domingo, 26 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (XI)



REINALDO & OSSADA 23:31

            “Nos dias de frio é melhor nem nascer,
            Nos de calor, se escolhe: é matar ou morrer,
            E assim nos tornamos brasileiros.
            Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro,
            Transformam o país inteiro num puteiro,
            Pois assim se ganha mais dinheiro.
            A tua piscina tá cheia de ratos,
            Tuas idéias...”

            Reinaldo desligou o rádio, o amigo começava a dar sinais de vida depois de horas viajando na maionese. A festinha da mãe comendo solta lá na sala, e eles ali, trancados no quarto fedendo a maconha. As perspectivas de uma comemoração de fim de ano que prestasse iam diminuindo sensivelmente.
            “Que é que cê tá fazendo aí parado, mano?”
            “Que eu tô fazendo, maluco? Tô de babá de um alemão sem noção que desabou na minha cama depois de cheirar uma lata de solvente. É isso que eu tô fazendo”.
            “Bom, chega de passar o pano. Sinto na brisa leve da noite o som das xoxotas batendo palminha pra nós...”
            “Brisa da noite! Quem tá brisado na pedra é tu, mané. Pelo andar da carruagem, a única palminha que a gente vai ter, é a palmita de la mano.”
            Deram um tapa no visual o melhor que puderam e saíram para pegar o carro da família Angelim. Na passagem pela sala, Ossada não resistiu a encher os bolsos com as empadas da mãe do Reinaldo, que ainda obrigou o filho a levar uma capa para a chuva. Saíram para a imitação de rua do Sunrise Village: o concreto liso, perfeito, no lugar do asfalto, as sebes baixas, os jardins na frente das casas sem muro; tudo ali emulava o espírito ordeiro e seguro dos subúrbios ricos da América. Uma ilha de excelência ― luxe, calme et volupté ― na megalópole desgovernada.
            “Ih, caralho, sujou!”, Ossada empurrou o amigo, quase que o derrubando, para dentro de um jardim.
            “Porra, mano, ainda não passou a lombra? Que é que foi agora, viu assombração, foi?”
            “Não tou brisando, não. São os malaquia do Monza que eu tretei lá na Giovanni... Como é que os cara entraram aqui, será que me seguiram?”
            “Vixe, agora bateu a nóia em tu, Ossada. Tamo bem na fita...”
            Mas o viking aloprado não se enganara, Metaleiro e os seus capangas estavam reunidos em volta do carro deliberando sobre alguma coisa que não podiam ouvir. O problema: o carro que eles iam pegar estava estacionado bem em frente dos meliantes. O jeito era dar um miguezinho, esperar aquela galera do mal dispersar. Chateação danada. Foram dar uma volta pelo condomínio no maior desânimo. Tudo só fazia complicar mais e mais, uma noite promissora que ia zicando forte.
            “Meu irmãozinho, você tá vendo o que eu tô vendo? Papai do céu resolveu pensar em nóis!”, Ossada acabava de surpreender as duas vans que chegavam para o chill out na casa de Zaba.
            “Mas o que... olha lá, tão todos fantasiados... A balada aí vai ser nervosa!”, Reinaldo, de queixo caído, assistia o desfile de beldades entrando na casa de Zaba.
            “Ah, mas isso não me engana, não! Sente o cheiro da mexerica, brother, as mina é profissa, e os cara têm a maior pala de michê!”.
            “Ei, ei, onde que cê tá indo, galo doido?”
            “Como assim, onde tô indo? Tamo indo, maluco, tamo indo. É o seguinte: a gente chega lá e toca a campainha, se colar, colou. O máximo que a gente se arrisca é ouvir um não.”
            “Mas a gente nem conhece a dona da casa... vamo é pagar mico”.
            “Rei, meu rei, vamo aproveitar o bonde. O cavalo tá passando arriado, mano. Quando a felicidade bate, meu irmão, apanhe”.
            “Tu não tem juízo nenhum nessa cachola chapada de drogas, mas... bora lá, perdido por dez, perdido por mil”.
            A própria dona da festa os atendeu na porta, bêbada feito gambá. Os meninos arregalaram os olhos diante da voluptuosa fêmea desvestida para matar. Reinaldo temeu que Ossada já fosse logo botando a mão na mobília, a mulher era um avião sem freios.
            “Ah, os vizinhos sempre aparecem quando rola a buena onda... vamos entrando queridos, a festa tá bombando, tem de tudo: bebida, música, putas e putos, além de traíras... tem pra todos os gostos, vão entrando!”
            “Nem precisa dizer duas vezes, dona, é nóis na fita!”
            “Boa noite, dona Zaba, com licença...”
            Entraram na balada, que, de fato, bombava. Os moços e moças contratados dançavam à vera e o clima era de deixar cair geral, exceção feita ao desenxabido Nino e sua personal amante. Sentados no canto de um sofá, conversavam pouco e em voz baixa, de cara amarrada. Reinaldo serviu-se de cerveja em um copo de plástico, já Ossada catou uma champanhe do balde e bebia direto do gargalo.
            “Rei, vamo na piscina, as mina tão dançando lá bem louca! Daqui a pouco vão começar a se jogar dentro d’água, moleque!”
            “Pô mano, não tem de comer nesta birosca,,, comi nada na minha casa por tua culpa”.
            “Tu parece uma velha, só reclama... Ói lá, oi lá, a mina abriu um spaghetti!”
            “É spacatti, cabeção, spacatti!”
            “Spaghetti, spacatti, que diferença faz? É tudo macarrão mesmo...”
            “Mano, tu não tem pena da gramática”.
            “Pena eu tenho é do cu do coelho depois que põe ovo de chocolate na Páscoa... Ih, ó lá, a dona da festa catou dois cara e tá indo pro quarto, se liga!”
            Naquele momento Zaba, abraçada em dois rapazes de corpo escultural se dirigia para o quarto do casal, não sem antes passar na frente do namorado traíra e falar um monte para os dois.
            “Tá ligando os pontinhos, ô tampa de Crush? É a nossa deixa”.
            “Deixa do quê?”
            “Faz as contas: se ela catou dois caras, é sinal que tão sobrando duas prosts só pra nós, pé de pano! Vamo arrastar as malvadas pr’algum quarto da mansão”.
            “Aquelas duas lá tão dando mole pra nós, mas uma é meio...”
            “Vamo que vamo, meu bróder, a gordinha é tua”
            “Porque eu que tenho que pegar a gordinha?”
            “Simples. Se eu pegar a fofeta, vamos parecer o casal dez: ela o zero, e eu o um!”
            “Pô, mano, essas parada sempre sobra pra mim...”


quarta-feira, 22 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (X)




