quinta-feira, 1 de outubro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
um Vietnã e meio por ano

na correria, crescendo, matando
e são filhos meus seus nossos
os carros são furiosos e velozes
Malcolm X, gandola, tênis de basquete
DJ no prato, puxa o sample, faz o scratch
Wu-Tang Clan, Marvin Gaye, 2Pac, Sabotage
CGezinha, 765, AK
47
as meninas viram top
models, poetas
mulher-placa, vampiras lésbicas, operadoras
de telemarketing
calça popozuda, progressiva, Queen
Latifah, gloss
as bombas de fragmentação soltam
pedacinhos
os meninos lá, só filmando
o abismo
os meninos do vapor, tropeçando
no muro
e o que eles não aceitam é tomar no cu
sozinhos
não querem mais
pagar a fatura
se foderem amplo, irrestrito
e geral
na fratura do apartheid
social
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
A MÃO DIREITA DO CANHOTO

de esquerda é o burguês culpado
de direita, o burguês ressentido
de esquerda são os que persistem na discussão política
de direita, os que a crêem superada
de esquerda é quem vive no futuro
de direita, quem conjuga o futuro do pretérito
de esquerda é acreditar no Homem
de direita, se proteger da besta-fera
de esquerda é confiar no Estado
de direita, mantê-lo sob controle
de esquerda é querer mudar a História
de direita, reescrevê-la
de esquerda é desejar o progresso
de direita, pô-lo a serviço da tradição
de esquerda é o público gerindo o privado
de direita é, privadamente, digerir o público
de esquerda é o materialista nas idéias e idealista nas ações
de direita é o pragmático do espírito
de esquerda é quem se assume cristão na velhice
de direita, os nostálgicos de uma idade de ouro clássica
mas quando a coisa aperta pra valer,
mão direita e mão esquerda se juntam
e rezam
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
LACAN, VC NAUM VALI NADA MAIS EU GOSTO D' OCÊ!

Por que a mocinha de “Desejo e Perigo” se entrega?
É uma decisão que toda mulher enfrenta mais cedo ou mais tarde: ser mulher. E aí cada uma terá de se haver com o quanto cedeu de seu desejo (ou o quanto correu de perigo).
Ela escolheu a vida, o sacrifício dela salva ao menos a vida dele. Porque perdidos ambos já estavam nas águas turvas da paixão carnal.
Nunca suportei a ideia de comunismo, socialismo, cubismo ― sem Marx e sem Bíblia. A dura verdade do capitalismo é que o universo é inflacionário. Impérios-bolha vão crescer e estourar. Cada vez mais rápido.
O que não tem solução, não solucionado está. Nós vamos ter que nos reorganizar em outros lugares, rever conceitos e levantar acampamento a toda hora. Como os nômades.
A fêmea é o humano que não existe, devém; ser mulher é uma profissão impossível, portanto, do alto da minha condição de não-existente, renuncio a resolver um enigma insalúgubre. Não sei o que fazer, não faço nada.
Por que deveria trabalhar para uma civilização que, nas versões judaica, cristã, islâmica, grega, ocidental ou oriental, me põe em segundo plano? Deixa cair o trambolho!
Lacan, você não vale nada mas eu gosto de você!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
depois que assisti Anti-Cristo

musica em busca de interprete II
(alcantilado)
as muié é perdedora, as muié é perdedora
já não quero ser muié
(gospel)
women is losers, women is losers, women is losers, women is losers
(alcantilado)
as muié é perdedora, as muié é perdedora, as muié é perdedora
também quero ser muié
(gospel)
women is losers, women is losers, women is losers, women is losers, women is losers, women is losers
musica em busca de interprete I
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
o Abismo e seu Cavaleiro
No caminho do castelo de Payan ele encontrou uma linda feiticeira que lhe revelou que a noiva era feia como a necessidade e chata como uma mula empacada. Nela o cavaleiro não acreditou e, assim, a bruxa o lacrou com um tipo de feitiço embutido numa macumba.
De tudo a bruaca o ameaçou; a felicidade ao lado dela lhe prometia, fama, glória e dinheiro na caixinha. Vendo que debalde lançava rogos e pragas, a bela wicca o transformou em sapo sem respeito, de barriga laranja e fios de cabelo grossos como minhocas.
Cansada de esperar o cavaleiro que tardava, Focaccia em abismo se transformou e a engolir toda a maldade, orgulho e tontice do sapo principiou. Lá-lá-lá-ló-lú-lex-lá-lí. E Ferrabraz o Cavaleiro do Abismo se tornou.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Introdução à história sentimental do tucano-petismo
Companheiro M. C.,
Venho acompanhando, com intenso deleite estilístico, suas argúcias retóricas na defesa da Realpolitik do Nosso Guia ― mormente no emblemático e momentoso caso do presidente do senado. Ah, é a tal da ‘governabilidade’, responde o tal de pragmatismo que lubrifica os gonzos do nosso bissecular presidencialismo de maioria. Que entre nós o cargo máximo do país seja, circunstancialmente, eletivo não muda o fato de vivermos sob a égide de um carnavalesco 3º Império. Que se alternem PT ou PSDB, Arena ou MDB, udenistas ou pessedistas, café ou leite, saquaremas ou luzias, partido conservador 1 ou conservador 2 no poder, o que remanesce é este nosso capitalismo de ‘indução’ estatal.
