sábado, 20 de junho de 2015

levei um murro na cara





tem um furo no muro
do real

havia beleza no travesti espancado
por policiais
militares

os lobos solitários são os novos anjos
do terrorismo aleatório

cevamos abutres com os cadáveres
das caras
ilusões

a violência brinca com as crianças
nas UPPs campos
de refugiados

modernos caças bombardeiam balsas
de imigrantes

drones explodem famílias árabes
danos colaterais

metade das pessoas nos países ricos
nunca vai ter
nada

a maioria das pessoas nos países pobres
não são pessoas

o assassino rezou antes de abrir fogo
na igreja


quarta-feira, 17 de junho de 2015

notícias



ontem
uma menina apedrejada na saída do culto
de candomblé

amanhã
proíbem o sal na mesa
do bar

hoje
Sarney paira sobre o Planalto e a Esplanada
com uma lista de apadrinhados
no bolso (naro)

anteontem
menina estuprada obrigada a suportar
pedra de 10 Kg sobre a cabeça
“purificação”

dentro em breve
no Shopping Câmara você usará o aplicativo
evangélico de compras mobile
em Cristo

ainda agora
4 meninas aprisionadas estupradas coletivamente
jogadas do alto da ribanceira

um mês atrás
subcelebridade diz que engravidou de um
desconhecido e conheceu o amor da vida
na mesma noite

outro dia
quer comprar a Ferrari do Mayweather?
custa R$ 11,5 milhões

e então a pergunta:
mas onde estávamos nesse tempo todo?



domingo, 14 de junho de 2015

Reality (3)




INT. SALA DO PSICANALISTA. NOITE.

Fumaça de charuto flutua na frente do retrato de Freud na parede.

PSICANALISTA
Você está se deixando levar pela narrativa standard do amor romântico: entre bilhões de humanos, só aquela pessoa me completa. A humanidade passou sem isso uns bons milênios.

CAUBÓI DO BBB
Vou fazer o quê?, é assim que eu sinto... Doutor, nunca me perdoarei ter deixado escapar minha metade da laranja.

PSICANALISTA
Idealizações narcísicas, meu caro. Boa parte desse seu amor obsessivo está turbinado pela culpa. São resquícios da sua ética cristã que o levam a se punir por ter fama e sucesso.

CAUBÓI DO BBB
Pois é aí que a porca tá torcendo o rabo, a fama vai passar logo, que eu já sei. Mas o pior é que só fiz merda com a grana do reality: emprestei pra amigo, investi em ações podres, quebrei numa sociedade em posto de gasolina, fora que a Receita Federal tá me cobrando uma bala.

PSICANALISTA
Ok, talvez esteja imaginando que, ao voltar a ser pobre, você reconquistará o coração enternecido da Gostosa do BBB. Pode até funcionar como enredo de novela, mas acontece que na vida real as mulheres interessantes tendem a fazer escolhas inteligentes...

CAUBÓI DO BBB
Então, doutor, acontece que tem me vindo cada vez mais esse pensamento louco: se eu me matar numa das 2 vidas que tô levando, quem sabe assim não fico com uma opção só e sossego?

PSICANALISTA
Bom, aí você executaria o desfecho clássico, morrer por amor, e seria o talk of the town por uma semana. Um pouco de barulho, e depois, silêncio eterno.

Pausa

PSICANALISTA
Ficamos por aqui hoje. Você tem que me pagar à vista, sou lacaniano.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

