segunda-feira, 25 de junho de 2012

Rosa faz anos (parte 2)




            Foi numa manhã cinzenta como esta, mesclando-se ao som da chuva que caía sobre os jardins suspensos do MASP, que a vigilante escutou pela primeira vez a melodia do pífano. A princípio, deixou-se estar, imóvel e aterrorizada; talvez fosse música ambiente, até que já não cabia dúvida: saindo da obra de Van Gogh, O Aluno, também chamada Garoto de Quepe Azul, ouvia o sedutor chamado que a convidava a entrar na tela e se perder no país dos suicidas. Um dos resultados de contemplar o mesmo quadro por muito tempo é que os detalhes se incorporam de maneira concreta, a pintura como que nos pertence ― vemos nela o que nenhuma outra pessoa poderá ver.
Neno bem que a tentou avisar.
― Cuidado, não entre no mundo da arte. Você vai destruir todas as obras, principalmente aquelas que mais ama.
Não tem tempo a perder; dentro de uma hora e meia precisa chegar a casa, pegar o neto e levar para a creche. A desmiolada da mãe, sua filha Elvira, já está em outra roubada; não há de ser uma criança que a impedirá de viver seu novo grande amor. São três conduções do serviço até sua casa de tijolo aparente em Parada de Taipas: metrô, ônibus e lotação; mesmo assim, não consegue deixar de passar pela sala do segundo andar para se despedir do filho do carteiro. O escolar do quepe azul, Camille Roulin. Numa carta para o irmão, Vincent escreveu: “pintei os retratos de toda a família; todos tipos bem franceses, embora tenham cara de russos”. Só Rosa compreende a que “russos” o pintor se referia: na verdade, quis dizer “rosas”, quis dizer exilados, trânsfugas, imigrantes de uma pátria triste: o país dos que cansaram.
Voltar na hora em que todos vêm é um exercício de solidão acompanhada; a massa no contrafluxo, rugindo de raiva e pressa, e ela na outra margem do rio da miséria cotidiana. Rosa ainda ouve o flautim ao descer no ponto; ainda não sabe explicar o fascínio daquele milagre da pura linguagem, mensagens de além-túmulo de um pobre diabo distante dela mais de cem anos. O dobro da idade que completa hoje. Se fizer um bolo, alguém se lembrará de lhe cantar um parabéns em casa? Decorou as falas do professor Tassotti nos cursos que incluem visita guiada ao acervo.
― ... reparem as extensas áreas monocromáticas, os contrastes impressionantes, a força que pulsa nas camadas espessas de tinta espremida diretamente das bisnagas. Mais adiante, no Passeio ao Crepúsculo, também de 1888, gostaria de lhes chamar a atenção para as duas zonas bem distintas da luz: no alto, à direita, os azuis escuros dos Alpilles, de onde a noite cai rapidamente; o casal dirige-se para a esquerda, onde predominam os verdes claros; na borda inferior, o detalhe malicioso do passarinho. É preciso levar em conta que esta era a perspectiva da janela do hospício em Saint-Rémy, onde o haviam internado; a metáfora do ato sexual parece-me bastante óbvia. Como lhes mostrarei mais tarde na sala de projeção, nas pinceladas convulsas do Trigal com Corvos e da Noite Estrelada, igualmente pertencendo a este período final na Provença, trava-se uma avassaladora batalha cósmica e já não estamos simplesmente acompanhando a evolução de um artista excepcional: é como se assistíssemos ao nascimento do Universo.
O marido a espera no portão de ferro sem pintura; o portão é meio caído dos engonços, precisa ser levantado para abrir. Está trombudo, como de costume; apressado, como de costume, para ir trabalhar ― a mesma pressa que lhe falta para voltar. Nem um beijo, nem uma palavrinha meiga. Que dirá, um feliz aniversário.
            ― Tô indo. O menino não comeu pão, só o leite tomou. Ah, vê se não faz macarrão de novo na janta, já foi onte e ontonte.
            Wanderson, o neto de cinco anos, vai arrastado para o ponto; ele é bem irrequieto, pudera, sem a mãe por perto as crianças de hoje em dia ficam incontroláveis. Enquanto passa o menino por baixo da catraca do ônibus pensa se o está criando bem. Talvez esteja apenas repetindo os mesmos erros que cometeu com os filhos. Tem só dois, Deus e o desinteresse do marido não lhe deram mais. O filho mais novo já não aparece muito, vive na rua; só dá as caras em casa a horas desencontradas, volta com um ar esquisito, transtornado. As coisas não param de sumir: na semana passada foi o liquidificador, que ela ainda nem tinha acabado de pagar no crediário.
            Rosa deixa o olhar vagar distraidamente pela cozinha, espera o café passar no coador de papel; não quer se voltar na direção da sala e do quintal que reclamam uma boa faxina. Em silêncio, morde os lábios ao reparar, junto do pote de café, entre pacotinhos de chá, sacos de pão dormido e latas de embutidos, uma garrafa pet cheia de água sanitária. Pensa em como é fácil morrer, e que não deve deixar escapar tão magnífica ocasião e lugar. Bastam uns goles daquela água que passarinho não bebe para apagar de uma vez todo aquele cotidiano de imagens cinza, de filhos perdidos, de marido desalmado, de tédio mortal no museu.
            ― Ô vida besta, Deus meu! ― disse para si mesma, para Deus ou para as paredes, tanto fazia.
            .Mas quando já estava a ponto de pegar a garrafa, quando o menino azul do quadro já recomeçara a tocar o pífano diabólico na sua cabeça, aconteceu de pensar no desgraçado do seu marido e de repente descobriu que havia algo no ar da manhã, nesse estar sozinha e triste na cozinha, que agitava seu sangue de um modo quase agradável. Na verdade, seu marido está pegando a vizinha da rua de baixo, a piriguete sem graça da mercearia (e o desgraçado achando que ela não sabe de nada); na verdade, o sem vergonha do marido é um espírito sem luz merecedor de compaixão, e precisa ser ajudado, o que não deixa de ser uma boa razão para seguir vivendo, para seguir preparando o café, para seguir tentando que seu marido recupere a alegria e volte a ser aquele homem encantador que havia conhecido no Playcenter há trinta anos, quando lhe pagou um algodão doce.
            Decidiu que vai fazer um bolo.

