quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 22

Aldeia dos Quatro Montes




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22

Era certo e sabido que no dia de Natal o Ti Zé do Quartilho estava de ressaca. Ainda não eram nove da manhã e já ele batia à porta da Pensão Moderna. Ti Joaquina, que já estava a pé desde as sete, espreitou lá da porta da cozinha.
- Já lá vou…
Meteu a chave à fechadura e abriu a porta.
- Homem, então não sabe que hoje só abrimos às dez?
Não conseguiu resistir à cara de enfado do Ti Zé.
- Entre lá! Quer uma dose, não é?
- Sabe como é, minha senhora. Hoje, acordei, assim que a modos de… Olhe… Acordei um bocado mal disposto!
Ti Joaquina deu uma risada.
- Da pinga não será de certeza! Que o meu vinho é do bom!
- Pois… Lá terá sido qualquer coisa que me caiu mal… Mas, para grandes males, grandes remédios. Se não se importa…
- Dê cá o quartilho pr’ó encher!
Enquanto a Ti Joaquina aviava a dose de vinho, o Ti Zé manteve-se mudo e quieto, atento ao ruído que o líquido fazia ao cair na garrafa.
Mal se apanhou com ela na mão, meteu-a à boca e lá foi o meio litro goela abaixo.
- Ah! Estava cá com uma sede!
A Ti Joaquina olhou-o bem nos olhos.
- Homem, se assim continua qualquer dia destes bate a bota! Isso são lá modos de beber. Um quartilho de uma bezotada! Zuupa!
Ti Zé entregou-lhe a garrafa para mais uma dose.
- Vamos por partes: primeiro, nunca ouviu dizer que o álcool conserva? Ora, então… Se conserva, eu sou dos que mais irá durar! Segundo: se bater a bota também não se notará grande falta, a bem dizer, que é que cá ando a fazer?
- Tenha tento no que diz! A nossa hora não somos nós que a escolhemos. Mas isso não justifica todas as maluqueiras… Ó Ti Zé, já não está em idade de continuar com essa vida…
Deveria ser do espírito natalício. A Ti Joaquina lá pespegou ao coitado do Ti Zé o sermão que, de tempos a tempos, lhe pregava. Que qualquer dia ia parar ao hospital… Que não comia direito… Que não se agasalhava… Que se precisasse, viesse buscar umas roupitas que para lá tinha… Que tinha que comer melhor…
O Ti Zé ouvia… Com atenção, pois sabia que a senhora sempre o ajudava quando precisasse. E também por deferência. Não se desdenha de quem nos ampara…
Angélica bateu no vidro da porta e, logo de seguida, entreabriu-a.
- Pode-se entrar?
Ti Joaquina dirigiu-se a ela para a cumprimentar, com um beijinho em cada uma das faces.
- Ó Doutora… Hoje é dia de Natal! Que a traz por cá? Não me diga que a chamaram do Lar?
O Ti Zé aproveitou a ocasião para se raspar, de fininho.
- Vou andando…
Ficaram ambas a olhar para o coitado do homem. Mal saiu, o ar mais frio da rua provocou-lhe uns arrepios. E o balançar, de um lado para o outro do passeio, denotava o estado ébrio. Quase caiu ao descer do passeio…
- Não há meio de convencer este homem a ir para o Lar, disse Angélica. Ti Joaquina, ele era capaz de a ouvir se lhe dissesse…
De braços cruzados sobre o peito, a Ti Joaquina abanava a cabeça, com uma certa tristeza embebida no olhar.
- Não… O Ti Zé não é homem de ficar encafuado num Lar.
………
Salústrio nunca gostou de dormir até tarde, mesmo depois da noite de Consoada. Estava encostado ao balcão, a tomar um café. Já tinha limpo tudo e preparado as coisas para atender a freguesia que haveria de começar a aparecer antes da missa. Missa de Natal sempre dava azo a que menos gente faltasse ao dever da missa semanal.
Enquanto, tomava o café, pôs-se a pensar no Pedro. Até agora, nem se tinha atrevido a perguntar ao filho o que é que pensava fazer… Se iria ficar por 4 Montes ou se voltaria a procurar emprego lá na cidade grande… Mas, se ele não lhe dissesse nada até ao final do ano, estava a pensar meter conversa sobre o assunto…
Não se arriscaria a que Pedro ficasse muito tempo sem ocupação. Aquela cabecinha não podia ficar desocupada, se não a possibilidade de se meter em alhadas aumentava a cada semana que passasse.
Acabou o café, passou a chávena por um fio de água e meteu-a na máquina de lavar.
Ficou encostado ao balcão, a olhar lá para fora, para a Praça e para a Igreja. Daí a nada, tocou o sino…
Dlão… dlão… dlão…


