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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um Olhar

Numa quente noite de Verão, bem passada a uma da madrugada, descia uma das grandes avenidas de Lisboa.

Mãos nos bolsos, olhar despreocupado, pensamentos vagueando pelo nada.

A noite tropical trazia-me à pele lembranças de Angola… A falta de uma brisa, por pequena que fosse, os 26 graus, o silêncio… Se o ar fosse mais húmido julgar-me-ia andando pelas ruas do meu bairro de Luanda.

Tinha acabado de chegar do meu tempo de praia no Algarve. Já tinha perdido na memória a sensação de me ver tão moreno. Acho que quando fico assim o calor me produz uma doce sensação de bem-estar, quase impossível de traduzir por palavras.

Além disso, sentia-me cheio de energia e de vitalidade. O sol da praia e o nadar nas águas, por vezes geladas, de Loulé tinham recarregado as baterias para mais uma época de exames na faculdade.

Entrei no restaurante e procurei um lugar para me sentar ao balcão. Não queria demorar muito. Ainda queria dar mais um avanço na matéria.

Vi o João, colega de ano. Sentei-me ao lado dele.

Trocámos conversa de balcão… Patati-patátá… patati-patátá…

O garçon trouxe a lista mas pedi o habitual às terças… Era cliente certinho, tão certinho que até já conhecia de cor e salteado os pratos da casa.

Patati-patátá… Patati-patátá…

Quando me puseram o prato à frente, pedi um fino… O calor estava mesmo a pedir uma bebida geladinha.

Dei um gole e quando ia a pousar o copo… o meu olhar cruzou-se com o da pessoa que estava à minha frente.

Patati-patátá… patati-patátá…

De novo… Meu Deus! Que olhar…

Deixei de dar atenção ao patati-patátá do João.

Responder… eu respondia mas juro que não faço nem ideia do que dizia.

A cor… De que cor? Verdes? Não! Azuis? Não.

O olhar voltou a fixar-se no meu olhar…

Suave…

Doce…

Convite? Será…?

Patati-patátá… Patati-patátá

A pele muito morena… quase cor de cobre, a cor da minha perdição.

O penteado afro, muito fofinho e cheio…

O sorriso lindo, aberto… e

O olhar…

Suspensos ficámos durante… eu sei lá!

Patati-patátá… patati-patátá… O João falava e comia e falava e comia…

Eu… com o copo do fino numa mão… com o garfo na outra ia fazendo que comia…

Patati-patátá… patati-patátá…

O olhar… de novo…

eu só via os olhos… não conseguia desligar…

agarrado, preso…

e querendo continuar preso…

querendo que continuasse… mais… mais…

Patati-patátá… patati-patátá…

Pediu a conta… o empregado recebeu, fez o troco…

Levantou-se…

Patati-patátá… Patati-patátá…

Levantei-me sem pedir a conta e fui atrás daquele olhar…

sábado, 20 de março de 2010

O Beijo

O cortejo fúnebre espraiava-se pela rua principal da aldeia. A carreta com o caixão vinha a seguir ao Padre João. A Maria Dolores, viúva desde o dia anterior, tinha ao seu lado a filha, Isabel. O filho, Marco, não estava na terra, tinha emigrado para França.

Toda coberta de negro, Maria Dolores caminhava lentamente, pesadamente. Nos olhos acumulavam-se águas que, de repente, sumiam num curto pestanejar. Ninguém lhe conseguiu ver uma lágrima rolar pelo rosto.

Aos cinquenta e dois anos, era uma senhora respeitada na aldeia.

Todos lhe conheciam a vida que tinha passado junto do marido, agora falecido.

O Manuel era homem de trabalho, honesto, respeitador e a sua palavra valia ouro. Não se metia em desvarios, não bebia nem tinha vícios que se lhe conhecessem.

Homem capaz de dar a camisa a quem dela necessitasse, cristão de missa de Domingo e dias santificados.

Eram de contas direitas, viviam folgadamente, ainda que sem luxos. A Isabel, que era a mais nova, tinha estudado e era professora primária. Dava aulas numa aldeia vizinha, porque na terra já há muitos anos se fechara a escola, por falta de crianças.

O filho, Marco, tinha desistido de estudar quando terminou o 12º ano. Na altura, correu pelo povo que o abandono tinha a haver com uma zanga com o pai, mas isso tinham sido vozes... Da boca dele, nunca ninguém ouvira justificação, muito menos o senhor Manuel dava azo a que abordassem o assunto. Passados uns meses tinha ido para França, trabalhar com um primo que já lá estava. Desde então, ainda não voltara uma única vez à terra natal.

O Manuel casara com a Maria Dolores, já homem feito. Na altura, levava à mulher mais de vinte anos. Ela, com dezasseis, tinha-se perdido de amores por ele e, bem antes dos noves meses de preceito, nasceu o Marco.

O parto não foi fácil porque, dizia a Ti Guilhermina, o rapaz vinha revirado.

Depois daquela noite de padecimento, Maria cuidou do filho, que tinha vindo ao mundo fracote, como se nada mais existisse.

O rapaz lá vingou, forte.. graças a Deus e Nossa Senhora... como costumava dizer a mãe.

Também... mimos não lhe faltavam... era o ai Jesus da Maria Dolores.

Se calhar devido à dificuldade do parto, o certo é que durante uns largos cinco anos a Maria Dolores não voltou a alcançar outra gravidez.

E, segundo ela, tal só aconteceu por ter feito uma promessa à Senhora de Fátima.

Lá para o fim do tempo, a Maria Dolores só pedia à Senhora que o parto não fosse igual ao do Marco. Até tremia só de pensar naquilo.

