quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Afterlights (2)




            Evidentemente, não há amor-próprio que resista a uma traulitada dessas, o sujeito malhou implacavelmente o resultado de 3 anos de esforço insano em exatos e demolidores 1051 caracteres. Meu ego levou uma tunda pior que Judas no sábado de Aleluia, e foi dormir na praça. As devastadoras palavras finais em caixa alta reverberaram por meses na minha mente em viés de baixa: PASSE ADIANTE, PASSE ADIANTE, PASSE ADIANTE. Pareciam ser, como de fato eram, um decreto de ostracismo para a minha já pouco promissora carreira literária. E o pior de tudo é que, no fundo, sentia que o cara estava certo. Ponderei comigo mesmo que talvez me faltasse a experiência direta, como se ainda não tivesse provado o verdadeiro almoço nu, não houvesse chegado perto do coração selvagem da vida como ela é. Ora, se Joseph Conrad, Euclydes da Cunha, Le Clézio, Jack Kerouac, e até Guimarães Rosa, tinham posto a mão na massa e o pé na estrada para comporem suas obras-primas, talvez fosse o caso de cometer esse nefando crime contra todos os meus princípios: trabalhar.
            O figurino habitual do escritor frustrado recomendava um longo mergulho na depressão, nas drogas e na orgia, mas faltavam-me a vocação e a fortitude de caráter para suportar as contas atrasadas, além do mais, encarar a noite escura da alma de barriga vazia provoca gastrite e dá uma insônia do cacete. O trampo do aplicativo nada mais era do que uma extensão da inércia habitual, ficava em casa fazendo porra nenhuma durante dias até receber um endereço e um nome pelo celular. Eles chamavam isso de job: tem um job lá pra você no lugar tal, com fulano(a) de tal. A hora podia ser qualquer, do dia ou da noite, feriado ou dia santo. O primeiro rendez vous foi num galpão abandonado cheirando a bosta e mijo repleto de entulho, a todo momento imaginava que uma horda de crackudos ia me cercar e devorar o meu cérebro. Lancei o pó de ninja e vazei dali cagado de medo.
            Na segunda chamada melhorei dramaticamente de nível na escala social: bairro classe média alta, varanda gourmet, apartamentos de um por andar, humilhação básica na portaria e mordomo atendendo na porta do elevador pedindo para eu esperar no living enquanto madame se aprontava para me receber. Finalmente sentia que as coisas iam começar pra valer, já antecipava a esbórnia que faria com a grana do primeiro pagamento. Dona Irany Maracajá proporcionou-me novo chá de cadeira básico até despontar na sala rescendendo a perfume doce e vestida como se tivesse acabado de sair de Downtown Abbey, tinha os cabelos pintados num tom azul-violáceo, e devia andar lá pelos seus 90 e tra-la-lá.
            ― Venha por aqui, estaremos mais cômodos no escritório do meu falecido esposo. Você não se parece muito com a foto do perfil, aliás, nem parece que se dedica a este tipo de ocupação tão... singular.
― Verdade, essa foto que usei é de tempos melhores da minha vida. A senhora talvez não consiga avaliar o quanto a penúria econômica maltrata o cidadão, digamos assim, desfavorecido.
― Você é que não sabe nada da minha vida pra falar desse jeito comigo. O problema é que, diferentemente da estupidez, o bom senso é muito mal distribuído na população em geral. Seja sincero, é a primeira vez que...? A sua patente impertinência denota uma óbvia falta de experiência.
― Sinceramente, peço-lhe desculpas. Não queria ser grosseiro, acontece que, apesar de ser escritor, não sou muito bom com as palavras em situações de interação social. E, sim, é a minha primeira vez.
― A juventude é mesmo um transtorno, felizmente, tem cura. Percebo que se interessa pelos livros do meu marido, a maioria são de direito, mas também deve haver por aí algumas primeiras edições autografadas a merecer melhor destino. Apesar das estantes envidraçadas, não imagina a pó que essa tranqueira junta.
― Tranqueira, pó... a senhora não faz idéia do quanto eu gosto de ouvir esse tipo de comentários sobre os livros. Bom, mas nada disso diz respeito ao nosso objetivo aqui, podemos começar?
― Antes, quero lhe pedir um pequeno favor...
― Esteja à vontade, faça como se estivéssemos na sua casa.
― Fique de pé, por favor.
― Não estou entendendo...
― Você poderia se masturbar? Tranqüilo, não farei nada além de observar. Só peço que vá até o fim.
― Mas por que...?
Ganhei 50 pratas pelo “serviço”, mas não consegui realizar o job da Afterlights. Quase liguei pro meu editor, queria dizer a ele que há buracos ainda mais negros do que os da literatura.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Afterlights (1)




            Precisavam justamente de alguém com disponibilidade para trabalhar em “horários flexíveis”, e foi assim que emprestei a soldo minha absoluta falta do que fazer à empresa Afterlights. Disponibilidade é meu nome, sobrenome desocupado. Talvez na época eu tenha estranhado a contratação mega express ultra rápida (a entrevista com o dono da firma durou uns 15 minutos), mas devo ter-me convenientemente convencido que é assim que a banda toca no universo em desencanto das start ups: dinamismo, alta competitividade e zero conversa mole. Além do mais, os caras me registraram, e, nestes tempos golpistas e bicudos, “resistro” em carteira tá mais difícil de achar do que nota de 100. Abracei com as quatro patas.
            ― Estou vendo aqui no seu currículo que você é escritor, tá ciente da nossa cláusula de confidencialidade? A natureza específica do seu trabalho conosco é absolutamente sigilosa, não vai poder aparecer em futuro algum, nem em prosa nem em verso.
― Oh, não se preocupe com isso, talvez a melhor maneira de guardar um segredo seja dentro de um livro meu. Pro senhor fazer uma idéia, a minha mãe não foi no lançamento da coletânea de contos que publiquei no ano passado.
― Não me chame de senhor, sou mais novo que você. Espero que, a esta altura, já tenha estudado nossos propósitos, valores e missão no site, e esteja claro como é que o app funciona.
― Bom, li sim, mas admito que ainda restam algumas pequenas dúvidas do tipo: então eu fico cadastrado no aplicativo, foto de corpo inteiro, bio, links pra redes sociais, e, por sua vez, os clientes do portfólio escolhem pelas características, e tal, quer dizer, não vejo muito como eu poderia dar match com os usuários de vocês...
― Hehehe, nossos clientes têm os mais variados gostos, quanto a isto fica sussa, vai ter demanda. Lhe garanto. O salário é como no anúncio, você recebe um fixo mínimo e ganha comissão a partir de 10 clientes por semana. O mais importante é que você se familiarize o mais rápido possível com os equipamentos.
            Tudo conspirava para que me atirasse de cabeça na buena onda, aparentemente as minhas qualificações, ou a falta delas, faziam de mim o candidato ideal ao posto na Afterlights, pelo menos era o que garantia o CEO do boteco. Tinha acabado de reiniciar pela trocentésima vez meu segundo romance inacabado, impublicável e invendável como o primeiro, ou seja, dispunha de tempo, falta de dinheiro e vontade de ficar o mais longe possível da opressora página branca. Infelizmente para mim para o mundo, não era o famigerado bloqueio criativo a me paralisar, mas a autoestima que andava abaixo de cu de cobra: por um desses lapsos que Freud explica com um risinho no canto da boca, meu editor me respondeu um e-mail copiado com a avaliação dos originais pelo conselheiro editorial da casa. O camarada torou meu manuscrito sem dó, apanhei mais que pobre na mão da polícia.