METALEIRO & DOUTOR JORDÃO 23:00

            O doutor Jordão toma o seu conhaque. Aguarda a chegada iminente de importantes convidados para uma festa privativa. Secreta, seria o adjetivo mais adequado para a cerimônia da qual era anfitrião naquela noite. O vulgo não tem como entender as coisas tais quais são, não concebe que há uma dialética, um rigor matemático, nos rituais do dogma. Tudo que a plebe pode conhecer da religião é kerigma, manifestação exterior, a parte mais rasa e evidente da fé.
            Ele imagina vividamente o Sumo Sacerdote (Kohen Gadol) penetrando no espaço mais sagrado do tabernáculo no Templo de Salomão ― é o único que pode fazê-lo ―, seus passos são curtos, trêmulos de emoção. Só uma vez por ano lhe é permitido adentrar o Santo dos Santos (Kodesh haKodashim) e contemplar a Arca da Aliança: no dia em que todos os pecados são perdoados, o Yom Kipur. Aos pés do sacerdote estão atadas grossas cordas.
            Este, o detalhe revelador. Reza a tradição que as cordas servem para que o pontífice seja arrastado para fora caso lhe sobrevenha um ataque de emoção ao pronunciar o Tetragrammaton, as consoantes do nome do Altíssimo (YHWH). Um estratagema para evitar a profanação. Porém, a emenda desvela o soneto: a incúria humana age sempre depois do leite derramado. Antes que pensassem nas cordas, pelo menos um dos sumos sacerdotes teve de ser resgatado por pés e mãos impuros. Elevar e conspurcar, adorar e macular, faces indissolúveis do sagrado.
            Levanta-se, vai ao salão conferir os preparativos para o ponto alto do folguedo: o concurso. O interior da mansão recende a incenso e flores, passando uma impressão de severa suntuosidade em meio ao mobiliário de mogno escuro, aos arquivos, candelabros, móveis e câmaras repletas de antigüidades, bem como dezenas de retábulos, oratórios, imagens e turíbulos. A sala principal da casa é uma reprodução da antiga capela particular dos papas na basílica de São João em Latrão, o Sancta Sanctorum dos católicos.
            O chão e o teto deste salão-capela são revestidos em mármore carrara, as paredes altas abrigam as loggias com retratos de santos e da Virgem, reproduzindo fielmente os afrescos medievais na parte alta com os martírios de São Lourenço e São Nicolau, a lapidação de Santo Estéfano e a decapitação de Santa Inês. No altar, uma antiqüíssima imagem do Redentor e réplicas das maiores relíquias cristãs: um assento da última ceia, sandálias dos apóstolos, a coroa de espinhos, o bastão que açoitou o Cristo, as cabeças de Pedro e Paulo e o prepúcio de Jesus Menino.
            Os convidados chegam. Destacados membros da Cúria metropolitana, decanos de colégios, sanatórios e irmãos de caridade, prelados de todos os níveis da hierarquia eclesiástica, chegavam encapuzados em longas vestes escuras e trocavam com o anfitrião a senha e a contra-senha da reunião.
            ― Quais são as seis questões evidenciais que determinam as ações humanas?
― Quis, quid, quomodo, ubi, quando, cur (quem, o que, como, onde, quando, por que)?
Os mais idosos são levados a um vestíbulo para retocar o figurino, enquanto os mais jovens, em sua maioria seminaristas e diáconos, sentam-se em cadeiras de espaldar alto em nogueira trabalhada. Numa inversão da pirâmide do poder, hoje serão eles os juízes de uma diversão inocente: os altos dignitários montados de drag queen se exibindo para os mais belos noviços dos seminários. O desfile das tiazonas mais lembrava um baile da saudade de Hollywood: Judy Garland, Teda Bara, Carmen Miranda, Scarlett O’Hara, Liza Minelli, Sofia Loren, Luz Del Fuego, Anita Ekberg... Um dos mancebos se levantou da sua cadeira e cobriu com um pano o crucifixo da parede ― não convinha que Ele visse aquilo.
Doutor Jordão, vestindo uma dalmática púrpura, alva e estola brancas, é chamado às pressas. Uns sujeitos estranhos estavam na porta dizendo que dali não sairiam sem falar com ele.
Mas, então, os imbecis da organizada finalmente chegaram... Que belo senso de pontualidade! Tinha marcado com eles às seis. Como é que conseguiram passar na portaria? Só entra neste condomínio quem tem o nome na... Ai, caramba, esqueci de tirar o nome deles da lista! Tanta coisa pra fazer, dá nisso... E agora? Que se danem, vou mandar os seguranças botarem eles pra correr.
― Aí mano, daqui nóis num sai enquanto o doutorzinho aí não der as cara, tá ligado? ― Marquinhos Paraná fazia o valente, sempre escudado atrás do gigante Quilo.
― É-é i-i-isso aí, me-melhor cha-cha-chamar o ba-bacana se-senão... ― Calunga metia sua colher gaguejante na discussão.
― Senão o quê?
Metaleiro avaliou a situação: em volta dos seis se aglomeravam uns quinze guarda-roupas, alguns deles já coçando o berro com a mão dentro do terno. Capitulou.
― Aí galera, vamo desacelerar, os cara tão maquinado, nem adianta se crescer pra cima desses otário... Vamo nessa!
O problema, no entanto, permanecia: como manter o ânimo da tropa depois de um dia em que nada tinha dado certo para eles, e ainda por cima não tinham grana para financiar uma farra em plena festa de fim de ano. Reuniram-se em volta do Monza. Metaleiro precisava de uma boa idéia, urgente.
― Aí Metaleiro, nóis tá aqui dentro num tá? Então, vamo dar um rolê no condomínio dos bacana, se bobear, tem alguma casa aí pra nóis fazer... ―como sempre, o Velho se saía com uma boa pedida.

domingo, 19 de maio de 2013

O último fim de mundo do milênio (IX)




ZABA & MATHEUS 22:39

            “Vô, que é que é isso?!” ― de volta ao quarto, Matheus reassume os binóculos enquanto o avô se aboleta no telescópio.
            “Caramba, caracoles, Jesus, Maria e José! Isso aí, menino, é a governanta da casa do Capeta, a Rainha de Sabá, a Messalina da Boca do Lixo, o caminho mais rápido pras chamas do inferno... que pedaçuda, essa dona!”
            “Mas, vô, que fantasia é essa que ela está usando?”, Matheus tremia comovido, ele e o avô tinham engolido às pressas o jantar com a família e corrido para o posto de observação no sótão. Não queriam perder um segundo da noitada que estava se armando na casa da vizinha.
            “Você não tem idade pra reconhecer a personagem... Matheus, a deusa da luxúria que você está vendo é uma reencarnação da Vampirella, uma heroína dos quadrinhos que era uma mistura de filha do Conde Drácula com a Barbarella”, o avô já nem escondia a gulodice no olhar, sem se aperceber, acariciava lascivo o corpo da luneta.
            “Não é mole não, essa bagaça vai cair... não é possível! São só uns fiapos de nada cobrindo os bicos dos peitos, a xoxota, e amarrados atrás...”, o menino tinha razão, a produção da vizinha era de fechar o comércio no dia das mães: botas de salto pretas, tiara dourada no cabelão preto, e duas tiras exíguas de tecido vermelho trançadas sobre o corpo sem muito compromisso de cobrir o essencial.
            “Você viu? O panaca do namorado nem se tocou do pitéu, ela botou um casaco por cima e foi pra sala, vai ver que só mostra o material à meia noite...”
            “Que será que eles estão esperando?”
            Com efeito, Zaba preparava uma surpresa para o namorado, mas Nino teria muito mais com o que se espantar além do figurino dela. Enquanto os convidados não chegavam, ela mandava uísque pra dentro como se fosse guaraná. Sem gelo, na levada do caubói. Ria feito louca desatada.
            “Meu bem, você não acha que está exagerando no combustível? Quando o povo chegar, cê já vai tá bem do breaca...”, meio contrariado, o namorado traíra aceitara se fantasiar: calça branca, sapato bicolor e medalhões de ouro ressaltando no peito aberto da camisa estampada, estava o perfeito gigolô. Sugestão dela.
            “Nem vem, Nino, não é você que vive me enchendo porque eu só trabalho? Que não aproveito a vida? Então, hoje eu tô numas de atolar o pé na jaca. Vamo festar, tchutchuco! Uhu! É hoje que o mundo acaba! Enche o teu copo, vai, tira esse bico da cara”.
            “Que fantasia é a sua? Com esse casacão nem dá pra ver...”
            “Surprise, darling, muita calma nessa hora. Tudo a seu tempo. Ah, o interfone, tem alguém chegando”, levantou-se antes que ele pudesse reagir. Abriu a porta para a personal trainer, a amante encabulada que chegava vestida de caipira de festa junina.
            “Oi amor, você é a primeira a chegar, mas não fica sem jeito, por favor. Tó, pega este uisquinho e já vai entrando no grau. Amanhã você faz um treino reforçado com o Nino pra perder as calorias da festa... Que caipirinha mais fofa que cê tá, linda! Não é mesmo, Nino?”
            “Sim, claro, ela fica muito bem de tranças...”
            “Obrigada...”
            “Hahaha, nessa trança, o fio solto sou eu!”
            “Hã?!”
            “Nada não, vou mudar a playlist. Fiquem à vontade aqui na sala. Hoje só quero música dançante.”
            Dali a pouco chegaram os outros convidados, todos de uma vez. Duas vans alugadas despejaram vinte convidados, também eles alugados: Zaba contratara garotos e garotas de programa para dar uma ‘animada’ na festa. Nino ficou boquiaberto ao ver adentrar aquela casa paginada pelo Armentano, sentarem-se nos exclusivos móveis Campana, uma camarilha de arlequins, vamps, índios de charutaria, garçonetes, enfermeiras, boxeurs, freiras, policiais, professorinhas, bombeiros, encanadores, colegiais... todos e todas, sem exceção, em trajes sumaríssimos.
            Puxou a namorada de canto, furioso: “Zaba, você quer me fazer o favor de explicar esta loucura? Que gente é essa?”
            “Ué, que gente? Ora, Nino, gente que nem eu: com dois braços, duas pernas... ou melhor, gente que nem você, que troca sexo por dinheiro. Só que eles têm uma ética, cobram um preço fixo por isso, não ficam fingindo que fazem por amor. Como você e essa vagaba dessa personal!”
            “Vô, cê tá pensando o mesmo que eu?...”
            “Acho que sim. Quer saber? Vai rolar uma baita de uma suruba lá... Dá uma trancada na porta do quarto, Matheus. Sua mãe tem a mania de entrar sem bater.”

