sábado, 11 de dezembro de 2010

NEM SEMPRE

nem toda a verdade
acorda

nem tudo que é doce
engorda

nem todo mar é
azul

nem tudo que é belo
nu

nem todo sonho
finda

nem uma utopia
ainda

nem toda paixão há de ser
incerta

nem sempre o sexo
liberta

nem tudo na China será
vermelho

nem chega todo sábio
a velho

nem que eu espere você
volta

nem você gritando ele
nota

nem toda esperança morre
frustrada

nem será toda inocência
abandonada

nem todas as manias
pegam

nem todas as mensagens
chegam

nem toda mulher
chora

nem todo amor vai
embora

nem toda escuridão
alumia

nem sempre há luz
de dia

graças à entropia




a vida é um pequeno


barco de nada



rumo ao nada
final

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 16

Aldeia dos Quatro Montes




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16

Ana Luísa acordou com frio.
Olhou para o pequeno relógio de cabeceira que sempre a acompanhava. Eram quase sete horas, faltavam dois minutos.
Virou-se para o outro lado e puxou para si a roupa.
Depois lembrou-se…
Levantou-se, vestiu o roupão e foi direita à janela do quarto. Abriu as duas portadas interiores…
O seu quarto dava para as traseiras da casa. O jardim estava completamente branco… Branco de neve… Branco que se estendia até mais ver, até aos montes que marcavam o horizonte.
O céu continuava cor de cinza claro.
Colocou as costas da mão no vidro. Um arrepio subiu desde a mão… E, no entanto, sentia o calor do radiador, logo por baixo da janela.
Decidiu arranjar-se para sair… Tomar um banho bem quente, comer qualquer coisa e sair para dar um passeio naquela neve. Esperava que António Augusto a pudesse acompanhar.
Este já estava tomar o pequeno-almoço. Leite com uma colher de café solúvel adoçado com mel e uma fatia de pão, escuro, com manteiga…
Ouviu os ruídos que Ana Luísa provocava no andar de cima.
Ela iria apreciar esta nevada… Lembrava-se perfeitamente de que ela e Júlio gostavam da neve, indo todos os anos passar férias em estâncias de esqui.
Coitado do Júlio. Morrer tão cedo… Decididamente, a vida, às vezes, é muito injusta. Preocupava-o a forma como Ana Luísa estava a lidar com esta perda. Tinha-a convidado para vir até 4 Montes, pensando que uma mudança de ambiente lhe faria bem.
Tinha-se deixado ficar em casa, quando os amigos a convidavam para sair apresentava sempre uma qualquer razão para não aceitar.
Nos primeiros dias em 4 Montes, notara que ela estava mais solta… Falavam muito, queria saber tudo…
Depois, o tempo mudara… Veio a chuva e o frio, o céu acinzentara-se e o ânimo de Ana Luísa fora-se perdendo…
António Augusto levantou-se da mesa. Colocou a chávena e o prato na bancada da cozinha.
Na varanda, sentiu o ar gelado. Foi vestir um casaco e voltou a sair.
As nuvens cobriam todo o céu… Mas a vista era límpida, tornando tudo muito nítido… Até parecia que estava a ver uma daquelas imagens em alta definição. A neve caíra com força durante a noite. Na sebe que separava a casa do jardim, amontoaram-se uns dois centímetros de branco.
Tinham-lhe dito que, depois de nevar, a temperatura subia… Mas, estava um frio capaz de congelar um chocolate quente! Bbrrr…
Atrás de si, ouviu a porta de vidro a correr na calha de alumínio…
- Bom dia, António Augusto! A sua previsão estava certa. Que nevada!
- Ana Luísa parece-me que não está bem agasalhada. Está muito frio aqui fora…
- Mas a paisagem está linda!
António Augusto entrou para ir buscar um casaco.
Ana Luísa adorava o frio, o ar gelado, a vista daquele manto branco… Ia começar a descer os degraus até ao jardim, quando António Augusto lhe colocou nos ombros um casaco.
A escada que descia da varanda quase não tinha neve nos degraus.
Mal pôs os pés na neve, sentiu o quebrar dos cristais de gelo… Era uma neve muito seca, que rugia quando a pisava.
Não resistiu…
Com as mãos começou a apanhá-la e fez uma bola bem grandinha.
Virou-se e atirou-a a António Augusto que estava junto ao corrimão da varanda.
Apanhado desprevenido pelo gesto de Ana Luísa, António Augusto não teve tempo de se desviar completamente.
A bola acertou-lhe na parte superior do braço direito que ele levantara, instintivamente, para se proteger.
Ficou cheio de neve no cabelo e na cara…
Ana Luísa deu uma gargalhada e começou a fazer outra bola.
António Augusto desceu e, ao passar por Ana Luísa, deu-lhe um ligeiro empurrão e afastou-se para trás de uma das oliveiras, ainda jovens, que havia no jardim.
Ana Luísa atirou-lhe com a bola de neve mas, desta vez, falhou redondamente o alvo.
António Augusto já estava municiado com duas que saíram a voar na direcção de Ana Luísa.