Boa descrição, diálogos apresentáveis. Alguns momentos divertidos, outros delicados. Em resumo, um romance de palavras bem escolhidas. A estória, porém, é um saco. As primeiras 30 páginas se arrastam como uma lesma em slow motion, repletas de exposição, o resto não chega a seus pés. A trama principal, ou o que há dela, é recheada de coincidências convenientes e motivação fraca. O protagonista é homem, branco, heteronormativo, cisgênero e bidimensional, praticamente desprovido de interesse ou conflitos relevantes, tropica ao longo da narrativa embrulhado numa grossa camada de tédio – o que não impede de lhe acontecerem as coisas mais insólitas e de conhecer misteriosas personagens. Tensões não relacionadas que poderiam transformar-se em subtramas nunca chegam lá. Personagens nunca revelam ser algo mais do que parecem, a tantas horas, um providencial terremoto (!) livra o autor de resolver a maioria deles. Nenhum panorama momentâneo da vida interior dessas pessoas ou de sua sociedade. Freqüentes pseudodiscussões filosóficas regadas a erudição alheia truncam a fluidez do texto. É uma coleção sem vida de episódios previsíveis, mal contados e clichês que caminham a passo de bêbado para uma confusão sem sentido. PASSE ADIANTE.


sábado, 10 de setembro de 2016

o intruso (final)


― Desculpe, de qual apartamento o senhor disse que veio mesmo?
― Acho que não disse, esqueci, sou do 143, bloco A.
― Pois é aí que embaça: o senhor não é do 143, bloco A, a bem dizer, o senhor não mora aqui.

Foi a minha vez de levar um susto. Dei um passo para trás como se fugisse da pior das notícias, só que, mesmo depois de terem cessado de vibrar no ar, aquelas palavras entraram em violenta agitação dentro de mim, seres estranhos a meio caminho entre a matéria e a vida, como que me giravam à roda da cabeça, ondulantes, peremptórias, inundando a corrente sanguínea com os instintos básicos de lutar ou fugir. “O senhor não mora mais aqui”, repetia o pensamento, “não mora aqui”, mas a memória disparava o alarme com o tal do “mais”: “não mais aqui”, (claro!, que imbecil, como poderia ter esquecido?, morei neste prédio há muitos anos, meu último endereço antes de deixar a casa dos pais), de forma que a questão óbvia era saber se a minha família ainda residia ali. O porteiro tirou da gaveta uma pasta encadernada com folhas de plástico onde constavam os nomes e os respectivos conjuntos dos moradores do condomínio, e esperou com calma budista que, apresentado ao encadeamento de causas e efeitos sob a luz ofuscante das evidências, acabasse por finalmente aceitar a minha condição de forasteiro. Para cúmulo do desespero, segundo o caderninho que ele me estendera, no apartamento 143, bloco A, moravam pessoas que eu desconhecia por completo.

― Peixoto, você não tá suspeitando de mim, tá?
― Tô sim, mas, por outro lado, se você estivesse assaltando nós, já teria botado um cano na minha cara.
― Bem, não deixa de ser uma forma de confiança...
― Você é branco, bem vestido, fala difícil... por que escolheria o edifício Presidente, que só tem fodido e tiozinho aposentado?
― E quanto ao cara do 14° andar? Ainda precisamos fazer alguma coisa a respeito.
― Ok, mas veja, se eu for acreditar no que tá me dizendo, são 2 os desconhecidos: você, e o tal sujeito...
― Mas eu não estou tentando invadir a casa de ninguém, Peixoto!
― Depende, o senhor disse que faz poucos minutos estava num apartamento que não lhe pertence, e agorinha entrou feito pé de vento nesta guarita falando um monte de coisas sem pé nem cabeça.

Não havia como retrucar a uma lógica tão meridiana e embasada em tantos fatos sólidos. Fiquei sem resposta, esfregava nervosamente o rosto com as mãos como se a solução pudesse ser extraída dali a fórceps. Só me restava apelar para o resto de credibilidade que a aparência conferia aos propósitos descabelados da minha conduta. Quanto mais eu refletia sobre a situação, mais suscitava questões acerca das minhas atitudes: parecia um ator amador, cuja voz diz uma coisa, e cujos gestos e olhar, outra. Era tudo muito confuso. Mas, como os sonhos ou as mentiras, mensagens confusas também são mensagens. E verdades contadas atabalhoadamente podem ser mais reveladoras, e até mais verdadeiras, que outros tipos de verdade.

            ― Vamos fazer o seguinte: o senhor fica aqui no meu lugar um instante, que eu vou dar uma olhada nos elevadores ver se há alguma movimentação estranha. Valeu?
― Só posso lhe agradecer a confiança. Espere, espere, E como faço pra abrir a porta aos moradores que chegarem ou saírem?

Explicou-me o sistema de abertura das portas e garagens e saiu caminhando mansamente pelo hall na direção dos elevadores. Sentia uma certa calma, o primeiro bálsamo de relaxamento daquela noite esquisita, as coisas pareciam haver retomado os trilhos da normalidade. Abri e fechei portões, recebi entregadores de pizza, forneci indicação de ruas a passantes eventuais, e, tirando um ou outro condômino que estranhou minha presença na guarita, tudo corria em paz. O ambiente da portaria era de uma desolação atroz: a luz branca, o espaço mesquinho, a obrigação de imobilidade completa, tudo isso arrematado pelo radinho sintonizado num programa policialesco. Passada uma hora desta rotina, comecei a entrar novamente em pânico: por que o Peixoto não voltava? Estava a ponto de abandonar o meu posto, quando apareceu saindo do prédio um homem alto, envergava um incongruente sobretudo para a noite de verão. Era a encarnação perfeita do típico suspeito de filme noir.

            ― Ei, senhor, por favor, de onde está vindo?
― Perdão?!
― O senhor me desculpe, é que estamos tendo um pequeno problema com um entregador que subiu e...
― Então é sua obrigação resolver o problema, e não importunar os moradores. Aliás, por que está sem o uniforme de trabalho?
― Justamente, o porteiro precisou sair pra verificar e fiquei aqui no lugar dele. O senhor viu alguma movimentação fora do habitual?
― A única coisa fora do habitual aqui é você, faça o favor de me abrir a porta, sim? Outra coisa: procure tratamento, pelo jeito o senhor está bem fora da casinha.

O camarada saiu de maus bofes, pisando duro no pavimento da entrada social. Não havia nada a fazer, retombei numa desesperança opaca e impotente. E se o homem do sobretudo estivesse certo? Eu poderia estar louco, ou talvez sonhando. Abri a gaveta à minha frente sem saber exatamente o que procurava. Um canivete chamou-me a atenção, pensei: se estiver sonhando, só há uma maneira de sair daqui ― morrer no sonho significa acordar na realidade. Quando morri, um dia abri os olhos e era a cidade. Eu estava sozinho no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer.



domingo, 4 de setembro de 2016

o intruso (3)