sábado, 23 de junho de 2012

nada é real



nada mais certo:
envelheço
choro por qualquer motivo
perco a carteira
confundo rostos, paisagens
esqueço de ligar
o nome à pessoa
o quando e a coisa

viajo, perco países
escuto a tarde em rajadas
descubro
o semblante interior do suicida
apaixonado

penso cada vez menos
no nada,
cada vez mais
― o nada
(dizem os nadólogos)
está vazio de tudo
pleno
de possibilidades

ainda sinto que o mundo é pequeno
pra mim
grande demais para a minha
desimportância

desconfio
nada é o que parece
It’s not a question of when
just how
porque nada absolutamente
nada é real
o
amor

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rosa faz anos (parte 1)



            Todos os dias despertamos numa realidade diferente do dia anterior; ao acordar, nossos sentidos tateantes buscam o conforto dos objetos conhecidos, do lugar habitual, de maneira a tornar menos traumática a passagem. Não há precaução contra o imprevisível: agarramos qualquer velho pedaço do mundo de ontem para conjurar as ameaças contidas na mais pacífica das manhãs. A mente apavora diante do desconhecido ― embora secretamente deseje o novo ―, e por isso o cotidiano se organiza como formas e métodos de domesticar a angústia de viver. Rosa sabe que até as pedras mudam, e que algo nela mudou durante a noite passada em claro.
            Um piscar de olhos, um bocejo, uma coçada de queixo, um voltar-se para o lado onde não há nada que ver, assim provavelmente passou a linha divisória entre a véspera e o dia do aniversário da Rosa; à meia noite/zero hora já só lhe faltavam seis horas para largar o turno da noite na equipe de segurança do Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Não era a escala dela, trocara aquele plantão com o Neno, o único amigo que tinha no mundo: um colega da terceirizada que fazia a segurança do museu. Neno. Bom que ele tenha topado, vai poder ficar com a família; quer dizer, vai passar o dia seguinte arrumando e cozinhando, mas em casa.
            Rosa está fazendo cinqüenta anos. Sua vida está aos pedaços: o marido e os filhos se afastaram, a família, há muito distante lá nas Alagoas; para completar, no trabalho vê escassear os parceiros da velha guarda. O novo amigo é um desses jovens com que agora divide os turnos. Uma figura e tanto para um membro de guarda patrimonial: Neno é anão. Empresa grande, a lei obriga a ter cota. Por causa dele, aprendeu uma das mais duras lições sobre a natureza das nossas relações com a realidade, ou melhor, sobre a feição tantalizante do mundo: tudo nos é ofertado, tudo nos é negado. E como se nos nega o que é ofertado? Simplesmente não distinguimos uma coisa da outra.
            O mundo é uma mesa posta pela Tentação, cheia de inúmeros impedimentos e embaraços no caminho das graças com que nos brinda. Neno deu de odiar nordestino, solidificou ainda mais esta quizília trabalhando no turno vespertino; muitos visitantes não se contêm diante do soldadinho, e há mesmo os que chegam a perguntar aos monitores se o homenzinho faz parte da exposição.
            ― Ói lá, pai, que da hora! Posso brincar com o anãozinho?
            ― Moço, pode chegar mais pra perto da estauta? Só uma foto...
            Estas e outras quetais, fizeram-no passar a um nutrido ressentimento de classe. Por outro lado, babava o ovo dos funcionários da casa e dos superiores da empresa de segurança.
            ― Senhor Macedônio, estamos muito satisfeitos com o seu trabalho e da sua equipe.
            ― Gostaria de anunciar que o nosso querido Macedônio Fernandes foi novamente escolhido o funcionário do mês.
            Eram exatamente os mesmos que contavam piadas e não perdiam uma chance de mangar da “grande” capacidade e estatura moral do iludido rapaz. Um dos curadores da instituição chamou Rosa de canto certa vez para lhe comunicar uma incumbência especial. Depois de lhe explicar os detalhes da mostra que se iniciava em breve, o Professor Tassotti comentou:
            ― Então Rosa, você aqui conquistou um respeito e confiança enormes... só te daria um conselho de amigo, não leve a sério demais, é que queima o filme andar pra cima e pra baixo com um anão. Não pega bem.
            Rosa se pergunta se não sofremos todos da mesma miopia, se os nossos falhos instrumentos de navegação da realidade não brincam de enganar os sentidos (vãos) que emprestamos à vida. Seja como for, ela intui que vive um paradoxo: cada vez mais ela pinta a sua vida prática com as verdadeiras e duras cores do realismo; ao passo que, em seu íntimo, ela sente que desliza irremediavelmente para o delírio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O quartel de Dona Mocica (epílogo)