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 21

Aldeia dos Quatro Montes




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21

Na sala de comer da Pensão Moderna a Ti Joaquina tinha feito uma mesa “à maneira de casa”. Queria com isto dizer que era como na casa dela, coisa de que mal se lembrava. Mas as memórias de Natal têm esta característica única e intransmissível. Com o passar dos anos vão ficando cada vez mais complexas e mais sofisticadas. Na mesa de Natal da Ti Joaquina ficava sempre uma cadeira vazia. Em memória daqueles que já não estavam presentes à mesa mas continuavam a marcar presença dentro do coração de cada um dos participantes na Consoada.
Salústrio e Pedro apresentaram-se, relativamente, cedo. Traziam as bebidas que haviam de acompanhar os tradicionais pratos de uma qualquer Consoada em 4 Montes.
A Ti Joaquina tinha preparado a massa dos sonhos e estava à espera de Pedro para os começar a fritar.
- Não demora nada e já tenho aqui uma meia-dúzia pronta a comer…
Maria tomou conta das garrafas que tinham abandonado o recato de uma estante resguardada do Café ArcoBotante.
- O senhor Engenheiro, com os sonhos, prefere…?
Salústrio não era de cerimónias.
- Ó rapariga… Eu cá vou começar pelos fritos. Abre aí essa garrafa de tinto do Douro…
A Ti Joaquina veio da cozinha com um prato de sonhos, douradinhos e ainda quentes, saídos da frigideira. Por cima deles, deitou uns fios de calda de açúcar, aromatizada com um pau de canela.
- Ora, prova lá…
Pedro pegou, à mão, num sonho e meteu-o à boca, de uma só vez.
- Bom!! Como sempre…
E, num ápice, desapareceram os outros sonhos…
- Se não fosse Consoada, não comia mais nada. Sentava-me ao lado do fogão e enchia-me deles!
- Havia de ser bonito! E quem comia o resto?
Ti Joaquina desandou em direcção à cozinha.
………
O Senhor Director alojava-se naquele hotel há já vários anos. Chagava sempre no dia de Consoada e saía dois ou três dias depois do Natal.
Era um dos poucos hotéis, naquela cidade, que servia uma ceia de Consoada.
No seu quarto, o Senhor Director tinha escolhido aquele canal de satélite que só dava música clássica.
Sentado num confortável sofá lia, compenetrado, o semanário que, devido ao feriado, tinha antecipado o dia de saída.
Na janela, os pingos grossos de chuva batiam com força, arrastados pela ventania.
O Senhor Director fixou o olhar no vidro. Acompanhou, por momentos, o fragor da chuva e do vento. Levantou-se e, ao aproximar-se, pode ver a rua… O movimento de carros e pessoas começava a diminuir. A grande maioria já estaria a chegar a casa para passar a noite com a família.
Estava na hora de fazer aquele maldito telefonema.
Todos os anos era a mesma chatice…
………
A Ti Joaquina sentou-se à cabeceira da mesa. Na ponta oposta, estava a cadeira que iria ficar vazia.
Maria veio da cozinha com uma grande travessa. O bacalhau fazia-se acompanhar pelas rabas, couves, cenoura, batatas e cebola, tudo cozido. Uns ovos, também cozidos, cortados ao meio, davam um toque de amarelo.
Salústrio fez questão de servir a dona da casa.
À mesa, além destes e de Pedro, sentava-se a Maria e a outra empregada da mercearia, acompanhada pelo marido.
Os pratos dos fritos ainda tinham uma boa quantidade de ovos verdes, filetes de polvo e pastéis de bacalhau.
Os copos estavam cheios de vinho tinto.
A conversa rolava solta e franca. Era sabido que os 4 Montanos apreciavam a boa mesa.
Depois do bacalhau, viria o polvo cozido. Tenrinho…
- Este tive de o mandar vir da Galiza… Nunca hei-de entender porque é que eles conseguem sempre ter polvo que é uma maravilha…
- Será do mar que é mais quente!, afirmou Salústrio.
Quem entrasse naquela sala, iria achar que, naquela mesa, estava uma família a consoar.
Salústrio aproveitou uma pausa, enquanto levantavam os pratos.
- Para acompanhar as rabanadas, trouxe aqui uma especialidade que sei que vai apreciar.
Pegou numa garrafa, sem rótulo, que desarrolhara antes de começarem a comer.
Com muito cuidado, serviu o cálice que estava em frente à Ti Joaquina.
- Vai fazer-me o favor de só provar depois de comer um bocadinho da rabanada.
A Ti Joaquina, assim fez.
Cortou um pedacinho de rabanada, ainda morna, meteu-o à boca .
Depois bebeu um golo daquele néctar, de cor rubi.
- Homem… Que isto é de estalo!! Bote cá mais…
E, à volta de rabanadas, sonhos, filhós, aletria e leite creme se foi passando a noite de Consoada.