Na América Latina, recém-convertida à democracia-sem-instituições-democráticas, o Brasil está muito mais para regra do que para exceção ― e é por isto que a nossa ‘real diplomacia’ acomoda tanto um general Stroessner, quanto um coronel Chávez; no país das idéias fora de lugar, uma ditadura militar acolhe um mafioso (Salamone) com a mesma nonchalance com que uma ‘ditabranda’ de esquerda acoita terroristas (Lollo, Battisti, etc.) Está no DNA do pragmatismo tupiniquim, companheiro.
Eis porém então senão quando, o brilhante editorialista e publisher resolve se arriscar na seara da crítica cultural e nos brinda com um saboroso ensaio acerca da arte da fraude ou da fraude na arte. Acontece, entretanto, que a arte, a política e a fraude são ramos do mesmo cepo, a representação; se representam por meio da verossimilhança e não da veracidade, que culpa têm? É da natureza do escorpião ferroar o sapo, afinal, mas é também direito do sapo se perguntar para que servem os políticos. O que faz o senado?
Há décadas a verdadeira face da política nacional vem sendo o PMDB, esse amorfo monstro do pântano fétido que emergiu da ‘redemocratização’ à brasileira. Incapaz de ser, ou fazer, oposição ― até por carecer absolutamente de algo que pareça um programa ― o maior partido brasileiro mercadeja votos, alianças e maiorias ao preço que o sr. certamente não desconhece. Mas quem terá a coragem (e o rabo solto) de meter a fatídica bala de prata no vampiro? Eis o paradoxo em que o articulista e a nação estamos metidos: o pragmatismo, mola que move a política, as finanças e o marketing, transforma estas atividades-meio em fim em si mesmas. É o tipo de esperteza que acaba por engolir o esperto e o otário, sapos e escorpiões.
Não foi por outro motivo que o companheiro Platão baniu os poetas da sua utópica República: com suas cópias de cópias, com o temível veneno/remédio da mimese, todo aquele que representa ― e em sociedade todo mundo representa ― pode acabar servindo e/ou comendo as ‘gosminhas’ do chef Ferran Adrià, ou seja, gororoba ortomolecular temperada a pós-modernismo. Uma vez que se cria uma lei de incentivo à cultura via renúncia fiscal, a porteira está aberta para que artistas nacionais consagrados financiem seus lucrativo$ projeto$ e bancões banquem institutos culturais e até circos canadenses sem mexer no bolso (deles, claro está, basta-lhes o nosso.)
Ou bem se espinafra Maluf quando bravateia que nunca foi condenado, ou mal se escuta Chaui quando culpa a imprensa golpista no episódio do mensalão. Porque aos DEMfílicos mas demofóbicos tucanos, tadinhos, não restou sequer o grito de pega ladrão ― o ‘operador’ da maioria parlamentar estava consubstanciado na mesma e valéria pessoa! Se o sr. me permite a insolência, gostaria de fazer minhas as palavras do Comissário Zé Dirceu: “ A vida política, porém, é plena de armadilhas. Até os mais nobres e valorosos militantes podem ser arrastados a situações com as quais, no futuro, não concordem ideologicamente.” Magister dixit.
PT? Saudações! Cordialmente,
Missosso
sábado, 22 de agosto de 2009

eu me alimento de sorrisos
que devoro de peito aberto
sem medo do estalar do ossos no abraço denso
da felicidade graciosa e plácida
faço nascer estrelas nas testas
que giram mais rápido que o pensamento
e fazem os pés se elevarem num vôo rasante
sobre a vida que ainda não conheci
semeio perguntas e
me escondo atrás do arvoredo mas volto
timidamente, quase indecisa
para ver o que vem vindo
com um vaso de barro verto
as lágrimas que emprestei de outros rostos
elas vão beijando o chão, devagar
acordando a vida silenciosa
que se move abaixo da grama
disparo palavras
e as observo no trajeto
até os ouvidos de seda que as vão guardar
eu me ajoelho
e viro um castelo
onde ninguém mora mas todo mundo vive
e o Universo conspira a meu favor
diuturnamente
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
AVIFLORA & RIZOFAUNA

― Vó, quer ouvir uma história? Eu leio pra você...
― História do quê?
― Do meu livro, é a lenda de Oxum.
― Xum, é?... menina boba que é você Adelaide, quem deixou você ler esses montes de história de catimbó?