            No mundo ― dizia Balzac ― não há nada que saia de um bloco único, tudo nele é mosaico. Não obstante, a imagem que se conservou em mim dos avós de Bauru é fotográfica; um cromo amarelado do álbum que mamãe guardou por toda vida e hoje integra o meu acervo.
É como se eles já não pudessem mais deixar as roupas e a idade que os sais de nitrato de prata fixaram no Studio Photographico Cantarelli: meu avô Joaquim, a farta barba hassídica a tornar mais fundos os olhos negros, as orelhas enormes, a calva coroada pela penugem rala do cocuruto; veste um paletó de tecido escuro e grosso, igual ao colete, a camisa branca de colarinho duro com as pontas dobradas como os cartões de visita, encimada por uma gravata preta lavallière. Ao lado dele, a figura meiga, mas altiva, de Vó Nininha: miúda, a boca fina a rasgar a suavidade do rosto com um ar zombeteiro, os cabelos presos no coque simples; nela sobressai a graça diáfana do vestido claro de mangas compridas, cheio de nervuras na frente, gola alta e debruada de rendinhas, arrematado por uma pelerine sobre os ombros.
O mesmo não ocorre com a casa em que moravam, esta, ainda agora posso percorrer de olhos fechados de cima a baixo, cômodo por cômodo, palmo a palmo, aqui, conheço o conteúdo de cada gaveta, o secreto perfume de cada recôndito; como se as reminiscências daquele período nunca houvessem esmaecido e a arquitetura do casarão, há muito demolido, resistisse em minha carne, ossos e nervos ― grão da imortalidade possível na alma corpórea.
Casa que, na verdade, era um palacete maciço de três pavimentos; bem ao estilo português, erguido no limiar da calçada. No andar térreo ficava o porão, de altura regular e plenamente habitável; o segundo andar era o plano nobre da habitação; no terceiro piso, os dormitórios. Nestes andares superiores, duas varandas simetricamente dispostas guarneciam a fachada principal; a primeira, ornada com arcos apoiados em robustas colunas fuseladas; e a segunda com pilastras pergoladas, cobertas por alamandas e buganvílias que subiam do quintal. Dois portões laterais de ferro, de esplêndida serralheria, davam acesso ao casarão; o da esquerda, mais estreito e ao nível do porão, levava às áreas de serviço e edículas; o portão da direita, mais amplo, constituía a entrada principal. Ao lado da entrada dos carros ficava a escadaria que conduzia à varanda do segundo andar, pavimentada com ladrilhos hidrográficos e assentada sobre um largo parapeito de onde apreciávamos o movimento da rua.
A única porta utilizada para ingressar na casa era a que ficava na ponta final do terraço; por ela se adentrava um pequeno foyer que dispunha de janelas duplas com vidro fosco e um porta-chapéus em madeira escura, cabides de prata e espelho de cristal. Pelas bengalas, sombrinhas, chapéus e casacos ali pendurados, sabíamos imediatamente quem estava em casa no momento. A partir deste compartimento abria-se um grande corredor que dividia a habitação em dois corpos distintos ligados por cômodos sucessivos; do hall, subia a imponente escadaria de dois lances em pinho-de-riga que conduzia aos quartos. O pé direito do segundo piso, desmesuradamente alto, dava ao hall um vão livre de cinco a seis metros, de cujo zênite um vitral despejava caleidoscópicos reflexos amarelos, verdes e vermelhos. Seguindo pelo eixo central, havia portas que abriam para a sala de estar ― a qual só uma vez vi aberta para receber visita de grande cerimônia ― e a sala de jantar, o maior cômodo e o centro afetivo da casa. O refeitório dava para o quintal através de uma escadaria em curva; depois, sucessivamente, vinham a copa, o lavabo e a cozinha.
O pavimento superior, reservado aos dormitórios, reproduzia a disposição do andar de baixo; no corredor, o tique-taque contínuo do carrilhão, em cujo mostrador lia-se uma frase em latim: tempus fugit irreparabile. Situado acima da saleta da entrada, ficava o quarto que fora de mamãe em solteira; a seguir, outro quarto, o de meus tios, e que servia de rouparia. Marcantes eram as duas enormes cômodas desta rouparia, com gavetões da base à face superior que pareciam feitos para gigantes; continham roupas de cama, fronhas, lençóis, toalhas de mesa, rendadas ou adamascadas, recendendo a cânfora em meio a bolinhas de naftalina. O quarto dos meus avós, logo a seguir, tinha as dimensões da sala de jantar; por fim, vinham o banheiro e mais três quartos, dois dos quais ocupávamos nas férias; no último dormitório, morava a tia-avó Inácia.
Havia apenas um banheiro no terceiro andar e bacias de ágata em cada dependência para as abluções, mas sempre preferi o lavabo do corredor, onde fingia usar o sabonete “de bola” dependurado a uma corrente junto à pia; dali, espiava de través o quarto de Dona Inácia, a irmã mais velha de meu avô que o criara desde os seis anos de idade depois do falecimento da minha bisavó. Poucos eram admitidos na sua presença, e nunca crianças, visto que a nossa algazarra parecia incomodá-la sobremaneira. Impressionava a nudez do aposento: apenas a mobília indispensável, nenhuma gravura na parede, nenhum enfeite, sequer um tapete no assoalho. A tristeza, companheira de toda a sua vida, vencera por fim; magérrima, sempre de pijama, ora deitada na cama de patente, ora sentada na cadeira austríaca de balanço a ler jornais, mantinha-se em obstinado silêncio. Seus olhos vazios, nas poucas vezes que cruzaram com os meus, jamais pareceram reconhecer minha presença. Hoje, visitado freqüentemente pelo cão negro da melancolia, entendo afinal que infinito mirava aquele olhar.
O que nunca alcancei compreender, e devo levar para o túmulo como enigma da vida inteira, foi um episódio envolvendo a governanta daquela casa, Dona Mocica. Em tudo e por tudo, era como um contraponto de Vó Nininha; miúda como ela, Dona Mocica em todo o resto se lhe opunha: as feições duras, o ar marcial, as vestes sempre negras, como se estivesse num luto eterno. Nunca a vi sorrir para ninguém, assim como nunca soube o seu verdadeiro nome; sua única particularidade conhecida era o orgulho que tinha do avô, oficial combatente da Guerra do Paraguai. Morava no andar de cima da edícula situada no fundo do amplo quintal. Ali, no espaço mítico que ia da garagem aos confins do galinheiro, se estendiam os domínios do meu reinado; por aquelas bandas vicejavam roseiras, buxinhos, crótons, dracenas, acalifas, damas-da-noite, manacás, jasmineiros, em deliciosa anarquia.
Foi durante umas férias de meio do ano, disso estou certo, pois era época de colheita do café. Não lembro porque, parte de um dos carregamentos ficou estocada nos fundos do casarão. Passei a tarde subindo e descendo as sacas empilhadas nos “meus” vastos territórios, até que me dei conta de que, subindo pelos sacos de aniagem rente ao muro da edícula, obtinha uma visão do quarto de Dona Mocica. Cooptei meu primo Nando para a aventura; Nando, um ano e meio mais novo do que eu, estava convencido que a pobre senhora era bruxa. Combinamos então uma expedição noturna para surpreender o pretenso sabá. Chegada a hora, percebemos que a escalada no escuro era bem mais problemática; por sorte, a unha-de-gato do muro facilitou nossa tarefa.
Trepados nas sacas que enchiam o ar com o cheiro do café, ocultos pelas sombras da noite, devassávamos a intimidade da governanta ― e, assim, descobri o quanto a realidade ultrapassa a mais louca fantasia. Eu e Nando não tínhamos idade para saber o que era aquilo, mas sentíamos a estranha eletricidade que nos percorria de alto a baixo: diante dos nossos olhos estupefatos, víamos aquela austera senhora travestida de militar andando pelo quarto. Era o uniforme completo do Regimento de Osório, tal qual o conhecíamos das figurinhas do sabonete Eucalol: o boné de pala azul, o dólmã azul-ferrete, as dragonas douradas no ombro, o cinto talabarte branco a combinar com as luvas, e as bombachas azuis, com as botas de couro preto cobrindo-as até aos joelhos.
Dona Mocica sorria.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

O quartel de Dona Mocica (primeira parte)