os trouxas




Só os otários são felizes
felizes de tão trouxas
trouxas, porém espertos
malandros
sabem levar vantagem em tudo
certo?
Não sabiam de nada
não viram nada
até que tudo aconteceu
mas tudo também logo passa
porque passa tudo afinal
e não deixa memória
(os trouxas não lembram)
A história deles é uma fiada de
simulacros & patranhas & engodos
os tolos enganam a todos
a começar por si mesmos
por isso é que basbaques brilham
nos talk shows reuniões
de condomínio
São adulados, reconhecidos, apontados
nas efemérides e principais comemorações
Grandessíssimos papalvos conduzem
a nação a falação a oração
a discurseira
Neocons ensinam o credo a novíssimos
kaiovás
aos órfãos da Ritalina e aos judeus
da Palestina
Os néscios estouram de amor-próprio
embriagados de patriotismo
autocomplacente
desencapetam bandidos, curam invertidos
arrotam pra nos calar
pois tudo só faz melhorar
(e já foi bem pior)
Dizem
e se os fatos desmentem as palavras
promovem vastas faxinas étnicas, reformas
ortográficas
Amam sobretudo armas, uniformes, raças
ordem, morte, submissão
os trouxas dominaram o mundo
e talvez nem sejam tão felizes assim:
eles nunca páram


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Reality (3)




INT. SALA DO MÉDIUM. NOITE

Caubói do BBB brinca com os címbalos budistas.

PAI SERAFIM
Deixa isso quieto menino, tu faz a maior bagunça no meu congá. Fez como eu te disse, abriu as sete portas?

CAUBÓI DO BBB
Desculpa dizer, mas foi zica catar dois pombos, inda bem que quem arrancou o coração deles foram seus filhos. Levei o ebó 7 noites a 7 encruzilhadas, daí rezei e acendi as velas.

PAI SERAFIM
Salve Pomba-Gira, Maria Padilha das 7 encruzilhadas, agora gira, vai mulher girar ao meu favor, pelos 7 nós da sua saia, pelos 7 guizos da sua roupa, que assim seja pelos poderes da terra, pela presença do fogo, pela inspiração do ar, pelas virtudes da água, invoco as 13 almas benditas pela força dos corações sagrados e das lágrimas derramadas por amor, peço que sua proteção e amparo estejam sempre no meu caminho e do Caubói.

Caubói do BBB guarda os címbalos no bolso, deixa cair um cartão no chão.

PAI SERAFIM
Que é que te deu, fio? Bateu o calundu? Desembucha tudo, esconde nada do Pai Serafim.

CAUBÓI DO BBB
É que, na real meu pai, minha batata tá assando grandão. Fiquei sabendo que a Ambev tá oferecendo uma baba pra ela fazer comercial de cerveja.

PAI SERAFIM
E daí? A Gostosa do BBB só vai ficar com mais dinheiro na caixinha.

CAUBÓI DO BBB
O pai sabe como é este mundo: no que essa mulher aparecer na propaganda de cerveja, começa o leilão de milionário querendo comer ela!

Luzes abaixam. Gostosa do BBB aparece iluminada dançando com uma garrafa de cerveja na mão. Ela desaparece, luzes voltam.

PAI SERAFIM
Fica piano, que o feitiço é de responsa. O causo é que tu abriu 7 portais, em cada um havia um destino, mas tu escolheu só aquele da noite quando pingou o sebo da vela nos corações amarrados. Tanto tu pode ter ela por 7 anos, 21, como por esta encarnação inteira, e até pelas outras, mas em 3 dos casos tu não fica com ela. A gente tem muita coisa que não alcança.

CAUBÓI DO BBB
O que mata é essa incerteza...

Pai Serafim vira uma carta de tarô.

INSERT: carta do tarô, o Louco.

Pai Serafim dá uma baforada de charuto para o alto.


domingo, 7 de junho de 2015

Reality (2)




INT. SALA DO PSICANALISTA. NOITE.

Caubói do BBB vestido a caráter aparece no olho mágico da porta do PSICANALISTA (45), este abre a porta, indica-lhe o divã e senta na poltrona.

INSERT TÍTULO: O Psicanalista

CAUBÓI DO BBB
Tive aquele sonho de novo: eu encontrava ela, corria, mas a terra se abria separando a gente.

