domingo, 4 de novembro de 2012

unfinished touch




If I could save eternity in a day

then

it'll be the day I met you



If I could make wishes come true

I'd save every day like a treasure

and again

I would spend them with you



If I had a box just for wishes

and dreams that turned real

that box would be full

with little things, moments


memories of me & you


(óleo sobre tela: Mikhail Vrubel)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

vigiai as portas dos sentidos, principalmente a língua, os olhos e os ouvidos




diante de tantas máquinas pensantes
ouso sonhar

farto de figuras de linguagem
procuro um objeto direto

no samba na magrela no futebol
penso com as pernas

o abraço é ponte entre distâncias
encontro de solidões

o segredo das cartas repousa na memória
do papel
que já foi árvore
do rumor
que já foi pássaro
do canto
que já é manhã

todas as tardes o mar invade escritórios
interrompe reuniões
adia comícios
umedece a moça
assusta a praça
onde heróis de bronze
não dormem em paz

não creio que os sorrisos morem
apenas nas fotografias

nem que a lucidez habite
apenas a razão

preciso acreditar que a mentira
é também vocação da beleza
que não conseguimos alcançar

domingo, 28 de outubro de 2012

A Nuvem e o Sol (II)



            Surpreendente o que pode despertar em nós, e até onde pode nos levar, um método psicológico: após a segunda sessão de hipnose profunda com o Dr. Edson, estava apta a recuar para aquém da angústia do parto e atingir as outras existências carnais da minha alma antiga, vagula et blandula. Inicialmente me decepcionei com a fiada de vidas bestas com que me deparei nesta viagem iniciática às avessas (um calafate melancólico, duas crianças, uma costureira adolescente morta no parto, três soldados), o que deve contar para crédito de expressões batidas como “tédio mortal” ― hoje estou convencida de que as microepifanias do eterno retorno, a chateação universal, se devem a algum resíduo de memória espiritual destas encarnações inúteis.
            Os motivos que me levaram a prestar atenção em Jeannette, uma pobre-diaba que viveu na passagem do século dezessete para o dezoito, não eram claros quando comecei com as regressões. Verdade seja dita, a vida da maioria das pessoas nunca valeu uma cheta, mas não pude deixar de me espantar com o enorme nada que vale a vida das mulheres em geral, em qualquer tempo e lugar. E isto mesmo levando em conta que conheci “pessoalmente” a fina flor da época: Mazarin, Colbert, Saint Simon, Corneille, Racine, La Rochefoucauld, Poussin, Le Brun, Molière, La Fontaine; incluindo algumas das damas mais refinadas que já pisaram a terra, a Duquesa de Orléans, Madame de Scudéry, Ninon de Lenclos, além da inebriante Madame de Sévigné.
            Descrevê-la como uma pessoa comum que conviveu com pessoas de exceção seria banal ― quem sou eu para julgar um percurso humano? ―, muito embora sua história represente uma invariante do lado B da nobreza. O jogo da aristocracia assemelha-se a um sofisticado tapete brilhante nas bordas, mas encardido no centro: de suas finas franjas, feitas de distinções e privilégios, proliferam as mais sórdidas tramas de humilhação, cinismo e bastardia. O pai dela, Visconde de La Motte-Argencourt, seduziu e engravidou uma bonne plebéia, Hortense, criada de um ilustre salão literário parisiense, o que decidiria de um só golpe seu destino. Aos nove anos foi enviada ao Castelo de Maintenon para servir de ama a crianças pouco mais novas que ela; antes de completar vinte e seis anos, foi flagrada pela marquesa no estábulo a fornicar com o estribeiro do palácio; expulsa, voltou a Paris onde se casou com o comerciante de tecidos Lafargue, que lhe fez três filhos e a infelicitou miseravelmente até o fim dos seus dias.
            Numa era em que se faziam fortunas, se corrompiam consciências e arruinavam biografias com lettres de cachet (cartas com o selo real), e nobres de cabeça empoada cavalgavam o lombo dos camponeses, um punhado de mulheres alcançava as mais prestigiosas posições e viviam como aves do paraíso a quem fosse concedida uma restrita capacidade de voar. Bastava um simples gesto do soberano déspota. Neste tabuleiro de intrigas, conspiratas e relações perigosas, porém, o destino da pobre Jeannette não pagava pule de dez. Corrijo-me novamente. O que chamou a minha atenção sobre este peão do jogo alto, foram os dezessete anos de Gata Borralheira nos quais ela serviu a uma outra mulher, que, esta sim, entraria para a História e, de quebra, ainda iluminaria certas partes nebulosas de mim mesma.
            Dentre os quatro elementos básicos, a água e o ar são os mais sutis, mas são as nuvens e a atmosfera que impedem o astro-rei de calcinar este planeta. Françoise D’Aubigné, a Madame de Mainenon, tornou-se o freio moral, a nuvem capaz de ensombrar o reinado do Rei Sol.
            

sexta-feira, 26 de outubro de 2012





Espera a hora propícia.