Quando deu à luz, tudo correu pelo melhor. O Manuel, que tinha andado aflito com aquela história toda, ficou radiante quando a Ti Guilhermina lhe veio dizer que já tinha uma filha.

As coisas começaram a ficar mais equilibradas lá em casa.

Enquanto o Marco era o ai Jesus da mãe, a Isabel passou a ser o ai Jesus do pai.

Para ver o Manuel feliz, bastava que a Isabel fizesse qualquer travessura. Quando disse a primeira palavra ninguém estranhou que tivesse sido - papá...

Pai mais babado não se conhecia.

O tempo foi passando.

O Marco, que no início nem tinha achado grande piada ao facto de ter uma irmãzita, foi ganhando um carinho muito especial à “minha Bel”, como lhe chamava.

Aos poucos, foram-se criando entre os dois irmãos laços tão estreitos que dava gosto vê-los juntos.

O senhor Manuel começou a sentir-se posto de lado pela Isabel. As atenções da miúda só iam para o irmão. Marco para aqui... Marco para acolá...

No entanto, cada dia que passava era maior o orgulho que sentia por aqueles dois filhos.

A vida corria sem grandes sobressaltos. Trabalho não faltava na serração de madeira de que era dono. Tirando um ou outro atraso de alguns clientes, o negócio não andava mau de todo. Olhando para o filho, começava a imaginar o futuro. Tinha que levar a serração para a frente de forma a, chegada a idade, poder entregá-la ao Marco.

A Maria Dolores, quando lhe falavam nos filhos, até os olhos se lhe riam.

Não eram crianças de dar aflições. E, em caso de precisão, bastava pedir ao Marco que tomasse conta da irmã. Era serviço garantido e não precisava de se preocupar. Ainda hoje se ria de cada vez que se lembrava do que acontecera daquela vez que tinha pedido ao Marco para tomar conta da “Belinha”. Ela tinha de ir à loja do senhor Francisco. Quando voltava, rua acima, ouviu um burburinho. O coração deu-lhe um salto. Estugou o passo e o que viu ela? A Isabel chorava como se a estivessem a matar. O Marco à luta com dois miúdos, bem maiores do que ele. Largou o saco no chão e correu. Chegou ao mesmo tempo que a mãe do Joaquim, um dos rapazes. Cada uma delas agarrou na orelha do filho e lá conseguiram separá-los. O Marco estava esfolado num joelho e tinha um cotovelo a sangrar. Quando lhe perguntou qual a causa da bulha, o Marco, a choramingar, disse-lhe que os rapazes tinham tirado “à minha Bel” um pedacito de bolo. Como ela começara a chorar, ele não esteve com mais...

Fui-lhes òs focinhos , mãe

Na época, o Marco andava pelos oito anitos e os outros dois já tinham mais de treze.

O povo até costumava dizer que há crianças que não largam a saia à mãe, mas que a Isabel era diferente... andava sempre agarrada às calças do Marco.

Aos doze anos, a Isabel começou a transformar-se numa mulherzinha. O Marco, com dezassete, foi apreciando as mudanças na sua irmãzinha.

A Isabel continuou a agir como sempre fizera. Quando lhe dava na gana, agarrava-se ao irmão e, se para aí estivesse virada, repenicava-lhe um beijo na cara e... depois outro na testa.

Como tinha menos que estudar sobrava-lhe tempo. Nessas alturas ia até ao quarto do irmão. Sentia-se tão bem junto do Marco que ele tinha que a por do quarto para fora.

Muitas vezes a Isabel pedia ajuda ao Marco para resolver um trabalho de casa ou para tirar uma dúvida. Ele sempre tinha sido bom aluno e gostava muito de poder ajudar a “Bel”...

Um dia a Isabel chegou a casa e foi direita ao quarto do irmão, que estava a preparar-se para as provas do 12º.

Encostou a porta e, em voz baixa, meia sem jeito, perguntou-lhe se ele tinha um tempinho para falar com ela.

Marco estranhou o comportamento da irmã. Olhou para ela. Quase ficou admirado pela beleza da Bel. Não havia maneira de se habituar a vê-la transformar-se a cada dia que passava.

- Diz lá...

- Vais-te rir de mim...

- Hmm... que é que andaste a fazer?...

- Oh...

- Estava a brincar... anda cá...

A Isabel, alta para os seus treze anos, aproximou-se do irmão e sentou-se junto a ele.

- Queria-te perguntar uma coisa...

- Sim...

A Isabel virou-se para ele e... ali ficou a olhá-lo nos olhos...

- Posso dar-te um beijo?...

Marco não estava a perceber o que se passava... ou, melhor, já tinha percebido que a irmã queria alguma coisa mas estava a desconversar.

- Queres um beijo? É para já...

Marco inclinou-se e ia dar-lhe um beijo no rosto mas, a Isabel parou-o.

- Não... assim...

A Isabel colocou-lhe a mão na face e aproximou os lábios dos de Marco.

Paralisado, ele sentiu-a chegar-se a si. Como se o tempo corresse muito devagar... devagarinho... Marco sentiu o toque.

A Isabel ficou assim, de lábios nos lábios, olhar fixo nos olhos do irmão. Lentamente, foi fechando os olhos...

Marco continuou paralisado... nem respirava... o coração latindo...

De onde estava pode ver a porta a abrir-se.

Em câmara muito lenta... surgiu, aos poucos, a figura do pai.

O senhor Manuel... olhou mas não quis acreditar...

Petrificado que nem uma estátua, foi perdendo as cores... ficou sem pinga de sangue.