(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

o café da manhã do lagarto

o tempo se despega de mim
como se estivesse trocando
de pele

cada manhã custa renovados compromissos
acordo comigo mesmo
ruminando

cada vida que um dia
me aconteceu espero
algo

que ainda não tem contorno
(apenas pulso) continuo
a vigília mas deixei

de reparar deixei de me importar
com a chuva
com padrões de privacidade mas

relâmpagos alagam de luz
pontes vias expressas e logo as devolvem
ao breu

rasga a madrugada o raio-serpente
iluminam-se os sete bilhões de rostos
do Senhor do Mundo

a rede aviventa os mortos-vivos
banais consumidores de infernos
bairros ruas e condomínios


fechados

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 15

Aldeia dos Quatro Montes




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15

- Boas tardes, ilustre tertúlia!
Tão imersos estavam nas novas que o Senhor Director lhes transmitia que ninguém tinha reparado que o Senhor Doutor Juiz acabara de entrar.
- Uma nova era em 4 Montes, Senhor Director?
Pedro juntou mais uma cadeira à roda das duas mesas. Salústrio saiu da cozinha para servir mais um café.
- Serei eu que estou a ficar friorento ou houve uma baixa acentuada de temperatura?
Ti Joaquina olhou para  a rua, depois virou o olhar para o céu.
- Ó Senhor Doutor Juiz vê-se mesmo que o senhor não foi criado no campo. Estas nuvens e este frio trazem neve…
- Tão cedo? Estamos no início de Dezembro…
- Cedo será… Mas não somos nós quem manda! Alembro-me bem que, há-de haver p’ra aí uns vinte anos, nevou quase logo a seguir aos Santos… Seria pelos meados de Novembro, não mais… Foi, foi… ainda se andava ao rebusco da castanha! Portanto, não passaria dos meados do mês…
A conversa desandou para a análise das mudanças do tempo. Como quase todo o bom povo que vive no campo, os habitantes de 4 Montes tinham uma opinião bem fundada, no seu modo de ver, sobre o assunto.
- A mim ninguém me tira da cabeça que estes destemperos do tempo têm a ver com a ida do homem à Lua, arrematou a Ti Joaquina.
O Senhor Director não se conteve.
- Ora minha caríssima senhora! Na sua douta opinião, o simples facto de a humanidade ter conseguido dar um salto até ao nosso satélite natural…
- Ó senhor Director… Sabe que eu tenho muito respeito pelo senhor! Escreve muito bem, fala melhor… Mas faça-me o favor de não me confundir os miolos! Então não é verdade que, nos dias de agora, as colheitas andam destrambelhadas? Num ano, temos a castanha em Novembro, no ano a seguir lá pelos meados de Outubro já o ouriço se está a arreganhar…
Todos tinham uma opinião a acrescentar. Porque a época das vindimas varia muito… Porque num ano chove a potes e, depois, passam-se anos em que até os lameiros secam no fim do inverno…
Pedro trouxe a sua experiência de África. Até mesmo por lá os excessos da natureza eram sentidos.
A Ti Joaquina olhou, de novo, para a rua e notou que a tarde se findava.
- Ó Diabo!... Como o tempo passa!
Despediu-se e, antes de sair, anunciou que para o almoço do dia seguinte ia fazer uns milhos a acompanhar uma linguiça das de cozer… E, talvez, também um salpicão e uma chouriça de sangue.
O Senhor Director era perdidinho pelas chouriças de sangue da Ti Joaquina.
- Conte comigo! Faça-me o obséquio de reservar uma mesa… Caro Engenheiro Pedro dá-me a honra da sua companhia?
Ficou combinado que iriam todos almoçar à Pensão Moderna. Angélica ainda hesitou um pouco. Se nevasse, sabia que no Lar iriam ter problemas. Mas só de pensar nos milhos… Adorava aquela prato. Lá aceitou o convite do Senhor Director.
- Ena… Para tão distinta companhia, vou ter de me aprumar! Contem com uma surpresa das minhas para a sobremesa!
A saída da Ti Joaquina provocou a debandada, quase geral. Ficaram à mesa, Pedro e o Senhor Director. Salústrio serviu-lhes uma aguardente velha, com mais de dez anos de casco.
- Belíssima… Aprecie esta cor! Que me diz, meu rapaz?
- Pai, está muito boa! Ainda é daquela…?
- Exactamente! Tenho tido cuidado no gasto… Isto não é bebida para qualquer bico! Está reservada para os clientes especiais!
Pedro aproveitou uma ida do pai à garrafeira para voltar ao assunto do semáforo.
- Então, Sua Excelência quer fazer uma inauguração de arromba… Até vai meter discurso!
- Sabe, Pedro, também me parece um exagero… Mas…
- Bem vistas as coisas… Qualquer investimento tem de ser valorizado. Sua Excelência tem de tirar proveito de tudo para se mostrar aos eleitores!
- A mim o que mais me espantou foi aquela ideia de que se vai iniciar uma nova era! Está bem que os sinais… os semáforos são algo de moderno, nova tecnologia e isso tudo! Mas há aqui qualquer coisa que me escapa…
O Senhor Director era um profundo conhecedor dos meandros do poder local em 4 Montes.
- Não me lembro de, nestes seis anos de mandato de Sua Excelência, o ver preocupado com a modernização de 4 Montes! E, agora, assim sem justificação suficientemente plausível, aparece com esta ideia… Nova era?!
Pedro aquecia nas duas mãos o balão em que o pai lhe servira a aguardente. Antes de beber mais um trago, aspirou com visível prazer os aromas que o calor libertara.