PSICANALISTA (V.O.)
Tudo que repete, insiste, e se insiste é porque o seu inconsciente não está sendo escutado.

CAUBÓI DO BBB
Se arrependimento matasse! Ganhei a final do Big Brother, e perdi a mina, sacaneei ela pela bufunfa.

PSICANALISTA (V.O.)
É uma situação clássica: tão logo nosso maior sonho se torna realidade, percebemos que o desejo se moveu mais pra diante.

Caubói do BBB senta-se no divã e encara o Psicanalista.

CAUBÓI DO BBB
O senhor não tá entendendo doutor, eu tô obcecado por essa mulher. Vejo ela em todos os lugares, o tempo todo. É um pesadelo.

Luzes diminuem, aparece iluminada apenas GOSTOSA DO BBB (25) sambando. Ela desaparece quando as luzes voltam.

PSICANALISTA
Acho que seria interessante examinarmos aquelas suas fantasias de estar levando uma vida dupla...

CAUBÓI DO BBB
É como se tudo girasse em torno de buceta e grana: numa vida sou o ex-BBB milionário passando o rodo na mulherada, menos uma, na outra, sou o namorado candidato a corno da popozuda rica. Numa realidade vou ao psicanalista, na realidade paralela, ao pai de santo.

PSICANALISTA
Trata-se de uma fantasia compensatória, por meio dela você regride ao ponto anterior à sua escolha: você tem e não tem a mina, assim como tem e não tem a grana.

CAUBÓI DO BBB
O problema é não ter a opção que junta a picanha com o cacau...

Caubói do BBB tira do bolso um par de címbalos budistas.

INSERT: mão do Caubói com o instrumento. SOM METÁLICO.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Reality (1)



BLACKOUT

INT. SALA DO PSICANALISTA. NOITE.

Aos poucos aparece a moldura de uma porta com olho mágico, a porta abre. SOM DE PORTA ABRINDO. Surge a silhueta de CAUBÓI DO BBB (35) vestido a caráter na contraluz.

BLACKOUT

INT. SALA DO MÉDIUM. NOITE.

A porta se abre, SOM DE PORTA ABRINDO, Caubói do BBB aparece vestindo bermuda, camiseta e sandálias. SOM DE CHUVA.

INSERT TÍTULO: Pai Serafim

INT. SALA DO MÉDIUM. NOITE.
Sala de consulta espiritual, com duas cadeiras, mesa, jogo de búzios e tarô. PAI SERAFIM (40) joga os búzios e entrega o baralho a Caubói do BBB que traz uma sacola. Sentam.

CAUBÓI DO BBB
Fiz toda a obrigação que o pai pediu: joguei o nome dela no mel, acendi incenso, passei perfume. Tão aqui as velas, o espelho, a faca virgem e a linha preta.

PAI SERAFIM
Eparrê, meu filho. Tá ciente de que o serviço é forte, né? A moça vai ficar amarrada, por 7 anos ela só vai ter olhos pra você.

CAUBÓI DO BBB
Assim seja, meu pai, até porque não tenho escolha: a mina ganhou o reality show, tá montada na onça, hora de dar o bote é agora.

PAI SERAFIM
Hmm, mais valia o Caubói laçar essa cabrita na surra de pica, piroca é um santo remédio nesses casos. Tira as cartas.

Caubói do BBB tira cartas e as passa a Pai Serafim que vira uma para cima.

PAI SERAFIM
Saiu a carta do Mago, bom, representa o guia que abre os caminhos do coração da donzela, ele traz o Cálice da Sorte no amor.

Caubói do BBB tira objetos da sacola, amarra a vela vermelha na branca, acende-as, pega um espelhinho.

CAUBÓI DO BBB
Prezado criador pai Olorum, peço a vossa permissão. Salve todas as Pombas-Giras, saravá. Senhora do mistério, do estímulo, da vontade e das emoções, rogo e suplico nunca mais me ver sozinho neste espelho.


