sábado, 28 de junho de 2014

Blecaute (1)



            “Onde você está?”
“Aqui.”
As segundas feiras também são tuas. Junto com todo o resto.
Ele pensou.
É preciso o caos em si para dar à luz uma estrela dançarina. Foram necessárias umas poucas horas de blecaute para confirmar, ponto por ponto, as suas doutrinas por tantos anos ridicularizadas.
Não era a melhor ocasião para um ajuste de contas com o seu passado, no entanto, comprazia-se mentalmente imaginando o terror pânico em que se encontrariam seus críticos.
“Achou as velas?”
“Sim, estão comigo. Vamos pegar as mochilas.”
O horror se alastrava na cidade e no mundo com a sanha dos grandes incêndios naquele instante. Pessoas de olhar perdido vagando em busca de familiares. Saques generalizados pelas ruas.
Parou. Esperou que o alcançassem.
O odômetro da bicicleta marcava 12,3 Km. Ainda não haviam deixado o aglomerado urbano, mas já estavam na rodovia que os levaria para longe do perigo maior. Uma jornada de sessenta e seis quilômetros no total, caminho seu velho conhecido.
Avançavam cautelosos pedalando pelo acostamento ou entre os carros, abandonados no megacongestionamento que paralisara as autoestradas logo no começo do apagão. A população em fuga desordenada simplesmente entupira as rotas de escape tanto na direção do litoral como do interior. Os faróis dos veículos desertados pelos ocupantes iluminavam a pista escura auxiliados pelo brilho ralo da lua minguante.
Por trás dos morros no céu noturno vislumbravam as projeções alaranjadas das labaredas erguendo-se atrás deles, na direção da cidade. Estrondavam explosões ao longe, constantemente, ouviam os estampidos secos dos tiros.
“Cadê nossa filha?”
“Ficou um pouco pra trás na subida, o Bob está com ela.”
“O essencial é agrupar. Só vamos conseguir se estivermos juntos. Hmm, não me agrada fazer isto de noite...”
“Nem a mim. Mas a gente não tinha escolha, a cada minuto a situação piora.”
“Aconteceu exatamente o que eu sempre disse: os grandes ajuntamentos de gente se tornaram ratoeiras a ser evitadas.”
“Vem pra cá filho, vem.”
Sim, tudo acontecia como ele sempre previra.
Sentia-se vingado e ao mesmo tempo abismado com o que presenciava à sua volta. Jamais duvidou que seria daquele jeito, mas reconhecia internamente um contragolpe de susto com a realização integral das suas conjecturas. Como se aquela catástrofe espetacular estivesse desde sempre destinada a ser crida, preparada, até ardentemente desejada, mas nunca de fato vivida.
Encare a realidade de outra forma, que a vertigem passa.
Isso ele passara a vida dizendo aos outros. Agora precisava repetir o mantra a si próprio e ao seu grupo de sobreviventes: a mulher, o filho caçula, a filha e o namorado dela. O moço percebeu de imediato a impossibilidade de retornar ao distante bairro dos pais, juntou sua scooter aos quatro bicicleteiros em retirada.
Não previra esta possibilidade: uma boca a mais. De toda maneira, um rapaz no auge da força não era auxílio desprezível numa situação extrema; pesava nos contras o fato de o Bob ser virgem em qualquer tipo de treinamento.



quarta-feira, 25 de junho de 2014

o silêncio é mudo



nuvens passam

carregadas de

outonos

tudo que vemos

é Vênus

ainda temos

Mercúrio

morte

Marte

morte

tanta falta

de arte

com sorte

vem Júpiter

ou retorna

Saturno

Urano

Netuno

Plutão



domingo, 22 de junho de 2014

Preparação: sustentabilidade, resiliência e paranóia




            Seres humanos, ou ,mais propriamente, urbanos.

            Sobreviver nas megaurbes contemporâneas, paradoxal aventura de auto-organização e suficiência emergencial. Excesso e carência. Sociedades intensivamente administradas engendram um tecido desigual e poroso onde as novas ações políticas se configuram como estéticas.

            Nem Karma, nem Apocalipse ou Juízo Final, o inferno é assim, este agora. Vivemos, e viveremos cada vez mais, sob o signo do caos e da precariedade. Necessitamos aprender/desenvolver/intercambiar técnicas avançadas de convívio em situações extremas.

            Resiliência e Sobrevivencialismo. Sustentabilidade em meio ao insustentável.

            Mapear cenários de exceção, categorizar os Armageddons possíveis, estabelecer planos de evacuação, de manejo de sementes, agricultura de subsistência, etc.; todas essas medidas podem ser insuficientes para lidar com o fim dos nossos pequenos mundos de consumo narcisista.

            Não é porque você é paranóico que não estão atrás de você.

            A Editora TIJD apresenta o livro Os Preparadores, reunindo sete histórias no gênero já clássico do worst-case-scenario. O primeiro manual do sobrevivencialismo literário em nosso meio propõe-se como uma pergunta: quais histórias você levaria na sua mochila para o deserto do Real?



Local: Hussardos clube literário, rua Araújo 154, 2º andar
Dia: 27/7 das 16 às 19 horas

quinta-feira, 19 de junho de 2014

como conheci minha irmã (final)