― Meu nome é Talita, vó... que que é catimbó?
― Não sou sua avó, menina, pensa que ainda me engana Duda, você estuda comigo no Des Oiseaux...
― Claro que você é minha avó, a senhora é mãe da mamãe. Você está com a memória fraca, a Dinda que me contou...
― Que Dinda, que memória o quê... em vez de ler bestagem, você devia era se agarrar ao catecismo. As crianças de hoje não têm respeito, só falam asneira.
― Vó, pra quê esse espinho? Onde arranjou ele?
― Pára com esse vó, vó, vó, nem te conheço pirralha! Isso aqui é pra matar formiga, uma espetada, assim, e pronto, menos uma pra aporrinhar...
― ...e por quê a senhora não gosta delas?
― Sabe de onde veio o espinho dona perguntadora?, pois bem, arranquei ele do tronco da barriguda que tem lá na praça... não sabe o que é?, pois é uma árvore que protegeu a Sagrada Família quando fugia para o Egito, os soldados estavam perto e Deus mandou ela se abrir pra esconder o Menino Jesus lá dentro. E por isso ela ficou barriguda e cheia de espinhos.
― Muito dez essa história! Só que... a gente não devia atazanar as coitadinhas das formigas, elas não fazem mal a ninguém...
― Você que pensa, esses bichos são odientos que nem gente, ruins como aquela coruja que fica lá me olhando o dia todo. Ói lá ela, não sai do meu pé, a sarna...
― Aquela é a Dona Zulmira, mamãe chamou ela pra cuidar da senhora, porque a senhora é velhinha e precisa de ajuda.
― Quanta parvoíce! Sua mãe paga ela é pra cuidar de você, guria, ela sai pra trabalhar, não sai?, então?, eu não preciso de babá nenhuma... onde já se viu?!
― Foi a mamãe que falou...
― A Dinda disse, a mamãe falou... que criança mais quezilenta. Dá nisso: as mulheres agora têm filhos pros outros criarem, o mundo está todo virado mesmo.
― Ih, vó, aquela ali está se mexendo, tadinha, deve estar doendo...
― Dói nada, só dói em quem tem alma.
― Vó, o que é a alma?
― A alma Deus dá pra quem tem compaixão pelos outros, essas formigas aí, mais vermelhas, as grandonas de queixada grande, são umas desalmadas, elas são escravagistas...
― O que é isso?...
― Tenho que explicar tudo, é? A rainha das malvadas entra no formigueiro, mata a rainha das pequenas e esfrega os pedaços da morta no corpo dela e das outras para o cheiro ficar igual, daí o formigueiro todo vira escravo das malandronas para o resto da vida sem saber de nada.
― Elas podem até cheirar igual, mas são bem diferentes... as pequenininhas não vêem que estão sendo enganadas?
― Não, as formigas são quase cegas.
― ... vó, existe gente escravatista?
terça-feira, 18 de agosto de 2009
DASDOIDA na FIESP - fundos
obra-de-arte é efêmera, é coisa pra acabar logo. é fazer e acabar, não vai para museu, no museu estão as drogas-de-arte. ferreira gullar (ou ribamar)
terça-feira, 11 de agosto de 2009
A Estratégia do Vírus

Ela começa pela memória recente, cousas lidas e ouvidas, biblioteca rápida de notícias, curiosidades atuais e corriqueiras ― a inesgotável ganga de faits divers que se adere à falta de assunto ―, mas, logo, mais séria, emendou: não existe profundidade, o que há é uma infinidade de camadas, superfícies derrotadas como cascas de cebola. De modo a liquidar eventuais dúvidas, tirou a blusa exibindo uma curiosa tatuagem, um colibri e um lagarto lascivamente enrodilhados, que lhe desciam do pescoço para o flanco direito. Jogada no espaldar da cadeira, a blusa lá ficou.
Nocaute no primeiro golpe, acusei, este é o risco de enfrentar uma peso-pesado. Homens são incapazes de gerenciar simultaneamente tesão e raciocínio ― falha na barra multi-task, alega o fabricante. Cocei a ponta da orelha para ganhar tempo (um dos meus muitos tiques), buscando a guarda para provocar o clinch, tentando cozinhar o galo até soar o gongo. Com o resto de compostura que me sobrou, respondi que os homens enxergam ao longe e as mulheres são mestras nas curtas distâncias; afinal de contas, preciso lembrá-la quem está pagando a brincadeira.
Vocês vêem as grandes coisas, as mulheres vemos só as pequenas; mas olhamos dentro delas. Não deixa de ser um tipo de compensação pela pequena história de infâmias a que fomos confinadas. Calou-se. Repetiu a operação anterior com a calça. O mundo da narrativa pousou ali entre nós, deslizou as mãos destras e caprichosas pelo cinto de couro, detendo-se na fivela dourada; criando uma falsa expectativa, já que o cinto não a sustentava. Falo da calça saruel que ela vestia, dos movimentos solenes de quem manuseia relíquias, a densidade oculta do corpo a arrastar cios e senhas.