INSERT: rosto de Caubói do BBB no espelhinho redondo.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Antimonotonia


INT. COZINHA. DIA.

HOMEM (35) sentado à mesa da cozinha toma café e checa mensagens no celular, MULHER (35) entra, serve-se e senta em frente a ele pendurando a bolsa na cadeira.

MULHER
Bom dia. Hmm, esse café tá forte...

HOMEM
É, saiu forte mesmo.

Pausa.

HOMEM
Você já está indo?

MULHER
Sim, quer que te deixe no metrô?

HOMEM
Não precisa, hoje tenho carona.

MULHER se levanta, pega a bolsa e prepara-se para sair, olha para o HOMEM, que não tira os olhos do celular. Escreve uma mensagem no seu telefone e sai.

HOMEM
Era o que me faltava, draminha logo pela manhã!

INSERT: mensagem na tela: “Já sei de tudo. Nunca imaginei que as coisas chegassem neste ponto, fiz o que pude por nós. Estou farta, não agüento mais.”

HOMEM levanta-se, anda pela cozinha enquanto liga para a AMANTE (30).

HOMEM
Oi amor, ela acabou de sair. Deixou a mensagem que te encaminhei no zap.

AMANTE (V.O.)
Sim, eu li. Fica frio, estou chegando.

MULHER entra na cozinha, larga a bolsa na cadeira. Pega o celular da mão do HOMEM.

MULHER
Escuta aqui, você não tem vergonha, sua vadia?

AMANTE (V.O.)
Calma, estou a caminho daí. Vamos conversar como adultos.

MULHER desliga o telefone, atira-o sobre a mesa.

MULHER
Vocês já nem disfarçam mais! Não conseguem ficar um minuto sem...?

HOMEM
Nossa, você tá muito pálida. Está se sentindo bem?

MULHER
Tô zoada, virada no Jiraia. Sabe?, vocês me dão nojo.

MULHER sai da cozinha com as mãos na boca. SOM DE INTERFONE. HOMEM aciona a abertura do portão. SOM DE PORTÃO E DE PASSOS SE APROXIMANDO. AMANTE entra.

AMANTE
Cadê ela?

HOMEM
Tá no banheiro, vomitando. Vai ser uma cena daquelas.

AMANTE
Sabe que isso pode não ser de todo mau? Digo, pra nós.

HOMEM
Você não conhece a peça. Ela vai fazer um fuá, divórcio litigioso, escândalo...

AMANTE
Deixa tudo comigo, fica suave. Shiu, ela tá voltando.

MULHER entra, está despenteada, senta-se numa cadeira, tenta tomar o café. Cospe o café.

MULHER
Olha só que reunião mais fofa: uma corna, uma piranha, e um traíra!

HOMEM
Vamos tentar fazer isto da melhor maneira possível, ok?

AMANTE
Vou fazer um chá, todos estamos precisando.

AMANTE dirige-se ao armário, pega chaleira, enche de água, liga o fogão. Traz mais uma cadeira para a mesa e a bandeja com 3 xícaras. Tomam o chá sentados e em silêncio.

MULHER
Acho que tô pior ainda, que porra de chá é esse?

AMANTE
Cidreira, com uma pitadinha de veneno antimonotonia...

HOMEM
Veneno? Cê tá brincando?!

MULHER escorrega da cadeira, agarrando-se ao tampo da mesa, cai arrastando as xícaras. Agoniza no chão.

HOMEM
Não, você não foi capaz de, de...

MULHER
Fui sim, porque se fosse esperar você tomar uma atitude, tava frita.

HOMEM
Vou chamar o Samu, isso fode tudo!

AMANTE
Pensa um pouco: o formicida, a mensagem que parece um adeus...

HOMEM
Desconhecia esse seu lado.

AMANTE
Vem conhecer esse lado, agora.