Solidão dolorosa,
solidão verdadeira,
corpo e  mente de mãos dadas,  mas puxando em sentidos opostos.


O corpo aqui.

Mas não aqui por inteiro, porque pensa.
E porque espera: o ser "está" aqui, mas "é" lá.


Espera a hora, o minuto, o segundo.

No trono podre,
assumido em falta de coisa melhor.

Espera a alegria vingar. 



É o bunker,

é a cripta,

é torre falsa de marfim sintético. 

Ô mentiraiada danada...
Ô solidão dos infernos! 
Ô inferno ele-mesmo!

Aqui ,
só esperando uma coisa. 


Aquela uma
que impeça a dor de doer.








foto: old lock and key (web)







quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Nuvem e o Sol (I)




            Nunca estive na França. O que é curioso, uma vez que visitei diversas vezes a Europa, a passeio ou a trabalho; porém, sempre me aconteceu, por este ou aquele motivo, de o roteiro não contemplar a pátria de Godard, de Zidane e do queijo gorgonzola ― muito embora Godard tenha origem suíça, Zidane seja argelino e o queijo gorgonzola, italiano. Mas isso não vem ao caso, o que vem ao caso é o caso estranho de ― não obstante o que afirmei anteriormente ― ter morado quase vinte anos no castelo de Maintenon, cidadezinha a sudoeste de Paris e a meio caminho entre Versailles e Chartres.
            A estrada que me lembro corria por baixo de um imponente aqueduto construído por Vauban durante o reinado de Luís XIV, coberto por flores e vinhas silvestres e ladeado pela floresta de Poigny, seus arcos de pedra recortando pedaços de um céu glorioso. Os engenheiros do rei-Sol projetaram este aqueduto para abastecer com as águas do rio Eure as 1.400 fontes dos jardins de Versailles, de modo que as cataratas não parassem, fosse noite ou dia. Um delírio de grandeza que ocupou trinta mil trabalhadores, entre pedreiros e soldados, e também uma obra interrompida pela Guerra da Liga de Augsburgo. A guerra, prevista para ser curta e que duraria dez anos, consumiu os pratos de ouro do rei, que se viu obrigado a vender até a prataria que brilhava à luz de 4.000 velas na Galeria dos Espelhos em Versailles.
            Nunca haveria dinheiro para construir a série de três canalizações previstas no projeto inicial, conseqüentemente, as fontes do jardim real raramente eram ligadas; dando origem a um sem número de chacotas entre a enciumada burguesia parisiense. Se em Versailles o aqueduto fracassara, em Maintenon, contudo, as águas foram suficientes para converter o fosso fedorento da lúgubre fortaleza medieval em espelho d’água que circunda os jardins do castelo reformado que abrigaria os cinco filhos bastardos do rei. Visto à distância, o Château de Maintenon literalmente flutuava sobre um sistema de canais a desaguar num magnífico lago artificial.
            Do amplo pátio, entrava-se para o castelo de estilo gótico tardio passando sob um relevo de São Miguel Arcanjo matando um dragão; subindo uma escadaria para o primeiro andar, lá estava o imenso retrato a óleo da marquesa, Madame de Maintenon. Não se imagine luxo nesta construção austera, a refletir a personalidade de sua dona, exceção feita aos aposentos reais, com retratos de quatro antecessores ― Luís XII, Francisco I, Henrique IV e Luís XII ― sobre cada uma das portas e uma cópia do retrato da coroação de Luís XIV feito por Rigaud. Vivíamos numa faina para manter o tom e a higiene adequados do lugar: uma reduzida equipagem de duas amas, uma criada, um cocheiro, um estribeiro, dois lacaios, duas cozinheiras e um médico.
            Mas divago. Talvez seja melhor e mais sincero explicar que naquela época minha vida estava bem longe de passar por uma fase solar: tinha acabado de me separar, a sociedade da empresa patinava e a minha cabeça tinha mais nós do que as tranças de Rapunzel. Meu ex-marido desfilava numa moto de ‘trocentas’ cilindradas com uma lambisgóia grudada nas costas feito carrapato; desnecessário dizer, impossível calar: metade das primaveras que me ilustram a biografia. E a cruel cereja, corolário do bololô, a peguete começava a seduzir meus filhos a golpe de passeios no Hopi Hari, além de sessões intensivas de shopping e videogame.
            Tive um colapso nervoso, fui indicada pelas melhores recomendações ao Dr. Edson, um terapeuta holístico. Comecei sessões de meditação com cristais, massoterapia e tomava bolinhas e gotinhas praticamente de hora em hora, todos os dias. Certo dia, ao retornar do enésimo período sabático em que me entediei comigo mesma, comentei com o doutor sobre os meus problemas sexuais; neste momento, ele decidiu que eu precisaria de sessões de hipnose. Ele falou apenas isso, hipnose, mas depois foi me convencendo a tentar algo mais radical: terapia de vidas passadas.
            E foi assim que descobri Jeanne D’Arc Dubois, vulgo Jeannette, dama de companhia de Madame de Maintenon.

