e vim lhe procurar, não pra amolar, nem para ter direito a nada...
― Pera, pera, pera aí, direito? Direito a quê, tenha a bondade de me explicar...
― A senhora não vai me deixar entrar? Por favor, falo aí onde está, assim, na calçada, não... Buf, acredito que... que uma de vocês duas tem grande chance de ser a doadora...
― Certo então, porque a sua tia torta foi casada com o contraparente da família da terceira sogra do meu avô, você acha que tenho que dar um pedaço de mim... para a sua filha?
― A sua neta! Minha filha é sua neta, por caridade, eu não queria lhe contar dessa maneira: você, a senhora, é a minha mãe de sangue... um rapaz, há muito tempo, Antônio Nunes se chamava; foi engravidar adolescente, e ainda naquela época... Nunca quis lhe conhecer, não tive essa curiosidade, não sei, estava em paz até minha filha adoecer. Estou sendo transparente: você não me abortou, e lhe agradeço; você me deu, não a culpo, fui bem criada; sei que para a senhora sou uma completa estranha vinda do nada, mas agora preciso tanto, lhe suplico... é a minha menina!
―...
― Desculpe... não era minha intenção...
― Você fique aqui ― disse para mim, e então, começou com a outra ― Você aí, isso, vá entrando no portãozinho... me espere bem aí.
Antes que eu piscasse, aconteceu: ela tirou toda a roupa e abalou-se na direção da mulher, que, a esta altura, se detivera estupidificada no meio do caminho. Uma máscara lasciva tomava-lhe o rosto, que mal podia ser reconhecido sob a cabeleira de loba e os requebrados selvagens ― uma senhora que usava andador para ir à missa! A cantilena gutural que lhe saía das entranhas, inarticulada e melódica como a das carpideiras mouras, nem era o mais impressionante, fiquei abismada foi com o tamanho que ela havia adquirido: minha mãe estava enorme, sacolejante como uma daquelas hipopótamas do Fantasia; e esfregava-se na outra, passava a língua, dizia-lhe coisas no ouvido, roçava nela as partes e as tetas pendentes, enquanto executava desajeitadamente os passos da sua dança canhestra.
A moça fugiu dali correndo e não voltou mais.
Pena, podia ter vindo me ajudar a cuidar da velha; este meu ramerrão é muito igual, dividindo com mais alguém, quem sabe, me sobraria algum tempo para o lazer. Dar uma saidinha é bom de vez em quando.

domingo, 9 de setembro de 2012

a casa das mil portas (parte 2)


Aquilo me pegou no meio. Como essa mulher sabe despejar veneno bem em cima do nervo, escolhe vibrar precisamente, dentre as fibras do sensível, a corda que mais dói! Plenamente consciente, enfiava o dardo na chaga aberta, a ferida que não fecha, e o pior, referia-se a um fato inquestionável. Sou maninha feito galho seco, ramo que engruvinha a flor e sonega o fruto — é só o que posso concluir a esta altura: fui para a cama com todos os homens que pude sem tomar nenhum cuidado e nunca engravidei. Agora, que já desisti tanto do sexo como do amor, desconfio se a minha esterilidade não terá sido um contrapeso à indecente arquitetura da casa, uma forma de frear a expansão infinita destas paredes, de impedir que a melancolia entranhada nelas inunde o universo com sua água negra.

Até o nosso nome deixará de se perpetuar: meu irmão optou por usar, nele e nos filhos, o da família da mulher — dizer que a lei passou a permitir tais e tantos absurdos. No dia em que minha mãe soube disso, quebrou um dente de nervoso. Para mim tanto se me dá, mas gente de idade não pensa assim; acho que começam a pensar no futuro, justamente a única coisa que ninguém controla.

Há certas coisas que a gente precisa ganhar o mundão para entender acerca daquele mundinho de onde viemos, por exemplo, certa vez fui parar em Mato Grosso por conta de um companheiro da época e vimos um descampado coberto de cupinzeiros imensos, murundus que pareciam chaminés do inferno brotando da terra gasta.

— Isto aqui é terra perdida, essa bicharada nem adianta combater.

— Mas não dá pra jogar veneno?...

— Não adianta. Tem de matar a fêmea, e achar o lugarzinho que a bicha se acoita não é fácil. Enquanto não pegar a rainha eles reconstroem tudo rapidinho, a diaba fica lá, botando milhões de ovos por dia e os outros roendo tudo que é barro, pau, restolho... uma começão danada!

