quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

conto de um Natal sem luz


            Há muitos anos o ritual se repete entre eu e o meu irmão, dois solteirões à deriva na noite de Véspera: jantamos, conversamos, chegada a meia noite, trocamos presentes e voltamos cada um para a sua casa. Sem filhos, amigos ou família próxima, numa cidade grande demais, apressada demais para prestar atenção em dois velhos amargos e solitários, passamos o serão a brincar com as nossas vicissitudes, e sempre terminamos por repetir a piada interna de que somos dois pedaços de DNA suicida. É cômico sem chegar a ser trágico, um costume de natalino algo incorrigível, mas inocente.
            Ontem, porém, não foi uma noite igual às outras, alguma coisa aconteceu.
            Um acontecimento que não parece ter realmente ocorrido. Para mim, um pesadelo sem os traços do real, porque os acontecimentos reais deixam restos, marcas, dão uma certa concretude à experiência. Deste acontecimento, o único traço reconhecível é uma faixa — dessas que a polícia usa para isolar uma área por algum motivo — em volta de algumas árvores em cima do canteiro central da avenida na qual eu vivo.
            Foi provavelmente o dia mais chuvoso do ano. Ouvi um homem berrar, demorei para prestar atenção (há uma escola em frente e sempre acontecem muitos eventos e festas por lá nesta época o ano). Não era um grito qualquer. O homem gritava em intervalos regulares, um grito de horror. Debruçado na varanda, vi um rapaz falando com o porteiro, pedi informações dali mesmo e me disseram que alguém estava preso ao fio de alta tensão. Os bombeiros já tinham sido chamados.
            Desci. Será que não havia nada a ser feito, apenas esperar?
            Embora fosse quase em frente ao meu prédio, estava escuro e eu só podia ouvir os urros subumanos, os pedidos de socorro. Estava quase na hora de ir encontrar meu irmão no restaurante que sempre reservamos para a ceia de Natal. Saí com medo, medo de ver, medo de ligar o grito à pessoa — se pessoa ainda houvesse. Naquele momento explodiu o transformador do poste de iluminação, o clarão súbito revelou a silhueta escura presa aos cabos. Nitidamente, senti o cheiro da carne queimada.
            Um cheiro inconfundível de antigamente, do tempo distante quando meu avô matava algum leitão na engorda. O cheiro da pele do animal queimado vivo, o desespero demasiado humano do porco pendurado pelas patas traseiras, o ventre aberto de onde se arrancavam as tripas, esvaziadas para fazer lingüiça, os gritos lancinantes enquanto era dessangrado. Muitos anos depois, vim a saber que entre a facada fatal no coração do bicho e a sua morte decorriam escassos minutos, mas na minha memória infantil eram horas de agonia.
            Não conseguia me mover do lugar, no bolso do paletó, o celular soou furiosamente incontáveis vezes antes que pudesse avisar que estava tudo bem... comigo. Havia umas duas ou três pessoas ali, é verdade que estava escuro e ainda chovia. Só umas duas ou três pessoas. Aquilo não acabava nunca, não achei que se pudesse agüentar tanto tempo, sempre imaginei que o choque por descarga elétrica era algo fulminante. Quando voltei, horas depois, a polícia e o corpo de bombeiros ainda não tinham conseguido remover o corpo. O homem já não existia, mas agora o acontecimento estava ali, ruidoso, iluminado, presente.
            Meu irmão escutou atentamente o relato que, naturalmente, dominou a conversa daquela ceia de Consoada; deixou que eu esgotasse a excitação dos nervos em pandarecos falando sem parar. Contrariamente aos nossos hábitos, pedimos uma segunda garrafa de vinho, perto do momento da despedida ele aproveitou para observar: "É uma pena. Deveríamos estar comemorando a vida, afinal, toda esta história de Natal diz respeito ao nascimento de um menino. Mas nem tudo deu errado, acertei meu presente para você: a gravação completa dos quartetos de cordas de Beethoven, são as últimas composições, o lamento maravilhoso, pungente (e eterno), de um moribundo".
            Pela manhã bem cedo a rua estava vazia e havia uma viatura da polícia que logo depois foi embora. Perguntei sobre o acidente de ontem. Parece que um homem tentou roubar os fios e foi eletrocutado. Mas chovia tanto. Como alguém tentaria roubar os fios em meio a um temporal daqueles? Hoje não tinha gente na rua. Nenhuma notícia no jornal, na internet, no Facebook, apenas um Twitter do corpo de bombeiros. Nem mesmo no grupo de moradores do bairro que costumam publicar acontecimentos que interferem ou preocupam em relação à segurança ou cotidiano dos moradores havia alguma menção ao ocorrido.
            No aparelho de som o quatuor número 15 chegava aos delirantes acordes finais, um dolente allegro appassionato.
            Alguém morreu.
            Um homem gritou desesperadamente muito tempo antes de morrer. Tudo que sobrou são umas poucas árvores decoradas por luzinhas de LED, isoladas por uma fita amarela e preta.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Cele... brisou (3)



Mas, como assim, eu mesmo?
Consultava as fotos, visitava a home page, relia uma vez mais, e outra, e nada de entender, continuava na roça. Era como se, em determinado ponto da história, a própria história puxasse os cordões dos sapatos e saísse voando, e ao tocar no solo novamente, voltasse ao chão corriqueiro dos efeitos com causas, mas ainda sem explicar o vôo do pavão misterioso.
Os fatos: há coisa de uns 6 meses, comprei e instalei um aplicativo de gerenciamento de perfil em mídias sociais, o CELEBRIZOU, teoricamente, seria um app para unificar a minha comunicação via notebook, celular, ou tablet, em cada uma das ações dentro da rede, na prática, botei pra dentro da existência virtual um maldito de um vírus que ameaçava destruir meu dia a dia real.
Depois de uma espera surpreendentemente curta ao telefone no serviço de atendimento internacional ao cliente, consegui alguém que falava a minha língua. Ou quase isso. O provável indiano que me respondia do outro lado da linha dava pinta de ter aprendido o português de Portugal, o que lhe conferia algum preciosismo na forma e reforçava o estranhamento da expressão.
― Então, a situação está neste pé que acabei de lhe relatar, senhor...?
― Julian.
― Pois bem, Julian, gostaria de saber o que a sua empresa me recomenda fazer diante disto que lhe contei.
― Caro cliente, a CELEBRIZOU fica muito honrada por nos ter escolhido para gerir suas identidades na rede mundial, nossa principal expertise está em posicionar sua marca pessoal no mercado, mas, como consta do contrato de adesão e dos disclaimers que o senhor...
― Por favor, cut the bullshit, pode ser? Já conheço toda a babiagem de vocês, eu quero é saber como é que desenrola essa fita. Em nenhum lugar está mencionada uma possibilidade assim.
― Com efeito, é singular, mas nem chega surpreender tanto: o nosso produto é um software de inteligência artificial, ele evolui, aprende com o estilo de cada usuário e, com o tempo, ganha um certo grau de autonomia na tomada de decisões.
― Ha, um certo grau?, como piada é excelente, sensacional! Amigo, deixa eu te repetir, tem um cara sinistro me seguindo pra todo lado que eu vou.
― Entenda que nós visamos proporcionar um melhor desempenho na condução de uma persona pública coerente, construtiva e socialmente adequada. As pessoas se arreganham nas redes sociais sem o menor media training, é um perigo que o façam sem orientação, nossa empresa busca diagnosticar, corrigir e prevenir o dano à imagem que tantos se auto-infligem inadvertidamente...
― Todos brisam na celebridade ao alcance de todos, já entendi a ladainha.
― O que deveria ser vida privada, hoje é território público, a grande maioria não leva isso em conta, nos esquecemos rapidamente da “eternidade” e da permeabilidade da internet: sempre há rastos, registros, logs. Veja o seu caso, por exemplo, seu perfil é de um executivo da propaganda, realiza eventos na área de sustentabilidade, e tal, tudo isso condiz pouco com aquelas suas escapadas na Deep Web...
― Aonde está querendo chegar com essa conversa? Seja mais claro.
― Só uma demonstração da abrangência do nosso gerenciador de personalidades. O seu app CELEBRIZOU corrigiu esse probleminha, deletou o navegador Tor do computador pessoal e ajudou-o a emergir para fora do ambiente empesteado da dark net: drogas, lavagem de dinheiro, cartões e documentos hackeados, armas, pornografia da pesada, etc.
― Tá, tá, já captei que vocês são os maiorais, the foddest ones, agora conta pra mim o que você vai fazer concretamente pra me ajudar. Ninguém daí consegue desativar o programa remotamente? E mais, dá pra desinstalar essa porra desse cara da porra da minha vida?
― Não é possível, hãm, o software aprende a desativar os comandos do controle à distância.
― Fabuloso, então você está me dizendo que vende produtos que perdem o controle?
― Posso afirmar-lhe que os nossos produtos obedecem aos mais rigorosos padrões normativos e são projetados com o estado-da-arte da tecnologia informática. O seu avatar pode ter se desenvolvido demais porque o senhor já trabalha com meios de comunicação e...
― Ok. Uma última pergunta: Julian, você é um robô?
A ligação caiu na hora.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #7