sábado, 20 de outubro de 2012

que importam as cinzas se a chama foi bela?



poesia não vende

nem se vende

 

poesia não mura

mira ocupa

decanta

 

poesia não lembra

alumbra

 

poesia está no sopro

de quem diz

poesia

 

poesia é carne

é cerne

 

poesia é forma

epiderme

 

poesia é feitiço

dança incêndio

magia

 

esquece todos os poemas

lidos ouvidos

sonhados

 

cada poema é outro

primeiro

e último

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sul (parte final)




            — Bem, a senhora entende, hoje em dia é uma raridade surgir esse tipo de acidentes anestésicos... veja, o risco cirúrgico nunca é zero. Foi uma reação anafilática bastante severa, com perda pressórica importante e prolongada; tivemos muita dificuldade em reverter, o que resultou em hipóxia dos tecidos, hãm, inclusive no cérebro, onde a tomografia de urgência mostra lesões extensas...
            — Doutor, porque ele está assim, congelado?
            — É uma técnica que temos usado bastante, a crioterapia, retira-se o calor do corpo criando um estado de hipotermia para favorecer uma redução da taxa metabólica local, promovendo uma diminuição das necessidades de oxigênio nas células; com isto, reduzimos as lesões teciduais. A sedação também tem este mesmo objetivo; o corpo do seu marido está agora numa temperatura de 35 graus...
            — Acha que ele pode voltar... normal como antes?...
            — É... neste momento, não posso afirmar com certeza. Ainda estamos lutando pela vida dele.
            — Será que ele... sente dor?
            — Dificilmente estará sentindo alguma coisa, a sedação é profunda.


            Fui despertado por uma música distante, quase inaudível. Um som regular, como a rebentação das ondas de um mar sem nome, me fez recobrar os sentidos para cair dentro de outro cenário: sem vento, nem mesmo o ruído das ondas; somente o luar banhando a terra. Fiquei ali, escutando. O mais estranho é que a música parecia vir do alto dessa montanha que não estava aí, dessa lua que, até há pouco, não estava lá, alta e distraída do que acontece neste mundo sublunar e lunático.
            A essa altura, eu estava totalmente desperto. O ar da noite era agradável, estival, com uma profundidade misteriosa. Apoiei as mãos nos quadris, estiquei o tronco e respirei fundo, contemplando o céu estrelado. O frescor da noite me inundou, um brilho intenso pairava sobre tudo, tornando fácil a caminhada. Já não duvidava que era a coisa certa a fazer, escalar o topo daquela montanha. Vou até onde puder, decidi.
            Sentia como se estivesse vivendo dentro de um sonho, faltava o princípio que torna possível a escolha — ou talvez a escolha, de tão inevitável, evidenciasse o princípio de liberdade que faltava. Parei e me virei para trás. O luar criava sombras complexas entre os rochedos, tingindo o solo com matizes inesperados; a encosta abaixo de mim descia sinuosa e pálida como os rastos de uma cobra noturna.
            Olhei para o céu, e relanceei os olhos para a palma da minha mão — um lampejo de compreensão me atravessou o cérebro: aquela não era mais a minha mão! Não havia explicação. Um olhar e, de repente, eu soube: a minha mão não era mais a minha mão, as minhas pernas não eram mais as minhas pernas. Banhado pela luz branca, meu corpo, como um boneco de vodu, perdera todo o calor de organismo; a centelha de vida tinha desaparecido. A minha vida real tinha adormecido em um lugar remoto, e algum desconhecido a estava enfiando em uma mala, preparando-se para partir.
            Um calafrio horripilante me atravessou e perdi o fôlego de um golpe. Alguém tinha reordenado as minhas células, desatado os fios que mantinham a mente ligada ao esquema do corpo; não conseguia raciocinar direito. Sobreveio um momento de pânico; tudo o que eu sou, fui, ou podia ter sido se dissolvia sob o signo do terror, da anarquia e do caos. Respirei fundo, pois sabia que afundava no mar da consciência, uma água pesada que me arrastava para o fundo comprimindo meus tímpanos. Não queria ver o negror, fechei meus olhos bem apertados e prendi a respiração, resistindo.
            Fui acostumando à pressão da água, à falta de ar, à escuridão paralisante, ao desfalecimento — a situação me era familiar, algo com que venho lutando repetidamente desde criança. O tempo se inverteu, foi e voltou, desmoronou, tornou a reordenar-se; o mundo expandia-se interminavelmente, imagens soltas da memória percorriam corredores sombrios, como vagalumes, como almas à deriva. Por quanto tempo permaneci assim, não sei. Quando voltei à tona, abri os olhos e respirei silenciosamente. A música tinha cessado.
            Levantei do chão (não lembrava de ter caído) e prossegui a subida. Se tinha chegado até ali, podia muito bem atingir o cume. Do alto da montanha, a lua parecia incrivelmente próxima; à minha frente, uma escuridão sem bordas, atrás de mim, um mundo de luz gélida. Deixei-me ficar ali, em terra estrangeira, no cimo de uma montanha banhada pelo luar.
            E aqui estou eu finalmente; sem saber onde é "aqui", ou quem sou "eu", tendo apenas a certeza do finalmente. Faz séculos que me procuro e não encontro, faz uma porção de séculos desde que sou eu, desde que não sou eu; moro num quarto mudo e sem paredes, e sou eu o mudo — e também sou a falta de paredes, a falta de história deste eu e a incapacidade de seguir adiante. Vim buscar este silêncio que é meu, a única coisa realmente minha, qualquer palavra não teria aqui nenhum sentido; terra a bombordo e a estibordo: inatingíveis.
            Talvez tudo tivesse sido meticulosamente planejado, desde o começo. A minha mente, como um sopro de ar quente, estremecia e desaparecia gradativamente.