            A infância é um território do tempo feito de encantamento e deriva. Tudo que depois chamei de realidade resultou do ajuste ao padrão médio de percepção, um longo processo que me empalideceu a memória, a imaginação e o sonho. Daí que posso dizer que existem várias realidades, não sendo as coisas todas reais da mesma maneira, nem iguais para diferentes pessoas. Compreensível assim que, para o moleque sarambé que eu fui, magro, moreno, orelhas de abano e ar assustado, mais afeito às coisas do que às pessoas, aquele casarão dos meus avós adquirisse um halo de fantasia, cujas vibrações áureas ainda hoje ecoam em meu espírito.
            Meus avós maternos eram grandes senhores de terras, proprietários das fazendas do Tijuco, São Simão e Santa Eulália, onde criavam gado leiteiro, plantavam algodão, milho e, principalmente, café. Terceira de nove filhos, sete homens e duas mulheres, mamãe era a menina dos olhos de meu avô e, mesmo depois de casada, passava impreterivelmente as férias do meio e do fim do ano entre o casarão de Bauru e a sede no Tijuco. Morávamos na Alameda Lorena, num sobrado próximo à Haddock Lobo que deu lugar a um prédio de apartamentos; esta casa, onde morei de zero aos quinze anos de idade, estranhamente, não carrega tantas impressões, mantendo-se como que suspensa no ar.
            No primeiro dia das férias, acordávamos antes do sol para não perder o trem das sete horas na Estação da Luz. As malas dormiam arrumadas de véspera, as roupas de viajar nos aguardavam dobradas sobre a cômoda azul e as cadeiras de palhinha, ao lado dos sapatos com as meias a sair da boca. Vestíamo-nos estremunhados de frio e pressa ― essas manhãs gloriosas ficariam para sempre marcadas pelo tresnoite e a excitação da partida ―, íamos então para a cozinha “forrar o bucho”, como dizia a Zeza. Pão com manteiga ou requeijão caseiro, café com leite, banana nanica e um bolo de fubá quentinho; para me garantir, ainda enchia os bolsos do casaco com sequilhos, suspiros, losangos de doce de leite e biscoitos-de-jacareí.
            Carregado o táxi sob a porte cochère da nossa casa, deslizávamos por uma cidade completamente vazia (na minha memória sempre fustigada pela chuva), indo desembarcar numa ruazinha ao lado do Jardim da Luz junto ao hall de entrada da estação. No saguão, o rumor de uma multidão de viajantes chegando e saindo dos limbos da nave central, contrastava com as ruas adormecidas que acabávamos de atravessar. Enquanto papai confirmava os lugares num dos guichês da entrada, seguíamos em fila o moço das bagagens: eu, mamãe e a Zeza, arrastando pelas mãos minhas irmãs.
            O menino mira atordoado a descomunal estrutura de ferro e vidro do teto, que se eleva vertiginosamente sustentada por um conjunto de imponentes colunas de alvenaria, e não duvida: sob esta majestosa arcada em vão livre acontecem aventuras que nem as de Stevenson, Ballantyne, Mayne Reid e Emílio Salgari, da coleção Terramarear, que ele já devora solitário. Atravessamos o passadiço de ferro central para descer a longa escadaria em três lances que conduz à plataforma, onde a composição aguarda encostada. Afixados às paredes, cartazes da Herva Matte Unsigen, Elixir Dória, Rhum Creosotado, Aspirina Bayer, Casa Fuchs; brilhantes placas de bronze na armação metálica indicam a fabricação: Walter MacFarlane & Co., Glasgow.
            Papai preside atento a cada deslocamento da família, pagando o carregador, cumprimentando os conhecidos ou tomando qualquer providência final; eu acompanho todos os movimentos do seu chapéu de feltro Fedora, guaribado no topo e na aba frontal, a flutuar sobranceiro num mar de chapéus. Um cavalheiro que jamais saía de casa sem um lenço perfumado, o alfinete de pérola na lapela do paletó impecavelmente vincado, a gravata acetinada, as abotoaduras de pedra vermelha, os óculos acavalados no nariz pequeno, o bigode sobre a boca fina. Se ainda há tempo, sai comigo para comprar jornais e revistas em quadrinhos, ou até mesmo tomar um guaraná na lanchonete Vagliengo.
            Como se obedecesse a um ritual, ele sacava do colete o relógio Longines de corrente para avisar que era hora de subir no Pullman, encontrar nossos lugares e acomodar os volumes. A campainha disparava, um funcionário percorria a plataforma anunciando que o trem ia partir; um choque, os vagões se acomodavam nos engates, e então o monstro de aço se punha em marcha lentamente, afastando-se da cidade. Lá fora o dia despontava; com o nariz espremido contra o vidro do compartimento reservado, via as zonas industriais da cidade com suas altas chaminés cinzentas, depois vinha o casario monótono do subúrbio, os descampados, até que surgia triunfante a paisagem rural do planalto paulista.
            A jornada era longa, cansativa e, também, escaldante, tão logo nos afastávamos da Serra dos Cristais em Jundiaí; me esquecia horas pasmando na janela, acompanhando os fios dos postes que corriam paralelos à ferrovia, subindo e descendo, em compassos irregulares. De repente, um túnel, ao sair, o choque do mundo reverberando luz. Ainda hoje, mais de seis décadas passadas, trago gravadas na retina da alma cada minúcia do vagão: a tonalidade verde-escura dos estofados e da passadeira de linóleo; as arandelas em forma de tulipa, de vidro jateado e bordas bisotê; o console do reservado com cantoneiras de metal dourado, fixadas por parafusos sextavados; as duas linhas paralelas a toda volta do compartimento, uma violeta e outra amarela, formando um ornato retangular com o monograma, CP, da Companhia Paulista na parte central.
            Lá pelas onze, o sol, já a pino, nos cozinhava dentro daquela caixa de ferro; eu saía a procurar meu pai no salão, parlatório exclusivo dos homens. Para consolo da minha impaciência, ganhava um suculento filé com fritas no carro-restaurante; quando nada mais me fazia ficar quieto, o bilheteiro anunciava a estação de Brotas. Já faltava pouco; as próximas estações sabia-as de cor: Torrinha, Dous Córregos, Jahu, Banharão, Mineiros e, finalmente, Bauru. O trem descrevia uma longa volta em torno da cidade, da janela, me referenciava pela agulha da torre da matriz contra o céu azul. Com energia renovada, pegávamos um táxi na estação rumo à casa de meus avós, na rua Major Baleizão nº 262. Ali, no castelo dos meus sonhos, eu fui feliz
            Há quem diga que toda infância é infeliz; não sei, a julgar pelo que vivi, digo que a minha não deixou de ser ambas, feliz e infeliz; porém, com muito mais verdade diria que foi um luminoso desfile de seres e emoções que me atravessaram e marcaram perduravelmente. Ainda assim, por uma dessas contradições que é própria à condição humana, as memórias da minha meninez se enovelam qual teia confusa em torno de dois núcleos de intensa obscuridade: minha tia-avó Inácia e Dona Mocica.
            


