quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Monstro (parte 3)



No meio da crucial decisão entre gastar mais na qualidade do aceto blsâmico ou do vinagre, minha mãe me ligou no supermercado. No meio do dia, assim, do nada?, vem bucha na certa... Me afastei dos meus pais já faz um bom tempinho, sem palavras nem esperneio de parte a parte, fixamos cinco datas anuais de visitas protocolares: aniversários respectivos, dia dos pais e das mães (por insistência do Bernardo) e Natal. Telefonemas, só quando o rei faz anos.
― Onde você está?
― No super. Aconteceu alguma coisa?
― Nada sério... é que, era melhor você vir pra sua casa agora...
― Você está na minha casa?! Tô indo.
Era sério. Desliguei o celular e tudo mais que me rodeava, deixei o carrinho de compras, saí desabalada da garagem sem validar o ticket de estacionamento. Cheguei na Granja batendo todos os recordes de velocidade e multas nos radares eletrônicos da Raposo. A minha mãe me ligando de casa significava encrenca casca grossa. Assalto, incêndio, furacão, o que poderia ter acontecido pra quebrar regras não escritas, mas tão zelosamente respeitadas?
Um pandemônio me aguardava na porta: carros de polícia, furgões de emissoras de TV, curiosos, cachorros vadios, uma pequena multidão se aglomerava na estreita faixa de calçada atrapalhando o fluxo de carros na via de mão dupla que corta o habitualmente sossegado condomínio. Entrei em casa desviando de um agulheiro de câmeras e microfones transmitindo a confusão ao vivo. Queriam uma declaração sobre alguma coisa incompreensível. Minha mãe me esperava aflita.
― Que gente mais sem respeito. Ai, minha filha, isto aqui tá uma confusão!
― O que houve? Que é que esse povo todo tá fazendo aqui? Por que tem essa faixa amarela interditando o jardim de casa?
― Senta um pouco, respira. A polícia prendeu o Beni, estão achando que é ele o Maníaco da Machadinha... Eu sei, é um absurdo total! Policiais revistaram tudo de cima abaixo, dizem que acharam a arma do crime... levaram ele pruma delegacia lá no Centro.
Assim começaram as vinte e quatro horas mais longas da minha vida. Vivi o inferno na torre do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. Pude ver o Beni depois de quatro horas de chá de cadeira num corredor do quinto andar de um prédio abafado na rua Brigadeiro Tobias. Ele era mantido sem algemas num cubículo com dois policiais vigiando cada movimento, cada ida ao banheiro. Delegados entravam e saíam, e lhe faziam sempre as mesmas perguntas. Estava cansado, pálido, mas aparentava a sua calma característica. Ostentava a tranqüilidade dos inocentes, confiava na justiça, repetia que aquilo tudo era um grande mal entendido que seria esclarecido em breve.
Acreditei nele imediatamente.
Conheço o homem que dorme comigo todas as noites, Beni é incapaz de fazer mal a qualquer ser vivo. Um cara grande e forte, mas que desarma a todos com a gentileza dos gestos, a candura do olhar, a integridade dos seus ideais. Não, eu não vivi enganada por um psicopata em pele de monge tibetano, Bernardo Felizardo é uma dessas criaturas raras da natureza: um urso vegetariano, um panda da paz. Havia algum engano, um terrível engano.
O doutor Taborda, advogado e tio do Beni, acompanhava todos os depoimentos, orientava as declarações, disparava telefonemas para todos os seus contatos, no entanto, mostrava-se reticente quanto à possibilidade do sobrinho dormir em casa naquela noite de pesadelo. A situação não estava nada boa: a caminhonete dele tinha sido filmada nas imediações do último crime atribuído ao psicopata, buscas autorizadas judicialmente haviam encontrado uma enxada com restos de sangue no galpão da nossa casa. Naquele momento, a polícia científica realizava testes para estabelecer a quem pertencia o sangue.
Em que pesasse toda a influência do doutor Taborda, o desembargador que precisava acordar pra conceder o habeas corpus não acordou, e o Beni dormiu na carceragem do DHPP, após ser indiciado pelo assassinato de doze mulheres. Sentia-me exausta, física, moral e emocionalmente. Vivia um drama sem sentido e sem hora pra acabar. Às duas da manhã voltei pra casa, precisava de um banho, da minha cama, algumas horas de recuperação e sanidade. No elevador do prédio, escutei a conversa de dois investigadores.
― Cê viu a faccia do jack da enxadinha?
― Vi. Cara de paisagem, riquinho que se faz de tanso, advogado picão, e o caralho... É aquele tipo de sonso que os vizinhos saem falando: “nunca poderia imaginar, uma pessoa tão boa, tão calma...”


domingo, 16 de junho de 2013

O Monstro (parte 2)