            ― Desculpa moço, foi mal entrar assim aqui sem avisar, mas é que... bom, é uma emergência, eu estava lá em casa e um cara veio com um papo esquisito de uma entrega, e aí ele começou a forçar a porta...
― Oxe, quase me mata de susto! Pensei logo que era assalto, agora se acalme e conte tudo direitinho, não tô entendendo é nada.
― Tá bom, tá bom, vamos começar tudo de novo: eu estava em casa estudando uns pontos de lógica formal... quer dizer, isso não vem ao caso, o que sim é importante é que a campainha tocou e ninguém foi abrir, então tive que ir mesmo estando ocupado como me encontrava naquele momento, veja, é estranho alguém subir direto sem antes a portaria avisar, não é?
― Claro que é.
― Então?...
― Então o quê?
― Me diga você que estava aqui, como é que alguém sobe pra entregar um pacote pelo elevador social a esta hora? Ainda mais sem interfonar antes...
― Vamos lá, senhor, são duas coisas bem diferentes: uma é norma de segurança, ninguém sobe sem ser anunciado, a outra coisa é, eu não tenho como saber.
― Como assim?! Você está aí pra isso, alguém chega e diz que vai entregar algo no apartamento X, daí você liga pro número correspondente nesse comunicador bem na sua frente, e tchan-tchan-tchan: o morador do número X atende, desce, assina os papéis e o entregador vai embora. Não precisa nem entrar no prédio, certo?
― Certo.
― Bom, então me diga... como é mesmo o seu nome?
― Waldomiro Peixoto, mas só me chamam de Peixoto.
― Então, Peixoto, quem era esse cara, o que ele vinha entregar, pra quem era a encomenda?
― Já lhe disse: não tenho como saber.
― Parece que estamos tendo um sério problema de comunicação aqui. Me explique como é que aquele homem se materializou na porta da minha casa sem antes ter passado por você.
― E como vou saber? Acabei de pegar o serviço agora. Esse camarada deve ter subido antes de eu chegar, o rapaz que tava aqui saiu inda agorinha...
― Minha nossa, que cagada. Desculpe o palavrão, mas é que o assunto é sério, esse cara deve ter jogado uma conversa no seu colega e subiu, ou, sei lá, alguém na minha casa atendeu o interfone e deixou ele subir inadvertidamente, então vocês trocaram o turno e, nessas, enquanto você assumia aqui, o malandro já estava lá apertando a campainha de casa cheio de más intenções.
― Se acalme, homem, como tem tanta certeza de que o tal entregador tinha más intenções?
― Primeiro pela atitude, o cara tinha pouca educação e muita pressa que eu lhe abrisse a porta, além do mais, quando disse pra ele descer e deixar o pacote na portaria, ficou mudo e começou a girar a maçaneta e a empurrar a porta.
― Essa realmente é uma atitude suspeita.
― Sem querer lhe dizer como é que se faz o seu serviço, mas já dizendo, não acha deveríamos estar ligando pra polícia e prevenindo os outros moradores neste momento?
― Verdade seja dita, o senhor tem razão, mas ainda temos um último probleminha.
― E qual seria este último problema que nos impede de agir imediatamente, Peixoto?
― Qual apartamento o senhor disse que mora mesmo?
― Acho que não disse, esqueci, sou do 143, bloco A.
― Pois é aí que mora a encrenca: o senhor não é do 143, bloco A, o senhor não é morador daqui..


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

o intruso (2)



Corri para a saída de serviço, abri a porta e tranquei-a por fora. Antes de desabalar pelas escadarias ainda berrei uma última advertência para que ninguém abrisse a casa ao intruso. Parei diante da porta de fundos dos outros três vizinhos (o bloco A tem quatro por andar), deveria avisá-los, ou só faria causar um pânico desnecessário? Além do mais, quem quer que estivesse tentando forçar a entrada da minha casa (ele parecia bem convincente e decidido), já podia estar em qualquer outro apartamento tentando a sorte com algum morador menos cuidadoso. Bastava escolher nos botões do elevador, alguém acabaria cedendo, alguma porta estaria destrancada, digamos que uma criança fosse atender à campainha. Pensei que o mais simples e correto a fazer seria mesmo descer na portaria e, de lá, avisar os outros moradores e chamar a polícia. O problema é que me faltava a coragem de tomar o elevador de serviço, temia dar de cara com o invasor de arma em punho. Realmente o cagaço não deve ser o melhor dos conselheiros, escolhi a alternativa mais descabelada possível: saí batendo de porta em porta nos andares que percorria urrando a plenos pulmões.

            ― Tranquem as portas! Tem um estranho batendo, não deixem ele entrar!

Daria pra ter causado uma boa meia dúzia de enfartes com o fuá armado, meti o louco geral, descia os lances de escada pulando de quatro em quatro degraus, parava nos patamares, tomava fôlego, e esmurrava cada porta que via pela frente me esgoelando como um bezerro desmamado. Ouvia conversas, discussões em altos brados, som de televisores ligados na novela, barulho de panelas e pratos, música, mas, curiosamente, a minha algazarra não mudava a rotina das residências aferradas na sua placidez cotidiana ― ninguém aparecia para saber do que se tratava, fosse por medo ou distração, meus vizinhos seguiam suas vidinhas em aparente normalidade. Não me dei por vencido, entretanto, continuei na carreira louca pelas escadarias afora, tropeçando em sacos de lixo, tênis velhos, vassouras e uma infinidade de cacarecos largados nos corredores. As pessoas acreditam realmente que é obrigação dos funcionários recolher tudo aquilo que já não lhes convém nessa terra sem lei chamada “área de serviço”? Anotei mentalmente um aparte que faria na próxima reunião de condomínio (talvez até mesmo fizesse lobby para incluir o assunto na pauta), chegava a ser acintoso semelhante descaso. É assim, em pequenos degraus de desídias corriqueiras, que se constrói uma sociedade bagunçada como a nossa, a tal piada: se organizar direito, sobra caos pra todo mundo. No oitavo andar encontrei a primeira vivalma, uma senhora de idade com lenço na cabeça levando o lixo da cozinha para fora, parou, muito espantada de me encontrar ali, ouviu paciente a minha arenga exaltada, e só então informou que estava sem o aparelho de audição e não entendia nada do que eu dizia. Virou-me as costas, entrou, e deu duas voltas na chave. Fui em frente, descendo e gritando, batendo e berrando, o estranho que avisa de outro estranho, até que desisti e apenas descia freneticamente vendo o desfile de portas, vitrôs e escadas sem fim, e, de repente, a lembrança (eu já vi, já vivi isso!, esta situação já tinha acontecido, era um replay!, um retorno de algo que conhecia, mas sem a informação de onde nem quando), sentia-me dentro da parábola do viajante chegado no meio da noite a um hotel com infinitos quartos, o gerente diz ao viajante que havia infinitos inquilinos ocupando cada um dos quartos e não haveria lugar para ele, ao que o viajante responde: sem problemas, coloque-me no quarto 1 e desloque o hóspede para o quarto 2, repita o mesmo com todos os outros hóspedes, havendo infinitos quartos todos terão acomodação. Infinito mais um. Assim pensava ao vencer os últimos lances da descida rumo ao térreo, detive o passo a ponto de atropelar um gato, arquejava do esforço e da raiva, procurei ouvir se me esperava alguma emboscada no final do trajeto. O invasor, ou invasores, (bem poderia ser uma quadrilha fazendo um arrastão no condomínio), talvez houvessem antecipado meus movimentos. Arrisquei uma investida abrupta no saguão da área de serviço, àquela hora vazio e sem luz, contornei a coluna do elevador para escalar o muro de elemento vazado que dava pro jardim, por onde pude me esgueirar entre os canteiros que ladeavam o corredor de comunicação dos blocos de apartamentos. Rodeei uma longa volta para alcançar discretamente a guarita da portaria sem me expor na entrada principal, o porteiro quase desmaiou quando irrompi feito um pé de vento na pequena construção de alvenaria.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

o intruso (1)




É sempre a mesma história. Parece um caso daquela famosa Lei de Murphy, justamente quando você está ocupado com alguma tarefa que exige concentração absoluta, nessa hora toca a campainha e ninguém se prontifica a levantar o traseiro e fazer o imenso favor de ir lá abrir a porta. Estava no meu quarto estudando certos pontos particularmente escorregadios de lógica matemática, os exames da pós-graduação se aproximavam e achei melhor manter a matéria em dia. Era uma variação usada por Gödel para tratar do paradoxo de Russell: imaginemos uma cidade com apenas um barbeiro do sexo masculino, nesta cidade todos os homens, ou fazem a própria barba, ou são barbeados pelo barbeiro, pois bem, tudo corre na mais tranqüila ordem até considerarmos a peculiar situação do barbeiro em si, que tanto faz a própria a barba, como a tem feita pelo barbeiro da cidade. Na vida real nada disto é problemático, o barbeiro passa a lâmina e vida que segue, mas no mundo da lógica temos duas proposições inválidas: a) ao barbear-se, então o barbeiro (ele mesmo) não deve barbear a si mesmo, e, b), se o barbeiro não se barbeia a si mesmo, então ele (o barbeiro) deve barbear a si mesmo. Se já é difícil se embrenhar no rigor desta linguagem tão abstrata, ficava impossível com a campainha soando insistente e insolentemente desatendida apesar da casa estar cheia àquela hora da noite.