Entendi de repente que vivia num termiteiro, que aqueles quartos que surgiam atrás das portas de casa, eram as antecâmaras de uma torroada construída de muco e detritos, argamassada com a baba de horrores proveniente daquela mulher magoada e feroz. Minha mãe. No dia do enterro do meu pai, voltamos as duas do cemitério, cansadas e sozinhas. Um chuvisco interrompido castigava a tarde escura; poucos parentes distantes tinham comparecido à cerimônia, mas ninguém se aproximara muito da viúva ou da filha do falecido. Meu irmão, para variar, viajando, enviou uma coroa de flores. Ela foi descansar um pouco no quarto que há muito deixara de ser do casal.

Não era normal o que se passava comigo, sentia-me completamente desperta, febril, com uma espécie perigosa de lucidez nos pensamentos e a energia impaciente de quem tem uma tarefa inadiável para realizar. Sem compreender direito o que fazia, dirigi-me ao quarto que o morto havia ocupado nos últimos anos; o mesmo em que havia sido velado, conforme a vontade da família e contra a vontade da funerária. Abri a gaveta. Procurei o estojo de munição. Carreguei o tambor da arma com as balas. Só lembro nitidamente do êxtase que me preenchia a alma, atravessei o corredor a toda pressa, nem sei se entrei ou não com cautela; era como se o chão ondeasse e eu flutuasse na corrente turbulenta de um rio.

Aproximei-me sem rodeios e sentei numa cadeira ao lado da cama; ela deitara vestida sobre as cobertas, apenas tirando os sapatos, não parecia dormir realmente, a respiração superficial de quem apenas cochila. Inclinei a cabeça, quase encostando meu rosto no dela. Ficamos assim por um longo hiato, podia sentir a aragem leve do seu hálito na minha face. Ali estávamos, cara a cara como sempre estivemos, e ela não queria me ver, como sempre. Engatilhei o revólver e encostei-lhe o cano no centro da testa acima dos olhos. Tive a certeza de que estava acordada.

            Um movimento convulsivo, independente da vontade, sacudiu-a: a boca se contraiu; um sorriso atravessou-lhe brevemente o rosto, mas, rapidamente, a comissura dos lábios tornou a vincar o costumeiro esgar de sarcasmo. Ela sabia de tudo, e esperava, talvez estivesse esperando por isso o tempo todo! O silêncio continuava, passeei o aço frio do cano pelas têmporas até chegar na raiz dos cabelos, como se um momento de ternura não pudesse faltar numa execução digna desse nome. Um torvelinho de ideias e sensações desencontradas varria o meu cérebro, e eu descobria, com toda a força do meu ser, que entre nós duas se travava um duelo de vida ou morte, o qual havia chegado ao capítulo final. Luta tremenda e equivocada que consumira a melhor parte da vida de nós duas.

            A minha mão começou a tremer. A obviedade do desfecho de repente dissolveu as certezas que me inflavam; um assassinato é sempre tão inevitável quanto inútil, tudo está no momento — e o nosso momento havia passado. De que adiantaria, então, puxar o gatilho, lutar, correr, sorrir, chorar, ganhar... ganhar o quê, se tudo o que importa já foi perdido?

            Ambas perdêramos, e agora sabíamos disso.

            Jamais falamos do acontecido; como seria de se esperar, ela reconheceu sem dar o braço a torcer: o trabuco deixou a gaveta e hoje descansa dia e noite sobre a sua mesinha de cabeceira. Carregado.

           

domingo, 2 de setembro de 2012

a casa das mil portas (parte 1)