E então ele desenrolou o fio tortuoso da sua história, até à ponta do pavio atual que ameaçava explodir o paiol. No meio de tudo aquilo, como a porta do Titanic boiando no mar frio (foi o melhor que conseguiu pensar no momento), havia ela na sua vida, a última esperança antes de ir dormir na rua. E o mais incrível, apesar de ter estragado as guirlandas e arranjos do momento que ela fantasiara tanto, apesar de ter feito a declaração de amor mais bisonha da história da humanidade, foi Ceci ter acreditado imediatamente nele.
Ela intuiu, ou pressentiu adivinhando, lá no fundo do rapaz assustado e trapalhão a mais descarada sinceridade, naquele rosto que começava a amar podia ler uma mensagem ainda não compreendida, mas que inaugurava nela uma necessidade desconhecida e perigosa. Peri abria-lhe o coração, dizia as verdades todas de uma vez, com pressa e atabalhoamento, sem vírgulas, pontos, ou parágrafos, porém com todos os pingos nos is. Nunca tinha conversado assim com um menino, tantas vezes pensou que isso nem era possível.
Bolou um plano maluco. Ceci despediu-se das amigas e os dois se mandaram pra Freguesia do Ó: metrô, ônibus, lotação e um pedaço de ladeira a pé. No caminho combinaram a história longa e cabeluda que contariam à mãe dela: depois de muito vai e vem, no final, Peri era de um grupo de dança de Goiás, que precisava ficar hospedado na edícula desocupada pelo tio recentemente. Só por uns dias. Problema mesmo ia ser dar a volta no Aristeu, seu padrasto, um encostado que a mãe cometera a besteira de trazer para dentro de casa.
Só que os russos não estavam combinados, e eram tudo alemão: a mãe da menina virou onça, subiu nas tamancas, e deu um siricotico de acudir vizinho recusando a idéia brilhante da filha sem noção. Na sala do sobrado, o padrasto ficou só de canto, deixando o circo pegar fogo, calmo, a lixar as unhas, tomava seu cafezinho açucarado casualmente, à espera de meter seus pitacos na conversa. Peri teve de aguardar a decisão do conselho familiar no quintal, dali, ouvia angustiado a cuíca roncar lá dentro.
― Fora de questão, minha filha, nem morta! Só por cima do meu cadáver é que você vai me trazer um moleque, que eu nunca vi mais gordo nem mais magro, pra morar nesta casa. Pode tirar seu cavalinho da chuva, Cecivânia!
― Mas mãe, o Peri é um dançarino conhecido, ele se apresenta direto, vai ser uma turnê curta. E depois, ele é amigo há uma cota, faz um tempão que tá no meu Facebook...
― Ah, bom, agora eu posso realmente ficar sossegada: vocês se conhecem do Face! Puxa, ainda bem, tava quase ficando preocupada! Você sabe lá o que tá falando, trazer alguém assim, que nem conhece direito?
― E você também não trouxe alguém pra morar com a gente?
― Você me respeite, Ceci, uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa! Cheirou meia, foi? Depois que fiquei viúva de seu pai me dediquei anos a te criar, agora é a minha vez de ser feliz com uma pessoa que eu sei muito bem quem é. Não achei na rua, não.
― Bom, sempre se pode dar uma pesquisada, esse cara tem algum documento? ― Aristeu remexia o café displicentemente, bicava o melado do fundo da xícara na ponta da colher ― E os pais dele, não podem dar uma telefonada pra sua mãe?
― Ele não... é órfão, só tem a mãe, acho que ela tá... ocupada demais. Mas, escuta, vocês tão achando o quê? Gente, só trouxe um colega da dança pra passar uma noite, ele tá sem mala, inclusive. Será que os valores cristãos que você tanto me fala, mãe, servem pra quê?
A discussão foi braba, mas no fim, Ceci conseguiu da mãe a autorização para que o amigo ficasse na edícula, mas trancado para fora da casa. Aristeu insistiu para ver os documentos dele, o que deixou o moço bem cabreiro. Peri não bateu o santo com o dele de primeira, o padrasto da “sua” mina tinha a maior chinfra de X9, tremenda cara de P2. Foi pra cama mais tarde torcendo pra estar enganado.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Cele... brisou (2)


“Seu” Jamil tinha cara de tudo, principalmente daqueles tiozinhos que organizam a fila na Disneyworld, menos de um detetive de “renomada capacidade e testada eficiência” como constava na biografia do seu site. Praticamente calvo, tinha o cacoete de esticar os raros fios de cabelo com gel, a impressão era de que um hipopótamo acabara de lhe dar uma lambida desde a testa até à nuca. A pança rotunda, a pele escalavrada, o terno marrom, a careca mal assumida, tudo nele conspirava para conferir-lhe a aparência puída de um contador interiorano. Mas o meu James Bond com físico de jogador de baralho cobrava honorários de advogado pica-grossa: recebia por hora e garantia a solução da pendenga em um prazo máximo de uma semana.
― Andou comendo a mulher de alguém? Não? Inimigos no trabalho, processos, ex sócios, ex mulher ou ex namorada rancorosa, herança em disputa, deve dinheiro na praça...?
― Não, nada disso. Já rachei o coco pensando em algumas dessas hipóteses, minha vida não é de fortes emoções, doutor Biscaia. Pra mim o cara é pancada, doidão mesmo.
― Todo mundo é meio detraqué, ao menos um pouco, menos os normais, que são hipócritas. O nosso contrato vai até onde diz respeito à vida do elemento: onde mora, o que faz, e, principalmente, por que está atrás do senhor. Se depois disso quiser dar um susto nele, já não é comigo, embora possa lhe indicar pessoas de minha confiança para o serviço.
― Bom, espero não precisar chegar a esse ponto...
Tão logo deixei o escritório do detetive particular, recebi o telefonema da minha namorada, Liríope, a Lira, uma mulher encantadora que odeia o nome que os pais lhe deram, me entende pouco, mas em compensação me ama muito. Acabara de chegar de viagem (aquela mesma na qual não embarquei), estava louca de saudades e queria me ver. Tomei o rumo do bairro dela, Moema, que àquela hora parecia ser o lugar para onde o mundo queria ir.
O inferno cotidiano do trânsito da metrópole. Liguei a rádio, nas ondas da freqüência modulada rock gospel e as notícias mundo-cão: um psicopata saiu atacando pessoas aleatoriamente, havia tatuado no corpo o número de vítimas que pretendia matar. Menos mal que o pararam a um terço do objetivo. Mudei a estação, melhor evitar aquela trilha de idéias, buscar uma egrégora mais positiva antes de encontrar a Lira, até podia antever a cena: ela, com uma taça de vinho na mão, desfazendo a mala, entregando-me presentes, contando mil pequenas histórias que só ela sabia tornar engraçadas ― tudo isso enquanto fazia um macarrão simples e gostoso.
― Como assim você acha que eu estou indo longe demais nessa história?
― Simples assim: você tem andado um pouco too much, tigrão. Sei lá, pode ser só uma coincidência, você encontrou o cara em dois, três lugares, e encanou na onda da perseguição...
― ... dois, três, lugares? Lira, meu bem, esse xarope tem me seguido em todos os lugares onde eu vou. Você achar que é uma simples coincidência, encanação, isso sim, é que é meio sei lá... Se um cara, ou uma mulher que fosse, te seguisse pra todo canto, você não ia achar que tem algo errado?
― Sim, mas daí você chamou um policial, agora, é o detetive. Onde isso vai parar? Sabe o que eu acho que está acontecendo de errado?
― Por favor, não me esconda nada, afinal, já tô até pagando por essa informação!
― É que tá dando tudo certo pro teu lado: você tá bombando como publicitário, é jovem, bonito, cara, você leva a vida que muitos sonham.
― Hmm, certamente eu estou com a garota que todos gostariam...
― Tá vendo só? Até nisso você tem sorte: é ligeiro, bem humorado, tem tudo a seu favor. Vai ver sente culpa pelo privilégio e por isso é que precisa ficar inventando algum problema que poderia rasgar teu bilhete premiado, quebrar as esferas do dragão.
― Putz, Lira, você consegue ser fofa até quando me esculhamba. Impossível ficar bravo com você. Quer dizer que, pra você, eu estou procurando pêlo em ovo?
Três dias depois de ser contratado, o doutor Jamil Biscaia me procurou: caso encerrado. Só não dava pra acreditar, mas estava tudo lá, numa pasta com fotos, páginas impressas, relatórios e dados explicando e comprovando tintim por tintim.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #5



