quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 20

Aldeia dos Quatro Montes




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20

Final de tarde em 4 Montes, com o friozinho de Dezembro e do Inverno que já começara. No Café ArcoBotante, Salústrio e o Senhor Director aproveitavam o escurecer que se instalava para falarem do Natal que estava ao virar da esquina.
- Então, Senhor Director passa por cá a Consoada?
A pergunta de Salústrio era só para dar mais uma ponta de conversa. Estava farto de saber que o Senhor Director nunca passava a quadra do Natal em 4 Montes.
- Infelizmente não! Como sabe, gosto de estar com a família nesses dias. Amanhã mesmo, depois do almoço, faço-me ao caminho e só volto para a semana que vem.
- Pois é… Este Natal vai ser mais comprido… 25 é sábado e todos vão aproveitar o Domingo para ficar um pouco mais de tempo com as famílias… Estranho que este ano ainda não tenham chegado muitos dos que, habitualmente, nos visitam nesta altura.
Salústrio notara que os 4 Montanos que viviam espalhados pelo país e pelo mundo fora não tinham dado a cara pela Vila.
- Caro amigo, a vida não está fácil… Pelo menos, é o que parece, pelo que me é dado ler e ouvir nos órgãos de comunicação social. E o amigo passa o Natal com o seu filho?
- O Pedro vai ficar por cá… Vamos fazer o de sempre! Vamos cear na noite de Consoada com a Ti Joaquina e o pessoal dela, lá na Pensão. Já há anos que passo a Consoada com elas… Sempre gostei de ver muita gente à volta da mesa da Consoada.
- Eu bem sei o que o leva lá…
Salústrio ficava sempre meio encavacado quando se abordava este tema.
- Bom homem, não se ponha assim… Eu referia-me às rabanadas e às filhós de jerimu da Ti Joaquina.
Salústrio sabia que o Senhor Director gostava de mandar umas indirectas.
- Tinha lá algum jeito eu e o meu Pedro passarmos a Consoada aqui em casa?
Como diz o povo, falai no Diabo que ele logo há-de aparecer. Nem mais… Pedro fechou a porta do café, que estava uma aragem de enregelar.
- Senhor Director, ainda por cá?
………
António Augusto e Ana Luísa colocavam as últimas malas na bagageira do carro.
- Não se esquece de nada, Ana Luísa?
Perante a negativa de Ana Luísa, António Augusto dirigiu-se à porta da casa e fechou-a à chave.
Entraram no Audi preto e partiram.
………
Na Pensão Moderna, a Ti Joaquina servia o último vinho do dia ao Ti Zé do Quartilho.
- Não se esqueça que vem consoar connosco…
A Ti Joaquina já sabia a resposta. Apesar de ninguém saber do que é que vivia não era homem de aceitar fosse o que fosse.
- Ó minha senhora… Muito obrigado mas não posso aceitar. Eu cá não ligo a essas festas…
A Ti Joaquina recomendou que ele passasse no dia de Natal que tinha uma prenda para ele levar.
- Ainda venho cá amanhã.
O Ti Zé guardou o quartilho no bolso de fora do casaco e saiu porta fora.
Maria vinha da cozinha.
- A ver se amanhã, a senhora lembra ao padeiro que tem de deixar ficar uns cacetes de trigo para as rabanadas…
Ti Joaquina rabiscou o pedido num caderninho que tinha no balcão. Eram tantas as coisas que tinha para fazer que o melhor era anotar tudo.
- Este ano temos cá o Pedro… Ele pela-se por umas rabanadas, ainda quentinhas, acabadas de fazer… E sonhos… Lembro-me que um ano, estava eu a fritar os sonhos e ele apareceu por aí. Era um catraiozito, teria os seus sete, oito anos. Pois, sabes quantos comeu? Mais de uma dúzia! Era eu a fritar e ele a comer… Raio do rapaz!
Maria ouvia embevecida as histórias que a Ti Joaquina contava. Principalmente, se na história entrasse o Engenheiro Pedro.
………
Angélica estava sentada à secretária do seu gabinete. À sua frente, no monitor do computador, estava aberta uma folha de cálculo, cheia de números.
A esta hora, fim de tarde, não havia muito barulho no Lar. Ouvia-se, em fundo, o som de uma das novelas que passavam na televisão da sala de estar.
Pi… pi… pi… pi… pi…
Angélica começava a estar farta daquele pi… pi… que vinha dos semáforos.
Só dera por ele, passados dois ou três dias. Fora ver do que se tratava e descobrira que para ajudar os peões a saberem que estava sinal verde para atravessarem as passadeiras, o sistema disparava um sinal sonoro. Achara a coisa bem pensada. Sempre serviria de ajuda aos mais velhotes, já curtos de vistas.
Mas…
Pi… pi… pi… pi…

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

2 comentários:

missosso disse...

pi... pi... pi... e as filhós de jerimu, dá uma vontade de estar na Consoada de 4 Montes! Feliz Natal!

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
Boas Festas para vcs aí desse lado do mundo!
abs