Nisso você está certa, concordei protestando, essa miopia está na base de um certo imediatismo feminino; um manual prático da existência onde tudo se explica por circunstâncias, minúcias e defeitos morais. Fazia que nem ligava para as notas, depositadas uma a uma no criado mudo, embora a dificuldade em se livrar de uma série de alças e faixas denunciasse algum embaraço. Agora era eu que procedia com vagar, aos poucos, gota a gota, sorvendo a beleza na língua, retendo no espírito cada detalhe da devoração. Cabelos presos, pingentes, lingerie e sapatos de salto agulha.
As aventuras, as desmesuras, as ousadias da excitação que antecipa acontecimentos, páginas roubadas pela pressa de se saber o fim. Dissimuladas delícias. Você nunca pensou estar aqui no meu lugar, inverter os sinais? Pra quê?, rebate agressiva, a cada manhã perco a obra noturna, se fui tigre na experiência vivida e quero retê-lo, sobra apenas um rabo de gato. Se um dia sonhei com você, diz enquanto solta a piranha do coque, já passou... Os brincos tinham ido parar no toucador sem que me houvesse dado conta do gesto que os arrancou.
Bem, são cifras diferentes, é certo, meu negócio é poder, o seu é dinheiro; a mim interessa a vã glória de mandar, a você, o lucro duvidoso de se dar. Quem poderá saber qual de nós anda menos iludido? Quando sobrevier a melancolia do repouso, quem estará mais órfão, a raposa ou o ouriço? O bustiê foi caindo com um traçado perverso, teimando em se agarrar aos bicos estrábicos dos peitos-canoinha. Assim, vai, perdura essa pena renovada, quero a acritude do ato consumado; as franjas e babados onde aspiro teus fluidos são restos de esquecimento que o despertar teceu para mim.
Mandar, desmandar, transitórios são os ensinamentos sobre o ódio, tão breves são os silêncios da morte... Os vírus anunciam que há uma epidemia de gente, que podemos levar tudo para o grau do inanimado (onde eles transitam de zero a legião), que falta água, que a Gaia faltam tetas para tantos humanos. Predadores no topo da cadeia alimentar, aquecimentos globais pré-históricos, trilobitas (!?) extintos em massa há 250 milhões de anos, etc., de tudo me acusou; do mais importante, porém, ela se desembaraçou em pé: uma dobrada de perna, uma puxada com três dedos e... calcinha no chão. Profissa.
Mais do que tudo, acompanhei os olhares, a palavra que estremece; confidências furtivas dos inconfessáveis informes, imagens não-visuais reveladas no jogo muscular, nos ardis de fera acuada. Fiz este único reparo: por isso é que desconfio da metafísica, essa doença da palavra, ninho de canalhas e poetas, refúgio do pensamento que não sobrevive sem o sagrado. Como os vírus, a linguagem é um código que parasita outros códigos; de repente, acorda de latências seculares, reproduzindo de contrabando sua criptografia invasora. Só podemos esperar que o dia desfaça o que foi capturado pelo trabalho da noite: a vida é um programa muito mais amplo, uma língua maior que a linguagem. Caminhava confiante pelo quarto, a danada insistia em não tirar os sapatos. Tlec, tlec, tlec, tlec, tlec.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
A Erva do Cheiro
foto: erva-de-rato.o cheiro do rabo
O olho não enxerga tudo que já viu
a perna não se articula.com
o corpo mítico do Pai
frag-mentado
o(s) sentido(s) do mundo(s)
não está pronto o PHÁRMAKON (veneno-remédio)
bocas, vulvas
surgem em alguns frames com uma concretude
escultórica
O GIGANTE DEITADO
a erva do ralo
a merda os tons marrons
a grana o rolo a bunda os sótons
a putaria a bandalheira
organizada na forma
de instabilidade
um modo de ser vida e morte
em constante permuta
ora signo
ora peso
ora grito
DIÁSPORA POÉTICA: NÃO SE DEVE CORTAR OS PÉS DO RATO
o sonho
segredo que conta
histórias
o horror cria segredos
para silenciar
a história
SUPORTAR AS ANARQUIAS DO AMOR E DA SORTE
o cheiro do rato
como conviver com o rato?
Esse rato nasceu do amor
veio do entrenós
parido no entretempo
terceiro
gerado no hálito humor
de álgidos túmulos
TERMINABILIDADE DO ENTE PRIMORDIAL
a concepçãO
loucura.com.br
problemas do Brasil-problemão:
a folia é um interesse econômico
uma habilidade social
enlouquecer como estratégia
de cura
para a normalidade absurda
[do mal]
DISCIPLINA AMPLECTIVA DO AFETO, A TECNOLOGIA CORPORAL DO NÔMADE
O MAL não é substância
mas relação
cediça
amor é despojamento
combustão espontânea pornográfica
do interstício
físico-simbólico
por mais desejo que haja na matéria
resta (o extemporâneo)
nos imprevistos da fatura
Eu-Mãe-Mundo
amar é trair
pátria, família, propriedade
trair o objeto do amor
trair o amor em si
quinta-feira, 30 de julho de 2009
"o" cara
― Pelo menos isso você tem de admitir: é “o” cara...
