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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Conversa de Café - pescarias e crianças

Pescarias e crianças


Ia eu a entrar na esplanada do café quando a vi a Anália e a sua filhota, a Eva, que vinham a sair de lá de dentro da sala.

Como sempre, a pequena Eva, nos seus três anitos todos repimpados, mostrava a sua cara alegre.

Cumprimentámo-nos quando reparei que a Eva tinha na mão um objecto qualquer.

- Que é que trazes aí?

- É uma varinha mágica, respondeu-me a Anália, enquanto a Eva ma mostrava. Diz ela que se não nos portarmos bem nos transforma em sapos, não é filha?

Ri-me e entrei no café que o fim de tarde estava demasiado frio para ficar na esplanada.

Ao balcão estava o Vítor, pai babado da Eva.

- Então, que te deu para vires tomar o café a Vilarandelo?

- Viemos dar um passeio.

- Vi a truta que pescaste no Domingo… no blogue até parecia bem grandita!

- Mais de seiscentas gramas…

- Apareceram muitos pescadores?

- Éramos mais de trinta… mas só pesquei duas trutas durante todo o dia!

- Porquê? O Rabaçal já não dá peixe?

O Vítor virou-se para trás porque a Eva lhe tinha puxado pela roupa.

- Pai, a minha Mamã diz para irmos embora…

- Olha, toma a chave do carro e diz à tua Mamã que o teu Papá já vai…

E lá foi ela com a chave na mão…

Paguei o café e o maço de cigarros e saímos, em direcção aos carros, enquanto íamos falando de peixes, de pescadores e de matadores de peixes…

Despedi-me do Vítor e da Anália.

- Adeus, disse a Eva.

- Xau, respondi e, dando-lhe as costas, continuei a andar, que tinha de ir ao caixa automático para sacar dinheiro.

- Pai, ouvi a Eva dizer, vamos embora senão faço de ti um sapo!

A Anália e o Vítor deram uma rizada e eu fiz o mesmo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

conversa de café - A malandrice do Professor

Estava eu a ler o jornal, quando entraram o Hélder e o Rui.

- Senhora Felisberta, dois cafezinhos, se faz favor.

Sentaram-se na minha mesa.

- Então como é que foi a jantarada ontem?, perguntei eu ao Hélder.

Ele acabou de pôr o açúcar no café:

- Do melhor que há… ainda bem que o Francês decidiu abrir um restaurante. A mulher dele tem jeito prá coisa.

- E o que se come?

- Olha para começar o Prof. Pereira pediu umas entradas. Eu fiquei meio sem jeito, que não percebo nada dessas etiquetas e disse que podia ser igual para mim. E lá vieram as entradas.

Quando vi uns camarõezinhos até tive que engolir um suspiro. Já imaginaste se me traziam umas coxinhas de rã ou uns caracóis?

- Quanto às coxas de rã… nunca comi. Se calha até era capaz de provar. Agora os caracóis… Não me digas que nunca provaste?

- Nã… só de pensar naquela coisa gosmenta que eles deixam ao andar…

- Pois… eu já comi quando fui a Lisboa e bem que me souberam. Mas adiante… que mais…

- Depois é que foi o pior… Então, vocês estão a ver… Veio a moçita que trabalha lá a servir às mesas, tirou os pratinhos dos camarões mais os molhos e logo a seguir traz duas taças, uma em cada pratinho. Pôs uma ao Professor e outra à minha frente. Eu olhei para aquilo e o que é vejo? A mim parecia-me água… Água mesmo, sem mais nada! Nem tugi nem mugi! Continuei na conversa a ver o que é que ele fazia… Mas nada! Às tantas lá perdi a vergonha e perguntei-lhe se aquilo era alguma sopa francesa. Ele olhou para mim muito sério e perguntou-me se eu nunca tinha provado o consommé à francesa. Lá lhe disse que não, que nunca tinha provado esse tal de consommé ou lá como é que ele falou… Que eu de francês não percebo nada, como sabes. Ele então disse-me que era uma sopa refinada. Olhei para os talheres e como não vi nenhuma colher ia a chamar a empregada quando o Professor me disse:

- Hélder… o consommé bebe-se… Pega-se na taça e bebe-se.

- Oh Professor mas isto é bom?

- Ora prove e logo me dirá!

Eu pego na taça e, coisa estranha, estava fria.

- Então… vamos lá. Prove!