AMANTE desabotoa o decote, tira os sapatos e deixa a cozinha.

terça-feira, 21 de abril de 2015

República Federativa do Brasil para Cristo (3)


Fiquei com aquilo dentro, música ruminante de entranhas e miolos por todo o resto do dia, e como havia um domingo a preencher agora que tinha ido, mais sentia se alongarem o exílio e a preguiça. Queria, precisava, daquela mulher, da maneira como sabia ouvir os meus silêncios e os traduzir sem que eu tivesse explicado nada, quase sem ter merecido a estrela que guiava nossos encontros com jeito de despedida. The Lady Vanishes, mais uma vez, garçom.
Se o que ela dizia fosse perto do razoável, eu estaria vivendo dentro de uma Matrix das Organizações Tabajara, um Truman Show com ares de Chacrinha no qual o patropi fabricava a última tendência ideológica da Sereníssima República para a Glória do Poder de Cristo. Banânia, o samba-exaltação de uma Kakânia pós-moderna e tropical, grande nação consumidora de drogas, sangue e Deus.
Apressei a toalete matinal, estava na hora da sessão solene em homenagem aos setenta e cinco anos da morte do poeta. Meu pai faria um dos discursos que abriam o mês de trabalho dos Grandes Epoptas, sentia-me na obrigação de prestigiá-lo de tanto que havia insistido na minha presença pra compor a família margarina. A ocasião era especial, mas a reunião da Cabala rapidamente degenerou em grossa pancadaria ideológica. O assunto, pra variar, fugiu da pauta artística pra cair na seara cáustica das contendas políticas: papai fazia o seu número favorito.
“Venerandos, venais e venéreos Prebostes, Láutons e Arquimandritas, estamos em um limiar da história nacional, somos chamados a assumir a responsabilidade à qual a rua nos conclama e dizer em alto e bom som que eis realizado o fim do presidencialismo de coalizão, raiz de todos os males da governabilidade de nossa pátria. O populismo, excelências, morreu de inanição.”
(Aplausos, aplausos)
“O país pede mais ousadia, mais vigor e empreendedorismo, além de lideranças ilibadas...”
(Nesse momento grita um popular das galerias)
“Mas o senhor está diretamente indiciado no escândalo da venda de indulgências fiscais!!”
(O baderneiro é rapidamente imobilizado por três seguranças que se revezam chutando sua cabeça no chão por alguns minutos)
“Claro, aproveitamos o resultado da boa colheita, sucessivos governos enfraquecidos pela recessão mundial nos permitiram revolucionar os costumes da nossa vida política: flexibilização das leis trabalhistas, liberdade total ao mercado, aumento das despesas de custeio e de representação pra deputados e juízes, além da reforma política que conjurou de vez o fantasma da participação popular direta em nossas terras. E tudo isto foi obra da fé, da fortaleza moral e ética que encontramos nas Sagradas Escrituras...”
“Discordo, ínclito apóstolo, o que vocês instalaram foi a versão 2.0 do velho parlamentarismo de espoliação, a religião provou ser apenas mais uma doutrina autoritária na política. Vocês pegaram foi o Brasil pra Cristo, isso sim.”