            ― Alguém, por favor, pode abrir essa porta?!

Sem resposta. Levantei da cama onde havia afundado entre livros-texto e xeroxes num mau humor do cão. Arrastei-me pelo corredor de paredes decoradas com quadros de bordado geométrico, virei à esquerda na direção da sala de móveis embutidos em jacarandá escuro antes de chegar à porta do elevador social. Não tinha a menor pressa do mundo, só comecei a me inquietar quando percebi a maçaneta de bola girando devagar, como se alguém estivesse tentando se aproveitar da distração dos donos para introduzir-se sorrateiramente na casa. Quem poderia ser? Alguém íntimo demais da família para não precisar esperar que lhe abrissem a porta, ou um estranho com más intenções que experimenta a porta de um apartamento como um ladrão de carros verifica se algum motorista distraído lhe facilitou o “serviço” deixando a porta do carro destrancada?

            ― Quem é?
― É uma encomenda.
― A esta hora? Por que não deixou na portaria do prédio?
― Senhor, preciso que assine o recibo de entrega.
― Não lembro de ter ouvido o interfone tocar avisando que tinha gente subindo aqui.
― Por favor, abra a porta, receba o pacote, e assine os papéis. É só isso.
― Não quero saber, deixe a encomenda aí que eu assino os papéis e amanhã você pega com o porteiro.

O meu interlocutor se calou, irritado, suponho. Fiquei ali, a respiração suspensa, o gesto detido em frente à porta, sem saber exatamente como deveria proceder numa situação daquelas, mas sentia uma ponta de orgulho em ter resistido com tanta determinação às demandas do desconhecido entrão. Para minha surpresa e susto, a porta começou a empenar para dentro ― o cara estava forçando a entrada na minha casa! Passei o trinco e o ferrolho na porta apressadamente, e comecei a chamar o pessoal e avisá-los da tentativa de invasão. Ninguém se dignou a vir à sala para me ouvir, recebi respostas de apoio da cozinha, do escritório, dos quartos, mas nada de darem as caras e tomar consciência da gravidade do evento. Corri para a saída de serviço, abri a porta e tranquei por fora. Antes de desabalar pelas escadarias ainda berrei através da porta uma última vez que ninguém abrisse a porta ao intruso.



domingo, 14 de agosto de 2016

A Corrente (5)



5. Mansueto

― Mano, desacreditei desse bagulho de entrar nas idéias dos outros, de se teletransportar pra uma vida... como a sua. Quer dizer, cê tá ligado?, não é desfazendo, falei de boas.
― Olha menina, já vivi o suficiente pra não me surpreender se o postes resolverem fazer xixi nos cachorros. Embora, pra lhe dizer a verdade, também estranhei quando tudo isso começou. Que é que eu sei sobre esses fenômenos? Pouco. Andei fazendo umas pesquisas e não cheguei a nenhuma conclusão definitiva, a ciência não anda no mesmo passo da nossa curiosidade. O certo é que tudo começou depois que operei o cérebro.
― Caracas, o senhor abriu a cabeça?!
― Abriram a minha cabeça, pra ser mais exato. Tenho 62 anos, sofro do mal de Parkinson há 5, faz um ano que implantei um marca passo cerebral. O nome chique é deep brain stimulation, ou DBS: são 2 eletrodos instalados bem no meio dos miolos, numa região chamada tálamo, que deve ser pouco maior que um ovo de codorna. Vê este fiozinho subindo da minha clavícula? Aqui fica o neuroestimulador, uma bateria que dispara pulsos para os meus neurônios não esquecerem de acionar os músculos corretamente.
― Que da hora. Então foi isso que fez você virar um X-man com poderes de telepatia?
― Essa é uma maneira de ver as coisas. Pra falar a verdade, não consigo pensar em outra causa para a minha súbita transformação numa espécie de médium que, em vez de receber espíritos, tem acesso aos pensamentos e sentimentos de pessoas reais, aliás, pessoas com problemas bem reais, como você. Somos um grupo de 5 pessoas capazes de captar essa freqüência, ou seja lá o que isso for, até onde sei, moramos num raio de 500 km uns dos outros, foi então que me veio essa idéia de mandar mensagens em forma de corrente pra ver se neste pequeno círculo de “amigos virtuais” consigo o que nunca consegui fazer na vida: uma coisa certa.
― E cê diz isso pra mim? Viu a palhaçada lá no cemitério? Ninguém respeita a dor dos outros, eu devia era ter mandado bala naquela bruxa que só fez trazer tiriça pro meu lado. Mas daí apareceu aquele soldado e me convenceu...
― E isso, por si só, já não é um milagre, uma pessoa te ajudando a troco de nada? Digamos que você tivesse matado a avó do seu falecido filho, e daí?, daí que você acabava de se desgraçar. Sofia, me escute bem, tenho idade pra ser seu avô, mas não passei do jardim de infância na escola da vida: sou um especialista em pôr tudo a perder. Só que, ao contrário de você, não tenho a quem culpar: eu atravessei a rua pra escorregar na casca de banana da outra calçada. Gostava de fotografia, mas me tornei advogado, amava Jaqueline, mas casei com Roberta porque estava mais fácil, e assim fui avançando rumo ao sucesso e às conquistas, sempre na maciota, seguindo no vai da valsa. Sempre procurei evitar a dor e escolher a maior vantagem, acabou que, de tanto fugir do sofrimento, deixei escapar o amor, e de tanto levar vantagem, prejudiquei a todos que estavam à minha volta. Quando o Parkinson se manifestou anos atrás, entrei num esquema de corrupção pra pular a fila dos implantes de marca-passo, que é que eu ganhei?, o aparelho não melhorou em nada os meus tremores, e o médico que me operou hoje tá com o nome no jornal. Só fiz cagadas.
― Sabe o que é enterrar um filho, Mansueto?
― Não faço e nem quero fazer idéia, acho que deve ser a pior coisa do mundo.
― Então, eu me liguei que tem uma nóia que não sai da sua cabeça: também tá se vendo sem ter pra onde se virar, sozinhão no meio da rua, também tá pensando em chutar tudo pro alto, saltar do trem em movimento. Fiquem aí vocês, que eu fui! Né não?
― Sem tirar nem por. Certíssima.
― E aí, nessa brincadeirinha que você inventou, pelo que entendi, agora é minha vez de te dizer: “Deixa disso, tente outra vez, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, e todas essas merdas que se falam nessas horas. Mas, e se eu não tiver afins de jogar na tua cartilha? E se eu te disser que pra mim moiou grandão, a bagaça perdeu o sentido, que pra mim deu?
― Bom, nesse caso eu te direi que este coió que perdeu as pessoas mais importantes da vida e só se ligou tarde demais, o retardado que jogou fora a própria vida, pode finalmente lhe ter caído a ficha, sacado alguma coisa. E essa alguma coisa tem muito a ver com você e essas pessoas que estamos conectados. Essa nova condição de telepatia, empatia, mediunidade, ou disfunção cerebral que seja, me permitiu entrar na pele, calçar o sapato dos outros, sentir o que eles sentem, entender o que nunca tinha entendido. Claro, até uma moeda de ouro tem 2 lados: a parte ruim de conhecer os outros por dentro é que junto descobrimos o pior que estava escondido em nós mesmos. Por outro lado, descobri que não existe campeonato da dor: o sofrimento não tem régua.
― Mano, cê não tá entendendo, eu tô feito bicho solto, não tenho porta onde bater, não tem um teto que eu possa dormir hoje, dá pra você se ligar no tamanho da encrenca? Se pá, vou ter que voltar a fazer programa pra não morrer de fome, o que eu jurei que nunca mais faria.
― Ah, mas não vai mesmo. Escuta, sou um homem razoavelmente bem de vida, você vai dormir numa casa minha que tá desalugada. Vou te ajudar como se fosse minha filha, posso fazer por você o que não fiz pelos filhos de sangue: cuidar apenas.