Lá dei um golito. Porra lá para o consommé! Aquilo sabia a água… água fria sem tempero nem nada… nem um grãozito de sal, nadinha! Águinha pura da torneira!

O Professor continuava a olhar para mim como se estivesse à espera que eu desse a minha sentença sobre aquela coisa. Lá me armei em fino e fui bebendo aos golitos… Ainda dei uns estalos de língua como se me estivesse a saber muito bem e tudo.

Quando acabei o Professor disse-me:

- Agora para preparar a boca para o próximo prato, você tem de chupar esses dois gomos de limão que estão aí nesse pratinho…

Quando o Hélder acabou de dizer isto, o Rui começa a rir a bandeiras despregadas no que foi seguido por mim e mais uns bacanos que estavam na mesa ao lado e também estavam interessados em saber como é que era o novo restaurante.

- Ó Hélder… o Prof. Pereira bem ta pregou!

- Que é que estás para aí a dizer?

- A água e o limão eram para lavares as mãos, para tirar o cheiro do marisco!

O Hélder ficou a olhar para ele.

- Ai o malandro do Professor! Por isso é que ele deu uma desculpa esfarrapada para não comer a dele!

domingo, 31 de janeiro de 2010

conversa de café - O mistério das alheiras

- Boa tarde, Dona Felisberta.
- Boa tarde. O mesmo de sempre?
Ainda eu não tinha acabado de me sentar, quando entram duas “senhorecas”, conversando animadamente.
- …e então ela chama-me para ir ver o fenómeno! Lá fui eu…
- Pois olha que eu era capaz de não ir!
- Pois… mas lá fui eu. Abriu a porta e não é que era verdade? Lá estavam as alheiras todas esparramadas no chão que até parecia uma estrumeira!
- Todas??
- Bem… todas, todas não, que quando olhei para as varas ainda vi umas duas dúzias penduradas… Uma aqui, outra acolá…
- Que estragação!
- Tanto trabalhinho tivemos! Um dia inteiro, meia dúzia de mulheres para encher quarenta dúzias e ver aquilo assim… Até me deu uma dor de alma!
- Mas… foi das tripas ou?
- Qual quê… quais tripas! Cá para mim, aquilo foi mau-olhado que lhe deitou a Joaquina, que ela nem lhe pode ver um farrapo novo. É cá uma invejosa! Rais parta a mulher!
- Ora… Ora! E tu achas que o mau-olhado agora deita as alheiras abaixo, é? Tás é maluquinha! Ora, vejam lá… Não me digas que a tua prima também acredita nessas patranhas?
- Pois olha que quando lhe disse que só podia ser servicinho de alguém que lhe queria mal, não é que ela chegou logo lá?? Olha que há gente capaz de tudo!!
- Eu nessas coisas não acredito! Isso é que era bom! Tás-me a ver a mim a acreditar que alguém pode deitar um mau-olhado e as alheiras a começarem a cair das varas? Tem mas é juízo!
- Pois é… não acreditas nessas coisas? Olha que estes olhos já viram muita coisa! Sabes quem é a bruxa da Carvalheira? O que é que lá terá ido fazer a Joaquina a semana passada?
Eu quando vou à bruxa é porque quero alguma coisa!
- E eu é que sei o que é lá vão fazer as pessoas? Olha… eu é que não vou lá! Nem a essa nem a outra qualquer! Vade retro…
A Dona Felisberta, que estava a lavar uma chávenas, virou-se para elas.
- Eu estou como diz o galego: Não acredito em bruxas… pero que las hay, hay!
- Tás a ver? Até aqui a Dona Felisberta sabe que há destas coisas.
- Vá… vá! Não me meta nessa alhada que eu não quero confusão com ninguém. Olhe… Já agora, se mal pergunto... E só caíram as alheiras? A sua prima não fez chouriças pretas?
- Que é quer dizer?
- Oh, mulher de Deus! As chouriças de sangue! Os palaios!
- Pois, olhe que fala bem! Realmente… eu não vi nenhuma no chão!
- Oh, Diabo! Esse serviço é poderoso! Capaz de fazer deitar abaixo as alheiras e deixar escapar o resto, é obra!!
- Eu não te dizia?! Às tantas foi das tripas…
- Pois… poderá ser! Mas a mim ninguém me tira da cabeça que a Joaquina é má rês. Rais partam a mulher!!

sábado, 23 de janeiro de 2010

conversa de café - Raio de vida...