― Amor, você se importaria de baixar o som da tevê? Pelo menos na hora do jantar...
― Ai, bem, deixa só eu ouvir isso: descobriram mais uma vítima do “Maníaco da Machadinha”.
― Eu sei que é o seu trabalho, o seu projeto... mas, é que me arrepia a maneira como falam desses crimes: os especialistas analisando os ferimentos, criminologistas que distinguem os imitadores do “verdadeiro” psicopata... É muito triste viver numa cidade em que coisas assim viram uma novela macabra que todos acompanham, e ainda tem a polícia, que não consegue, ou não quer, fazer nada. Um horror completo!
― É justamente o que me interessa neste caso, Beni, a nossa cegueira e anestesia quanto aos verdadeiros problemas, a agenda real. O psicopata solitário é o oposto complementar, o inimigo necessário, de uma sociedade-manada que se move por espasmos de medo, indignação, ou paranóia coletiva. Caímos como patinhos na órbita de fascínio do macabro, seqüestrando o debate público para o irrisório, a banalidade do mal.
Beni mantém uma atitude de educada ojeriza a respeito da minha obsessão: escrever sobre o maníaco que há um ano e caqueirada vem matando mulheres na cidade, soa para ele tão razoável quanto revogar a lei da gravidade. A minha dificuldade em pôr o preto da letra no branco da tela parece confirmar o absurdo da empreitada. Mas não desisto. Guardo uma pasta com recortes de jornal, páginas impressas de sites e blogs, cópias clandestinas de exames do IML, fotos, etc., relacionados aos assassinatos em série. No computador, porém, o arquivo O Monstro, nome de batismo do meu romance virtual, continua vazio.
Faço o trabalho de campo. Não fico flanando sem rumo dentro da caminhonete à prova de balas de fuzil do meu namorado seqüestrável ― visito os locais onde as vítimas foram executadas. Um instrumento cortante e contundente, que a mídia apressadamente associou a uma machadinha. Pontos de ônibus, saídas de estações de trem, praças ermas, ruas mal iluminadas, passagens e matagais, lugares em que uma dezena de mulheres encontrou seu fim voltando do trabalho ou da escola. Com o que sonhariam? Será que alguma delas estava tentando escrever um livro?
No curso do professor Asdrúbal, distraio-me observando sua cabeça bronzeada. Sei que vai completar cinqüenta e dois anos daqui a pouco, mas não lhe daria mais de setenta e nove. Tenho um prazer guloso em ver pessoalmente esta grande cabeça de homem, à qual todas as marcas da passagem do tempo só fizeram ajuntar ressentimento e desleixo. Sigo o trajeto de cada uma das suas rugas pela calvície que lhe aumenta a escalavradura do vulto.
― Vejo que vocês são todos muito jovens, ah, não se preocupem, a juventude é uma doença que tem cura: envelhecer. É o que dizia o Nelson Rodrigues. Já a velhice é um problema que não tem cura nenhuma, meus caros. O outro problema que detecto em vocês é bem mais grave: a maioria aqui não está interessada em crônicas. Que pena... Não é um bom momento para a ficção, nunca é, vivemos em tempos de “baseado em fatos reais”, de jornalismo literário, misturas mais ou menos bem sucedidas de relatos biográficos, com personagens históricos e inventados, e por aí vai. Mas, já que pediram, comecemos elencando os principais aspectos do romance: em primeiro lugar, o menos importante, a trama. Tanto faz, escolham qualquer uma ao acaso, bem feitas as contas, deve haver uns cinco ou seis enredos básicos de onde todos os outros derivam. Kurt Vonnegut aconselhava a gastar a cera boa com o melhor defunto: concentrar-se em forjar uma maneira de contar o que vemos, em dar forma à nossa interpretação do mundo. Isto se chama estilo.
― Mestre, dizem que o senhor é o inimigo número um da ficção histórica, procede? ― este é o aluninho pão-com-ovo, leu tudo que o palestrante escreveu, sempre pronto a fazer “escada” para palpitantes polêmicas.
― Não é bem assim, mas passe. O que eu não gosto é de literatura com adjetivos: literatura engajada, de gênero, de minorias, de denúncia, de resistência, et caterva. Costumo dizer que os bons livros, como os bons escritores, têm amigos, mas não têm família, clube, nem partido. São viajantes perdidos, uma comunidade de solitários como os homens-livro de Farenheit 451. O romance, dizia Faulkner, é a vida secreta do escritor, e o escritor, por sua vez, é o dublê de alma do homem... Tenho muita dificuldade em aceitar os pólos sociologizantes ou psicologizantes, para mim, a dialética do fenômeno estético é do tipo onda/partícula: quando se consegue definir uma coisa, perde-se necessariamente a outra. A obra nasce da biografia tanto quanto da história com maiúscula, como construção em curso no dasein, o ser-aí, o que está acontecendo bem diante do nariz. O universo da ficção aumenta o mundo, mas não o explica, porque a ficção precisa fazer algum sentido, o mundo não. A vida é puro jorro de som e fúria, a mais delirante das realidades imagináveis, e por isso mesmo o realismo em literatura terá sempre algo de mágico. É o poste que mija no cachorro, nós fazemos o cachorro erguer a pata pra salvar as aparências...
Minha mente viajava traçando um paralelo entre o professor Asdrúbal e o Beni: o zero à esquerda, e o zero à direita. Asdrúbal, dedica-se a uma atividade inútil, a literatura, zero à esquerda; Beni, abraça causas politicamente corretas, zero à direita; A, feio, pobre e bafo de onça; B, lindo, abonado e cheiroso feito miss; A, melancólico, discurso escalafobético que associa alhos com caralhos; B, de bem com a vida, coerente, o senhor sensato; A, despreza a polpa dos fatos, a linearidade, mira o invisível; B, conversa sempre ao rés do chão, argumenta com dados e moderação. A última invenção do B: uma fábrica de cerdas para vassouras que recicla plástico pet, antes disso, eram as hortas orgânicas. Os restos dessas empreitadas vão se acumulando no galpão dos fundos da casa. Zero à direita quando vem depois da vírgula...
― Você viu que apareceram as primeiras imagens do psicopata da machadinha? Como cê tava pesquisando achei... o que vazou era uma filmagem de longe, escura, o rosto coberto por um capuz. Andando do lado da coitada, mochila nas costas, conversando...
A informação da colega na saída da oficina de escrita me deixou estranhamente comovida, eufórica, mas com uma ponta de inveja ― iam descobrir antes de mim! Comecei a me perguntar se o que eu fazia não era um inquérito paralelo, acumulando pistas como numa investigação de verdade, em vez de simplesmente escrever um relato fantasioso sobre fatos reais. Será que tinha pirado na batatinha achando que realmente fazia o trabalho da polícia? A hipótese mais doida que me ocorria é que tinha me tornado personagem de uma história que não estava escrevendo.
Depois de um chá, dois conhaques e um tarja-preta, já instalada na cozinha de casa, entrei novamente em estado onírico. Pela primeira vez, o devaneio se modificou. O mar tinha a mesma cor de lama, opaco e violento a refletir o céu tumultuado, a natureza travava a batalha definitiva de uma guerra particular, a terra jazia exausta sob uma tormenta inclemente. Agora estou deitada na grama à beira do penhasco, agarrando ferozmente a vegetação ao redor para não ser arrastada pelos ventos fortes. Lá em baixo, ouço as ondas rebentando nas pedras. Deitada ali, percebo o ponto de cisão de quem não consegue se levantar ou se segurar. Preciso me colocar de pé outra vez.


sábado, 8 de junho de 2013

O Monstro (parte 1)