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 4 de dezembro de 2010

os adiamentos da manhã

o verão chega e estou
atrasado
sem ar para as comemorações
cruas
a vida pesa a soma dos meses
perdidos
mudo movimento das nuvens
embaixo
de um céu demasiado
azul
uma claridade chispa
sem chuva
sem música
vento virando
no porto intangível o poema desperdiça
domingos
manhãs tristes carinhos
a escrita
é um capitão raivoso
a doce inutilidade de morrer
na praia

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

se eu fechasse os olhos agora

não há mais Isolda
não há mais Tristão
eu sou o seio
o deus
o anjo
o íncubo
o hermafrodito
e a besta

por que não suporto o verdadeiramente
outro
ao invés de buscar um outro exemplar
de mim
?

no bolso do tempo andará o poeta
a revelar buracos revolver
abismos
onde não os supúnhamos

(antes de me fundir à existência
fui
o mundo ele mesmo no momento que ignora
cisma
entre ser e querer)

vaguei por mares sem guia
na perigosa
estação das lembranças
venci tempestades de lágrimas
imagens temores estados de alma
e o vento que me
seguia

inútil fechar os olhos tapar
os ouvidos
sempre alguma coisa se passa
dentro
imaginação fluxo torrente
incessante de representações desejos
afetos

que se preserve o couro do sapato e os dias

sitio do coração partido


Aldeia dos 4 Montes - Cap. 14

Aldeia dos Quatro Montes




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14

Enquanto Salústrio tirava o café (para o Senhor Director tinha de ser estupidamente curto… um dedal!) entrou a Ti Joaquina. Abancou na primeira mesa, logo junto à porta.
- Ó Senhor Director… tem que pôr isto lá no seu jornal! Onde já se viu?!
O Senhor Director pegou na chávena e dirigiu-se à mesa…
- Minha cara senhora… O Mensageiro está sempre disponível a divulgar as preocupações dos seus leitores… Mais ainda, quando se trata de uma anunciante!
- Venho da farmácia. Fui lá aviar a receita e quando vou a pagar… pimba! Toma lá que já levas! Não é que o raio do miúdo me pede mais um euro e meio? Faz amanhã um mês que lá estive… Num mês, sobe um euro e meio? Isto é um roubo!
- Pois… Parece que o governo…
A Ti Joaquina olhou para o Senhor Director com aquele olhar que ela punha antes de explodir.
- O governo…? Esses mandriões deviam era vir trabalhar para aqui… Como é que nós aguentamos isto? Quer dizer… Se calhar eles pensam que o meu dinheirinho cresce nalguma árvore… Sabe Deus como andam as coisas!
- Vamos lá minha cara senhora! Nem é das que se podem queixar mais. A sua Pensão Moderna é uma das empresas de referência de 4 Montes.
- Empresa?! A minha casa? Ó Senhor Director, uma empresa tem muita gente a trabalhar…
Salústrio trouxe para a Ti Joaquina o habitual. Um “pingo”, com o café a dar uma corzinha ao leite, acompanhado por três pacotinhos de açúcar, que a Ti Joaquina gostava dele bem doce.
- Deixe lá isso, senhora Joaquina. Ao menos que lhe façam bem os remédios…
- Ah, lá isso fazem… desde que passei a tomar estes comprimidos, as análises têm dado menos gordura no sangue…
Xavier, Pedro e Angélica aproximaram-se do ArcoBotante. Tinha sido Pedro a convidá-los para tomar um café.
Pedro, ao entrar, viu a Ti Joaquina e o Senhor Director.
- Dão-nos licença de vos fazer companhia?
Sentaram-se todos á volta da mesa mas, sendo esta pequena, Pedro arrastou uma outra. Salústrio começou a tirar os cafés. Enquanto o creme escuro enchia as chávenas, pegou em duas garrafinhas de água.
- Então, Senhor Director, conseguiu chegar à fala com Sua Excelência?, perguntou Pedro.
- Cheguei agora mesmo da Administração. Sua Excelência reservou meia-página do Mensageiro para um anúncio…
Olhou para os parceiros de mesa.
- A inauguração do sistema de regulação de tráfego…
A Ti Joaquina não se conteve.
- Ó Senhor Director… por quem lá tem, que raio está para aí a dizer? Sistema de quê?
Angélica, que tinha um carinho especial pela Ti Joaquina, sorriu.
- Ti Joaquina, aqui o Senhor Director, refere-se aos semáforos que vão instalar no cruzamento do Lar.
- Ah, bom… Assim já nos entendemos. Agora… Sistema de não sei o quê… Aqui o Senhor Director gosta muito de usar palavras caras!
Pedro queria saber mais…
- Sim… Então e a inauguração é…?
- Sua Excelência quer que a cerimónia tenha lugar no fim da missa de Domingo… Não deste próximo mas do seguinte.
Xavier começou a fazer contas aos dias que faltavam.
- Parece-me apertado…
Angélica aproveitou para lhe dar uma alfinetada.
- Também acho! Se para tratar de umas infiltraçõezinhas na garagem do Lar, sabe Deus o tempo que hão-de levar…
Xavier encaixou com fair-play.
- Lá vem a piadinha… Tem razão! Já lhe prometi que tratamos disso logo que acabe de colocar os semáforos… Quando disse que me parece pouco tempo, não me referia ao trabalho da XP que está quase pronto.
- E Sua Excelência conseguiu arranjar uma explicação para este investimento?, perguntou Pedro ao Senhor Director.
- Bom… Sua Excelência não me quis adiantar muito sobre isso… Apesar das minhas perguntas terem sido directas, digamos que Sua Excelência me driblou com a arte de um Garrincha!
Em 4 Montes todos sabiam da apreciação, que quase roçava o endeusamento, do Senhor Director pela selecção brasileira de que Garrincha fizera parte.
- Sua Excelência fez questão de informar o Mensageiro de 4 Montes que o seu discurso na inauguração do sistema…
O Senhor Director olhou para a Ti Joaquina.
- …o discurso na inauguração dos semáforos…
A Ti Joaquina acenou afirmativamente.
- … marcará o início de uma nova era para 4 Montes!