domingo, 28 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VIII)



DOUTOR JORDÃO & METALEIRO 21:46

            Kelson gosta muito de contar a seguinte história.
Ele jogava no clube Pequeninos do Jockey, tinha nove anos de idade e era o craque do time que disputaria a final da categoria petizes. Sozinho no banheiro, descobriu que a porta estava emperrada. Gritou, pediu socorro. Nada.
Qualquer outro garoto iria se sentar e, mais que provavelmente, chorar. Mas não o Kelson, ele queria ganhar o prêmio reservado ao artilheiro do campeonato: uma bicicleta BMX. Subiu na privada, arrebentou os vidros da janelinha com a sola da chuteira e saiu por ali, arranhando-se nos cacos do vitrô. Jogou a final com as feridas ainda semi-abertas, marcou três gols e ganhou o tão sonhado troféu.
Kelson gosta menos desta outra história, mas sempre a menciona quando fala da sua conversão religiosa.
Ele sofreu um acidente grave aos dezessete anos com a sua bike de manobras radicais e ficou seis meses internado. Fraturou cinco costelas, a mandíbula, duas vértebras e o fêmur esquerdo; segundo os prognósticos dos médicos eram grandes as chances de não voltar a andar (setenta por cento). Voltar a jogar futebol, nem se cogitava.
O resto é história: ele se recuperou de forma surpreendente, foi para as categorias de base do São Paulo Futebol Clube, e tornou-se o principal jogador da equipe principal antes de atingir a maioridade. Uma jóia rara. Não um diamante bruto a ser lapidado, mas, como acontece aos grandes gênios da bola, apareceu para o público já pronto para carregar seu clube nas costas e envergar a camisa da seleção nacional. Aos dezenove anos, Kelson não era mais uma promessa, mas realidade.
Tudo na vida do jovem craque parecia seguir o habitual roteiro da jornada do herói: o menino pobre, vindo do nada, portador de um dom divino de tão excepcional, que encontra no seu caminho uma terrível tribulação a qual põe sua vida em risco; a partir daí, ele sofre uma transformação decisiva e retorna para levar sua missão a cabo. Porém, em se tratando do futebol quatro vezes campeão do mundo, as coisas nunca podem seguir cartilhas simples e consagradas ― há um entranhado (pré) conceito de que devemos dificultar ao máximo para os artistas da bola, de modo que, sobreviver, por si só, já será marca de excepcionalidade.
O doutor Jordão considerava o assunto sob o prisma dos interesses do seu amado tricolor paulista; nesta visada, o problema todo residia na chamada Lei Pelé. Ministro do Esporte no governo de Fernando Henrique Cardoso, Pelé conseguira aprovar no Congresso Nacional uma lei que adequava o Brasil ao fim da instituição do “passe” no resto do mundo. Na prática, significava o fim da escravidão no futebol: depois da jurisprudência internacional estabelecida no caso Bosman, cada jogador ficava livre para trabalhar no clube que escolhesse ― como qualquer outro trabalhador em um país livre.
Melhor jogador do mundo, mas um belo de um ingrato, esse crioulo! Onde já se viu, deixar o clube formador sem uma percentagem na negociação desses garotos? A gente gasta uma gaita durante anos nessa molecada piolhenta... e pra quê? Vem um sanguessuga de um empresário, enche a cabeça do garoto e da família, e tchau pro clube que o alimentou, alojou, pagou médico, nutricionista, fisioterapeuta, tudo... Lei Pelé, pois sim, eu é que não vou deixá-lo sair assim, de graça!
Aí residia o impasse: em breve, Kelson completaria vinte anos, pela nova lei, estaria então apto a assinar contrato com a agremiação esportiva que bem entendesse ― detalhe: sem que este clube precisasse pagar um centavo ao São Paulo. Manchester United e Real Madrid mandavam emissários para assistir aos jogos do garoto no Morumbi; em campo, o menino-prodígio desmontava as defesas adversárias com suas irresistíveis arrancadas rumo ao gol. Tinha de agir com rapidez e precisão para salvaguardar o patrimônio do soberano Tricolor.
Um incidente estúpido abriu-lhe a janela de oportunidade de que necessitava: em jogo valendo classificação para a Taça Libertadores da América, obsessão sampaulina, a equipe havia sido desclassificada perdendo fora de casa para uma equipe paranaense. Com o beneplácito do apitador, a partida tinha sido uma verdadeira carnificina; um volante-brucutu encarregou-se de quebrar o craque do São Paulo, tirando-o do jogo com uma entrada criminosa. O garoto saiu de campo aos prantos, imagem que a televisão captou em close. Foi a senha para as cornetas da imprensa amiga do doutor Jordão soarem impiedosas: pipoqueiro.
No jargão do futebol brazuca, com seu peculiar ethos do tempo das cavernas, este é o pior xingamento: ‘pipoca’ é o jogador que salta fugindo da pancada, evitando a bola dividida com o zagueiro-açougueiro. Um crime de lesa-pátria. A reapresentação dos jogadores se daria logo após as festas de fim de ano numa cidade do interior, de modo a evitar os protestos da torcida, furiosa com a desclassificação. Aqui, os interesses do dirigente e do líder de facção confluíam: o plano era levar meia dúzia de arruaceiros para receber os atletas com protestos, de preferência, atirando pipocas na cara do pobre Kelson.
O crime perfeito: a imprensa daria ampla repercussão, o rótulo de ‘amarelão’ grudaria no rapaz, e então, fazia-se a venda às pressas para um clube que o compraria com deságio ― e todos levariam o seu por fora, claro. Na ponta européia encontrava-se o Milan, presidido pelo empresário e político Silvio Berlusconi, que arremataria a jóia por, declarados, oito milhões de dólares. Amigo do cavaliere, o doutor Jordão engordaria o colchão da sua já confortável velhice, enquanto Metaleiro ganharia o financiamento necessário para dar o start na sua própria organizada, livrando-se da dependência dos outros líderes de torcida.
Por isso é que Metaleiro se desesperava, ali, sentado naquele posto de gasolina de playbas à espera dos companheiros que tinham ido na captura de uma porra de um borracheiro. Não podia vacilar. Tinha porque tinha de chegar na casa do doutor Jordão e pegar as passagens mais a grana do alojamento. Senão, como é que iam tocaiar a delegação quando chegasse na cidadezinha onde o tricolaço ia fazer a pré-temporada? Um atraso de horas, e a hora do réveillon chegando.
Que merda, onde que tão esse Velho e o Birinja que não chegam? É o cu da cobra, daqui a pouco esses mané vão inventar de encher a lata... hmm, tá chegando meia noite, daí fodeu a biela, ninguém mais vai prestar pra nada. Ah, mas não tem erro não, seja a hora que for, vou colar lá na casa do cartolão e catar minhas paradas! Desculpa aí Kelson, nada contra você irmãozinho, mas se eu não adiantar meu lado, quem é que vai?

