quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

o mel é a um tempo amargo e doce



O humano não existe, é dito.


Queremos saber se está nele o monstro, ser homem e mulher, ser mãe e filhos, trazer em si toda a fúria dos desertos.


Dizemos que o gigante está em nós.


A mão que fia o mais que precioso fino fio, entrega a lista dos que vão para o estígio rio.


É a mão do homem.




domingo, 4 de janeiro de 2009

por quê o Pedro Bial tem aqueles dentes?

Desenho de Roberval Salles

sim porque TODO MUNDO na tv tem os dentes não brancos mas reluzentes de alvura na tv tudo brilha e cheira a novo a não ser quando entrevistam os tais “populares” daí que a pergunta poderia ser más bien para quê os mantém assim e o mais irritante é saber ou antecipar que a resposta é do tipo carta roubada está literal e constantemente na nossa cara e no entanto esquecemos por descuido preguiça lassidão que aderem ao pensamento como a velhice se deposita na pele nos ossos e articulações e progressivamente incapacita para a conversação com as crianças aliás estas talvez respondessem com a sabedoria fabular é para te comer melhor mas então eles os dentes não seriam de Pedro mas do Lobo e dentes de lobo são pontiagudos separados e bem brancos em contraste com o corpo o pêlo e a floresta negros é sempre a Floresta Negra nas ilustrações ou aquelas fieiras de dentes do cartaz de Tubarão jaws não não são antes dentes de rato irregulares sujos pequenos mas singularmente poderosos os dentes dos famosos são grandes e limpos como a nos recordar que para chegar lá eles os bacanas precisaram morder muito aniquilar muitos então percebe-se o alcance da mensagem é de comer gente e ser comido por gente que se trata canibalismo é a palavra já o canibalismo-ato tem a ver com quebrar para conhecer estraçalhar para conservar ambivalência com o amor devorado ódio ao objeto ao laço à relação àquilo àqueles que amamos filiação e identidade alimentação incorporação e despedaçamento estaremos condenados a destruir tudo que amamos outra possibilidade seria pensar num certo charme europeu europeus têm dentes péssimos é fato sabido bem como os acadêmicos mas nestes o buraco é mais pra dentro o bafo intelectuais acadêmicos têm bafão é outro clichê na certa porque comem muita coisa ruim muita gente também boa ou ruim os dentes ficam sujos devido aos restos aos detritos que a comensalidade indiscriminada acarreta essa história de viver com podreiras na boca que diz masca expele engole tritura regurgita cospe mói deglute rilha engulha o que não temos coragem de encarar nem em posto de estrada tresnoitados de cansaço e sono e impaciência e fome rodoviária de chegar ao destino o ser humano é bastante incoerente e talvez seja isso que o Bial está berrando no vídeo nem tudo fecha nem tudo é perfeito o que eu acredito não bate com que eu digo e bate menos ainda com o que eu faço os humanos não podem ser inteiramente coerentes sob risco de desabamento central do ser o equilíbrio a plenitude a justiça a harmonia são fatalmente cansativos como a ilha de Circe desperta a nostalgia da ilha familiar imperfeita dos rancores e intrigas do ódio aos seus ao qual sempre retornamos desterrados na própria casa édipos odisseus já que o que está perdido volta como fantasma desde que se tenha fodido tudo antes e desta forma o CANIBAL MELANCÓLICO é um assassino do tesouro que custodia daquilo que vai manter presente a partir da ausência que então não é mais perda mas retorno alucinação compreensão do outro do diferente desde que o possa matar comer porque na tv só me interessa o que não é meu só existo onde não estou quase posso ouvi-lo dizendo lá a verdadeira vida lá na telinha dou carteirada trabalho na Grobo no logo me espia um olho ou globo dentro de uma tela com outro olho-globo dentro portanto sou prisioneiro do espelho mas o espelho também é meu prisioneiro “fora rede globo o povo não é bobo” e naquele instante apostava sinceramente numa vida num país melhor e por isso a emissora do plim-plim sacou a levada do Bial a espiadinha básica não adianta esconder a vocação desse negócio é mostrar escancarar tudo sim desde que somos modernos vivemos aglomerados em massas desde a aurora da humanidade socializamos em torno do espetáculo a fala encantatória da poesia vidiota Bial é o cara o oficiante do casamento sem nós do exibicionista com o voyeur um fantástico show da cena cínica what you see is what you see meu sonho é o seu o seu céu é o meu eu sonho o que você quiser que sonhe o Olho pode ser a boca-cloaca pública testemunha do corpo no qual vivo como recheio imagem que me presentifica uma imagem é o que como com os olhos e absorvo com os dentes de uma barriga vazia de sentidos we the people na multidão não há só anulação das diferenças em benefício de um líder o que aconteceu é que os líderes deixaram de fazer diferença eu dizia que o Bial tem dentes de rato e o rato é o Delator no que insisto a nossa relação doentia com as palavras dá-se toda e nenhuma atenção a elas por exemplo os dentes e o jornalista escritor cineasta não estão lá por acaso o Grande Irmão não é o Grande Pai que nos fez à Sua imagem e semelhança o Grande Irmão é a soma imaginária das dessemelhanças do semblante de cada um nós o fizemos e quisemos assim como é e ele só faz o que mandamos que faça Pedro Bial Hebe Camargo Sílvio Santos não são pessoas como nós ELES SÃO AS NOSSAS PESSOAS somadas individuadas empilhadas transformadas aglutinadas caras que odiamos amar bocas que amamos odiar a democracia abole as aparências decentes da representatividade na democracia os representantes são pássaros na gaiola de ouro da representação atores à deriva numa escolho móvel na pós-modernidade o Outro é o travesti do Mesmo na pós-modernidade o rei é um escravo que sente saudades da guilhotina única liberdade que lhe resta nela o povo opressor é livre e soberano para comer quem quiser