            Eu mesma não sei por que comecei mais este curso, mais uma oficina de escrita criativa, mais uma vez no sentada num banco escolar com a cabeça em uma galáxia distante. É sempre a mesma história: começo a milhão, faço todas as tarefas pedidas, e no final sobra o mesmo retrogosto de missão cumprida e inútil. Desta vez o álibi é nenhum, trata-se de um workshop sobre crônicas, um gênero que não pratico, não gosto e não interessa para o projeto em que estou mergulhada: escrever meu primeiro romance.
            Um estranho sortilégio me deixou incapaz de escrever uma linha além do título no arquivo omonstro.doc que jaz intocado na área de trabalho do meu notebook. Pelo menos o professor Asdrúbal é completamente passado das idéias e as aulas são um primor de nonsense e bizarria, o que no fundo ajuda a distrair da minha paralisia imaginativa.
            ― Do que fala o cronista? De zero a tudo, mas, principalmente, sobre o “nada”, a falta de assunto é o terror cotidiano desta igualmente cotidiana escritura. A crônica diária não é para os fracos das teclas e da alma, reza a lenda que um famoso autor só aceitou uma coluna semanal no falecido JB depois de ter escrito cem crônicas. As quais, obviamente, nunca utilizou durante os trinta anos que durou a sua colaboração naquele jornal... O cronista escreve rente à realidade, falando, por assim dizer, ao pé do ouvido do seu público, como os radialistas. E a resposta dos leitores, em tempos de internet, é escutada de imediato, seja na forma de cliques, de comentários, ou de violentas cornetadas, quando não, agressões verbais. Não há tema nobre ou plebeu na crônica: a grande tragédia do momento, a mais desbotada das banalidades, servem tão bem quanto mal (depende sempre do talento) para esta prosa em traje de passeio. Se o poeta é um fingidor, o cronista é um filtrador: separa e junta, personaliza a crítica, radicaliza contemporizando, discrimina e mistura; no seu liquidificador ficcional se debulham a casca dos faits divers e a polpa das grandes questões da humanidade...
            Sei, sei, essas coisas do tipo: onkotô, onkovô, kenkosô... hmm, tio Asdrúbal está atacado hoje, esse “famoso autor” perigas de ser o Sabino. Ele escrevia no Jornal do Brasil? Daqui a pouco vai falar do Rubem Braga. É infalível.
            ― ... um grande cronista é sempre um grande artesão da língua, já o grande autor nem sempre produz o bom cronista. Vamos a um grande entre os grandes: Machadão. Nos romances e contos machadianos sentimos o retinir do bronze da imortalidade, a beleza do que é eterno e definitivo; ao passo que nas crônicas, comparece o homem Machado de Assis, os ignóbeis preconceitos, miopias e limitações do censor de costumes. Vocês sabiam que ele censurava peças de teatro? Vejamos agora o último parágrafo desta crônica de Rubem Braga, do livro Recado de primavera: “Assim pois, contemplando minha vida pregressa nesta bela tarde de verão quando há evanescentes nuvens róseas lá longe sobre o mar de Ipanema, e me sentindo mais ou menos conformado com a minha solidão, lembro-me de que o nome latino desse nobre galináceo e caça fidalga, o macuco, é Tinamus solitarius, e me recordo de ter visto ovos de macuco, e retorno à primeira frase desta pequena composição jornalística chamada crônica, e digo: todos os telefones eram pretos e todas as geladeiras eram brancas, mas os ovos do macuco já eram e ainda são ― azuis. Esverdeados, porém azuis”. Percebam que o conceito-chave desta “pequena composição jornalística”, e da crônica de uma maneira geral, vem a ser justamente a “evanescência”: as nuvens evanescentes da tarde de Ipanema, a transitoriedade da vida, a solidão do autor e do nome latino do macuco, a evanescência dos ovos “esverdeados, porém azuis”. Graça, liberdade e dignidade clássica, o homem é o estilo na escrita do nosso cronista maior.
            Tudo isso é muito belo e muito bom, porém, não me rende uma mísera composição jornalística, nem sequer algumas linhas de prosa satisfatória para o livro que estou, ou deveria estar, escrevendo. Sempre ouvi com uma certa incredulidade os relatos de escritores sobre o famigerado bloqueio criativo, mas nunca pensei que aconteceria comigo. As idéias costumavam brotar como cogumelos depois da chuva, vinham-me durante o banho, na plataforma de embarque do metrô, ou na fila do caixa da padaria onde tomo o café da manhã. Algo tão natural como espirrar ou marcar uma consulta no dentista.
            Despeço-me dos colegas de curso e vou para o estacionamento pegar o carro do Beni, meu namorado. Uma verdadeira mão na roda agora que troquei a Pompéia por Cotia. Depois de dois anos de namoro resolvemos morar juntos, isto é, mudei para a imensa casa dele na Granja Viana. Beni é uma graça de rapaz: grotescamente rico, limpinho, do bem, e... absolutamente incapaz de terminar qualquer uma das suas muitas iniciativas pra tornar o mundo um lugar melhor. Seria o homem ideal se eu não implicasse tanto com o nome dele: Bernardo Felizardo. Que tipo de idiotas faz rima rica com os sufixos do nome e do sobrenome do filho único?
            Brega no úrtimo. Pra sorte deles, os pais já tinham morrido quando o conheci, caso contrário, não deixaria barato uma tosqueira dessas. Enfim, cada cabeça, sua sentença. A bem dizer, não sei onde estava eu com a minha quando desisti da carreira de autora de livros infantis. Tá certo, eram todos muito ruins, mas vendiam e vendem que nem pão quente. Bela troca fui fazer: de escritora de livros de merda, pra escritora de merda nenhuma. Agora estou aqui, empacada, sem vender, nem escrever. As únicas atividades que preenchem meu tempo são esses cursos e ficar zanzando pela cidade sem rumo no carro blindado do Beni.
            Pra não dizer que o meu cérebro não tem produzido nada, vêm ocorrendo dois tipos de fenômenos que se repetem: um devaneio diurno e um pesadelo. O sonho não varia muito: estou no quarto de dormir, na cama de casal que pertenceu aos pais do Beni, suíte que ele insistiu que ocupássemos, embora, a princípio, eu tivesse recusado por achar mórbido demais. Estou sozinha na cama. Ouço um barulho vindo do banheiro, pergunto: “Quem está aí?”, nada, ninguém responde. Sento-me na cama, nua, então vejo, recortada na contraluz, a silhueta do meu namorado saindo do toalete. “Que susto, Beni, por que não me respondeu?”. Ele se aproxima em silêncio, e me esbofeteia violentamente com as costas da mão.
            Durante o dia, a cena que me vem é rigorosamente a mesma, sempre. Estou em pé em meio a uma tempestade, à beira de um precipício. O mar revolto lá em baixo, quebrando violentamente, e eu de braços abertos, cabelos revoltos, pés no chão, coração nas estrelas, a mente conectada a toda aquela selvageria em volta, firme, enfrentando tudo, sem me perder nem me render às forças da natureza. Dizem que o melhor caminho diante de um abismo é dar um passo atrás... Eu ouso permanecer em pé.

            

domingo, 2 de junho de 2013

O último fim de mundo do milênio (epílogo)



PROFESSOR CAMARINHA & NATASHA 23:50

            Um estrondo, vindo da porta dos fundos. Vozes. Vários homens falando ao mesmo tempo. Em seguida, escutaram o ruído deles entrando pela casa, derrubando objetos, conversando entre si de um cômodo para o outro. Não se distinguia o assunto. Os dois se olharam, os olhos do professor expressavam terror e estupefação, Natasha calculava. Os passos convergiam agora para a sala.
            “Mas que... será possível?... não, este condomínio tem muita segurança, não pode ser...”
            “Fica em silêncio e não sai da tua posição. Presta atenção, vou soltar as algemas, mas continua com as mãos pra trás. Pode vir a ser a útil”, Natasha recolocou a capa de vinil e se encostou num buffet a três passos de distância da coluna onde jazia o escravo sexual. Aparentava calma diante do perigo.
            Quilô, o brucutu do bando, arrebentara a porta dos fundos com um único pontapé. Metaleiro e seus homens saíram roubando tudo que podia ser carregado: jóias, celulares, televisão de tela plana, fax, computador, até mesmo o microondas entrou no butim. Os seis foram chegando uma a um à sala, todos paravam, estupefatos. Esperavam encontrar o Exu-caveira, mas não a cena que viram. Parecia a brincadeira de criança conhecida como ‘estátua’. Calunga quebrou o feitiço.
            “Ca-ca-caralho, ma-mano, o ca-cara tá todo ca-cagado!”
            “Que é que tá acontecendo aqui?”, refeito da surpresa, Metaleiro reassumia a voz de comando.
            “Gozado, parece que é você que deveria responder essa pergunta...”, Natasha usou sua voz mais calma para falar, enquanto isso, parecia muito ocupada com a carteira do professor.
            “É, afinal de contas, esta casa é minha e vocês...”, a frase do professor tentou emular o tom firme da Dominadora, mas foi se acoelhando, diminuindo, até terminar num murmúrio ininteligível.
            “Que porra é essa, uma festa de carnaval? Por que esse cara tá amarrado com essa máscara, todo lanhado e coberto de merda, hem?”
            “Escute, moço...”
            “Cala a boca, mané! Tô falando com a mina, que é quem tá de chefia aqui pelo visto”, Metaleiro podia não ter MBA em Harvard, mas isso ele tinha sacado de primeira.
            “Isto aqui é uma festa privada, mas não somos nós que devemos explicações, percebe?”, ela demorou um tempo excessivo para responder, e quando o fez, mal levantou os olhos da carteira do professor. Contava as notas de dinheiro vivo.
            O Velho se aproximou de Metaleiro para falar, carregava um fax no braço esquerdo.
            “Se liga Metal, isso daí é um bagulho de pervo. Chama sócio-comunismo, um bagulho assim, os bacana contrata umas vagaba pra esculachar eles, cuspir na cara, enfiar prego... coisa de granfo”.
            “Aí mano, da próxima vez tu pode economizar, esculachar bacana é com nóis mesmo, vacilão!”, a gargalhada do chefe desencadeou o riso geral. Passado o momento de distensão, voltou-se para Natasha, cuja atitude o irritava desde o começo: “Ô vadia, tô achando que tu não tá entendendo bem a parada... vamo largando aí o que não te pertence!”
            “Não me pertence? Isto daqui é o meu pagamento. Serviço feito, pagamento feito. Não pego o que é dos outros, só o que é meu”.
            “Quilô, dá uns pega nessa mina que ela já tá me gastando”.
            “Demorou, Metal”.
            Quando todos os olhares se voltaram para ela, o revólver já estava apontado para o grupo de invasores. Natasha, com notável timing cênico, aproveitou para engatilhar a arma. O clique seco ecoou na sala silenciosa.
            “Grandão, deixa eu te explicar uma coisa: este é um trinta e oito cromado, não trava nunca. Eu atiro bem pacas. Sabe onde vou mirar? No teu saco. Você vai cair gritando e eu ainda vou ter uma bala pra cada um dos teus amigos, que não vão te ajudar. Com sorte, você sai vivo e capado dessa, mas, se o resgate demorar, tu vai sangrar feito porco até morrer nesse lindo tapete persa”.
            “Qual que é mina, tá bem loca?”,a voz de Metaleiro traía uma vacilação, já bem menos impositiva.
            “Tô não, cara. Sou uma profissional, vocês não. Nenhum de vocês tá armado. Vamos fazer um acordo: vocês saem por onde entraram, levam o que têm na mão e o professor aqui não presta queixa. Afinal, esta é um situação difícil de explicar numa delegacia, certo?”
            “Quem garante que cês não chamam os gambé na hora que nóis sair? O que mais tem neste muno é Judas, fia...”, Metaleiro vacilava, os outros confabulavam em voz baixa.
            “Não vai ter essa. Somos todos gente da paz, não é mesmo? E depois, maior preju, começar o ano com uma azeitona quente na barriga...”
            Os baderneiros se retiraram resmungando. O trato era bom para todos, ninguém queria mesmo forçar demais a corda. Já tinham o suficiente para a festa.
            Natasha pegou o carro e saiu do Sunrise Village no momento em que os fogos estouravam nos céus da metrópole. Estava de bem com a vida. Apalpou a arma de brinquedo no bolso do casaco. Assim era vida dela, cheia de emoções. Era isso que ela era: uma verdadeira artista.