Não teve dois nem três, Peri saltou de banda e saiu de fininho do esquema dos malucos da Roosevelt. Ali não tinha nada pra ele. Tava com sono, noiado, em todo lugar via rostos conhecidos, e conhecidos davam pista, falavam, davam pala pros bandidos virem catá-lo e metê-lo no paletó de madeira. Não tinha feito nada, não era justo morrer tão jovem. Pôs os fones no ouvido.
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela
28 de Setembro não é só mais um
É dia de luta, não é um dia comum
Direito imediato, revolução de fato
Protesto na batida, ventre livre de fato
Embicou pelo túnel da Radial, seguindo maneiro na estreita calçada margeando o rio de carros, daí caiu pra saída da Rui Barbosa e foi subindo a Treze de Maio até virar à esquerda, bem na altura de pegar o viaduto da Beneficência Portuguesa e chegar suadão no Centro Cultural da Vergueiro. Um upa do carai. Sentou num banco, pra desbaratinar a sede, tomou umas goladas do squeeze de plástico desbotado. Esperou por ela balançando o skate com um pé e marcando a batida com o outro, no corredor onde montou campana, paredes de vidro assentadas na estrutura de concreto serviam de espelho para uma variedade de trupes e grupos ensaiar suas coreografias.
Vai dizer que não sabia?
Vai dizer que é engano?
E ela chegou chegando, causando ― Peri sentiu o terremoto surdo de reações à sua volta ―, os passos ritmados, saracoteando os dreads, criando a cadência como quem evolui em vez de andar, muito negra, linda, na sua roupa descolada a delinear um corpo esperto e flexível, no qual cada movimento parecia se resolver na máxima extensão da leveza e da graça. Aquela menina parecia ter recebido no berço todo o tabuleiro da baiana de qualidades, adivinhava-se imediatamente nela a imponderável mistura de inquietude, sorte e confiança daqueles em que o dom se manifesta sem deixar dúvidas.
Ceci transpirava a beleza bravia, a fúria multicolorida do dragão, e ainda vinha muito samba no pé. Já tinham trocado uma idéia, e até ficou no ar um interesse mútuo, mas sempre se sentira um pouco muito intimidado diante dela.
Pra azar do garoto, o Sweet Nightmare estava na vibe de ensaiar bastante naquele dia, lá estava, lá ficou, ouvindo um som, balançando o pé, devorando a mina com o olhar muquiado pelos óculos escuros comprados no camelô. De vez em quando fingia checar alguma coisa no celular, puro migué, o dele não era espertofone. Haviam se conhecido ali, um dos poucos lugares que ele freqüentava na cidade, ponto de encontro de dançarinos jovens em busca de espaço na cena; pertenciam a tribos diferentes, e ele sacou que as diferenças não paravam no estilo: a mina era bem tratada, roupas e acessórios de marca, enfim, não devia ser burguesinha, mas batata que não era favelada como ele.
― E aí, seu grupo não veio?
― É, tá com jeito que ninguém vai colar hoje...
― Hmm, pelo menos tira esse bico da sua cara, cê tá meio estranho, não? ― ela percebeu a dificuldade dele e resolveu aliviar ― Desculpa, tô fazendo um monte de perguntas idiotas.
― Não existem perguntas idiotas, só respostas. Suave, tô de boa.
“O amor é sempre a resposta, não importa qual é a pergunta”, ela pensou, mas não disse.
― Você... já acabou?
― Bem, acho que ainda vamos rever a filmagem, mas já tá bem redondo, não achou?
― É, sim, você tá muito bem.
― Não perguntei de mim, mas do grupo...
― Então, é que... na real eu tô precisando levar um particular com você, um papo reto. Faz tempo.
― Bom, só se for agora. Tô aqui, agora, tu não pode é querer que eu fale por você. Desembucha logo, não gosto de mistérios. Você tá a fim... de mim?
― Não, quer dizer, sim, ou melhor, também... mas isto nem é o mais importante...
― O que é que pode ser mais importante que isso??
― Não, não era isso que eu queria dizer.
― E o que você queria dizer então?
― Ceci, eu juro que tô limpo nessa, sou trabalhador, faço correria de motoboy pra ajudar minha mãe de coração e nem tenho carteira, mas é que tô num puta angu de caroço, me cagüetaram...
― Fala logo, criatura, tá mais arrastado que novela das oito!
― Então, meu, fizeram minha caveira pros broder da facção, não posso voltar pra casa. Tô na roça, não tenho família. Será que cê sabe onde eu poderia dormir, só por hoje?


sábado, 29 de novembro de 2014

Cele... brisou (1)



            E então lá estava ele: rebolando na pista, uíscão na mão, indicadores apontados para o alto, chacoalhando ostensivamente a pulseira VIP, tirando selfie com o DJ, pagando de rei do camarote; estilo vacilante entre o coxinha-roupa-de-shopping e o bagaceira P.I.M.P. Sabe o tipo de sujeito que grita “Uhu, partiu balada”?
            Vergonha alheia total.
            Foi a primeira vez que me dei conta da existência daquele cara, o energúmeno passou a ser figurinha carimbada em todos os lugares onde eu andava. Saía do trabalho, lá estava o mala, descia do elevador, dava de cara com ele, no vagão do metrô, na sala de espera do analista, no estádio assistindo o show de rock, correndo no parque, bem atrás de mim na fila da lotérica, em todos os cantos acabava por encontrar aquele chiclete grudado no pé.
            Quem não ficaria noiado no meu lugar?
            Prestei queixa à polícia ― só consegui foi criar um mega enrosco. Pra começar, não era claro o local, uma vez que procurei a delegacia mais perto da minha casa e não a correspondente à ocorrência (que eram várias), depois, havia o problema muito mais fundamental de não haver crime algum. O pentelho não fazia nada, não me abordava, não ameaçava, nem sequer se dirigia a mim. Apenas não faltava, nunca.
            Até que achei um policial com saco pra perder meia hora comigo. Acompanhou-me a um bar nas imediações da delegacia, dez minutos, e pimba!, o feladaputa apareceu todo fagueiro no pedaço. Aceitou a prensa surpreso mas sem reclamar, apresentou documentos, foi revistado, tudo nos conformes. Um cretino acima de qualquer suspeita: não tinha capivara, registro cível e penal limpos.
            Nada a fazer, meti a viola no saco.
            ― Mas você não acha estranho um caboclo gastar tempo seguindo os passos do outro, assim, do nada?
― Amigo, na boa, a polícia foi até onde pode ir neste caso. Intuição minha, sossega que o louco é manso, no máximo um viado obcecado por você. Daqui a pouco ele desimpregna, vai azucrinar outro.
― E não pode obrigar esse freak a fazer um exame de sanidade mental? Isso não pode ser normal.
― Faz parte do direito de ir e vir. Se fôssemos obrigar todo cidadão a fazer uma coisa dessas, não saía ninguém de casa, moço.
Bom, as coisas estavam nesse pé quando topei com a figura na fila de embarque do vôo que me levaria para merecidas férias. Aquilo foi demais. Num relance, vi toda a estadia em Las Leñas com aquele papagaio de pirata colado em mim pra cima e pra baixo, a vista pretejou, depois tingiu-se de uma névoa vermelha, e foi aí que parti pra cima dele. Dei-lhe uns bons pares de chutes, pescoções e muquetas a esmo antes que três passageiros me contivessem derrubando-me no piso numa cena grotesca.
― Me solta, me solta! Vocês não sabem o que eu estou passando por causa desse panaca, me soltaaa!
Fuzuê completo no saguão lotado. Delegacia (de novo), depoimentos, acareação, etc., no fim do imbróglio, o agredido não quis registrar queixa-crime, queria tão somente embarcar na sua viagem e esquiar com os amigos! Não achei tão mal: não houve abertura de inquérito, podia transferir a viagem e adiar as reservas de hotel pra baixa temporada, e ainda ganhava uns dias pra pensar sem aquela sarna.
Era uma porra de um pesadelo.
Pago imposto, respeito as leis, pego no pesado, e, na hora de garantir o repouso do guerreiro, tudo que o Estado me oferece é o risco de ser indiciado por agressão. E ainda tenho que agradecer porque saiu barato pro meu lado. Foi quando rolou o insight: no fundo, como em tudo mais neste país, se eu queria um serviço bem feito ia ter de botar a mão no bolso. Contratei o detetive Jamil Biscaia, um investigador aposentado do Garra pra desenrolar essa fita.