sábado, 6 de agosto de 2016

A Corrente (4)



4. Sofia

Não tem dia bom no cemitério São Luís, zona sul, onde a cidade acaba e começa a terra de ninguém. Vim enterrar meu filho.
Centenas de quadras se espalham num conjunto de morros descampados, sem árvores, sem grama, a bem dizer, parece mais um terrão cortado por carreiros tortos de chão batido onde se pisa em bitucas de cigarro, ripas, sacos de supermercado, entulho, garrafas pet e embalagens de salgadinho Fofura. Acompanhei o coveiro abrir um buraco pequeno na terra vermelha e seca da quadra 10, lá ao longe, depois do verde ralo dos capoeirões e palmeiras que cercam o campo santo, dá pra ver os bairros vizinhos: Capão Redondo, Jardim Ângela, Jardim São Luís. O triângulo da morte. Não é à toa, 300 mil pessoas enterradas neste fim de mundo. Poucas lápides com nomes marcam o local das sepulturas, o mais das vezes são plaquinhas de compensado cobertas por plástico transparente com mensagens: “para um super primo”, “para um super irmão”, “para um super filho”. Os canteiros, delimitados por cercas de papelão, são simples, o pessoal prefere os gerânios e a rosa miúda. A placa do meu bebê tem uma carinha de menino com boné branco e bolas pretas. O povo da região chama isto aqui de cemitério dos homicídios.
Voltando pro barracão dos velórios, o funcionário de jaleco verde e crachá da prefeitura espanta a enxadadas um grupo de cachorros em volta de uma cadela no cio. Os cães se afastam numa ladraria insana. Há craqueiros espalhados pelos cantos das quadras, mas o homem já nem se liga mais no vaivém daqueles zumbis com olhos que atravessam feito tiro traçante. Vagueiam pelo recinto como criaturas dos dois mundos ali reunidos, parece que olham direto pro lugar nenhum deste lugar nenhum.
Você entende que tem alguma coisa diferente no lado dos vivos quando vê que o agente de velório tem um colete à prova de balas pendurado na cadeira da sala dele. A chapa aqui tá sempre quente. As famílias começam a discutir a herança enquanto velam os corpos, nem esperam o defunto esfriar. A briga explode ali mesmo, pode ser a moto do falecido, a propriedade da edícula, uma TV, até mesmo o aparelho de chapinha, às vezes a administração precisa chamar a guarda civil ou a PM pra separar os lados, do início do cortejo até a chegada ao túmulo. Igual que faz com as torcidas de futebol.
No meu caso, pelo menos, nem tem pelo que brigar: meu bebê morreu três dias depois de nascer. Não tinha nada, e agora perdi tudo. No hospital me disseram: “Você só tem 14 anos, quem sabe não foi melhor assim?” E então, me pergunto, como podem saber o que é melhor pra mim? Eu queria o meu filho, ver o Lucas crescer, eu queria que o pai dele acreditasse em mim, não na bruxa da mãe, e voltasse pra casa. O problema é que já não tenho uma casa pra ele voltar, não tenho nem pra onde ir, estou no meio da ponte entre dois nadas. Na hora que o Lucas descer pra baixo da terra, aqui em cima dela eu não vou ter nem o metro de chão onde ele vai descansar pra sempre. Mas o que é do homem, o bicho não come. Carrego um revólver na bolsa, o da minha sogra querida tá guardado. Ela que tenha a cara de pau de aparecer.
― Não vai funcionar.
― Que susto! Quem é você?
― Não sei bem, mas o nome é Admildo...
― E agora eu dei de ver assombração, é? Cê é louco, maior nóia, sai de mim espírito das trevas.
― Não sou espírito, menos ainda das trevas. Se acalme, também fiquei tenso quando aconteceu comigo. Isto aqui é tipo uma conexão, sei lá, puseram a gente em contato. Deve ter um motivo, mas ninguém me explicou nada.
― Que é que não vai funcionar?
― A arma, eu entendo disso, acredite Sofia. Você nunca pegou num 38, nem sequer destravou o berro. Quer saber? Nem tenta, você vai acabar machucando quem não tem a ver com o peixe.
― Bom, mais um que sabe o que é melhor pra mim...
Saí de casa tinha 10 anos, modo de dizer, porque não era bem uma casa o barraco de tapume onde morava com a minha mãe e os irmãos. Meu pai, lembro dele, dormia de dia e saía à noite pra trabalhar na profissão perigo. Passou uns tempos preso, depois voltou, daí sumiu de novo. Quando ele desapareceu de vez, minha mãe já não trabalhava, tinha endoidado, de pinga, de remédio pra dormir. Os vizinhos às vezes traziam comida, ou porque não tinha, ou porque ela esquecia de fazer. Eu e os irmãos mais novos fazíamos bonecas usando as garrafas de Corote que ela espalhava pelo quintal. Com as cartelas dos calmantes a gente construía carrinhos de corrida pros mais novos.
Sempre faço força pra lembrar os nomes dos meus irmãos e irmãs, mas não consigo, é uma fumaça de esquecimento que cobre toda a memória dessa época. Sei que tive um irmão chamado Lucas, por isso dei esse nome pro meu filho. Coitado desse irmão. Sumiu, como foram sumindo todos daquele cafofo, uns foram pra casa abrigo, outros, adotados, só eu fiquei pra cuidar da mãe, pra ir buscar ela de tarde no bar quando voltava da escola. Até que um dia ela não estava no bar de sempre, não estava em bar nenhum das redondezas, nessa noite não preguei o olho chorando. Nunca soube mais nada dela.
Uma tia por parte de avó me levou pra morar com ela, e foi um anjo que atravessou o meu caminho. Foram os 2 únicos anos normais da minha vida: tinha vestidos, bonecas, e um quarto só pra mim. Fui num dentista pela primeira vez. Tia Berta tinha uma doença que paralisou ela aos poucos: os braços, as pernas, até que chegou na cabeça e já não conseguia engolir comida. Os filhos dela eram adultos, na verdade, toleravam a minha presença na casa da mãe, desde que cuidasse dela como enfermeira. Quando ela morreu, deram 3 dias pra eu arranjar outro lugar pra ficar.
Então fui morar com o namorado, ou melhor, na casa da mãe dele. Em poucos meses descobri que estava vivendo com um moleque tirado na xérox do meu pai, dava perdido, ficava semanas sem dar notícia, daí, reaparecia com cara de quem tinha saído num rolê de 15 minutos. A mãe dele, por outro lado, começou a me cobrar o aluguel: “Não posso alimentar mais uma boca de graça, se vira mina”. Dizia que se eu já era mulher pra dar pro filho dela, também podia fazer uns programas com os bacanas que ela conhecia. Os caras pagavam bem pra menor de idade, e eu caí na conversa dela.
Uma coisa eu sei: eu já estava grávida quando comecei a fazer michê. Quando falei pra ele que tava de 5 meses, meu namorado respondeu que filho de puta só tem mãe.