domingo, 26 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (XI)



REINALDO & OSSADA 23:31

            “Nos dias de frio é melhor nem nascer,
            Nos de calor, se escolhe: é matar ou morrer,
            E assim nos tornamos brasileiros.
            Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro,
            Transformam o país inteiro num puteiro,
            Pois assim se ganha mais dinheiro.
            A tua piscina tá cheia de ratos,
            Tuas idéias...”

            Reinaldo desligou o rádio, o amigo começava a dar sinais de vida depois de horas viajando na maionese. A festinha da mãe comendo solta lá na sala, e eles ali, trancados no quarto fedendo a maconha. As perspectivas de uma comemoração de fim de ano que prestasse iam diminuindo sensivelmente.
            “Que é que cê tá fazendo aí parado, mano?”
            “Que eu tô fazendo, maluco? Tô de babá de um alemão sem noção que desabou na minha cama depois de cheirar uma lata de solvente. É isso que eu tô fazendo”.
            “Bom, chega de passar o pano. Sinto na brisa leve da noite o som das xoxotas batendo palminha pra nós...”
            “Brisa da noite! Quem tá brisado na pedra é tu, mané. Pelo andar da carruagem, a única palminha que a gente vai ter, é a palmita de la mano.”
            Deram um tapa no visual o melhor que puderam e saíram para pegar o carro da família Angelim. Na passagem pela sala, Ossada não resistiu a encher os bolsos com as empadas da mãe do Reinaldo, que ainda obrigou o filho a levar uma capa para a chuva. Saíram para a imitação de rua do Sunrise Village: o concreto liso, perfeito, no lugar do asfalto, as sebes baixas, os jardins na frente das casas sem muro; tudo ali emulava o espírito ordeiro e seguro dos subúrbios ricos da América. Uma ilha de excelência ― luxe, calme et volupté ― na megalópole desgovernada.
            “Ih, caralho, sujou!”, Ossada empurrou o amigo, quase que o derrubando, para dentro de um jardim.
            “Porra, mano, ainda não passou a lombra? Que é que foi agora, viu assombração, foi?”
            “Não tou brisando, não. São os malaquia do Monza que eu tretei lá na Giovanni... Como é que os cara entraram aqui, será que me seguiram?”
            “Vixe, agora bateu a nóia em tu, Ossada. Tamo bem na fita...”
            Mas o viking aloprado não se enganara, Metaleiro e os seus capangas estavam reunidos em volta do carro deliberando sobre alguma coisa que não podiam ouvir. O problema: o carro que eles iam pegar estava estacionado bem em frente dos meliantes. O jeito era dar um miguezinho, esperar aquela galera do mal dispersar. Chateação danada. Foram dar uma volta pelo condomínio no maior desânimo. Tudo só fazia complicar mais e mais, uma noite promissora que ia zicando forte.
            “Meu irmãozinho, você tá vendo o que eu tô vendo? Papai do céu resolveu pensar em nóis!”, Ossada acabava de surpreender as duas vans que chegavam para o chill out na casa de Zaba.
            “Mas o que... olha lá, tão todos fantasiados... A balada aí vai ser nervosa!”, Reinaldo, de queixo caído, assistia o desfile de beldades entrando na casa de Zaba.
            “Ah, mas isso não me engana, não! Sente o cheiro da mexerica, brother, as mina é profissa, e os cara têm a maior pala de michê!”.
            “Ei, ei, onde que cê tá indo, galo doido?”
            “Como assim, onde tô indo? Tamo indo, maluco, tamo indo. É o seguinte: a gente chega lá e toca a campainha, se colar, colou. O máximo que a gente se arrisca é ouvir um não.”
            “Mas a gente nem conhece a dona da casa... vamo é pagar mico”.
            “Rei, meu rei, vamo aproveitar o bonde. O cavalo tá passando arriado, mano. Quando a felicidade bate, meu irmão, apanhe”.
            “Tu não tem juízo nenhum nessa cachola chapada de drogas, mas... bora lá, perdido por dez, perdido por mil”.
            A própria dona da festa os atendeu na porta, bêbada feito gambá. Os meninos arregalaram os olhos diante da voluptuosa fêmea desvestida para matar. Reinaldo temeu que Ossada já fosse logo botando a mão na mobília, a mulher era um avião sem freios.
            “Ah, os vizinhos sempre aparecem quando rola a buena onda... vamos entrando queridos, a festa tá bombando, tem de tudo: bebida, música, putas e putos, além de traíras... tem pra todos os gostos, vão entrando!”
            “Nem precisa dizer duas vezes, dona, é nóis na fita!”
            “Boa noite, dona Zaba, com licença...”
            Entraram na balada, que, de fato, bombava. Os moços e moças contratados dançavam à vera e o clima era de deixar cair geral, exceção feita ao desenxabido Nino e sua personal amante. Sentados no canto de um sofá, conversavam pouco e em voz baixa, de cara amarrada. Reinaldo serviu-se de cerveja em um copo de plástico, já Ossada catou uma champanhe do balde e bebia direto do gargalo.
            “Rei, vamo na piscina, as mina tão dançando lá bem louca! Daqui a pouco vão começar a se jogar dentro d’água, moleque!”
            “Pô mano, não tem de comer nesta birosca,,, comi nada na minha casa por tua culpa”.
            “Tu parece uma velha, só reclama... Ói lá, oi lá, a mina abriu um spaghetti!”
            “É spacatti, cabeção, spacatti!”
            “Spaghetti, spacatti, que diferença faz? É tudo macarrão mesmo...”
            “Mano, tu não tem pena da gramática”.
            “Pena eu tenho é do cu do coelho depois que põe ovo de chocolate na Páscoa... Ih, ó lá, a dona da festa catou dois cara e tá indo pro quarto, se liga!”
            Naquele momento Zaba, abraçada em dois rapazes de corpo escultural se dirigia para o quarto do casal, não sem antes passar na frente do namorado traíra e falar um monte para os dois.
            “Tá ligando os pontinhos, ô tampa de Crush? É a nossa deixa”.
            “Deixa do quê?”
            “Faz as contas: se ela catou dois caras, é sinal que tão sobrando duas prosts só pra nós, pé de pano! Vamo arrastar as malvadas pr’algum quarto da mansão”.
            “Aquelas duas lá tão dando mole pra nós, mas uma é meio...”
            “Vamo que vamo, meu bróder, a gordinha é tua”
            “Porque eu que tenho que pegar a gordinha?”
            “Simples. Se eu pegar a fofeta, vamos parecer o casal dez: ela o zero, e eu o um!”
            “Pô, mano, essas parada sempre sobra pra mim...”


quarta-feira, 22 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (X)