domingo, 16 de novembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #4



Ajeitou os fones no ouvido, puxou as calças ― inutilmente ― para cima, e saiu à direita na Ipiranga só quebrando de levinho o skate na contramão dos carros. Pra desbaratinar a linha reta ia dando uns flips, backside, frontside, contornou na Praça da República saltando os buracos do asfalto com ollies cabulosos. Tudo à sua volta estava em movimento, os carrinhos de papelão, os homens-placa, as pombas, sacos plásticos voavam, as pessoas iam ou voltavam de algum lugar, desciam do ônibus, entravam na lotérica, paravam pra comprar amendoim torrado. Parecia que todos tinham seu lugar no mundo, caminhando para destinos conhecidos, protegidos por Deus e abrigados num lar. Menos ele, que não tinha feito nada errado, a não ser nascer.
Precisava parar, pensar, mas como, se estava com a sua mente até às tampas de pensamentos avulsos e o corpo atochado de adrenalina? Não podia dormir uma segunda noite no mesmo muquifo, isso era certo, qualquer ligação com a sua comunidade tinha de ser cortada. Muito zoião por aí. Precisava encontrar alguma coisa, alguém. Lembrou dos broders da Roosevelt, numa hora dessas devia ter vários deles por lá quebrando geral nos gaps, rampas, escadas e palcos da praça preferida dos skatistas de street. Não deu outra: molecada tava lá tocando o terror no concreto. Sentou num canto, ouvindo os versos da MC Luana.
Nasceu! Mais um fruto do acaso
E o mané que não quer nada,
O sobrenome é descaso
Uma gravidez indesejada, mesmo com a prevenção
Não importa sua crença ou religião
E imagina, de uma forma perigosa e clandestina
Como é que vai fazer para mudar a sua sina...
Pois é, como fazer pra mudar a sua sina? Tinha a impressão de que o tempo havia acelerado como em um filme, era louco pensar que nunca atentara para o tempo, a substância inquieta e fluida de que a vida é feita, essa coisa sempre outra, mutante, indecifrável. Peri atravessava um mistério a cada minuto, enigma não resolvido que logo escapava, substituído continuamente por outro quebra-cabeça mais novo e aterrorizante. Tinha caído na corrente de um rio sem fim, a história se repetia, é verdade, mas também se transmutava, cambiando microscopicamente, imperceptivelmente, até que o instante passava deixando a certeza de que nada seria como antes. Nascer é muito comprido.
― E aí moleque, tá aí de canto, mocosado, que é que tá pegando, Peri?
― Fala, Bugalu! Tô de boa, mano, só no varial...
― Então bro, cai dentro, bora lá fazer umas manobra. Ou vai ficar aí só de rosca?
― Ih, mano, tô piano hoje, mó caô, uma roubada federal. Escuta, tem a manha de me arrumar um canto pra mim dormir, só por hoje?
― Putcha vida, irmão, lá na goma nem rola. Minha irmã mudou pra casa com bebê, cunhado e o carai, eu mesmo tô dormindo no chão da sala. Sem chance.
― Pô cara, desculpa chegar assim de pé na porta, é que... meu perrengue é sinistro mesmo.
― Mas qual que foi? Tu comeu a mãe do guarda?
― Nem zoa, Bugalu, a resenha é mais cumprida que a Estrada do M’Boi Mirim, o caso é que emprestei a cabrita prum broder que ficou de conversa com gambé, e agora o gerente lá da minha quebrada tá achando que fui eu que cagüetei a firma.
― Caraca, véio, sujeira fodida! Esses cara do movimento não deixa frango engordar pra galo, já mata no ovo.
― Pois é, véio, nego me encomendou e não tenho como explicar que focinho de porco não é tomada.
― Seguinte Peri, esses pela-saco daí fizeram uma entera pra comprar uns bagulho de comer e refri. Tó aí mano, uma garça, contribuição nossa pra tu ir se virando por enquanto.
― Opa, já ajuda. Brigadão mesmo. Vou sair fora, valeu irmão.
― Peraí meu, onde cê tá indo criatura?
― Nem sei, só não quero ficar aqui batendo cara, eu que não vou dar mole pra kojak.
― Então Peri, em vez de ficar pasmando por aí, por que tu não cola lá na Vergueiro? Cê tem umas parada lá com o pessoal do break, que eu tô ligado.
― Somente! Hmm, daqui pra chegar lá é dois palito... Ei, Bugalu, mais uma coisa: tu nem me viu, firmeza?
― Nem precisava falar, vai pela sombra pé de chumbo ― o garoto deu um spin de 360 graus e acelerou na direção de um corrimão que ele desceu deslizando a prancha no aço escovado.


sábado, 8 de novembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia (#3)



Ele sempre soube que era negro, neguinho, urubu, boneco de piche, tiziu, tição, chiclete de onça, sempre percebeu os olhares atentos dos seguranças, as perguntas dos porteiros, as inevitáveis entradas de serviço, a espera com a pizza atrás das grades de edifícios onde nunca poderia entrar. Sempre soube que era adotado e que dos seus pais não poderia esperar nada, todos os dezessete da sua vida tinham sido uma segunda chance. Não era para ele ter nascido, nascido, quase não sobreviveu, crescido, agora se via na obrigação de cair no mundo de uma hora para a outra. O que Peri nunca poderia saber é que também ele se tornaria um negro fujão como Zumbi, mais um.
Nunca mais esqueceu aquela noite: doze de agosto, o ano ele não lembra porque ainda era muito pivete. Ele assistia ao Supercine, o filme tinha Tom Hanks na comédia Será que ele é? No intervalo, uma mensagem em vídeo interrompe a programação. Um homem encapuzado usando colete à prova de balas diante de uma bandeira que dizia: “O PCC luta pela injustiça carcerária. Paz e justiça”. O homem é negro, ou quase, como quase todo mundo na sua quebrada, ele fala das prisões, os depósitos dos humanos sem direitos, explica que a guerra não é contra a população, os inimigos são o Estado e o seu braço armado, a polícia. Ele termina com uma frase encarando a tela: “A luta é nós e vocês”.
Paz, justiça e liberdade, era o lema deles, repetiam como um refrão de rap. Peri descobriu no espaço de uma noite que não terá os dois primeiros, que só lhe sobrou a correria pela sua liberdade. Escapou mocosado na mala do carro de uma voluntária da ONG que ensinava teatro, dança e capoeira na favela. Dormiu numa ocupação da Barão de Limeira no centro da cidade, e saiu no dia seguinte para procurar outro lugar para ficar. Um dia luminoso e pachorrento de domingo começava na metrópole que não se importava com ele, as pessoas iam e vinham pelas ruas despreocupadamente.
Tentou parar de raciocinar, tentou parar de pensar que estava tudo errado: os bandidos lutavam pela justiça, enquanto a justiça lutava pelos ricos. Vocês? Nós? De quem é a luta? Quem são os mocinhos? Quem são os bandidos? O que ele sabia é que, no final, sempre o poderoso esmaga o fraco. Deslizava no seu skate carregando a mochila nas costas, bonezão de pala cobrindo o rosto e a carteira com dez reais enterrada no bolso da calça larga. Não tinha a menor idéia do que deveria fazer a partir de agora. A porra tava toda errada. Tudo.