sábado, 13 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VII)



NATASHA & PROFESSOR CAMARINHA 20:29

            Eléos e Phóbos, piedade e terror.
Tanto quanto a tragédia grega encenou os muitos tons e sentidos da dor, a arte cristã se dedicou a representar a paixão de Cristo, ou seja, a história do martírio: a dor extrema do Filho de Deus. Purgação e expiação das paixões. Identificação e compaixão. Paixão mista em que o prazer nasce da contemplação dos limites do ser humano, da visão terrífica da morte.
Sacrifício ritual, culto dos mortos, a arte nunca deixou de ser um exorcismo do incomensurável poder de Tânatos; na arte, reencontramos a dor na sua vertente sublime, descobrimos que a beleza pode ser terrível. Respeitável pai de família, pesquisador nível A da Capes e figura de proa da intelligentsia tupiniquim, o professor Camarinha mantém oculto um lado da sua vida. Ele é um esteta da dor.
O professor descobriu o segredo dos torturadores de todos os tempos e lugares.
            O pensamento clássico segrega mente e corpo em universos paralelos; quando dizemos distraidamente ‘meu nariz’, ou ‘minha perna’, salta aos olhos (e aos ouvidos) a exterioridade do ‘eu’ que fala na relação com o ‘seu’ corpo. Eu não é um corpo, eu é um outro. Etc., etc..
            Ora, o objetivo primeiro e último de qualquer suplício é devolver este eu onipotente ao corpo em agonia; derrubar a dignidade da primeira pessoa do singular, reduzindo-a a um feixe excretor de sensações. Carne e medo.
            Prosaico silogismo do carrasco: você é este corpo, este corpo me pertence; logo, você me pertence. Cequedê. O caroço desta verdade quebra a espinha ao mais durão dos idealistas. Memento mori pra ninguém botar defeito.
            A um sujeito destituído em sua palavra, corresponde um corpo despido do seu próprio controle, que não pertence mais a si mesmo, transformado em objeto nas mãos perversas de um outro cujo poder não tem limites. Nesta experiência de ultrapassagem e redenção, de cruzamento de fronteiras e concomitante restabelecimento de padrões, Natasha é mestra em extorquir dele as verdades recalcadas, em alçá-lo aos cumes gêmeos do sofrimento gozoso.
            O interfone tocou. Chegara, finalmente. Abriu a porta para ela já vestido com o pijama de estampas infantis; os membros peludos e a pele do professor contrastavam com a tez mais clara da careca.
            “Hãm, oi, boa noite, deixe-me ajudar com o casaco... Aii!!”, ainda no vestíbulo, mas já com a porta fechada, levou a primeira chicotada da noite.
            “Quem deu autorização pra tocar em mim?”, Natasha já tinha incorporado, usava a máscara da Mulher-Gato, os longos cabelos castanhos a lhe cobrir os ombros. “Pega a minha mala. Leva pra lá. Só abre quando eu mandar”.
            Desfez-se da capa de vinil sobre uma poltrona. Relanceou os olhos pelas paredes da sala cobertas por prateleiras de livros. Caixas de som tocavam ‘No Castelo do Rei da Montanha’ do Peer Gynt. A filmadora a postos sobre um tripé. Conferiu o enquadramento da câmera na telinha. Perfeito.
            “Já posso abrir?”
            “Não ouviu o que eu falei?”, e, pimba!, sapecou-lhe o reio de novo, nos quartos. Natasha apercebeu-se satisfeita da ereção que já lhe estufava o pijaminha.
            Devidamente autorizado pela patroa, o escravo pôde, enfim, abrir a maleta, de onde foi saindo uma cornucópia de couro e metal: correntes, arreios, coleiras, uma chibata, uma máscara de gás emborrachada, algemas de zamak cromado; e o principal acessório, o Bernardão.
            “Vamos passear agora”, puxou-o pela coleira, dirigindo-se para a cozinha, “Mas vou avisando: toda e qualquer desobediência ou mau comportamento serão severamente castigados. Responde!”, deu-lhe um repelão brutal na coleira.
            “S-sim senhora!”
            Natasha pôs a água para esquentar no microondas. Cinco minutos.
            “Ah, não é possível, babando na minha bota!”, desfechou-lhe uma saraivada de golpes com o chicote de nove tiras. O servo se contorcia gemendo excitado, acariciava o membro intumescido.
            Levou-o para a sala aos pontapés.
            “Já pro castigo! Mau, muito mau menino, agora não pode dizer que não avisei... Vira pra parede, já! Está de castigo até eu mandar!”
            “Na-ãao, o castigo não, perdoa mamãezinha, o castigo não...”
            “Você errou, e sabe que tem de ser punido para o seu próprio bem. Isso dói muito mais em mim que em você...”, ouviu o sinal do microondas, voltou para a cozinha arrastando a mala de rodinhas metalizada. As botas de salto alto ressoavam no assoalho de tábuas corridas.
            Natasha preparou com cuidado o Bernardão: um consolo avantajado, em borracha crua, calibroso, e equipado de êmbolo. A água deveria estar tépida, nunca quente demais.
            “Abaixa essas calças, pirralho atrevido, chegou a hora do enema! Vamos limpar toda a sua sujeira, até a de dentro”, ela se movia com os passos elásticos de pantera, a roupa de suplex delineando a silhueta sinuosa, o ameaçador rabo-de-tatu preso na cintura.
            “Mas... já? O Bernardão agora não, nem tô com a tripa presa... eu fiz cocô direitinho como a senhora gosta, por favor, agora não.”
            “E eu te perguntei alguma coisa, moleque?”, Splaat, estalou uma chibatada nas nádegas do professor. Ajustou algemas nos pulsos e tornozelos dele, arriou a parte inferior do pijama, untando-lhe o ânus com gel de xilocaína. Introduziu o dildo cuidadosamente.
            “Unff!! Aiii, pára com isso, não faz isso comigo, assim, hmm... pára...”
            “Isso, este é o meu escravo, assim que eu gosto... vai confessa, fala pra mim todas as coisas feias que andou fazendo”, a dominatrix esvaziou o êmbolo do Bernardão, injetando dois litros de soro morno nos intestinos do masoca. Sentia estar se aproximando de alguma coisa nova com o súdito, um novo limite ia ser quebrado naquela noite; a excitação que ele apresentava era maior do que o habitual.
            Descalçou as botas. Tirou as meias.
            “Hmm, ai, que duas jóias mais lindas, que dedinhos! Posso...?”, ele pedia, mas já se atirava sobre os pés da tirana, lambendo-os, sôfrego.
            “Você sabe o preço, né? Sabe ou não sabe? Responde!”
“S-sei sim senhora”.
“Lambe primeiro as solas dos meus sapatos, já!”
            Chegaram na parte da cena que Natasha mais gostava.
Calçou as suas pièces de résistance: sandálias de salto alto; simplesmente duas jeweled-fish de Giuseppe Zanotti. Usando algemas com afastador, prendeu-o deitado de bruços a uma coluna da sala. Caminhava sobre as costas do sujeito, perfurando-lhe a camisa com o salto afiado no calcanhar. Pequenos botões carmim emergiam no tecido.
Vestiu o rosto dele com a máscara de gases. A vítima gritava, choramingando palavrões abafados pelo bocal de borracha amarela.
“Grommfbb, ca, ca...”
“O que é que você falou? Mais alto, quero ouvir!”
A hora da verdade.
A fronteira da qual recuara até então. Trocou a posição das algemas no poste de suplício, virou-o de barriga para cima. Era necessário que visse tudo. Afastou as pernas sobre o peito dele, abriu um zíper no macacão de suplex que atravessava o cavalo da calça da frente ao cóccix. Concentrou-se. Em breve, um bem formado tolete se depositava sobre a barriga do escravo.
O professor Camarinha arquejava em êxtase. Manchas úmidas se alastravam nos calções do pijama.