A mão continuou agarrada ao puxador da porta... os dedos ficaram brancos de tanto apertar.

Por fim, moveu-se.

Devagar... puxou a porta.

Alheia ao que acontecera, Isabel abriu os olhos e quebrou o beijo... o seu primeiro beijo.

******

Quando Marco arranjou coragem para ir falar com o pai esbarrou na incompreensão total. O pai recusou-se a acreditar no que ele contava.

No dia seguinte, pediu ao pai para lhe arranjar qualquer coisa, bem longe.

Foi para França e nunca mais voltou, nem quando soube que o pai tinha morrido.

Informação: qualquer semelhança com cenas e personagens da vida real será, certamente, mera coincidência.

quinta-feira, 4 de março de 2010

o espólio da senhora Maeda (parte 1)


A SITUAÇÃO: piano-bar de um tradicional clube de São Paulo, capital, onde dois amigos degustam o terceiro bourbon da tarde, enquanto a quarta cerveja Guiness espera no balde com gelo. Eles performam um antigo hábito no clube que freqüentam desde que nasceram, o “esquenta” vespertino que precede a parceirada de bridge à noite no salão de jogos. Têm a mesma idade, 53 anos, e um deles está prestes a fazer uma revelação.

OS AMIGOS:
Rafael é um financista, investidor com interesses nos empreendimentos de alta tecnologia; ele mesmo tendo sido empresário e inventor de um sistema revolucionário de controle de estoques e distribuição no ramo da logística. Ex-obeso mórbido, perdeu 46 kg no último ano e meio após uma cirurgia bariátrica. Nunca se casou, não tem filhos e mora com o irmão mais novo e uma tia.
Pedro está prestes a mergulhar de cabeça no 5º casamento (que na verdade é a retomada do 2º), tem 3 filhos e uma contenda jurídica pela guarda do terceiro filho, fruto do 4º e, até agora, último casamento. Antiquário de profissão, toca a empresa fundada pela mãe, falecida há 4 anos; herdou do pai a paixão pelo antigo-mobilismo e tem a maior coleção de Pumas conversíveis do Brasil.

Há palavras capazes de mudar uma vida. Também se poderia dizer, com mais razão ainda, que há confissões que mudam uma amizade. Assim como a rocha equilibrada no flanco da montanha, a chispa que cai na capoeira seca da floresta, o esporo que vai destruir a colheita da batata, o grão de escrúpulo que impede o homem de ousar, ou o grau de obsessão que faz filósofos ou idiotas, uma pequena causa pode gerar efeitos desproporcionalmente grandes. Talvez seja exagerado afirmar que uma palavra mal colocada pode lançar o mundo na guerra, mas ninguém há de negar que há situações extremamente dependentes em relação às condições iniciais ― e é aí que uma gota vira onda. Rafael e Pedro se conhecem desde antes do que a memória de ambos alcança, a começar por terem nascido em famílias unidas por laços de antiga amizade, com diferença de três meses, na mesma maternidade e pelas mãos do mesmo obstetra. De tudo na vida partilharam: a escola, os companheiros, as esbórnias, os primeiros namoros, a segunda falência, etc.; a única separação que conheceram foi na escolha profissional, quando Rafael se tornou politécnico e Pedro iniciou o curso (que nunca terminou) de História.

A amizade entre ambos, que tomam por um fenômeno natural entre outros, está para ser testada no decorrer de uma conversa banal em função de uma observação absolutamente anódina. Rafael aconselhava Pedro acerca da sua mania de reclamar ostensivamente dos garçons. A piada interna de Rafael quando o amigo pedia um café era dizer-lhe para pedir logo dois, uma vez que o primeiro fatalmente voltaria por estar frio, ou por isto, ou por aquilo, ou apenas pelo puro hábito de rezingar.

― Nunca vi um cara mais fresco do que você. Mas esse workshop do segmento de bares e restaurantes que acabei de fazer me tirou todas as dúvidas: não se pode chatear o atendente que realiza uma tarefa longe do olhar do cliente.

― Que é que você quer? Não posso diminuir meus padrões de qualidade, se você é gourmand, ou ex-gourmand se preferir, e eu sou o gourmet... ― de fato, Pedro sorvia sua cerveja preta como se fosse um licor, ao passo que o outro tinha modos de viking até para encher de ovas de esturjão uma simples torrada.

― Pois então, senhor gourmet, saiba que você é um apreciador contumaz e involuntário do que garçons e maîtres apelidaram de Molho Especial. O nome completo é: Molho Especial Para Clientes Malas; deixe a sua imaginação gastronômica se deliciar com tudo que um funcionário humilhado publicamente pode lhe ofertar em privado: secreção nasal, cuspe, sola de sapato, secreções da acne, suor do peito, da bunda, exsudato de furúnculo...

― Pára, pára... gulp, que nojo! Eu não humilho ninguém, e depois, tem que se aceitar tudo, é? ― Pedro acabava de se arrepender da porção que encomendara há instantes.

Rafael considerava os bolinhos de bacalhau recém chegados com a melancolia de quem sabia que não poderia atacar mais do que dois deles; tinha de se contentar com porções ridículas desde que seu estômago fora reduzido ao tamanho de um porta-moedas e deixara de desembocar no duodeno para fazê-lo mais abaixo no intestino delgado. ― Olha, mandar voltar, pedir mais isto, menos aquilo, apurar o ponto... tudo isso é do jogo, onde você extrapola é no piti, no esporro ostensivo. E aí não tem perdão: Molho Especial na certa. Calculo uma incidência de 97% desse tempero em clientes com o seu perfil estressadinho.