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

Conto de Natal

Todo mundo vê os tombos que levo, e todo mundo se apressa em apontar as cachaças que tomo. Uma terrivelmente simplificadora confusão entre meios e fins; a bebida, ao menos no meu caso, sempre foi um meio tolerado de apressar o fim ― um instrumento do inevitável entre tantos outros disponíveis, com um quê de indulgência romântica que convém ao estilo de vida que adotei. Para você, que está dentro da minha cabeça neste momento, não é difícil constatar que abomino a dor física e que receio mais ainda a vergonha de falhar no intento. Não há engano quanto a isto, faço meu cálculo de conseqüências: não quero legar às minhas filhas o peso de um suicida, embora me agradasse deixar esse estorvo à mãe delas. O veredicto social busca culpados para a autotanásia, no alcoolismo basta um.

De modo que fiquei restrito, por tibieza e hábito, a me aboletar em mesas e balcões de bar e esperar. Beber é um requinte da milenar arte da espera; já fumar, usar drogas, destruir carrões e motos, me dão a impressão de pressa exibicionista, de uma certa displicência, algo como acelerar os ponteiros acrescentando peso aos mecanismos do carrilhão no relógio da vida. E se há uma coisa que detesto é a falta de critério dos tempos que correm, as pessoas saem a esmo imitando qualquer tendência para não ter que criar nada de intimamente seu. Nem mesmo a despedida. Comecei a beber de forma, digamos, mais competitiva, depois que a Yolanda se foi, deixando-me com as meninas; no ano em que a mais nova se formou, perdi meu último emprego registrado em carteira.

Não sei o que há comigo; por que continuo se já ultrapassei o préstimo?, o que é que ainda tenho que ver ou viver?. Já passei faz muito dos sessenta (meu pai, um avô e uma avó morreram do coração antes dos cinqüenta), parei com todos os remédios, estou pré-diabético, hipertenso e uns bons trinta quilos acima do peso, todas as madrugadas enxugo hectolitros de destilados, fermentados, perfume, desinfetante, qualquer coisa que contenha álcool... e nada me acontece. Acordo todos os dias inchado, sem poder fechar os dedos da mão sobre as palmas, meu nariz é um obsceno morango recortado por veias escuras no rosto semi escondido pela barba branca; às dez em ponto, ainda de fogo, chupando a primeira bala de menta do dia, chego no promocenter onde estou defendendo uma graninha de fim de ano.

Até às sete fico lá, vestido com um roupão acetinado, botas e cinto de fivela, além do gorrinho vermelho de bolinha, com uma sineta na mão anunciando as ofertas imbatíveis do mini-shopping de bugigangas chinesas. Neste calor de fritar calango no meio-fio, não sei o que é pior: a canícula, as crianças me puxando a barba (“é de verdade, mãe!”) ou ter que passar a seco oito horas e meia, descontada a meia horinha do almoço, quando engulo uma esfiha, um torresmo ― e um martini com duas pedras de gelo, que ninguém é de ferro. Moro de favor nos fundos de um estacionamento próximo, o que me introduziu na seleta casta de habitantes do centro da cidade-dormitório. A cidade faz parte da Grande São Paulo; não é tão ruim quanto parece, os políticos daqui praticam o saudável esporte de se fuzilarem uns aos outros, o que vem estimulando a imprensa e o setor de serviços locais.

O centro comercial e administrativo é pequeno, mas o município é amplo; a maioria vive em subúrbios meio distantes, descampados, com ruas de terra batida servidas por excelente malha de córregos que também faz as vezes de esgoto. Mas não posso reclamar, vou a pé para a firma que fica na Avenida Brasil com a Araújo de Castro; o duro é que, como lá não tem vestiário masculino, tenho de já ir vestido de Papai Noel, e tome-lhe gozação dos mosca-de-bar que encontro no caminho. Nos estandes predominam as vendedoras, umas meninas enfiadas em calças jeans dois números menores do que o recheio, que passam a maior parte do dia coladas no celular falando com Deus e o mundo. Tomei gosto por conversar com a Jucilaine, uma dessas coitadas, que ainda por cima está grávida; a velha história: dezoito anos, segunda barriga, segundo pai que desaparece, a avó cria o primeiro brasilino, a mãe trabalha em São Paulo em casa de família.

“Você tem pai?”

“Nem o Noel.”

“E o do... da criança, quem é?”

“Um motoboy do Pizza Express, chama Gabriel.”