domingo, 7 de abril de 2013

O último fim de mundo do milênio (VI)






OSSADA & REINALDO 20:02

            A última balada do milênio corria perigo.
            A casa do amigo ficava próxima da sua, na rotatória do Sunrise Village; nem trocou de roupa, foi só o tempo de estacionar a moto, largar a mochila, bolar o back e já batia na porta do quarto de Reinaldo. Ossada estava sem planos e sem grana para cair na night; uma reunião do alto comando era necessária para restabelecer a estratégia, já que os objetivos eram cristalinos: erva, perva e cerva.
            “E aí pé-de-pano, ah não, ainda de pijama?! Vai ver que a Cinderela precisa que a minha rola lhe dê o beijo do verdadeiro amor pra despertar...”, embora o desânimo do parceiro fosse previsível, Ossada não aceitava derrotismos mesmo com perspectivas tão sombrias.
            “Cê viu a presepa que a minha mãe tá armando? Sinistro, mano, jantar com um monte de gente que eu não conheço, ou que conheço o bastante pra não gostar”, sentou-se apoiado no espaldar da cama vendo o parceiro laricado se entupir de filhoses roubadas à cozinha da mãe, “Meu, que porra é essa na tua calça? Tá zoado... vixe, a perna tem uma queimadura”.
            “Ah, isso?, foi uns rosca lá na avenida, me jogaram um morteiro; mas dei o troco: esguichei refri no parabrisa da barca dos maluco, foi mó louco, apavorei, dei petê nos malaquia...”, Ossada enfiou o tapete na fresta inferior da porta do quarto e acendeu um baseado grosso como uma vela de sete dias, de deixar rastafári envergonhado: jamaican size. Puxou uma cadeira para si. “Hahaha, se fuderam, mas e aí nóis, onde vamos festar essa noite? Mano, cê sabe que eu tenho uns lances, tô sentindo que hoje é dia, vamo dar uma, meu broder, vamo me-ter, tá ligado?, me-ter, furunfar, fincar a estaca, descarregar a pistola, dar um picote, arreganhar a chapeleta, escalavrar a piça, sacudir o joão-bobo, esganar a gata, descabelar o palhaço, passar o rodo, descascar o palmito, maltratar o pirata, arregaçar o freio, desentortar o toucinho, estrunchar a alcachofra, apontar o lápis, ralar o bilau... muleque, hoje eu tô a fim de botar uma roupa de couro na estrovenga... couro de buceta, copiou?”
            Acompanhava as palavras de manejos que se pretendiam eróticos, balançando os quadris em sintonia com os braços; Ossada simulava uma trepada com o ar, ‘sensualizava’, como ele mesmo dizia, mas tudo que conseguia era a mímica de uma lombriga lúbrica e desconjuntada tendo um ataque epilético. O grandalhão não conseguia ficar parado meio minuto, um mapa do Chile com déficit de atenção e hiperatividade; nem bem terminou sua dança do acasalamento das enguias pré-históricas, e já estava vasculhando o quarto. Atrás sabe-se lá do quê.
            “Aí garanhão, se liga na facada que tão as balada: Flag, cento e vinte cinco pilas, bebidas à parte; Gallery, cento e oitenta; Maksoud, cenzão; Avenida, sessentinha com consumação; Disco Fever, vintinho sem convite, quinze com...”, Reinaldo se interrompeu, deu um pega na charuleta. “Na boa, Ossada, tamo sem um tusto, vamo acabar é fazendo justiça com as próprias mãos...”
            “Caralho, mano, deve ser por isso que as mulher não larga do teu pé: é esse seu otimismo que contagia! Não confia no xaveco, mané? Mulher se ganha também de bolso vazio, mano”.
            “Não é isso, porra, é que precisa um pouco de logística, ter um esquema”.
            “Rei, tu é um gênio... ao contrário! O esquema á papo reto, tira o mata-burro dos neurônio: vamo pro Réveillon da Paulista, arrastamo as mina pra cá, e aí meninão, é só correr pro abraço...”, lembrou dos pais que tinham ido mergulhar no Caribe com a irmãzinha cedefe, largando ele aqui sem um puto e a chave do carro cassada. Só porque tinha levado chumbo na escola de novo ― vinte anos e ainda no colegial! ―, tremenda injustiça.
            “Virada na Paulista com Maurício Manieri, É o Tchan! e Os Travessos?, tô fora, irmão”, só então se deu conta da armadilha, os neurônios finalmente se encontraram num baião de dois, “Ei, pera lá, se vamo na moto, trazemo as mina aonde?”
            “Enxergue a beleza na simplicidade: pegamo o carro da sua mãe, arrastamo as marvada pra minha casa, e bola na rede, broder!”, remexia nos frascos da prateleira, até que achou algo que podia dar barato; no rótulo lia-se: Dry Quik. Deu uma cafungada master.
            “Que cê tá fazendo? Ai, não, é o removedor de pintura dos meus aeromodelos... taquiospa Ossada, tu é bem louco mano!”, agora como é que ia pedir o carro emprestado para a mãe?, ele, chapado, o Ossada, pra lá de Marrakesh, fedendo a oficina de sapateiro.
Foda, viu.
            Ossada era assim, ame-o, ou deixe-o. Coração de ouro, mas um baita garoto-enxaqueca. Sempre causando. Antes de se perder completamente numa cambiante névoa púrpura, a mente do tresloucado rodopiou pelo quarto girando pensamentos e emoções num vasto carretel sem eixo nem direção.
Meus pais querem que eu estude pra quê? Pra ficar igual os bostas que moram neste manicômio de bacana? Quando um filha da puta de BMW arrebentou o pai do Reinaldo, o que fizeram? Garantiram o emprego pra mãe dele; pronto, tudo resolvido. Nunca uma pergunta, nunca uma palavra de consolo pra família, zero solidariedade. Então é isso?, virar burguês, andar de camisa limpinha e cueca suja?
            Odiava aquela situação, pagar de babá de chapadão. O pobre menino rico. Apagou o bamba. Ligou um pequeno ventilador para desbaratinar o cheirão de marufo.
Não tinha alternativa, precisava esperar a onda passar antes de poder botar o nariz para fora do quarto. Os convidados da mãe chegavam. Cabeça baixa, escanchado na cadeira como um trapo sujo, o amigo murmurava absurdos; deitou-o na sua cama. Vestiu-se por falta do que fazer.
Era incompreensível. Ossada, filho de milionário, era tão fudido quanto ele, o filho dos proleta nordestino. Olhou para o alemão doidão espremido na cama curta; na teoria, tinha tudo para odiá-lo.
Era o seu melhor, e único, amigo.

domingo, 31 de março de 2013

O último fim de mundo do milênio (V)