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

domingo, 28 de novembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 13

Aldeia dos Quatro Montes




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13

Quando o Senhor Director assomou à entrada do gabinete de Felisberta, ela estava numa interessante conversa ao telefone que, muito a contra-gosto, teve de interromper.
-… Olha, já te ligo. Até já. Como está Senhor Director? Deseja falar com Sua Excelência?
- Se não fosse muito incómodo…
- É só um momento…
Felisberta ligou para a extensão do gabinete de Sua Excelência e informou o Senhor Director que podia entrar.
Ainda o Senhor Director não se tinha movido e já se abria a porta de Sua Excelência que fez questão de vir receber o jornalista.
- Então como vai?
Entraram para o amplo gabinete de Sua Excelência.
Felisberta esperou que a porta se fechasse e, imediatamente, pegou no telefone e marcou um número.
- Sim… Sou eu. Pois é… Não! Era o Senhor Director… Também me saiu cá um chato… Vê lá tu que não há semana que passe que não venha falar com Sua Excelência pelo menos duas ou três vezes… E, depois, com aquele ar de fidalgo… sempre muito empertigado…
- …
- … hummm…sim… sim… ah! Não me digas? Como é que é? Espera aí… Conta lá isso mais devagarinho, para ver se eu percebo bem. Tás-me a dizer que o Senhor Director…
- …
- Não!!...
- …
- Não!... Não acredito!
- …
- Olha, desculpa lá… Tenho uma chamada em linha, a gente encontra-se para lanchar e depois tens que me contar essa história. Tchauzinho!
---------
Xavier cumprimentou Angélica com dois beijinhos e apresentou-a a Pedro.
- Não me bata muito! Eu bem sei que ainda não mandei o pessoal para arranjar aquilo na garagem… Mas prometo que logo que acabemos de instalar isto começamos a resolver o problema das infiltrações.
Angélica estava farta de ouvir as mais diversas desculpas… Ou era porque, talvez, fosse melhor esperar pelo tempo mais seco ou porque, agora, não podia ser que tinha que acudir a uma conduta de água. Mas, simpatizava com o ar bonacheirão do Engenheiro Xavier e tentava levar as coisas sem se aborrecer muito.
- Se eu tivesse a certeza que umas traulitadas davam resultado… Veja lá… Qualquer dia começam as chuvas a sério e, depois, é que vão ser elas.
- Pode confiar em mim. Até porque desta vez, temos uma testemunha… Não quero ficar mal em frente a um colega de ofício.
Angélica não era de 4 Montes. Tinha conseguido o lugar no Lar, através de um amigo, que, por sua vez, era íntimo de Sua Excelência. Estava em 4 Montes, desde que o Lar começara a funcionar, já lá iam uns bons oito anos. A princípio, pensara que não se ia adaptar a uma terriola tão pequenina. Para ela, que tinha crescido numa pequena cidade do litoral, que gostava dos seus passeios à beira-mar, do pôr-do-sol visto da praia, a mudança meteu-lhe algum receio. Mas precisava de trabalhar… Já tinha acabado o curso há dois anos e, ainda, não conseguira nada de jeito. Fizera o estágio numa instituição que prestava apoio a idosos e gostara daquele tipo de trabalho, passou a ter gosto em falar com os velhotes… Muitos deles, só precisavam de ter alguém que os ouvisse, que lhes desse meia dúzia de minutos de atenção. Quando aquele tal amigo lhe perguntou se, eventualmente, estaria interessada em trabalhar num Lar de idosos, não teve qualquer dúvida em lhe responder afirmativamente. Aprendera a gostar de 4 Montes e os velhotes, melhor dizendo, as velhotas do Lar eram, para ela, quase como se fossem pessoas da sua família… Dias havia que lhe faziam a cabeça em água… Mas, de cada vez que conseguia um sorriso nos olhos de um dos residentes, sentia-se feliz… Não era uma tarefa fácil mas, até hoje, não tinha razão para se arrepender da decisão que tomara.
- Engenheiro, diga-me lá… Porque é que estão a colocar estes semáforos?
Xavier tinha acabado de dar resposta a uma idêntica pergunta de Pedro. Lá teve de repetir a mesma ladainha. Que não imaginava, não tinha a mais pequena ideia das motivações da Administração. Só sabia que na semana anterior lhe tinham pedido um orçamento para fazer aquela obra. Do resto…
Pedro e Xavier conheciam-se há muitos anos… Quando Xavier se tinha instalado em 4 Montes para romper uma estrada, passara a ser cliente do café do Pai.
- Pelo que vejo, isto é do mais moderno que existe… Sabes como é que vão regular os tempos de abertura do sinal?
- Isso não é connosco… A XP só trata da parte da colocação dos suportes e do armário. Mas, amanhã, já vem para aí a empresa que vai instalar o equipamento electrónico. Se quiseres, e estiveres interessado, posso-te apresentar o engenheiro que vem montar a geringonça.
---------
Salústrio estava a acabar de meter umas chávenas na máquina de lavar louça quando entrou o Senhor Director.
- Um cafezinho, por favor. Venho da Administração. Consegui falar com Sua Excelência…
- E já sabe qual a razão para que 4 Montes tenha direito a uns semáforos?