METALEIRO & DOUTOR JORDÃO 23:00

            O doutor Jordão toma o seu conhaque. Aguarda a chegada iminente de importantes convidados para uma festa privativa. Secreta, seria o adjetivo mais adequado para a cerimônia da qual era anfitrião naquela noite. O vulgo não tem como entender as coisas tais quais são, não concebe que há uma dialética, um rigor matemático, nos rituais do dogma. Tudo que a plebe pode conhecer da religião é kerigma, manifestação exterior, a parte mais rasa e evidente da fé.
            Ele imagina vividamente o Sumo Sacerdote (Kohen Gadol) penetrando no espaço mais sagrado do tabernáculo no Templo de Salomão ― é o único que pode fazê-lo ―, seus passos são curtos, trêmulos de emoção. Só uma vez por ano lhe é permitido adentrar o Santo dos Santos (Kodesh haKodashim) e contemplar a Arca da Aliança: no dia em que todos os pecados são perdoados, o Yom Kipur. Aos pés do sacerdote estão atadas grossas cordas.
            Este, o detalhe revelador. Reza a tradição que as cordas servem para que o pontífice seja arrastado para fora caso lhe sobrevenha um ataque de emoção ao pronunciar o Tetragrammaton, as consoantes do nome do Altíssimo (YHWH). Um estratagema para evitar a profanação. Porém, a emenda desvela o soneto: a incúria humana age sempre depois do leite derramado. Antes que pensassem nas cordas, pelo menos um dos sumos sacerdotes teve de ser resgatado por pés e mãos impuros. Elevar e conspurcar, adorar e macular, faces indissolúveis do sagrado.
            Levanta-se, vai ao salão conferir os preparativos para o ponto alto do folguedo: o concurso. O interior da mansão recende a incenso e flores, passando uma impressão de severa suntuosidade em meio ao mobiliário de mogno escuro, aos arquivos, candelabros, móveis e câmaras repletas de antigüidades, bem como dezenas de retábulos, oratórios, imagens e turíbulos. A sala principal da casa é uma reprodução da antiga capela particular dos papas na basílica de São João em Latrão, o Sancta Sanctorum dos católicos.
            O chão e o teto deste salão-capela são revestidos em mármore carrara, as paredes altas abrigam as loggias com retratos de santos e da Virgem, reproduzindo fielmente os afrescos medievais na parte alta com os martírios de São Lourenço e São Nicolau, a lapidação de Santo Estéfano e a decapitação de Santa Inês. No altar, uma antiqüíssima imagem do Redentor e réplicas das maiores relíquias cristãs: um assento da última ceia, sandálias dos apóstolos, a coroa de espinhos, o bastão que açoitou o Cristo, as cabeças de Pedro e Paulo e o prepúcio de Jesus Menino.
            Os convidados chegam. Destacados membros da Cúria metropolitana, decanos de colégios, sanatórios e irmãos de caridade, prelados de todos os níveis da hierarquia eclesiástica, chegavam encapuzados em longas vestes escuras e trocavam com o anfitrião a senha e a contra-senha da reunião.
            ― Quais são as seis questões evidenciais que determinam as ações humanas?
― Quis, quid, quomodo, ubi, quando, cur (quem, o que, como, onde, quando, por que)?
Os mais idosos são levados a um vestíbulo para retocar o figurino, enquanto os mais jovens, em sua maioria seminaristas e diáconos, sentam-se em cadeiras de espaldar alto em nogueira trabalhada. Numa inversão da pirâmide do poder, hoje serão eles os juízes de uma diversão inocente: os altos dignitários montados de drag queen se exibindo para os mais belos noviços dos seminários. O desfile das tiazonas mais lembrava um baile da saudade de Hollywood: Judy Garland, Teda Bara, Carmen Miranda, Scarlett O’Hara, Liza Minelli, Sofia Loren, Luz Del Fuego, Anita Ekberg... Um dos mancebos se levantou da sua cadeira e cobriu com um pano o crucifixo da parede ― não convinha que Ele visse aquilo.
Doutor Jordão, vestindo uma dalmática púrpura, alva e estola brancas, é chamado às pressas. Uns sujeitos estranhos estavam na porta dizendo que dali não sairiam sem falar com ele.
Mas, então, os imbecis da organizada finalmente chegaram... Que belo senso de pontualidade! Tinha marcado com eles às seis. Como é que conseguiram passar na portaria? Só entra neste condomínio quem tem o nome na... Ai, caramba, esqueci de tirar o nome deles da lista! Tanta coisa pra fazer, dá nisso... E agora? Que se danem, vou mandar os seguranças botarem eles pra correr.
― Aí mano, daqui nóis num sai enquanto o doutorzinho aí não der as cara, tá ligado? ― Marquinhos Paraná fazia o valente, sempre escudado atrás do gigante Quilo.
― É-é i-i-isso aí, me-melhor cha-cha-chamar o ba-bacana se-senão... ― Calunga metia sua colher gaguejante na discussão.
― Senão o quê?
Metaleiro avaliou a situação: em volta dos seis se aglomeravam uns quinze guarda-roupas, alguns deles já coçando o berro com a mão dentro do terno. Capitulou.
― Aí galera, vamo desacelerar, os cara tão maquinado, nem adianta se crescer pra cima desses otário... Vamo nessa!
O problema, no entanto, permanecia: como manter o ânimo da tropa depois de um dia em que nada tinha dado certo para eles, e ainda por cima não tinham grana para financiar uma farra em plena festa de fim de ano. Reuniram-se em volta do Monza. Metaleiro precisava de uma boa idéia, urgente.
― Aí Metaleiro, nóis tá aqui dentro num tá? Então, vamo dar um rolê no condomínio dos bacana, se bobear, tem alguma casa aí pra nóis fazer... ―como sempre, o Velho se saía com uma boa pedida.

domingo, 19 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (IX)