sábado, 2 de junho de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte final)



Como combinado, o signore Renato veio buscá-la no ponto de ônibus depois da aula de música; Manuela despediu-se da amiga que a acompanhava e embarcou na imponente BMW preta cuja porta um motorista uniformizado lhe abria de quepe na mão. Pararam numa gelateria nas imediações da Ponte Vittorio para se refrescar; os dois homens pareciam muito empenhados em detalhar com ela cada passo do importante encontro marcado para mais tarde com Mister Barkley, o representante da Avon Cosmetics Company.
Renatino e Pierluigi, o motorista, divertiam-na imensamente, principalmente este último, com sua cômica magreza e a voz infantil a contrastar com o linguajar chulo de forte sotaque ligúrio; aquilo que diziam tinha o poder inebriante de um licor exótico: a entrevista em inglês com um americano importante, os milhões de liras ― que ela se apressou a dizer que dividiria com os irmãos e os pais ―, as futuras capas de revista, etc. Não conhecia aquele sentimento, uma doce euforia que inunda a vida de possibilidades e tão facilmente se confunde com a boa ventura.
Gravou uma mensagem que entregariam à sua família para que se tranqüilizasse: nos próximos dias estaria envolvida em importantes negociações, ocupada de tal forma que talvez nem conseguisse telefonar para eles. A mensagem terminava com um recado para a sua irmã preferida, Loretta.
― Fique feliz por mim mana, nunca me senti tão bem, acalme papai e mamãe, você sabe como eles são, vêem perigo em tudo. Todos me tratam tão bem! Estou fazendo o que você sempre me disse para fazer: ir atrás dos meus sonhos. Não tenho realmente necessidade de um prazo para refletir, estou consciente do caminho que escolhi. Você pode fazer a sua vida sem mim mais facilmente do que eu sem você; não precisa de ninguém para construir o seu lugar no mundo. Comigo é diferente, me sinto como as andorinhas a brincar no céu... penso muito no que você me disse um dia: “quanta liberdade, por tão pouca responsabilidade”. Quando puder, volto e te conto tudinho, Lori, agora eu sou Barbara, a Barbarella, recorda?

Na casa dos Morandi o clima é de apreensão e terror naquela madrugada de quarta para quinta feira. Emanuele, o pai, desmoronou na poltrona depois de dar os três únicos telefonemas de que foi capaz: ligou para a polícia para comunicar o desaparecimento; para Irmã Costanza, diretora do conservatório, pedindo para ser imediatamente avisado caso alguma das colegas de aula tivesse informações; e, finalmente, para o arcebispo Casimir Markevicius, seu chefe no Banco do Vaticano. Confusamente, temendo as conclusões, ia juntando os cacos de conclusão na sua cabeça; a reação do monsignore deu a entender que o pior tinha acontecido: Manuela fora seqüestrada pela Máfia.
A polícia sugeriu que esperasse, afinal, o mais comum nestes casos é que a menina estivesse “passeando com amigos”.
Ele sabia, sabia de tudo e não podia abrir a boca; se o fizesse, as coisas poderiam se tornar ainda piores para a sua filha naquele momento. Sabia até o preço do resgate ― que nunca seria pedido à família ―, duzentos e cinqüenta milhões de dólares! Os filhos e a mulher estavam feito barata-voa pela casa, iam e vinham até perto do telefone, paravam como se lembrando de algo, para retomar em seguida a peregrinação aleatória com o olhar perdido. Ninguém dormia.
Emanuele Morandi arriscara demais ao fazer da sua menina protegée do todo-poderoso Markevicius; conhecia a fama do americano: fumava charutos cubanos, freqüentava salões e academias de ginástica muito mais do que sacristias, dividia a mesa com gângsteres e a cama com atrizes. A falência do Banco Ambrosiano causara pesadas perdas nas finanças do crime organizado, e eles agora buscavam reaver o dinheiro à sua maneira brutal. Do alto da torre Nicolau V, onde tinha certeza de não ter seus telefones grampeados, o monsignore acionava sua multitentacular rede de contatos; assegurando às famiglias ítalo-americanas que faria de tudo para indenizá-los. Soube que a adolescente estava nas mãos da Banda della Magliana, uma gangue romana chefiada por Enrico de Pedis ― o Renatino.
Apesar do apoio incondicional do Papa, que jogou seu prestígio para impedir a prisão do arcebispo pelo governo italiano, ninguém conseguiu dobrar o implacável secretário Agostino Casaroli, que já havia bloqueado a promoção de Markevicius à púrpura cardinalícia. A Igreja não reconheceria as contas secretas da Cosa Nostra em seu banco.
Dez dias depois, durante o Angelus da missa, o Santo Padre apelou aos captores de Manuela pela sua libertação. A hipótese de seqüestro era admitida oficial e publicamente pela primeira vez.

― Ninguém tinha me avisado que viria de Nova York para “fazer” uma criança... ― Donny Gambalonga, o tal Mr. Barkley, é na verdade um killer americano designado para acompanhar a operação de cobrança pelo clã dos Genovese.
― Se te faltar o sangue-frio, cugino, nós mesmos damos conta do caso ― De Pedis gostaria de resolver as coisas sem ingerências externas, mas ordens são ordens.
― Hmm, estou aqui para resolver problemas. É o meu trabalho. Se não fosse eu a fazê-lo, seria outro... não me custa mais nem menos. É verdade que a garota era do monsenhor?... Ok, acho que vou “brincar” um pouquinho com ela, antes.
Manuela compreendeu finalmente a verdade. Como sucede mais ou menos a todo mundo, aprende-se com a vida, mas sempre tarde demais.