domingo, 14 de outubro de 2012

Sul (parte 2)



            Um sentimento infuso toma conta de mim conforme a correnteza me arrasta mais e mais ao sul: o pasmo. Acentuado pela circunstância de não haver insinuação da mais leve sombra de outra qualquer vivalma nas redondezas; não que o pasmo alheio me interesse, nem a mim interessa pasmar: sou apenas solitária testemunha.
            Tudo tão fosco!
            Estou reduzido à simples condição humana, o vazio sobre a cabeça e sob os pés, e sobretudo dentro, dentro da alma. Posso ser um maldito pré-cadáver, pode ser que o movimento involuntário deste barco cave abismos irrefreáveis, mas recuso-me a ser enterrado em vida — o meu fogo-fátuo escolho queimá-lo em meu próprio gozo, num auto-de-fé de perplexidade e gases.
            Um novo fenômeno atrai minha atenção de navegante passivo: a progressiva tonalidade violácea que adquirem as águas vulcânicas por onde trafego. Frio e calor extremos divididos pela linha da água. Nada faz sentido para além desta casca de noz, e mesmo a bordo começam a esgarçar os laços da razão. Soa a terrível pergunta no silêncio da mente: quem sou eu? A ipseidade, sensação de ser quem se é, parece imediata, biográfica e óbvia quando presente, mas revela-se uma perda desorientadora quando some.
            Sempre me perturbou o fato de estar pintando um quadro impressionista ou cubista, quando deveria tirar uma foto, ao pensar em mim mesmo. Todo tipo de fatores limitam a minha confiabilidade como observador — preconceitos, estados da alma, padrões de reação, a limitação do ponto de vista, etc. —, fazendo com que eu, o narrador, selecione e edite coisas que engendram um outro eu, o narrado. Quanto mais penso nisso, mais prefiro protelar o tópico mim mesmo; o que gostaria era saber mais sobre a realidade objetiva fora de mim.
            As trevas aumentaram, aliviadas tão somente pela reflexão nas águas da catarata vaporosa. Numerosas aves, de porte gigantesco e brilhante alva plumagem, sobrevoam o barco desde cedo. E agora a corrente nos conduz, a mim e ao barco, na direção do centro da cortina nebulosa; mas logo à frente, interrompendo a trajetória, ergue-se do mar uma figura velada de proporções descomunais — um colosso de feições humanas, mas súbito e imponente como as aparições divinas. Em sua face luzia uma inexprimível bonomia e a pele era branca como a neve.
            Profundo abatimento me invadiu quando percebi que "ele" não era a estação final da curiosa odisséia; a canoa passou perto o suficiente para uma segunda constatação deprimente: o gigante dava mostras de sofrer com o calor da água, bem como com o frio atmosférico.
            Depois de vogar por um tempo indeterminado por aquela região em que as estrelas giram sem sair do céu e o sol leva meses para se pôr, finalmente avistava o continente antártico, uma massa de gelo eterno e uniforme tomando toda a extensão visível à frente da proa. Duas escarpas de alvura sem falhas erguiam-se da geleira litorânea a uma altura de vertigem: calculei em mil metros do sopé ao cume; mediando as estranhamente delgadas montanhas havia uma espécie de gruta, para onde o bote me conduzia irresistivelmente.
            Novamente iludido pela distância, veio o absurdo desenganar-me na aproximação da terra: não eram rochas, nem gelo tampouco; no lugar das montanhas siamesas, distinguia claramente duas pernas de mulher — mas que mulher poderia ter aquelas dimensões de pesadelo? Onde antes havia a caverna, avistava um despenhadeiro de... nada; o vórtice de ausência não possuía forma, cor, sequer escuridão, apenas um vácuo no lugar em que as mulheres, mesmo as gigantas, têm a vagina. Era para lá que rumava o barco. O opaco abismo abria-se, esperando.


