domingo, 30 de dezembro de 2012

31 de Dezembro



De repente o céu
Explode em fogos
luzes relâmpagos

Champanhes
espumas
taças
comprimindo os lábios

Ardente
o céu explode
de repente
sacode
a terra é lenta
gira redonda trêmula
me abrigo em casas
fortalezas
em parentes me equilibro em
redundâncias

Ergo a taça. Dezembro
31. Existimos
então

ou
fomos já ceifados de alguma colheita



Eunice Arruda



Um Feliz 2013!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O seqüestro do Tunico (parte 2)




            Moreira, o chefe dos investigadores, tinha um quindim pela garota; não chegava ainda a ser “peixinha” dele, era um bocado xucra e não levava suficientemente a sério o papel da afeição nas promoções dentro da carreira policial. E dizer que nem calça-branca ela podia ser considerada, até porque já ralara um mau pedaço em delegacias da perifa brava; o problema é que achava que tinha ido parar ali, um dos distritos mais cobiçados da cidade, por merecimento. Mérito?, tá bom! O que será que os caras da academia andam pondo na cabeça desses moleques? Ele mesmo já ganhara a vida nos departamentos que contam: saíra do DHPP para esperar uma aposentadoria sem sustos num DP tranqüilinho e sem a emoção constante do sobe-e-desce de delegados seccionais e gerais, ou das frituras dos secretários de segurança. Agora, só precisava esperar o dia de pegar o seu boné; estava bonito na foto: vinte e quatro anos de firma, separado, dois lava-rápidos e um estacionamento, os filhos formados. Só esperar.
            Queria explicar para Runa que o titular não a estava humilhando ao mandá-la investigar um caso de totó desaparecido em condomínio de luxo ― tratava-se do exato oposto: um servicinho mamão-com-açúcar para ela fazer o seu cartaz com os ricaços, tornar-se credora de favores para um pica-grossa dos grandes; bons contatos são tudo, nesta como em outras profissões. Mas ainda não era a hora, certas lições, como os melhores vinhos, também requerem seu tempo de amadurecimento. Por ora, guardaria a viola no tonel de carvalho.
            Ao chegar de manhã, ela deu logo de cara com a tipa que mais a odiava gratuitamente no distrito: a Mega, abreviatura de Mega-Sena, por causa do tamanho e porque só acumulava. O apelido era escroto, mas a dona dele, idem ibidem; escrivã, tinha passado pela mão de todo o DEIC até ser transferida para o 96º, já com a carcaça bem gasta e a silhueta maciça rivalizando com as barcas da ROTA. Somada à amargura com a função, vinha a frustração de mais ninguém querer comê-la, nem sequer o Tabaréu, guerreiro do DP, que catava qualquer dragão e botava o pau em tudo que fosse buraco. Um caso clássico da primordial rivalidade feminina e antipatia natural à primeira vista.
            ― Investigador Franklin ― tinha essa mania irritante de masculinizar a forma de tratamento dela ―, ainda está nos devendo dois relatórios da...
            ― Vão estar à tarde na sua mesa escrivã, estou saindo para uma diligência agora.
            ― Ora, ora, se não são as flores do DP reunidas neste corredor sórdido... as senhoritas vêm sempre por aqui? ― Sandoval sempre dava um jeito de aparecer do nada para lhe dar um beijo meloso de bom dia, deixando a mão boba escorregar pela cintura de Runa após o tranco.
            ― Tô saindo... mas não se preocupe, o plantão promete; diversão não está faltando lá do lado de fora... ― aproveitou para pegar as chaves da viatura no quadro, a Mega ia lhe fazer um corta-luz providencial. Saída pela direita.
            ― Faz tempo que nós não tomamos uma cervejinha depois do serviço, hem, Sandoval?... ― dito e feito, Mega se atracou com o galinha-mor como previsto. Pelo menos ninguém podia dizer que ela não tentava.
            ― Pois é, minha linda, aquele negócio ainda está de pé, só depende de uma posição sua... ― lançou o gracejo de gosto e sentido duvidosos em voz alta para que a outra o ouvisse enquanto se afastava.
            ― Humpf, você só fala, agir que é bom...
            Ajustou a freqüência do rádio para se comunicar com o CEPOL, informou os dados de abertura do talão daquela diligência, passou a quilometragem inicial do carro, parou, hesitou alguns segundos, por fim mandou o motivo da saída da viatura: rixa de vizinhos. Deu partida e saiu do estacionamento sentindo-se a última bolacha podre do pacote. Isto é vida? Uma merda de ocorrência, bastava botar uma dessas faixas: “Perdeu-se cãozinho, criança doente”, uma foto, um telefone embaixo para contato, e pronto. Pensando bem, ainda faltaria a frasezinha mágica: “Gratifica-se bem”. Sem falar as frescuras que o delegado titular lhe repetira como se fosse uma criança; devia parar a viatura fora do condomínio, não poderia mostrar a funcional e, muito menos, exibir a ‘peça’. Gente fina é muito sensível.
            Condomínio Mares do Sul. Moderníssimo conceito de moradia, na verdade, um precursor paulistano da tendência das classes altas a se isolarem em ilhas de tranqüilidade e privilégio em meio à desagregação social das grandes aglomerações urbanas; seis torres com quatrocentos e noventa apartamentos, uma população residente estimada em mil e quinhentos moradores (sem contar empregados domésticos), ocupando tinta e cinco mil metros quadrados ― um clube cercado de prédios. Nos anos setenta do século passado, o Brooklin era tido como um bairro afastado na capital; visionários, como o famoso empreiteiro Yojiro Takaoka, perceberam antes a direção do êxodo dos abonados: fugir era a idéia. Fugir do centro, fugir do trânsito, do stress, das filas para tudo, e assim proliferaram estas pequenas cidades dentro da cidade: bosques, parques, cabeleireiro, cinema, teatro, academia de ginástica, restaurante, lavanderia, locadora, caixa eletrônico de banco e até uma escola de educação infantil. Segurança, conforto, lazer e exclusividade.
            Depois de um chá sem cadeira na portaria, onde só faltou lhe tirarem as digitais e pedirem o exame de fezes, Runa finalmente teve acesso à infeliz que perdera o Tunico, um cãozinho fofo da raça Yorkshire, de personalidade forte e que adorava um colo e um carinho. Aproximadamente cinco quilos, pêlo longo de cor caramelo nas patas e rostinho, mais escuro no lombo, Tunico estava sumido há quatro dias; mas, atenção!, não se perdera, fora seqüestrado dentro do condomínio. Entre acessos de choro convulsivo a dona ia mostrando uma infinidade de fotos do pobre resort de pulgas; soluçando, repetia que não podia nem imaginar gente capaz dessa barbárie.
            A policial se endireitou no confortável sofá de couro náutico, passeou o olhar pelas amplas janelas do apartamento dúplex da cobertura; a senhora Zélia vinha a ser simplesmente a esposa do síndico, um fodão dono de construtora que, a julgar pelos porta-retratos, podia ser avô dela. Considerou-a atentamente, mais parecia uma personificação da Barbie: loira, alta, nariz arrebitado, carnes firmes a preencher voluptuosamente as roupas de ginástica ― curtida na polaina e na drenagem linfática, só assim pra ser gostosa daquele jeito! A moça causava-lhe tamanha impressão que Runa quase duvidava da sua heterossexualidade; demorou segundos constrangedores para entender que a outra insistia que descessem.
            ― Vou lhe mostrar o lugar onde o Tunico estava quando sumiu... é um cercadinho onde os pets do condomínio brincam, tipo um playground deles...
            “Playground de pets, que porra de mundo é este?”, pensava a aturdida investigadora. Atravessaram uma alameda sombreada por luxuriantes ipês-rosa, o chão era de pedrisco branco misturado a flores caídas e cascas de pinus; contornaram à direita, próximo da esquina de uma das torres. O cercadinho estava vazio naquele horário, exceto por um ou dois cachorrinhos vigiados ao longe por empregadas de uniforme. Após examinar o local, retornaram pelo mesmo caminho. Um estrondo forte bem atrás delas. Viraram-se assustadas, um vaso grande se espatifara no lugar onde estavam poucos segundos antes.
            