domingo, 21 de dezembro de 2008

babuínos têm úlcera (zebras não)

rua mota paes
rua mata-pais
em pós
matar o país
ser vítima da própria verdade

Deus é o nome do problema
Gratis pro Deo
e também o problema do Nome
o paralelo moral

tudo cabe na palavra tudo
toda coisa na palavra coisa
Deus, uma das máscaras mortuárias do Louco
personagem necessário
do sonho
― máquina de torturar babuínos ―
aparelho de báscula
nos gradientes
fundo-figura
[que vão] do Desejo para
o Real
e vice versa

porque no princípio
era só o Princípio
(o Grande Arquivo)
Logos/Físis/Hilé
são Meta

Deus é o enigma d’A Mulher
mas não sabia de nada
em Sua feroz ignorância
Dele a mão invisível do mercado
de sujeitos modernos
orgulhos tribais
empresas transnacionais
― e também não sabia dos ativos inflados
nem do rodo que passa todo dia nas bordas
do Sistema

a que serve a eminência
ausente
da operação abstrata (que gera a)
produção simbólica (vendida pelo)
marketing fantasmático
uma vez que a regra do jogo
é:
fique vivo
ainda mais que a Deus e à Mãe
nunca se perdoa
de todo
exílio tão insensato
a vida?


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


onde não sei
onde não sou
onde não fui
e não estou

no arrastar das horas
quem dói mesmo
são os joelhos

mas espiando pela fresta
da vida que espera
já se pode ver um pouco
de verdade a granel

desmanchei um muro e fiz uma estátua

o sonho
o símbolo
a sombra
o susto

respire:
já passou
porque jamais houve

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

a vontade do grupo desperta a paixão do artificial


A tua vã glória, Zion, é princípio do ser global
o lírio da dominância hostil encarniça
telas iminentes sob a história View Master
e dobras retornos de potestades auto-engendradas exponencialmente
organismos de terror puro e sentimentalidade
carapinas e súditos do: “Vá e leia”
pululam em raios UV nos vácuos pânicos nos interlúdios
do economista celibatário

Zion, país evitável de cidades impossíveis
poderia eu louvar perante os inimigos teus tribunais da parole
as constelações do teu céu de sonoridades interruptas
que liderou psicologias & mitos & desligamentos
idênticos
és o pó do pó de
um dormir ruim
ou murro ou mato ou me morro

Tu matarás, tu serás morta e mortos serão teus assassinos
teu corpo físico devorará o corpo quântico
das hagiografias
negativas
incluindo as termináveis listas de seres miraculantes

Tudo somado, não sobra mais que um posto na Floresta dos Nomes
uma verdade que afirma o império duvidoso
da Palavra, sabendo a vida vaivém
do Inarticulável
e que no coração do circo
sempre cabe mais um palhaço
e, na tua forja, Zion, as Assembléias trapaceiam na liga, no peso, no amálgama,
da Coisa
se lhe roubam metade,
fazem dinheiro
se roubam um quinto,
fazem notícia
se roubam um milésimo,
fazem um reino

“Em cima do catarro
Tem um copo edipiano
Quem bebeu, morreu
O azar foi seu”