― Rafael Afonso, meu querido, você tem o dom de ser disgusting; afirmo, sem medo de exagerar, que você elevou o grotesco ao nível de uma arte.

― É possível, mas nunca confie no que um homem faz quando ninguém sabe o que ele está fazendo; deixado a si mesmo o ser humano... ― Interrompeu-se, as palavras pareciam entrar em brasa viva nos ouvidos do outro. O silêncio imediato e a mudez subseqüente do amigo produziram nele uma impressão esquisita, como a passagem de um fantasma. Uma conhecida que passeava com uma criança pequena chamou a atenção de ambos e proporcionou a manobra diversionista que Rafael precisava para afastar o hiato constrangedor. Não podia deixar seu parceiro naquele ânimo sorumbático sabendo que o cacife da rodada de bridge, contra recente norma baixada no clube, valeria mil reais. ― Lembra dela?

― Claro que sim, é a Carlinha, sua namorada na 7ª B. Mas... por que você disse isso?...

― Por quê? Ora essa, porque ela me traz boas lembranças...

― Não tô me referindo a ela, Pedro Bó, tô falando daquele negócio do que as pessoas fazem quando ninguém vê!

― Não te parece óbvio? Ninguém é confiável quando não há ninguém vigiando, são os becos escuros da alma, queridão ― Rafael tentou encerrar o assunto com uma espetada certeira numa azeitona, que resvalou teimosamente pela travessa. ― Já sobre a Carlinha tenho uma instrutiva passagem para contar: dez anos faz que a reencontrei na mercearia do Jockey. Ela ainda não tinha essa neta, mas já tinha se separado, ou melhor, o marido já tinha se mudado para a casa da estagiária da empresa... Daí que a encontro, já recuperada do trauma, sarada, siliconada, bronzeada e tal... papo vai, papo vem, marcamos um jantar. Veja, na época em que namoramos... milhentos anos atrás éramos adolescentes, não rolou nada... uns beijinhos e tal e coisa, muito tesão e pouca ação, né? Mas agora a coisa era diferente, dava pra tirar a limpo, resgatar uma dúvida histórica, no gênero “como teria sido se”...

― Entendo: um revival 40 anos e 80 quilos depois. Ao menos no seu caso...

― Lindo, vou desconsiderar a maldade gratuita embutida em suas palavras e pular uma descrição grosseira da maravilhosa noite de amor que tivemos, apesar das dez arrobas que este galã possuía então. Pois fique sabendo que ela me confessou no pós coito que eu estava no topo da lista dos homens que ela sempre quis conhecer biblicamente, por assim dizer...

― Perva!...

― E aí me animei, falei que queria sair com ela de novo no fim de semana. Mas ela disse que não podia.

― Como assim, recusava a felicidade carnal a recém-Messalina?

― Ao contrário, respondeu-me na maior candura e caradura: “falei que você estava no topo, mas, e o resto da lista?”
― Hahahaha, muito boa! Per bacco, essa é que é a verdadeira busca do tempo perdido, excelente! ― Pedro riu gostosa e sinceramente, mas não podia disfarçar por inteiro que algum assunto continuava a remoer em seu íntimo. ― Rafa, acho que preciso te contar uma coisa... enfim, é um treco que nunca consegui falar com ninguém. Você se lembra de eu ter falado sobre o espólio da senhora Maeda?

(CONTINUA...)



domingo, 21 de fevereiro de 2010

conversa de café - A malandrice do Professor

Estava eu a ler o jornal, quando entraram o Hélder e o Rui.

- Senhora Felisberta, dois cafezinhos, se faz favor.

Sentaram-se na minha mesa.

- Então como é que foi a jantarada ontem?, perguntei eu ao Hélder.

Ele acabou de pôr o açúcar no café:

- Do melhor que há… ainda bem que o Francês decidiu abrir um restaurante. A mulher dele tem jeito prá coisa.

- E o que se come?

- Olha para começar o Prof. Pereira pediu umas entradas. Eu fiquei meio sem jeito, que não percebo nada dessas etiquetas e disse que podia ser igual para mim. E lá vieram as entradas.

Quando vi uns camarõezinhos até tive que engolir um suspiro. Já imaginaste se me traziam umas coxinhas de rã ou uns caracóis?

- Quanto às coxas de rã… nunca comi. Se calha até era capaz de provar. Agora os caracóis… Não me digas que nunca provaste?

- Nã… só de pensar naquela coisa gosmenta que eles deixam ao andar…

- Pois… eu já comi quando fui a Lisboa e bem que me souberam. Mas adiante… que mais…

- Depois é que foi o pior… Então, vocês estão a ver… Veio a moçita que trabalha lá a servir às mesas, tirou os pratinhos dos camarões mais os molhos e logo a seguir traz duas taças, uma em cada pratinho. Pôs uma ao Professor e outra à minha frente. Eu olhei para aquilo e o que é vejo? A mim parecia-me água… Água mesmo, sem mais nada! Nem tugi nem mugi! Continuei na conversa a ver o que é que ele fazia… Mas nada! Às tantas lá perdi a vergonha e perguntei-lhe se aquilo era alguma sopa francesa. Ele olhou para mim muito sério e perguntou-me se eu nunca tinha provado o consommé à francesa. Lá lhe disse que não, que nunca tinha provado esse tal de consommé ou lá como é que ele falou… Que eu de francês não percebo nada, como sabes. Ele então disse-me que era uma sopa refinada. Olhei para os talheres e como não vi nenhuma colher ia a chamar a empregada quando o Professor me disse:

- Hélder… o consommé bebe-se… Pega-se na taça e bebe-se.