― Vai doer muito, quer dizer, quando...?
― Não, bimba, vai doer só durante um minuto. Depois, passa tudo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

a segunda pele



Quando um artista rompe
com a matéria de que é feito
equivale para o mundo
à descoberta da própria textura

Mais do que um público
a verdadeira arte abriga
usuários ambientes e conexões
cada obra se descobre participação e diálogo

Coexistem no objeto estético
realidades seres flutuantes inevitáveis
múltiplas arquiteturas simbólicas
o cortejo da infinita reprodutibilidade

A arte intervém como dobra
criação delirante libertação
por hipertrofia elemento aberrante
no jorro da vida

O habitat da poesia é a topografia
instável e transformadora do delírio
sonho tangível arte
não é resultado é resto

E o que resta é um esforço
para repotencializar a realidade
aumentá-la com metáforas deformar
saturar (ou subtrair) sentidos

A arte não transforma o mundo,
nem o artista mas revela percursos
imprevisíveis desconcertantes mentiras
aço e alabastro eterno simulacro

O artista ergue sua paisagem
de ocultas revelações geologia
de superfície cujo desabamento
contínuo soterra nosso frágil cotidiano

domingo, 27 de maio de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte 2)



O monsignore está muito preocupado. Apesar de ser o terceiro homem mais poderoso da Igreja Católica Romana, abaixo apenas do Papa e do Secretário de Estado do Vaticano, ele tem motivos de sobra para acreditar que suas três décadas de crescente poder na hierarquia eclesiástica se encaminham para um ocaso vergonhoso. Isto se conseguir escapar da prisão. Da janela da sua sala, situada no quarto e último andar do bloco central do Palácio do Governo, observa os jardins defronte onde o brasão de armas da Santa Sé está desenhado nos canteiros de grama milimetricamente aparada. Anela possuir aquelas chaves cruzadas de ouro e prata que representam as chaves do reino dos céus prometidas a São Pedro.
O arcebispo Casimir Markevicius precisa mover as peças com extrema prudência no tabuleiro da intrincada trama de política religiosa, finanças e poder mundano que ele mesmo ajudou tecer. Aos sessenta e um anos, ainda exala saúde e ostenta a compleição atlética que lhe valeu o apelido de “Gorila”; é um homem rico e influente, mas descobriu dolorosamente que não é inatingível. Anda freneticamente em todas as direções no seu gabinete, estrala os dedos das mãos, franze os ombros, sem conseguir achar saída ou sossego. Febril, acredita ter atingido a perturbadora lucidez dos patibulários: já ouvira falar dessa clareza mental que acomete os que sabem que vão morrer.
Percebe que a essência do seu ministério está fadada à incompreensão, seus modos, suas ações e seus métodos não se coadunam com a santimônia afetada dos seus pares. Se o futuro certamente o condenará, trata agora de evitar que o presente também o faça.
― Pode-se viver neste mundo sem se preocupar com o dinheiro? ― vocifera para as paredes ― Não se pode dirigir a Igreja com ave-marias!
A madrugada do dia 23 de junho de 1983 avança, mas, aquele que chegou a ser chamado de “banqueiro de Deus” e “guarda-costas do Papa” não se deixa vencer pelo sono. Relembra a infância pobre em Cicero, periferia sem lei da Chicago de Al Capone, relembra o decisivo apoio do cardeal de Nova York e capelão militar dos Estados Unidos, Francis Spellman, nos seus primeiros passos em Roma. Outros tempos, mas a mesma santa cruzada: o bom combate. Spellman cuidara pessoalmente dos financiamentos para evitar a infiltração comunista nos países da América do Sul e da OTAN, como quando enviou milhões de dólares para a Democracia Cristã de Alcide de Gasperi vencer as eleições italianas no pós-guerra imediato.
E qual reconhecimento obteve este clérigo admirável? Ficar marcado pela apropriação do dinheiro que os nazistas refugiados na América haviam roubado aos judeus. Em nada importava o bom uso destes recursos? Não era verdade, como se lê na primeira epístola de Pedro, que “a caridade cobre uma multidão de pecados”? Markevicius era o vértice oculto de uma encruzilhada histórica: ajudara Montini, o protegido de Pio XII, a se sagrar Papa depois do excessivamente liberal João XXIII, evitara, após a morte de Paulo VI, que o intransigente Luciani iniciasse um expurgo no Banco do Vaticano; Benelli, secretário de Montini e cúmplice no affair Luciani, não logrou o pontificado, mas a solução de compromisso Wojtila mostrou-se acertada no tocante à luta anticomunista.
Porém, a recente falência do Banco Ambrosiano de Milão tinha o potencial explosivo de todas as ogivas nucleares da Guerra Fria. Trapaceiros de variado calibre, políticos corruptos, capi da Cosa Nostra, empresários inescrupulosos, nobres, maçons, prelados complacentes e Cavaleiros do Santo Sepulcro viam-se assim sugados pelo buraco negro das finanças nada santas da Igreja.
Há mais de dez anos no comando do I.O.R. (Istituto per le Opere di Religione, o banco da Santa Sé), na prática, Casimir Markevicius gerenciava um banco off shore em pleno centro de Roma, cujas operações financeiras ficam fora dos acordos jurídicos e dos filtros antilavagem interbancários e internacionais. Um paraíso fiscal que negociava com altos depósitos e retiradas em espécie, títulos do governo italiano, ações norte-americanas falsificadas, contas numeradas ou em nome de “laranjas”, fundações religiosas de fachada e... dinheiro da Máfia. O rombo de quase dois bilhões de dólares do Ambrosiano expunha as entranhas de uma engrenagem que servira, entre tantos propósitos abstrusos, para financiar o sindicato Solidariedade na Polônia e iniciar a derrocada da Cortina de Ferro.
É necessário fechar rapidamente o contencioso com o Ambrosiano de modo a minimizar os danos de imagem e Casaroli, Secretário de Estado do Vaticano, estipula, junto a uma comissão mista com o Estado italiano, uma indenização de 100 milhões de dólares aos clientes do banco. Mas o poderoso cardeal se recusa a ressarcir a Máfia. O arcebispo sabe que as famiglias têm esse costume de mandar recados através de suas ações violentas. Dois envolvidos no escândalo morrem em “suicídios” mal esclarecidos, então, vem o atentado contra o Papa. O círculo de fogo se fecha; pela primeira vez, Markevicius não consegue evitar um atentado contra a vida de Sua Santidade.
E agora, o desaparecimento da menina.

sábado, 26 de maio de 2012

vida amor poesia verdade


quando uma verdade se torna a verdade
de todos
já não é de nenhum

a poesia tece a miragem
dos mundos
que o mundo não soube ser

o ente doa ao amor a presença
o mundo,
a falta

a vida é a obra de um sonho
em acontecimento

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte 1)