            Esta é uma casa pequena, térrea, espremida num daqueles terrenos-lingüiça de pouco espaço interno e externo, mas acredito que nunca acabarei de conhecer cada um dos cômodos que há nela. Na verdade, jamais deixei inteiramente de viver aqui desde que vim ao mundo, mas também nunca deixei de tentar escapar desta ratoeira desde que nasci; nesta última vez, voltei para cá em meio às árvores já floridas, com a nespereira do quintal zumbindo de abelhas e na rua os ipês sem folhas exibindo seu ouro invernal. O céu está tão azul, o ar seco tão cheio de luz dourada, que os olhos, acostumados à descolorida penumbra do interior, parecem cegados pelo esplendor de uma demasiado feliz, quase insuportável, intensidade, como os de um caburé surpreendido pelos raios do amanhecer, bate as pálpebras e procura, aflito, seu velho campanário.
            Da varanda avisto ruas baldias e escuras que são menos solitárias que a minha vida, mas que ainda possuem um encanto, uma harmonia arqueológica, conservada ou reencontrada, a contrastar com o empalidecimento silencioso deste interior fechado às pessoas e silencioso à fraternidade, sem roupas no varal debaixo do sol, convivendo diariamente com a pedra dura das palavras da minha mãe, palavras que fatiam o compacto do mundo, o real da existência ― e o fio da esperança. Em todo canto que a vista alcança ressurge a impressão de uma antiga cidade que não existe mais, substituída por esta outra abstrata, suntuosa e frenética vitrine de marionetes angustiadas; cada passante parece um morto-vivo, sobrevivente solitário após um surto de peste; por todo lado constroem-se reluzentes prédios de cristal e aço, as galerias rebrilham, as lojas regurgitam: todos são heróis, todos estão no mostruário, entediados protagonistas de suas frágeis ou férreas teias sociais.
            Não sei como explicar de outra maneira: as portas da casa dos meus pais abrem sempre para um quarto novo, e neste outro, até então desconhecido, cômodo há uma nova porta, que abre para mais um quarto com uma porta, e assim por diante até enlouquecer; não saberia dizer se há um limite, o que posso garantir é que são quartos e portas comuns, como os de uma outra casa qualquer deste bairro comum; aliás, como eram as casas deste lugar antes que a cidade tivesse engolido o bairro inteiro e vomitado impressionantes boulevards de compras, serviços, templos e condomínios fechados ― só este pequeno quisto proliferante de habitação sobreviveu entre dois edifícios multiuso de alto padrão; a vida foi para um lado, e ficamos eu e a minha mãe anquilosada do outro, teimosas e lastimáveis relíquias de uma extinta era geológica, arrastando o passo como se pudéssemos alentar a marcha dos acontecimentos.
Acompanhei o processo todo, por assim dizer, da janela: os vizinhos se mudaram para bem fora da região, até meu irmão sumiu logo que pôde; sobraram os gatos-pingados habituais: sapateiro, borracheiro, o mercadinho, a banca de jornal e a paróquia. Nunca consegui conversar com o meu irmão sobre as esquisitices da casa, ele sempre ficava com pressa para fazer alguma coisa importante e urgente, e deixava o assunto para outra hora; hoje mora longe com a família e jamais nos visita, manda dinheiro todo dia cinco; parece que a casa dele é normal, e agora já não falamos sobre assunto nenhum. Quando criança, tentei comentar a estranha particularidade com alguma das raras visitas e recebi como resposta que não havia problema, afinal, toda a casa tinha suas manias, era só voltar pelo mesmo caminho que ninguém se perdia; minha mãe, do outro lado da sala, me fuzilava com o olhar.
            Papai morreu aos poucos e em silêncio, dia a dia engordando metodicamente, pacientemente, até não sair mais do quarto, primeiro, e depois, quando ultrapassou os cento e cinqüenta quilos, sem sair sequer da cama, onde o banhávamos e higienizávamos como um bicho dócil, trocando duas vezes por dia as roupas e lençóis; no criado mudo havia um revólver que não conseguíamos tirar dali nem durante o sono dele, sempre achei que o usaria para tirar a própria vida, mas não, foi-se dormindo, em paz como um anjo roliço. Parada cardíaca. Morreu sem fazer barulho, sem explicar, nem se lamentar; nenhum gesto de revolta, explosão ou arrependimento, conformado com um estado de coisas que não teve forças ou não quis afrontar, subserviente até o último momento à atitude fria e sarcástica da minha mãe.
            ― Esquece o revólver, deixa. Esse aí? Não tem coragem, nunca teve, não ia ser agora...
            Acho que a minha mãe começou por esquecer a própria idade ― eu mesma já não lembro quando faz anos, nem quantos ―, até que terminou por se esquecer da compaixão: não chorou no enterro dos pais, dos irmãos, do marido, e dos cães e gatos que, aos poucos, deixamos de ter nesta casa, onde os pássaros não vêm e nem pimenteira se cria. Não tenho a mais leve memória da minha mãe sorrindo ou chorando. A pessoa que me trouxe ao mundo é uma máscara de ressentimento sem começo e sem causa; aos domingos, supremo castigo!, tenho de a levar à missa, as suas dificuldades de locomoção transformam o caminho de ida e volta num suplício em câmera lenta, os comentários que faz sobre as pessoas que encontramos na rua, revelam os abismos de fel que rumina eternamente, como a esfinge do deserto.
            ― Olha lá, a Peluda, gasta o que não tem nos lasers e não adianta, continua a complexada de sempre... Aquele lá, saindo do carrão, todos sabem que tem o pinto pequeno, pequeno e torto, como uma vírgula, belo monte de merda: trai a mulher, manipula as pessoas, é fofoqueiro, se acha importante e respeitado, mas nem sabe que a filha está grávida. Essa que nos acenou, já lhe troquei os cueiros, uma bela de uma caga-regras, preguiçosa, puritana, alcoólatra, sempre vem com lição de moral para os outros sem ter nenhuma ela mesmo, não tem amigas, e o marido tem um caso com outro homem...um mecânico!
            ― Mãe!
― Que é?...
― Você não tem nada de bom pra falar dos outros?
― Cala a boca. Você é uma árvore sem frutos.