- Oh Professor mas isto é bom?

- Ora prove e logo me dirá!

Eu pego na taça e, coisa estranha, estava fria.

- Então… vamos lá. Prove!

Lá dei um golito. Porra lá para o consommé! Aquilo sabia a água… água fria sem tempero nem nada… nem um grãozito de sal, nadinha! Águinha pura da torneira!

O Professor continuava a olhar para mim como se estivesse à espera que eu desse a minha sentença sobre aquela coisa. Lá me armei em fino e fui bebendo aos golitos… Ainda dei uns estalos de língua como se me estivesse a saber muito bem e tudo.

Quando acabei o Professor disse-me:

- Agora para preparar a boca para o próximo prato, você tem de chupar esses dois gomos de limão que estão aí nesse pratinho…

Quando o Hélder acabou de dizer isto, o Rui começa a rir a bandeiras despregadas no que foi seguido por mim e mais uns bacanos que estavam na mesa ao lado e também estavam interessados em saber como é que era o novo restaurante.

- Ó Hélder… o Prof. Pereira bem ta pregou!

- Que é que estás para aí a dizer?

- A água e o limão eram para lavares as mãos, para tirar o cheiro do marisco!

O Hélder ficou a olhar para ele.

- Ai o malandro do Professor! Por isso é que ele deu uma desculpa esfarrapada para não comer a dele!

domingo, 31 de janeiro de 2010

conversa de café - O mistério das alheiras

- Boa tarde, Dona Felisberta.
- Boa tarde. O mesmo de sempre?
Ainda eu não tinha acabado de me sentar, quando entram duas “senhorecas”, conversando animadamente.
- …e então ela chama-me para ir ver o fenómeno! Lá fui eu…
- Pois olha que eu era capaz de não ir!
- Pois… mas lá fui eu. Abriu a porta e não é que era verdade? Lá estavam as alheiras todas esparramadas no chão que até parecia uma estrumeira!
- Todas??
- Bem… todas, todas não, que quando olhei para as varas ainda vi umas duas dúzias penduradas… Uma aqui, outra acolá…
- Que estragação!
- Tanto trabalhinho tivemos! Um dia inteiro, meia dúzia de mulheres para encher quarenta dúzias e ver aquilo assim… Até me deu uma dor de alma!
- Mas… foi das tripas ou?
- Qual quê… quais tripas! Cá para mim, aquilo foi mau-olhado que lhe deitou a Joaquina, que ela nem lhe pode ver um farrapo novo. É cá uma invejosa! Rais parta a mulher!
- Ora… Ora! E tu achas que o mau-olhado agora deita as alheiras abaixo, é? Tás é maluquinha! Ora, vejam lá… Não me digas que a tua prima também acredita nessas patranhas?
- Pois olha que quando lhe disse que só podia ser servicinho de alguém que lhe queria mal, não é que ela chegou logo lá?? Olha que há gente capaz de tudo!!
- Eu nessas coisas não acredito! Isso é que era bom! Tás-me a ver a mim a acreditar que alguém pode deitar um mau-olhado e as alheiras a começarem a cair das varas? Tem mas é juízo!
- Pois é… não acreditas nessas coisas? Olha que estes olhos já viram muita coisa! Sabes quem é a bruxa da Carvalheira? O que é que lá terá ido fazer a Joaquina a semana passada?
Eu quando vou à bruxa é porque quero alguma coisa!
- E eu é que sei o que é lá vão fazer as pessoas? Olha… eu é que não vou lá! Nem a essa nem a outra qualquer! Vade retro…
A Dona Felisberta, que estava a lavar uma chávenas, virou-se para elas.
- Eu estou como diz o galego: Não acredito em bruxas… pero que las hay, hay!
- Tás a ver? Até aqui a Dona Felisberta sabe que há destas coisas.
- Vá… vá! Não me meta nessa alhada que eu não quero confusão com ninguém. Olhe… Já agora, se mal pergunto... E só caíram as alheiras? A sua prima não fez chouriças pretas?
- Que é quer dizer?
- Oh, mulher de Deus! As chouriças de sangue! Os palaios!
- Pois, olhe que fala bem! Realmente… eu não vi nenhuma no chão!
- Oh, Diabo! Esse serviço é poderoso! Capaz de fazer deitar abaixo as alheiras e deixar escapar o resto, é obra!!
- Eu não te dizia?! Às tantas foi das tripas…
- Pois… poderá ser! Mas a mim ninguém me tira da cabeça que a Joaquina é má rês. Rais partam a mulher!!

sábado, 23 de janeiro de 2010

conversa de café - Raio de vida...

Estávamos sentados a tomar o café depois do almoço e a conversa ia e vinha a propósito e despropósito das imagens que corriam na televisão.
- Que raio… Agora é todos os dias! Até parece que não há mais nada para dar! Mais um que matou a mulher…
- Sabe-se lá o porquê destas coisas… Quantas mais falarem nisto, mais malucos há para os imitarem.
- Tu achas que funciona assim? Só porque ouvem na televisão uma notícia destas, há gente capaz de pensar em dar um passo destes? Não… Quem faz uma coisa destas é porque já a andava a tramar…
Entretanto, chega o Neca e senta-se para tomar o cafézinho.
- Então, novidades?
- Mais um que matou a mulher… deu agora mesmo nas notícias.
- Disseram que este ano já há oito mortes destas…
- E ainda o ano está a começar!
- Não dá para perceber… Porra, se uma gaja anda a pôr os cornos a um gajo eu ainda aceito que se lhe dê um par de estaladas e depois… rua! Agora, matar??
O Neca pousou a chávena e puxou do cigarro. Como aquele era um café de não-fumadores ficou a brincar com ele entre os dedos.
- Pois… É fácil falar quando não é connosco.