Fim de expediente, numa sede da quenga, só pensava na hora de sair dali e já tomar a primeira breja da noite num pé-sujo da vizinhança, só pra lubrificar dando uma banana para quem achasse graça da roupa e para a tal Ceia de Natal. Não sou de ficar emotivo por datas, não antes de encharcar a alma de manguaça, não antes de relembrar que a Yolanda saiu de casa para viver com outra mulher, que as minhas filhas são gerentes de multinacional e já desistiram de me internar em clínicas de reabilitação. Só dei para a mais velha o telefone do estacionamento. Começou então uma daquelas chuvaradas que foi virando enchente em pouco tempo, trânsito parado, os ônibus e peruas passando apinhados de gente sem pegar ninguém no ponto. De repente, a magia das compras havia cessado e as pessoas foram para a porta assistir à fúria das águas que desciam em torrente na direção da parte mais baixa da avenida.

Jucilaine ia dormir na casa de uma amiga, já que no bairro dela o córrego transbordara e nada nem ninguém passaria por ali naquela noite. A mãe ligou dizendo que também não conseguia voltar de São Paulo; ligou para tranqüilizar a avó, que guardasse o peru, fariam a comilança e a entrega de presentes no dia seguinte, paciência. Mas a amiga também estava com problemas na sua quebrada, a Defesa Civil tinha acabado de mandar desocupar toda a rua por risco de desabamento. Ofereci-me para lhe dar um pouso naquela noite de caos; do estacionamento poderia ligar para saber como estavam as coisas com a avó ― ela tinha ficado sem créditos no celular. Não deve ter sido um belo espetáculo, uma dupla bizarra espremida sob o guarda-chuva virado do avesso pelo vento, meio a reboque da enxurrada e com rajadas de chuva batendo de tudo quanto é lado. Menos bonito ainda foi quando fizemos uma parada técnica num boteco, onde abri os trabalhos mandando duas Steinhäger com limão pra baixo; ela recusou o ovo colorido que o garçom lhe trouxe no pires.

Quase que ela poderia ser a neta que não tinha, mas, enquanto caminhávamos aos tropicões pelas ruas alagadas, pensei que tudo aquilo poderia estar ligado ao motivo de eu continuar, misteriosamente, vivo. Fiquei constrangido ao sentir o meu barrigão encostado no dela e, sem entender o que uma coisa teria a ver com a outra, não conseguia tirar a pergunta da cabeça: “qual lição ainda tenho que aprender?” Papo mais besta, esse; acomodei-a no muquinfo em que vivia, presenteando-lhe o colchão e me estiquei na poltrona. O banheiro ficava num puxadinho do lado de fora da edícula; você que neste momento tem acesso a tudo que penso, sabe que velei toda a noite porque faltavam ainda muitos graus GL para me derrubar nos braços de Morfeu, e também que ansiava vê-la levantar-se, ir ao toalete lá fora e voltar toda molhada, se aninhar ao meu lado.

Dar umazinha hoje até que não ia mal, já faz tempo a última. Quantos Natais? Mas o que ninguém poderia suspeitar é que ali, semi-adormecido na poltrona, mamando os restos de uma garrafa de Pitú esquecida no almoxarifado, no escuro, eu vi. E lembrei. Veio tudo, o dia em que pedi a Yolanda que abortasse o que seria nosso primeiro filho, recordei o terror por estar desempregado, o olhar dela; mesmo que duas filhas saudáveis tenham vindo depois, nunca mais dormimos na mesma cama. Será que era isso, finalmente o destino estaria me dando uma mensagem cristalina, eu ainda precisaria conhecer o filho da Jucilaine? Certo, uma criança está vindo; pode não ser muito, mas sempre é alguma coisa.
Não acha?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