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

Broto
Me desdobro

Edema
Poema

Dos eus
Que não me pertencem
Mas me são

Do meu umbigo
Até o horizonte

Somente uma linha
Mais velha que o existir.

sábado, 27 de novembro de 2010

o marinheiro mareado

admiro o fluxo dos pássaros
os passos pelo nada
a seta pulsante
que são

nenhuma selva é melhor que a outra
para quem está perdido
e se o bico quebra
a vidraça é porque apesar de tudo
a fala é de todos
informe

vestíamos as crianças de marinheiro
acabavam de desembarcar neste mundo
mais louco
que o Fabuloso Destino do Chapeleiro
Louco

ontem hoje amanhã há tiros
fogo balas traçantes lares
invadidos
uma coisa leva a outra que leva a outra
mas acaba sempre
aqui

há o tempo indeciso
do inacabado
da dúvida
o corpo se equilibra entre
a reflexão e o relato

o lado belo da vida
é o que só está lá
como possibilidade
questionando
tudo ao seu redor

entretanto isto aparece coberto
por imagens que querem ser
poesia
com seus jogos de aproximação desdobramentos
rítmicos

pesando como um túmulo
irradiando morte para todos
os cantos
é como se nada se completasse
nem houvesse compaixão

apenas um rio a correr

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

a umidade das formas

o cosmo só existe
enquanto existo eu
e no entanto passa
muito
além do que a mente
creu

incrível não é que haja
a beleza
mas que algumas teorias
funcionem

assombroso não é haver
o mundo
mas acreditar
nele

ser humano é nunca estar
por inteiro faltar
à grande orgia
do ser

homens mulheres e outros gêneros continuam a chafurdar
nos mesmos batidos boleros
de amor ódio sexo
e morte

a vida é arte
a arte
sorte

a arte está na terra
molhada e as sensações que a própria terra
tem por estar
molhada