ZABA & MATHEUS 22:39

            “Vô, que é que é isso?!” ― de volta ao quarto, Matheus reassume os binóculos enquanto o avô se aboleta no telescópio.
            “Caramba, caracoles, Jesus, Maria e José! Isso aí, menino, é a governanta da casa do Capeta, a Rainha de Sabá, a Messalina da Boca do Lixo, o caminho mais rápido pras chamas do inferno... que pedaçuda, essa dona!”
            “Mas, vô, que fantasia é essa que ela está usando?”, Matheus tremia comovido, ele e o avô tinham engolido às pressas o jantar com a família e corrido para o posto de observação no sótão. Não queriam perder um segundo da noitada que estava se armando na casa da vizinha.
            “Você não tem idade pra reconhecer a personagem... Matheus, a deusa da luxúria que você está vendo é uma reencarnação da Vampirella, uma heroína dos quadrinhos que era uma mistura de filha do Conde Drácula com a Barbarella”, o avô já nem escondia a gulodice no olhar, sem se aperceber, acariciava lascivo o corpo da luneta.
            “Não é mole não, essa bagaça vai cair... não é possível! São só uns fiapos de nada cobrindo os bicos dos peitos, a xoxota, e amarrados atrás...”, o menino tinha razão, a produção da vizinha era de fechar o comércio no dia das mães: botas de salto pretas, tiara dourada no cabelão preto, e duas tiras exíguas de tecido vermelho trançadas sobre o corpo sem muito compromisso de cobrir o essencial.
            “Você viu? O panaca do namorado nem se tocou do pitéu, ela botou um casaco por cima e foi pra sala, vai ver que só mostra o material à meia noite...”
            “Que será que eles estão esperando?”
            Com efeito, Zaba preparava uma surpresa para o namorado, mas Nino teria muito mais com o que se espantar além do figurino dela. Enquanto os convidados não chegavam, ela mandava uísque pra dentro como se fosse guaraná. Sem gelo, na levada do caubói. Ria feito louca desatada.
            “Meu bem, você não acha que está exagerando no combustível? Quando o povo chegar, cê já vai tá bem do breaca...”, meio contrariado, o namorado traíra aceitara se fantasiar: calça branca, sapato bicolor e medalhões de ouro ressaltando no peito aberto da camisa estampada, estava o perfeito gigolô. Sugestão dela.
            “Nem vem, Nino, não é você que vive me enchendo porque eu só trabalho? Que não aproveito a vida? Então, hoje eu tô numas de atolar o pé na jaca. Vamo festar, tchutchuco! Uhu! É hoje que o mundo acaba! Enche o teu copo, vai, tira esse bico da cara”.
            “Que fantasia é a sua? Com esse casacão nem dá pra ver...”
            “Surprise, darling, muita calma nessa hora. Tudo a seu tempo. Ah, o interfone, tem alguém chegando”, levantou-se antes que ele pudesse reagir. Abriu a porta para a personal trainer, a amante encabulada que chegava vestida de caipira de festa junina.
            “Oi amor, você é a primeira a chegar, mas não fica sem jeito, por favor. Tó, pega este uisquinho e já vai entrando no grau. Amanhã você faz um treino reforçado com o Nino pra perder as calorias da festa... Que caipirinha mais fofa que cê tá, linda! Não é mesmo, Nino?”
            “Sim, claro, ela fica muito bem de tranças...”
            “Obrigada...”
            “Hahaha, nessa trança, o fio solto sou eu!”
            “Hã?!”
            “Nada não, vou mudar a playlist. Fiquem à vontade aqui na sala. Hoje só quero música dançante.”
            Dali a pouco chegaram os outros convidados, todos de uma vez. Duas vans alugadas despejaram vinte convidados, também eles alugados: Zaba contratara garotos e garotas de programa para dar uma ‘animada’ na festa. Nino ficou boquiaberto ao ver adentrar aquela casa paginada pelo Armentano, sentarem-se nos exclusivos móveis Campana, uma camarilha de arlequins, vamps, índios de charutaria, garçonetes, enfermeiras, boxeurs, freiras, policiais, professorinhas, bombeiros, encanadores, colegiais... todos e todas, sem exceção, em trajes sumaríssimos.
            Puxou a namorada de canto, furioso: “Zaba, você quer me fazer o favor de explicar esta loucura? Que gente é essa?”
            “Ué, que gente? Ora, Nino, gente que nem eu: com dois braços, duas pernas... ou melhor, gente que nem você, que troca sexo por dinheiro. Só que eles têm uma ética, cobram um preço fixo por isso, não ficam fingindo que fazem por amor. Como você e essa vagaba dessa personal!”
            “Vô, cê tá pensando o mesmo que eu?...”
            “Acho que sim. Quer saber? Vai rolar uma baita de uma suruba lá... Dá uma trancada na porta do quarto, Matheus. Sua mãe tem a mania de entrar sem bater.”

domingo, 28 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VIII)



DOUTOR JORDÃO & METALEIRO 21:46

            Kelson gosta muito de contar a seguinte história.
Ele jogava no clube Pequeninos do Jockey, tinha nove anos de idade e era o craque do time que disputaria a final da categoria petizes. Sozinho no banheiro, descobriu que a porta estava emperrada. Gritou, pediu socorro. Nada.
Qualquer outro garoto iria se sentar e, mais que provavelmente, chorar. Mas não o Kelson, ele queria ganhar o prêmio reservado ao artilheiro do campeonato: uma bicicleta BMX. Subiu na privada, arrebentou os vidros da janelinha com a sola da chuteira e saiu por ali, arranhando-se nos cacos do vitrô. Jogou a final com as feridas ainda semi-abertas, marcou três gols e ganhou o tão sonhado troféu.
Kelson gosta menos desta outra história, mas sempre a menciona quando fala da sua conversão religiosa.
Ele sofreu um acidente grave aos dezessete anos com a sua bike de manobras radicais e ficou seis meses internado. Fraturou cinco costelas, a mandíbula, duas vértebras e o fêmur esquerdo; segundo os prognósticos dos médicos eram grandes as chances de não voltar a andar (setenta por cento). Voltar a jogar futebol, nem se cogitava.
O resto é história: ele se recuperou de forma surpreendente, foi para as categorias de base do São Paulo Futebol Clube, e tornou-se o principal jogador da equipe principal antes de atingir a maioridade. Uma jóia rara. Não um diamante bruto a ser lapidado, mas, como acontece aos grandes gênios da bola, apareceu para o público já pronto para carregar seu clube nas costas e envergar a camisa da seleção nacional. Aos dezenove anos, Kelson não era mais uma promessa, mas realidade.
Tudo na vida do jovem craque parecia seguir o habitual roteiro da jornada do herói: o menino pobre, vindo do nada, portador de um dom divino de tão excepcional, que encontra no seu caminho uma terrível tribulação a qual põe sua vida em risco; a partir daí, ele sofre uma transformação decisiva e retorna para levar sua missão a cabo. Porém, em se tratando do futebol quatro vezes campeão do mundo, as coisas nunca podem seguir cartilhas simples e consagradas ― há um entranhado (pré) conceito de que devemos dificultar ao máximo para os artistas da bola, de modo que, sobreviver, por si só, já será marca de excepcionalidade.
O doutor Jordão considerava o assunto sob o prisma dos interesses do seu amado tricolor paulista; nesta visada, o problema todo residia na chamada Lei Pelé. Ministro do Esporte no governo de Fernando Henrique Cardoso, Pelé conseguira aprovar no Congresso Nacional uma lei que adequava o Brasil ao fim da instituição do “passe” no resto do mundo. Na prática, significava o fim da escravidão no futebol: depois da jurisprudência internacional estabelecida no caso Bosman, cada jogador ficava livre para trabalhar no clube que escolhesse ― como qualquer outro trabalhador em um país livre.
Melhor jogador do mundo, mas um belo de um ingrato, esse crioulo! Onde já se viu, deixar o clube formador sem uma percentagem na negociação desses garotos? A gente gasta uma gaita durante anos nessa molecada piolhenta... e pra quê? Vem um sanguessuga de um empresário, enche a cabeça do garoto e da família, e tchau pro clube que o alimentou, alojou, pagou médico, nutricionista, fisioterapeuta, tudo... Lei Pelé, pois sim, eu é que não vou deixá-lo sair assim, de graça!
Aí residia o impasse: em breve, Kelson completaria vinte anos, pela nova lei, estaria então apto a assinar contrato com a agremiação esportiva que bem entendesse ― detalhe: sem que este clube precisasse pagar um centavo ao São Paulo. Manchester United e Real Madrid mandavam emissários para assistir aos jogos do garoto no Morumbi; em campo, o menino-prodígio desmontava as defesas adversárias com suas irresistíveis arrancadas rumo ao gol. Tinha de agir com rapidez e precisão para salvaguardar o patrimônio do soberano Tricolor.
Um incidente estúpido abriu-lhe a janela de oportunidade de que necessitava: em jogo valendo classificação para a Taça Libertadores da América, obsessão sampaulina, a equipe havia sido desclassificada perdendo fora de casa para uma equipe paranaense. Com o beneplácito do apitador, a partida tinha sido uma verdadeira carnificina; um volante-brucutu encarregou-se de quebrar o craque do São Paulo, tirando-o do jogo com uma entrada criminosa. O garoto saiu de campo aos prantos, imagem que a televisão captou em close. Foi a senha para as cornetas da imprensa amiga do doutor Jordão soarem impiedosas: pipoqueiro.
No jargão do futebol brazuca, com seu peculiar ethos do tempo das cavernas, este é o pior xingamento: ‘pipoca’ é o jogador que salta fugindo da pancada, evitando a bola dividida com o zagueiro-açougueiro. Um crime de lesa-pátria. A reapresentação dos jogadores se daria logo após as festas de fim de ano numa cidade do interior, de modo a evitar os protestos da torcida, furiosa com a desclassificação. Aqui, os interesses do dirigente e do líder de facção confluíam: o plano era levar meia dúzia de arruaceiros para receber os atletas com protestos, de preferência, atirando pipocas na cara do pobre Kelson.
O crime perfeito: a imprensa daria ampla repercussão, o rótulo de ‘amarelão’ grudaria no rapaz, e então, fazia-se a venda às pressas para um clube que o compraria com deságio ― e todos levariam o seu por fora, claro. Na ponta européia encontrava-se o Milan, presidido pelo empresário e político Silvio Berlusconi, que arremataria a jóia por, declarados, oito milhões de dólares. Amigo do cavaliere, o doutor Jordão engordaria o colchão da sua já confortável velhice, enquanto Metaleiro ganharia o financiamento necessário para dar o start na sua própria organizada, livrando-se da dependência dos outros líderes de torcida.
Por isso é que Metaleiro se desesperava, ali, sentado naquele posto de gasolina de playbas à espera dos companheiros que tinham ido na captura de uma porra de um borracheiro. Não podia vacilar. Tinha porque tinha de chegar na casa do doutor Jordão e pegar as passagens mais a grana do alojamento. Senão, como é que iam tocaiar a delegação quando chegasse na cidadezinha onde o tricolaço ia fazer a pré-temporada? Um atraso de horas, e a hora do réveillon chegando.
Que merda, onde que tão esse Velho e o Birinja que não chegam? É o cu da cobra, daqui a pouco esses mané vão inventar de encher a lata... hmm, tá chegando meia noite, daí fodeu a biela, ninguém mais vai prestar pra nada. Ah, mas não tem erro não, seja a hora que for, vou colar lá na casa do cartolão e catar minhas paradas! Desculpa aí Kelson, nada contra você irmãozinho, mas se eu não adiantar meu lado, quem é que vai?