sopro


o ar saco de moléculas
onde há ondas sou como
o eco a te eco ar

de seda e sangue entendo
neste tempo inextenso
o dragão na lua desce

tem a sede das bestas a
cada mênstruo da bosta
da lesma do elefante

o cio está nas coisas
da almassolta se cheiro
na relva o orvalho doce

ácido é o pensamento
de quem chora a chuva do
dia que teria sido

você pode se enganar
o que eu não posso fazer
é me enganar por você

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 20

Aldeia dos Quatro Montes




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20

Final de tarde em 4 Montes, com o friozinho de Dezembro e do Inverno que já começara. No Café ArcoBotante, Salústrio e o Senhor Director aproveitavam o escurecer que se instalava para falarem do Natal que estava ao virar da esquina.
- Então, Senhor Director passa por cá a Consoada?
A pergunta de Salústrio era só para dar mais uma ponta de conversa. Estava farto de saber que o Senhor Director nunca passava a quadra do Natal em 4 Montes.
- Infelizmente não! Como sabe, gosto de estar com a família nesses dias. Amanhã mesmo, depois do almoço, faço-me ao caminho e só volto para a semana que vem.
- Pois é… Este Natal vai ser mais comprido… 25 é sábado e todos vão aproveitar o Domingo para ficar um pouco mais de tempo com as famílias… Estranho que este ano ainda não tenham chegado muitos dos que, habitualmente, nos visitam nesta altura.
Salústrio notara que os 4 Montanos que viviam espalhados pelo país e pelo mundo fora não tinham dado a cara pela Vila.
- Caro amigo, a vida não está fácil… Pelo menos, é o que parece, pelo que me é dado ler e ouvir nos órgãos de comunicação social. E o amigo passa o Natal com o seu filho?
- O Pedro vai ficar por cá… Vamos fazer o de sempre! Vamos cear na noite de Consoada com a Ti Joaquina e o pessoal dela, lá na Pensão. Já há anos que passo a Consoada com elas… Sempre gostei de ver muita gente à volta da mesa da Consoada.
- Eu bem sei o que o leva lá…
Salústrio ficava sempre meio encavacado quando se abordava este tema.
- Bom homem, não se ponha assim… Eu referia-me às rabanadas e às filhós de jerimu da Ti Joaquina.
Salústrio sabia que o Senhor Director gostava de mandar umas indirectas.
- Tinha lá algum jeito eu e o meu Pedro passarmos a Consoada aqui em casa?
Como diz o povo, falai no Diabo que ele logo há-de aparecer. Nem mais… Pedro fechou a porta do café, que estava uma aragem de enregelar.
- Senhor Director, ainda por cá?
………
António Augusto e Ana Luísa colocavam as últimas malas na bagageira do carro.
- Não se esquece de nada, Ana Luísa?
Perante a negativa de Ana Luísa, António Augusto dirigiu-se à porta da casa e fechou-a à chave.
Entraram no Audi preto e partiram.
………
Na Pensão Moderna, a Ti Joaquina servia o último vinho do dia ao Ti Zé do Quartilho.
- Não se esqueça que vem consoar connosco…
A Ti Joaquina já sabia a resposta. Apesar de ninguém saber do que é que vivia não era homem de aceitar fosse o que fosse.
- Ó minha senhora… Muito obrigado mas não posso aceitar. Eu cá não ligo a essas festas…
A Ti Joaquina recomendou que ele passasse no dia de Natal que tinha uma prenda para ele levar.
- Ainda venho cá amanhã.
O Ti Zé guardou o quartilho no bolso de fora do casaco e saiu porta fora.
Maria vinha da cozinha.
- A ver se amanhã, a senhora lembra ao padeiro que tem de deixar ficar uns cacetes de trigo para as rabanadas…
Ti Joaquina rabiscou o pedido num caderninho que tinha no balcão. Eram tantas as coisas que tinha para fazer que o melhor era anotar tudo.
- Este ano temos cá o Pedro… Ele pela-se por umas rabanadas, ainda quentinhas, acabadas de fazer… E sonhos… Lembro-me que um ano, estava eu a fritar os sonhos e ele apareceu por aí. Era um catraiozito, teria os seus sete, oito anos. Pois, sabes quantos comeu? Mais de uma dúzia! Era eu a fritar e ele a comer… Raio do rapaz!
Maria ouvia embevecida as histórias que a Ti Joaquina contava. Principalmente, se na história entrasse o Engenheiro Pedro.
………
Angélica estava sentada à secretária do seu gabinete. À sua frente, no monitor do computador, estava aberta uma folha de cálculo, cheia de números.
A esta hora, fim de tarde, não havia muito barulho no Lar. Ouvia-se, em fundo, o som de uma das novelas que passavam na televisão da sala de estar.
Pi… pi… pi… pi… pi…
Angélica começava a estar farta daquele pi… pi… que vinha dos semáforos.
Só dera por ele, passados dois ou três dias. Fora ver do que se tratava e descobrira que para ajudar os peões a saberem que estava sinal verde para atravessarem as passadeiras, o sistema disparava um sinal sonoro. Achara a coisa bem pensada. Sempre serviria de ajuda aos mais velhotes, já curtos de vistas.
Mas…
Pi… pi… pi… pi…