            — Estão te chamando, parece que há alguma coisa... sei lá, só sei tem que ser você.
            — Ai minha nossa, coisa boa não deve ser. Esse tempo todo demorando, algo não vai bem, posso sentir...
            — É. Deve ser importante mesmo, senão o chefe da equipe não chamaria você... Ah, é naquela salinha lá no fim do andar.
            — Você me espera aqui, tá? Não estou gostando nada dessa falta de notícias, gente correndo pra lá e pra cá...
            — Claro que fico, vai tranqüila.

domingo, 7 de outubro de 2012

Sul (parte 1)




― Está demorando um pouco, está mesmo?

― Pois é. Era pra ser uma hora no máximo...

― Apareceu alguém enquanto eu saí?

― Segunda vez que você pergunta. Não, não veio ninguém ainda, sem informações.

 Estou navegando rumo ao Pólo Sul.
Não poderia explicar como sei disso, apenas sei que esta pequena canoa onde me encontro sozinho segue por um mar escuro e sarapintado de blocos de gelo na direção do fim do mapa e do mundo.
O Sul.
O cu do planeta azul.
Uma longa faixa de vapor acinzentado corta o arco do horizonte à minha frente, ao sul; formando estrias secundárias que se deslocam nervosamente no sentido leste-oeste ou vice-versa, para logo retornar a um plano mais nivelado e uniforme. Quase a metade do céu está ocupada pela coluna luminosa.
A temperatura da água parece aumentar a cada instante, acompanhando a evolução exponencial das distintas alterações cromáticas. O ar é frio de uma maneira desconhecida para mim, mas a tepidez da água é verdadeiramente espantosa. Outra coisa digna de nota é a cor da água, que adquire um tom leitoso, sinalizando inequívocas modificações de consistência e densidade.
Nas proximidades do barco o mar se mantém razoavelmente calmo, embora perceba freqüentes e massivas perturbações da superfície da água a distâncias variáveis à direita e à esquerda; mais tarde, observo que cada agitação é precedida de breves lampejos da barreira vaporosa ao sul.
Sensível declínio da força do vento, até que cessa por completo a aragem gélida, ainda assim, sigo velozmente a minha rota na direção da ponta mais austral da constelação do cruzeiro impulsionado por poderosa corrente de média profundidade.
Creio que talvez fosse mais apropriado sentir algum alarme ou preocupação com o curso dos acontecimentos, mas a verdade é que sentia o corpo físico e o raciocínio entorpecidos ― uma sensação de devaneio, e nada mais.
Dilatação gradual da coluna de vapor, que assume uma coloração bem menos intensa. A temperatura da água já se torna proibitiva ao contato, de tão quente; a consistência leitosa mais evidente ainda.
A poucos metros da canoa forma-se uma turbulência no oceano, precedida por um súbito lampejo ao alto da barreira cinzenta. Noto que esta aparenta ter se dividido na base.
Uma poeira fina e branca, semelhante a cinzas, mas de flocos largos e mais leves, caiu sem pressa sobre o barco e arredores. O barco segue impulsionado pela correnteza à medida que o clarão se extingue em névoa e a revolução das vagas amaina.
Mar cada vez mais quente. Impossível manter a mão na água por mais de uns poucos segundos. A chuva de cinzas alvacentas caindo em vastas quantidades, enquanto a coluna do céu sobe a alturas prodigiosas no horizonte. A imagem que me ocorre é a de uma gigantesca cachoeira suspensa, rolando seu manancial de brilhos como se tombasse de uma inatingível fonte celeste.
Grandiosa cortina de nuvens cobre agora toda a extensão do campo visível acima do mar. Nem luz, nem som, nem cores.
A escuridão torna-se progressivamente mais espessa, contrabalançada por uma fosforescência que sobe das profundezas leitosas do oceano iluminando o barco e um amplo espaço em redor.
O mar em franca calmaria coberto pela chuva de flocos que caem, derretendo antes mesmo de aflorar a superfície da água ardente. A corrente prosseguia conduzindo-me e ao barco numa velocidade vertiginosa.
Percebo que me dirijo diretamente para o centro da cortina nebulosa, onde imenso abismo se abre à minha espera.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

andante cantabile



às vezes andando pela rua
penso
é só isto, então, a vida?
mas logo:
como desprezar o milagre
maior
mais precioso dom
(Dora entre Doras)?