As duas meninas haviam ensaiado a coreografia à exaustão, cansadas, deixaram-se cair na cama ainda acompanhando no tablet o clipe do Chimera Dance Cover. Os vídeos da música conhecida como K-pop, o pop coreano, rolavam na TV instalada no típico quarto de adolescente, grupos com nomes como Block B, Wide Vision, SHINee, 2NE1, Winlock Dance Crew, D.I.V.A., Tiny G, B2, Sun Mi, além do inimitável Psy.
― Zica monstra, amiga, zica monstra. Desculpa falar, mas esse mino tem a maior cara de encrenca.
― Por quê? Só porque ele é pobre? Qual é, Sandrinha, se for assim nós também não somos da burguesia...
― Ah, Ceci, a Freguesia não é a mesma coisa que o Capão, aqui é bairro, não é quebrada. Lá onde esse Peri mora, jacaré toma água no canudinho de medo de piranha, fia.
Caía a tarde. A menina admirava o estilo bem próprio de Ceci se vestir edançar, os olhos grandes e amendoados, o rosto moreno rosado, os lábios carnudos, os longos cabelos arrumados em dread locks coloridos. Na verdade, ninguém conseguia evitar um certo despeito diante da beleza de contornos tão definidos quanto suaves da amiga, que lhe parecia uma mistura de Rihanna com Beyoncé. A delícadeza da negritude somada à graça desdenhosa do índio.
― Então, as meninas tão aqui me cobrando, borá lá no Centro Cultural ensaiar?
― Certeza. Vai que o grupo dele também cola lá pra ensaiar...
― Até o nome que escolheram é zoado: Black tipo A!
― San, eu adoro o nome do nosso grupo: Sweet Nightmare, doce pesadelo.


domingo, 26 de outubro de 2014

Perivaldo e Cecivânia (#2)



A festa do Praquemquer, sob a batuta do MC da Santiago rolava o som e um programa de primeira, atraindo gente da Piraporinha, Jardim Pirajussara, Morro do Ingá, Parque Regina, Ararinha, São Luís, Buraco do Rato, Jardim Fernanda, e de várias outras quebradas, já que os bailes e rolês da perifa vivem na mira do proibidão. No terreno do lava-rápido se espalhando pelo capoeirão baldio ao lado, até duas mil pessoas já se haviam reunido, misturando as lagartixas ninja do break e do free style, com os pagodeiros mela-cueca, os rappers risca-faca, as cachorras do funk e as bichinhas rebolando no puts-puts do DJ.
Peri deveria se apresentar por volta da uma da manhã, mas daquela vez a coreografia afinada e acrobática do seu quinteto de street dance estava destinada a acabar mal. Tinha sido encomendado pelo gerente do seu pedaço por causa de um mal entendido, uma tremenda cagada. Emprestou a cabrita pro bróder ir buscar a avó no hospital, os polícias güentaram o moleque na saída da favela, tudo limpo, documento e tal, deixaram seguir. Os soldados do movimento filmando tudo à distância. No dia seguinte, os homens da lei dão uma batida-monstro na biqueira, fora do arrego habitual. Ligando (errado) os pontinhos, os traficas concluíram que o dedo nervoso tinha sido o dono da moto.
A lei da pedra não tem perhaps, sentencia rápido: morte ao traíra. O menino de dezessete anos, filho de pai desconhecido e órfão de mãe do crack, era agora um cara marcado para morrer. Dona Jovina, líder comunitária do Capão, criou o neguinho sangue-bom na rédea curta e no temor a Deus, sentia muito orgulho de vê-lo estudando e trabalhando, lutando pelos seus sonhos. Os bicos de delivery pra pizzarias da região pagavam a prestação da scooter e ainda sobrava algum pra ajudar nas despesas de casa. Pouco bebia, não fumava, não usava drogas, seu único vício era dançar ― e ele mandava bem, arrancava gritinhos das minas durante os solos do grupo Black tipo A.
No entanto, o que salvou Peri foi justamente o pó, o combustível do capitalismo. Biqueira é que nem padoca, você compra o pão, e na caixa decide também levar um maço de Hollywood. Drogas e armas. Magaiver, o encarregado de mandá-lo para o país dos pés juntos, comprou uma pistola e um revólver a prazo, mas à vista teria de matar o suposto cagüete: o acordo com o gerente da boca incluiu de brinde a munição da mente. Cocaína, a Rainha Branca das noites viradas. Malandro cafungou a carreira de cortesia e foi armar sua campana no bar do Neco, ficou por ali, tomando umas na mesa, dando uns tecos no banheiro do bar, só esperando na tocaia.
Só que a branquinha faz dessas coisas, acende as luzinhas do cérebro como se fosse Natal o ano inteiro, mas também solta a língua do freguês como se todos fossem amigos da vida inteira. Dopamina e noradrenalina, a paz e a força convivendo em total equilíbrio. Em pouco tempo a clientela do Neco já sabia a fita que ia rolar logo mais, alguns já até apostavam com quantos furos o moleque ia acabar. Todos riam, jogavam sinuca e entornavam a breja gelada, menos um, o Tiziu, amigo do Perivaldo. Ele fez cara de paisagem, se fingiu de morto pra comer o cu do coveiro, grudou a cara no chão e ficou ali moscando, até que achou uma brecha pra escapar sem ser visto.
― ‘Noite, dona Jovina, Peri tá?
― Lá dentro, tá dando um cochilo antes de sair pro baile...
― A senhora me desculpa, mas vou acordar ele.
― Que cara é essa Tiziu, viu a mula sem cabeça?
― Ih, tia, acho que eu senti foi o budum do Capeta bem do meu lado. A bênção.
Entrou apressado na casa de tijolo sem chapisco e já foi acordando o rapaz dando bica nas pernas dele.
― Acorda mano, rapidinho fio, que a tua batata tá assando. Fizeram tua caveira com o William, mano, teu nome tá pregado no poste, anda porra!
― Caralho Tiziu, que porra de quizumba é essa? Tu chega aqui virado no cão, me chutando, véio, que parada é essa?
― Peri, meu bróder, tava até agora no bar do Neco ouvindo um maluco que tá com a bala que tem teu nome na agulha. O pessoal do movimento tá achando que tu cagüetou eles, e mandaram esse tal de Magaiver te apagar, mano.
― Que loucura, véi... mas, como? Caraca, emprestei minha vespa pro Gabriel, ele me falou que os gambé deram uma dura, mas ele não...
― O caso é que maluco filmou a fita, e fez a idéia. Arruma tuas coisas e cai no mundo, Peri, já costuraram teu nome na boca do sapo, irmãozinho.
― Eu não tenho parente, Tiziu, minha mãe é tudo pra mim, não tenho aonde ir. Vou lá levar uma idéia com o William, acho que consigo explicar...
― Tá bem louco, Perebas? E se malandro não dormir no teu barulho, tu faz o quê? Já vai tá ali no jeito, na boca do lobo cercado de cupincha dele, mano, eles vão te matar várias vezes. Lembra aquele nóinha que eles meteram no “microondas”, e aquele outro que pregaram as mãos e os pés no muro? Dedo duro, à vera ou não, ninguém da profissão perigo perdoa.
― Mas, mano, vou pra onde? E deixo mãe Jovina aqui?
― Com ela não mexem, sossega, o problema é tu, Peri, prestenção, hoje começa o resto da tua vida, sai deste lugar e nem pensa em voltar, mano. Vacila não, foi mó sorte sua que eu tava ali sobrando, iam te subir enquanto você dançava no palco, igual ao Daleste. Não força a amizade com teu anjo da guarda, ganha a estrada véio. E já.