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 19

Aldeia dos Quatro Montes



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19

O Senhor Director sugeriu que se sentassem todos na mesa junto à grande vitrina que dava para o Largo da República.
Ana Luísa e António Augusto pediram, também, café. O Senhor Director, vendo Pedro a tomar um Favaios, pediu a Salústrio que deixasse o café para depois e alinhou num cálice daquele moscatel.
- Então… Que me dizem à cerimónia…?
- O senhor Director conhece bem a peça…, respondeu Pedro, referindo-se a Sua Excelência.
- Conhecer… conheço! Mas, hoje, deixou-me, digamos assim…, deixou-me meio surpreendido! Não esperava que Sua Excelência estivesse tão a par das novas tecnologias! Sensores, avisadores sonoros…
Ana Luísa sorriu e baixou os olhos.
- Pois, eu acho que Sua Excelência esteve muito bem!, disse António Augusto. Já que se vai fazer um investimento destes, ao menos, que se faça bem logo de uma vez. Não é assim, caro Engenheiro?
Pedro ainda estava a tentar digerir a jogada de Sua Excelência.
- Quanto a esse aspecto, tenho de concordar. Seria um contra-senso implantar aqui em 4 Montes alguma coisa que já estivesse desactualizada. E, honra seja feita a Sua Excelência, fiquei agradavelmente surpreendido com a abertura de espírito do nosso administrador…
- Abertura de espírito…? Não estará a exagerar, caro Pedro?, disse o Senhor Director com um certo ar de espanto.
Ana Luísa e António Augusto também não estavam a perceber aonde Pedro queria chegar.
- Bom… Acho que ouvimos todos Sua Excelência dizer que estaria, completamente, disponível para ouvir todas as sugestões para melhorar o funcionamento…
O Senhor Director atalhou…
- Ah!... Então refere-se a isso? Pois olhe que eu não dei grande valia a essa afirmação… Não faz parte do ADN de Sua Excelência dar ouvidos a sugestões…
- Por isso mesmo… Gostei muito de ouvir Sua Excelência manifestar um certo… uma certa humildade!
António Augusto e o Senhor Director fixaram o olhar em Pedro. Havia ali qualquer coisa que não batia certo… Sua Excelência não era, exactamente, conhecido como pessoa que desse importância ao que os outros diziam. Principalmente, se se tratasse de questionar algo que a administração tivesse executado.
O Senhor Director não se conteve.
- Você acredita, mesmo…, nisso?
Pedro demorou a responder.
- Não…! E é por isso que toda esta encenação me causa engulhos!
Ana Luísa já começava a estar farta de tanta conversa sobre o assunto. Tanta coisa por causa de uns meros semáforos… As terras pequenas valorizavam demasiado algo que, numa qualquer cidadezinha, seria de somenos importância.
- Desculpem dar o meu palpite. Porque é tão importante tentar descobrir as intenções de Sua Excelência?
Pedro ia responder… Depois, pensado melhor, deu uma gargalhada.
- Pois… Tem toda a razão! Há tão pouco tempo que voltei a 4 Montes e já me estou a deixar infectar pelo vírus da pequenez… Tem toda a razão! O sistema de regulação de tráfego, como faz questão de o designar aqui o Senhor Director, que se dane! Por falar nisso… Senhor Director, reparou que Sua Excelência usou, pelo menos um par de vezes, esse termo? Vai ter que lhe cobrar os direitos de autor!
A boa disposição instalou-se à volta da mesa.
………
Pelas duas da tarde, no cruzamento dos semáforos, havia muito pouco movimento. Já nada restava que pudesse, a quem não estivesse a par da inauguração, dar indicação de que, ali, houvera uma festa, com petiscos e tudo.
Os semáforos estavam regulados para manter aberto o sinal verde para quem circulasse na Rua da Boavista. Quem se aproximasse pela Rua da Escola, era detectado pelos sensores e activava a transição para abrir o sinal verde. Os peões tinham à sua disposição um botãozinho verde que, depois de carregado, fazia abrir o sinal verde para que pudessem atravessar a rua. As passadeiras estavam imaculadamente brancas…
O Ti Zé do Quartilho tinha-se encostado ao muro do Lar, bem na esquina das duas ruas.
Rua da Boavista… sinal verde.
Rua da Escola… sinal vermelho.
Aproximou-se um carro, descendo a Rua da Boavista, em direcção ao Largo da República. O condutor diminuiu a velocidade e… com sinal verde passou tranquilamente.
O Ti Zé abanou a cabeça, de cima para baixo.
Uma das ajudantes do Lar, certamente depois de terminado o seu turno, saiu pelo portão e encaminhou-se para um carro que a esperava, na Rua da Escola.
O Ti Zé, mudou-se para poder ver o sinal aquela rua.
Mal o veículo se aproximou do semáforo, o sinal passou para verde.
Ti Zé correu para a Rua da Boavista e pode ver o sinal vermelho, enquanto o carro virava à esquerda e se dirigia ao Largo da República.
O Ti Zé do Quartilho, tirou o boné e coçou a cabeça.
Ficou ali, especado, a olhar para o sinal que, entretanto, mudara de vermelho para verde.

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

à espera

a gente escravo dessa

força

eu estou no mundo e

o mundo está em mim

é inevitável

no ponto em que cheguei

que as coisas sejam

feitas a partir de outras

mais simples

(e menos reais)