            ― Pra você, tudo é muito simples, se é pra defender seus interesses, você vai pra cima de quem for. A lei me dá direitos pelos anos que estamos juntas, e moralmente sua mãe reconhece, pus pão e leite nesta casa sozinha enquanto você crescia... ― Dila começava a abaixar a máscara. Prefiro.
            ― Não acredito que vai permitir esse absurdo ― encarei minha mãe duramente, ela escondeu o rosto no lenço ― A casa da praia foi construída com o suor dos seus pais, você não vai nem esperar a vó morrer pra fazer essa loucura?
            ― Entenda, meu bem, a vida não é fácil, a Dila foi muito legal com você, a Raquel... e comigo... ― recaiu no chororô.
            ― Quem não está entendendo é você, mãe, mais uma vez estão se aproveitando da senhora. E desta vez com o seu de acordo! Que mais vai ser? Ela leva também os móveis, a máquina de lavar, a TV, as samambaias?
            ― Tudo tem que virar uma discussão sobre coisas materiais?, há bem mais aqui pra resolver do que dinheiro, bens, tem o lado humano, da convivência...
            ― Lado quê?! Só o que eu estou vendo é você adiantar o seu lado, Edilamar. Você quer levar na maciota, dar a coisa por fato consumado, e fica nesse quas-quas-quas de lado humano, mas na real está se crescendo pra cima de uma pessoa que cuida de duas velhinhas!
.― Sabe, rapaz, às vezes fico tão feliz de te ver crescendo na vida, justificando todo o sacrifício que fizemos por você, mas outras eu me pergunto que tipo homem está se tornando.
― Quer saber mesmo, Dila? A única coisa que cai do céu de graça é chuva. Sou o tipo de cara que não gosta nada, nada, que façam ele de otário. Morou? ― o tom, entre condescendente e cínico, daquela a quem já havia chamado de mãe Dila começava a me tirar do sério.
― Hã-hãm... ― minha irmã pausou o bate boca durante escassos segundos, suficientes para dispersar o clima. Ficou por aí.
― São combinações que já estão acertadas, querido, melhor agir com a cabeça nessas horas. O casamento acaba, mas a família continua... ― mamãe conseguia terminar de me irritar passando o pano praquela velhaca.
― Há um detalhe ― neste ponto ela voltou o rosto na direção da mudinha ― a Raquel vai ficar comigo.
Ninguém conseguiu falar durante um bom bocado, apenas ficamos ali, comendo mosca na sala povoada de dores passadas e presentes. Naqueles minutos imensos de tédio enraivecido, senti a passagem de uma presença: o rio subterrâneo que corre pelos porões da imaginação, e que, no entanto, determina todo o relevo da nossa vida de superfície. Os quatro se levantaram. Depois, sentamos novamente, mudando uma posição no sentido anti-horário. Raquel arrastou levemente o sofá de um lugar ficando mais próxima a Dila.
― Então é assim que a família continua, dividida ao meio?! Abre o olho, mamis, a bola nas costas que você tomou é dupla!
― Escuta aqui, cansei das suas provocações. Você espreme tudo e todos que encontra, o resultado disso é que perde o limão, a limonada, e no fim só há bagaço à sua volta. Onde você pisa nem erva daninha cresce.
― Tá de boa, né Dila?, aposentou pelo estado e pela prefeitura, dá uma reformada lá em Mongaguá, e pronto, cama, mesa, banho e roupa lavada. Sensacional essa sua mentalidade de funça, amarrou o jegue na sombra, aí é só correr pro abraço. Na manha do gato.
― Como te dói saber que dependeu de mim durante tanto tempo, né moleque? Você ainda vai ter uma pilha de grana, mas nada poderá apaziguar esse bicho que carrega aí dentro.
― Aí, até é bom você e a mongolóide saltarem fora, vocês não pertencem mesmo, têm cabeça de pobre. E pobre é igual a lombriga, quando sai da merda, morre.
― Olha como fala, seu... !
― Acha que não sou capaz de te dar uns tapas por causa da Maria da Penha?
― Que é que você quis dizer com traição em dobro? ― minha mãe parecia voltar de um transe, o olhar distante gradualmente se focando.
― Ainda não se ligou, não? Bem debaixo das nossas barbas, quem me cantou a pedra foi o P2 que mandei seguir essa daí. As duas já até andaram de mão dada em Mongaguá, se pegam dentro do carro. Não botei uma fé quando ouvi.
― Tá dizendo... quer dizer que a Raquel, a Dila...?
― Estou te dizendo que a sua querida Edilamar é uma porra de um Woody Allen, criou pra comer.
― O mesmo fez você.


sábado, 14 de junho de 2014

como conheci minha irmã (4)




            Nem duas semanas se passaram, e Dila convocou uma reunião familiar. Assunto sério. O zum-zum-zum que rolava é que as minhas mães iam se separar. Dezessete anos juntas. Os bate-bocas, as DRs e arranca-rabos já tinham passado, agora era encarar os fatos, e vida que segue. Mamãe estava que era só o pó, as olheiras quase lhe chegavam ao queixo depois dos meses de insônia curtidos na crise terminal. Dava uma dó danada vê-la naquele estado, mas o momento era pra falar de business. Nessas horas, não tem pra ninguém, nunca me deixo pegar de calça curta.
            ― Resolvemos chamar pra esta reunião vocês, filhos, pra dizer que... ― mamãe não segurou mais e abriu o chafariz. Passei o braço sobre os ombros dela.
            ― Tem nada não, mãe, eu já tinha me ligado. Você vai ficar bem, não faz assim... a família continua, nós tamo junto. Fala aí, Raquel, o que acha, você já sabia que elas...?
            Fez que sim com a cabeça.
            ― Acho que já podemos abrir este assunto, mesmo com o sofrimento que ainda causa, porque a decisão mais dura já foi tomada ― neste ponto, Dila foi interrompida por um longo soluço de mamãe. Sentada à direita dela, confortava-a com afagos furtivos no braço e emprestando-lhe o lenço.
            ― Você já tem onde ficar? ― decidi espicaçar logo de uma vez o carcará, quanto mais rápido decidíssemos a parada, melhor pra minha mãe. Técnica do esparadrapo: arranca numa puxada só.
            ― Precisa dar um tapa na casa da praia, coisa de um mês, dois no máximo. Minha aposentadoria já saiu, aí é só mudar ― Dila fazia o número da diplomata, cozinhava o galo em banho-maria.
            ― Ah, isso vocês já decidiram as duas? Estão só nos comunicando? ― meu olhar ia da minha mãe pra Dila, e de volta. Do outro lado da roda de assentos que se formou na sala, a minha irmã.
            ― Filho, eu e a Edilamar achamos que é melhor desse jeito, fica bom pra todo mundo.
            ― Pois pra mim não tá nada bom desse jeito! A casa de Mongaguá é tão sua quanto esta aqui, mãe, vai dar de mão beijada pra quem tá indo embora?
            ― Ei, ei, calma aí rapaz, você esquece quem manteve esta casa e tudo que a sua mãe tem nestes anos todos? Só porque agora você é o tal dos negócios, não pode apagar o passado meu filho.
            ― Minha mãe é esta daqui! Você deu a bota nela, saiu fora, não foi? Então, cada um cada qual, você segue a sua vida, nós seguimos a nossa, mas não vem querendo levar o que não é seu Dila ― voltei-me pro lado da minha irmã, estava lá sentadinha, quieta, muito direita na cadeira como se isso fosse a coisa mais importante do mundo ― Não vai abrir o bico, hem, ô mosca-morta?!
            Remexeu-se um pouco, passeou o olhar ausente em volta. Por um segundo deu a impressão de que ia dizer alguma coisa. Mas não.
            ― Pra você, tudo é muito simples, se é pra defender seus interesses, você vai pra cima de quem for. A lei me dá direitos pelos anos que estamos juntas, e moralmente sua mãe reconhece, pus pão e leite nesta casa sozinha muitos anos... ― Dila começava a abaixar a máscara. Prefiro.
            