domingo, 31 de julho de 2016

A Corrente (3)




3. Admildo Queirós Jr
           
            Pilhas de pratos sujos e copos com resto de cerveja. Bancos ao redor de uma mesa velha. Lata de lixo atochada de embalagens de pizza, long necks e coadores de café usados. Cinzeiros improvisados ― latas de refri rasgadas ao meio ―, lotados de bitucas de cigarro. Da janela vejo um varal cheio de roupas, fico na dúvida se é real esse cheiro de grama molhada que entra pela janela. A angústia circula entre os policiais no barraco fedorento, alguém vai ter que limpar essa bagunça uma hora.
Todo mundo já entendeu que estamos em guerra, o que as pessoas não querem entender é que numa guerra há baixas dos dois lados. Necessariamente. Se não, seria um passeio, fácil como roubar aposentado numa saidinha de banco: mandava lá os drones, pá-pá-pá, liquidava os vagabundos todos, e o serviço tava feito. Passava a régua, limpo e seguro. Acontece que nem no Iraque foi assim, e aqui na Cidade Mara a lógica é outra: se nós temos escopeta, vagabundagem tem metranca, se nós arranjamos metralhadora, malandro tá com bazuca. No dia que descolarmos um drone, eles na certa vão vir de bomba atômica. Segurança pública é isso: a bandidagem tem grana, estrutura e pessoal motivado, nós... bem, a gente vai fazendo acordos.
Desculpe falar assim, não costumo comentar essas coisas nem em grupo fechado só dos meus camaradas da polícia, mas é que hoje a minha gastrite acordou a toda. Além do mais, esta nossa conversa não é propriamente... uma conversa! Me pergunto se não estou doidão de pedra, eu aqui, de papo com um camarada que só existe na minha cabeça. Enfim, Ramsden você disse?, eu lhe falei de guerra, mas a imagem que as pessoas têm de uma guerra é muito Hollywood e novela da Globo: vilões e mocinhos, dois lados opostos, o bem de um lado, o mal do outro. Só que não. Guerra é, e sempre foi, em todas as épocas e lugares, um grande negócio.
Os caras negociam sempre que há um Deus-nos-acuda nacional. No Tropa de Elite era a visita do papa, mas pode ser qualquer evento que ponha os olhos do mundo em cima de nós. Foi assim em 2006, quando “aquela facção que age dentro dos presídios” parou a cidade de São Paulo: os caras foram lá negociar com os cabeças em Presidente Bernardes. Agora é a Olimpíada. Ninguém quer merda acontecendo com milhões de câmeras e jornalistas circulando por aí, aconteça o que acontecer, não pode dar ruim lá na gringa. Nessas horas as diretorias sentam pra trocar figurinhas.
Sabe onde eu estou neste momento? Bom, isso aqui é uma campana pra alvejar traficante, a facção do Vidigal cedeu este esconderijo, e daqui a gente vai apagando os malucos da Rocinha que aparecem portando armas. Não tem moleza, são tiros de 400, 500 metros, tem que ficar horas na posição, até que aparece o mala, e Tuf!, uma azeitona de 7.62 derruba o mané sem ele nem saber de onde veio. E por quê? Porque neguinho lá não tá respeitando o cessar-fogo, o cessar-arrastão e roubo a gringo, não sentaram com o governo pro arrego, daí, meu irmão, é bala. Ninguém se importa com morte de bandido neste purgatório da beleza e do caos. Cai tudo na conta das tretas entre eles. Claro, um monte de tira tá morrendo nas rondas por causa disso, como lhe disse antes, a guerra tá rolando solta, mas nada pode estragar o show.
Sou atirador de elite, um sniper monstrão, 4 horas de treinamento diário por cinco anos pra acertar um grão de feijão a 100 metros de distância. Não gosto do que estou fazendo, mas ordens são ordens. É pra descer vagabundo? Meto prego mesmo, e depois Deus que me perdoe. Melhor ser a mãe dele chorando no final do dia do que a minha. O esgotamento físico é animal, uma porra de um trabalho solitário, só compartilhado com aquele grupo que você está vendo todos os dias: as mesmas caras, as mesmas conversas. Você não pode sair na rua e conversar com ninguém. Não tem domingo, não tem feriado. Às vezes bate o pânico: você imagina que a base vai ser estourada, os bandidos vão vir e levar todo mundo pra matar depois, ou então, vão incendiar o barraco, jogar uma bomba. De todo modo, não estamos sós. Há uma equipe de cobertura no final da viela.
Não sou um sujeito cego pras injustiças sociais. A favela da Rocinha, com IDH de Botsuana, cortada pelo túnel Zuzu Angel, está encravada entre os bairros da Gávea e de São Conrado, os IPTUs mais altos da cidade, ambos com IDH da Noruega. Óbvio que o camarada que nasce aqui vai crescer revoltado, não tem como: insegurança, escola de merda, transporte de merda, saúde de merda, vida curta. Acontece que a minha profissão não é consertar o país, apenas mantê-lo dentro do absurdo normal do patropi. Numa hora como esta, o cu de todo mundo tá na reta, na guerra, irmão, todos os cus estão cosidos, ligados uns aos outros. Olha pelo meu binóculo, lá está o vagabundo, descendo a escadaria carregado de sacolés. Primeiro, vou derrubar ele, depois estouro os pacotes de cocaína no segundo tiro.
― Admildo, aquele é só um menino carregando sacolas com pipoca. Daqui ele te parece um bandido, mas é só a roupa, o lugar, a cor da pele, que estão errados. As aparências estão contra ele.
― Você pensa em se matar?
― Todos os dias.
― Eu também, Ramsden, muitas vezes.
― Você não consegue dormir, tem uma gastrite que não sara. Se atirar, vai acertar em você mesmo.


domingo, 24 de julho de 2016

A Corrente (2)