tudo poderia muito bem

nem ter acontecido

hidrogênio gravidade radiação

e tempo

deve existir um motivo

para tanta complicação

mas escapa

como poesia vazante

nos teus gestos lassos

talvez a vida seja

o mais improvável dos destinos

manifestos

mas ainda acredito em sorte

clinamen acaso ou milagres

do amor

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a sagração do alimento

cruel
o mundo

se a beleza

de vora r

amizade
alimento
ânimo


respirar

é sagrado
...comer e ser comido
antigas tradições
nos exilam
do divino

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 18

Aldeia dos Quatro Montes




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18

Sua Excelência conhecia bem os seus eleitores. Sabia que as expectativas criadas a propósito da instalação dos semáforos o obrigavam a fazer um discurso que colocasse 4 Montes a não falar de qualquer outra coisa durante, pelo menos, uma semana.
Falou-lhes ao coração…
Puxou-os para o lado dele, para que percebessem as dificuldades que a Administração atravessava…
Sua Excelência lembrou-lhes, como se fora necessário, que só estando todos unidos poderiam atingir os altos objectivos a que ele se propunha…
Sua Excelência sabia que não arrancaria aplausos a cada tirada… Não era isso que ele queria. Precisava que todos o escutassem com atenção… Que estivessem pendentes das suas últimas frases, quando lhes apresentasse as suas ideias para o futuro próximo…
Antes de entrar na fase decisiva do seu discurso, Sua Excelência olhou para toda aquela gente que tão bem conhecia… Anotou, mentalmente, todos os que não estavam ali a ouvi-lo… Bom, pelo menos, os que ele achava mais capazes de o incomodarem.
Durante um largo meio minuto, ficou a olhar, olhos nos olhos, aquele povo, o seu povo.
- 4 Montanos! O futuro…
 E foi por ali fora… Percebeu que os levava com ele… Notou nos olhares deles que estavam agarrados ao que lhes dizia…
Estava na hora de terminar.
- Viva 4 Montes!!
Silêncio…
Logo de seguida, alguém gritou viva!!, a que seguiram mais vivas e farta colheita de aplausos.
Sua Excelência abandonou o parlatório e foi, imediatamente, rodeado pelos seus seguidores mas, principalmente, pelas pessoas para quem ele tinha falado.
O Senhor Director aproveitou e tirou uns bonecos aos abraços e cumprimentos mais efusivos.
Luís, o assessor, sabia que tinha chegado o momento de passar à fase seguinte.
- Minhas senhoras e meus senhores, Sua Excelência convida-os a dirigirem-se às mesas para continuarmos este saudável convívio.
Pedro, António Augusto e Ana Luísa tinham-se mantido nos mesmos lugares. Tinham aplaudido no final do discurso e ficaram em silêncio enquanto assistiam ao show de beijinhos e abraços, como tinha anunciado Pedro.
António Augusto foi o primeiro a falar.
- Belo discurso! Sua Excelência tem o dom da palavra e sabe adequar-se à plateia que o ouve…
Pedro tentava encontrar as palavras certas.
- O problema dele nunca foi o de não saber falar, e bem, em público!
Ana Luísa, que tinha ficado com uma opinião muito positiva do discurso, olhou para Pedro.
- Ana Luísa, tenho de ir dar uma palavra a Sua Excelência. Vem comigo?, questionou António Augusto.
Pedro convidou-os a irem tomar um aperitivo ao ArcoBotante e desandou para o café do pai.
O Senhor Director, ao ver que Pedro se ia embora, fez-lhe um sinal a convidá-lo para que se juntasse a ele.
Pedro acenou-lhe negativamente e continuou em direcção ao Largo da República.
Salústrio estava no passeio, bem em frente à porta do café. Mãos nos bolsos, o olhar acompanhava os poucos velhotes que tinham deixado a função.
- Então, não ficaste para provar a petiscada?
Pedro nem se dignou responder-lhe. Entrou, dirigiu-se ao balcão e sentou-se num dos bancos.
- Queres um café?
- Prefiro um Favaios.
Salústrio baixou-se e tirou uma garrafa que estava guardada de forma a que não fosse vista por quem estivesse ao balcão.
Pegou num cálice e serviu generosamente.
- Prova este…
Pedro, primeiro, chegou o bordo do cálice ao nariz e aspirou ligeiramente. Gostou dos aromas e depois deu um golo, melhor dizendo um golinho… Depois, outro, maior.
- Que é Favaios, é! Mas é muito melhor do que qualquer outro que já bebi…
- Ah… Eu sabia que ias gostar! Este tem uma boa dúzia de anos…
Abriu-se a porta do café e entraram António Augusto, Ana Luísa e o Senhor Director mais a sua inseparável máquina, a tiracolo.
- Um café…, pediu o Senhor Director.
- Curtinho, como sempre!, arrematou Salústrio.