― É, num ponto ninguém tira dele, passou pelo teste do avesso...
― Hmm... a coisa da biografia única e tal, ser uma metamorfose ambulante?...
― ...ser uma proposta que suportou a esteira da linha de produção e desmonte, a velha e nada boa tortura dialética, e ainda ter sobrado lenha pra queimar do outro lado.
― Mas é esse o preço da representação, carregar sempre a coisa e o seu contrário...
― Na verdade, ele persistiu até ser aceito pelas razões, ou desrazões, que o fizeram ser rechaçado... você quer dizer?
― Mais ou menos. Perdição ou eleição só fazem sentido para a vaidade; sobreviver aos adversários e às adversidades, eis a regra de ouro da natureza e do reality-show-business...
― Daí que virou unanimidade.
― Não há, nunca houve, oposição neste país. Não faz parte da nossa natureza cordial.
― Veja os caras do mercado, os magos da macumba financeira...
― Viraram todos burros da noite para o dia... pois é, diante da realidade não há magos, só Magoos...
― Sim, sim eu lhe digo.
― Rsrs... você sabe por que não é possível um homem ser AO MESMO TEMPO, bonito, inteligente, hetero e honesto?
― Hahahaha! Porque aí já seria uma mulher...
domingo, 26 de julho de 2009
brisando na pedra
segunda-feira, 20 de julho de 2009
(às vezes) não consigo deixar de responder a um cínico
domingo, 19 de julho de 2009
women 'is' losers
A idéia de um estágio matriarcal, ou de direito materno (Mutterrecht), antecedendo ao sistema patriarcal encontra-se hoje francamente desautorizada frente ao registro histórico disponível. Não seriam aplicáveis nem termos como transição, evolução ou recalcamento: a distopia social da mulher é produzida precocemente no processo civilizatório, ou antes, confunde-se com ele. Mesmo no ocidente moderno, que tanto se vangloria das conquistas de direitos privados e públicos, uma relativa isonomia entre os gêneros foi e continua sendo exceção, anomalia restrita a períodos que associaram a acumulação de capital a uma extraordinária sofisticação intelectual.
Se há uma gênese para o fenômeno, esta tem de ser procurada em estado nascente no estabelecimento do contrato social. Os laços sociais, que tão pouco têm de contratual, se constituem nos e pelos discursos que atravessam o espaço comunitário a partir da definição de um principium divisionis; este, submete tanto o mundo natural como o universo social e os códigos neles circulantes a uma partição lógico-política. Não existe formação social, por mais incipiente que seja o seu aparelhamento burocrático, que desconheça critérios de inclusão/exclusão, grupos ou categorias dominantes e dominadas, em que a feminilidade não advenha como um segundo sexo, modelo, aí sim primordial, da construção do Outro antropológico.
O que me leva a uma crua constatação: a crer no que se conhece acerca dos povos sem história, a mulher sai do estado de natureza na qualidade de mercadoria. Não se trata, ao menos a princípio, da condição servil ou de escravidão, mas certamente ela comparece como um bem artificialmente rarefeito e precioso. Desapropriada de si mesma em benefício da gens no processo de aliança, a mulher passa a ser regida pela ordem econômica, distribuída segundo as regras desta última, revelando, sob a fachada das regras de filiação, os alicerces de um sistema de direitos de propriedade.
Tal como na lição marxista ortodoxa, a mulher/mercadoria, ao circular, se converte em referencial geral pois uma mulher se troca por outra. Dito de outra forma, o mistério da mercadoria e o hieróglifo social da feminilidade visam elidir o mesmo fato: a troca que associa, já traz, ainda que em germe, o incômodo do privilégio, a dominação e a necessidade do seu ocultamento. Instaurando-se um regime de trocas (pessoas, bens e palavras) é necessário que a troca em si seja investida como um aí-desde-sempre, dimensão mítica e extra-temporal que lhe permita situar-se fora daquilo que é efetivamente trocado. O que na troca deve permanecer velado é o arbitrário do seu fundamento, a marca simbolizante, que faz existir o que não existe, dando-se in absentia. Daí a necessidade da metáfora religiosa, da consagração de um espaço/tempo fundante em que o feminino é sagrado e tabu.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
O OVO CÓSMICO
A oitenta quilômetros por hora, o impacto faz da superfície do mar uma crosta de pedras. E esta foi só a primeira descoberta do dia. Daí veio a mega-vaca, o tranco daquela catedral de água desabando em cima de mim ― uma sensação igual a nada que já tivesse experimentado antes. Dezoito metros. A onda fechou as mandíbulas de cristal bem nas minhas costas; por um segundo cheguei a ouvir o rugido dela quebrando e em seguida o silêncio me engoliu. Comparar com uma queda livre ou com a ausência de gravidade é pouco: até porque nessas paradas radicais há um certo consolo, já que os movimentos, ainda que sujeitos a condições especiais e adrenalizados pelo perigo, seguem obedientes à nossa vontade. Neste exato momento, apesar do risco físico extremo em que me encontro, não posso fazer absolutamente nada.