Eunicianas#3



você telepatiza

em voz frame

poemimagem

som

em movimento

 

peixe pesca palavra

palavra

pesca

peixe

 

você nem sabia que eu

era

anarquista

comunista

ludita

anacoreta

 

nem quão estreita é a porta

que nos solta

dos sonhos

 

toque meu nome da próxima

vez que você me

encontrar


 

o corpo

perdeu a casa

perdeu a cama

perdeu o perdão

e o dia

construiu arranha-céus

de teto

baixo

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

o fruto anuncia a colheita




a torre me tem
enraizado
na finta do vôo

estou deitado como um mar
e o não transita
teu corpo

amarei um nome obscuro
uma cidade imaginada
um desenho

na pele para fazer
memória


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

para quem faz o amor o amante?



 

você toca a matéria

e agita

me a alma

 

o amor não é forma

amor trans

forma

 

não se pode mentalizar

o ilimitado

aprisionar o diálogo

impedir

 

o momento da criação

aquilo que deve

nascer

 

numa relação arquitetônica

e musical

a experiência bruta

da cor

 

a grande ordem virá

do tempo

anterior à duração

inarticulado

 

e belo elemento

que afasta o mundo

enlaça

 

plurais

você nasceu para me

fazer ex

 

plodir

 

sábado, 25 de agosto de 2012

eles passarão, eu, passarinho





para compor um céu é preciso

haver passarinhos

antes mesmo até

do azul

 

mas é fundamental haver

margens

e um rio para correr nelas

e casas

com quintal, pitangueira

e goiaba no pé

 

quando foi a última vez que fiz algo

pela primeira vez

na vida?

 

comecei perdendo os heróis

na família

no esporte

na música

e na política

 

comecei a perder aos poucos

a audição

a vista

a memória

e a paciência

 

mas não perdi a esperança

vou consultar o pai Maicknuclear:

lê poema

amarra prosa

traz seu texto de volta

em sete dias

 

— esse sim, funciona!

 

domingo, 19 de agosto de 2012

já não




já não ardo
vivo

já não chovo
choro

já não destilo
escrevo

já não tenho
todo

tempo


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

não tenho notícias de mim



a tarde

           dorme

                      a dor

pausa

          o sol

descansa

              o ruído das folhas

dispersa

             o incêndio

da alma

             vou quebrar

                        antigas

 certezas

                e te dar

                        os cacos

da minha

               vaidade

domingo, 12 de agosto de 2012

O corno do Bife (epílogo)

(foto: José António Doutel Martins Coroado)

            Ao fim e ao cabo, depois de calcorrear as casas dos parentes, a Mãe deixou os miúdos com os pais dela, figuras colossais que se gravaram no Menino como tatuagens na alma, e de quem nunca deixará de se lembrar pelo resto dos seus dias; na despedida a mamã disse que eu já era grande (oito anos!) e devia ser forte e ajudar a tomar conta do meu irmãozito, que voltaria logo, e, enquanto e não, deveria obedecer aos avós; como se precisasse: naquela época, um pirralho refilar para um adulto ― que dirá desobedecer! ― era tareia na certa; a Avó não era de economizar nas estampilhas, mas educava mesmo era por meio de seus impagáveis adágios, os quais sempre trazia como que na algibeira a propósito de todo e qualquer assunto: “Homem pequenino é maroto ou bailarino”, “Ovelha que berra, bocado que perde”, “Quem não come por já ter comido, não tem doença de perigo”.