sexta-feira, 6 de junho de 2014

como conheci minha irmã (3)



Talvez esteja pensando que eu sou algum tipo de joão-bobo, que vou balangar pra cá e pra lá, chiar, bufar, e terminar me acomodando à nova situação com um sorriso de palhaço plástico. Tá muito enganada, nega, conosco ninguém fodosco. Essa biscate esquece que uma coisa é tretar com um mané qualquer da quebrada, outra é mexer com quem tem subordinados na folha de pagamento, gente às suas ordens. Expressamente pra situações como esta é que mantenho um colega de escola trabalhando pra mim: o Pink, o imbecil do Felício.
            Vidinha lazarenta teve o velho parça de baladas e putedos. Como esperado, tornou-se o loser que já apontava na adolescência, mas, de quebra, a marvada vida ainda lhe reservou um surto esquizofrênico e mais duas internações psiquiátricas. Da turma das antigas, só eu lhe estendi a mão; dou registro em carteira mesmo ele faltando ao serviço vez por outra. Quando passa uns períodos sem tomar as bombas que diminuem as vozes na cabeça, e junto volta a mamar umas canjibrinas, o bicho despiroca e sai pelado nas ruas do bairro gritando que chegou a vez da Sociedade Alternativa.
            Um desocupado na função de faz-tudo nessas horas é uma mão na roda, botei o Felício na cola da Raquel. Alguma explicação devia haver para uma mudança tão repentina de atitude. Loucos e mendigos são ótimos pra ficar pasmando nos lugares, de campana, porque em geral é isso mesmo que fazem o tempo todo ― nada. Ninguém passa recibo.
            Inocente fui eu de não acreditar no relatório dele.
            ― Porra Pink, não faz sentido nenhum esse bagulho que tu tá dizendo, velho. Parou de novo com as pílula controlada?
            ― Seguinte, mano, não somei nem subtraí, quem não gosta de jiló, come pequi.
            ― Caqui o quê, fio, pequi de cu é rola! Quer dizer que a mocoronga...? Não, não pode ser, tu confundiu as bola...
            ― Aí, mano, sou só doze e meio, sou treze não. O que eu vi, eu vi!
            ― Pff, doze e meio! Puta merda, isso que dá ficar batendo palma pra louco dançar.
            ― Todo louco é um, a loucura é o país de um deus solitário.
            ― Bom, de qualquer maneira continua zoiando. Ainda não estou convencido. Você foi até o local e constatou?
            ― Sim, Mongaguá.
            Nem duas semanas se passaram, e Dila convocou uma reunião familiar. Assunto sério. O zum-zum-zum que rolava é que as minhas mães iam se separar. Dezessete anos juntas. Os bate-bocas, as D.Rs. e arranca-rabos já tinham passado, agora era encarar os fatos, e vida que segue. Mamãe estava que era só o pó, as olheiras quase lhe chegavam ao queixo depois dos meses de insônia em que a crise viera se arrastando. Dava uma dó danada vê-la naquele estado, mas o momento era pra falar de business. Nessas horas, não tem pra ninguém, nunca me deixo pegar de calça curta.
           

            

domingo, 1 de junho de 2014

como conheci minha irmã (2)



Se a minha família não fosse meio detraqué, as coisas jamais teriam sido o mamão com açúcar que foram então. Contei a história dela em casa, argumentei mil vezes, enchi os picuás, falei mais que o homem da cobra, e acabou que convenci a todos da necessidade de adotar uma órfã de doze anos criada numa zona de meretrício.
            Estou certo de que, se houvesse homem na casa, nada disso seria possível. É como dizem as minhas mães, “homem é homem”. Isso mesmo: as minhas mães ― fui criado por duas mulheres, a minha mãe e a companheira dela. Durante muito tempo só me conheciam na escola como o Filho das Sapas. Do meu ponto de vista tudo era normalíssimo, desde que me conhecia por gente, havia mamãe e mãe Dila.
            A incorporação da Raquel na família, por outro lado, diminuiu a discriminação sobre nós. Essas histórias envolvendo adoção, órfãs tiradas de puteiro, costumam amolecer o coração do nosso povo tão cordato e tolerante. Algumas vizinhas, as mesmas que antes mudavam de fila no supermercado quando nos viam, agora se aproximavam solícitas, talvez na esperança secreta de que a filha adotiva pintasse a vida das duas mulheres de todas as cores. Principalmente negra.
            Que nada.
            Aquela songa-monga seria o menos indicado dos seres humanos pra infernizar a vida de alguém: silenciosa, refolhuda, engolfada dentro das suas próprias e insondáveis brumas, continuava na mesma toada vagante em que a conheci. Um saco plástico vazio arrastado ao sabor da ventania. Se antes aguentava inerte a rotina brutalizante dos serviços domésticos na zona, transplantada para um lar da classe média baixa, conservava a mesma atitude neutra agora que ia à escola e mãe Dila lhe presenteava vestidos, maquiagem e balangandãs.
            Raquel parecia não tomar nunca posse de nada, talvez com medo de que, como tantas vezes antes, lhe fosse subitamente tirado. A desgraceira suficiente pra sete encarnações lhe ensinara a lição do fogo: desacreditar em definitivos. Vivia conosco como se a título de hóspede permanente, sombra doméstica movente e reconfortante. Nunca a ouvi reclamar do que fosse, nunca um suspiro, um palavrão.
            Depois que “papai” comeu e caiu fora, Dila ocupou o lugar do macho provedor na vida e na casa de mamãe, onde já moravam a minha avó e uma tia idosa. Minha mãe cuidava da casa e das velhas, eu fazia bico de motoboy e estudava. Uns anos após a chegada da minha irmã é que as coisas começaram a mudar. Eu estava no fim do colegial e comecei a entender que não ia conseguir, e também não ia adiantar, fazer faculdade. Trabalho com informática, uma das poucas coisas neste mundo em que o que você precisa pra se desenvolver não está escondido nas universidades, tá por aí, acessível a quem tiver saco de aprender.
            Eu tinha. Tornei-me programador e montei minha empresa de serviços, cresci, abri meu escritório numa parte da cidade em que os traficantes não mandam no bairro e a milícia não chega atirando em pobre. Tinha ultrapassado os vinte anos e enxergava um futuro de conquistas à minha frente. Em primeiro lugar, tiraria a família daquele buraco. Tudo certo, só faltou combinar com os russos.
            Foi nessa época que tive um sonho impressionante. Estou num pavilhão envidraçado com um buraco no meio. O buraco tem quilômetros de profundidade, microfones gravam o ruído que vem do fundo da Terra e o barulho fica reverberando nas paredes transparentes do pavilhão. Pergunto-me se aquele é o som da origem do universo, terrivelmente grave e estranho. Só sentando no chão pra entender. Mas aí já não é o mesmo lugar, é uma clareira no meio da mata fechada, à minha frente vejo uma estrutura de aço, espelhada, um labirinto. Por fora, as paredes refletem a vegetação ao redor, por dentro, texturas imitam raízes, folhas, troncos. O tempo todo ouço um barulho de água. E, bem no centro da coisa, depois de percorrer corredores, alguns sem saída, voltar, entrar de novo, cheguei a uma bomba d'água.
            Grandes mudanças, muitas vezes, são anunciadas por pequenas alterações. A maneira como percebi que havia gato na tuba foi por meio da Raquel: de repente, numa bela tarde de domingo, a cara-de-coió resolveu que não ia dar mais pra mim. Assim, do nada.
            — Quero mais não, isso num tá certo.
            — E quem disse que você dá pitaco? Tá bem louca, tá afim de levar umas piaba sua rameira?
            Dei-lhe uns cascudos, mas não adiantou. Obstinou-se naquilo, não ia abrir as pernas, o cu, a boca, nem nenhum orifício que pudesse satisfazer minha precisão. Durante anos não teve erro, comi a esquilinha sem sustos; na miúda, pra não escandalizar a família, mas sempre que necessitei e quis. Afinal, homem é homem.
            Quando contei sobre ela às minhas mães, escondi o fato de que a obriguei a dar uma metida, paga com a promessa de tirá-la da zona. Com ela em casa, achei que seria um desperdício não continuar aproveitando o silêncio cúmplice da mudinha. E agora, isso. Uma vagabunda que não tinha onde cair morta, cheia de querer ser.
            Baita de uma mal agradecida.
           