ZABA 19:18

            Ela olhava distraidamente pela janela do carro, quando a solução lhe apareceu bem na frente do nariz.
E que aparição: a traveca japonegra loira, gigantesca e desvairada, montada em botas vermelhas de salto vertiginoso, corpete, lingerie e meias arrastão ornando em carmesim berrante, desfilava pela avenida do Jóquei como se estivesse na Sapucaí.
É isso, entendi, simples assim: mudar o foco, apresentar o contraplano; boa Zaba, sua massa cinzenta não fritou! Vou mudar radicalmente a lista de convidados da festa lá em casa... hmm, meus amigos vão entender, avisando agora... são sete e dezoito, ah, todo mundo se arranja algum chill out... ainda dá, e depois, os meus amigos estão em todas as listas VIP desta cidade. Já o pulha do Nino e a biscateira da personal-amante, vão ter A balada pra lembrar pro resto do milênio, garanto que vão!
“A prefeita eleita, Marta Suplicy do PT, toma posse amanhã, e será a segunda mulher a governar a maior cidade da América do Sul... Previsão do tempo para amanhã, dia primeiro de janeiro: mínima de vinte e um, e máxima de vinte e cinco graus na região metropolitana, tempo nublado com chuvas ocasionais...”
Desligou o rádio.
Concentrou-se em um ponto indefinido do universo. Pronto. Aconteceu mais uma vez: Zaba era de novo a empresária top que a afasia transitória varrera da sala de comando da sua vida; o cérebro arguto e pragmático já tinha montado um plano de ação. Etapa por etapa.
Com dois telefonemas, estava falando com a pessoa certa ainda no carro.
“Bom, veja, eu sei que estamos em cima da hora demais, mas olha: quem me passou teu número, garantiu que você é o cara... tá, sei, mais caro... não, claro, o importante é que sejam divertidos e, ah, faço questão das fantasias, o tema é um baile de máscaras. Você vai ter que me retornar pra avisar, isso, a placa da van... se eu não deixar na portaria do meu condomínio, não entra... É, isso, Sunrise Village, você anota o endereço?...”
Chegou a casa, Nino ainda não tinha voltado. Dispensou todas as empregadas, a festa ia ser open bar e self service; não estava com saco de alimentar marmanjo, só na mamadeira: cerveja, Chivas e Taittinger.
Ligou pro traste enquanto ia deixando as roupas pelo chão a caminho da cozinha. Andava inteiramente nua pela casa, uma Iracema com lábios de fel, formas generosas e carnação rija; aos trinta e nove, Zaba era de tirar o fôlego de triatleta: linda, rica, inteligente, despachada... fora o corpão de viola-da-gamba. O Nino devia ter batido a cabeça em alguma quina.
“Alô, alô... oi amor, sou eu, você ainda tava malhando? Claro, posso imaginar... hã?, nada, nada, só tô imaginando você ficando todo saradinho, só pra mim... certo, te espero. Ah, avisa pra nossa personal que a festa mudou... é, uma surpresa que resolvi fazer, uma coisa, assim, mais agitada... mudou só um pouco, vai ser festa à fantasia... a gente merece, amor, é a última do século vinte!”
Esqueceu o que tinha ido buscar na cozinha.
Abriu a geladeira, serviu-se de um prosecco. Foi até o gaveteiro, retirou do estojo uma faca de cerâmica. Atravessou a sala com a enorme adaga negra numa mão e a taça na outra. Sua atenção se virou de relance para uma foto sobre o console da lareira; arrancou-a da moldura, largando a bebida ao lado do passepartout vazio.
A fotografia mostrava três pessoas sorrindo em trajes de academia.
Uma corna e dois traíras.
Zaba se viu repentinamente coberta por um manto gosmento de larvas sanguessugas: a alucinação transitória trouxe-lhe de chofre a imagem mais nítida da legião de encostados que sustentava. Só tinha descoberto mais dois. Picou a foto em tiras finas com a lâmina ultra afiada formando um montinho no chão.
Abriu as pernas colocando-se sobre o carpaccio de aparas e sonhos desfeitos, e urinou em cima.


MATHEUS BUCALEM 19:28

            “Matheus... Matheus... Matheus!! Você quer fazer o favor de sair desse quarto?! Desliga o computador e vem pra baixo, seus avós chegaram”, dona Nadira se preocupava com o tanto de horas que o menino passava no videogame, mas o marido não autorizava o confisco. Tudo deixava ao caçula, o filho homem.
            “Já vou, mãe, só mais um pouquinho...”, não podia acreditar que a mãe ia arruinar tudo, Matheus estava no meio da missão. Não podia sair agora, desfalcar a equipe na hora do mano a mano.
As mães não conseguem entender o significado de on line? Não é um jogo de liga e desliga, pô!
Com efeito, era realmente distante a galáxia de preocupações onde se consumia a mãe de Matheus para entender o universo implacável de Counter-Strike. O game de combate do momento. Sair agora certamente lhe custará uma punição em futuros torneios de equipes.
“Filho, desce agora”, a intervenção do pai selou seu destino. Game over.
Que chateação foram inventar, jantar de Réveillon! Nem presente ganha, só pentelhação e frutas secas, que saco!
A sala estava uma confa federal, os avós tinham sido agredidos no semáforo antes de chegar ao condomínio. O pai falava ao interfone com a segurança; a mãe, as irmãs e as empregadas se desdobravam entre a avó, muito nervosa, e o avô, nervoso e com um galo na testa. Dois bandidos tentaram roubá-los, mas se atrapalharam com a lentidão deles para entregar os pertences; Fugiram sem levar nada. Sobrara uma pancada no coco do Vô, mas ele não parecia muito mal ― quem estava fora da casinha era o pai.
“Você tem mesmo que sair?” a mãe sabe dos perigos destas ‘saidinhas’ do marido, mas não pode confrontá-lo em público. Intimamente, teme o traço hereditário que vê despontar no filho: ambos não aceitam que, uma hora, o recreio acaba.
“Que é que você acha?. É preciso registrar o B.O., afinal, agrediram os meus pais!”, Walid Bucalem, na verdade, prepara-se para matar dois coelhos com uma caixa d’água só. Vai prestar queixa na delegacia mais eficaz do bairro: basta dar a fita pro Chantecler, o trafica da favela ao lado do Sunrise, e esses nóias rodam bonitinho. Daí, é aquela história do Jaques: já que está por ali, traz munição pra dar uns tirinhos antes da virada de ano. Só uns tecos pra comemorar.
“Matheus, vamos pro seu quarto? A gente relaxa um pouco lá até sair a janta”, tal como o pai, o avô também tem loucura pelo menino.
“Isso, vamos Vô, aqui tá muito chororô”, o quarto de Matheus fica no terceiro andar; a subida é um sofrimento para as juntas do avô, mas a recompensa é certa.
“Como tem andado a... astronomia?”, o avô desfruta intensamente da luneta que o neto instalou na janela do seu quarto no sótão.
“Hmm, médio, muita gente viajou, as vizinhas tão muito quietas”, apontou as lentes para uma construção modernosa no fim da rua. Arquitetura bem style: cimento armado, paredes de vidro, baixa; do seu posto secreto de observação, Matheus pegava ângulos bons de uma sala, dos corredores e da piscina; a dona da casa tinha uma abundância e uma peitância que lhe proporcionavam bronhas inesquecíveis.
            Mas nunca tinha dado sorte como daquela vez. Correu a pegar os binóculos no armário, apagou as luzes do quarto e voltou como um raio pra janela.
            “Mas o que é que você está tão...?”, ainda arfando da subida, o avô sentou-se e ajustou o focou do telescópio amador.
            Boquiabertos, avô e neto respiravam em longas inspirações como se pudessem absorver a cena pelo ar. Ofegaram em silêncio por longos minutos.
            “Vô, aquilo na mão dela... é-é uma faca...”
            “... e nuinha como veio ao mundo, meu Deus, que pedaço de mau caminho!”
            (...)
    “Vô, ela tá...”
            “... mijando, ela tá mijando!”

sexta-feira, 29 de março de 2013

O último fim e mundo do milênio (IV)