domingo, 14 de dezembro de 2008

CONTINUUM



Estacionou o carro após três horas e meia de viagem, os labradores dispararam uma algazarra de lambidas e pulos; os latidos ecoavam no braço de encosta coberto da mata densa que envolvia a casa e descia em declive abrupto até as franjas da praia. Manuela recolhia ao santuário das suas crises; uma semana isolada de gente e celular desligado seria, mais uma vez, suficiente para recuperá-la ― os sócios que segurassem os BOs na agência. O caseiro e a mulher estariam fora no final de semana: um feriado religioso caindo no sábado. Finados, talvez.
Que importa, agora só lhe importava mesmo preparar um dry martini decente, se largar na rede da varanda de frente para a vegetação, ouvindo o mar à distância. Balançando de leve, sem pressa para se entregar ao livro em suas mãos, meio embalada pelos esbarrões dos cachorros e o canto dos pássaros, meio desperta pela sensação gelada dos dedos que mergulhava no copo, ela recorda o ponto exato em que largou o texto. Os olhos encontram na página a última frase lida: “... os limites do seu destino tinham sido traçados pelo seu desejo.”. Poucos compreendiam, e muitos se admiravam, desta capacidade que tinha de ficar só.
As duas marcaram o encontro no alto do morro. Uma delas, na verdade Jéssica é um travesti, já está esperando no barraco abandonado; há poucos objetos na cena, a mesa bamba e sem cadeiras, a cama é um madeirite apoiado em pés improvisados de tijolo baianinho e a espuma verde manchada por cima. Um sagrado coração de Maria na parede. Chega a mocinha: jeans largo, tênis de lona colorido e blusa de alças ― o cabelo curto lhe dá um certo ar de tomboy ― ; ela repara que Jéssica está sangrando, faz menção de ajudar, esta retira a mão.
Manu estica seu braço pelas costas da rede, sentindo na mão a textura agradável do algodão cru contra a cabeça. A traveca desfaz o primeiro dos dois embrulhos que trouxe: um trinta e oito com a numeração raspada; abre o tambor, conta as balas, entrega-o à outra.
― Tó aí, amapô, a minha parte eu fiz ― chupava o sangue do corte produzindo um barulho agudo. ― Fiz isso daqui cortando a carne pra você. Entendeu o caminho que te expliquei?
― Sua grana. Deixa comigo; a trilha sai dos fundos do barraco, certo? ― Jéssica confirmou com um aceno, ela guardou o berro e o outro pacote numa pochete que usava atravessada no tronco franzino. Despediram-se em silêncio.
Saiu quase correndo pela mata para aproveitar o resto de luz do dia. Um suor acre e viscoso se empastava na pele e os mosquitos a atacavam sem dó, mas o pior era uma ridícula lembrança que se intrometia no pensamento, uma frase de circo, hoje tem marmelada?!, repetida pela mente a cada vez que a arma dentro da bolsa se chocava contra os peitos. Procurou afastar essa bobagem da cabeça para se concentrar no caminho e em cada etapa que deveria seguir. Os cães iam estar muito ocupados para atrapalhar. Sem criados. Atravessou a cerca passando por baixo, contornou então o terreno pelo lado oeste.
Subiu no alpendre e parou alguns instantes para se acalmar; o coração batia tão forte que acreditou que poderiam escutar suas pancadas violentas na casa vazia. Hoje tem marmelada? Caminhava pisando de leve o assoalho de tábuas corridas, observando as vigas enormes de madeira envernizada no telhado enquanto se aproximava apoiando a mão livre na balaustrada. Escurecia rápido. Engatilhou o revólver puxando o cão lentamente para não fazer barulho; como calculara, o alvo estava de costas, agora perfeitamente visível. O braço estendido para fora, dedilhava distraidamente os cordões da rede.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

a treva é quem desacerta as cores




o carro estava ali, parado, demorando
até que veio o apagão:
de madrugadinha, tomando este e mais dois quarteirões abaixo
um buraco de escuridão medonha
no meio da cidade;
foi no instante que entrei,
antes é preciso dizer que o camarada estava
do lado de lá da rua, à esquerda da minha guarita
e era um pretume sem falhas, grosso
igual piche,
daí que o clarão medroso da chama
não vencia a espessura da noite por toda
força que fizesse
mas era o bastante para graduar a dimensão dela,
como uma vela cria tons na sombra
ou como o negror da roça são trevas
de outra matéria das que temos aqui;
ele deve de ter acendido um isqueiro ou fósforo dentro do carro,
acontece que naquela situação
o ar se encheu de grãozinhos de um cinza
mofado
mas que esplendiam com todas as cores do arco íris
fagulhas ciscando a noite, azougues
semelhavam, tanto que foi o instinto que tive:
pisquei

domingo, 7 de dezembro de 2008

um rei é sempre a caça de outro rei




Mueni-Congo, Mobemba Muzinga (Mobemba Muzinga, Rei do Congo)

Na margem esquerda da foz do rio Congo os navegadores deixaram um padrão ― pilar composto de uma coluna circular na base, um bloco retangular com o Pavilhão das Quinas esculpido na pedra calcária e encimado por uma cruz de ferro ― no qual assinalavam o ano, “6681 da criação do mundo e 1482 do nascimento de Nosso Senhor Jesus”, bem como a posse daquelas terras a D. João II, o Príncipe Perfeito. O capitão da esquadra e escudeiro real Diogo Cão, navegou muitas milhas adentro do Congo ou Zaire, rio a que os portugueses chamariam Poderoso a justo título, já que vem a ser o segundo maior da África. Não acharam indícios de passagem, por terra ou água doce, para o Oceano Índico, nem penetraram os domínios do lendário rei cristão africano, o Preste João, mas estabeleceram proveitoso contato com a rainha Malele kya Nsi e o reino do Congo. Esta viagem serviria mais tarde de modelo a duas outras na ficção: na travessia do rio-continente mítico de O Coração das Trevas, romance de Joseph Conrad, como no Vietnã de Apocalypse Now, filme de Francis Coppola, é o ocidental, na pele do agente/coronel Kurtz, que vai além dos “limites das aspirações permitidas”. Na história, no entanto, é o poderoso herdeiro de um reino milenar, o Mani-Congo, o rei Mobemba Muzinga, quem perde a cabeça diante dos amindele, “baleias que vêm do mar”, ou vumbi, “cadáveres vivos”, que foi como os brancos pareceram então a seus súditos. Fosse por obra dos missionários dominicanos, fosse o cálculo político de quem queria se livrar de adversários, o soberano converteu-se ao cristianismo; Mobemba Muzinga, a quem D. Manuel, o Venturoso, trataria, na correspondência que passam a trocar, de “primo” e por quem será chamado de “irmão”, abjura seus antigos deuses, muda o próprio nome para D. Afonso, troca o da capital, Quibango, para São Salvador do Congo e solicita ao papa bênção apostólica. Quando D. Afonso-Mobemba morreu envenenado, seu poderio militar decaíra, seus domínios haviam encolhido geograficamente, a aristocracia congolesa tinha sido vendida para traficantes de escravos e, daí em diante, nunca mais um Mani-Congo voltou a exercer poder efetivo, nem desfrutar da felicidade de morrer na velhice ou na glória da morte em batalha.


