domingo, 14 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #7



E então ele desenrolou o fio tortuoso da sua história, até à ponta do pavio atual que ameaçava explodir o paiol. No meio de tudo aquilo, como a porta do Titanic boiando no mar frio (foi o melhor que conseguiu pensar no momento), havia ela na sua vida, a última esperança antes de ir dormir na rua. E o mais incrível, apesar de ter estragado as guirlandas e arranjos do momento que ela fantasiara tanto, apesar de ter feito a declaração de amor mais bisonha da história da humanidade, foi Ceci ter acreditado imediatamente nele.
Ela intuiu, ou pressentiu adivinhando, lá no fundo do rapaz assustado e trapalhão a mais descarada sinceridade, naquele rosto que começava a amar podia ler uma mensagem ainda não compreendida, mas que inaugurava nela uma necessidade desconhecida e perigosa. Peri abria-lhe o coração, dizia as verdades todas de uma vez, com pressa e atabalhoamento, sem vírgulas, pontos, ou parágrafos, porém com todos os pingos nos is. Nunca tinha conversado assim com um menino, tantas vezes pensou que isso nem era possível.
Bolou um plano maluco. Ceci despediu-se das amigas e os dois se mandaram pra Freguesia do Ó: metrô, ônibus, lotação e um pedaço de ladeira a pé. No caminho combinaram a história longa e cabeluda que contariam à mãe dela: depois de muito vai e vem, no final, Peri era de um grupo de dança de Goiás, que precisava ficar hospedado na edícula desocupada pelo tio recentemente. Só por uns dias. Problema mesmo ia ser dar a volta no Aristeu, seu padrasto, um encostado que a mãe cometera a besteira de trazer para dentro de casa.
Só que os russos não estavam combinados, e eram tudo alemão: a mãe da menina virou onça, subiu nas tamancas, e deu um siricotico de acudir vizinho recusando a idéia brilhante da filha sem noção. Na sala do sobrado, o padrasto ficou só de canto, deixando o circo pegar fogo, calmo, a lixar as unhas, tomava seu cafezinho açucarado casualmente, à espera de meter seus pitacos na conversa. Peri teve de aguardar a decisão do conselho familiar no quintal, dali, ouvia angustiado a cuíca roncar lá dentro.
― Fora de questão, minha filha, nem morta! Só por cima do meu cadáver é que você vai me trazer um moleque, que eu nunca vi mais gordo nem mais magro, pra morar nesta casa. Pode tirar seu cavalinho da chuva, Cecivânia!
― Mas mãe, o Peri é um dançarino conhecido, ele se apresenta direto, vai ser uma turnê curta. E depois, ele é amigo há uma cota, faz um tempão que tá no meu Facebook...
― Ah, bom, agora eu posso realmente ficar sossegada: vocês se conhecem do Face! Puxa, ainda bem, tava quase ficando preocupada! Você sabe lá o que tá falando, trazer alguém assim, que nem conhece direito?
― E você também não trouxe alguém pra morar com a gente?
― Você me respeite, Ceci, uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa! Cheirou meia, foi? Depois que fiquei viúva de seu pai me dediquei anos a te criar, agora é a minha vez de ser feliz com uma pessoa que eu sei muito bem quem é. Não achei na rua, não.
― Bom, sempre se pode dar uma pesquisada, esse cara tem algum documento? ― Aristeu remexia o café displicentemente, bicava o melado do fundo da xícara na ponta da colher ― E os pais dele, não podem dar uma telefonada pra sua mãe?
― Ele não... é órfão, só tem a mãe, acho que ela tá... ocupada demais. Mas, escuta, vocês tão achando o quê? Gente, só trouxe um colega da dança pra passar uma noite, ele tá sem mala, inclusive. Será que os valores cristãos que você tanto me fala, mãe, servem pra quê?
A discussão foi braba, mas no fim, Ceci conseguiu da mãe a autorização para que o amigo ficasse na edícula, mas trancado para fora da casa. Aristeu insistiu para ver os documentos dele, o que deixou o moço bem cabreiro. Peri não bateu o santo com o dele de primeira, o padrasto da “sua” mina tinha a maior chinfra de X9, tremenda cara de P2. Foi pra cama mais tarde torcendo pra estar enganado.


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