“Não é fácil renunciar por inteiro ao controle se estamos acordados”. Foi o sentido das palavras que consegui entender da minha amiga tahitiana, anteontem, diante do meu mapa astral; ela me explicou também que estou atravessando uma fase chamada de Retorno de Saturno. Mas eu não deveria pensar nisso agora. Aliás, o ideal mesmo é não focar o pensamento, apenas aceitar o instante que se apresenta; sem raiva e sem apego, como aprendi na meditação. Aprendi muita coisa viajando, deu pra conhecer uma pá de gente incrível em dez anos de circuito. Tenho vinte e nove anos e, até há menos de um minuto atrás, estava sobre a minha prancha e o meu corpo me pertencia ― não era esse boneco de pano que está sendo furiosamente sacudido, girado em todos os sentidos até perder todo o senso de direção e posição.
O colete salva-vidas foi arrancado e o meu pé acertou a testa com toda a força; então, o pânico passou e, como se fosse um programa automático, entraram em ação uma série de procedimentos de emergência que adquiri sem perceber numa vida de contato diário com o mar. Agrupei, quer dizer, consegui me fechar feito um tatu-bola. Ou um feto. Melhor: um ovo. Saturno é o finalizador de ciclos, ele traz a sabedoria retrospectiva que vem junto com a velhice, a dificuldade, a doença e as trevas. Acho que não devia pensar assim, mas o caldo me jogou na região das sombras infernais, no caos primitivo em que as sementes de todas as coisas estão confundidas e misturadas, que me arrasta como e para onde quer, e que torna qualquer decisão pesada como o chumbo que recheia as pranchas curtas dos big riders. Maraü disse ainda que nesta nova fase eu deveria rejeitar a casca e tomar o núcleo, purificar-me três vezes com o sol, o sal e a água, e que isto seria facilitado, pois Saturno viu o seu rosto refletido no espelho de Marte.
O filme passando na cabeça é conhecido, mas parece a biografia de várias pessoas que viviam em mim de forma independente; o primeiro campeonato que venci aos sete anos em Macaé, a saída de casa aos treze, o começo no profissionalismo, o logo do patrocinador, a estréia cabulosa no Qualifying em Todos Santos, daí, só pauleira: Backdoor, Off the Wall, Mentawai, Jaws, Padang, Puerto Escondido, J-Bay, Pico Alto, Lacanau... um carrossel de imagens nítidas, mas sem as emoções correspondentes. Será que já era, fui? Um estado suspenso? Regredi para o grumo original, o corpúsculo de possibilidades que ainda não sabe se vai germinar, um ovinho sendo turbilhonado por uma centrífuga do tamanho de um prédio de seis andares. Achei o ninho do Simurgh, aqui, na barriga da baleia, as memórias explodem na mente: a caminhada fulminante no acesso ao W.C.T., alinhar nas baterias dos top 45, tocar na banda do Kelly, o casamento na Califa, as drogas, o seqüestro da irmã, a separação. Mas eu devia me preocupar só em manter a apnéia e não pensar nisso agora.
Apenas ficar ligado no presente, passado e futuro são Maīa, ilusões criadas para distrair ou sofrer. É preciso praticar a aceitação resignada, incorporar completamente a passividade e a compaixão plena ― o vazio serve de ponte entre o vácuo e a potência total. A rainha da série me pegou, quando ela parar, precisarei de forças para nadar. Om.
O Pacífico, imensidão desesperadora de tanto azul, me ensinou que qualquer pedaço de terra está no topo de uma cordilheira que se ergue do fundo dos oceanos. Terra, o planeta-mar. O Tahiti é uma dessas montanhas, situada pouco acima do paralelo 20 Sul na Polinésia francesa; uma ilha vulcânica em forma de oito inclinado, na ilhota menor, a sudoeste, fica Teahupoo. Os locais pronunciam ‘tchôpo’ e avisam logo: cuidado com a esmagadora de crânios. As mãos de Maraü preparam suco de noni, uma espécie de fruta-pão nativa que cura tudo, até o veneno do peixe-agulha. No tubo da onda está a manifestação da divindade no surfe: inspirar, mandar pra baixo, entubar profundo, passar a mão na parede e sair limpo na espuma. Teahupoo, o sonho/pesadelo dos surfistas: reef break de esquerdas rápidas, fortes e tubulares que “sugam o chão” do mar, arrebentando numa bancada rasa de corais afiadíssimos. O Teco, com o lash preso nas pedras, vivendo aqui o pior inferno dele.