Já o Avô era de fala pouca e certeira; demorava uma eternidade a comer e a contar suas histórias da tropa, enquanto amassava côdeas de pão sentado no escano da cozinha onde se defumavam as alheiras, o presunto e as morcelas; alto e forte como um embondeiro, derretia-se com os netos, jogava à bola com eles dentro de casa (talvez lembrando de seus tempos de guarda-redes); nunca o vi sair à rua sem chapéu, nem ir à missa; preferia os cavalos aos homens e dizia que as motas eram cavalos cegos, pois faziam tudo que as bestas que as montavam queriam sem refugar; foi ele, o Senhor Morgado da Aldeia dos Quatro Montes, que me contou a mãe das verdades dolorosas: “Há só dois tipos de homens: pregos e martelos”; a outra grande revelação, para a qual não estava ainda preparado, veio da Avó:
            ― Comunistas, o catano, o que eles são é COMODISTAS; não gostam de pegar na enxada e ir ganhar a jeira como toda a gente. Ala moleiro, que quem não trabuca, não manduca! Que me venham por cá esses emplosmeiros com as fantochadas da reforma agrária, a ver se não lhes meto o sacho nos cornipos!
Eles não sabem que o sonho
            É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
            A aldeia, que mal e mal conta um milhar de viventes, é um peculiar universo em miniatura, relíquia do Portugal d’antanho; não se escuta aqui o ratatá da metralha como em Angola, quando muito, zurra um burro ao longe e outros replicam logo a seguir; a água potável, ainda vão as mulheres buscar à bica e trazem-na em cântaros sobre rodilhas na cabeça; o sentimento predominante dos aldeões é de apreensão, quando não de reprovação aberta, à pândega lúdico-política do país depois da Revolução de Abril; e principalmente quando se fala da temida reforma agrária ― disseminou-se a crença de que o cidadão possuidor de duas vacas, por exemplo, venha a ter uma delas confiscada pelo governo...
            ― És um labrego do caraças, ó Dez-pras-Duas, não vês que isso é o socialismo? O que nos vão engrampar é com o comunismo, em que o governo fica-te mas é com as duas vacas, pá!...
            O Dez-pras-Duas tinha os pés bem abertos, como ponteiros de relógio, em vez de paralelos como todo mundo, aliás, quase todos em Quatro Montes carregam uma alcunha oriunda de características físicas, morais ou de alguma anedota da pessoa; uma forma de a comunidade reafirmar seu poder, até mesmo sobre o Registo Civil e a vontade das famílias; assim, havia a Chóia, o Merujas, a Lailai, o Saltão, o Caga-na Saquita, o Choninhas, o Caga-no-Almude, o Zé-das-Migas, a Marianinha-do-Cabaz, o Amândio-Pé-de-Chibo, a Laura-dos-Pompons, o Quico Meleiro e o inacreditável... Putaria (!); efectivamente, os apodos não eram palavras como as outras, pois que a ninguém acontecia de pronunciar a nomeada do professor da primária com risotas ou ironias, e até mesmo às crianças era permitido usar a alcunha tremenda do Sô-Psor ― logo nós, que jamais nos ocorria de andar a dizer asneiras graúdas na frente dos mais velhos.
            O Menino não tinha alcunha, compartia o título do Avô (que vinha do tempo da guerra civil) no diminutivo: Morgadinho, dizia o Quico Melo, maluco da aldeia; mas então, no recreio da escola, a palavra lhe é dita, mais que isso, cuspida na cara pelo Armindo Moncoso: “Retornado”!; escusava legenda ou explicação, nem do complemento “de merda” precisava, estava tudo dito; ómessa, que culpa tinha eu de Portugal ter aumentado dez por cento da sua população em menos de um ano, ou de ter nascido português de segunda classe?, e o coitado do meu irmão, que não dormia de medo à noite e precisava que eu lhe contasse histórias, tinha culpa?; éramos sobreviventes de um desastre mental, tínhamos sido atropelados pela marcha insana da história com H maiúsculo ― e também pela história de um povo iludido pela vã glória de mandar.