acontece
que todos têm um Sinatra
um Elvis
cantando
dentro
de
si

então
me atirei no poço

verdes
virgens matas
ocultas
serras nascentes
vales
regatos trilhas
grotas
buscam mar
beija
flores carmim
douradas
clareiras borboletas
duplas
mil piruetas
altas
ramagens sabiás
vigília
sondam paisagens
corruíras
flautam cigarras
loucas
cascatas trilam
sirenes
escarcéu insetos
zunindo
bailando
vagueiam
velozes
ao
léu

sábado, 29 de setembro de 2012

uma relação pornográfica (parte final)



Cessadas as loucuras de amor, deixamo-nos ficar ali no bem bom, jogando conversa fora na jacuzzi, bebericando das flûtes o agora morno champanhe; invertia-se o mais manjado dos clichês da etiqueta sexual: começávamos realmente a nos conhecer depois da foda bem dada. Era com uma espécie de divertida curiosidade que me punha a explorar abaixo da pele que proporcionara química tão certeira; vejam, este tipo de enredo tornou-se uma brincadeira de criança com a internet; na China, usam o renren, no Japão, é o mixi, mas a mais engraçada é a rede da pegação gay: no Grindr os caras botam a foto do membro inferior central, as preferências e urgências, e o GPS já dá a localização para marcar a ponta. É pá e pum, sem delongas nem milongas.
― Contigo não tem tempo ruim, hem menina?, gostei, aprecio mulher que vai direto ao assunto, que sabe o que quer e o que não quer na cama, hmm, quer dizer, não parece ter muita coisa nesta última categoria...
― Bobão... logo você, que fala um monte na hora do rala e rola. Ainda tem champanhe?
― Chega o copo. É, hãm, valeu pela mãozinha que você me deu, aliás, o dedinho... é isso que eu tava te falando, curti sua presença de espírito. Tem mulher que trava nessa hora.
― O prazer briga com a tesão, ex-my love; o que você abre mão de um, você paga no outro. Não tem almoço grátis.
― Hãam?!
― Esquece. Homens não entendem de tesão, entendem no máximo de pinto: o seu próprio. My prreciousss!...
― Hahaha, isso eu consigo entender, e é a maior das verdades, sou obrigado a reconhecer.
...
― Escuta, bem, você, isto é, em casa... com o maridão, também dá esse empenho todo?
― Se é o que você quer saber, mantenho ele bem satisfeito, viu? Pra não andar caçando por aí que nem você... e essa namorada que cê tá enrolando há seis anos? Ainda mantêm a chama acesa, ou já dobraram o Cabo da Boa Esperança?
― Putz, para falar bem a verdade, deu uma embaçada geral na área do playground; não entendo, a minha namorada é um mulheraço: bonita, inteligente, bem sucedida, cheia de amor pra dar... A coisa pra mim nunca vai além de quatro meses, passou disso, o tesão vai na meia e começo a olhar em volta feito marinheiro acabado de descer em terra.
― É lindinho, não adianta usar calendário atrasado, ninguém pára o tempo. Casar vai te fazer bem, aposto. Vem cá, cê topa um jogo comigo?
― Que jogo?!
― Conta pra mim uma coisa que você nunca contou pra ninguém... depois é a minha vez.
― Deixa ver... ah, tá, quando era moleque, no quintal da casa da minha tia havia um terrenão, lá, bastava escavar um pouco e apareciam cacos... é, cacos de qualquer tipo: partes de azulejos, de telhas, travessas, serviços de chá, etc.; era uma riqueza de pedaços de outras vidas, de épocas que já só existiam em fotografias, fragmentos de tempos e pessoas que não conheci, mas que eu podia usar para me montar, me compor... foi assim que eu reconheci o passado, descobrindo no presente um defeito de fábrica, uma falta essencial que se cava atrás do instante presente, debaixo do mundo exterior, o qual percebia simultaneamente que me pertencia e também estava para sempre perdido. Agora você...
― Eu? Bem, eu a-do-ro sexo casual.
― Ah, vá! Não diga, agora que tal contar uma que eu não conheça... sei lá, tipo uma piada de Joãozinho, ou do papagaio...?
― É sério, cara. Entenda, sou incapaz de ter um amante, sabe assim?, tipo fixo... não é a minha, ia me sentir traindo meu marido...
― Caraca, esta é boa! E o que acabou de acontecer aqui, passou-se em outro plano da realidade, foi?
― Foi no plano do sexo, mas não do amor. Não vou pedir teu celular, MSN, nem vou deixar recadinho no teu Face, amanhã é outro dia. Amor e sexo podem ter tudo e nada a ver, isto daqui foi um jogo, bom, mas jogar não é tudo. Pensando bem, jogar outros jogos eu quis dizer, o que não se deve fazer é jogar um jogo só.
― Ah é?! E vai que o teu marido joga este jogo também, você ia gostar?
― Não de ficar sabendo. Olha, eu prefiro fantasiar na cama; mas também, é o risco: o toureiro está em vantagem covarde contra o touro, mas precisa reconhecer que ele também pode morrer. Faz parte do acordo.
― Sim, o exemplo é bom: sempre é uma questão de chifres...
― Se não, fica que nem você aí, tão cheio de medo que a tua mina faça o mesmo que você faz, que não consegue assumi-la até o fim. O outro é tão livre pra mentir como você, e você precisa aceitar isso.
― Não... as mulheres são diferentes, não têm essa necessidade que os ho...
― Kkk, você realmente lê best seller demais, deixa eu te perguntar uma coisinha: você faz isto direto, não faz?, pois bem, com quem você acha que vai pra cama?