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal



MENSAGEM
É
Natal
novamente
onde estamos
e onde não estamos

Nas ruas
nas noites enfeitadas
o Natal chega
passo a passo
em cada dia de dezembro
E não há como fugir
já não há onde esconder
o encontro é inevitável
Há que se aproximar então
o coração aberto
o afeto dilatado
Deixar
se desprender de nós
fardos desnecessários
forjados impedimentos
e aceitar
Aceitar esta carga - condição de ser humano

 
É Natal
Há que se respirar
com novo fôlego
um outro ar
aqui
onde estamos
e onde jamais estaremos
o Natal nos transporta
como um barco incansável


É preciso deixar
esta água
fluir
é preciso aceitar
o mistério das fontes

Não podemos deixar morrer nenhum nascimento
                                                                
  Eunice Arruda

sábado, 22 de dezembro de 2012

O seqüestro do Tunico (parte 1)

Photo by juliacatu 

Uma piça, uma jararaca de TPM. A investigadora Runa Franklin está tiririca, fula da vida, plena de ira santa: a sua primeira investigação numa delegacia de primeira linha é mais que frustrante, abaixo de decepcionante: apurar o desaparecimento de um luluzinho de madame! Ela sabe que não tem escolha, a ordem lhe veio transmitida pelo delegado de plantão, diretamente emanada do titular da nonagésima sexta delegacia da polícia civil ― ou, no peculiar jargão dos tiras, o noventa e seis DP. Talvez por ser novata, mulher, ou por qualquer outro motivo besta, o delegado titular achara algum tipo de graça em encarregá-la de uma diligência vexatória como esta.

Já podia ouvir a saraivada de gozações dos colegas quando a notícia se espalhasse. Embora, verdade seja dita, aquela “delegacia cidadã” de bairro chique raramente tivesse ocorrências dignas de nota por estar localizado na avenida Luís Carlos Berrini, principal artéria do vetor sudoeste de São Paulo; sede de empresas nacionais e multinacionais ligadas ao setor de serviços terciários. Uma área de expansão econômica que serve também de monumento involuntário ao capitalismo tupiniquim: pesadelo social e urbanístico projetado para a circulação (lenta) de carros e inóspito para pedestres, que plantou reluzentes monstrengos de ferro e vidro onde antes havia pobretes alegretes. 

 ― Moreira, me quebra essa, não estou dando conta, minha cabeça tá explodindo... preciso dar uma volta, sei lá, acho que vou dar um tempo lá no repouso... sussa? ― em momentos como esse, Runa pensou, era até bom o titular não dar as caras no serviço (como de costume), estava capaz de mandar um par de “pregos” da sua pistola .40 nos cornos do “doutor”. Refletiu: nos cornos, ou nos bagos? Nos cornos, concluiu, assim sempre era capaz de entrar alguma coisa ali.

― Vai na boa, aqui tá tranqüilo, qualquer coisa, apito ― o experiente Moreira simpatizou de cara com a noviça, mas via claramente o quanto ela ainda tinha que aprender da vida de polícia. Observou-a sair dali bufando.

 Normalmente, os investigadores de plantão, como Runa, são escrivães de luxo, porteiros preenchedores de boletins de ocorrências bestas: brigas de vizinhos, bêbados e nóias que perturbam a ordem pública, roubos miúdos, assaltos idem, cornudos que espancam as corneadoras e vice versa, e outras miudezas que as pessoas insistem em não registrar on line; por isto se estabelece um rodízio de duplas que atendem a demanda da porta de entrada da delegacia. A idéia é montar uma barreira de burocracia de modo a que o delegado de plantão seja incomodado o mínimo possível, de modo a que ele possa dedicar o maior tempo possível a se entediar e fazer bósnia nenhuma de útil.

Antes mesmo de entrar na sala de repouso, cuja reforma tinha sido paga por generosos e desinteressados “gravatinhas” do bairro, ela pôde ouvir a algazarra que investigadores e escrivães faziam lá dentro. É uma marca da corporação, a masculinidade agressiva e espetaculosa; no mundo à parte da camaradagem entre canas, a “viadagem” é o único crime inafiançável. O homem-de-verdade é o padrão ouro na ética dos tiras ― até mesmo para as mulheres: por exemplo, ser sapa não pega mal (“gosta da mesma fruta que nós”), já a pegadora ganha rapidamente a fama de vadia; mas a carreira não exclui os gays masculinos, bem entendido, desde que ele não desmunheque, não seja pintoso, nem deixe de freqüentar o puteiro com os amigos. Resumo da ópera: lá nos seus particulares, o cara faz o que quiser com o ilhós, e pode até soltar o brioco; mas que o faça como homem.

O alvo do bullying institucional, para não variar, era o escrivão conhecido como Tabaréu.

― Aí Tabaréu, fica bolado não, é só zoeira... desculpa se machuquei você por dentro...

― Relaxa Taba, quando você sente duas bolas batendo nas suas costas, é porque o pior já passou!

― É rapaz, isso mesmo, o que você não pode é deixar os caras gozarem na sua cara...

― ... muito menos levar bolada no queixo...

― ... ou cabeçada no céu da boca! Hahahaha!

 ― Aí mano, cês vão tudo se fuder, tá bom? ― segurava as partes pudendas por cima da calça apontando o volume para o grupo ao redor ― Senta no meu que é do que cês gosta... vão dar o cu com areia, seus merda!

― Hahaha! O quê, isso daí? Cê não deve tá usando nem pra mijar!

― O famoso aposentado...

― Pode crer, a piroca do Tabaréu tá que nem gato de armazém: só dorme em cima do saco...

― Parou, parou, rapaziada, acabou de entrar dama no recinto...

Ainda puta das calças, Runa escanchou-se numa poltrona livre.

― Dama é o caralho, a única dama que vocês conhecem é dama-da-noite, mulher-da-vida...

― Vixe, que humor do cão! Tava na sala do chefe, já se viu... Senta aí, toma um café e relaxa... mordeu rabo de gato, foi? ― Sandoval, o comedor do distrito, não perdia uma chance de jogar seu xaveco matador.