            Tirei o cinto e comecei a rodá-lo acima da cabeça; era o combinado da nossa guerra dos botões: os “turras” giravam os cintos até se acertarem mutuamente, encurtada a distância, a peleja era na mão, no chute, no arranhão, na mordida, no cuspe, embolados no chão, como fosse; o importante era não fugir da luta, não amochar, alombar sem tugir nem mugir, porque senão, era humilhação para o resto da vida; o Menino provavelmente apanhou, já que era um lingrinhas sem a vocação de amachucar os outros, mas não tinha sido desonrado, que era o que importava; o estrago, porém, estava feito: agora sabia que não ia poder fingir que pertencia àquele mundo, nem, talvez, vir a pertencer a nenhum outro; entre tragédias maiores e menores à minha volta (“retornados” sem teto, pão ou parentes, traumatizados de guerra, um tio que perdera um braço), até que o meu drama era pequeno, mas, por outro lado, este meu pequeno drama era, e ainda é, tudo que tenho.
            Acontece que aos americanos e aos ingleses não lhes interessava ter uma Cuba européia e, assim como fizeram na Itália e na América do Sul, trataram de neutralizar os comunas lusos; a modos que resolveram pressionar a favor dos “retornados” e até lhes adoçaram a boca com rebuçados, afinal, eram o contingente mais anti-esquerda disponível; foi assim que o IARN, instituto de apoio ao retorno dos nacionais, começou a distribuir pelo país todo alimentos doados pela ONU; era uma festa em Quatro Montes: na Casa do Povo distribuía-se leite em pó, embutidos, chocolates (divinos), arroz, açúcar, cereais em flocos, farinha, tudo de qualidade infinitamente superior ao que conhecíamos; o irmão do Avô, tio que havia morado também em Angola, onde tivera um comércio no Cacuaco, também lá ia retirar seus víveres; era um tipo fiche com os miúdos, um contador de anedotas sujas no café e um belo rapioqueiro com as mulheres; andava sempre atrás do gado faldriqueiro, repetia a Avó.
            ― Ê pá, devagar com o andor, não me esbodeguem as caixas... é tudo atamancado às três pancadas nesta terra; olha só o que aqui vai, leiam: Ce-as-cás, le-os-lós... Corned beef; hahaha, isto é pro corno do Bife!
            Riram ao bom rir, porém, estava armada a maca: a lata de carne moída da ONU passou a ser a lata do Bife, ou melhor, do corno do Bife; que, evidentemente, não gostou nada quando soube da pilhéria; fosse por ser corno, ou ter sido, ou porque não lhe agradava que um explorador de pretos, um “retornado” ― ainda que pertencente a família local de certa fidalguia ― andasse a falar barato de gente honesta; o Bife agora andava de navalha à cinta e dizia a quem quisesse ouvir que ia fazer a barba à barriga do Tio-Avô; este, do seu lado, respondia que, se nunca tivera medo aos terroristas das colónias, não ia ter de um patego que não entendia um trocadilho; no fim de semana seguinte iam-se os dois encontrar numa feira de animais no Toural; o Avô estava mais calado que o costume, preocupado com o irmão naquela manhã ao atrelar a Carriça, o Menino ia com ele à feira, excitação e terror compunham a expectativa do desenlace.
            Que não houve, quer dizer, houve, mas foi pacífico; os dois homens puseram-se logo de acordo, se abraçaram e foram tomar uma carraspana na adega de um amigo; juntaram-se os dois à esquina a tocar a concertina e a dançar o solidó; o Avô ainda passou lá e o Menino os viu a tomar uma ginjinha da boa.
            ― Ó seu Teixeira, que isto não são modos de se falar de um cristão... terá esquecido o engaço?, veja que aqui em Portugal há modos, e cousa e tal, não é como lá na África, onde íeis à peida das pretas, mulatas e cabritas, e ficavam-se todos nas tintas...
            ― Ó Bife, deixa-te de lérias, pá. Sabes que não te chamei de corno a ti... ao fim e ao cabo, nesta aldeia o que não falta é disso. Também pudera! Não deixais haver cá uma casa-das-primas, dá no que dá: andam todos com todos, e já não se pode dizer quem é corno e quem não é; se queres saber, o padre ainda é o mais honesto... só tem uma que eu saiba. O ser humano é o mesmo em todo lado, não é Quatro Montes, ou a África, é o país: isto aqui é e sempre foi uma putaria do carago!