Olhai… Quando estava na guerra na Guiné, foi parar à minha unidade um rapaz aqui de Trás-os-Montes. Calado, daquele tipo de gente que se mete para dentro de si mesmo… Mas era um gajo de confiança! Quando precisasses dele podias ter a certeza que não falhava. Passado um tempo, ele soube que eu também era destas bandas e como eu era alferes veio pedir-me um favor..
Bom, o que interessa é que fomos ficando mais à vontade um com o outro e um dia, já nem sei por que carga de água, veio à baila falarmos sobre a minha ida para a guerra.
Lá lhe contei que tinha sido obrigado a abandonar Coimbra e o curso por que alguém deve ter achado que eu também andei metido naquela confusão da greve académica… Como se eu não tivesse coisas mais interessantes para me ocupar do que com a merda da política…
Foi então que me contou a história dele.
Trabalhava numa oficina de automóveis como aprendiz de mecânico. Já namorava com uma rapariga lá da aldeia há bastante tempo. Como tinha sido aumentado e o padrinho, que era o dono da oficina, lhe tinha prometido que podia ficar a trabalhar naquela arte, tinham achado que estava na hora de constituir família e decidiram casar.
O casamento estava marcado para um sábado e na quinta-feira o padrinho chamou-o ao escritório onde também estava a madrinha que lhe desejou as maiores felicidades e lhe entregou um grande embrulho. Era a prenda de casamento. O padrinho disse-lhe que podia ir para a aldeia, para ajudar aos preparativos da boda e prometeu-lhe que estaria lá bastante cedo para dar uma palavrinha aos pais dele.
O rapaz lá foi. Apanhou uma boleia e chegou à aldeia ao fim da tarde.
Como levava a prenda e querendo fazer uma surpresa à noiva decidiu que o melhor era não a guardar em casa.
Atrás da casa tinham um palheiro e foi para lá que se dirigiu enquanto pensava qual o melhor lugar para esconder o embrulho.
Conforme abriu a porta, ouviu uns ruídos… eram uns gemidos que vinha de trás de uns fardos de feno. Curioso, deu dois passos na direcção dos fardos e pôs-se em bicos de pés para ver por cima deles…
Ficou paralizado, deixou cair das mãos o embrulho…
Encostada aos fardos estava uma forquilha…
Instintivamente, pegou nela com as duas mãos e atirou-se por cima dos fardos de feno e espetou a forquilha no par que dava origem àqueles gemidos.
Os ganchos da forquilha trespassaram o homem de um lado ao outro e enterraram-se na moça.
Com raiva, empurrou uma e outra vez a forquilha até lhe doerem os braços da força que fazia.
Olhou uma última vez para aquele par desgraçado e foi-se embora. Voltou para a sede do concelho e entregou-se à Guarda.
Quando acabou de me contar isto as lágrimas enchiam-lhe os olhos e disse-me:
- Meu Alferes, o que mais me custa são as saudades que tenho do meu Pai. Mas não estou nada arrependido de ter feito aquilo que fiz. Se preciso fosse, voltava a fazer a mesma coisa!
Foi aí que eu percebi que ele tinha morto o pai e a noiva.


Os dois companheiros de conversa estavam estarrecidos.
- Raio de vida…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

conversa de café - 1 (final)



Saí para fumar um cigarro.
Lá estavam os dois marmanjos a comentar os últimos desenvolvimentos da notícia do dia naquela aldeia onde quase nada acontecia.
-… pois, tás a ver? O homem era lá capaz dessas coisas que estavas a dizer!
- hmmm… para mim ele anda mas é a mandar-se à sobrinha desta!
Ora vê lá se faz sentido ir daqui até não sei onde para acompanhar o raio da velha?
Nã… aqui há marosca… a ver se não tenho razão…
Eles são todos iguais. Então não te lembras do antigo…
Nisto o Padre João sai do café e provoca uma pausa na arenga.
- Oh… Pedro, então andas com obras na casa?
- Pois é, senhor Padre. A ver se arranjo o telhado antes que o mau tempo venha.
Mas, hoje o pessoal não veio que tinham que acabar um trabalhito pró Aniceto… senão não estava aqui no café a flautear a polaina.
É que se não se andar em cima deles, não fazem nada… uns mandriões!
- Ah.. é? Pois ainda agora quando vinha pra baixo lá vi entrar o Jaquim… Até o ouvi chamar pela tua mulher!
A cara do Pedro era um tratado para quem soubesse ler fisionomias. Ciumento como era não conseguiu disfarçar.
- Bom… deixa-me lá ir senão ainda chego tarde prá missa! Deus vos guarde!
Ao virar-se o padre João deu-me uma piscadela de olho e, apesar de não ter a certeza, quase jurava ter-lhe visto um sorriso matreiro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