É. Não ia ter jeito, quando a tchurma soubesse da diligência que ia fazer no dia seguinte, a caçoada viria firme e forte pra cima dela.

domingo, 16 de dezembro de 2012

o cobrador de promessas (final)



― Irmãozinho, de boa, cê tá me zoando? Que porra é essa... nunca ouvi falar que isso existia, Fala logo o que quer de mim e cada um segue seu caminho, firmeza? ― Cyonil percebeu irritado que não conseguia desgrudar os olhos de uma mancha rosada no pescoço do tal cobrador.
― Pois então, você achou que esta hora não ia chegar: instalou “gato” de TV a cabo, comeu as donas de casa que lhe abriram as portas de casa e as pernas, aproveitou pra abafar umas coisinhas delas certo de que não iam te denunciar por vergonha, e ainda quer sair dessa sem pagar nada... é muita cara de pau, mano! Cumpre o que prometeu um dia, lá atrás quando tudo começou, e nunca mais você vai me ver...
― Mas... se eu não sei nem do que você está falando, vou pagar como? ― a conversa ia ficando perigosa pra ele; talvez o carinha fosse da empresa de telefonia, pensou aflito.
― Sossega rapaz, não sou da ‘firma’ não, minha instância é outra... ― pausou, aguardando o pasmo do moço com a verbalização do seu pensamento e voltou à carga ― Vou te dar um auxílio-memória, já que tu esquece tão facilmente certas paradas: você era um garoto, dezessete anos, a tua mina engravidou, você pediu pra ela abortar, daí, ela sumiu... coisa de uns dois anos, ela te mandou um e-mail, você tinha uma filha de treze anos, uma garota que só queria conhecer seu pai... e você, nada, recusou contato; tá lembrado agora?...
― Pô cara, cê tá me deixando mais pra baixo que cu de cobra...
― Mas não acaba aí, você prometeu a si mesmo que ia dar um presente de quinze anos pra essa menina, ia dar todos esses bagulhos roubados durante anos de vida bandida, foi ou não foi?...
― Chega! ― esmurrou a mesa, todo o bar fez silêncio esperando rebentar a treta. Cyonil se acalmou, esperou as atenções se dispersarem novamente. ― Desembucha mano, que é que eu tenho que fazer?
― Ora, ora... até que enfim... então, meu camarada, que tal fazer uma coisa até o fim? Uma só na vida...
― Você não tá entendendo o meu lado... casei de novo, hoje tenho uma família, filhos pequenos pra criar... minha mulher não sabe de nada disso, não posso, cara.
― Seguinte: não tô aqui pra julgar ninguém, nem pra entender os seus motivos, o que está feito, está feito; o que não pode é ficar uma promessa sem pagamento, até porque o que você pediu foi entregue...
― Bela roba! Quanta promessa que neguinho faz neste mundo e não paga, só eu que tenho de me foder por isso?
― Ah não, isso te garanto que não! ― assumiu um ar de extrema seriedade ― No meu departamento não tem arreglo nem presepada, te garanto; você pediu impunidade, obteve, fez e desfez e nunca houve sequer uma queixa... você nem imagina as mentiras que aquelas mulheres que você papou tiveram que contar para explicar o sumiço dos objetos roubados... É, você se incomoda quando falo em roubo, né?, mas a palavra é essa mesma: rou-ba-do...
― E daí? Um erro vai corrigir com outro? Dar o que não é meu para uma filha que não é minha...
― Isso mesmo.
― Quem é você?... de verdade, eu quero dizer...
― Sou isso mesmo que você acabou de dizer: um servidor que tenta fazer um acerto a partir de dois erros...
― Nada feito, cara. Simplesmente não posso.
― Bem, se é assim...
O sujeito levantou-se da mesa, foi até o caixa e pagou a conta. Saiu do boteco e virou à esquerda na rua sem olhar para trás. Mal havia desaparecido do campo visual, parou uma moto na calçada em frente. Os dois homens desceram da moto sem tirar os capacetes e entraram no bar. Não disseram uma palavra, apenas descarregaram suas armas automáticas atirando a esmo.

domingo, 9 de dezembro de 2012

o cobrador de promessas (parte 2)



As posições relativas haviam mudado subitamente; o homenzinho abandonara de vez o jeito sonso de falar como quem pede desculpas por existir e agora exibia modos desenvoltos e decididos, no limite da arrogância deslavada. Puxou uma cadeira ao seu lado: ― Por favor, sente-se. Já que consegui um pouquinho da sua atenção, podemos conversar civilizadamente...
― Muito que bem, vamos começar pelo começo então: como é mesmo o seu nome?
― Josefel, um seu criado... ― fez as palavras se acompanharem de um leve nuto, enquanto a mão de unhas sujas afastava uma mecha de cabelos da testa.
― Ok, voltando à vaca fria: onde foi que você pegou isso? ― Cyonil percebia com raiva vazante que o camarada acariciava a cigarreira com seus dedos curtos e roliços.
― Bom amigo, a verdadeira questão, me parece, é onde você pegou isso...
― É uma espécie de jogo, o que estamos...?
― Não. É uma espécie de acordo que eu estou tentando chegar com você... mas tem de haver um pouco mais de, hã, confiança mútua...
― Que tal um pouco de papo reto? Chega de dar volta, de conversinha mole, essa cigarreira não lhe pertence!
― E muito menos pertence a você! Já que pediu, vou lhe dizer: estava bem escondida, no fundo da garagem, dentro daquelas caixas seladas onde ficam as ordens de serviço antigas e os recibos... tá tudo guardado na prateleira mais alta, sua mulher nunca entra aí porque é meio que a sua oficina de consertos. Você não deixa ninguém limpar aquele lugar faz anos...
Royal straight flush, o rosca não estava blefando. Cyonil levou uns largos minutos para recuperar o fôlego, o coração parecia ter ficado suspenso entre uma batida e outra, o estômago, retorcido como um nó de balão de festa; uma serpente gelada havia descido pelas suas costas e entrado no seu cu. Pediu uma caninha ao garçom. ― Você é... da polícia?
― Claro que não, nada a ver. Garçom, traz também mais uma breja pra mim junto com a branquinha dele, por favor...
― Se não é cana, como é que foi entrando assim na minha casa, mexendo nas minhas coisas?
― Do mesmo jeito que você: vai instalar o cabo, ou dar manutenção no decodificador, entra na casa dos outros, vê o que quer... e pega. Não é assim que você faz?...
― Que é que você quer de mim? ― tremia, babava; derramou cachaça na gola, parecia um caco de gente, um menino assustado nas mãos de um homem que nunca tinha visto na vida.
― Vou abrir meu coração pra ti... não sou moralista, não é do meu feitio julgar ninguém, só vim aqui propor uma cutruca: te devolvo o que peguei de você, e você me paga o que deve...
― Pagar o quê? Você já falou isso uma pá de vezes, mas não consigo entender.
― Dá uma boa olhada ― o cobrador começou a tirar de um saco vários objetos: um relógio Hublot, um anel de ouro, um vidro de perfume azul com filigrana prateada, um broche com dois topázios, um açucareiro de porcelana St. Cloud, uma espiriteira de prata, uma estatueta Tanagra, um iPhone, um jogo de descanso de copos, um peso de papel em cristal millefiori ―, acho que são seus, ou melhor, não eram, mas passaram a ser...
― Você... pegou... tudo!
― Pois é, anos de “trabalho”, de risco... um risco calculado, certo, mas que exigiu uma boa dose de ousadia e sangue frio, não se pode negar...
― Quanto? ― de repente, Cyonil saiu do transe que o obnubilava; decidiu partir para o tudo ou nada.
― Como assim, quanto?...
― Quanto você quer? Você está aqui por algum motivo...
― Ah, meu amigo, sempre chega essa hora, não há um que não tente me comprar... entenda, não é que eu seja incorruptível, muito ao contrário até, mas acontece que recebo ordens de cima como todo mundo; se não puser na tua bunda, põem na minha... Você nunca dançou até agora por quê? Lembre: houve uma combinação, um acordo, e o combinado não é caro...
― Se não é dinheiro, você quer o quê então?
― Promessas. Sou um cobrador de promessas...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

o cobrador de promessas (parte 1)