domingo, 19 de outubro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #1



           ― Aí Magaiver! Demorô mas chegô.
― Fala William, meu irmãozinho, tudo pela ordem?
― Se melhorar estraga, meu truta. E o que pegou com o teu primo, não ia vim junto?
― Ih, maluco, mó perrê... o primo assinou 180 de graça, mano ligeiro mas vacilou, pegou carro emprestado, os homens grampeou ele num corre no Valo Velho. Petê fodido, e os gambé ainda apreenderam as máquina na casa do maluco. Fagrante.
― Preju do carai, rapá. E então, veio buscar as peça? Pega os esquema aí e resolve teu problema.
― Tá osso, irmão, trabalhar sem berro dá não, os cana tão forte na rua. Até pra fazer uma saidinha de banco tá embaçado.
― Vamo levar uma idéia, tua casa caiu, certo? Mas tem as regra da casa, se o irmão me traz só metade do arrego, tem que dividir o latão com nóis. Firmeza?
― Firmão tru, na moral, o combinado não é caro.
― Escuta, e aquele serviço que a firma te encomendou, que pé que tá?
― Ainda não deu, vou sentar o pau no gato essa semana.
― Sabe onde o mala tá morando?
― Claro, liguei pra família, meti a da entrega das Casas Bahia. Não deu outra, abraçaram com as dez.
― Os trouxa abraçou?
― Facinho. O cara mora até que perto, depois de quarta subo ele. Tá devendo pro partido, se fodeu bem feito.
― Escolhe aí, Beretta, Colt, e tem a quadrada...
― Falando em quadrada, essa tua cromada é bem loca, mano.
― Desbaratina dessa, Magaiver, é de estima. Hmm, melhor levar o 38, a 380 tá engasgando direto.
― Belezinha, posso dar uns teco? Só pra testar...
― Tu vai testar ela já, já, mano, sossega que São João já passou. Tem um funk que vai rolar mais tarde lá no lava-rápido, preciso que me apague um P2 lá mesmo, na fuça dos cara. Enche ele de furo pra mim e deixa o recado pros moleque.
― Sei não, bróder, já tô muito sujo nesta quebrada, neguinho tá jogando um monte de 121 nas minhas costas...
― Dá meu nome, bro. Então, o zé-ruela chama Peri, Perivaldo. Foi visto entregando uma fita grande pros cana, tomamo uma apreensão cabulosa. Não dá pra dividir tudo com a Narcóticos, com os coxinha da PM qualquer garoupa tá resolvendo, mas esses cara quer sociedade. Morde que é a porra.
― De certeza que não pega nada quebrar esse nóinha? Fama de pé de pato é mó atraso, tão falando por aí que eu mato mais que a Rota, mano.
― Meu truta, a ordem veio de dentro do sistema, tu acha que eles põe matraca pesada na minha mão se eu não for responsa? Cagüete nós tem que descer, e logo, na minha área não vô deixar cobra criar asa.
― Tá certo, tem que ter preceito. Se os torre autorizaram... Me passa a fita que eu armo o caixão, põe os prego na conta do serviço, então... tem a manha?
― Belê, munição por conta da empresa. É uma parada molezinha, courinho de rato, o malaquias é um neguinho magro, metido a dançarino esse Peri. Tu cola no Praquemquer, o tal bailão do lava-rápido, e só espera o grupo dele se apresentar, daí já faz ele ali mesmo.
― Deixa comigo, Willia, esse moleque já tá no abraço da jibóia. Cê tem aí fácil uma foto do defunto?



sábado, 11 de outubro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (final)



Ela achou uma boa idéia acompanhar-me ao quarto do hotel. É tão precioso quanto raro termos a oportunidade de observar aqueles momentos em que nos damos conta do ultrapassamento do paradigma sob o qual vivíamos até então ― a princípio sobrevém o susto, o prazer de desbravar novos continentes sendo sempre menor que a angústia pelo aconchego perdido. Alguns encontros podem desencadear esta percepção polifônica no instante mesmo em que a nova visão de mundo se ergue sobre os escombros da antiga, cobrindo-a com o seu aluvião irregular de promessas e possibilidades.
― E então, que cara é essa? Parece até que viu assombração... já não sou a mesma sem as luzes da balada, o glitter, a música, a vibe?
― É a única cara que tenho, a mesma há tanto tempo que nem sei. Já você, mudou sim, parece aquelas imagens que se alteram conforme assumimos posições diferentes em relação a ela.
― Conversa fiada, eu sou como você, sou exatamente o que querem que eu seja. Fala a palavra, cara, tra-ves-ti. Será que você é um daqueles que acham que quando não se dá nome à coisa ela não existe?
Ela tomou fôlego. Caminhou teatral até ao criado mudo e conectou o smartphone no console ao lado da cama, o quarto se encheu dos primeiros acordes sujos da abertura de Let Me Stand Next To Your Fire.
― Posso me transformar sucessivamente em cacto, homem, pássaro, mulher-inseto; sou hermafrodita como as flores, dividida como os vermes. Você, benzinho, está no mesmo business que eu, o verme do bispo e todos os aiatolás: o comércio da alma, o negócio da ilusão. Eu sou trans, e você, não é meio que isso mesmo?
― O que você sabe sobre mim, aliás, o que pode alguém saber sobre mim quando eu mesmo esqueci o que era?
― Sei muito bem quando encontro meu igual na diferença. Sei que você é uma criança morta dentro de um adulto sem sustos, um cara sem o conhecimento retorcido que só tem quem sofreu por amor. Sei o quanto é incapaz de amar alguém, mas que, em compensação, deixou de sofrer por amor a si mesmo, e já não precisa do beijo da mamãe antes de dormir porque se entupiu de comprimidos.
― O prazer que o amor oferece vale realmente a felicidade que destrói?
― Ah, sim, não é o que dizem? As pessoas erram quando amam, saem machucadas e infelizes de cada paixão... mas amaram! Quando se lembram do passado, podem dizer a si mesmas: me fodi, enfiei o pé na jaca, mas ainda assim, amei. Fui eu que tive essa vida, e não uma pessoa inventada, criada pelo meu orgulho, minha nostalgia, meu tédio.
― Não lembro de nada. Vivo a vida que todos sonham, só que não: sou um caminhante sem passado, sem mapa, nem direção.
― Bom, muitas coisas não são pro nosso bico ― ela começou a tirar uns sacolés da sua imensa bolsa de marca ― Mas somos do grand monde, figuras de ação, e figuras de ação estão sempre ocupadas demais em surfar a onda seguinte. O futuro chegou, e o futuro somos nós, os zumbis.
― Que é que você tem aí?
― O que você quiser. Erva, pedra, bala, meta, doce ou pino?
― Hum, acho que vou de bright...
Esticou duas taturanas brancas no tampo da mesa de vidro.
― Se liga aí, tamanduá, essa é da pura. Zero-zero-zero. Vai manerinho.
― Jura? Sniff, hum, coisa fina... muito melhor do que tava rolando na festa.
― Você tentou se matar? É, não disfarça, não, conheço essas marcas no seu pescoço. Aah, que delícia, pozinho do bom... Sabe, já tentei isso várias vezes, tenho janela, uma vez foi a minha cachorra que impediu: começou a latir que nem uma louca, girando em volta no banquinho que eu tinha subido. Já tava literalmente com a corda pescoço.
― Quer dizer que você não é só uma morta-viva, também é bruxa nas horas vagas...?
― Hahaha, todos os meus muitos vícios foram compensados por amplas graças, se pudesse trocava as portas de céu e inferno, desnortearia a terra inteira! Que mundo é este? Não sabemos, por isso é tão assustador. As entidades aqui não morrem, habitam soltas na história, espreitam no ar escuro ao nosso redor como velhas deusas selvagens, terríveis, completamente imunes a qualquer senso de certo e errado.
― Porra, mina, tu tá bem louca. Tô sacando nada do que cê fala.
― Escuta, você é rico e famoso, mas, famoso quem? Poderoso pra quê? Uma puta inutilidade tudo isso... não é uma inutilidade total apenas porque os outros desejam esse ouro de tolo. A maravilha corta em mim sua navalha, e eu me desfaço em dobras e camadas como se a minha memória fosse minha e dos outros também, como se eu fosse a hora maluca que cria seu próprio horário. A boca mais banal, a paisagem mais desinteressante, o círculo eterno dos bois na mó. Tudo pode acordar em nós.
― Só conhecemos as coisas depois que elas retornam a nós por meio da imaginação, da memória, do pensamento sonâmbulo... um momento breve como um relâmpago, fragmento evanescente do ser em estado puro.
― Bagulhos antigos, tênis sem cadarços, programas de televisão, rostos desconhecidos, estão todos sujeitos a um estranho fenômeno: podem despertar pra nós. Vasos com murtas, palavras, um simples aperto de mão, a revelação ronda a consciência com patas de veludo, estalando feito mola que já havia neles, mas dormida, eriçando a penugem que roça em nós o mais profundo e leve.
― Conta uma coisa pra mim sobre você, da sua vida, a história mais verdadeira que possa contar...
― Eu fui um menino de seis anos que já sabia que era menina. Esperava meus pais saírem pra me vestir com os vestidos de mamãe. Ficava horas diante do espelho ajeitando a cintura, preenchendo o decote, dobrando a barra da saia maria-mijona a arrastar no chão. Depois, cansava, ia pro sofá da sala espiar a casinha do relógio-cuco na parede, esperando pela hora angustiosa do passarinho cantar. Horas e horas nisso. Pedia a Deus todos os dias que me levasse, minha vida não valia a pena, me devolvesse pro nada por favor. Um dia meu pai passou em casa no meio da tarde e surpreendeu-me ali, sentado na sala, vestido de mulher. Fiquei apavorado, esfregava as mãos, cosido ao sofá pelo terror. Não disse nada. Aproximou-se por trás em silêncio, eu mal ousava respirar. Senti que ele ia me libertar daquela miséria em que vivia, desejei com todas as forças que fosse em frente, até o fim. Nesse momento, o cuco saiu da casinha ensaiando seu refrão. Meu pai correu para o relógio, arrancou o pássaro do carrilhão e foi embora de casa. Nunca mais voltou.
(...)
― Então, estamos aqui no seu quarto e tal, vai ser só papo?
― Sempre é assim?
― No final da noite, gatinho, sempre querem alguma coisa de mim. O que vai ser? O furico? A jeba? Ou os dois?