            As guerras são feitas com propaganda, exércitos, soldados, batalhas, bombas e tiros, mas quem as ganha são sempre os poetas; Agostinho Neto, que ganhou a guerra em Angola, era poeta, fraquito, mas era; o Menino descobriu, ouvindo a rádio naqueles anos loucos, a força irresistível da poesia musicada; ele descobriu que a verdadeira pátria não é sequer a língua, como dizia o poeta, mas a poesia; a verdadeira pátria não está nos hinos nacionais, essas xaropadas canalhas sempre a falar de vitórias antigas, dias de glória, pavilhões sagrados, canhões, sangue e nações valentes e imortais; num belo dia de outono, o menino descobriu o verdadeiro hino nacional português, uma canção que termina assim:
            Eles não sabem nem sonham
            Que o sonho comanda a vida
            E que sempre que o homem sonha
            O mundo pula e avança
            Como bola colorida
    Entre as mãos de uma criança

domingo, 5 de agosto de 2012

O corno do Bife (parte 3)




            O professor Mortimer e o capitão Blake, da Scotland Yard, tinham ido passar algumas semanas na encantadora Ilha de São Miguel, a Ilha Verde dos Açores; uma tradição muito antiga considera-a como um dos cumes submersos de Atlântida, misterioso continente desaparecido de que fala o grande filósofo Platão; o professor e o capitão, que não tira o cachimbo da boca nem para ir à casa de banho, vivem à procura do imprevisto e de novas aventuras, por isto logo se metem a explorar as gargantas e desfiladeiros selvagens das proximidades do vale vulcânico das Furnas, dando com a entrada de uma profunda caverna na região conhecida como Forno do Diabo; assim começava o enredo do “Enigma da Atlântida” de Edgar P. Jacobs, história aos quadradinhos que tinha na capa um enxame de naves parecidas a mosquitos encarnados a fugir da Terra; assim me sentia eu, um fugitivo do planeta azul, um náufrago à deriva no Atlântico, assim passei a viver pelo resto da vida: sempre em fuga, sempre pronto a abandonar tudo e todos a qualquer hora e seguir adiante; uma vez perdido “o” lar, percebe-se que sobre a terra não existe lar, apenas hospedagem; sem pouso, nem repouso, só estadia.
            Pousamos em Portugal, aliás, no Porto; “segue sempre por bom caminho”, como dizia o Aniki Bóbó.
            Grândola, vila morena
            Terra da fraternidade
            O povo é quem mais ordena
            Dentro de ti, ó cidade
            A mui nobre, leal e invicta cidade do Porto; aqui moram tios, primos, amigos, parentes e a Avó paterna; o Menino se lembra de quando a mamã do Pai veio visitá-los em Angola e foi-lhe servido mamão: “se não precisei até hoje da papaia, não há de ser agora que a hei de experimentar”; chamam a Avó de mulher-de-armas, pois criou quatro filhos sozinha na dureza do pós-guerra depois de perder o marido para a tísica (e também, dizem, para a boêmia), ela é a senhora Directora de uma escola para meninas que abriu naquele ano para os rapazes; como o ano lectivo ainda não terminara, teria de cumprir um mês e meio antes das férias; no intervalo grande do colégio, enquanto abro a merenda, olho em volta e não vejo mais do que três gajos em todo o pátio ― jogar bola está descartado, paciência, vamos pular corda e brincar ao passa-anel pela primeira vez na vida; durante as aulas, o Menino acumula bilhetes sem assinatura contendo declarações das rapariguitas ― fartura inédita, nunca antes, nunca depois.
            ― Quero, posso e mando! ― o lema da Avó é conciso em cada palavra, verdadeiro em todas as sílabas, adamantino letra a letra; teria existido alguém capaz de a ter feito realmente abaixar a grimpa?, se calhar, nem o Marcelo Caetano, nem o próprio Salazar.
            Este último era um nome que carregava medo e fascínio e raiva e saudade; apenas um nome, mas que nunca saltava sem adjetivos da boca dos adultos: “o fascista do Salazar”, “assassino do Humberto Delgado”, ou, “respeito havia nos tempos do Salazar, não era esta pouca-vergonha”; com efeito, a metrópole mudara muito, os ventos sopravam uma brisa irresponsável, os barómetros de casinha (moça, bom tempo; rapaz, mau tempo) registavam o ar menos opresso, as passeatas a se formar espontaneamente nas esquinas, as tertúlias a brotar como cogumelos nas tascas, as cantorias, as minissaias, as bolsas de ráfia, as calças de ganga apertadas nos tomates, os saltos plataforma ― o Porto, cidade murada de ruas apertadas, de casas espremidas, de prédios unidos à ilharga e passeios estreitos, a foz bravia dos heróis do mar, capital primeira a que os mouros nunca deitaram a unha, tudo como que se tinha banhado de um colorido feérico e musical; aspirávamos inebriados o perfume efémero da liberdade, pois que ainda era tempo de cravos (“rosas em janeiro, minha rainha?”).
            Em cada esquina um amigo
            Em cada rosto igualdade
            Grândola, vila morena
            Terra da fraternidade
            Os meninos, porém, vão ficar com a família da Mãe no norte, lá na aldeia; toca a andar para Trás-os-Montes, Serra do Marão acima, e para cá do Marão, já diz o adágio, mandam os que cá estão; cá neva, mas não se esquia; cá também se fala muito de política e de muitas siglas, mas estas não parecem tão ameaçadoras como as que se ouvia em Luanda: MFA, PPD, CDS, PS, PCP, era o berda-merdas do Bochechas pra cá, o filho-da-côrta do Cunhal pra lá; tudo que consegui saber ao certo é que o Álvaro Cunhal tinha metido nos chavelhos de nos vender a Moscovo (e, Deus seja louvado, não conseguiu), quanto ao Bochechas, consta que nunca tomou a sopinha que a mamã dele tanto pedia; parecia-me ter atravessado o espelho da Alice: a metrópole era pequenina, a colónia (província ultramarina, dizia o outro), grande; Portugal era alegre e festivo, de Angola, só chegavam as notícias tristes dos combates; lá, havia uma guerra por procuração (americanos e sul-africanos do FNLA e da UNITA, contra russos e cubanos do MPLA), enquanto aqui, quase se podia apalpar a esperança; cá, construía-se uma democracia, lá, meus pais, numa cidade sitiada.
            

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O corno do Bife (parte 2)