            A chuva dura pouco, novamente o calor estival volta a fustigar os habitantes do menor país do mundo. A menina sai para caminhar tão logo termina o aguaceiro. Ela está chorando. Não é incomum acontecer; mas hoje isso não a preocupa por dois motivos: os óculos, que detesta usar, escondem as lágrimas curtas e, também, porque chora de felicidade. Descobriu que pode ser, que vai ser, aliás, já é feliz; a felicidade pode ser assim como uma tarde de sol que começou nublada. Caminha a passos largos, de quando em quando, entremeados por pulinhos de contentamento impaciente. Acabou de completar quinze anos e sente uma felicidade vital e desanuviada que só nessa idade se pode sentir. Tem uma vida maravilhosa pela frente.
            São as férias escolares de final de ano letivo, Manuela terminou o segundo ano do colegial no Liceo Scientifico com notas excelentes. É o orgulho dos pais e dos quatro irmãos. A família Morandi é de poucas posses, não há viagem de férias, nem acampamentos de jovens, como para muitos dos colegas de escola das crianças ― zelosos, Babo Emanuele e Mamma Marina são bastante estritos quanto a privilégios: se não houver regalias para todos, não as há para nenhum. Ninguém reclama.
A quarta filha dos Morandi, no entanto, demonstra uma extraordinária aptidão para a música; Manuela tem aulas de flauta transversal três vezes por semana e canta no coro da igreja de Santa Ana, dentro do Vaticano, onde vive desde que nasceu. Mesmo durante as férias grandes, continua a freqüentar as aulas da renomada Scuola Tommaso Ludovico da Victoria, conservatório ligado ao não menos importante Instituto Pontifício de Música Sacra. Contrariando seus hábitos, naquele dia toma a saída da Sala de Audiências, virando na Piazza dei Sant’Uffizio e seguindo a pé pela Via di Porta Cavallegeri até à barulhenta Gregório VII.
Balançando o estojo do seu instrumento no compasso de um rondó mental, ela se baladeia pelas ruas a perguntar: “Sou bela?, sou feia?, ou, pior que tudo: serei apenas... comum?!” Não, não pode mais duvidar, o mundo descobriu que ela possui algo de muito especial sob aluviões de timidez, inibição e medo. Às vezes tem a impressão de que as coisas se passam dentro de um filme; sofre como as heroínas dos romances, sim, sofre terrivelmente por causa de um assunto secreto que não tem coragem de contar a ninguém. Nem mesmo a um diário.
Só que agora, enquanto sai à direita na Via Aurelia, percebe que a alegria é um pássaro que perdeu o medo de se aninhar entre as suas mãos. O verão é uma estação louca, pensa, os jovens precisam sair das suas casas e andar, andar perdidamente, só para aspirar o odor pungente que sobe das ruas molhadas de chuva. “Manuela, quão leve é o ar que agora flui para teus pulmões”. A avenida contorna caprichosamente um imenso quarteirão à esquerda, onde uma mansão decrépita mal se entrevê atrás de um espesso bosque; é um lugar ermo que costuma evitar descendo do ônibus mais adiante, próximo à Via Paolo III. Um caçador de talentos, representante de uma companhia de cosméticos, um homem muito bem vestido, perfumado como uma senhora, disse que ela era quem ele estava procurando.
            ― Eu sei mana, mas escuta, pensar mal é pecado, mas às vezes se adivinha. Não digo que não seja possível... é que, bem, você nunca tinha se atrasado, a senhora Costanza telefonou.
― Você é a irmã mais velha, e eu respeito, mas é que você não viu: um cavalheiro tão distinto, me mostrou o cartão dele, os portfólios da campanha... depois, é uma grande companhia, eles querem um rosto de uma moça moderna, simples, não querem mais o jeito de boneca das modelos profissionais...
― Manuela, o papai sempre diz...
― Ah, você sabe que papai e mamãe têm medo de fantasmas, sempre são contra as nossas amizades, nunca nos deixam sair. O emprego do papai, as responsabilidades do cargo do papai. É só o que sabem dizer.
― De qualquer maneira, você não devia tomar nenhuma decisão antes de falar com eles. Prometa pra mim.
― Sabe o que ele me disse? Que eu poderia usar um nome artístico: Barbara Gregori. Não é demais?

domingo, 20 de maio de 2012

O MEU MUNDO É DIFERENTE



Subversão do programa:

o trabalho do sonho pressupõe toda outra

gama

de interconexões possíveis
 



Ievguêni Pietróvich

procurador do tribunal

percebe a ineficácia do discurso

lembra que o bom senso da vida

lhe veio não de sermões e leis

mas de fábulas, romances

poesias...
 



Queremos que a arte seja voluptuosa

e a vida estética

(melhor seria o contrário)

o universo fabulado satisfaz

a humana necessidade de humanizar

tudo
 



Assim a arte surge

como uma nova dimensão

a partir do som azul de Chagall

assim como a delicada expressão de Mozart

evoca doçuras

da voz
 



Há no universo a possibilidade

i-reconhecer o mundo

e com isto re-conhecer

a própria condição


Este universo é regido pela perigosa harmonia

das sombras

magia lúcida e atávica

a primitiva claridade

do mito


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Hai Kai



Vento de outono
dormem juntos, homens e cães
sob a marquise
(Luciana Bortoletto)


domingo, 13 de maio de 2012

a idade das coisas



Talvez não seja

lobo de manhã

leão ao meio dia

cão à noite;

a vida não tem um sentido

a serpente-tempo

todos





Talvez eu seja

o sonho de um sonho

ponto

ínfimo e tangente

de um infinito de sonhos

e de vidas



domingo, 6 de maio de 2012

Os BFFs (parte final)



Mansueto estava certo, se os dois ainda se esforçavam para manter o decoro quanto a manifestações de riqueza ― traço raro no novorriquismo ―, as mulheres deles se esbaldavam no consumo conspícuo. As respectivas Donas Encrencas haviam sido tragadas por uma orgia febril de gastanças, seus delírios bovaristas eram de deixar Becky Bloom arrastando o chinelo na 25 de março: shoppings de grife, joalherias, lojas de decoração, boutiques exclusivas e fechadíssimas, nada lhes diminuía o facho; Miami, de repente, tornara-se pequena para a fúria sagrada que as habitava. Amavam, sobretudo, comprar roupas juntas; a mulher de Walfrido, confessou certa vez à amiga, dentro do provador da Tânia Bulhões, a estranha sensação que o ruge-ruge de alguns tecidos lhe causava.
― Amiga, não sei nem te explicar, acontece principalmente com a seda pura, é o frufru passando no corpo, acho, tipo um roçamento, sabe?, e aí escuto esse sussurro brando: o grito da seda.
― Dá o dedinho aqui, isso, agora somos BFFs: best friends forever!