sábado, 27 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (4)




Dali em diante, eu nunca mais fui a mesma pessoa. Literalmente. A coisa se tornou um mecanismo, uma engrenagem ao mesmo tempo repetitiva e surpreendente, na qual só me cabia embarcar no avião, descer noutra cidade qualquer, assumir a identidade randômica de uma plaquinha qualquer, e continuar seguindo sempre em frente, na direção do desperdício, das despedidas e dos recomeços. Tornei-me um exímio escolhedor de malas na esteira ― os pertences alheios também são tediosos e imprevisíveis ―, numa delas encontrei certa vez uma vela de barco. Nunca se sabe quando essas coisas podem ser úteis. Os lugares mudavam, mas o tempo permanecia o mesmo: um presente opaco, liso, incessante e fixo como os dias e noites sem fim dos pólos. Nunca mais viajei de classe econômica.
Ao custo de perder a memória, descobri finalmente não quem era, mas o que eu era. Eu sou um VIP, alguém muito importante. Pode-se nascer VIP, ou virar um, ou até deixar de o ser, mas o fato é que, enquanto for VIP, você passa para aquele grupo de pessoas diferentes das outras. Neste mundo cada vez mais rápido e sem fronteiras, onde todos vão ficando parecidos com todos, esta é a divisão fundamental, a porta fechada à multidão. A maioria dos indivíduos parece muito ansiosa em se adequar aos outros, vive a única vida que acredita possível, achando possível que ela seja realmente única. Já eu, sou todo mundo e ninguém. Num dia sou o empresário do ramo de cosméticos falando das perspectivas do setor, noutro, ministro workshops sobre técnicas xamânicas, ou coordeno cursos intensivos de leadership training, ou ainda emocionados sermões em igrejas gospel.
Minhas performances são gravadas, transmitidas, comentadas, compartilhadas on line, assistidas em muitas línguas, mesmo assim, nunca falham em causar uma comoção estranha quando as assisto. Há uma distância irônica, escarninha, entre a imagem perfeitamente sincrônica do vídeo e o sujeito telescopado que sinto ser na maior parte do tempo. Neste momento, acesso na tela do meu relógio o resumo da fala de um candidato a cargo político (que sou eu), discursando para uma seleta platéia de formadores de opinião. Como consigo ser tão convincente, dar a impressão de ter feito isso desde criancinha?
― Com tantas mudanças em curso, as instituições políticas se encontram ultrapassadas, carcomidas por práticas clientelistas, nepotismo, populismo e outras formas de patrimonialismo e perpetuação no poder a qualquer custo. Sob o pretexto de buscar condições estáveis para a governabilidade e a gestão da máquina pública, desde a redemocratização, o presidencialismo de coalizão tem se caracterizado por uma lógica viciosa de acordos de bastidores e distribuição de cargos e vantagens. Tornou-se corriqueiro o loteamento do Estado em troca de apoio parlamentar e tempo de propaganda eleitoral. O dinheiro do contribuinte é, assim, desperdiçado em políticas públicas inconclusas, por negligência ou por falta de planejamento, de integração e de visão de longo prazo. A transparência dá lugar à cultura da obscuridade e da corrupção. A democracia brasileira é de baixa qualidade porque pouco aberta à participação e marcada pelo desapego dos ocupantes de cargos públicos por práticas de accountability e transparência. Não bastasse isso, a legislação eleitoral opera a favor da concentração do poder, o debate é delimitado por estreitas orientações de marketing, e o sistema político seqüestrado pela lógica do mercado: só tem valor o que tem preço.
Nos períodos de espera em lounges de hotel e aeroportos venho me dedicando a registrar as coisas mais importantes que acontecem comigo, embora seja acossado por sérias dúvidas da utilidade disto. Para quem chegou até aqui, no entanto, farei uma revelação: os VIPs vivem entre performances públicas e festas privadas animadíssimas. Os antigos romanos as chamariam de orgias. Pois foi numa dessas festas fechadas, na modesta mansão do bispo Aristeu, quando ele comemorou a marca dos mil Semeadores, os franqueados da sua igreja capazes de desembolsar um milhão para abrir filiais próprias, que conheci aquela moça. Negra, longilínea, falsa magra, uma mulher de modos e proporções monumentais.
Ela achou uma boa idéia acompanhar-me ao quarto do hotel.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (3)


No quarto do hotel luxuoso ― de estilo moderno, porém retrô ―, nem todas as notícias a me aguardar eram boas. Como prometido, as instruções detalhadas do que deveria fazer no dia seguinte lá estavam, dentro de um envelope com as iniciais DSK. Quem diabos é essa pessoa, ou seria uma empresa? O “d” e o “s” ainda poderiam encaixar em mim, via-me tranquilamente como Daniel Santos, Douglas Silva, ou até Diego Souza, mas o K fazia pensar num sobrenome estrangeiro. E eu tinha cara de tudo, menos de japa ou gringo. O conteúdo da mala preta foi outro balde de água gelada: roupas de mulher.
Figura, corpo, presença, são designações muito elaboradas, noções situadas na região dos meios; o mesmo já não se pode dizer da existência de carne e osso despida de nome: algo nela ainda não penetrou até às fontes físicas da vida, permanecendo ao largo do organismo inconsciente e generalizável onde se abriga a idéia. Eu estava ali completamente só, procurando religar os fios de algum propósito aos nervos e tendões de um corpo, de uma biografia, quando decidi que não seria o Ricardo-Coração-de-Leão, mas o Ricardo-Coração-dos-Outros ― passaria a viver consoante o que esperassem de mim, e não mais me conformaria à ilusão auto-imposta de um self único, pessoal e intransferível.
Pagando bem, que mal que tem? Ia ser pago para atuar num filme comercial, uma propaganda de um produto médico. Um ator era o que queriam que eu fosse? Eu seria um ator. Sem problemas, contanto que me dessem hospedagem, roupas, traslados, mordomias, grana no bolso, e, ao final, me pusessem de volta num avião. Pode-se viver perfeitamente sem uma identidade fixa, estável, neste mundo de consistência mercurial onde as perguntas já contêm as respostas. Por um desses redobramentos de fora para dentro, tudo sempre pode ser outra coisa, mas é a superfície que se torna essencial e profunda.
A van chegou pontualmente à oito da manhã para me buscar. Fui levado pelas ruas de uma cidade desconhecida para o galpão de uma produtora num bairro residencial e bastante arborizado. Gravar um comercial de poucos segundos é uma atividade extenuante que envolve uma equipe inimaginável de fotógrafos, editores, diretores, produtores, técnicos, maquiadores e figurinistas, além dos atores. Há todo tipo de especialistas num set de filmagens, inclusive os experts em coisa nenhuma. Ficamos um dia inteiro repetindo cenas, acertando a luz, o som, as falas, a marcação de cena, até chegar a uma peça audiovisual que seria submetida à aprovação do cliente no dia seguinte.
Pelo que pude acompanhar da montagem na edição final, o filmete ficou mais ou menos assim:
Cena 1 – Plano aberto, externa. Tiozinho sentado na praia numa cadeira branca tomando uma água de côco, aproxima-se uma gostosona, falsa loira, de biquíni cortininha fio dental ao som de um samba partido alto. Ela deixa cair a canga e se agacha para pegá-la arrebitando o bumbum bem na frente do macróbio, sem despertar nenhuma reação nele. Um sujeito de agasalho azul escuro que corria na areia da praia, chega pelo lado oposto da cadeira, por trás, e recomenda ao velhinho:
― Ô gente fina, tome Anemokol rapaz!
Cena 2 – Enquadramento médio, cena de estúdio, plano-seqüência único, um consultório médico bem clean, na parede do fundo de divisórias brancas um crucifixo de ferro batido, onde no lugar do Cristo vê-se o Homem Vitruviano. O médico, já de certa idade, respeitavelmente vestido com um jaleco de manga curta, óculos drummondianos, bigode fino e estetoscópio em volta o pescoço, caminha da direita para a esquerda, e se senta na mesa de trabalho segurando uma caixa do produto virada para a tela.
― A saúde, a energia, a vitalidade, e o apetite, você consegue com...? Anemokol!
Packshot 1 – caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal que repete a fala do locutor:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias.
(Volta para a cena inicial) – Contraplano da cena 1, o velhinho se levanta, animado só com a dica, e corre pra xavecar a moça que se afastava na praia pela esquerda. À direita da tela o corredor se afasta.
Cena 3 – Edição rápida de várias externas com entrevistas de populares dando opinião sobre o remédio (no táxi, no botequim, no balcão da farmácia, na feira, um anão fala com a boca cheia de frango, etc.).
Packshot 2 - caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal com a fala do locutor:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias.
Cena 4 – Quarto de hotel, close no homem de chapéu e terno pretos (sou eu), óculos escuros, cinto fivelão de vaqueiro e botas idem de couro; ele termina de se vestir, travelling pelo quarto até uma mulher inteiramente nua, coberta apenas no púbis e mamilos por flocos de espuma, que emerge de uma jacuzzi com uma toalha enrolada na cabeça. Música sertaneja.
― Eu sou o machão brasileiro: invejado pelos homens, e querido, amado, pelas mulheres. Sabe por quê? Porque eu tomo Anemokol, A-ne-mo-kol. Com Anemokol eu tenho saúde, vitalidade... e muito apetite! È isso aí, Anemokol, vai por mim.
Já sem a toalha na cabeça, a morena escultural soltou os longos cabelos negros, vem por trás e me abraça, carinhosa e submissa. Eu, inteiramente vestido, ela, nua.
Packshot final - caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal com a fala do locutor, que desta vez acrescenta uma frase:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias. Anemokol, o estimulante do século!