            ― Hum, acho que o senhor gostaria de falar comigo... ― o homem nem esperou a resposta, levantou-se da mesa carregando uma incrível quantidade de embrulhos, pacotes, papeluchos, envelopes e sacolas, e sentou-se ao lado de Cyonil no balcão.
― Como?! Mas rapaz, se eu nem conheço você... ― só lhe faltava essa; fim de um dia cansativo, tinha parado pra tomar um rabo-de-galo antes de recolher a casa. E nem era o boteco onde fazia sua paradinha habitual.
― Desculpe. Você não me conhece, claro, mas insisto: precisamos conversar... ― o desconhecido esticou o braço, largando um cartão encardido ao lado do copo dele.
― Escuta, tive um dia cheio, fudido, você não vai me levar a mal, mas tô querendo ficar aqui no meu canto, sem incomodar nem ser incomodado ― Cyonil sequer dignou-se a conferir o cartão, voltou o rosto pra a frente contemplando as prateleiras repletas de garrafas.
― Bem, na verdade é coisa do seu interesse... humm, entenda, não posso ficar com o que não é meu...
― Ah, sei, então você tem aí algo para mim; deixa eu adivinhar: é um negócio imperdível que só aparece uma vez na vida... acertei? ― deu uma boa golada, girou o corpo sobre o banco para fitar o desconhecido com uma careta de mofa.
― Acertou. É um negócio; você recebeu o que pediu, agora precisa pagar...
― Ih, moço, você está começando mal... quando é assim, você tem que prometer ganhos excepcionais e fáceis, não pode chegar falando em dívida logo de cara. A não ser que seja um lance de religião...
― É fato que algumas pessoas levam muito o meu trabalho pra esse lado da fé, das crenças; há muita incompreensão... na verdade é bem mais simples, uma questão de equilíbrio nas contas...
― Olha cara, tive meus perhaps, suei paca pra limpar meu nome no Serasa, SPC e o carai; mas isso já passou. Muda o disco, tô devendo nada não ― Cyonil examinou o sujeito: vestia uma calça de tergal puída cor-de-burro-quando-foge, tênis pretos gastos, a camisa clara ostentava uma orla de surro na parte interna do colarinho e rodelas amareladas nas axilas; a pele, de tom ferruginoso, apresentava alguns pontos de vitiligo, devia estar umas boas arrobas acima do peso ideal, os olhos, aureolados pelo círculo branco da catarata, pareciam saltar das órbitas; tinha a calva do palhaço, com os cabelos laterais muito compridos e desgrenhados espalhando-se em todas as direções. Os pés dele pareciam pequenos demais, mesmo para a baixa estatura, e tinham as pontas estranhamente arrebitadas para cima; mas o que mais o irritava era o jeito alusivo e reticente de falar, a insinuação implícita de que algo ruim poderia lhe ocorrer se não desse ouvidos àquela lenga-lenga manhosa.
― Bom, se é assim, vou deixá-lo em paz ― levantou-se e começou a arrebanhar seus embrulhos ― mas, em todo caso, isto aqui lhe pertence, não sou de ficar com o que não é meu... ― dito isto, jogou um objeto no balcão e se encaminhou para a mesa.
― Que, que... porra de brincadeira é esta? ― Cyonil sobressaltou-se, sobre a mesa se encontrava uma cigarreira javanesa de madrepérola com granadas incrustadas. Largou seu lugar no balcão e foi na direção da mesa onde o homenzinho tornara a se instalar. ― Faça o favor de me explicar, como é que isto foi parar nas suas mãos?
― Já lhe disse, o senhor precisa falar comigo... me dar um pouco de atenção...
― Vamos acabar logo com esta palhaçada, como é que...?
― Entenda, meu caro, estou aqui porque faz parte da minha profissão... não tenho a sua sorte, nunca me foi dado escolher a forma de ganhar a vida, por exemplo, gosto muito do seu ganha-pão: instala TV a cabo, entra na casa das pessoas... ― o desconhecido bebericava um copo de cerveja dando mostras de experimentar um grande prazer.
― Ah, que piada, agora tá brincando de adivinhar... Na certa me viu estacionando o carro lá fora ― voltou ao balcão para, finalmente, pegar o cartão do cara. Inutilmente, já que as letras do impresso estavam quase apagadas e eram miudinhas demais para ler na luz do bar.
― Tá aí, digo, a minha ocupação atual...
― Não dá pra ler nada. Que é que você faz afinal? ― Cyonil reparou que a cigarreira estava em cima da mesa de fórmica, a meio caminho entre ele e o outro.
― Trabalho num departamento de cobranças, sou cobrador.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Volver (epílogo)