Montezuma, México-Tenochtitlan Uei Tlatoani (literalmente: Montezuma, aquele que fala no México-Tenochtitlan)

À frente de 35 dos seus mais valorosos soldados, Mobemba Muzinga derrotou o exército de 3.000 do seu irmão Penzo Muzinga; depois de lhe cortar a cabeça, ofereceu o fígado e o coração aos guerreiros no banquete da vitória e, ainda manchado de sangue, subiu ao trono de ouro onde foi coroado, sorrindo ao povo como era a tradição dos seus antepassados. Naquele momento, num continente que viria a se chamar América, o imperador Montezuma fechava a cara; no calendário azteca, os tempos se avizinhavam do advento de estranhas profecias: os mexicanos contavam o tempo em ciclos de 52 anos, os quais dividiam em 4 séries, ou “cores”, de 13 anos de duração a que davam os nomes equivalentes a “Coelhos”, “Bambus”, “Pedras” e “Casas”. Exatamente como funcionaria um baralho de 4 naipes, sem coringas. O mundo em que viviam, o quarto desde a criação do universo, seria destruído pelo fogo, assim como dilúvios, terremotos e furacões haviam encerrado as eras anteriores; chegaria naquele fatídico quarto ano das casas do oitavo ciclo o deus do vento que sopraria o fogo exterminador, o temido Quetzalcoatl, a Serpente de Plumas Preciosas viria do leste na figura de “um homem de boa aparência, aspecto grave, pele e barba brancas, vestido com longa túnica branca”. Nesta época vivendo em Cuba, Hernan Cortês sonhava: arrancado da pobreza, via-se ricamente vestido e sendo servido por estrangeiros que lhe diziam “numa língua gentia, palavras honoríficas e de louvor”. Na câmara de audiências do seu palácio flutuante, Montezuma observa o objeto amarrado na cabeça de uma ave, “grande como uma águia”, capturada por pescadores no lago Iztapalapa, que tanto impressionaria os conquistadores espanhóis, e que dividia em duas ilhas a sede da belíssima capital do seu império. Era um espelho, redondo e muito polido, onde se desenrolavam imagens miríficas de homens chegando em grupos armados, montados sobre bichos desconhecidos; enquanto o imperador se virava para perguntar o que era aquilo e qual o significado daquelas visões a seus astrólogos e sacerdotes, o pássaro desapareceu. A 8 de novembro de 1519, dia particularmente funesto na astrologia azteca, no qual nasciam mulheres loucas e nigromantes assassinos, os temidos Tepupuxaqueirichos, Cortês cruzava, à frente de pouco mais de 380 homens e 12 cavalos, a ponte que dava acesso a Tenochtitlan. Os nobres senhores de Tetzuco, Teotihuacan, Tlacopan, Iztapalapa e Coyoacan estavam ricamente vestidos, mas descalços, como símbolo da sumissão a Montezuma e aos estrangeiros que lhes explicaram que vinham em nome de um Deus maior que todos, ao qual obedecia o imperador que governava a Espanha, novo dono daquelas terras. Inquiriram então sobre tal senhor, dono de tantas terras, e desse Deus, tão grande que se dizia único, ao que Cortês, de bom grado, os instruiu na doutrina cristã. Quetzalcoatl, a quem Cortês se referia como Sua Majestade Carlos V, lhes mandava a mais estranha das mensagens: de agora em diante, deveriam abandonar os deuses que exigiam deles homens vivos como alimento, por um deus vivo que era comido em sacrifício pelos homens.

sábado, 6 de dezembro de 2008

o livro de bolsa da mulher moderna...


Rainhas do Romance
Autoras best-sellers
Histórias consagradas


Romances Históricos
Medieval
Regência
Heroínas que desafiam a tradição
Guerreiros das Terras Altas
Nobres
Cavaleiros


Desejo
Emoção
Sedução
Família
Poder e negócios


Desejo Fuego
Romances modernos
Relações ardentes




Paixão Sexy
Romances contemporâneos e picantes
Cenários urbanos


Paixão
Cenários internacionais
Muito glamour


Destinos
Romance e suspense
Sagas. Trilogias.