sábado, 13 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VII)



NATASHA & PROFESSOR CAMARINHA 20:29

            Eléos e Phóbos, piedade e terror.
Tanto quanto a tragédia grega encenou os muitos tons e sentidos da dor, a arte cristã se dedicou a representar a paixão de Cristo, ou seja, a história do martírio: a dor extrema do Filho de Deus. Purgação e expiação das paixões. Identificação e compaixão. Paixão mista em que o prazer nasce da contemplação dos limites do ser humano, da visão terrífica da morte.
Sacrifício ritual, culto dos mortos, a arte nunca deixou de ser um exorcismo do incomensurável poder de Tânatos; na arte, reencontramos a dor na sua vertente sublime, descobrimos que a beleza pode ser terrível. Respeitável pai de família, pesquisador nível A da Capes e figura de proa da intelligentsia tupiniquim, o professor Camarinha mantém oculto um lado da sua vida. Ele é um esteta da dor.
O professor descobriu o segredo dos torturadores de todos os tempos e lugares.
            O pensamento clássico segrega mente e corpo em universos paralelos; quando dizemos distraidamente ‘meu nariz’, ou ‘minha perna’, salta aos olhos (e aos ouvidos) a exterioridade do ‘eu’ que fala na relação com o ‘seu’ corpo. Eu não é um corpo, eu é um outro. Etc., etc..
            Ora, o objetivo primeiro e último de qualquer suplício é devolver este eu onipotente ao corpo em agonia; derrubar a dignidade da primeira pessoa do singular, reduzindo-a a um feixe excretor de sensações. Carne e medo.
            Prosaico silogismo do carrasco: você é este corpo, este corpo me pertence; logo, você me pertence. Cequedê. O caroço desta verdade quebra a espinha ao mais durão dos idealistas. Memento mori pra ninguém botar defeito.
            A um sujeito destituído em sua palavra, corresponde um corpo despido do seu próprio controle, que não pertence mais a si mesmo, transformado em objeto nas mãos perversas de um outro cujo poder não tem limites. Nesta experiência de ultrapassagem e redenção, de cruzamento de fronteiras e concomitante restabelecimento de padrões, Natasha é mestra em extorquir dele as verdades recalcadas, em alçá-lo aos cumes gêmeos do sofrimento gozoso.
            O interfone tocou. Chegara, finalmente. Abriu a porta para ela já vestido com o pijama de estampas infantis; os membros peludos e a pele do professor contrastavam com a tez mais clara da careca.
            “Hãm, oi, boa noite, deixe-me ajudar com o casaco... Aii!!”, ainda no vestíbulo, mas já com a porta fechada, levou a primeira chicotada da noite.
            “Quem deu autorização pra tocar em mim?”, Natasha já tinha incorporado, usava a máscara da Mulher-Gato, os longos cabelos castanhos a lhe cobrir os ombros. “Pega a minha mala. Leva pra lá. Só abre quando eu mandar”.
            Desfez-se da capa de vinil sobre uma poltrona. Relanceou os olhos pelas paredes da sala cobertas por prateleiras de livros. Caixas de som tocavam ‘No Castelo do Rei da Montanha’ do Peer Gynt. A filmadora a postos sobre um tripé. Conferiu o enquadramento da câmera na telinha. Perfeito.
            “Já posso abrir?”
            “Não ouviu o que eu falei?”, e, pimba!, sapecou-lhe o reio de novo, nos quartos. Natasha apercebeu-se satisfeita da ereção que já lhe estufava o pijaminha.
            Devidamente autorizado pela patroa, o escravo pôde, enfim, abrir a maleta, de onde foi saindo uma cornucópia de couro e metal: correntes, arreios, coleiras, uma chibata, uma máscara de gás emborrachada, algemas de zamak cromado; e o principal acessório, o Bernardão.
            “Vamos passear agora”, puxou-o pela coleira, dirigindo-se para a cozinha, “Mas vou avisando: toda e qualquer desobediência ou mau comportamento serão severamente castigados. Responde!”, deu-lhe um repelão brutal na coleira.
            “S-sim senhora!”
            Natasha pôs a água para esquentar no microondas. Cinco minutos.
            “Ah, não é possível, babando na minha bota!”, desfechou-lhe uma saraivada de golpes com o chicote de nove tiras. O servo se contorcia gemendo excitado, acariciava o membro intumescido.
            Levou-o para a sala aos pontapés.
            “Já pro castigo! Mau, muito mau menino, agora não pode dizer que não avisei... Vira pra parede, já! Está de castigo até eu mandar!”
            “Na-ãao, o castigo não, perdoa mamãezinha, o castigo não...”
            “Você errou, e sabe que tem de ser punido para o seu próprio bem. Isso dói muito mais em mim que em você...”, ouviu o sinal do microondas, voltou para a cozinha arrastando a mala de rodinhas metalizada. As botas de salto alto ressoavam no assoalho de tábuas corridas.
            Natasha preparou com cuidado o Bernardão: um consolo avantajado, em borracha crua, calibroso, e equipado de êmbolo. A água deveria estar tépida, nunca quente demais.
            “Abaixa essas calças, pirralho atrevido, chegou a hora do enema! Vamos limpar toda a sua sujeira, até a de dentro”, ela se movia com os passos elásticos de pantera, a roupa de suplex delineando a silhueta sinuosa, o ameaçador rabo-de-tatu preso na cintura.
            “Mas... já? O Bernardão agora não, nem tô com a tripa presa... eu fiz cocô direitinho como a senhora gosta, por favor, agora não.”
            “E eu te perguntei alguma coisa, moleque?”, Splaat, estalou uma chibatada nas nádegas do professor. Ajustou algemas nos pulsos e tornozelos dele, arriou a parte inferior do pijama, untando-lhe o ânus com gel de xilocaína. Introduziu o dildo cuidadosamente.
            “Unff!! Aiii, pára com isso, não faz isso comigo, assim, hmm... pára...”
            “Isso, este é o meu escravo, assim que eu gosto... vai confessa, fala pra mim todas as coisas feias que andou fazendo”, a dominatrix esvaziou o êmbolo do Bernardão, injetando dois litros de soro morno nos intestinos do masoca. Sentia estar se aproximando de alguma coisa nova com o súdito, um novo limite ia ser quebrado naquela noite; a excitação que ele apresentava era maior do que o habitual.
            Descalçou as botas. Tirou as meias.
            “Hmm, ai, que duas jóias mais lindas, que dedinhos! Posso...?”, ele pedia, mas já se atirava sobre os pés da tirana, lambendo-os, sôfrego.
            “Você sabe o preço, né? Sabe ou não sabe? Responde!”
“S-sei sim senhora”.
“Lambe primeiro as solas dos meus sapatos, já!”
            Chegaram na parte da cena que Natasha mais gostava.
Calçou as suas pièces de résistance: sandálias de salto alto; simplesmente duas jeweled-fish de Giuseppe Zanotti. Usando algemas com afastador, prendeu-o deitado de bruços a uma coluna da sala. Caminhava sobre as costas do sujeito, perfurando-lhe a camisa com o salto afiado no calcanhar. Pequenos botões carmim emergiam no tecido.
Vestiu o rosto dele com a máscara de gases. A vítima gritava, choramingando palavrões abafados pelo bocal de borracha amarela.
“Grommfbb, ca, ca...”
“O que é que você falou? Mais alto, quero ouvir!”
A hora da verdade.
A fronteira da qual recuara até então. Trocou a posição das algemas no poste de suplício, virou-o de barriga para cima. Era necessário que visse tudo. Afastou as pernas sobre o peito dele, abriu um zíper no macacão de suplex que atravessava o cavalo da calça da frente ao cóccix. Concentrou-se. Em breve, um bem formado tolete se depositava sobre a barriga do escravo.
O professor Camarinha arquejava em êxtase. Manchas úmidas se alastravam nos calções do pijama.