Estávamos sentados a tomar o café depois do almoço e a conversa ia e vinha a propósito e despropósito das imagens que corriam na televisão.
- Que raio… Agora é todos os dias! Até parece que não há mais nada para dar! Mais um que matou a mulher…
- Sabe-se lá o porquê destas coisas… Quantas mais falarem nisto, mais malucos há para os imitarem.
- Tu achas que funciona assim? Só porque ouvem na televisão uma notícia destas, há gente capaz de pensar em dar um passo destes? Não… Quem faz uma coisa destas é porque já a andava a tramar…
Entretanto, chega o Neca e senta-se para tomar o cafézinho.
- Então, novidades?
- Mais um que matou a mulher… deu agora mesmo nas notícias.
- Disseram que este ano já há oito mortes destas…
- E ainda o ano está a começar!
- Não dá para perceber… Porra, se uma gaja anda a pôr os cornos a um gajo eu ainda aceito que se lhe dê um par de estaladas e depois… rua! Agora, matar??
O Neca pousou a chávena e puxou do cigarro. Como aquele era um café de não-fumadores ficou a brincar com ele entre os dedos.
- Pois… É fácil falar quando não é connosco.

Olhai… Quando estava na guerra na Guiné, foi parar à minha unidade um rapaz aqui de Trás-os-Montes. Calado, daquele tipo de gente que se mete para dentro de si mesmo… Mas era um gajo de confiança! Quando precisasses dele podias ter a certeza que não falhava. Passado um tempo, ele soube que eu também era destas bandas e como eu era alferes veio pedir-me um favor..
Bom, o que interessa é que fomos ficando mais à vontade um com o outro e um dia, já nem sei por que carga de água, veio à baila falarmos sobre a minha ida para a guerra.
Lá lhe contei que tinha sido obrigado a abandonar Coimbra e o curso por que alguém deve ter achado que eu também andei metido naquela confusão da greve académica… Como se eu não tivesse coisas mais interessantes para me ocupar do que com a merda da política…
Foi então que me contou a história dele.
Trabalhava numa oficina de automóveis como aprendiz de mecânico. Já namorava com uma rapariga lá da aldeia há bastante tempo. Como tinha sido aumentado e o padrinho, que era o dono da oficina, lhe tinha prometido que podia ficar a trabalhar naquela arte, tinham achado que estava na hora de constituir família e decidiram casar.
O casamento estava marcado para um sábado e na quinta-feira o padrinho chamou-o ao escritório onde também estava a madrinha que lhe desejou as maiores felicidades e lhe entregou um grande embrulho. Era a prenda de casamento. O padrinho disse-lhe que podia ir para a aldeia, para ajudar aos preparativos da boda e prometeu-lhe que estaria lá bastante cedo para dar uma palavrinha aos pais dele.
O rapaz lá foi. Apanhou uma boleia e chegou à aldeia ao fim da tarde.
Como levava a prenda e querendo fazer uma surpresa à noiva decidiu que o melhor era não a guardar em casa.
Atrás da casa tinham um palheiro e foi para lá que se dirigiu enquanto pensava qual o melhor lugar para esconder o embrulho.
Conforme abriu a porta, ouviu uns ruídos… eram uns gemidos que vinha de trás de uns fardos de feno. Curioso, deu dois passos na direcção dos fardos e pôs-se em bicos de pés para ver por cima deles…
Ficou paralizado, deixou cair das mãos o embrulho…
Encostada aos fardos estava uma forquilha…
Instintivamente, pegou nela com as duas mãos e atirou-se por cima dos fardos de feno e espetou a forquilha no par que dava origem àqueles gemidos.
Os ganchos da forquilha trespassaram o homem de um lado ao outro e enterraram-se na moça.
Com raiva, empurrou uma e outra vez a forquilha até lhe doerem os braços da força que fazia.
Olhou uma última vez para aquele par desgraçado e foi-se embora. Voltou para a sede do concelho e entregou-se à Guarda.
Quando acabou de me contar isto as lágrimas enchiam-lhe os olhos e disse-me:
- Meu Alferes, o que mais me custa são as saudades que tenho do meu Pai. Mas não estou nada arrependido de ter feito aquilo que fiz. Se preciso fosse, voltava a fazer a mesma coisa!
Foi aí que eu percebi que ele tinha morto o pai e a noiva.