Jessica
Sensualidade
Sofisticação
Heróis internacionais

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

de leveza são capazes diversos elementos, vários gases

rondou por horas

o tormento desde o telefonema

dela

chegou, finalmente, atrasado

rezando

para que já tivesse ido embora

então

teria uma desculpa para

sair por aí,

nenhuma mulher com o bom senso e o juízo

e o orgulho

no devido lugar, perderia a chance

seria o retorno à paz

e ao desespero

àquilo que mais estava acostumado:

a infelicidade familiar traduzida

pelo gosto de nada na boca, involuntária,

a saliva

começou a descer-lhe

pela carne,

ganchos de ferro arrancavam

nacos de pele, tufos, fios soltos,

(a libra de Shylock)

o apartamento em polvorosa

uma meia de náilon pendurada numa cadeira

como o rabo de um gato

que não pode mais

sorrir

sábado, 29 de novembro de 2008

As Origens do Romance


“(...)Vê cá a costa do mar, onde te deu
Melinde hospício gasalhoso e caro;
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obi; entra em Quilmance.”
(Luís de Camões, Lusíadas, canto X, 96, 5-8)


Romanço ou romance, assim se nomeavam as variantes locais do latim vulgar, que se desenvolvem após a derrocada do império romano entre os séculos V e IX. A sua origem encontra-se na locução adverbial romanice loqui, literalmente, “falar à moda românica”, ou seja, a fala plebéia e popular, por oposição a latine loqui, “falar do jeito latino”, vale dizer, na linguagem oficial da regra culta.

Romanço (romancium) forma-se por substantivação do advérbio romanice e apresenta desenvolvimento semântico bívio: de língua vulgar, forma corrupta e divergente da fala romana, passa a designar a “fala popular de um país” de um modo geral; por outro lado, romance evolui também para “poema narrativo composto em língua popular” ou “conto, canção e narrativa em prosa”, noção hoje predominante.

Na primeira acepção, atualmente em desuso, vai acima o verso camoniano (é de notar no mesmo fragmento o uso de ‘rapto’ no sentido original de ‘rápido’); da segunda vertente, ainda transparece o antigo sentido em vocábulos como romanceiro, “coletânea de cantigas e contos folclóricos”.

Pode-se falar propriamente de romances hispânicos (o português resulta da transformação de um destes romanços, o galego-português), romances italianos, romances gauleses e assim por diante. Caso se mantenha como língua franca da Web, especula-se que o inglês ― língua de estrutura gramatical simples e regular, além de riqueza léxica ― pode vir a originar diversos dialetos locais. Novos romances (nu romances).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

METAPHYSICS OF BEAUTY


with the problem of the universe
revolving
in me, I would say


“Roll on, thou deep and dark blue ocean, roll!”


I, too, roll
lulled by the blending cadence
of waves with feelings
into such an opium-like absentminded
unconscious

reverie

domingo, 23 de novembro de 2008

TVENDOPASSAR




mim
caminhando na multidão
por um breve instante
uma mulher
reflete o odor da vitrine
painel sinestésico, êxtase
mediascape
todas as histórias
já foram vividas
cada um destes lugares
visitados
por todos



aqui só há signos
ultra-violência
mais-que-realidade
vida por procuração
(pain by proxy?)
ou reciclagem permanente



FIQUEI ASSIM
DEPOIS DE
W. BENJAMIN

sábado, 22 de novembro de 2008

por que não me ufano... de ser h(um)ano - parte II




Deixem-me contar-lhes uma história que está acontecendo agora mas não parece, que neste exato momento é uma não-notícia, de tão escondida que fica na pauta das notícias e crises que não têm importância nenhuma:


“Começou de novo. Trezentos e cinqüenta mil. Talvez nunca tenha cessado de fato, pode ser até que nunca vá parar; pode ser que seja este o limite do humano: a recusa em desligar o horror; não vamos, não podemos, abrir mão da barbárie por mais que protestemos o contrário, por mais que não queiramos ver o que é o duplo da civilização, ou quem é a sombra deste animal atormentado acima de tudo que sofre e faz sofrer sobre a terra. Em poucos meses, milhares de mortos e milhões em fuga de suas cidades, seus porcos, suas galinhas, as plantações de mandioca, as suas casas. Claro, existem as associações humanitárias para aplacar a má consciência. Em alguns lugares há caixinhas de donativos na saída dos supermercados e os inevitáveis shows de rock para ajudar os refugiados. Não consigo deixar de pensar isto: já são neste momento 350 mil, a continuação de um massacre ocorrido há 14 anos que vitimou 1 milhão. Repito: um milhão de pessoas mortas em pouco mais de três meses. Houve um deus a que chamaram o Senhor das Moscas, o Príncipe dos Mosquitos, porque todos os insetos do mundo eram poucos para lamber o sangue sempre fresco das vítimas humanas que besuntava sua imagem. Mas isto foi na antiga Síria, este massacre está acontecendo na África, ao vivo, neste instante, on line, Apocalypse Now! Não quero mais concertos bem intencionados, nem as tropas da ONU chegando lentamente ao ‘teatro das operações’, nem os remédios e mantimentos sendo atirados de cima de aviões Hércules; esta não é apenas uma questão humanitária. Não quero livros-reportagem de jornalistas investigativos dez anos depois, não quero filmes-denúncia, QUERO OS NOMES DE TODOS OS CANALHAS, JÁ!! Quando vi o palhaço de óculos e gravata falando na Assembléia das Nações Unidas, logo reconheci, quando vi o palhaço de uniforme militar sentado numa cadeira com a bengala de castão prateado, entendi. Eles voltaram, ou antes, eles nunca saíram de lá. São os mesmos, sempre diferentes e sempre somos nós. Matam por fronteiras que não existem, matam por deuses que não têm nome, matam por riquezas que não ficarão em suas mãos, por etnias inventadas; matam em carnificinas que vingam outras carnificinas, orquestradas por outros palhaços sanguinários chamados de heróis da pátria. Trezentos e cinqüenta mil seres humanos massacrados, estupros em massa, meninos com metralhadoras a tiracolo, adolescentes chefiando pelotões, mutilações, incêndios, lavouras destruídas ― o homem chegou. Enquanto trilhões salvam bancos e mercados, milhões de pessoas vão para a barriga do grande Moloch. Há minérios lá, no Coração das Trevas, há manganês, ouro, diamantes e agora a preciosa colombita-tantalita, necessária para os computadores e celulares que eu e você usamos. Colateral damages do desenvolvimento. Cadê a tal da ‘imprensa livre’? Então ficamos assim, vou dando os nomes dos bois que conheço e quem souber mais, fale por favor: Mr. Dick Cheney, Mr. Dominique de Villepin (bonitinho, mas ordinário) e Mrs. Mitterand, père et fils. Vamos lá, não quero pensar que a humanidade é só um bilhete de ida pra lugar nenhum. Já são trezentos e cinqüenta mil.”