domingo, 7 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VI)






OSSADA & REINALDO 20:02

            A última balada do milênio corria perigo.
            A casa do amigo ficava próxima da sua, na rotatória do Sunrise Village; nem trocou de roupa, foi só o tempo de estacionar a moto, largar a mochila, bolar o back e já batia na porta do quarto de Reinaldo. Ossada estava sem planos e sem grana para cair na night; uma reunião do alto comando era necessária para restabelecer a estratégia, já que os objetivos eram cristalinos: erva, perva e cerva.
            “E aí pé-de-pano, ah não, ainda de pijama?! Vai ver que a Cinderela precisa que a minha rola lhe dê o beijo do verdadeiro amor pra despertar...”, embora o desânimo do parceiro fosse previsível, Ossada não aceitava derrotismos mesmo com perspectivas tão sombrias.
            “Cê viu a presepa que a minha mãe tá armando? Sinistro, mano, jantar com um monte de gente que eu não conheço, ou que conheço o bastante pra não gostar”, sentou-se apoiado no espaldar da cama vendo o parceiro laricado se entupir de filhoses roubadas à cozinha da mãe, “Meu, que porra é essa na tua calça? Tá zoado... vixe, a perna tem uma queimadura”.
            “Ah, isso?, foi uns rosca lá na avenida, me jogaram um morteiro; mas dei o troco: esguichei refri no parabrisa da barca dos maluco, foi mó louco, apavorei, dei petê nos malaquia...”, Ossada enfiou o tapete na fresta inferior da porta do quarto e acendeu um baseado grosso como uma vela de sete dias, de deixar rastafári envergonhado: jamaican size. Puxou uma cadeira para si. “Hahaha, se fuderam, mas e aí nóis, onde vamos festar essa noite? Mano, cê sabe que eu tenho uns lances, tô sentindo que hoje é dia, vamo dar uma, meu broder, vamo me-ter, tá ligado?, me-ter, furunfar, fincar a estaca, descarregar a pistola, dar um picote, arreganhar a chapeleta, escalavrar a piça, sacudir o joão-bobo, esganar a gata, descabelar o palhaço, passar o rodo, descascar o palmito, maltratar o pirata, arregaçar o freio, desentortar o toucinho, estrunchar a alcachofra, apontar o lápis, ralar o bilau... muleque, hoje eu tô a fim de botar uma roupa de couro na estrovenga... couro de buceta, copiou?”
            Acompanhava as palavras de manejos que se pretendiam eróticos, balançando os quadris em sintonia com os braços; Ossada simulava uma trepada com o ar, ‘sensualizava’, como ele mesmo dizia, mas tudo que conseguia era a mímica de uma lombriga lúbrica e desconjuntada tendo um ataque epilético. O grandalhão não conseguia ficar parado meio minuto, um mapa do Chile com déficit de atenção e hiperatividade; nem bem terminou sua dança do acasalamento das enguias pré-históricas, e já estava vasculhando o quarto. Atrás sabe-se lá do quê.
            “Aí garanhão, se liga na facada que tão as balada: Flag, cento e vinte cinco pilas, bebidas à parte; Gallery, cento e oitenta; Maksoud, cenzão; Avenida, sessentinha com consumação; Disco Fever, vintinho sem convite, quinze com...”, Reinaldo se interrompeu, deu um pega na charuleta. “Na boa, Ossada, tamo sem um tusto, vamo acabar é fazendo justiça com as próprias mãos...”
            “Caralho, mano, deve ser por isso que as mulher não larga do teu pé: é esse seu otimismo que contagia! Não confia no xaveco, mané? Mulher se ganha também de bolso vazio, mano”.
            “Não é isso, porra, é que precisa um pouco de logística, ter um esquema”.
            “Rei, tu é um gênio... ao contrário! O esquema á papo reto, tira o mata-burro dos neurônio: vamo pro Réveillon da Paulista, arrastamo as mina pra cá, e aí meninão, é só correr pro abraço...”, lembrou dos pais que tinham ido mergulhar no Caribe com a irmãzinha cedefe, largando ele aqui sem um puto e a chave do carro cassada. Só porque tinha levado chumbo na escola de novo ― vinte anos e ainda no colegial! ―, tremenda injustiça.
            “Virada na Paulista com Maurício Manieri, É o Tchan! e Os Travessos?, tô fora, irmão”, só então se deu conta da armadilha, os neurônios finalmente se encontraram num baião de dois, “Ei, pera lá, se vamo na moto, trazemo as mina aonde?”
            “Enxergue a beleza na simplicidade: pegamo o carro da sua mãe, arrastamo as marvada pra minha casa, e bola na rede, broder!”, remexia nos frascos da prateleira, até que achou algo que podia dar barato; no rótulo lia-se: Dry Quik. Deu uma cafungada master.
            “Que cê tá fazendo? Ai, não, é o removedor de pintura dos meus aeromodelos... taquiospa Ossada, tu é bem louco mano!”, agora como é que ia pedir o carro emprestado para a mãe?, ele, chapado, o Ossada, pra lá de Marrakesh, fedendo a oficina de sapateiro.
Foda, viu.
            Ossada era assim, ame-o, ou deixe-o. Coração de ouro, mas um baita garoto-enxaqueca. Sempre causando. Antes de se perder completamente numa cambiante névoa púrpura, a mente do tresloucado rodopiou pelo quarto girando pensamentos e emoções num vasto carretel sem eixo nem direção.
Meus pais querem que eu estude pra quê? Pra ficar igual os bostas que moram neste manicômio de bacana? Quando um filha da puta de BMW arrebentou o pai do Reinaldo, o que fizeram? Garantiram o emprego pra mãe dele; pronto, tudo resolvido. Nunca uma pergunta, nunca uma palavra de consolo pra família, zero solidariedade. Então é isso?, virar burguês, andar de camisa limpinha e cueca suja?
            Odiava aquela situação, pagar de babá de chapadão. O pobre menino rico. Apagou o bamba. Ligou um pequeno ventilador para desbaratinar o cheirão de marufo.
Não tinha alternativa, precisava esperar a onda passar antes de poder botar o nariz para fora do quarto. Os convidados da mãe chegavam. Cabeça baixa, escanchado na cadeira como um trapo sujo, o amigo murmurava absurdos; deitou-o na sua cama. Vestiu-se por falta do que fazer.
Era incompreensível. Ossada, filho de milionário, era tão fudido quanto ele, o filho dos proleta nordestino. Olhou para o alemão doidão espremido na cama curta; na teoria, tinha tudo para odiá-lo.
Era o seu melhor, e único, amigo.