conversa de café - 1

Saí do carro, carreguei no botãozinho para trancar as portas, olhei para os outros carros estacionados junto ao passeio e atravessei a estrada.
Logo que entrei no café senti o calor do fogão. Tirei o casaco e pedi um café curto. Peguei no jornal que me deixavam ali todos os dias e sentei-me numa das mesas, de frente para o ecrã gigante.
- Obrigado.
Abri o pacote de açúcar e comecei a ver as notícias.
(… o mesmo de sempre! Isto está uma m….!)
De repente, começo a dar atenção a uma conversa.
- … partiu o carro todo!
- Não me digas! Mas como é que foi?
- Acho que o Padreco disse que deve ter adormecido…
- Pois… tá-se mesmo a ver… às tantas da noite deu-lhe o sono.
- Falta é saber de onde vinha àquela hora.
- Se calhar foi rezar alguma Avé-Maria…
- Dizem pra aí que ele gosta muito de ir para certas bandas… lá prós lados dos galegos!
- Tás a brincar? E ele é lá disso?
- Eu cá nunca o vi… mas eu também não sou homem de ir gastar o meu dinheirinho com aquelas brasileiras.
- Mas, afinal, ele vinha de onde?
- Dizem… dizem que vinha da Espanha… tás a ver? Cansado… não é? Dizem que as brasileiras são fogo… E vai daí… espetou-se! Agora só faltava que ele nos viesse pedir que o povo ajudasse a pagar o arranjo do carro!
Levanto os olhos do jornal e quando vou olhar para aquele par de línguas afiadas, quem vejo a dirigir-se para a porta do café? Nem mais…
- Boa tarde!
- Boa tarde, senhor Padre! Então, como é que aconteceu aquela desgraça?
- Foi só chapa… graças a Deus!
- Oh senhor Padre… já não tem idade para essas coisas! Andar a conduzir às tantas da noite? Depois … acontecem estas desgraças.
- Pois é… Mas que é que se há-de fazer? Seja feita a vontade de Deus!
- Se precisar de alguma coisinha, já sabe… à sua disposição!
- Fico muito agradecido pela vossa preocupação.
Virando-se para a dona da casa que, entretanto, saíra da cozinha:
- Dona Felisberta, será que me podia fazer um favor? Telefonava à sua sobrinha a dizer que hoje não posso lá ir? Os da oficina não me arranjam um carro…
- Como é que está a minha irmã?
- Malzinho… esta noite estive lá até às tantas… Uma santa! É uma santa! Rezámos não sei quantos terços porque ela só me dizia: Oh senhor Padre… faça-me o favor de rezarmos juntos até eu me finar… Mas depois lá se ficou a dormir…
Quando dei por isso, já a porta do café se fechava sobre os dois malandrecos…

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

conto de Natal


Está frio… chove, chuvinha que se entranha.
Lá está a Igreja. Vou fumar um cigarro antes de entrar.
Puxa… está mais frio cá dentro do que na rua… deve ser da neve
Vou ver o presépio
Este ano a miudagem esmerou-se, tantas figurinhas…
Ué…
Será impressão minha?
Ia jurar (perdão…) que vi o bafo da vaca cair por cima do Menino…
Olha… é mesmo!
Cadê o burro?
Tanta figura e não tem o burro?
Ué… tou sentindo um bafo no cangote!

Eu já não avisei você para não voltar a entrar aqui?

Será que estou ouvindo bem? Quem me fala?

Ô… vê se acorda… isto não é lugar pra dormir…
Toca a andar lá pra fora!


Pôxa…
Tá frio… chuva danada…
Acho que o Menino vai sentir a falta do burro!



(foto de José Doutel Coroado tirada do meu blog, que está nos links - Vilarandelo - um dia uma imagem)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O OVO CÓSMICO

A oitenta quilômetros por hora, o impacto faz da superfície do mar uma crosta de pedras. E esta foi só a primeira descoberta do dia. Daí veio a mega-vaca, o tranco daquela catedral de água desabando em cima de mim ― uma sensação igual a nada que já tivesse experimentado antes. Dezoito metros. A onda fechou as mandíbulas de cristal bem nas minhas costas; por um segundo cheguei a ouvir o rugido dela quebrando e em seguida o silêncio me engoliu. Comparar com uma queda livre ou com a ausência de gravidade é pouco: até porque nessas paradas radicais há um certo consolo, já que os movimentos, ainda que sujeitos a condições especiais e adrenalizados pelo perigo, seguem obedientes à nossa vontade. Neste exato momento, apesar do risco físico extremo em que me encontro, não posso fazer absolutamente nada.

“Não é fácil renunciar por inteiro ao controle se estamos acordados”. Foi o sentido das palavras que consegui entender da minha amiga tahitiana, anteontem, diante do meu mapa astral; ela me explicou também que estou atravessando uma fase chamada de Retorno de Saturno. Mas eu não deveria pensar nisso agora. Aliás, o ideal mesmo é não focar o pensamento, apenas aceitar o instante que se apresenta; sem raiva e sem apego, como aprendi na meditação. Aprendi muita coisa viajando, deu pra conhecer uma pá de gente incrível em dez anos de circuito. Tenho vinte e nove anos e, até há menos de um minuto atrás, estava sobre a minha prancha e o meu corpo me pertencia ― não era esse boneco de pano que está sendo furiosamente sacudido, girado em todos os sentidos até perder todo o senso de direção e posição.

O colete salva-vidas foi arrancado e o meu pé acertou a testa com toda a força; então, o pânico passou e, como se fosse um programa automático, entraram em ação uma série de procedimentos de emergência que adquiri sem perceber numa vida de contato diário com o mar. Agrupei, quer dizer, consegui me fechar feito um tatu-bola. Ou um feto. Melhor: um ovo. Saturno é o finalizador de ciclos, ele traz a sabedoria retrospectiva que vem junto com a velhice, a dificuldade, a doença e as trevas. Acho que não devia pensar assim, mas o caldo me jogou na região das sombras infernais, no caos primitivo em que as sementes de todas as coisas estão confundidas e misturadas, que me arrasta como e para onde quer, e que torna qualquer decisão pesada como o chumbo que recheia as pranchas curtas dos big riders. Maraü disse ainda que nesta nova fase eu deveria rejeitar a casca e tomar o núcleo, purificar-me três vezes com o sol, o sal e a água, e que isto seria facilitado, pois Saturno viu o seu rosto refletido no espelho de Marte.