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 17

Aldeia dos Quatro Montes





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17

Domingo era dia de Missa. O dia estava bonito, céu azul, friozinho de rachar. Nas bermas menos ensolaradas ainda se viam uns fiapos de neve. O sino tocava as badaladas que anunciavam faltar um quarto de hora para começar a celebração.
A Ti Joaquina não faltava a uma missa dominical, apesar dos afazeres no seu restaurante. Deixava tudo adiantado e lá ia.
- Maria, não te esqueças de olhar pela sopa…
As sopas eram um dos orgulhos da casa. Apesar de não agradar a muitos dos clientes mais novos, a Ti Joaquina fazia questão de ter sempre uma sopa diferente todos os dias. Naquela casa, não acontecia encontrar sempre a mesma sopa de legumes…
A Ti Joaquina ia toda bem enfarpelada. Ela gostava de se arrumar quando ia à Igreja. Como ela dizia, não se entrava na casa do Senhor com qualquer trapo. Para além disso, sempre dava para arejar as toilettes mais vistosas.
A Igreja de 4 Montes não era uma construção vistosa, mesmo assim sendo a referência no Largo da República. De tamanho razoável, daria para pouco mais de uma centena de fiéis. O altar era todo em talha dourada mas, quanto ao resto, era um templo sem qualquer outro adorno artístico. Paredes sempre muito brancas e os bancos corridos, de madeira, completavam a cena.
Quando a Ti Joaquina entrou, molhou os dedos na pia de água benta que estava logo á entrada e dirigiu-se ao seu lugar de sempre. Sim, que toda agente sabia que aquele lugar, no segundo banco, era dela.
.........
Terminada a missa, ainda nem toda a gente tinha saído da Igreja, começou a ouvir-se uma musicata em altos berros. Vinha dos lados do Lar.
Angélica estava a falar com a Ti Joaquina.
- Mas que diabo de música...?, interrogou-se a Ti Joaquina.
- Não me diga que se esqueceu que agora vai ser a inauguração dos semáforos?
- Ora… Pois, para mim não será que tenho de acabar de fazer o almoço, disse a Ti Joaquina e, com isto, desandou em direcção à Pensão Moderna.
Angélica e a grande maioria das pessoas que por ali estavam dirigiram-se ao cruzamento. A distância não era grande.
Ao aproximarem-se, já estava Sua Excelência junto a um parlatório, enfeitado com o brasão do concelho.
Mesmo no meio da rua que vinha da Escola, tinham sido colocadas umas mesas com comes e bebes. Já bastante gente se tinha juntado. Em 4 Montes, não era todos os dias que havia uma coisa destas.
Pedro foi-se aproximando vindo do ArcoBotante. Ele não era de missas… Deixara-se disso quando tinha ido estudar para a Universidade. Ia à Igreja por altura de uma qualquer cerimónia que lhe dissesse respeito ou a alguém por quem tivesse consideração. De resto, não era muito ligado ao ritual das missas dominicais.
- Então Senhor Director…
O Senhor Director estava de máquina em punho para fazer a cobertura do acontecimento.
- Tinha reparado que não estava por aqui… Até cheguei a ponderar a hipótese de que não viesse assistir à inauguração.
- Era o que faltava! Então eu ia lá perder a oportunidade de ouvir em primeira mão o anúncio de uma nova era para 4 Montes?
Pedro tinha um sentido de humor muito fino que o Senhor Director apreciava.
- Estou curioso em conhecer as novas ideias de Sua Excelência. Pedro se me permite vou colocar-me mais próximo que, parece-me, a função vai ter início.
Assim era. O volume da música foi baixando. Luís, o assessor de Sua Excelência, dirigiu-se ao parlatório, ligou o microfone…
- Minhas Senhoras e meus Senhores…
Pedro tentou arranjar um local que lhe permitisse ver e ouvir melhor. Subiu o passeio do lado oposto ao Lar e encostou-se ao muro. As pessoas foram-se aproximando do parlatório, deixando uma clareira à sua frente. Dir-se-ia que 4 Montes em peso estava ali.
António Augusto e Ana Luísa chegavam, vindos de casa. Ao verem onde estava Pedro, dirigiram-se a ele.
- Minha senhora… Senhor Doutor Juiz…
O assessor de Sua Excelência terminava.
- …Vai agora usar da palavra Sua Excelência!
A multidão aplaudiu com energia.
-   Caras e Caros 4 Montanos!
Ouviu-se um som agudo vindo da aparelhagem de som. Luís, o assessor, tinha aumentado o volume de tal forma que se tinha dado um feed-back.

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

sábado, 11 de dezembro de 2010

NEM SEMPRE

nem toda a verdade
acorda

nem tudo que é doce
engorda

nem todo mar é
azul

nem tudo que é belo
nu

nem todo sonho
finda

nem uma utopia
ainda

nem toda paixão há de ser
incerta

nem sempre o sexo
liberta

nem tudo na China será
vermelho

nem chega todo sábio
a velho

nem que eu espere você
volta

nem você gritando ele
nota

nem toda esperança morre
frustrada

nem será toda inocência
abandonada

nem todas as manias
pegam

nem todas as mensagens
chegam

nem toda mulher
chora

nem todo amor vai
embora

nem toda escuridão
alumia

nem sempre há luz
de dia