            

quinta-feira, 29 de maio de 2014

INTER-NAUTA



Eu desentendo o porquê de algumas coisas
- tantas coisas!
Que, ultimamente, as pessoas vêm fazendo.

Por exemplo, o conectar-se à internet
- logo cedo!
E ficar lá, horas e horas, navegando...

E a natureza, os animais, plantas e pedras,
- todo o mundo!
Não são mais nada que objetos numa tela.

E o ser humano, misterioso e soberano
- o ser humano!
Digitando,  e ocultando o próprio medo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

como conheci minha irmã (1)



            Nunca conheci o meu pai. Nem quis. Doador de porra?, tô fora. Já mulher decidi conhecer aos quinze anos, aproveitei uma farra de colegas de classe e fui com eles na zona. Achei que era a hora. Ter sido criado só por mulheres me valeu anos de bullying. Todos sabem do que estou falando, escola, esse lugar selvagem, continuação natural da sagrada missão da família que é nos aclimatar à grande selva da vida.
            “Um dia, Simba, você vai herdar esta bagaça. E vai ser o cu pra conferir, meu filho.” Sabedoria padrão Disney.
            Lembro até hoje do puteiro, ficava num cortiço decrépito de um bairro idem e pobre da zona portuária. Entrava-se no terreno em cunha ziguezagueando por um corredor estreito que desviava ao sabor das irregularidades do chão ou dos barracos dispostos aleatoriamente à direita e à esquerda, rumo ao fundo onde havia um cajueiro, bananeiras, e tufos secos de bambu. Pelo caminho tropeçava-se num sem número de galinhas, cachorros, bugigangas, crianças nuas e latas servindo de vaso pra espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode.
            Pelas janelas das habitações, avistávamos as raparigas nas atividades menos sexuais possíveis: cerziam meias e vestidos, trocavam bebês, refogavam comida nos tachos do fogão a lenha, depenavam algum frango, penduravam roupas, fumavam, ou espantavam as moscas, entediadas. A cafetina se arrenegou com o bando de moleques invadindo seu estabelecimento no meio da manhã.
            ― Vou avisando, não quero bebedeira, gritaria, nem de menor fumando maconha com as moça, já tenho pobrema que chegue. Tu aí, bacuri, tá matando aula?
            No meio de uma gurizada que mal tinha pêlo na cara, ela deu de invocar justo comigo. Senti toda a dor da discriminação de cambulho com a frustração de não poder dar uma. Talvez me achasse novo demais, ou mais bobo que os outros, o caso é que madame resolveu me pegar pra Cristo como forma de controlar os ânimos exaltados da galera. Não tinha vagabunda pra toda turma, a ordem era fazer fila na porta dos casebres ouvindo o amigo resfolegar lá dentro. Os briguentos e baderneiros foram ameaçados com o juizado. Eu sobrei jogado numa saleta com um aparelho de som tocando sertanejo no talo.
            Naquela época tinha um amigo, o Felício. A gente vivia grudado pra cima e pra baixo, tanto, que fomos putear juntos pra não dar mole aos boatos maldosos que rolavam. Chamavam a gente de Pink e Cérebro; pelo motivo óbvio de eu ser o nerd da classe, e o Felício, o bobo do rolê. Falava muita abobrinha, não economizava o ouvido de ninguém, de vez em nunca, dava uma dentro.
            ― As mulheres que perderam a Pedra da Roseta, porque, mulher, é um hieróglifo até pra ela mesma ― contava essas lorotas, um imbecil que nunca tinha visto xoxota ao vivo.
            ― Caraca, Felício, de boca fechada tu é um poeta.
            De repente me dei conta que estava sozinho, não se via ou ouvia Felício, cafetina, nem os outros moleques e habitantes do muquifo. Recortada na cortina da janela à minha direita, a sombra de uma menina esquálida ia e vinha carregando baciadas de roupa. Naquele exato instante enxerguei o mundo como ele é, sem disfarces, uma vastidão tristemente deserta e sem rumo. Percebi que aquela menina era um outro alguém à deriva, deslizando muda como uma alga pelos corredores e quartos do cortiço. Distante e igual.
            ― Em vez de ficar aí bestando, vai lá pegar uma cerveja pra mim... ei, tá me ouvindo, criatura?
            Um esquilo, um esquilinho lerdo, pasmado demais praquele galinheiro de raposas, a moça me pareceu. A palidez, o silêncio, o rosto fino e ovalado, as mãos de criança, desmentindo a expressão carregada das décadas que ainda não tinha, mas já vivera ― tudo nela me irritou a princípio. “Você não devia estar neste lugar”, o clichê imortal do cancioneiro brega surgiu na minha mente.
            ― Você... trabalha aqui?
            ― Todo mundo aqui trabalha.
            E isso foi tudo que arranquei dela em meia hora de monólogo.