(O Gardingo questionou sem pedir licença ao orador, ouviram-se gritos de outros congregados)
“Respeite esta Casa!”
“Lembremos ao povo o caos que espreitava nosso país: corrupção galopante, mídia sem controle, Bolsa-bandido, famílias destroçadas, o Estado tem a obrigação de informar ao cidadão o conceito de família, a ditadura gay havia atingido até as nossas novelas do horário nobre, gays, dulcíssimos milenários, queriam ter os mesmos direitos que nós...”
“Direitos humanos só pra humanos direitos, como consta na Lei Bolsonaro!”
“O sangue de Jesus tem poder!”
“Sai, Satanás!”
(Desmaios, fortes aplausos, choro de comoção no plenário. Deputados se aparteiam fora do controle do mesário)
“Vemos aqui o nosso Preclaro Apedeuta, defensor da vida, pastor de almas e currais eleitorais, ombudsman da moral alheia, que tem a desfaçatez de invocar rancorosos anátemas sobre grupos ameaçados nos seus sermões televisivos. Acaso terá se informado acerca da violência a que estão submetidos homossexuais, transexuais e praticantes de cultos afrobrasileiros em nosso meio?”
“O comércio com espíritos, a feitiçaria, são as marcas do atraso que tanto pesa nos ombros do povo, uma vez que o sacrifício do Cristo nos resgatou da idolatria e do pecado original todo sacrifício doravante tornou-se pura crueldade. O caminho, a verdade e a vida só existem em Cristo, fora dele o que há é o império das drogas, da libertinagem, a vadiagem e a desagregação familiar.”
“Mas não se trata, então, de uma religião do amor universal, a tudo e a todos, como pode caber tanto ódio ao que é diferente? Por nada do que está à sua volta o senhor se sente responsável? A Bíblia tornou-se praticamente a nossa Constituição, cada parábola virou jurisprudência, e ainda assim o país não pára de bater recordes de violência, corrupção e ineficiência. Não será o caso de confessarmos a nós mesmos que pegamos o atalho errado da história?”
“Vossa excelência, Tiufado do partido da Diversidade, é que vem levantar a bandeira do decoro parlamentar? Qual é a noção de decoro de uma agremiação que mais parece uma nave louca de ecochatos, viados, aborteiras, comunistas e aberrações de circo?”
Neste momento irrompeu um protesto vindo das galerias superiores da Câmara, um grupo de índios protestava pela anexação de uma reserva pelo avanço da fronteira do agrobusiness. Desta vez a resposta veio mais rápida e enérgica. Um grupo de seguranças fortemente armado postou-se ao redor da mesa diretora e abriu fogo de metralhadora na direção dos manifestantes. A matança foi indiscriminada, sobreviventes se esgueiravam por baixo dos cadáveres de velhos, mulheres e crianças na direção da saída, apenas pra encontrá-la bloqueada.
Todos se atiraram instintivamente ao chão. No meio da enorme confusão estabelecida, senti alguém me puxando pelo braço. Era ela.
“Vem comigo, tem uma coisa que eu quero que você veja.”