Na prefeitura ganharam o apelido de Chitãozinho e Chororó, muito embora não tivessem qualquer semelhança com os cantores. Circulavam boatos, aquela coisa de rádio-pião: ora era Mansueto que mordia a fronha, ora Walfrido que beliscava o azulejo; que isso e que aquilo, mas também jurar, ninguém jurava. O fato é que navegavam em mar de almirante e céu de brigadeiro, o prefeito caminhava tranqüilo para a reeleição, e WM se faziam mais e mais indispensáveis para o chefe. Na peculiar lógica que rege a política, eram considerados honestos, corretíssimos, dois varões de Plutarco; uma vez feito o desvio, não desviavam o já desviado: faziam chegar a todos o justo e devido na azeitada engrenagem que haviam montado.
― Mansueto, sei não cara... uma hora a nossa casa cai, sabe o como é: imprensa, oposição... esses caras podem levantar coisas, e aí quem dança somos nós, os bagrinhos. Olha que Deus não dorme nunca. A justiça dos homens...
― Pára já, pára com isso, meu irmãozinho! Bicho, é o seguinte: a gente sempre tem que molhar a mão de alguém pra governar, entendeu? Os caras não fazem no amor, tem que dar um café pros caras. A imprensa daqui é compreensiva (esfrega o polegar e o indicador) e a oposição... a oposição táqui, ó (bate a mão no bolso).
Tinham seus arrufos, como em toda a relação, mas a amizade sempre era maior ― amizade pura, ao contrário do que maldavam as línguas bifurcadas. Walfrido não era inteiramente cínico, pruria-lhe o gilvaz, acometiam-no as comichões do órgão moral, tinha pontadas de sinceros escrúpulos; já Mansueto, perdia o emprego mas não perdia a piada, era um gozador em período integral.
― Wal, entrei para uma nova seita...
― Como assim? Que seita?
― É a “aceita cheque”... Hahaha!
― Blasfemo. Só lhe perdôo porque sei que você tem a inconsciência das crianças...
― Hehe, para nós, chequistas, deu, é amor!
Compraram terrenos contíguos em Mongaguá onde construíram suas casas de praia, como bons filhos da ascendente classe média paulista que eram. Providenciaram uma comunicação interna entre as casas pelo jardim ― no litoral, finalmente, tornaram-se vizinhos de porta. Sempre aberta, aliás, para a livre circulação de filhos, cachorros e empregados.
A inauguração simultânea foi nababesca e discreta, como convinha, embora por força de uma megalicitação municipal, ambos tiveram de interromper o feriado, pois havia reunião na casa do presidente do partido. Deixaram mulheres e filhos curtindo a piscina e as comodidades das mansões de veraneio; as patroas não cabiam em si de contentamento.
Foi de supetão. Presos os cães, deitadas as crianças, ligados os alarmes, e com os criados dormindo na edícula, elas se divertiam experimentando novíssimos peignoirs da Victoria’s Secret sobre os lençóis acetinados da cama king size. Quando perceberam, estavam aos beijos e abraços, rolando no macio e tirando a lingerie uma da outra.
― Uau, é... nem sei o que dizer, nunca tinha feito isso... com uma mulher!
― Então não sabia o que estava perdendo...
― Hmm, menina, nunca tinha sido tocada assim...
― Boba. Foi o casamento que te acostumou mal, sabe?, o sexo no casamento é que nem a coca-cola...
― Já sei, com o tempo perde o gás...
― Sim, quer dizer, no começo é normal, depois é light, daí é zero.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os BFFs (parte 1)




            O acaso também há de ter a sua tecnologia; um maquinismo complexo e arbitrário capaz de fazer reagir a espessura do mundo, capaz de tecer os destinos mais improváveis, de cruzar os caminhos mais díspares ― até mesmo o aleatório teria as suas razões?
            Claro, porque, depois das duplas Pelé-Coutinho, Holmes e Watson, Johnson & Johnson, Laurel e Hardy, Washington-Assis, Tom e Jerry e do ZZ Top, todo mundo conhecia a dobradinha WM na prefeitura de São Bernardo; para amigos e conhecidos, Mansueto Carrascoza e Walfrido Pantaleão formavam a mesma, una e única, substância. Corda e caçamba, tranca e tramela; dois minutos antes do Big Bang já estavam juntos, brincavam.
Eram amigos de mijar cruzado, mas não que se conhecessem desde sempre, muito ao contrário. Ambos haviam cumprido carreiras paralelas no serviço público e na estrutura burocrática do mesmo partido político; Mansueto era gestor de recursos humanos em Itaquaquecetuba, enquanto Walfrido se destacava como assessor da área financeira em Mauá. Chegaram à cidade fundada pelo aventureiro João Ramalho a bordo dos famigerados cargos comissionados, os DAS (Direção e Assessoramento Superior).
Quando o partido ganhou as eleições para prefeito de São Bernardo do Campo depois de longo período na oposição, houve demanda por “quadros” qualificados para realizar uma administração modelo, que funcionasse como cartão de visitas na região. E assim, requisitados aos respectivos diretórios, é que foram se encontrar na secretaria que gerenciava os editais e as licitações da cidade com o 13º maior PIB municipal do Brasil.
WM realizavam uma tarefa importante e delicada, crítica mesmo, tanto no âmbito do governo como dentro da hierarquia partidária: direcionavam as compras de obras, equipamentos e serviços da municipalidade de modo a que os financiadores eleitorais e parceiros econômicos recebessem suas merecidas contrapartidas em contratos públicos. Pode-se dizer que eles, sim,  compreendiam o verdadeiro espírito do princípio de checks and balances.
Vista do alto, a coisa toda tinha a precisão dos relógios suíços que adornavam os pulsos dos nobres dignitários do ABC paulista: por meio de aditamentos de contrato, suplementações orçamentárias e verbas extras, gerava-se um sobrepreço nos gastos públicos que deveria custear os participantes do esquema, o silêncio da câmara de vereadores, além dos recursos para a cúpula do partido e a formação do caixa “não contabilizado” das futuras campanhas.
Walfrido era pastor evangélico, carismático, grande obreiro. Tanto fez que trouxe o colega e a mulher para a sua congregação; as famílias estreitavam a cada dia o convívio, tinham filhos quase com a mesma idade que eram colegas de classe na escola. Mansueto, empreendedor nato, montou com o amigo uma empresa de aluguel de carros blindados para transportar as quantias em espécie que circulavam farta e descuidadamente à sua volta em bolsas, jaquetas, meias, sutiãs e cuecas. Usaram as esposas como "laranjas” para registrar a transportadora.
― Manso, meu irmão, tô ficando com medo disso tudo... não sei, esse enrosco todo que a gente (suspiro), você sabe, desagrada a Deus, dinheiro não traz a felicidade...
― Sai dessa, Waldo, é claro que o dinheiro não traz a felicidade. Ele só acalma os nervos. Você tem mais é que aquietar os seus... veja o lado bom: não foi você que me disse que as brigas com a patroa diminuíram, acha que foi por quê?