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

a moeda nº1 (sobre perdas, relíquias, coleções, fetiches e perdição)




Tio Patinhas ganhou uma moeda, primeiro fruto do seu trabalho, quando ainda era criança. Guardou-a. A moeda o desperta para a sua condição de sujeito de seu destino, em suas mãos está o arbítrio de fazer dela (e de si, portanto) o que quiser. Estamos autorizados a pensar que sentiu uma felicidade inefável e que tirou a moedinha de circulação como forma de conservar a memória daquela sensação. O tostão como ponto inicial do milhão ― e tudo poderia ser apenas uma parábola edificante acerca da acumulação capitalista ou uma caracterologia ingênua do temperamento obsessivo. Patinhas é um pato precoce, menos por ostentar suíças ainda patinho do que por ter descoberto a diferença entre prazer e gozo; neste, não se trata de satisfazer uma necessidade, física ou psicológica, mas de privar os outros do gozo que imagina que as moedinhas lhes proporcionam. Para que um tenha muito, lembremos, é preciso que muitos tenham pouco.

Acontece que o óbolo do jovem pato ganhou também uma natureza segunda, mágica, suprarreal, transcendendo sua função de troca e adquirindo valor cultual: a moedinha nº1 passa a ser intocável e ganha uma redoma que a separa do mundo profano. Como disse a imagem do Cristo a seus discípulos, noli me tangere. O objeto corriqueiro sofreu, assim, um extravio do seu lugar original, o envelopamento do tabu o tomou; de agora em diante está protegido no campo do sagrado por seu estatuto de relíquia. Captada no desvio-desvão da palavra, a relíquia não pode ser comprada nem vendida ― só pode ser transmitida ou roubada.

Patinhas cresce: de jornaleiro vira jornalista e, depois, dono do jornal A Patada. À primeira moeda seguiram-se muitas outras, ele fica rico, milionário, mais que isso: quaquilionário. Mas isto não o livra de ser presa da insegurança ante a possibilidade, bem real, de perdê-la para competidores invejosos de dentro e de fora da família. E é aqui que nos deparamos com o primeiro movimento do jogo de sentidos que o objeto-relíquia introduz: a relíquia é precisamente o objeto pelo qual se passa de uma significação a outra, sua plena visibilidade deveria garantir a Patinhas uma defesa contra a angústia de destruição, ainda que, paradoxalmente, participe dos mistérios da morte, até porque é a prova (material) dela.

Tio Patinhas sofre como o Fausto do poema de Goethe: quanto mais se expande e desenvolve seu império, mais infeliz se torna; contraditoriamente, na medida em que acumula, perde. Ora, se Patinhas/Fausto ganham mais e mais daquilo que os outros valorizam ― dinheiro, poder, fama, glória, gozo ―, em que nível se dá a perda? A derrota de Patinhas no que diz respeito à angústia ocorre logo de saída, enquanto amealha sua fortuna intui que algo lhe escapa: o sobre-investimento da moeda nº1 tem o dom ambíguo de realizar e estancar o luto da satisfação perdida, uma vez que a sacralização da lembrança também o adverte, por outro lado, do seu esquecimento. Se Patinhas é viciado na felicidade antiga, Fausto dirige (também inutilmente) sua vontade titânica para o presente, o Augenblicke, o piscar de olhos em que se esvai uma vida humana. Fausto é um adito no instante que passa.