Se existisse realmente o concerto das nações, a nossa se distinguiria altaneira por uma série de realizações civilizatórias; e entre estas, certamente haveria um lugar de eminência e destaque para a gambiarra. Decerto que a gambi não é exclusividade nossa ― está aí o MacGyver que não me deixa mentir ―, como a jabuticaba e o saci-pererê, e bem pode ser que a maioria dos compatriotas não a considere o elemento definidor, o salientibus punctum, do caráter ― ou da falta dele ― nacional. Sempre que, por falta de tempo, meios, paciência ou vontade, um determinado problema não pode ser resolvido adequadamente, lançamos mão da gambiarra; a gambeta é a invenção parida a fórceps pela necessidade, o estalo que vem a toque-de-caixa na pressão do momento, tanto é assim, que a crônica de empreendimentos complexos como as arriscadas navegações da era moderna e a conquista do espaço, é rica em exemplos da capacidade de improviso daqueles avisados desbravadores. Este admirável vocábulo, de obscura origem celta, que a principio designava simplesmente a extensão elétrica irregular, universalizou-se a tal ponto entre nós, que passou a conotar nosso arraigado hábito de cambiar o comme il faut pelo quebra-galho ad hoc. A solução meia-boca de dificuldades emergenciais é tanto testemunho de solércia quanto de indolência; um desavergonhado tributo que o direito paga ao torto, pois que a gambiarra absolutiza o particular, celebra a apoteose do provisório, torna definitivo o precário, o interino, entronizando cinicamente o truque, o remendo, a tamancada, o tapa-buraco, o funcionamento à meia-bomba e o colado com cuspe, em detrimento das atitudes e expedientes escorreitos. Os nascidos sob esta estrela transitiva soem amalgamar criatividade e acomodação, inclinando-se a tolerar graus mais elevados de impermanência, esculhambo e deboche; a ética do “dar um tapa”, a práxis do “dar uma garibada”, desembocam naturalmente no “deixa estar para ver com é que fica”. Viver sob a égide da gambiarra é enganadoramente cômodo, fluido, afetuoso, desconcertantemente cordial; pode-se afirmar, sem exagero ou falsidade, que ninguém transforma o capricho em norma por acaso, sina, ou destino manifesto ― é sempre uma questão de escolha, inconsciente ou não. Porque nem sempre o “jeitinho” ajeita, mas a gente faz que.
Pois foi na base da gambiarra que tudo se arranjou. Afinal, Estelamaris era uma mulher completa em seu pragmatismo, raciocinava com todos os órgãos vitais: cabeça, coração e sexo. Não necessariamente nesta ordem.
Aureliano não tinha mesmo para onde ir; estava sem um gato pra puxar pelo rabo, os poucos parentes que lhe restaram moravam no interior, e ainda havia toda a série de trâmites legais da nossa nunca assaz louvada burocracia: provas de vida, anulação de óbito, exames, certidões mil, exumação do corpo, translado para Curitiba, etc., etc. Instalaram-no na edícula do sobrado e a vida seguiu. Estelamaris, essa, andava feliz como um pinto no lixo: recuperou seu sócio na administração da mercearia, o pai dos filhos dela voltou a pôr ordem na casa... e ainda tinha o Ascânio. Cada vez mais esquecido por todos e sem função, o pobre circulava pela casa transparente como um morto insepulto. Ou melhor, quase sem função, porque pra trepar ele servia muito bem. Ô se não...
Ninguém sabe dizer como foi que aconteceu, simplesmente se deu, e depois era como se sempre houvesse sido assim. Ascânio mudou-se para a edícula, e Aureliano foi dormir no sofá da sala; por pouco tempo, já que logo reassumiu seu antigo lugar na cama do casal. Estelamaris até se esforçava para ser politicamente correta, mas a consistência da carne e o aspecto do primeiro marido lhe davam engulho ao transar com ele. Fazia por obrigação, a bem dizer. Nestes particulares, gostava mesmo era do impiastro do Ascânio; parecia que quanto mais inútil ele se tornava, melhor ficava a foda. Não perdoavam feriado nem dia santo, quando lhes dava na veneta, iam lá pro quartinho e sentavam a ripa: berravam, bufavam, punham-se a ganiçar, a cama estreita rechinando feito égua barranqueira; e ainda por cima, Estelamaris só gozava disparando um chorrilho dos piores palavrões.
Aureliano ficava pior que estragado nesses dias, cara de cão chupando manga. A mãe dela logo veio pôr cobro na fuzarca.
― Tetela, minha filha, assim não pode ser; tu morar com dois homens, isso é vida? Olhe que o povo comenta, fala coisas...
― Deixa falar, mãe. Sentar em cima do rabo pra falar do rabo alheio é o esporte mundial do zé-povinho, agora, me fazer um supermercado ninguém quer... todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas ninguém vê os tombos que eu levo; ou ao contrário, sei lá, nunca sei qual é o vice e qual é o versa dessa frase... Quero que se lasque, a língua desse povo é mais comprida que a avenida Sapopemba, mas pagar minhas contas ninguém quer, né?, os meus boletos tão sempre lá, chegam todo mês... não tem isso não, mãe, comigo não tem coré-coré: eu que pago os músicos, eu que escolho a música. Na minha casa mando eu!
Não teve jeito, assim como estava, ficou.
Domingão de tarde, Estelamaris foi tirar um “cochilo” no quartinho do Ascânio. Em breve a casa se enchia daquele caramunho que tanto deprimia Aureliano. A filha trancou-se no quarto dela pondo o som no máximo; o filho, sentado nos degraus da escada da frente, cortava as unhas. Aureliano acompanhava a operação com interesse, ficou satisfeito com o resultado.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

acreditar no futuro é bão, o problema é que eu vivo agora




vivemos tempos perigosos
para tudo
principalmente
a utopia

a minha
arte é de amador
de
amar a dor
de
quem
a
m
a

domingo, 25 de novembro de 2012

Volver (parte 3)



De há muito, o advogado Derville Zago Sanchez Alvarinho deixara de se espantar com a exibição crua dos temperamentos e pulsões da fauna humana que desfilava, ao vivo e a coices, diariamente pelo seu escritório; longe da letra organizada dos pareceres e das leis, das petições e contraditórios, as circunstâncias em que se chocam a vida das pessoas sempre lhe pareceram ocorrer sob o signo da bandalha, do caos, da quizumba. No entanto, mesmo a longa janela de puta-velha na profissão não o impedia de sentir uma onda de hesitação sobre como conduzir aquela conversa; precisava entrar com cautela extra no mérito de um caso tão extravagante quanto inusitado. Qualquer deslize, e a maionese podia desandar feio, feio.
Avaliou em silêncio as expressões dos seus interlocutores: Estelamaris, elegantéésima num tailleur vermelho, por mais que se esforçasse, não conseguia parar de arreganhar os olhos a cada par de segundos; Ascânio ostentava o maior derrotismo, parecia empregado em dia de passaralho, amarrou a catadura botando uma tromba de metro e meio; já Aureliano, não se lhe podia adivinhar coisa alguma pela mina, uma vez que as queimaduras haviam transformado a superfície do seu crânio numa paisagem marciana de pele verrumada e lustrosa repuxada para todos os lados, como um chapisco de cimento sem reboco. Para não chocar tanto, o pobre inventara de se embiocar sob um boné e óculos escuros enormes, disfarce tosco que tornava ainda mais triste a sua escalavrada figura.
― Senhores e senhora, gostaria de iniciar esta reunião, sob todos os aspectos inusitada, mencionando que só os chamei para esta tentativa de conciliação após um exame acurado das alegações e documentos do aqui presente, senhor Aureliano Rubião Filho, até recentemente tido como Adauto Schner. Fique bem claro que não haveria sentido em fazê-los passar por tamanho inconveniente... caso contrário seria profundamente leviano da minha parte juntá-los... não houvesse já realizado uma investigação preliminar... além do quê, hãm, o referido senhor Aureliano me passou informações sobre a empresa em que é sócio da senhora Estelamaris, e para a qual advogo, que só ele poderia saber...
― Desculpe doutor... Aureliano, por que só agora, quer dizer, como é possível uma coisa dessas, assim tremenda?... A gente viu, todo mundo viu na televisão; você estava lá... os documentos, os pedaços, o que sobrou de você; eu tive que ir no necrotério reconhecer... aquilo! ― de batom vermelho, tonalidade cherry bomb, a ex-viúva mulher de dois maridos não se continha, escrutinando avidamente o estropício sentado flacidamente na poltrona giratória em frente a ela.
― Pe, pe, pe, peraí doutor, como podemos ter certeza? Não dá pra reconhecer ninguém numa pessoa nestas condições... pode ser qualquer um atrás da máscara. E outra: como é que fica isso, agora ele é sócio da minha mulher? ― Ascânio entrou na conversa, e em breve todos falavam em cima dos outros, um pega-pra-capar danado.
O doutor Derville custou a serenar os atabaques.
― Por favor, por favor. Bem, vamos às explicações devidas, e em seguida ouviremos da boca do putativo falecido sua versão dos fatos. Sobre os pontos que o senhor Ascânio levantou, devo esclarecer os aspectos jurídicos da situação: um simples exame de DNA com material genético dos filhos será suficiente para restabelecer cem por cento a identidade dele; com isto, revoga-se o atestado de óbito, em seguida, Aureliano retoma a posse plena de seus bens, incluindo a parte na sociedade comercial com a... a esposa. Há aqui um detalhe, a segunda união ainda não é legalmente uma união estável: há a coabitação, mas não se completaram dois anos. Como não houve má-fé nem dolo na situação de concubinato, constituindo, portanto, um ato jurídico perfeito, tudo dependerá da conveniência da varoa, isto é, Estelamaris tanto pode dar seqüência ao antigo relacionamento, como ficar com o atual; uma escolha sobre a qual a lei não incide...
― Tetela ― Aureliano se dirigia diretamente à mulher; o silêncio tomou a sala, enquanto Ascânio, com cara de cheque devolvido, parecia ter derretido na cadeira ―, não tive uma vida fácil nestes dois anos, como imagino que também deve ter sido para você e os meninos, mas lutei muito só pensando neste momento. Além das queimaduras, sofri um grave traumatismo craniano; fiquei em coma por meses, passei um ano numa cama de hospital. Longos dias de tédio, confusão mental e fisioterapia para voltar a andar, comer sozinho, falar. Ainda hoje, só me locomovo de muletas; o doutor Derville deixou lá fora... eu pedi, não queria te dar gastura, queria que tudo fosse o menos medonho possível pra você... Mas isto ― retirou os óculos e o boné ―, é o que eu sou hoje: um homem sem rosto, mas com um passado, e uma família. A nossa família... foi pra este Deus que eu rezei, só acreditava nisso, precisava acreditar nisso pra continuar vivendo, pra não ficar louco de vez... desculpa Estela, é difícil... mas preciso voltar naquele dia de horror. Faça o favor doutor...
Com grande senso dramático, o anfitrião abaixou as luzes do escritório e ligou um projetor cuja tela ficava atrás de Aureliano, incorporando desta forma o narrador nas cenas que se desenrolavam às suas costas.
― A imagem apresenta e esconde no mesmo gesto. Tudo isto vocês já viram: ali, o ônibus após chocar-se com uma árvore no acostamento; aqui, o meu carro parando, ligo o pisca alerta, saio... vou ajudar as pessoas que começam a sair de dentro do ônibus; há uma grande confusão em torno... agora o slow motion pra vermos melhor, daí vem este pedaço em que a câmera chicoteia e perde a região iluminada; então, lá está um homem com o meu paletó dentro do carro... e a seguir é que vem a carreta... É uma noção que só me veio bem depois: eu saí do carro e comecei a ajudar os feridos, o primeiro foi um homem, tremendo de medo ou frio, que agasalhei com o meu paletó e levei para dentro do carro, mas isso acontece no lapso em que a pessoa que filmava perde o foco; quando o enquadramento retorna, há um homem no carro com a minha roupa, e é quando vem a porrada final. Este homem, que ninguém duvidou que fosse eu, era Adauto Schner, cuja família cuidou de mim por engano até há pouco tempo.
― Então... você também, vamos dizer, você também tinha uma outra família?... ― os belos olhos da bígama involuntária arregalaram mais alguns milímetros e a voz lhe tremia.
― Esta é a parte mais maluca da história. De uma certa forma, sinto que elas sempre souberam de tudo, apenas precisavam que tivesse acontecido como os jornais noticiaram. Era melhor que o Adauto fosse aquela imagem que ajudava os feridos antes do atropelamento, não o sujeito chorando dentro do carro e do paletó de outro homem: estaria vivo e ainda seria um herói. Por motivos que me escapam, aquela mulher e aquelas duas meninas, que durante dois anos brincaram comigo de sermos os Schner, queriam muito acreditar que aquele homem semi-destruído numa UTI tivesse um dia sido capaz de tomar uma atitude. Fui preparando “mulher” e “filhas” aos poucos; fatalmente chegaria a minha vez e a minha hora de deixá-las, e elas tinham que começar o luto adiado... na verdade, pensando agora, o Adauto passou a incluir um pouco do Aureliano; mas também é verdade que preciso dele: pra que eu volte à vida, ele tem de morrer... bem, de toda maneira, vai ser necessário abrir a minha sepultura, devo a elas um corpo.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