7. METALEIRO 19:15

            “Que-que-que ca-ca-cagada do carai, do-dois pi-pi-pneu estorado, mano!”, Calunga, o gaguinho do rolê, tartamudeava resmungão no seu dialeto de sílabas truncadas sentado no meio fio.
            “Só nóis cruzar esse alemãozinho de novo pr’ele ver o sacode que vai tomar, vô virar ele do avesso, fazer o cu dele sair pela boca... playboizinho de merda!”, Marquinhos Paraná praguejava agitando a camiseta para os carros desviarem na pista, enquanto Quilô empurrava o pau-velho até o posto de gasolina mais próximo.
            O líder planeja no início, antes de começar a agir.
            Único a permanecer dentro do Monza, o chefe mantinha o controle do volante ouvindo as rodas ferir o chão durante a subida rumo ao Seven Eleven. Um contratempo fodido: deu pra trocar o estepe, mas ainda faltava uma câmara pro segundo pneu. Achar um posto de serviços aberto àquela hora, domingão, último dia do ano, já não tinha sido mole, que dizer de um borracheiro? Metaleiro destacou o Velho e o Berinjela pra irem na captura.
            Já tamo atrasado pra caralho na ponta marcada com o Doutor Jordão. Esse velho papa-óstia é pior que furúnculo no rabo, mas pode adiantar muito o meu lado. Não vou desistir de passar na mansão mal-assombrada, nem que chegue lá meia noite!, quero ter as passagens e os ingressos na mão ainda hoje, senão, não vai ter arrego.
            Metaleiro era um sujeito acima da média, e sabia disso. Tipo aquele carneiro que levanta a cabeça acima do rebanho e enxerga alguns palmos à frente do resto ― um ciclope em terra de cego, mas capaz de usar todo o alcance da vista única. Descobrira em si próprio o talento gerencial e o desenvolvia pacientemente, aliando a pertinácia com a ambição; plenamente consciente de que a sua expertise é a mais valiosa desde que a humanidade aboliu a primeira versão da lei do mais forte: sabe que a força está do lado daquele que exerce controle sobre os outros. Metaleiro é um gestor de recursos humanos, um administrador de grupos, líder hábil e agregador.
            O verdadeiro método, quando se tem homens sob as suas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, em dar a cada um a responsabilidade adequada.
                        Tinha lido a Arte da Guerra de Sun Tzu numa edição vagaba que se desfez antes de chegar à página sete do livro, mesmo assim, conseguiu decorar uma meia dúzia de frases nas quais pensa constantemente, sem, contudo, compartilhá-las com os manos da sua quebrada. Fazendo uso de meio neurônio, entendeu que no seu pequeno grupo de comandados dispunha de uma unidade compacta de soldados, e oficiais capazes de constituir o que o general-filósofo chamava de estado-maior. Os cinco que o acompanhavam formavam justamente o núcleo duro da sua falange; Metaleiro precisava tirar as meias sem tirar os sapatos, ou seja, transferir know how para que eles pudessem se apropriar das táticas de suas conquistas, sem, no entanto, discernir a estratégia que gerou as vitórias; na prática, significava abrir para a elite dos manipulados uma parte dos segredos do manipulador ― algo tão difícil quanto ensinar o truque sem estragar a mágica.
            Esses cinco mano é o que tem pra hoje, quando estiverem prontos, vão trazer outros, que depois trazem mais outros. Pela ordem. Um exército de mané e zé-ruela tocando o terror, o pesadelo da burguesia. É assim que é, mano, mas vai ser osso impregnar as idéia dessa rapaziada sem noiar demais o Tico e o Teco. Vamo ver: tem o Quilô, de quilômetro, forte como uma besta, e besta como uma besta; aí o Velho, o que fala menos groselha deles todo; o Marquinho Paraná, trafica e roleiro; depois, vem o Calunga, nosso irmão das bombas e dos fogo; ah, tem o Berinjela que, bem... o Birinja é o Birinja e pronto! A gente dá o perdido pra não trazer ele no rolê, mas o mala sempre cola nas parada que nós tá, aparece ninguém sabe de onde, e vai ficando...
            Encostado na mureta da loja de conveniências, espera pitando uma guimba. Passou o tempo em que seguia os cabeças da Independente, pensa que chegou a hora de formar a sua própria organizada, com estatutos, regras e objetivos próprios ― os seus. Na visão de Metaleiro, uma torcida organizada não deveria fazer demais o jogo da imprensa, nem obedecer demais à diretoria do seu time; na sua avisada opinião, as maiores agremiações de torcedores são mais cortejadas pelos políticos, sempre atrás de currais eleitorais, sacrificando da autonomia no processo; porém, um grupo menor, mais bem coordenado, com o rabo menos preso, estará mais apto às ações que necessitam de maior ousadia. Um bom exemplo é o acerto que está prestes a fechar com o Doutor Jordão.


8. NATASHA 19:00

            “Meu nome é Natasha,
            uso saia de borracha,
            meu negócio é bolacha,
            entro na balada na faixa”
            Diante do espelho de três folhas do camarim, iluminada por uma guirlanda de lâmpadas feéricas, Natasha se maquia metodicamente usando seu melhor equipamento: um estojo importado da Sephora. De vez em quando, ri sozinha lembrando a falseta dos amigos da cena S&M.
            Saia de borracha, uma ova, hoje vou trabalhar toda emborrachada!
            Ela gosta de precisão, se corrige mentalmente, seu figurino para a sessão de logo mais com o professor Camarinha praticamente não inclui borracha: botas de couro com perneiras acima do joelho, collant de corpo inteiro em suplex, touca com máscara cobrindo olhos e nariz, chicote de couro com nove tiras, sobretudo em vinil elastizado com ultra brilho... e a super maleta metalizada das mil e uma malvadezas, único acessório a fugir do pretinho básico.
            Termina de aplicar o corretivo de olheiras e começa a espalhar a base pelo rosto; confere o resultado no espelho, retoma suas reflexões; decididamente, está numa veia filosófica nesta noite. Talvez influenciada pela profissão do último cliente do ano.
            O professor é o tipo de cliente que eu gosto: sabe o que quer, não é novo no babado, tem método, é discretíssimo, não freqüenta as baladas e festas privê do mundinho (detesto misturar prazer e trabalho), e, o melhor de tudo, paga bem.
            Confere o relógio digital ching-ling na cômoda, impulsiona a cadeira giratória com os pés para alcançar o pote contendo pó no tom da sua pele muito branca; Natasha desliza seu corpo esguio pelo estúdio multiplicado no reflexo triplo do boudoir. No rosto de traços afilados, maçãs salientes e delicado queixo pontudo, vai desenhando aos poucos uma máscara de sedução e implacável Nêmesis. O personagem que compõe é uma mistura da Trinity, de Matrix, e da Mulher-Gato.
            Não se pode entregar só o que o cliente pede, convém dar um toque pessoal. A fantasia do pervo deve ser rigorosamente montada no aspecto luxúria, mas pequenas surpresas no décor são indispensáveis. É o que separa o poser do grande artesão da dor.
            Aproxima a face do espelho para traçar uma linha reta e fina em torno dos olhos com o delineador; depois, pincela cuidadosamente duas cores de sombra nas pálpebras; com a esponja, dá uma esfumada na tonalidade obtida e compara ambos os lados. Perfeito. Adiciona a máscara para cílios e aplica os postiços: um olhar imperioso em tons de azul e cinza.
            Trepada straight, fodinha missionária, posição papai-e-mamãe, são que nem feijoada com sabor baunilha; uma boa bosta! Sexo só é sexo quando é kinky, quando tem fetiches, escravos, carrascos,  algemas, pancadão...
            Dedos longos e unhas postiças despontam das luvas brancas com aplicações de strass. Finaliza com um banho de perfume Salvador Dalí e um toque de Lolita de Lempicka. Sim, Natasha é lenda, mito, na comunidade BDSM (bondage, dominação/submissão, sadomasoquismo). A melhor dominatrix que um masoquista pode encontrar em São Paulo.
            “Sexo são, seguro, sensual e consensual”, seu lema virou bordão no métier.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Hai kai (outono)


não

sei se sou poeta

sambista ou corifeu

sei

que as dores do poeta

também as sinto

eu

domingo, 24 de março de 2013

O último fim de mundo do milênio (III)