            

domingo, 13 de abril de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (final)


Recado dado, dica anotada.
Um alto morro separado de outros derredor. É o lugar onde ficava antigamente o bairro operário da companhia de papel, agora de todo abandonado, sem que haja dele melhor memória que alguns destroços dos edifícios contíguos à estação desativada do trem da Sorocabana. Alguns casebres levantados ao léu na sua desolação, outros em pedaços ladeira abaixo, de mistura com ervas e tojo e pedraria lavada, e em seguida fileiras de casas de alvenaria onde pobres e remediados se dão à lavoura miúda e criação de galinhas e marrecos.
Dona Nelma, a médium, mora no final da rua numa casa de muro baixo, caiada de azul com requadros brancos e em cuja platibanda se vê uma data emoldurada: 1928. O cheiro dos gatos é perceptível a dezenas de metros do portão, mas a quantidade deles no interior da casa, no jardim, espandongados nas janelas, sobre os móveis, deitados ao sol ou nas árvores, impressionam a todos que entram para se consultar. Ex-atriz de novelas da televisão, Nelma recebe os clientes com hora marcada na edícula da casa, um agregado insólito de puxadinhos que ameaça desaparecer sob a proliferação de um cipoal desbordante de mato a crescer livremente pelo terreno sem cercas.
Sentada numa cadeira dobrável de boteco, Alda aceita o chá de erva cidreira que uma assistente transex oferece numa bandeja. Anna tinha ido fumar um cigarro lá fora, deixando-a sozinha com as suas dúvidas na sala de espera da grande sensitiva. A maioria dos consulentes vinha em busca de mensagens de parentes falecidos, filhos inconformados com a orfandade, viúvas sem consolo, diálogos interrompidos, todos ali ansiavam o mesmo ungüento da alma, o mesmo lenitivo para a ausência: contato.
Perdidas no caminho, ela no volante e a co-pilota de olho nas rotas do waze, também tinham perdido a hora: agora precisaria esperar por um encaixe nos horários do fim da tarde. Tome palavras cruzadas, chazinhos e cigarros.
― Aldinha, por que você não gravou a música que te mandei?
― Era sua mesmo? “Eu leio o céu/que é você/eu leio a mão/ no seu seio/e eu sou o véu...”
― “... e o céu é você. Porque o céu é um ser/um prisma do afeto/e o fim é o feto/e o ventre é o tato...” E então, não gostou?
Sentiu uma falange de pêlos se levantando ao longo de toda a espinha. A voz, a marra, as inflexões e as mumunhas, tal e qual, era o jeito do Itamar Assumpção! Pra não dizer cuspido e escarrado, diria esculpido em Carrara. Nunca tinha visto aquilo, nem bem pisara na saletinha penumbrosa cheirando a mofo e gatos, mal e mal iluminada por um lustre tiffany com pedaços do vitral faltando, e a médium já tinha incorporado. Mas assim tinha sido sempre entre eles dois, papo reto, falando na bucha sobre tudo e qualquer coisa, o que se pode e o que nunca se deve falar.
― É que... é que, bem, não parecia muito coisa sua, cê sabe, melô chiclete, não tinha nem tempo composto... Como é que eu ia saber ao certo?
― Ao certo, ninguém sabe nada. Dureza mandar canção através de nego que não saca tchongas de música, quando o cavalo é pangaré não tem cavaleiro que adiante. E que porra é esta de mesa branca?, eu sou preto Alda, Pretobrás!
― Foi o jeito, não tem internet com o lado daí. Não brigue, não negue, me abrigue...
― Mesmo que mal eu diga, entregue-me mel. Hahahaha!
― Você continua o mesmo. Pensei que a eternidade ia sossegar teu facho, Beleléu.
― Uma ova, cê acha que isto aqui é um domingo no parque, sossego e calma? Também se leva catiripapo na alma.
― Bom, mas tu ganhou tudo agora: songbook, homenagens, regravações mil...
― É o de sempre: artista bom é artista morto. Tá só faltando o filme com o Lázaro Ramos me interpretando nas telas, e a biografia não-autorizada, mas essa vai demorar: é que o Satanás anda ocupado.
― Hehehe. Continua antenado no movimento, você.
― Tu também Alda, quando te vejo cercada desses jovens, uma molecada talentosa pacas, conectando uma geração com a outra, ai menina, me dá uma vontade de estar aí contigo!
― Nem diga, cara, sinto tua falta todos os dias. Estou com você, lado a lado, o tempo penso no que você disse, let’s dance, e não last dance.
― Mas tu continua bunda mole a vida toda, não podia logo negociar vinte shows com o SESC?
― Bicho, sabe que escutei você no meu ouvido quando definimos a agenda de shows?
― Claro, nega, eu tava do lado de cá berrando! Continua tudo igual aí, a mesma turminha de egos inflados e mentes anoréxicas, quando será que o patropi vai crescer? Nossa indústria cultural é o reflexo do país da bandalha, da mesquinharia, sempre a velha celebração da esperteza burra, o triunfalismo carnavalizante.
― Como sei do que cê tá falando, sofro isso na pele todos os dias...
― Mas então, pra que foi que me chamou, me arrancando do desassossego dos mortos?
― Nem sei direito, tinha tanta coisa pra te perguntar... mas agora, com você aqui, me embananei toda. Que é que eu faço, ou melhor, que é que ainda tenho de fazer?
― Ah, não, sem essa breguice de me perguntar o sentido da vida! Enquanto ela dura, andamos às cegas, depois que acaba, menos luz ainda, Alda. Você sabe aonde vão as palavras que não dizemos? Pra onde vai o que quisemos fazer e não fizemos? O que não nos permitimos sentir? Pois bem, tudo isso se acumula na inteligência do corpo, vira lágrimas, azedume, insônia, nostalgia besta, mágoas, por isso te digo: não deixa escapar nenhum som, nenhuma canção que você puder botar no mundo. Alda, você anda de Mercedes, mas não tem bens. Que se fodam os bens materiais! Alda, tudo que deixamos de dizer não morre, nos mata.
― Eu te amo, palmeira do deserto.
― Também. Do amor ninguém escápula.