as voltas que dá





você é o que você é
quando os outros não estão
olhando


se ninguém está
vendo
você é outro


quando não se ouve mais
você
não é mais nada


você vai rumo ao nada
e ninguém
dele voltará


entre um nada e outro
passa um nome chamado
você


sua vida
seu tempo
seus amigos


só viver não basta
só o amor nesta vida
é um pouquinho mais

que nada

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Volver (parte 2)




Um daqueles acidentes espetaculares, aliás, espetáculo propriamente falando, porque filmado pelo telefone celular de alguém. O vídeo amador ganhou os sites sensacionalistas e a televisão repercutiu por uma semana inteira. As imagens arrepiantes começavam mostrando um ônibus já acidentado (acabara de bater na traseira de um caminhão) no acostamento da rodovia Régis Bittencourt; um carro pára atrás dele e o motorista, trajando um terno escuro, sai em auxílio dos passageiros ― a iluminação é extremamente precária ―; após um lapso de cenas borradas e confusas, vê-se o homem de volta dentro do carro, e então, a tragédia: uma segunda e enorme carreta vem trafegando pelo acostamento, atingindo em cheio o carro e os feridos, arrastando tudo e todos estrondosamente contra o ônibus que explode.
Dezessete mortos. Entre eles, o motorista do carro que havia parado para ajudar, o primeiro marido de Estelamaris, Aureliano. A família horrorizada reconheceu-o imediatamente no telejornal da noite, bem como ao carro, que virou uma sucata de ferro retorcido com a força da colisão. Os funcionários do necrotério abriram uma gaveta onde a viúva em choque se deparou com uma maçaroca carbonizada de carne, ossos e roupas ensangüentadas, nas quais se puderam recuperar incrivelmente intactos os documentos pessoais do falecido ― uma simples viagem de negócios a Curitiba, e mais uma vítima a alimentar as indecentes estatísticas da BR 116. Um velório emocionado, uma família destruída, um enterro de caixão lacrado.
Uma família paranaense, no entanto, teve aparentemente mais sorte: algumas imagens também mostravam um homem em mangas de camisa prestando socorro logo depois do primeiro acidente; era Adauto Schner, curitibano que fazia o caminho de volta para casa dentro do ônibus abalroado. Pelo que se reconstituiu mais tarde, ele teria descido para transportar os feridos para fora quando foi vitimado pelo segundo caminhão; resultado: concussão cerebral, oito meses em coma, além de extensas queimaduras pelo corpo. Adauto teve o rosto desfigurado, razão pela qual ganhou sua peculiar sobrevida.
Conforme se recuperava do coma, percebeu angustiado que não reconhecia os parentes, o que inicialmente se atribuiu à amnésia causada pelo trauma encefálico. Os médicos diziam que a memória lhe voltaria aos poucos, de par com a motricidade perdida no período em que ficara restrito ao leito; os primeiros meses seriam críticos para prever o grau de recuperação que atingiria. Mas o fato que médico algum conseguia lhe explicar era o estranhamento que notava da parte da sua própria família em relação a ele. Percebia claramente os efeitos benéficos que a sua presença, as suas palavras e orientações exerciam sobre a mulher e os filhos; mas não podia evitar o incômodo de uma nota falsa.
Tudo se esclareceu quando, já instalado em casa, viu pela primeira vez as filmagens do acidente. Estava ali claramente, era ele mesmo. Finalmente. Agora se reconhecia, mas não naquele que pensavam que ele era ― eu, sou um outro, pensou “Adauto”. Um tremor percorreu-lhe o ser de alto a baixo, de dentro a fora, parou, absorvido pela extraordinária sensação que acontecia sem controle. Um prazer delicioso lhe invadia os sentidos, algo isolado, diferente, sem nenhum indício sobre a sua origem. O difícil agora seria explicar tudo à nova “família”.
Um mês e meio depois, estava em São Paulo no escritório do seu advogado. O doutor Derville se preparava para dar início a uma das reuniões mais bizarras da sua longa carreira; presentes ao encontro, além dele mesmo, Estelamaris, José Ascânio e Aureliano, recém retornado do mundo dos mortos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Volver (parte 1)