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

uma relação pornográfica (parte 2)



Antes mesmo de abrirmos a porta do quarto, ela já tinha uma das mãos alojada dentro das minhas calças abarcando com destreza todo o meu equipamento geniturinário; a boca de dentes perfeitos me beijava com vigor, a bem dizer, aplicava uma sucção desesperada que ia arrancando a minha língua com freios e tudo. Tateando com dificuldade, consegui ajustar a chave na fechadura.
― Acho que vamos pular a parte do champanhe...
― De maneira nenhuma, você cuida da rolha, e eu, da rola. Vem abrir a braguilhinha aqui no quarto, vem!
― ... vou te ajudar com isso...
― Deixa que esta parte é minha, vou abrir o saco de presentes do Papai Noel... ― respondeu atrevida. Desembaraçada do obstáculo das minhas calças e cueca, ela inicia um trabalho de sopro com tanta gana que os meus bagos são dragados pela garganta profunda.
― Calma aí, você vai engolir meus tomates desse jeito! ― protesto sem muita convicção.
― Ughmmmfmm!?!
― Quê?!
Ela desboqueteia o valioso nervo para envelopá-lo com a camisinha.
― O pepino já tinha ido, gosto de engolir a horta toda.
― Toma teu rumo, cachorrona, depois do café o que você tá precisando mesmo é do leitinho de miápica ― antecipava gulosamente o calor da gruta quente guarnecida por um grelinho frenético, já pressentindo a fúria uterina daquela mulher-diaba.
A chapeleta do meu bilau tornou-se escura, uma imensa e tensa amora prestes a explodir como uma granada entre as mãos da bacante com malemolência de profissional. Plop! Salta a rolha da garrafa de champanhe. Abandona então brevemente a sua presa de carne e passa a aplicar igual tratamento ao gargalo do brüt, sorvendo a espuma do espumante enquanto me empurra na direção da cama e monta na estaca emborrachada, dando início a um galope sem brida que me levou ao zênite... rápido demais!
― Ai, que vergonha, gozei... ― pois é, tenho esse problema; maiormente em situações imprevistas como esta: precocidade na finalização, algumas damas mais exigentes chiam contra este que é um dos gatilhos mais rápidos da zona oeste. A mina, porém, não deixou a peteca cair.
― Que lindo, você gozou pra mim, baby. Mas ainda quero mais, e você vai me dar mais.
Baby?! Não tive sequer o lazer de me indignar com o apelido cuti-cuti: a doidivanas já iniciara uma providencial massagem prostática com o indicador direito, ordenhando o pingolim com a canhota em busca da rigidez perdida. Em situações vexatórias como esta, só mesmo o bom e velho fio-terra para resolver as questões hidráulicas envolvidas na árdua tarefa de reanimação do Ciclope adormecido. A danada estava realmente aproveitando ao máximo o curso de cuidadora no Sírio-Libanês ― será que o meu plano cobre um home care desse nível?
― Humm, humm, olha lá, que fofo, ficou durinho de novo, hmm, gostoso!...
Love labor’s rewarded; depois de auxílio tão luxuoso na cuíca, minha pipa empinou novamente, e debicava infrene, ansiosa por voltar à ação. Não se fez a moçoila de rogada: atirando-se de costas na cama redonda, arreganhou o compasso, descortinando uns lábios superiores, inferiores, maiores e menores cuja cor de morango convidava para uma tradicional socada missionária.
― Ah, benzinho, se é pra let’s go, que seja now ― renovado o orgulho da vara varonil, e com o tarugo devidamente revestido pelo látex galvanizado, resolvi me fazer de caro.
― Anal?! Now? Nada mal, por que not? Quem não arrocha, não atocha; vem meu tigrão, vem ni mim que eu tô facinha!
E vim, ou melhor, fui, com tudo; porta da frente, porta de trás, meia nove sem frescura, sentada reversa na maçaranduba, giratória... uma recapitulação do Kama Sutra em versão de bolso ilustrada. Minha valorosa partner exibia todos os estigmas que identificam a mulher-violino ― aquela que canta no pau ―, a marca d’água da verdadeira safada: encharca o lençol, grita, morde a fronha, senta, rebola, e ainda bate um bolo.

domingo, 23 de setembro de 2012

uma relação pornográfica (parte 1)