já sou só uma pena
voando
a vida imita a arte
sorte a dela assim
está viva




quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 12

Aldeia dos Quatro Montes


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12

O Lar da Nossa Senhora do Ó acolhia quase quarenta residentes. Uns mais velhotes, outros ainda com idades abaixo dos sessenta. A grande maioria eram senhoras, havendo só meia dúzia de homens.
A directora técnica, isto é, quem tinha a responsabilidade pelo funcionamento do dia a dia da instituição era a Dr.ª Angélica, ainda jovem, andaria nos seus trinta e poucos.
Da ampla janela do seu gabinete, estava a apreciar a azáfama no cruzamento onde estavam a ser instalados os semáforos. Bateram à porta e, logo de seguida, entrou a cozinheira, a senhora Aparícia.
- Ó senhora Dr.ª, isto assim não pode ser…
Angélica já estava habituada a estas entradas de rompante da cozinheira que, quase, todos os dias reclamava de alguma coisa.
- Diga lá…
- Então não é que pedi ao padeiro para me trazer mais pão para fazer a açorda de bacalhau na sexta-feira e o raio do homem só deixou o bastante para o gasto do dia?
- Diga lá, então, quantos pães precisa?
Enquanto ia ouvindo a senhora Aparícia, pegou no telefone e ligou para a padaria e recomendou que fizessem a entrega até à hora do almoço.
- Pronto! Já está resolvido. Mais alguma coisa?
- Ó senhora Dr.ª, a senhora já me conhece… Eu cá não sou de intrigas mas…
Angélica já sabia o que aí vinha… A mesma história de sempre, que o padeiro roubava no peso do pão, que isto e mais aquilo… A senhora Aparícia era parente do dono da outra padaria de 4 Montes e passava a vida a descascar no fornecedor do lar.
- Pois é… Mas olhe que os nossos velhotes gostam muito deste pão…
Angélica lá conseguiu que a cozinheira voltasse para o seu lugar, lembrando-lhe que era capaz de serem horas de começar a assar os marmelos para a sobremesa.
A senhora Aparícia era assim… Bom coração, sempre disposta a dar uma ajuda, mas quando embirrava para um lado, não havia nada que a fizesse mudar de ideias.
Angélica aproveitou para dar uma vista de olhos pela lavandaria, para ver se a nova máquina de secar estava a funcionar bem.
Ia ela pelo corredor fora quando ao passar por uma das salas de descanso dos residentes, ouviu uma voz alterada.
- Pois… A senhora Arlindinha…
Entrou na sala. Sentadas nos seus confortáveis sofás, estavam sete senhoras. A televisão estava ligada. Como sempre! A senhora Arlindinha continuava a falar, cada vez mais alto…
- … só a mim ninguém me liga! Porque é que temos de ver sempre o mesmo programa? Então eu, que nem gosto nada deste marmanjo, tenho que passar a manhã a aturar isto?
- Tem bom remédio… Ou tapa os ouvidos ou muda-se!, ripostou uma das velhotas.
- Olha lá! Mas tu achas que o meu dinheirinho é menos que o teu?… Teu, como quem diz… Se não fosse a tua nora, nem cá punhas o cúzio… Que tu, de teu, não tens coisa que se veja!
Angélica teve que se meter naquela alhada. Antes que a discussão se aprofundasse e as coisas se descontrolassem… Todos os dias era a mesma coisa. Por isto ou por aquilo, porque a fulana não me dá atenção, porque só fazem as vontadinhas todas à sicrana… Às vezes, apetecia-lhe dar outro rumo à vida. Quanta vezes, chegava ao fim do dia, estourada como se tivesse andado com uma enxada na mão.
Já nem foi à lavandaria… Foi buscar o isqueiro e os cigarros ao gabinete e saiu…
- Vou fumar um cigarro!, disse à moça que estava no balcão da entrada.
O dia estava frio mas o sol brilhava num céu bem azul. Arrependeu-se de não ter trazido o casaco…
Acendeu o cigarro e ficou a olhar para o fumo, branco, que ficava a flutuar à sua frente…
A entrada principal do Lar, ficava mesmo em frente ao cruzamento. Estavam a instalar as lâmpadas dos semáforos…
Reparou no engenheiro Xavier que dava indicações aos trabalhadores. Ainda bem que o via. Tinha de lhe lembrar que ainda não tinham vindo arranjar aquele problema das infiltrações na garagem.
Angélica caminhou até ao portão, fez sinal à moça da recepção para accionar a abertura automática e, ao sair para a rua, viu que, ao lado do engenheiro Xavier, estava Pedro.
Pedro estava a ouvir, atentamente, Xavier quando percebeu que este se distraíra com algo.
Levantou o olhar e, bem à sua frente, estava Angélica.

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

domingo, 21 de novembro de 2010

Livro dos Recordes Sexuais: a mulher mais satisfeita do mundo


Uma mulher pode ser bem sucedida na profissão, ser esclarecida politicamente, bonita, mau caráter, inteligente, fofoqueira, gostosa, magra, rica, pegadora de namorado alheio, etc., tudo isso, junto ou em combinações, lhe será perdoado, agora, experimente ela ser bem-comida e perderá todas as amizades que tiver ou supor ter. Nem as amigas mais zen, os amigos mais terapeutizados, agüentariam; a verdade é que ninguém perdoa a mulher plenamente realizada na cama. Aquele sorrisinho maroto no canto dos lábios a afrontar colegas de trabalho, digamos, numa segunda-feira de manhã ― suportar quem há de?

― Quando vou ter filhos?! Querida, minha idéia de sacanagem na madrugada não envolve mamadeira nem fralda, a não ser em dias de perversões mais bizarras... ― pela reação da amiga, percebeu que abrira demais a boca. Afinal, quem, no elegante escritório de arquitetura e design, poderia supor que fosse sexualmente feliz, ainda mais depois de nove anos de casamento com um jornalista cultural? A coisa toda começara há dois anos por culpa justamente dele, o marido, Talarico Berdinesque.

Críticos têm, como outras populações corporativas, uma distribuição em curva de sino no tocante à luxúria: vinte por cento de heteros ou homos de raiz, praticantes e apreciadores empedernidos dos jogos venéreos, e aqueles oitenta por cento de eternos indecisos que não sabem que apito tocam, não desocupam a moita, não saem de cima e só sabem foder mas é com a paciência dos outros. Talarico fazia parte desta maioria cinzenta, embora se destacasse como um proativo lambe-cu do dono do jornal onde trabalhava há vinte e um anos.

― Fia, seu Orixá pede uma obrigação ― dois anéis cinzentos cingiam os olhos de Mãe Catarina, olhos que não desgrudaram da tatuagem de um sol na mão direita dela enquanto mergulhava as suas numa cumbuca com água corrente, infusão de folhas de maçacá, corana branca e mel de abelha.

O que talvez seja mais certo dizer é que houve uma série de equívocos que começaram depois que, vencendo o receio de se deslocar sozinha noite adentro para o bairro distante do terreiro, resolveu que precisava apelar para todos os santos à disposição. De saída, antes que pudesse se explicar, a Ialorixá encasquetou que o problema era o chamego, a escassez de nheco-nheco, ao passo que ela queria mesmo era desamarrar as dívidas financeiras do casal. ― Ora ê ê, Oxum, Ora iê, iê! ― a mãe de santo puxou para si a urupemba de palha trançada com os dezesseis búzios por meio dos quais as poderosas entidades afroamericanas iam mandar sua mensagem.