Agonia e êxtase. O perfume misturado de sangue e de tiare, a gardênia tahitiana; será o meu destino abraçar Iemanjá nos mares do sul? Justo agora que me casei de novo, e o primeiro filho dorme sussu na placenta dentro da minha terceira mulher? Nunca fui um casca-grossa, fui criado na marolinha; quando mudei para Saquarema, respeitei aquelas ressacas, os swells nervosos, em Mavericks conheci o terror. Morar na baja Califórnia não fez do merrequeiro, especialista em manobras aéreas, um domador de titãs. Não, não devia pensar nisso agora. Há dois anos, quando voltei a competir e as contusões seguidas mostraram que já não agüentava a puxada competitiva, cheio de contas a pagar, encarei a parada do tow in e pedi abrigo na confraria dos caçadores de gigantes. Rebocado por jet ski, pude descer umas bombas que na remada não iam rolar. O falecido Mark Foo é que disse: quem quer pegar as maiores ondas, tem de estar preparado para pagar o maior dos preços.
Vacilei na saída do tubo, um erro cabaço, perdi visibilidade com a baforada, aquele suspiro que sopra do ventre da onda antes de se fechar. Saí da linha no solavanco, essas morras não têm a superfície lisa, e é por isso que a prancha leva lastro e os pés ficam presos como no snowboard. De repente a casa está caindo, um terremoto vai derrubando quartos, paredes, escadas, corredores e, lá no fundo, a gente vê uma única rota de fuga, só alcançando esta saída é que poderemos escapar da casa ruindo. Sair do tubo da onda é como nascer. Se emergir deste caldo, nasci de novo. Ninguém sabe o que uma onda realmente é; ela dura os poucos segundos de um sonho, lá dentro o tempo se dilata e acelera em momentos-século, e cada instante que chega é um paradoxo que altera os que o antecederam. Dizem que o Universo tem ondas, dobras nas quais se depositaram por gravidade os sóis, as galáxias, os asteróides, os planetas e... nós, poeira de estrelas. In utero. Agora estou preenchido de uma alegria juvenil, uma brancura silenciosa me envolve; experimento o nada, antes de todo e qualquer nascimento ou começo, sinto que estou na primeira fase da luta contra a morte, a entrada no invisível. Não sei mais o que está no alto ou em baixo, onde está a esquerda ou a direita; estou retornando para o zigoto, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, sessenta e quatro células, uma mórula, os pólos animal e vegetal, a boca, o ânus, a gástrula, um cordão vertebral, uma noite tépida e feliz, feita de uma matéria clara e envolvente que une o ar e a água, o céu e a terra, uma imagem cósmica, ampla, imensa, suave.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Sim e Não
Não
Aos processos de iluminação
À razão
Sim a todos os caminhos
Não
Ao terceiro olho da visão
À devoção
Não às formas de ficar sozinho
Abra as tampas do pulmão
Abra o coração
Abra o quintal
Para o vizinho
Tire a cerca da separação
As muletas da sustentação
Só você
Para taça e vinho
Tire todos os escombros da demolição
Seja mato, seja pedra
Seja faca e pão
Céu e Terra andam juntos
Como dois irmãos
Seja sim e não!
Toda folha tem raiz para nutrição
A montanha tem o teto e também o chão
Sim à flor, sua cor
E seus espinhos
Não às formas diferentes
De saudação
Não à ascensão
Não aos ritos elevados de depuração
Não à redenção
Não a todas as maneiras
De distinção
Sim a todos os caminhos
Toda folha tem raiz para nutrição
A montanha tem o teto e também o chão
Sim à flor, sua cor
E seus espinhos
sexta-feira, 19 de junho de 2009
o corpo é uma imagem do inconsciente

e a origem das neuras
a principal causa de desencontro entre o narcisismo da imagem do corpo da criança e seu esquema corporal (idade fisiológica), é notadamente quando o desejo libidinal oral de pegar, de saber e de compreender, e o desejo anal de fazer, agir, de experimentar, despertam na instância tutelar uma reação tão erótica ou tão recalcada (p.ex.: uma culpa enfiada no seu super-eu infantil). a mãe tomada de angústia, associa uma reação expressiva mais ou menos controlada, da qual a criança percebe sempre o `não dito´: olhares de desprezo, atitudes hostis, rupturas, palavras de censura que ela acredita serem educativas.