domingo, 12 de abril de 2015

República Federativa do Brasil para Cristo (2)



            Vestiu-se, toda a linguagem corporal anunciava a partida.
            “Vai assim, sem marcar uma ponta, nem pra deixar um contato...”
            “Por que eu deveria correr riscos? Se você me dedurar à polícia de costumes os bíblias me mandam pra fogueira. Pensa um pouco: uma pedra cumprimenta uma tora de madeira, que horas são?”
            “Cinco da matina, você tá sonhando.”
            “Oito.”
            “Por quê?”
            “Oi tora.”
            Saiu do quarto andando felina, no batente da porta voltou o rosto pra me olhar fazendo climinha drama queen como se fosse esta noche a última vez. Havia um tegumento de hipocrisia bufona a recobrir toda a cena, mas não me atrevia a desafiar o quebrante com alguma cagada que pudesse sair pelo lado oposto do cu.
            “Tem mesmo que ser desse jeito?”
            “Somos de mundos diferentes, não podemos fazer nada quanto a isso. Você sabe, sou bruxa, doutorada nas mandingas do Satanás e seus asseclas, melhor se afastar das hostes do Inimigo, meu bem.”
            “Bah, tá me tirando por bem pouco se acha que boto fé nessas histórias do Tutu Marambá...”
            “Sou a sétima filha, aquela que a irmã mais velha recusou batizar, em noite de lua nova, viro coruja e morcego pra vir voando chupar o sangue das crianças que não querem dormir”, e ria, como se fosse a louca que deveras era.
            “E se a gente casasse? Daí ninguém nos incomodaria, você chega sóbria e sai sombria, desocupa dentro de mim espaços infinitos, fala como se acabasse o tempo... e vai embora?!”
            “Nem a pau, Juvenal! Deixo a liberdade vigiada nas ruas e o preconceito das vizinhas, pra cair na frigideira de um pater famílias? Muito obrigado por querer me salvar da solteirice, prefiro não ser respeitável.”
            Fiquei assistindo-a da janela indo embora pela rua vazia domingueira seguida pelo cortejo mais alucinante de tabaréus que já tinha visto. Acompanhando a mulher amada ia um mundão de gente e gado que até dava gostosura de ver: Bastião, Arlequim, Catirina, Capitão Boca-Mole, de misturada com o Caipora, Babau, Jaraguá, Morto-Carregando-o-Vivo, Turtuqué, Pastorinha, Caboclos-de-Fita, Cazumbá, Caboclos-de Pena, e, por fim, a Burrinha, a ema, a cabra, o boi, o cavalo-marinho, agitavam seus maracás junto das “fremosas” coureiras soprando apitos e batucando tambores de fogo, matracas, zabumbas, pandeirões, fazendo urrar o tambor de onça. O mais gozado é que só eu parecia estranhar aquela charanga de hospício a evoluir pelo bairro num fuzuê desembestado que ofendia a celebração dos cultos regulares.
            Era muita coragem se expor assim nos tempos atuais.
As coisas haviam mudado muito no Brasil em pouco tempo, ou talvez estivessem iguais ao que sempre foram e apenas nunca tivéssemos prestado a devida atenção aos acontecimentos antes de se cristalizarem na realidade dos fatos. De segunda maior democracia do mundo havíamos transitado a uma mal disfarçada teocracia de indisfarçável feitio autoritário. Tudo começara com um deputado evangélico que propôs a emenda constitucional pela qual nossa Carta Magna passou a exibir em seu parágrafo inicial: “Todo poder emana de Deus”. Depois foram as revisões nos códigos jurídicos, começaram banindo o aborto, mesmo de fetos anencefálicos ou frutos de estupro, então veio o fim da maioridade penal, a pena de morte, a proibição do homossexualismo e do sexo fora do casamento religioso, além da definição de família como unidade indissolúvel constituída por homem, mulher e filhos biológicos.
O que antigamente chamávamos de esquerda a tudo isto assistiu catatônica e mais preocupada em manter seus feudos políticos e acadêmicos, enquanto se defendia árdua e custosamente das suas muitas pendências com a justiça. Lideranças outrora consideradas progressistas haviam dissipado seu capital moral em sucessivos governos desastrosos e corruptos consorciando-se, no plano nacional, ao crime organizado, ao grande capital rentista, às milícias missionárias e ao exército, enquanto no plano internacional nos mantínhamos firmes no irrelevante papel de narcoestado exportador de matérias primas.
O fracasso não assumido do modelo brasileiro ― um peculiar capitalismo patrimonialista de Estado ―, cozinhou em fogo baixo as expectativas da nação, a capacidade de inovar, de sustentar uma agenda criativa e socialmente igualitária, degenerando num ambiente hostil onde predominava a sensação de desperdício de oportunidades, se multiplicavam as gerações perdidas, adiando pras calendas a construção do futuro. Em cada esquina um templo e uma biqueira: Deus, drogas e armas. A turma BBB (banco, bala e bíblia) caçava abertamente os PPPs (pretos, pobres e periféricos), e ainda sobrava diversão pra cima de gays, lésbicas, transgêneros, espíritas, umbandistas e mulheres.
Chegamos ao futuro, e o futuro tem cada vez mais a nossa cara. Os donos do dinheiro transnacional olham com benevolência crescente os experimentos neo-autoritários da antiga periferia do mundo: Brasil, Rússia, China, Índia, Irã, países ainda mais complacentes ao jogo bruto do capital desregulamentado do que as velhas democracias representativas.
Ela desapareceu no horizonte.