Os dois companheiros de conversa estavam estarrecidos.
- Raio de vida…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

conversa de café - 1 (final)



Saí para fumar um cigarro.
Lá estavam os dois marmanjos a comentar os últimos desenvolvimentos da notícia do dia naquela aldeia onde quase nada acontecia.
-… pois, tás a ver? O homem era lá capaz dessas coisas que estavas a dizer!
- hmmm… para mim ele anda mas é a mandar-se à sobrinha desta!
Ora vê lá se faz sentido ir daqui até não sei onde para acompanhar o raio da velha?
Nã… aqui há marosca… a ver se não tenho razão…
Eles são todos iguais. Então não te lembras do antigo…
Nisto o Padre João sai do café e provoca uma pausa na arenga.
- Oh… Pedro, então andas com obras na casa?
- Pois é, senhor Padre. A ver se arranjo o telhado antes que o mau tempo venha.
Mas, hoje o pessoal não veio que tinham que acabar um trabalhito pró Aniceto… senão não estava aqui no café a flautear a polaina.
É que se não se andar em cima deles, não fazem nada… uns mandriões!
- Ah.. é? Pois ainda agora quando vinha pra baixo lá vi entrar o Jaquim… Até o ouvi chamar pela tua mulher!
A cara do Pedro era um tratado para quem soubesse ler fisionomias. Ciumento como era não conseguiu disfarçar.
- Bom… deixa-me lá ir senão ainda chego tarde prá missa! Deus vos guarde!
Ao virar-se o padre João deu-me uma piscadela de olho e, apesar de não ter a certeza, quase jurava ter-lhe visto um sorriso matreiro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

conversa de café - 1

Saí do carro, carreguei no botãozinho para trancar as portas, olhei para os outros carros estacionados junto ao passeio e atravessei a estrada.
Logo que entrei no café senti o calor do fogão. Tirei o casaco e pedi um café curto. Peguei no jornal que me deixavam ali todos os dias e sentei-me numa das mesas, de frente para o ecrã gigante.
- Obrigado.
Abri o pacote de açúcar e comecei a ver as notícias.
(… o mesmo de sempre! Isto está uma m….!)
De repente, começo a dar atenção a uma conversa.
- … partiu o carro todo!
- Não me digas! Mas como é que foi?
- Acho que o Padreco disse que deve ter adormecido…
- Pois… tá-se mesmo a ver… às tantas da noite deu-lhe o sono.
- Falta é saber de onde vinha àquela hora.
- Se calhar foi rezar alguma Avé-Maria…
- Dizem pra aí que ele gosta muito de ir para certas bandas… lá prós lados dos galegos!
- Tás a brincar? E ele é lá disso?
- Eu cá nunca o vi… mas eu também não sou homem de ir gastar o meu dinheirinho com aquelas brasileiras.
- Mas, afinal, ele vinha de onde?
- Dizem… dizem que vinha da Espanha… tás a ver? Cansado… não é? Dizem que as brasileiras são fogo… E vai daí… espetou-se! Agora só faltava que ele nos viesse pedir que o povo ajudasse a pagar o arranjo do carro!
Levanto os olhos do jornal e quando vou olhar para aquele par de línguas afiadas, quem vejo a dirigir-se para a porta do café? Nem mais…
- Boa tarde!
- Boa tarde, senhor Padre! Então, como é que aconteceu aquela desgraça?
- Foi só chapa… graças a Deus!
- Oh senhor Padre… já não tem idade para essas coisas! Andar a conduzir às tantas da noite? Depois … acontecem estas desgraças.
- Pois é… Mas que é que se há-de fazer? Seja feita a vontade de Deus!
- Se precisar de alguma coisinha, já sabe… à sua disposição!
- Fico muito agradecido pela vossa preocupação.
Virando-se para a dona da casa que, entretanto, saíra da cozinha:
- Dona Felisberta, será que me podia fazer um favor? Telefonava à sua sobrinha a dizer que hoje não posso lá ir? Os da oficina não me arranjam um carro…
- Como é que está a minha irmã?
- Malzinho… esta noite estive lá até às tantas… Uma santa! É uma santa! Rezámos não sei quantos terços porque ela só me dizia: Oh senhor Padre… faça-me o favor de rezarmos juntos até eu me finar… Mas depois lá se ficou a dormir…
Quando dei por isso, já a porta do café se fechava sobre os dois malandrecos…