As impressões do ritual voltaram-lhe em sonhos por meses: a galinha amarela, o pinto preto, a cabra e o cabritinho brancos, o cheiro do sangue mesclado ao do bolo de feijão com rodelas de ovo e cebola picada com malagueta, cebolinha e sal; o aroma acanelado do doce de banana prata, os pontos cantados, a gira, o baticum, os colares, brincos e pulseiras, as flores, o fumo, os incensos de perfumes cambiantes... Os sacrifícios da oferenda tinham sido pagos em dinheiro para as Iabás, a terrível “mão de faca” que mata os bichos, o “cargueiro”, que retirou o Ebó; mas restava um problema: o despacho precisava ser levado por mão de homem a uma queda d’água no meio da mata na lua crescente. A custo de muita teima e beicinho, Talarico aceitou fazer a entrega no sítio da família.

Preparou o banho de madrugadinha em casa, fez um café-tinta de forte para o marido, que ia pegar estrada, e trouxe as ervas trituradas para o box do banheiro: malva branca, vassourinha miúda, medalha, bem-me-quer, rosa amarela, baronesa e botão de ouro. Tirou a roupa puxando pelo avesso e largou-a no chão; depois de se lavar com sabonete, juntou os pés e levantou os braços, cantando para a sua santa de cabeça à medida que despejava a vasilha inteira sobre si. Naquele mesmo instante, o marido desistia da viagem a desoras e decidiu largar as tralhas numa esquina qualquer. Não estava para programa de índio, os deuses que achassem o que lhes era devido; que diferença faria o lugar da desova?

Não é improvável que um erro conserte outro, porém, o mais das vezes só faz piorar o que já era ruim. Parou o carro, retirou do bagageiro a tigela, apanhou as velas e dirigiu-se para a encruzilhada em forma de T; temendo ser reconhecido, incomodou-se com a presença de gente nas imediações (exagerava um pouco a fama que tinha), mas foi só acender a primeira vela que a moçada picou a mula rapidinho. Acontece que o Senhor das Encruzilhadas, assim como não curia bebida que passarinho não bebe, não fica sem entregar nada a quem de direito; Exu levou para a Senhora das Cachoeiras o que lhe era devido e esta achou de castigar o Talarico pela ofensa.

Foi o maior susto da vida dela: o homem que voltou para casa naquele dia não se parecia com o marido, melhor dizendo, falava como ele, comportava-se como ele, mas não era a mesma pessoa! Daí pra frente, toda a noite um outro chegava em casa; ninguém mais percebia isso, os porteiros do prédio, os amigos, os colegas de trabalho, ninguém notava ― só ela podia ver que recebia em sua cama um homem diferente todas as noites. Experimentou marcar um jantar com o chefe dele em casa, só para se admirar com a absoluta normalidade com que todos se comportaram apesar de estar ali um homem negro com o físico de um guarda-costas em vez da sua habitual cara-metade.

O Talarico, em si, não mudou nada, de tudo que se passava inconsciente, continuava igual a si próprio: uma pitada de Todorov, um cheirinho de De Man, duas mãos cheias de Barthes e Benjamin; no mais, o mesmo: seguia abominando secretamente a santíssima trindade francesa, Derrida, Lévinas e Blanchot, e, no fundo, tal como o patrão, abraçava as idéias de Harold Bloom rechaçando tudo que destoasse do cânone clacissizante. Já na parte da cama, quanta diferença, quanta fartura em diversidade e diversão! O esposo-corno-de-si-mesmo acabou por confessar a falseta e Mãe Catarina pôde lhe explicar que o feitiço não seria desfeito senão ao cabo de sete anos; mas que ficasse sossegada porque os Orixás atuam sobre o plano material e não no plano espiritual, ele voltaria ao mesmo leite-azedo de sempre. Mais cinco anos ainda lhe restavam e ela tratou foi de aproveitar.

Conheceu muitos corpos desde então, descobria anatomias inéditas, comparava pernas, peles, torsos e quadris, jeitos de se mover e se comportar no fogo da carne e no depois do repouso; em cada um desses desconhecidos havia sempre um segredo, que ora se revelava, ora se furtava a ela, havia transas carnudas, úmidas, baixarias indescritíveis, tempestades lamacentas, sexos molhados, tristes ou febris, homens magoados, eufóricos, mortificados, preguiçosos, espontâneos, sem destino, violentos, transparentes ou compactos, uns cheiravam a perfumes e outros a sal, alguns suculentos como um fruto, outros livres como animais selvagens, por vezes difíceis, intensos, transtornados, necessitados, alvoroçados, esquecidos, esfomeados, meigos, suaves, raivosos, lúbricos, frios ou arrependidos; em muitos admirou o prodigioso calor, noutros a coragem, a vaidade, a astúcia, alguns a abordaram com esquivas e cautela, ou tranqüilos como a baía escondida de uma ilha, a outros, desbravou com a fúria das conquistadoras, tantos os que a calcinaram com a secura dos desertos; muitos deitaram-se ao seu lado para dormir, menos foram os que a comeram com um “C” bem grandão, com uns fez amor, mas a maior parte a fodia com “f”, de furreca mesmo; houve quem adivinhasse seus desejos e a possuísse com genuína comoção, mas houve também os distraídos, os prudentes como cobras, os de bocas famintas, (apareceram até mesmo dois transsexuais e uma mulher!), corpos em desordem que buscavam nela ainda mais desordem, enfim, cada noite lhe trazia um arrepio novo, a perspectiva do assombro e da novidade. Mas não se pode dizer que o traía, a não ser uma vez, em que ele mesmo a levou a uma casa de swing. Numa sala semi-escura da boate Babilônia, amarrada a um estrado giratório, foi comida por doze desconhecidos; Talarico observava calado, à distância.