O filme passando na cabeça é conhecido, mas parece a biografia de várias pessoas que viviam em mim de forma independente; o primeiro campeonato que venci aos sete anos em Macaé, a saída de casa aos treze, o começo no profissionalismo, o logo do patrocinador, a estréia cabulosa no Qualifying em Todos Santos, daí, só pauleira: Backdoor, Off the Wall, Mentawai, Jaws, Padang, Puerto Escondido, J-Bay, Pico Alto, Lacanau... um carrossel de imagens nítidas, mas sem as emoções correspondentes. Será que já era, fui? Um estado suspenso? Regredi para o grumo original, o corpúsculo de possibilidades que ainda não sabe se vai germinar, um ovinho sendo turbilhonado por uma centrífuga do tamanho de um prédio de seis andares. Achei o ninho do Simurgh, aqui, na barriga da baleia, as memórias explodem na mente: a caminhada fulminante no acesso ao W.C.T., alinhar nas baterias dos top 45, tocar na banda do Kelly, o casamento na Califa, as drogas, o seqüestro da irmã, a separação. Mas eu devia me preocupar só em manter a apnéia e não pensar nisso agora.

Apenas ficar ligado no presente, passado e futuro são Maīa, ilusões criadas para distrair ou sofrer. É preciso praticar a aceitação resignada, incorporar completamente a passividade e a compaixão plena ― o vazio serve de ponte entre o vácuo e a potência total. A rainha da série me pegou, quando ela parar, precisarei de forças para nadar. Om.

O Pacífico, imensidão desesperadora de tanto azul, me ensinou que qualquer pedaço de terra está no topo de uma cordilheira que se ergue do fundo dos oceanos. Terra, o planeta-mar. O Tahiti é uma dessas montanhas, situada pouco acima do paralelo 20 Sul na Polinésia francesa; uma ilha vulcânica em forma de oito inclinado, na ilhota menor, a sudoeste, fica Teahupoo. Os locais pronunciam ‘tchôpo’ e avisam logo: cuidado com a esmagadora de crânios. As mãos de Maraü preparam suco de noni, uma espécie de fruta-pão nativa que cura tudo, até o veneno do peixe-agulha. No tubo da onda está a manifestação da divindade no surfe: inspirar, mandar pra baixo, entubar profundo, passar a mão na parede e sair limpo na espuma. Teahupoo, o sonho/pesadelo dos surfistas: reef break de esquerdas rápidas, fortes e tubulares que “sugam o chão” do mar, arrebentando numa bancada rasa de corais afiadíssimos. O Teco, com o lash preso nas pedras, vivendo aqui o pior inferno dele.

Agonia e êxtase. O perfume misturado de sangue e de tiare, a gardênia tahitiana; será o meu destino abraçar Iemanjá nos mares do sul? Justo agora que me casei de novo, e o primeiro filho dorme sussu na placenta dentro da minha terceira mulher? Nunca fui um casca-grossa, fui criado na marolinha; quando mudei para Saquarema, respeitei aquelas ressacas, os swells nervosos, em Mavericks conheci o terror. Morar na baja Califórnia não fez do merrequeiro, especialista em manobras aéreas, um domador de titãs. Não, não devia pensar nisso agora. Há dois anos, quando voltei a competir e as contusões seguidas mostraram que já não agüentava a puxada competitiva, cheio de contas a pagar, encarei a parada do tow in e pedi abrigo na confraria dos caçadores de gigantes. Rebocado por jet ski, pude descer umas bombas que na remada não iam rolar. O falecido Mark Foo é que disse: quem quer pegar as maiores ondas, tem de estar preparado para pagar o maior dos preços.

Vacilei na saída do tubo, um erro cabaço, perdi visibilidade com a baforada, aquele suspiro que sopra do ventre da onda antes de se fechar. Saí da linha no solavanco, essas morras não têm a superfície lisa, e é por isso que a prancha leva lastro e os pés ficam presos como no snowboard. De repente a casa está caindo, um terremoto vai derrubando quartos, paredes, escadas, corredores e, lá no fundo, a gente vê uma única rota de fuga, só alcançando esta saída é que poderemos escapar da casa ruindo. Sair do tubo da onda é como nascer. Se emergir deste caldo, nasci de novo. Ninguém sabe o que uma onda realmente é; ela dura os poucos segundos de um sonho, lá dentro o tempo se dilata e acelera em momentos-século, e cada instante que chega é um paradoxo que altera os que o antecederam. Dizem que o Universo tem ondas, dobras nas quais se depositaram por gravidade os sóis, as galáxias, os asteróides, os planetas e... nós, poeira de estrelas. In utero. Agora estou preenchido de uma alegria juvenil, uma brancura silenciosa me envolve; experimento o nada, antes de todo e qualquer nascimento ou começo, sinto que estou na primeira fase da luta contra a morte, a entrada no invisível. Não sei mais o que está no alto ou em baixo, onde está a esquerda ou a direita; estou retornando para o zigoto, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, sessenta e quatro células, uma mórula, os pólos animal e vegetal, a boca, o ânus, a gástrula, um cordão vertebral, uma noite tépida e feliz, feita de uma matéria clara e envolvente que une o ar e a água, o céu e a terra, uma imagem cósmica, ampla, imensa, suave.