2. Ramsden

― Como é que sabe que eu ia fazer merda? E depois... quem, melhor, o que é você? Não me venha com treta de espírito, que não acredito nessa resenha.
― Prazer, Ramsden, eu sou a Norma, uma pessoa como as outras, igualzinha a você, meu bem: cheia de problemas. Nunca tive visões ou saí do próprio corpo, não converso com mortos, não leio cartas, não tenho premonições, nem entidades baixando em mim. A coisa mais esquisita que já me aconteceu acabei de te contar.
― Então por que tô vendo e ouvindo você como se estivesse aqui do meu lado? Como sabe meu nome? Onde que cê tá na real?
― Na real, estou na cozinha de casa preparando o almoço de amanhã das minhas filhas. Quando elas voltarem da escola, a vizinha que olha elas pra mim só vai ter o trabalho de esquentar e servir, e eu só vou chegar à noite porque trabalho o dia todo feito uma condenada.
― Mas, e como...?
― O seu nome eu sei porque ouvi sua tia chamando você outro dia. Agora, se me perguntar como ou por que isso tá acontecendo, não vou saber responder.
― Cê também recebeu uma corrente esquisita?
― Sim, e já que a coisa tá acontecendo direitinho como tava lá escrito, vou cumprir a minha parte e torcer pra esse negócio estranho terminar logo e bem.
― Então é você a minha conselheira... uma pessoa que me aparece feito assombração. Tem alguma coisa da hora pra dizer, ou vai me passar o sermão do “compreenda seus pais, eles têm outra cabeça”?
― Ramsden, não conheço tua história, tuas razões pra chegar ao ponto que chegou, o que eu percebi é que tu não dorme a noite toda e fica olhando essa janela com cara de quem tá a ponto de fazer besteira. Você é jovem, tem o quê?, dezessete, dezoito? Não vou te dar conselho que isso não adianta pra adolescente, em vez disso, vou lhe contar outra historinha, uma mais antiga, de quando eu tinha metade da sua idade. Meus pais bebiam muito e viviam brigando, eram arranca-rabos medonhos, a ponto da vizinhança chamar a policia, pra você ter uma idéia. Minha casa era uma gritaria só, eu e meus irmãos vivíamos apavorados com aquele pega-pra-capar constante. Um dia, a briga ficou ainda mais feia do que o costume, o pai pegou uma cadeira e começou a avançar, minha mãe não se encolheu, catou um facão e partiu pra cima. Eu assistia a tudo sentada à mesa (era a mais velha, os caçulas já tinham ido dormir), tava ali quieta, brincando com bolinhas de miolo de pão, de repente, sem que eu tivesse pensado muito, peguei um garfo e enterrei bem fundo nas costas da minha mão esquerda. Lembro que o sangue jorrava em borbotões grossos do lado dos dentes metálicos do garfo enfiados na carne...
― Eu hein, outra história terrível! Em que é que isso pode me ajudar? Tá sabendo que meus pais me botaram no olho da rua?
― Sei. Escutei você falando ao telefone com sua mãe, saquei um pouco do panorama geral: seus pais estão na errada, muito mesmo. Veja meu caso, naquele dia, eu consegui fazer meus pais pararem, só que o preço foi me machucar muito. E não adiantou: depois eles voltaram a fazer tudo igual de novo. Ramsden, não tem como dar uma lição em alguém se, para isso, você tem que se arrebentar. Ninguém consegue parar a estupidez sendo mais estúpido ainda.

Nasci numa família de Bíblias, quer dizer, sempre fomos mais ou menos religiosos, mas tudo mudou de figura quando a minha avó ficou doente. A mãe virou xiita total, passou a freqüentar os cultos quase todos os dias, o pastor Malafaia se tornou a última palavra pra tudo na nossa casa, aliás, ele se tornou a encarnação da Palavra em nossas vidas. Aos poucos, a gente se tornou um rebanho de radicais: o segundo a aderir fervorosamente foi o pai, depois a minha irmã, e por último lá fui eu também cantar no coro da congregação. Terninho engomado e cabelo curto pros homens, saia comprida e cabelo amarrado em trança pras mulheres, no exército do Senhor uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Na boa, chamar a Bíblia de livro santo ou guia moral é a maior palhaçada, só pode ser piada. Os caras estão de brinques: já calcularam que no livro dos livros 2,5 milhões de mortes são narradas. Repúdio claro a essa chacina monstra? Nada disso. O que pega mesmo, o que enfurece Javé, são os varões de Sodoma, os adúlteros, as prostitutas, os fornicadores e punheteiros em geral, além dos descuidados que deixam entrar cachorros no Templo. Zé-povinho gosta mesmo é de ser enganado, digam o que quiserem os profetas.
Claro que o Altíssimo não mudou uma vírgula no estado de esclerose da avó, mas a mãe não deixou de levar a pobrezinha a tudo que era vigília, cultos de exorcismo e sessões de cura que os ministros de Deus lhe recomendaram. Uma boa grana esses abutres com ternos caros e carrões importados arrancaram dos otários dos meus pais. O Espírito Santo realmente deve se manifestar em alguns indivíduos escolhidos, porque o que esses pastores são ensaboados, não é brincadeira. Neguinho te esfola vivo e tu ainda agradece por ajudar o malaco a encher o rabo de grana.
Na verdade os meus velhos são enganados dentro e fora de casa: a minha irmã fuma um do bom, vai a baladas e fornica antes do matrimônio, mas não pega nada pro lado dela. Sabe por quê? Porque ela sabe esconder, tem as manhas de muquiar a real, falar e mostrar só o que eles querem. Meu erro foi acreditar que alguém ficaria do meu lado quando comecei a ser zoado na escola, a diretora chamou meus pais pra formalizar a queixa contra o professor que ficava me usando como exemplo nas aulas de história ― e, diga-se de passagem, nunca houve escassez de viado em nenhuma época da humanidade...
Em vez de perguntarem pra mm se era verdade que o professor fazia bullying comigo, meus pais, na frente da diretora, quiseram saber se era verdade que eu sou uma “abominação ao Senhor”. E foi assim que meus pais ficaram sabendo o que eu já sabia há mille ano: gosto de rapazes, eles são tão irresistíveis pra mim quanto os anjos que visitaram Lot eram pros sodomitas. Sinto atração pelos meus semelhantes em gênero, como Noemi por Ruth, e como Davi por Jônatas, que mal pode haver nisso? Pro meu pai e minha mãe, todo o mal. Fui expulso de casa, e ainda bem que a minha tia me recebeu na casa dela, mas todas as noites agora penso em me jogar por essa janela e acabar de uma vez com todo esse sofrimento.


domingo, 17 de julho de 2016

A Corrente (1)



1. Norma Blandy

            Nem me dei ao trabalho de saber quem tinha enviado aquilo, sequer guardei, dessas tantas correntes que alguém lembra de te mandar de tempos em tempos, uma mensagem até muito convencional, quer dizer, ao menos começava abusando dos salamaleques costumeiros do gênero:

Aos que me desejam o Bem, eu desejo em dobro! Aos que me desejam o mal, eu desejo luz, para que assim eles possam sair da escuridão e compreender que aqui nessa vida se colhe exatamente o que se planta...

