terça-feira, 15 de novembro de 2011

obrigada eu, (parte 1)



No começo as pessoas me telefonavam para ter certeza de que eu não estava deprimida demais, sozinha demais, comendo de menos, bebendo demais, ou de luto, estranhamente alegre, alheia ou confusa além da conta. (Claro que tudo isso acontecia e ainda acontece mas resisto reclamando só um pouco, ciente do quanto me seria prejudicial ter os amigos e amigas muito perto ou muito longe numa hora destas.) Então é assim, levar um pé na bunda do marido aos cinqüenta. Não se fala na lata, está implícito: cinqüentinha na carcaça e o papo muda, ninguém mais diz que você tem a vida pela frente; finito, caput, já elvis, todos sabem que as portas do tal de ‘mercado’ se fecham.
Abri a porta para a empregada sair pela última vez depois de doze anos; acabávamos de fechar o acordo de demissão, paguei de uma só vez o proporcional de férias, décimo terceiro e o FGTS. Tudo certo e assinado. Precisei de um bom tempo de separação para perceber que a casa doravante seria um enorme trambolho para administrar e que, entranhado em cada canto, cada objeto, haveria uma mistura doída de presença e ausência dele. Teteu, seu estropício, precisava ser tão clichê e me trocar por uma mulher dez vezes mais gostosa e vinte anos mais nova?
“Você fica com a casa, a chácara em Itu e trinta por cento do faturamento em pro labore até eu conseguir comprar a sua parte na empresa...”
“E você fica com a Bugatti e a vadia do marketing, né, impiastro?!...”, rugi feito leoa mas aceitei feito gatinha mansa todas as condições razoáveis do cagalhão do meu ‘ex’; hoje, ganho para não ir trabalhar. Não tivemos filhos, as famílias não se dão, os amigos se dividiram salomonicamente; não temos mais porque nos encontrar.
No passe partout da sala estamos os dois abraçados, com montanhas brancas e a estação de esqui ao fundo; na dura realidade atual o desgraçado tem circulado com a Vesga por todos os restaurantes e casas noturnas em que pode encontrar conhecidos nesta cidade. Curioso como me peguei com essa característica dela, a vesguice, como se um pequeno defeito me servisse de alívio para as muitas, e óbvias, vantagens que a piriguete leva sobre mim. Acho mesmo que a princípio me iludi com o zarolhismo dela, no fim das contas, a falsa-sonsa catou a sardinha, a frigideira e o gato.
Coincidência: este moço que encontrei na garagem de casa também é estrábico. Pardo, jovem, tênis, calça jeans e blusa com capuz.
Ele simplesmente entrou pela porta da frente aberta sem que o tivesse visto enquanto me despedia da Zefa ― aliás, é incrível que ninguém tenha se apercebido da presença dele numa rua curta de um bairro residencial com escolta motorizada. Bairro nobre do lado de favela, mulher morando sozinha num casarão deste tamanho; os amigos bem que tentaram fazer a minha cabeça antes. Por sorte, parecia calmo.
“Ô tia, tem água pra mim?”, um volume sob a blusa que coçava sem revelar o conteúdo.
“Ali na cozinha, te levo. Por aqui.”
“E os cachorros?”
“Era um só, morreu faz um ano. Sobraram três gatos.”
“Tá sozinha?”
“Tou. E você?”, me arrependi imediatamente quando os nossos olhares se encontraram; saquei que ainda não estava autorizada a fazer perguntas, as regras iam se estabelecendo sem palavras e numa velocidade acelerada em relação aos padrões normais. Sentia uma lucidez e uma tranqüilidade vertiginosas, que não me abandonaram mesmo quando puxou a arma para fora.
“Ei, onde tá indo madame?”
“Te dar de beber. Tem refri na geladeira...”, tive de correr o risco para trazê-lo de volta.
“Tá... mas não faz nada sem me avisar, certo?”, sentou-se na cadeira que puxei para ele.
Ia me sentar também; parei, horrorizada, a meio do movimento. No estofamento da cadeira onde estivera há poucos minutos havia duas marcas fundas. Bem vinda à sua nova pessoa, querida, agora você senta com dois fêmures e um cóccix praticamente despidos daquela carne que antes se chamava bunda. Só que tinha bem mais com que me preocupar naquele momento.
“Onde tá seu marido, dona?”
“Não tenho mais, ele se mandou com outra.”
“Tá me tirando? E quem é que tá mexendo na merça da garagem, seu filho?”
“Não tivemos filhos. Aprendi a consertar de tanto que ele gostava, era colecionador de carros...”
“Carro velho, né tia? Mas, belê, vou sair fora nele quando acabar. Tá andando?”
“Sim. Você só me deixa dar uma sangrada no burrinho antes de sair, acabei de trocar as pastilhas e o fluido do freio...”
“Caraco, olha a mina, e não é que tu entende mesmo desta porra? Aí, então nóis tá sozinhão de tudo numa puta de uma casa monstro?”
Houve uma mudança na voz dele ― uma rachadura, algo como um ator de televisão imitando o sotaque dos pobres. Sob a luz da janela da cozinha via que ele não era tão moço assim; só havia reparado no corpo magro, o rosto escuro contra o clarão da manhã. Um choque de frio negro me subiu do pé da coluna em direção à nuca. Era verdade, ele podia fazer o que quisesse comigo. Até aquele momento tinha conseguido manter esta informação fora dos meus cálculos da situação. Gozado como a gente consegue se enganar. Mas ele não se enganou com a cara que devo ter feito.
“Êee... aí tia, tá suave, sem nóia, não tô a fim de te comer, não... você é velha, se ainda fosse bonita e eu sentisse um pouco de... tipo... então, fica tranqüila.”
“Eu estou, mas obrigado por me dizer.”
 

Um comentário:

Dalva Maria Ferreira disse...

Super tenso. Ser chamada de tia é a morte declarada.