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 11

Aldeia dos Quatro Montes


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11

Pedro bateu a porta de casa e dirigiu-se ao carro, estacionado mesmo em frente ao café do pai. Reparou, então, que, ao balcão, estava o Senhor Director e uma outra pessoa. Já agora, aproveitava a oportunidade e resolvia a questão do convite para escrever no Mensageiro de 4 Montes.
- Caro Engenheiro, ainda bem que aparece. Estávamos aqui a analisar o impacto que a instalação daquele equipamento de regulação de tráfego vai trazer à nossa terra…
- … Equipamento de regulação de tráfego?!
- Não me diga que ainda não teve conhecimento deste surpreendente acontecimento?
- Mas, estão a falar de quê?
- O melhor é ires ver… Já agora, Pedro, com essa tua mania de não gostares de Sua Excelência, vê lá se não exageras no bota-abaixo, disse-lhe o pai.
- Pai, quem o ouvir há-de pensar que eu não posso com o homem… Tenho mais que fazer do que me preocupar com isso. Bom, mas afinal, o que é essa coisa de que falava o Senhor Director… Regulação de …?
Ana Luísa estava curiosa para saber o ponto de vista de Pedro.
- Estão a instalar uns semáforos no cruzamento ali acima…
- …?!
O rosto de Pedro transmitia uma sensação de espanto.
- Semáforos? Aonde…?
- No cruzamento junto ao Lar…
- E para que raio é preciso isso? Querem ver que, agora, em 4 Montes toda a gente vai passar a ter carro? Ah… Já sei! Sua Excelência, sempre tão atento aos velhinhos, mandou colocar os semáforos para eles poderem atravessar a rua com segurança…
Esta tirada provocou uma gargalhada.
- Ah… e também servirá para a miudagem da Escola… estais mesmo a ver a criançada a sair da escola, virem pela rua até ao cruzamento e esperar pelo sinal para atravessar…
- É bem visto… ainda não tinha pensado nisso, disse o Senhor Director.
Ana Luísa apreciou o sentido de humor, ainda que crítico, de Pedro.
- Agora a sério… Acha mesmo que se justifica?
- Parece-me que não… Não imagino quanto custará, mas não consigo ver justificação para este tipo de investimento…
Salústrio tentava, também ele, descobrir a jogada por trás daquele facto, tão inopinado.
- Senhor Director, quando é que são as próximas eleições?
- Não… Duvido que tenha algo a ver com isso! Ainda faltam mais de dois anos…
- Mas eu não me lembro de algum dia, alguém ter falado da instalação de uns semáforos em 4 Montes… Não há trânsito que o justifique!
Salústrio puxava pelas ideias.
- A XP, a empresa que está a fazer as obras, será que anda a precisar de ganhar algum?
O Senhor Director, sem abrir muito o jogo, porque senão lá se ia o artigo que estava a pensar escrever depois da conversa que tivera com o Engenheiro Xavier, informou-os de que não seria bem por aí que descobririam os motivos da Administração.
Pedro tentava encontrar uma alternativa, razoável, para a obra.
- O Senhor Director podia fazer uma entrevista a Sua Excelência… Não existe melhor fonte de informação!
- Não é tarde, nem é cedo! Vou já falar com Sua Excelência.
E saiu porta fora… Dois segundos depois, entreabria a porta.
- Caro amigo, volto já para pagar o cafezinho!
- Esteja à vontade!
Ana Luísa pediu um chá de cidreira e uma torrada. Pedro despediu-se e decidiu ir dar uma vista de olhos à tal obra.
Saindo do Largo da República, a rua da Boavista subia ligeiramente. O passeio, em pequenos cubos de granito, era suficientemente largo para, de onde em onde, acomodar umas árvores. Com o andar do Outono, estavam quase despidas de folhas, que se esparramavam pelo chão, voando com a ligeira brisa, fria.
Ao longe, mesmo no cruzamento, a labuta continuava. Já estavam colocados todos os suportes, nas quatro esquinas. Uma grua tinha elevado um par de trabalhadores.
O engenheiro Xavier acabava de sair do seu carro, um pouco à frente de Pedro.
- Caro colega! Como vai? Há anos que não o via! Dê cá um abraço!
Pedro e o Engenheiro Xavier foram-se aproximando do cruzamento, enquanto conversavam animadamente.


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.