entretanto, a criança não tem sequer a oportunidade de recorrer ao fantasma do prazer arcaico; se for consolada pela mãe, pode reconciliar-se consigo mesma, identificar-se por introjeção com a mãe acolhedora para o bebê ainda impotente, o qual ela sabe acalmar. se por outro lado, a criança não for mais “amada”, for censurada e, se esta mãe aos olhos da criança, tem razão, numa identificação secundária com o agressor, tanto pior: ela está então submetida à introjeção de emoções insólitas, sem representações, ou por vezes uma representação de censura severa que pode se estender inclusive aos domínios do patronímico. surge então no inconsciente os efeitos da pulsão de morte, que investe contra as zonas erógenas do corpo provocando anorexias, vômitos, encoprese, enurese e insônia.
na clínica, encontramos pais e mães se acreditam “alvos”, como se tratasse de revide das criança que eles pretendem adestrar. quanto mais a criança apresenta os sintomas, mais eles querem adestrar: uma situação libidinal dramática, perversa: humanos que só podem destruir! a criança perde até a sensibilidade de suas sensações esfincterianas distintas, de suas sensações do trânsito intestinal, fica totalmente entregue às pulsões de morte, já que sua imagem de base, a mais fundamental, é associada à mãe e está ligada à vida e à morte. se da mãe apenas emergem signos de repulsa e recusa, se dela não brota mais nenhuma característica de vida para o espírito e o coração, então, para o corpo que não pode viver sem espírito e sem coração, ela se torna morte. A morte-mãe se torna a referência anti-existencial e existencial simultaneamente.[1]
estas crianças chegando no limite do vivente: sendo sujeitos extremamente inteligentes, não podem mais engolir, não podem mais mastigar: sua anorexia, que é uma falta generalizada do desejo de amar, do desejo de desejar, do desejo de trocar, é particular e psicótica. todas as crianças psicóticas entram em estado crônico que pode ser atravessado por atitudes bizarras passageiras do corpo que não podem ser ditas de outra forma. a criança psicótica fica refém de pulsões insólitas provocadas por fantasmas, acontecimento real ou pulsões agressivas contrarias à instância tutelar. em geral as pulsões de morte do sujeito do desejo são localizadas nas zonas erógenas. a única maneira de lutar contra a angústia com relação aos pais de hoje, é de se refugiar nas lembranças de seus pais de ontem, de um mesmo dele arcaico. podemos dizer que se trata de um processo de autismo, de uma defasagem em relação ao resto do ritmo de vida relacional atual, de sua imagem existencial; daí o retorno a certos componentes da imagem do corpo da criança que não pode permanecer focalizado em seu esquema corporal de hoje, e fazer corresponder a isto a manifestação de seus desejos de sujeito.
Pedrinha na mão
Os poucos críticos que ainda pensavam a obra de Lygia Clark quando ela se declarou psicoterapeuta, aceitaram a explicação sem contestação. Ela partiu da criação pictórica no plano (telas) para formas autônomas (os “Bichos”), e então o objeto se tornou interativo com o espectador, - melhor dizendo, o participante; que em dado momento, deixa de precisar do objeto. O principal estava na interação entre o participante e o objeto, que vai se tornando mais e mais como um acessório de palco do que qualquer outra coisa. Então isso é muito lógico. Ela passa por um limiar quando decide fazer disso uma espécie de cura ou alguma coisa. Ela diz: “não troquei a arte pela psicanálise, desde que pedi a participação do espectador, que foi em 59, daí por diante meu trabalho exige a participação do espectador; meu trabalho foi sempre me conduzindo para outro experimentar, não só para vivência minha. Por ora, tenho a consciência de que meu trabalho é um campo experimental, rico em possibilidades e é só. (carta). Com os “Objetos Relacionais” ela chega ao ponto mínimo da materialidade do objeto: ele é apenas a encarnação da transmutação que se operou no sujeito. Saquinhos de plástico e pano contendo água, areia, ar, isopor; tubos de borracha, mel, conchas convocando o desmanchamento do contorno, o desregramento da imagem corporal. Uma viagem intensa para além da representação. Lygia deixava por prudência, uma pedrinha nas mãos do receptor para que ele pudesse, a exemplo de João e Maria, encontrar o caminho de volta. Volta para o familiar, a imagem, o humano – a prova de realidade de seu ritual. Ela propunha uma vivência na fronteira
[1] Sem contar que em francês, mort (morte) e mordre (morder) se inscreve na imagem do corpo.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
teodicéia

deus ficou conhecido sub specie aeternitatis
como o nada, a não-coisa
e também: o pan, a tríade, o uno
o sem fora
creio para entender
(credo ut intelligam)
mas nunca compreendo
― naufrago no absurdo
o mais alto conhecimento
(magia, arte, filosofia, ciência)
não vale um beijo
de moça bonita
ninguém pergunta o que não sabe
pois o que se ignora
completamente
não pode ser perguntado
uma trilha nas estrelas também sou
Enterprise à deriva
odisséia mestiça e sem deuses
paranóico otimismo: o universo se importa
minha biografia impura de
ausências
sim, ativamente o vazio
a realidade vem de todos
e não apenas de alguns