domingo, 6 de abril de 2014

O seqüestro de Alda Espinos (#4)



            Ora, para mim, toda esta história de seqüestro faz-me pensar imediatamente num bando de criminosos dentro de um muquifo sórdido à espera do resgate, ou um remake vagabundo de Sem orquídeas para Miss Blandish, clássico noir dos anos quarenta. No plano maior da minha vida, começo a distinguir uma estranha simetria entre a maneira como conheci os pais dos meus filhos e o reencontro com Anna. São coincidências demais: a carteira esquecida na festa, o telefonema, a mesma cafeteria para devolvê-la, porém, ao invés do rancor de classe nutrido em divergências estéticas e frustração, minha amiga e produtora traz a solução cristalina ― dar cabo do antigo eu.
― Simples assim. Seqüestramos Alda Espinosa, e só vai existir Alda E de agora em diante, a sua personalidade musical solo. Não foi isso que te disse o Darrua?
― Foi. Fizemos uma parceria maravilhosa, eu e o Darrua. Você sabe como são os poetas, sempre têm esse pé, como dizer, lá do outro lado... Musiquei aqueles poemas divinos dele, daí ele quis porque quis jogar os búzios pra mim, divinar de verdade, e foi então que me chegou a mensagem: eu tinha que assumir o “ê”, que é um som de índio, e também um indicador de ligação.
― Muito legal essa coisa do “E” sem ponto, porque não é Alda E., não é questão de abreviatura, mas de abertura, associação. Você é a maior tecedora de laços, a pessoa mais generosa que conheço.
― Tenho oito irmãos, todos músicos. Eu sou a sétima, quase não nascia, tive o mal do simioto, demorei pra vingar. Vovó Alda morreu comigo ainda na barriga de mamãe, senão ia me chamar Lucina Mara. O irmão caçula só veio sete anos depois de mim.
― Uma oitava completa de irmãos musicais...
― É mais ainda, veja, na escala maior existem sete notas, mas não sete tônicas: duas são semi-tons, o mi e o si. A sétima nota, o si, é mais uma transição, uma preparação para o dó da oitava de cima, até porque não existe dó bemol. Sabe?, isso define a minha vida até aqui.
― Aí mora o problema: uma família de músicos, os Espinosa, fica difícil individualizar sua voz no meio deles. É um belo nome, filosófico e tudo, mas a verdade é que Espinosa tem dono.
― Hahaha, de Alda E ninguém é dono, nem herdeiros, nem gravadora!
― O que não te faltam são herdeiros musicais, Alda.
Anna tinha deixado o feijão fradinho de molho na véspera, descascou grão por grão tirando o olho preto, passou tudo na grelha mais fina do moedor de carne, bateu a massa do feijão até ficar bem leve e estourar todas as bolhas de ar, temperando com sal e cebola ralada. Enquanto punha no fogo a frigideira com azeite de dendê, deu uma espiada no panelão onde ferviam inhames pelados e com casca na água pura; com a colher de sopa jogou os bolinhos na fritura, e já começou a refogar noutra panela o dendê junto com o camarão seco, a cebola, o alho, o gengibre, a pimenta, mais uma pitada de sal. Terminou o molho do ipetê e do acarajé quase ao mesmo tempo que apurava o ponto do purê.
― Vixe mãe, Anna, que tanta cozinha, mulher?
― Ah, minha querida, nós não vamos chegar no terreiro de mão abanando. Você é filha de Iansã, não é?, então, cozinhei ipetê, acarajé e bobó de inhame. Ali, trouxe também champanhe, catinga de mulata, cordão de frade, gerânio rosa, açucena, rosas brancas e amarelas. Não vai faltar nenhuma das obrigações.
― Tá certo, Iansã pode se tornar muito ciumenta e vingativa, se eu não conseguir explicar direitinho... é tempestade, raio e facão! Espero que esteja nos conformes.
O terreiro de Mãe Magdalena das Pedreiras estava cheio na quarta feira à noite, a função já ia longe na madrugada quando a entidade decidiu que era hora de atender as demandas. As filhas de santo rodopiavam no salão, levantando o vento que traz a chuva para lavar a terra e semear a paz, o batuque seguia os cantos, as danças se sucediam, mas só ao amanhecer é que sua luz se manifestou por inteiro.
― Eparrei Oyá! ― Alda se ajoelhou, a orixá estava incorporada, o respeito era máximo.
― Minha filha voltou, é? Ou vai me renegar de novo que nem quando tu virou evangélica?
― Perdoa meus descaminhos, mãe.
― Oiá Funán, Adagangbará! Tá querendo o quê com essa mania de mudar de nome?
― Ee...
― Shiu, não me venha com mini-dramas, miligramas, essas lágrimas mundanas! Oiá não podia parir, mas alcançou depois de sacrificar um carneiro. Tu teve cinco filho, de três pai diferente, mas não devia, porque não tinha cabeça pra isso. Tu só namorou gato mimado, seus ex são desafinado.
― Pois é, sempre tive o dedo podre pra homem...
― Tem desespero não, fia, Oiá ganhou seus poderes dos amantes que teve: de Ogum ganhei nove filhos e o direito de usar a espada; de Oxaguiã, o escudo; de Oxóssi, a caça; com Exu, o poder do fogo e da magia; de Logum Edé, vieram os frutos d’água; só assosseguei com Xangô, que me trouxe o dom do encantamento, da justiça e dos raios. Único que não quis nada comigo foi Obaluaê.
― Minha Iansã, peço sua bênção, quero fazer minha música tocar no rádio, tocar na novela. Um pouco de grana e sucesso não fazem mal a ninguém, mãinha.
― Sucesso, sunssê diz?, com essas melodia e ritmo reguingado? Menina, Mãe Oyá ouvia canção de escravo muito antes de tu nascer, acha que eu não sei de onde vem a tensão e o movimento? Acha que eu nunca ouvi heavy metal? Ocê canta: “Vou dizer em sol, vou dizer em si, vou dizer em fá, o que vim fazer aqui”, e ainda quer povão no teu show? Tua corda tá é bem do amarrada na caçamba do Itamar!