            ― Ê pá, toca a andar, pá. Daqui pra diante é só sarilho, não viste o que fez o Corujo? Mandou embarcar quase que a empresa toda pro Algarve, aquele é que é fino!, dizem que a camionete Scania que mandou pra Lisboa não tinha nem a primeira prestação paga... E a mulher, então?, levou cosidas à fatiota e à anágua diamantes a não poder mais. Que ficas tu aqui a fazer, criatura? ― coisa rara, o Fábio falava a sério, mais um amigo a avisar inutilmente o Pai; desta vez nem contou a costumeira anedota do conhecido comum cuja mulher metia-se com Luanda inteira, e que o médico lhe havia assegurado tratar-se de uma psicopata: “pois sim, psicopata ou não, pra mim o que ela é, é uma grandessíssima psicoputa!”; riam-se sempre do fecho da anedota, mas nem ele a contou, nem se ouviam muitas risadas ultimamente.
            ― Convença o seu marido a sair o quanto antes, que o que ele tem são ilusões; mexa as quinamas menina, isto vai mas é andar pra trás. Construir um país, pois sim!, tinha a sua graça fazer um país a sério com estes matumbos... não vê como é que eles vivem sem lei nem roque, como os sobas nas cubatas fazem o que querem? As pretas nem usam cuecas, entregam-se a qualquer um, fazem a ginga-ginga às vezes a vários de uma fiada; os filhos depois, está-se a ver, uma zorraria dos infernos... não vai ter como criar os pequerruchos num lugar assim ― Eva, mulher do Fábio, também sente que é hora de partir; aquela vida de almoços na Messe, cervejas na Cuca, jantares no Mandarim e fins de semana a comer santolas e lagostas no Mussulo tinha acabado quando os combates entre os candidatos a libertadores de Angola chegaram às franjas das cidades; o que se via em Luanda era uns poucos soldados portugueses pelas ruas com as fardas desabotoadas, lafranhudos como o Che Guevara, a tresandar a cerveja e liamba.
            Nos primeiros filmes de que o Menino se lembra na vida já havia esta mesma falta de situação, o mesmo deslugar, o exílio secular da família e da raça; sim, porque agora ele tem não só uma cor, mas também uma raça: a raça errada, na hora errada e no país errado ― que agora jura que vai dar certo ―; é isto, vai ser como na história da leoa Elza: passar a vida se adaptando à savana que sempre foi sua, devolver a natureza ao bicho para readquirir alguma humanidade, porque os verbos do homem são desnaturar, desmatar, antinaturar; porque o bicho-homem é uma ausência, e não adianta subir as montanhas de Malanje: ainda quer mais de altura; pode atravessar o deserto de Namibe, e ainda vai lhe faltar solidão; pode contar cada grão de areia que o rio Kuanza lançou à Restinga, continuará impaciente; o animal gente agoniza muitas mortes por sofrer cada despedida, por sentir fome do que não existe, e é por isso que nunca há de estar em casa no mundo, ou fora dele; o Menino já conhece a metrópole (um lugar em preto e branco na sua memória), lá é frio, escuro e come-se o tempo todo, lá não é a sua casa, mas já foi dos Pais; será que vai poder andar por baixo das pontes do Porto, e morar numa rua daquelas do Aniki Bóbó?
            Nem todos fugiam, no entanto, muitos ficavam por cobiça, mangonha, medo de mudar e até falta de onde ir; mas também existia convicção: o Primo ficaria a trabalhar numa rádio revolucionária; os pais dele venderam tudo que tinham no Hucubal, um lugar bravio onde havia gorilas, corsas, panteras e tribos selvagens que caçavam o leão à catana e à flechada; vejo-o sentar-se na nossa sala, passar a mão sobre o naperon bordado que cobre o braço do maple, e anunciar aos incrédulos Pais (a Mãe é prima-irmã dele) a novidade.
            ― Nós não estamos a confundir liberdade com libertinagem... cumprir Abril é descolonizar, democratizar e desenvolver. Há uma grande nação multiétnica a nascer aqui, mas uma de verdade, não o império transcontinental do fascista do Salazar; uma nação que o povo oprimido por cinco séculos de jugo há de erguer com a dignidade da sua luta. Bem sei que achais isto loucura, pode ser, há momentos em que só pela boca dos loucos se ouvem as verdades; as revoluções são esses tempos loucos, perigosos, mas é um privilégio de poucos estar a viver, a realizar, uma revolução de verdade.
            A hora de partir se aproxima, o silêncio aumenta mais, se é que isto é possível; a aletria a sobrar no prato; o Pai a insistir para que a Mãe não lave a louça, afinal, a mulher-a-dias não está de saída da África, ele pede a ela com maus modos que pare de se comportar como se nada estivesse acontecendo; o Pai fica, leva-nos só até ao aeroporto, a Mãe volta para ele assim que nos instalar na metrópole; nada seria igual ao que tinha sido antes, ao que ainda era agora e já estava deixando de ser, sem que ao menos pudéssemos evitar; o Menino tenta ainda, coloca alma sobre as paisagens que aponta, sua memória quer aprisionar os objetos, tocar os cheiros, construir um panteão de máscaras de piedade e terror; mas os instantes fogem, escapam com a força inevitável do rio-tempo, e ensinam ao Menino que a morte é anterior a si mesma e que as crianças são como os profetas: enxergam o óbvio; enfim, embarcávamos para a Catralhamba num vôo noturno da TAP.



(fotos: Matthias Offodile)