Estelamaris foi muito criticada, na família e fora dela, por ter refeito a vida no curto espaço de dois anos. Como se houvesse um secreto, mas conhecido por todos, prazo para essas coisas. “É fácinho dar pitaco na vida alheia: cornetar não custa nada, e, quando vem a zica, o mala que deu conselho de graça não se oferece pra pagar a conta. No dos outros é sempre refresco!”, repetia freqüentemente e, mais freqüentemente ainda, pensava que ninguém conhecia os seus perrengues, o quanto tinha de rebolar para pôr dinheiro em casa, administrar funcionários, dar de comer e vestir para dois filhos adolescentes. Falar até papagaio fala, fazer é que são elas; ou melhor, fazer era com ela mesmo, e só.
            Com Aureliano vivo, não chafurdava nessa bagunça sem margens, sentia-se viva, inteira, protegida; havia um sentido para tudo, a casa andava em trilhos e cada um sabia as tarefas que lhe cabiam no organograma familiar. Cada um no seu quadrado, cada coisa no seu lugar, cada nome com a sua coisa; havia comando, havia ordem e obediência. O duro é que isso hoje pertencia a um passado remoto meio irreal, um pouco como as fotos antigas nos deixam a impressão de que antigamente vivia-se em tons foscos e baixa resolução.
            Parecia a versão 2.0 das provações de Jó: Aureliano morrera num acidente de carro; o filho, dando problema na escola e em casa; a filha, mal chegada aos quatorze, atolada no vício sem fundo do consumismo; um fiscal da prefeitura achacando seu comércio e, fechando a lista com destaque, as dificuldades do seu novo companheiro, o Zé Ascânio. Bom moço, o Ascânio: esforçado, caseiro, sem grandes defeitos ou qualidades; o problema era o trampo, estava sempre entre nada e coisa nenhuma, entre um emprego e outro ― aliás, muito mais entre do que dentro, propriamente trabalhando; cada dia mais entregue, mais passivo e desligado diante da batalha da sobrevivência.
E como bolo que se preza não fica sem a cereja no topo, as irmãs correram com o folgado da casa da mãe; de modo que Ascânio se mudou de mala e cuia para o sobrado da Estelamaris em Sapopemba. Pensando bem, foi a partir dali que os filhos dela começaram a desandar.
― Tetela, se tu quer namorar, namore, mas não ponha homem dentro de casa ― era a mãe dela rezingando pela enésima vez ao quadrado.
― Afe mãe!, credo cruz, você tá querendo dizer o quê, que ele pode... bulir com a menina?
― Não. Desse defeito ele falece, é homem respeitador... o que me preocupa é essa moleza, a falta de atitude. Se pudesse escolher como acabar o mundo, ele escolhia barranco, só pra morrer encostado. Você tem ele como um filho mais velho; olhe que quem tem filho grande é elefante...
A verdade é que, lá no seu de profundis, Estela sabia que o segundo marido fazia parte do problema, não da solução ― mas acontece que se arraigara nela o velho brocardo: tá ruim, mas tá bom; ruim com ele, péssimo sem ele. Paradoxais são as razões com que raciocina o coração; não há de ter sido por outro motivo que foi comparado a uma casa de tolerância: cheio de quartos, e sempre cabe mais um puxadinho. Ainda assim, tomou um susto com a conversa que sapeou entre o filho e o padrasto improvisado.
― Posso usar o computador um minuto? Preciso ver uma coisa, é rapidinho... ― o garoto até que começou bem, no sapatinho, como dizem.
― Espera um pouco. Estou terminando aqui... mas pra quê a pressa? De certeza que não é pra fazer o dever de casa; trabalho de escola não é muito seu forte... ― Ascânio já começou entrando de sola na canela, batendo abaixo da linha de cintura; Estelamaris pensou em intervir, porém, aproveitando que não a tinham visto, resolveu apenas escutar.
― Ah, sei... então vamos ver você, qual será a tarefa importantíssima que não pode ser adiada... Hahaha, olha isso, o cara tá numa página de horóscopo, hahaha, e como é que vai o zoológico, leão tá bombando em touro? Fala sério!
― Ê moleque, vê direito como fala comigo, não sou obrigado a aturar você e ficar quieto, não.
― Aí, na boa, você que começou. Além do mais, quem que tá aturando quem? Esta casa é nossa, meu pai que fez; nós já tava aqui, véi, tu que chegou depois.
― Tu tá é folgado demais rapá, sua mãe ralando que nem louca pra quê? Pro meninão ficar causando na balada, tretando na escola... ― Ascânio tinha se levantado e andava de um lado para o outro no living, um olhar de possesso estampado no rosto como ela nunca vira.
― Se você é tão preocupado com ela, por que não ajuda então? Fica aí o dia inteiro sentado nesse computador lendo horóscopo... aí mano, esse papo de astrologia é do tempo que a Terra era quadrada, deixa eu te contar uma novidade: o mundo mudou um pouquinho! ― o rapaz se afastou, fazendo menção de dirigir-se para a cozinha.
O outro atravessou-lhe o caminho.
― Tá se achando, né? Um moleque que nem barba na cara tem direito, quer tirar onda e não sabe tchongas; é bem do signo de gêmeos, essa sua superficialidade...
― Vê se me entende: o Sol não gira em volta da Terra, as estrelas e os planetas não andam em volta de você. Tudo gira em torno de alguma coisa no universo, tudo se move, inclusive o universo; o único ponto parado nisso tudo é você: parado no tempo e no espaço.
Além da queda, Ascânio não ia suportar o coice. Agarrou o menino pelo braço, torceu-o, e rosnou-lhe entre dentes:
― Aí pirralho, cê tá me gastando. Parou, caralho! Tu fica bem pianinho, senão vai tomar um pé-de-orelha agora mesmo.
Ela viu quando o filho amansou, e também escutou suas últimas palavras ― É só mais um ano, no máximo.
― Só mais um ano o quê, moleque? ― por mais que ele insistisse, agora o enteado se fechara em copas, paus e espadas.
Mas Estelamaris entendeu perfeitamente o recado: dentro de um ano, ambos estariam igualados em força física. Nada como ter problemas pré-agendados.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A nuvem e o Sol (epílogo)