            Um padrão de reconhecimento. Ou um reconhecimento de padrões, tanto faz. Acontece que tenho essa habilidade, ou desenvolvi, sei lá; na verdade talvez não seja grande coisa, apenas o bruto instinto reprodutivo em ação. Sejamos bem diretos: sexo, e da modalidade aleatória, quase um encontro animal. Uma coisa antiga como o mundo, mas que não parece tão deslocada assim na grande cidade ― toda a cidade verdadeiramente grande sempre carrega a história do mundo nas suas veias, nas suas vias, nos cruzamentos em que esbarram os átomos da sua geografia humana. Às vezes, nestas colisões produz-se a faísca primitiva, e então a natureza, como diziam os antigos, segue o seu curso.
            Os reaças, fundamentalistas de todos os credos e patrulheiros da moral alheia em geral, podem até parecer toscos nas suas concepções, mas não se enganam quanto ao fato de que, quando dois humanos se encontram em território livre, o couro pode comer sem muita mumunha e negaceio. O que é do bicho, o homem também come (e como). E não há necessidade alguma daquelas situações clássicas do encontro de desconhecidos: a viagem de trem, o cruzeiro nas ilhas gregas, a micareta em Parintins, ou a mulher do esquimó, hospitaleiramente ofertada. Qualquer preposição pode servir à cópula, é preciso apenas estar vigilante e reconhecer esse não sei quê do andar, que tanto está num jogar dos cabelos, como num olhar que demora um segundo a mais; ou, quem sabe, circula nos infraperfumes que só o sentido feral capta.
            ― Os caixas recebem pagamento em cheque? ― ela perguntou para um dos funcionários de coletinho que orientam os clientes do autoatendimento. Pensando em retrospectiva, acho que também pode estar na voz: aquele acento rouco, praticamente imperceptível na nossa espécie, mas que denuncia a disponibilidade com a mesma precisão do miado das gatas no cio.
OK. Estou fazendo um pouco de literatura, está certo; voltando: depois de me desmarcarem a reunião em cima da hora, aquela tarde de quinta feira já estava perdida. Desisti de voltar ao escritório por causa do trânsito; fui ao banco resolver umas pendengas. Enquanto o gerente consultava o sistema numa das mesas na parte da frente da agência, ela dirigiu-se para o fundo, para a fila dos caixas não-automáticos, aqueles atendidos por bancários de verdade; entediados como os clientes amontoados em fila serpiginosa. A cada minuto, balançava a cabeça dando uma panorâmica lenta que incluía uma espiada rápida na minha direção; da minha cadeira, mantinha-a sob vigilância na periferia do campo visual, e, assim que começava a rotação do rosto, posicionava-me para interceptar os olhos dela com uma mirada firme, frontal e radiográfica.
Enrolei o máximo que pude de modo a sairmos juntos pela porta giratória. Na rua, caminhei alguns passos ao lado dela até lhe dirigir a palavra.
― Posso conversar um pouco com você?...
― Não. Não costumo conversar com estranhos ― ela respondeu de bate-pronto, na chincha; mas uma cova discreta surgiu-lhe na altura do encontro dos lábios, descerrando a partir da direita da boca uma bela fiada de dentes alvos. Segui por ali.
― É, você está certa, talvez seja melhor te convidar para tomar um café. Assim deixamos de ser dois estranhos...
Paramos numa cafeteria das redondezas; pediu um café carioca e uma água com gás, tomei um expresso com meio saquinho de adoçante. Conversamos de boa, contou que era de Jacareí, bem casada, fez questão de frisar; vinha duas vezes por semana fazer um curso de home care para idosos no Sírio. Naquele dia tinham cancelado repentinamente a aula e resolveu ir pagar uma conta.
― Que coincidência, o universo conspirou para que eu te conhecesse ― contei-lhe da minha reunião desmarcada, mas ela não pareceu se impressionar muito com a sincronia cósmica dos nossos destinos.
― Deixa de bobagem, foi só um acaso. Esse teu xaveco tá com a maior cara de autoajuda, precisa de um bom upgrade.
― Hmm, tá, mas bem que a gente podia bebemorar este caso do acaso, não?
― Você quer dizer: tomar uma cerveja no meio da tarde?
― Cerveja não, champanhe.
Saímos dali direto para um motel. Tão logo subiu na garupa da moto, senti o corpão dela colando firme em mim. Tinha pegada, a mina.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

defeitos são efeitos (especiais)



o coração que age
é a coragem
de uma outra inteligência
força geradora
viva
generosa
lúdica
perversa

há quem se mova nesta força
na inteireza do feminino
no diálogo de portas semi
cerradas

daqui para a frente o padrão
é a instabilidade
e será preciso engolir o divino
na simplicidade

sentir se atravessado
por novas
pontes

a maçaroca da vida
onde a jornada tece
atraso e mudança

a lembrança do salgado
não é só luz e linha
reta

o que move os heróis
e o que os desvia?

o canto revela a alma
                        revela
                        o canto