domingo, 30 de março de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (#3)


Tomada por um branco total radiante, na posse precária de faculdades mentais em pleno apagão, dirigiu-se a ele caminhando firme para disfarçar o desconcerto. Anna fazia as desnecessárias apresentações quando aconteceu a bizarrice: uma moça que estava no saguão surtou e se atirou aos pés do Caetano, beijando-os, banhada em lágrimas. Foi aquele constrange geral, teoricamente, ali não devia ter ‘bicos’. Ninguém sabia de onde ela tinha vindo. Alda agradeceu ao Pai do Céu que alguém pagou o mico, porque a moça fez exatamente o que ela mesma esteve prestes a fazer.
            ― Caetano... Caetano...
            ― Fale, Alda, que foi que te deu?
            ― É que, eu tô aqui falando merda sem parar, tô tendo um ataque de falação e não consigo conversar com você.
            ― Normal, isso também me aconteceu quando entrevistei o Mick Jaegger.
            ― Tudo que eu não queria é que você me visse como a velha louca e esquisita que sou... e agora me pego tagarelando sem parar do canteiro de ervas de poder lá da minha casa!
            ― Olhe, mais importante do que tudo isso é a fruição da imensa grandeza de sua música, suas parcerias, a generosidade deste show... a grande beleza é coisa que paira acima da guerra de idéias e egos.
            ― Ah, como gostaria que o Beleléu estivesse aqui...
            ― Hum, o Nego Dito, é verdade. Personalidade artística rebelde, sempre me impressionou esse modelo. O samba, por intermédio de seus gênios, é a afirmação de um poder de outra natureza.
            ― Disseram que você não vinha, que tava viajando...
            ― Estava sim, cheguei agorinha. Sempre que dá, passo na Bahia as duas festas do 2 de fevereiro: o presente de Iemanjá no Rio Vermelho, e o encerramento da festa da Purificação em Santo Amaro. Minha casa é no Rio Vermelho, conhece não?, da varanda dá para ver os barcos que se arrumam em frente à igreja de Santana e partem para o local em alto-mar onde o presente será jogado, não sem antes virem margeando a costa para virarem em ângulo reto em direção ao horizonte; digo vêm, porque é justamente à frente da minha varanda que eles mudam de rumo. Antigamente eram sobretudo velas que coalhavam o mar, hoje são lanchas e escunas, todas brancas, a exceção sendo a grande embarcação cinzenta da Capitania dos Portos. Fazendo espuma e deixando rastro, todas seguem o saveirinho que leva o presente. A igreja da Purificação em Santo Amaro é uma jóia barroca, adoro os azulejos, o teto pintado, as pessoas religiosas do Recôncavo. Mas fico intoxicado de beleza é na praça: o parque de diversões cheio de crianças, o chafariz apinhado de grupos de samba de roda, de burrinha, de bumba-meu-boi, sobretudo as pessoas conversando nos bancos, nos passeios, nas alamedas. Minha gente.
            ― Caê do céu, você fala a língua dos anjos, abre a boca e as palavras vêm direitinho cair no lugar certo. Isso é tão difícil, criatura!
            ― Deixe de bestagem, menina, nem tudo que reluz é puro, nem tudo que é ouro brilha, mas tudo que brilha pode cegar.
            ― Viu só? Já tenho vontade de anotar o que cê disse e fazer uma música.
            ― Então, quando alguém já tem esse privilégio de tocar um instrumento, vai querer mais o quê? Acho que você pede da arte o que ela não pode lhe dar, considere, a poesia se paga com a vida, e nada mais. Glória, aclamação, reconhecimento, são bilhetes da loteria dos trouxas, já vivi demais para acreditar em falsos brilhantes.
            ― Ai, mas será que não existe alguma outra coisa? Vou ficar, assim, sempre de alma arregaçada, com os nervos feito fio desencapado, sempre o mesmo coração cata-vento girando no vendaval?
            ― A beleza é um país estrangeiro, no qual reconhecemos, tão logo o visitamos pela primeira vez, a pátria perdida de onde nunca deveríamos ter saído. Isto para mim é a Bahia, princípio e fim de tudo que faço.
            ― Sim, você tem a Bahia, sempre vai ter. Mas, e eu, que saí novinha do Mato Grosso? Não tenho pra onde voltar, sou urbana, confusa como a vida que levo.
            ― O importante é saber se situar dentro de uma linha evolutiva. Como eu: o tropicalismo é a conseqüência necessária da música que vem de Caymmi e passa por João Gilberto, na minha imodesta opinião, é o próprio processo de internacionalização da música brasileira. Sossegue, você também tem seu lugar num certo desenvolvimento destas linhas de força.
            ― É tão duro poetar com os boletos atrasados, os cachês de fome, a casa cheia de filhos, os perhaps da vidinha.
            ― Esqueça, se você não tem o Recôncavo, tem São Paulo: prédios feios e crack, violência e vulgaridade. Sua única amiga é a música. Um adulto criativo é uma criança que sobreviveu. Não devem ser muitas as que conseguem, a julgar pelo escasso número de adultos no mundo. A vida não é para qualquer um (a arte sim), ela é um rio largo, informe, e sempre pode acontecer de nos tornarmos quem mais temíamos.
            ― Só uma última coisinha, sei que cê não pode ficar muito, como é que você faz isso?
            ― Isso, o quê?
            ― Esse truque: seus pés não tocam o chão, Caetano.
            ― Ah, é uma coisa que aprendi há muito tempo, vivo a dois centímetros do chão real das coisas. Levitação discreta. Permite que eu acompanhe a topografia da realidade, mas com um certo descolamento crítico, um surf ontológico. Ninguém percebe, aposto com você que a moça que acabou de beijar meus pés não se ligou.