O mesmo fenômeno se observa no Cidadão Kane de Orson Welles, pois Patinhas/Fausto também é Charles Foster Kane ― como todos nós, aliás ―, já que todo o sortilégio de seu gênio, toda a operosidade e esforço que emprega, não são suficientes para trazer de volta o que o tempo levou (rosebud). Kane se lança com fúria ao colecionismo: o trenó que perdeu junto com a infância é irrecuperável, por mais que construa um império midiático, que compre empresas, objetos de arte (estátuas principalmente), pessoas... Patinhas, um solitário como Kane e Fausto, poderia ser apenas uma radicalização da figura do avaro: um Harpagon que, em vez de enterrar seu ouro no jardim, encerrasse a si próprio na Caixa-Forte ― fortaleza-prisão que serve de fachada a um de banco de auto-investimentos narcísicos.

O que deveria ser o ponto de solda da supra com a infraestrutura supõe bem mais uma engrenagem de peça única: a moeda nº1 seria inútil sem a fortuna conseqüente, bem como esta seria impossível sem aquela, afinal, o capitalismo vive de boas estórias; cases de sucesso. A livre iniciativa se cumpre na, e pela, historicização das pulsões que constantemente deslocam a relação entre capital e trabalho e, para isso, se estrutura como trama ideológica, uma colcha de retalhos sempre incompleta de narrativas pessoais e coletivas. Ao inscrever o seu mito pessoal na dinâmica histórica da riqueza, o pato mais rico do mundo nos ensina preciosas lições sobre as formações substitutivas com valor de compromisso, a saber, relíquias e fetiches. Transformando uma moeda em relíquia, ele denuncia a alquimia social pela qual os produtos do trabalho se tornam mercadoria e esta, dinheiro.

Vestindo sobrecasaca, cartola, pince-nez e polainas, ainda assim Patinhas está nu da cintura para baixo.

Todos falham: Kane não pode comprar o talento que a sua amada não tem, Fausto não pode ser imortal. E Patinhas? Tio Patinhas, que junta moedas em sua caixa-forte como Casanova contabiliza amantes, não pode ter todo o dinheiro do mundo, pelo simples motivo que este, se não circular, não funciona. O triunfante fracasso de Patinhas não deixa de suscitar a emulação (e, claro, a inveja), tanto nas hostes do Bem como do Mal. O sobrinho-looser Donald tenta a carreira de jornalista, mas não ascende como o tio; o sobrinho-sortudo Gastão tem sorte, mas não chega a entesourar fortuna como o miliardário. Do lado do Mal, os Irmãos Metralhas não se cansam de tentar arrombar a residência-cofre e a Maga Patalógica de cobiçar seu amuleto de poder. O malogro deles deveria nos alertar sobre a perversão fetichista que rege o sistema em que vivemos: o perder e conservar contidos na relíquia são lados de uma moeda que sela um compromisso-parada em detrimento de uma verdadeira transvaloração da realidade.

O que aconteceria se em Patópolis um inédito buraco negro financeiro drenasse todo o dinheiro para a casa-caixa do ricaço avarento numa antibolha especulativa? Seria de se supor que, inteirada a série que começa na moeda nº 1 e afastada a ameaça representada pela ciumeira da comunidade, Patinhas finalmente encontrasse a paz. Muito provavelmente não. Seja em Patópolis, Manhattan ou Garanhuns, uma vez que se acede ao desejo, este desliza inexoravelmente de objeto a objeto, da mesma forma que, na linguagem, o sentido se desloca numa cadeia de significantes cujo início está interdito e cujo fim não se avista. No momento em que se apossa ― legalmente, é bom salientar ― de objetos que poderiam pertencer a outros (a série de moedas que vai ganhando), ele passa do gozo ao desejo, e aqui já se está no campo do Outro, onde o desejo serve à pulsão. Sendo um respeitável cidadão patopolense, Patinhas sofre do malestar da civilização, e.g., tem um Superego que se alimenta de pulsões insatisfeitas, vale dizer, daquilo que inevitavelmente falha como gozo. Nem todas as moedas do mundo restituiriam ao Tio Patinhas a magia do instante inaugural.

A angústia de não encontrar o inimigo

“Serei bem franco: odeio os deuses todos, pois pagam meu auxílio com maus tratos” (Ésquilo, Prometeu acorrentado, v 975).




A idéia de que não somos reconhecidos como deveríamos,
ou, pior ainda, que não somos reconhecidos absolutamente, promove a enfadonha insistência de sermos sempre o mesmo.
Não é fácil encontrar um inimigo que lhe diga, com todas as letras, não quero isso que você tem para me dar! Aí é o início, fim do ódio e do mau negócio.

os objetos agem

Se alguém numa madrugada tocasse
feridas recém-abertas
ou dissesse que estou preso a uma esfera
que nunca se rompe
nenhum poder se iguala àquilo:
um pássaro
durante seu vôo e a curva de uma pedra
arremessada
têm arabescos fluidos, redes disformes, riscos discordantes
balanço
o zumbido dos insetos transforma a duração
a dor
ocupa todo o pensamento, tudo
se move
de grau em grau
imaginariamente


Compreender aquilo a que estamos fadados significa estarmos conscientes de que isso é diferente de nosso destino.


Para operar no mundo
é preciso entender
como o mundo opera

você sabe?