5. DOUTOR JORDÃO MURGEL LIVIEIRO NETO 19:12

            O condomínio horizontal Sunrise Village é, na verdade, um micro-bairro fechado que parodia os afluentes suburbs (norte) americanos dos anos oitenta: sobrados de dois ou três pavimentos pintados em inevitáveis tons pastel, inverossímeis telhas de ardósia, típicas esquadrias e requadros brancos, sem falar do indefectível jardim de frente, cujas roseiras baixas se continuam nas laterais em sebes de cercas-vivas igualmente baixas rumo aos fundos da casa, onde se localiza a infalível piscina. Encapsulado por altos muros guarnecidos de cerca elétrica e câmeras de vigilância, o Sunrise possui três ruas com pavimento de concreto que saem da portaria serpenteando rumo a uma pequena rotatória que abriga a área comum: playground, sede social para as reuniões condominiais e a casa da zeladora.
            Todas as casas refletem o espírito yuppie tardio que animou o empreendimento imobiliário de meados dos anos noventa, menos uma, a do Doutor Jordão. Viúvo e sem filhos, o doutor era dono do terreno que deu origem ao loteamento; o palacete neoclássico ― no qual parece mais se esconder do que morar ― exibe uma sobriedade, e até mesmo um ar severo, em aberto desacordo com o estilo dominante. Não há varandas, sacadas ou decks; no jardim, em vez de parterres floridos, buxos e murtas; para ornamentar a fachada, ao invés do refresco das onipresentes primaveras, hera e ciprestes; as poucas janelas, permanentemente veladas por pesadas cortinas; piscina, necas. Os vizinhos apelidaram o curioso edifício de ‘Mausoléu’.
            Primeiro o homem faz a casa, depois a casa faz o homem, dizia Le Corbusier; mas, no caso, dava-se antes o contrário: a moradia espelhava plenamente os modos e rebus austeros que permearam toda a vida do seu dono; mais precisamente ainda, aquela era uma reprodução da casa onde ele passara a infância. Impedido de morar na mansão dos pais devido a uma longa disputa na partilha da herança com o irmão, resignou-se em habitar uma réplica construída sobre o terreno da chácara que pertencera à família. Um acordo com a incorporadora o isentava de pagar a taxa de condomínio, obtendo, assim, o menos pior dos mundos: segurança subsidiada em troca do decréscimo de autenticidade e exclusividade. São os ônus que a vida impõe, os vizinhos o detestam pelo seu esnobismo misantropo, e ele despreza o novo-riquismo e ostentação deles.
Doutor Jordão provinha de família quatrocentona, era homem circunspecto, profundamente piedoso, a tal ponto, que abdicara do exercício da medicina para se dedicar às obras de caridade e religião. Muito mais do que o aspecto exterior, a decoração do palacete semelhava ao claustro: escuros lambris de madeira dourada cobriam as paredes de alto a baixo; por todo lado, oratórios, estátuas de santos, ostensórios, turíbulos, brilhantes candelabros, genuflexórios de madeira de lei, riquíssimas banquetas de fina prata, lustrosas alfaias de damasco, tissos de resplendente ouro; e, dominando a sala de visitas, a peça principal, um armário de 1943 com vidraçaria centenária, executado pelo Liceu de Artes e Ofícios, contendo suas mais preciosas relíquias: um solidéu do papa Pio XII e dois certificados de bênçãos do papa João Paulo II.
Uma bela carreira a serviço da fé católica, passada em irmandades, ordens terceiras e confrarias, participando ativamente como leigo na organização da vida religiosa, na assistência aos doentes e sofredores, havia levado o doutor a escalar os degraus hierárquicos da fraternidade mantenedora de importantes hospitais da cidade: de benemérito passara a irmão remido (após trinta anos), mesário, vice-escrivão e, atualmente, mordomo. Mas isto não esgotava a personalidade do venerando esculápio, sua outra paixão o absorvia igualmente, passionalmente: o São Paulo Futebol Clube, glorioso tricolor do Morumbi, do qual era conselheiro vitalício.
Naquele último dia do ano marcara duas reuniões relacionadas aos dois cargos que ocupava, mas a primeiro compromisso já estava atrasado em mais de uma hora.
Onde diabos andarão aqueles meliantes da Independente que não chegam? É o que dá lidar com essa escória, devem ter se metido em confusão, ou então, o que dá no mesmo, estão se enchendo de cachaça n’algum mafuá...E não atendem o celular, nada funciona hoje,cáspite!


6. MATHEUS BUCALEM 19:14

            O cenário de guerra, envolvido pelo frio extremamente rigoroso do inverno, caíra num marasmo aparente, porém, um soldado não pode ficar imóvel, entrincheirado à espera da luz do amanhecer. O ar escurece, o termômetro baixa, o vento sopra rijo e cortante, o chão cobre-se de lama, mas há movimento e atividade por perto.
            Bom que tenho os óculos de visão noturna, mas estou sem a porra do defuser, o kit de desarmamento de bombas! Se achar uma das duas, vou ter que chamar alguém, hmm, isso pode denunciar a minha posição...
            Matheus acompanha o deslocamento dos companheiros de infantaria, a metralha troa incessante contra eles enquanto realizam a incursão nas linhas inimigas. O combate não cessa, não se interrompe o consumo de munições, gente não pára de morrer; nada se decide, cada um dos adversários procura com ardor fatigar e enfraquecer o outro.
            Tiros. As balas arrancam pedaços do muro poucos segundos depois de ele passar, calcula que haja dois terroristas escondidos entre as ruínas do vilarejo semi-destruído por onde se desloca cautelosamente. Sente a adrenalina encharcar o seu corpo, desencadeando uma agitação feroz que impele à ação imediata; mas não pode se deixar dominar por isso agora: agir por impulso pode lhe custar muito caro.
            Buzanga! Essa tirou fina do meu capacete, de certeza que tem pelo menos um sniper muquiado por aí.
            Armados de rifles Magnum AWP, os atiradores de elite são uma preocupação constante nesta fase de conquista do terreno, de luta homem a homem, olho no olho. Engatilha a submetralhadora. Sente a mão suada no contato com a coronha; não há tempo para arrependimentos nem orações, escolheu estar ali, escolheu aquela forma de vida e vai levá-la até às últimas conseqüências.
            Naquele momento é invadido por uma recordação involuntária: vem-lhe à mente a história do famoso aviador francês Georges Guynemer. Exímio piloto de guerra, Guynemer tornara-se uma lenda das batalhas aéreas da Primeira Grande Guerra após abater inacreditáveis cinqüenta e três aviões inimigos; condecorado com a cruz da Legião de Honra, perguntaram qual medalha ainda lhe faltava ganhar: “a cruz de madeira”, respondeu. Morreria pouco depois em combate.
            Então, o inimigo. Meio encoberto por uma parede derruída, Matheus vê as pernas de um adversário descendo cuidadosamente os degraus de uma escada de pedra. Faz pontaria.
            O cabação tá com a Kalashnikov abaixada, que baita vacilão! Foi mal aí véi, antes você do que eu...
            Prrap-pap-pá. Três tiros, um no alvo.
            Merda!, me precipitei, só acertei a perna. O cara conseguiu se arrastar para fora do campo de visão. Merda! Vai ser foda desentocar ele agora... podia ter esperado que ficasse por inteiro na alça de mira!
            Mas não era desprezível a vantagem que obtivera: ferido, o inimigo teria muitas dificuldades para escapar; se a refrega alertou os demais terroristas, também avisou seus colegas, os Capacetes Azuis. Precisava agir rápido, sem descuidar dos campers escondidos nas redondezas.