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (2)



Tudo que é sólido apodrece no ar, e tudo sempre pode piorar. O trombadinha desaparecera no mundo. Para completar o roteiro do desastre, talvez também tivesse levado o celular, fora que, durante a busca na sacola e nos bolsos não havia encontrado nenhum tablet ou laptop. Depositei as esperanças cadentes em alguma etiqueta na mala que pudesse devolver-me, senão uma identidade, ao menos um nome e algumas roupas do meu número. Mas, qual mala era a minha, naquele insano arraial de modelos e cores e formatos serpenteando na passarela de borracha?
Porra nenhuma a fazer, a não ser esperar pela bagagem que sobrasse por último, ou seja, resgatar-me por exclusão. Saí do bololô de gente para aguardar sentado; com mais tempo e lucidez de espírito, comecei a investigar os dados imediatos da minha mente em estado de choque. Percebi que lembrava alguns fragmentos de fatos e cenas, mas não tinha acesso a nenhuma narrativa, verdadeira ou falsa, para costurar um sentido a eles. Eu sabia algumas coisas, por exemplo, ajudei o meu vizinho de vôo a reconectar seu smartphone na rede depois da aterrissagem, mas ignorava como, por que e, principalmente, quem sabia fazer isso com tanta desenvoltura.
O mais sensato talvez fosse procurar a polícia e comunicar o roubo, mas uma outra voz interior dizia para esperar que o conteúdo da mala revelasse mais sobre mim. E se eu fosse um ladrão, um assassino procurado, talvez até uma “mula” carregando drogas clandestinamente? Ri sozinho desta última hipótese ― mesmo que tivesse engolido papelotes revestidos de aço, estariam imprestáveis a esta hora. Passei então a escrutinar a aparência geral e os sinais particulares: uso a barba curta, cerrada, aproximadamente um metro e setenta e cinco de altura, cabelos e olhos castanhos, nem gordo, nem magro, tatuagem na omoplata direita (um ideograma), idade indefinível, possivelmente entre a quarta e a quinta década, marca de vacina, cicatriz de cirurgia no joelho esquerdo, sem aliança, pulseira ou gargantilha; relógio: Rolex falso.
Espontaneamente prestava mais atenção à parcela feminina do meu entorno, porém, a julgar pela diversidade de corpos e estilos que fixavam meu olhar, não devia ser dos mais específicos nas preferências desse tipo. Era como se me houvessem instalado uma divisória virtual no cérebro, ambas as metades permaneciam operacionais, apenas não se comunicavam entre si. A lembrança de uma tabuleta escrita à mão: “Chapéus para homens de palha”. Parecia uma cena antiga ― um trocadilho familiar, talvez ― embora descrevesse com acurácia a minha condição atual, eu era um homem oco, um sujeito recheado de memórias sem sujeito. O homem de palha.
Lentamente, o salão foi se esvaziando. Uma única mala preta, inútil e sozinha, continuava a entrar e sair pelas cortinas do compartimento de bagagens. Peguei-a e saí para a área de desembarque doméstico, onde uma nova pequena turba aguardava. Foi só quando cruzei a porta automática que entendi o absurdo da situação. Familiares se abraçavam, namorados, esposas, maridos, pais e filhos, amigos e amantes matavam as saudades ― e havia pessoas com placas, aquelas placas com nomes escritos. Várias possibilidades se abriam e fechavam, também os outros não me reconheciam, chamavam, nem abraçavam.
Os portadores de placa aparentavam querer que eu fosse o ser da placa, claro, mais para acabar com suas esperas do que pra me tirar deste limbo. Algumas, com nomes bonitos, eu fitava por mais tempo, como se, à força de olhar para aqueles nomes, pudesse me tornar o ser correspondente. Vinícius Piedade, Élio Siridião, Rogério Marques, Giulio Gabbana, Tito Lima, Mr. Vollard, Ambrose, Saulo Sakata... Porém, os seres atrás das placas logo encontravam seus destinatários, ou desviavam de mim o olhar entediado; todos menos um: o cara de bigode, óculos, sorriso, pança e um cartaz onde havia apenas 3 letras: D S K.
― Dê-esse-cá?
― O quê?!
― Quê não, cá! Seu vôo atrasou.
― Sim, claro, atrasou um bocado, faltou teto pra pousar... ― esperava que ele me esclarecesse, ou fizesse uma pergunta iluminadora, mas o camarada foi logo pegando as minhas coisas e dirigindo o carrinho para o estacionamento. Não me chamava por nenhum nome, portava-se em relação a mim com a deferência respeitosa e entrona que se dispensa às celebridades. Será que eu sou alguém famoso?
― Desculpe, esqueci de me apresentar, Viwelson.
― Prazer, Vinelson, é... pra onde estamos indo?
― É Viwelson, com “w” no segundo “v”. Vou te levar pro Marriott, padrão, né?
― Muito bom, imagino. Tarde pra você estar trabalhando, não?
― Tô de boa. Vão liberar a manhã pra mim, mas você, eles vêm pegar logo cedo. Oito da matina. O roteiro já vai estar na mesa do seu quarto no hotel.
No carro em alta velocidade pelas ruas de uma cidade qualquer à noite, eu me perguntava se não estaria roubando o destino do verdadeiro DSK, que neste momento no aeroporto procurava desesperado a plaquinha que assaltei. Não estaria furtando seu passado, sua personalidade, raptando-lhe a posição social e os sonhos, usurpando sua profissão? Teria eu despojado um legítimo cidadão de sua mulher e filhos, sua chácara no campo, seus cães de raça, arrebatado uma vida inteira num só golpe? Imbuído desse espírito pirata, comecei a me debruçar sobre a conversa do Viwelson, ele me consultava como se eu fosse uma espécie de autoridade em relacionamentos.
― Então, né, eu e essa mina temos uma relação exclusivamente física, tipo eu te uso e você me usa, saca?, mas aí vem o problema: me amarrei nela, à vera.
― Aí é que a porca torce o rabicó ― parecia-me para lá de surpreendente que aquele cara de bigode, óculos, sorriso, pança, e que ainda há pouco segurava o cartaz do D S K, tivesse relações “puramente físicas” com alguém, e isso o incomodasse ― Esses lances foram feitos pra ser simples, leves... e sem love.
― É, eu achei que agüentava, deu não. Reparei que ela só me procura entre um relacionamento sério e outro, nunca me dá a camisa de titular. Acho que, no amor, pra mim não tem jogo amistoso, é tudo final de Copa do Mundo.
― Pois então, a gente acha muita coisa que não é, sexo é fodinha, meu amigo, amor que é fodão ― nem podia crer na facilidade com que debitava tais enormidades, devia ter feito isso a vida toda.
― Mas, e aí, que é que eu faço?
― Vai por mim, você entrou pela porta errada na vida dessa mulher, às vezes o cara consegue sair e achar a porta certa, às vezes não.