Não quero porque não sei como vai ser

porque não sei como vai ser, estou achando estranho estar aqui

queria entender melhor as minhas reações

umas horas fico muito emocionada


montagem a partir de obra de Valéria Calado

e outras não sinto nada

como se estranhasse a mim mesma

Não quero ser uma adulta

que minta

que seja ambiciosa

que perca esse lado de criança

Você sabe por que sou assim?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

presente de nascimento


Foto de divulgação do filme A liberdade é azul de Krzysztof Kieslowski

“Se com angústia no ânimo recém-ferido
alguém aflito ensombra o coração e se o aedo
servo das Musas canta a glória dos antigos
e os venturosos Deuses que têm no Olimpo,
logo esquece os pesares e de nenhuma aflição
se lembra, já os desviaram os dons (dora) das Deusas.

Alegrai, filhas de Zeus, daí ardente canto,
Gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,
os que nasceram da Terra e do Céu constelado,
os da Noite escura, os que salgado Mar criou.”

(Hesíodo, Teogonia, vv. 98-107).


É simples assim: doreá, dádiva, dom, é um presente de nascimento, posto que inaugura um começo. Não custa caro, uma pessoa pode ver, escutar ou pressentir um dom noutra pessoa, e presenteia. Sendo um dom, a doreá vem do passado, mas, se fará presente no futuro. Por isso, a doreá é passado e futuro, que se dá de presente (era isso que Platão e Aristóteles procuravam com suas reminiscências: presentes de nascimento).

{na falta de melhor filosofia, antropologia ou psicanálise, qualquer presentinho pode fazer esquecer que a outra pessoa não te escuta}.


aos 9 anos já tinha perdido pai e mãe, hoje cato papelão, sons, plástico, cores, latas



episódio
na estrada emerge um caminho de
experiência feito, sensação
memorável porque criou
a surpresa


apaixonar-se
a melodia solta no espaço
sem ritmo, sem groove,
a ranhura faz a diferença
que servirá de alicerce
(a levada)
mesmo se for a primeira vez: reverbera
encontrando aquilo que poderia
ser de qualquer
um


o amor é um jogo de perdas
certas
o amor é um jogo de lucros
arriscados
ao menos tenho o ódio
certeiro
vidente
nele, meu claro demais
espelho


os amantes se incrustam
nos pedaços de concreto
que coloriram
um novo movimento
distribuído
à cidade

imaginação

Posted by Picasa
o áudio-visual e a internet demonstram que as representações de convivência humana estão destinadas à construção de novas possibilidades de encontro. como agem dentro-fora, permitem que conquistas se apresentem com vistas a transformar o mundo segundo seu próprio talento.

domingo, 16 de novembro de 2008

Seus atos e verdades suportam a indeterminação?




Foto do espetáculo "Bandoneon 2" de Pina Bausch


“Ademais, se as contradições são todas simultaneamente verdadeiras ditas de uma única coisa, é evidente que todas as coisas serão uma única (...) Assim, pois, os filósofos que afirmam isso parecem falar do indeterminado (aóristós), mas, acreditando falar do que está sendo/ ente (óntos), falam do que não está sendo / não-ente (me óntos). Pois o que é em potência e não em ato é o indeterminado” (Aristóteles, Metafísica, 1007b).

Aprende-se nos manuais de filosofia e de lógica que Aristóteles foi quem formalizou o princípio de não-contradição: uma coisa não pode ser verdadeira e não verdadeira ao mesmo tempo. De fato, diz o filósofo estagira, algo é verdadeiro quando, sendo de determinada maneira, é uma coisa e não outra. No entanto, a determinação,
o horizonte (horizo), surge da indeterminação (aoristía), como a verdade (alétheia) surge da potência do esquecimento (léthes). Assim, mesmo representando uma única possibilidade de determinação, a verdade evoca o espectro de indeterminação donde ela surgiu. É isso que lhe dá força: a indeterminação que ela suporta, e não, apenas, a determinação que ela representa.

No caso da amizade, a verdade de um abraço pode evocar a potência da indeterminação (aoristía) de onde ele surgiu. Nesse sentido,
a verdade traz em si as dificuldades que enfrentou para surgir,
e sugere outras possibilidades de surgimento. É diferente de um falso abraço que não pode evocar uma potência de indeterminação, e que não faz surgir mais nada.

{o aoristo é uma forma de declinação verbal que não especifica se a ação acabou ou não, uma indeterminação temporal}.

vejo tudo passando não sei para onde


foto de Maria Clara Verderame

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

por que não me ufano... de ser h(um)ano - I

se perder a memória
torno-me outra(s) pessoa(s)
ou fico cada vez mais
igual a mim mesmo?


o errante sem bagagem
solta o lastro da essência
mas conserva a paixão urgente
do acidental


neste caso a ipseidade
é seguramente um problema
metafísico
não seria mais uma
ilusão?


examinemos as soluções tradicionais:

- não podendo fazer a justiça ser forte
procura-se fazer com que a força seja justa
- se a autonomia é fonte da ética, pode a liberdade
intercambiar de meio a fim
- na Inglaterra medieval, ‘person’ na paróquia,
só o padre
- o rei pede um espelho quando os súditos falham
em lhe reconhecer a majestade
- os outros me vêem, em mim alguém me pensa,
ontologia do ator...


o (hu)mano devém um ser moral
(e nunca mais tira férias disso?)

beijar a boca
que me escarra
afiar
a garra que me afaga