― Se contasse toda a verdade acerca da minha vida, ninguém iria acreditar ― disse certa vez, e ela realmente se calou; não fosse pela coincidência de ter “vivido” em sua casa, de a ter servido na pele da coitada da Jeannette, também eu não acreditaria em madame.
            Este é um ponto relevante. Há quem comece a vida em berço de ouro e termine em maus lençóis, Françoise D’Aubigné, ao contrário, nasceu plebeiamente numa prisão e morreu no fausto de um castelo, alçada à nobreza e casada com um dos reis mais poderosos da história. Dentre os vários profissionais que consultei durante meu período de crise, os psicanalistas discordaram em tudo sobre as minhas dificuldades, mas foram unânimes em apontar os efeitos deletérios de ter sido criada por um pai extremamente severo e uma mãe apagada ao extremo. Evidentemente, esta é uma constatação que explica tudo e não resolve nada; acontece que, para mim, mulher de um outro tempo, vivendo numa era líquida e espetaculosa, havia a necessidade imperiosa de ver.
            E ver não foi em vão. Acompanhar a cena representada em sua inteira crueza, teve a virtude de me revelar um segredo de alcova da condição feminina: mulheres trocam prazer por poder, pagam da sua biologia o tributo civilizatório. Os homens conjugam os verbos correspondentes de forma mais “natural” e substantiva; ambos, porém, ao fim e ao cabo, se entortam para dar passagem à senhora “cultura”; como vi se contorcerem as personalidades sob as rendas, os tecidos, pós e perucas; assim como presenciei corpos e almas arfando sob anáguas, sufocando em corpetes munidos de assustadoras barbatanas. Impossível esquecer aquelas vidas esgarçadas rolando das camas para os sofás, deformando-se sobre marquesas e bergères, sorvendo aos bebericos suas tisanas enquanto maquinavam tramas de glória tão efêmera quanto indigna.
            É sempre arriscado aquilatar pessoas e situações distantes no tempo; não sou nenhuma especialista capaz de recriar outros universos morais, ou “mentalidades”, opino a partir do meu pedestre entendimento acerca do que acredito ter vivido. Por exemplo, Jeannette, a criada, deu-se por feliz casada com um bruto que lhe ia ao pêlo; Françoise, a mulher mais influente da França, sentia-se acossada por um rei que gostava de comê-la. Vá entender. Esta é mais uma inestimável lição da TVP (terapia de vidas passadas) a respeito da natureza humana: julgamos ser felizes ou desgraçados por comparação, tudo depende do que os outros acham.
            ― O melhor favor que lhe posso prestar ― respondeu o cardeal Richelieu a um pedido de clemência da mãe de Françoise ― é manter esse homem preso.
            Dura verdade. O pai da futura Madame de Maintenon era uma enciclopédia universal de vícios: nobre-de-espada arruinado, foi grileiro de terras alheias, assassino, jogador, mulherengo, conspirador, moedeiro falso, apóstata e, como se tudo isso não bastasse, poeta. Neste seu último mister, chegou a cometer umas trovas bem tosquinhas, mas suficientes para seduzir a filha do carcereiro que o seguiria de prisão em prisão, a cumprir sua sentença de amor. Nascida na prisão de Niort, a terceira filha do escalafobético casal foi recolhida pela tia paterna, Madame de Villette, que lhe proporcionou alguns anos de estabilidade no Château de Mursay. No último degrau da impressionante escadaria de entrada do palácio havia uma inscrição que ela jamais esqueceria: “É difícil subir”.
            No resto da infância ela correu ceca e meca; sempre jogada de um lado para o outro, acompanhou a família quando se mudaram para as Índias Ocidentais (na verdade a Ilha Martinica, no Caribe), onde o pai abandonaria mulher e filhos, de volta à França, com a mãe aparentando ter desatarraxado, não um, mas vários parafusos, foi enviada a um convento para ser educada na fé católica e receber a primeira comunhão. A loucura coletiva não a marcaria menos que a materna: naquela época os europeus se trucidavam regularmente por causa da Virgem e dos santos; reformistas protestantes contra católicos, aliados contra inimigos do Papa, etc. Desde o século dezesseis, com a horrenda matança da Noite de São Bartolomeu, eclodiam perseguições aos huguenotes (protestantes franceses) patrocinadas pela casa real francesa e a Igreja.
            E aqui, novamente, reaparece a minha dificuldade “moderna” de compreender os valores desta mulher que aprendi a admirar ― por que ela se encarniçou posteriormente contra a religião da própria família? A melhor explicação que obtive passa por duas outras figuras de relevo em sua formação: a madrinha, condessa de Neuillant, que manobrou para afastá-la dos parentes, e irmã Celeste, que, no convento, ensinou-a a domar os abismos da carne e lhe impingiu uma firme direção espiritual por meio de confessores. É a condessa que a introduz nos grandes salões artísticos e intelectuais de Paris, onde conheceria seu primeiro marido, o poeta e dramaturgo burlesco Scarron.
            ― Prefiro me casar com um homem paralisado do pescoço para baixo a voltar para o convento ― disse a jovem de dezessete anos ao casar com aquele precursor da stand up comedy preso a uma cadeira de rodas.
Quando o notário redigia o contrato nupcial, perguntou a Paul Scarron qual dote concederia à belle indienne, apelido de sua futura esposa.
― A imortalidade ― respondeu folgazão. Na verdade, o devasso poeta conseguia, a preço de saldo, uma enfermeira bela e fiel que cuidaria dele por seis anos até o seu último suspiro. Sem sexo ou paixão, mas sem riscos de parte a parte.
Françoise, agora viúva Scarron, passa a fazer parte do grand monde, e nele, planeja sua ascensão rumo ao topo. Sempre aconselhada por um grilo falante de batina. Viúva, porém honesta, aproxima-se de Athénaïs, marquesa de Montespan, a ardilosa e pérfida primeira-amante de Luís XIV ― jararaca terrível que tinha o hábito de envenenar outras candidatas ao leito do rei-Sol. Sempre vestida de preto, com o terço na mão e o Cristo na boca, Françoise ganhou a confiança de Athénaïs e tornou-se ama dos filhos ilegítimos desta com o rei. Detalhe: obrigou o rei a pedir-lhe pessoalmente para ser a preceptora da sua prole “paralela”; quando o monarca espichou os olhos para cima dela, repudiou o homem que afirmou ser o Estado; até então, ele pensara que só as mulheres feias viravam beatas. Quando a rainha Maria Tereza morreu, Madame de Montespan ficou de queixo caído quando o rei deixou uma marquesa para se casar com a governanta.
Reminiscências assim costumam ser enganosas, mas Françoise foi uma marionete nas mãos da Igreja, uma Mata-Hari de corte mais religioso, estrategicamente colada ao ouvido e à cama do rei. Conselheira desastrosa: Luís XIV revogou o Édito de Nantes, acabando com a liberdade religiosa na França e reativando as perseguições aos huguenotes, desprezou nobres, ignorou o povo, e se envolveu em guerras demais.
― Sire, não entendo, por que tamanha contradição? Com uma mão me enobreceis, dais-me até um castelo, com a outra, me rebaixais com um casamento morganático... ― Françoise via consternada escapar a grande oportunidade da sua vida.
― Senhora, são as precauções que a minha posição acarreta; que importa que o vosso título não seja de rainha, acaso é pouco ser minha legítima esposa? É só uma precaução para que um fruto eventual da nossa união não se torne candidato ao trono. Minha sucessão já vai ser complicada o bastante ― o que o vaidoso rei escondia era o quanto pesava nesta decisão a origem humilde dela e o medo do ridículo pelo seu casamento pregresso com um poeta burlesco.
― Frutos, que frutos, senhor meu? Acaso desconheceis que sou uma mulher de quarenta e cinco anos?...
Viveram juntos por trinta anos. Aos setenta anos, Luís XIV ainda a procurava sexualmente duas vezes por dia, o que a aborrecia. Ela consultou o seu padre que lhe disse para não negligenciar suas obrigações. Aos setenta e seis, quando faleceu, o rei ainda visitava seu leito; ela sobreviveu quatro anos ao pôr do rei-Sol.