as melhores coisas do mundo não são coisas




sonho de desejo
objeto de consumo
nem tudo que reluz
é puro
nem tudo que é ouro
brilha
mas tudo que brilha
ofusca



sábado, 29 de março de 2014

o rio ávido da vida



e se as pontes fossem abraços
enredo de cipós e rama
e seiva
suspensos cabos pilastras
tomadas de trepadeiras mato
e mais nada?

e se as avenidas fossem risíveis
rios de capim santo
margaridas leitos transbordando
tulipas
a rebeldia líquida
da flor?

e se os edifícios fossem gigantes
com folhas e galhos
assustados metros quadrados
playgrounds no asfalto amarelo
ou jardins?

e se nós
a bolha a moda
a média o urgente
dólar e a bolsa
explodíssemos em sinfonias
de trânsito
templo ao tempo
perdido?

quarta-feira, 26 de março de 2014

UM CALENDÁRIO DOS MORTOS
















Lá fora era domingo, e o mundo resplandecia de sol e ingênua alegria.
As pessoas davam mil voltas na praça, ausentes e distraídas, feito peixes num aquário. Uns liam o jornal, outros falavam ao telefone, ninguém se olhava nos olhos.  Povo besta!

Sentada na beira da cama,  arredou uma mecha de cabelo da testa,  pensando noutro domingo, outro quarto e outra vida. Bem diferente daquela, vida com gosto de vida, vida  com cheiro de vida.

Na beira da cama, meditou sobre o quanto já tinha navegado através dos igarapés e dos igapós do amor, e nas muitas vezes que já tinha se perdido e corrigido a rota. Muitas vezes. Muitas vezes...

Na beira da cama, pensou que nunca tinha vivido um Amor, com "A" maiúsculo. Um amor grande e escandaloso, daqueles que nunca se acabam ou que, quando acabam, costumam deixar cicatrizes, patrimônio, bens imóveis, móveis e semoventes, descendência, herdeiros necessários e legatários...

Pensou, na beira da cama,  que sempre vivera somente aquele amor efêmero e indecente de escambo, que nada deixa senão a marca ensebadinha de digitais na borda da alma.

Lembrou  que tinha pertencido, pelo menos em tese, a vários homens. Dos quais, todos mortos: era, então, a ex- amante dos mortos. Mortos recentes e mortos antigos, que quando muito ficam vivos na lembrança dos vivos, assombrando as esquinas vazias da memória e entristecendo os domingos, sem querer ir embora de vez.

Da beira da cama, olhou a folhinha amarelada na parede amarelada, que dizia que já era domingo, mas ela sabia que precisava ser paciente, precisava saber esperar, pois os mortos sempre se atrasam .



foto: "Mulher Nua" - Carybé

(CASOS LIGEIROS 17/01/2009)

sábado, 22 de março de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (#2)




            Noite de lançamento do novo disco, a sala de espetáculos lotada, alto verão no Rio de Janeiro. Na platéia, políticos, artistas, amigos e personalidades trocam abraços, sorrisos, posam para selfies. Se a longa carreira de Alda Espinosa não lhe valera sucesso popular nem estabilidade financeira, ficava patente que ao menos obtivera o reconhecimento de uma geração: a apoteose merecida e tardia de uma artista completa. Todos ali tinham vindo testemunhar seu carinho à compositora de tantas canções fundamentais da trilha sonora de suas vidas.
            Ela falava diretamente ao tempo, e como Nana Caymmi, podia responder que se ele aprisiona, eu liberto, que o tempo adormece as paixões, eu desperto. Alda podia até esquecer, mas já não seria esquecida. Pela primeira vez ela tinha uma produtora ninja, Anna negociara tudo: captação de recursos, gravação, mixagem, shows, entrevistas para rádio e televisão, notas em colunas especializadas, canções gravadas por artistas consagrados, etc.. Anna, uma dessas amigas que pareciam ter nascido no seu jardim, um ser elemental, poesia e pragmatismo; Alda e Anna, uma parceria genial e óbvia.
            ― Um, dois... um, dois, três...
            A bateria e o baixo entraram, logo a seguir, as guitarras. A voz esperava na garganta da cantora, pausada, traindo a vacilação de não ser nada, nem sequer música, apenas um esforço de som. Por um momento deu a impressão de uma máquina posta em marcha após milênios de inatividade, como se atravessasse toda a história para ser ouvida. Para fazer música não são necessários instrumentos, intérpretes, partituras, teoria, teatro, público... a única coisa realmente necessária é a música. O auditório captou o mistério de pronto: era uma oferenda, um regalo de arte e uma mensagem. Sobretudo uma mensagem. Não se tratava do pop redondinho do rádio, havia ali melodias sofisticadas, pouco óbvias, toda uma região de ritmos distante do muzak dos elevadores e pegpagues da vida. A harmonia parecia combater a si mesma, num afã insensato de exprimir-se, de dizer coisas estranhas, nunca ditas antes, e essa vontade se disseminava além do razoável. Todo mundo sabe que há coisas que não podem ser ditas com palavras, o que ninguém sabe é quais coisas são essas. Havia invenção e risco nas divisões, aparições e sumiços na clara obscuridade do palco, os amplificadores funcionavam como a caixa preta surrealista: de um lado, entrava o inesperado, do outro, surgia qualquer coisa. As frases se repetiam segundo a casualidade do metro, cadências e células rítmicas avançavam independentes, criando séries abertas como as coleções de selos. Excessivo esforço se despendia para lograr um efeito minúsculo, o menor e mais significativo de todos: a comunicação. As diversas unidades e medidas se recuperavam no artístico do gesto, no meio da levada dançante pressentia-se uma dinâmica de intenções, que ora se economizavam voltando-se sobre si próprias, ora se transmutavam em pura emissão de energia. A forma que tomava este mecanismo de excesso-carência autoconstituía sua expressão vital, mas tudo isto ainda era apenas preliminar à canção, a concertista, de olhos fechados, tateava delicadamente os contornos de um continente desconhecido.
            O público aplaudiu de pé por dez minutos ao final do segundo bis.
            Alda ainda se recuperava no camarim quando Anna confirmou que ele tinha vindo. Aquele momento de se livrar da pele que usava no palco parecia-lhe o despertar de um sono de pedra; sempre se perguntava, enquanto reassumia os pensamentos, a postura e a voz da sua persona comum, como é que se acaba por voltar à mesma identidade entre tantas possíveis.
            Entrou em choque, lá fora, em pessoa, aguardava Caetano Veloso.