            Daí em diante descambava para um tom místico-brega, falando do “círculo que se fecha”, desaguando numa conversa loucona de “visitações” das cinco almas-irmãs do outro plano, quando o “conselheiro” passa a ser o “aconselhado”, e vice versa, enfim, uma bobajada sem tamanho que não pedia que a enviasse a ninguém, não recomendava uma oração, nem nada, apenas dizia para aguardar. Em geral não leio ou presto atenção a essas coisas, eventos banais destinados ao rápido esquecimento, não fosse pelo fato daquelas palavras terem se confirmado completamente logo a seguir.
            Estava me marimbando um monte pra tudo que não fosse a minha confusa vida sentimental, separada pela segunda vez, uma filha de cada casamento pra criar, ambas pequenas. Na verdade, o segundo ex marido e eu vivíamos numa relação iô-iô com recaídas periódicas: a cada três meses, aproximadamente, voltávamos a sair de novo pra ver se a gente conseguia remendar a relação, mas acabávamos retornando ao mesmo ponto do rompimento ― pior pra mim, que sobrava com as duas pequenas numa casa sem homem naquele bairro de ruas desertas.
            Foi um pouco antes de começarem os alumbramentos.
Mas não tinha nada de especial nessas visões, uma sala, o rapaz que dormia no sofá dessa sala, a janela do apartamento em frente dele, e sempre a mesma cena toda noite: ele não conseguia dormir, se levantava, abria a janela, e ficava ali olhando a rua mal iluminada, o casario em volta com poucas luzes acesas. Somente isso, noite após noite. Também apareciam lampejos de uma moça também jovem, mas aí já era uma situação bem outra.
Nunca senti medo dessas manifestações, afinal, minha mãe era parteira no interior, acostumada a entrar em todo tipo de casas, no segredo das pessoas mais diferentes que se possa imaginar. Por falta de ter com quem deixar, mamãe era obrigada a me levar junto nas suas andanças, de modo que fui acostumada desde sempre a ver de tudo, a lidar no natural desarranjo do mundo. Aceito o que a vida traz, do que não entendo, não falo, e do que não creio, também não duvido.
Só que tudo isso ― visões, avisos, correntes ―, é diferente do que me aconteceu naquela noite.
Aquilo foi muito real, físico, no sentido carnal da palavra. Tinha acabado de pôr minhas filhas pra dormir, botei o pijama, escovei os dentes, passei um creme no rosto e achei que ainda precisaria ler um pouco antes do sono vir. Em vez do sono, porém, veio um brilho muito intenso do corredor onde acabara de desligar as arandelas, só tinha deixado a luminária do banheiro pras meninas não dormirem sem luz nenhuma. A luz foi aumentando até que três figuras entraram no meu quarto, diria três homens, se eles não tivessem a aparência de alienígenas, extraterrestres pra ser mais clara.
Dois deles usavam roupas brancas e máscaras que lhes cobriam o rosto, a impressão era de médicos acompanhando o sujeito nu que avançou pra cama na minha direção. Ele teria 1,60 m, a pele acinzentada e desprovida de pêlos, inclusive na cabeça, onde se destacavam os enormes olhos negros sem pálpebras ou pupilas, amendoados como os de um oriental. Não possuía nariz, mas apenas dois furos no local onde são as narinas humanas, a mandíbula estreita se afilava em V, emoldurando a boca pequena e sem lábios, os braços finos chegavam à altura dos joelhos descendo pelo torso magro e sem costelas, terminando em mãos de três dedos surpreendentemente fortes.
Bem, órgão sexual não se via, mas depois que o danado se enfiou entre os meus lençóis, deu pra sentir que nada lhe faltava neste quesito. Fizemos sexo em silêncio, sem que “ele” tenha pedido licença pra me despir, sem conversa telepática, sem preliminares, em momento algum a criatura pareceu se preocupar em me proporcionar prazer, ou obter a minha aceitação da bizarra situação. Assim que terminou a função, tombou pro lado exausto à maneira dos coelhos, ao que os outros dois se prontificaram em carregá-lo para fora do quarto. A luz havia se extinguido, e eu dormi profundamente.
Três semanas após este fato (que não revelei a ninguém), descobri que estava grávida. Entrei em pânico, como explicaria esta gravidez pros outros? Já é ruim quando se conhece o pai, se tem uma relação com ele, imagine na situação em que me encontrava. Quem iria acreditar? Além do mais, havia um complicador: naquele momento em que tentava voltar pro meu segundo marido, era ele quem me ajudava a manter as contas de casa. O pai da minha filha mais velha simplesmente sumira no mundo.
O duro era ver a história se repetir com um cara que talvez morasse a milhões de quilômetros daqui!
Pra terminar de complicar estava na fase off da relação com o ex, ou seja, não tinha nem como alegar que o filho poderia ser dele. Estava num tremendo beco sem saída, a barriga crescendo, as meninas também, e as contas chegando todo mês, inevitáveis como as marés, a morte e os impostos. Quando estava a ponto de fazer uma besteira (já tinha até combinado o preço com a aborteira), os dois acompanhantes do alienígena apareceram e realizaram um novo procedimento, desta vez me puseram pra dormir antes. Dias depois, voltei a menstruar.

― Hmm, essa não é uma história muito bonita da sua vida, Norma...
― Eu sei, mas é algo que nunca contei a ninguém.
― E por que você está me contando isso?
― Porque, tal como você, num momento de desespero, eu estive a ponto de fazer uma grande cagada.


sábado, 18 de junho de 2016

o mensageiro (final)





“Ataques a bomba simultâneos em escolas do Rio de Janeiro e São Paulo deixam 20 mortos e 16 feridos. O horário estimado das explosões (7:15, horário de Brasília), foi o do início das aulas em duas escolas privadas, na zona Oeste paulistana, e na zona Sul carioca. É o maior massacre de estudantes já ocorrido no país, segundo o governador do Rio há 5 feridos em estado grave, que se somam aos 3 feridos em estado crítico informados pelas autoridades de São Paulo. A maioria das vítimas são crianças de 8 a 10 anos do 3º ano do ensino fundamental, além de 2 professoras, 3 assistentes de ensino e uma babá que se encontravam nas salas na hora do ataque. Em comunicado conjunto, o Diretor Geral da Polícia Federal e o Chefe Adjunto da Abin (agência brasileira de inteligência), admitiram haver suspeitas de que duas meninas, que estão entre as vítimas fatais, teriam introduzido os explosivos nas escolas dentro das mochilas, mas não confirmaram a versão de que elas se conheciam, nem as suspeitas de haverem mantido contato recente com estrangeiros, segundo afirmaram na nota divulgada há pouco, a hipótese de atentado terrorista não está descartada por se tratar de escolas bilíngües onde estudam filhos de diplomatas, finalizam afirmando que todas as possibilidades estão na mesa neste momento. Houve princípio de pânico nas ruas do entorno das explosões, seguiram-se bloqueios da polícia nas principais vias, com os prefeitos de ambas as capitais declarando estado de emergência. Neste momento o trânsito registra novos recordes para o período nas duas cidades, vêem-se muitas pessoas abandonando os veículos na rua, descendo dos coletivos parados no congestionamento e voltando a pé para suas casas. A qualquer momento é aguardado um pronunciamento do presidente interino Michel Temer, e também da presidente afastada Dilma Rousseff.”



domingo, 12 de junho de 2016

o mensageiro (4)




Com ar de pouco convencida a moça se afastou lentamente carregando o vestido dobrado para o interior da loja, ficou no ar o risinho insolente de quando a viu entrando cheia de sacolas, o sorriso do gato invisível, lembrou do entusiasmo que essa história provocou em Giovanna na época, a filha é uma criança encantadora e problemática, questionadora, como ela mesma foi antes de se tornar a pessoa viciada em coisas estranhas de hoje, depois de assistir e ouvir todas as versões de Alice milhões de vezes, a menina, do alto de incompletos quatro anos de idade, lhe disse que não queria ser como ela quando crescesse, ‘Por que, Jojô?’, ‘Porque você não consegue mais voltar pra lá’, e no entanto tudo que ela faz é voltar, voltar e trocar roupas que acabou de comprar, roupas e acessórios que nunca vai usar: na verdade coleciona os celofanes e etiquetas das suas lojas preferidas, nas trocas, as vendedoras invariavelmente embrulham e etiquetam o produto de novo, ela desenvolveu uma técnica apurada pra descolar os adesivos, realoca-os em pastas junto aos recortes dos celofanes com marca d’água, os álbuns perfeitamente organizados atulhando seu closet pra desespero do marido, Sílvia Regina sabe que as suas relações com as vendedoras de artigos de luxo seguem um padrão peculiar, uma dinâmica predeterminada: paixão, ascensão, declínio e rompimento abrupto, num período que varia de semanas a uns pares de meses, a analista lhe disse que o envolvimento com essas moças representa a busca daquilo que sente perdido pra sempre: juventude e pressa, e, realmente, ela não tem pressa pra mais nada, desapareceu a lebre maluca e atrasada da sua vida, sobrou apenas o ritmo irreal do chá das cinco na Montanha Mágica, aliás, conhece Davos como a palma da mão, não que haja muito a conhecer ali, nem em Aspen, Ibiza, Monte Carlo, Dubai, Chamonix, Cap Ferrat, St. Bartz, San Marino, Montblanc, cada círculo exclusivo que consegue galgar, em cada festa, nenhum lugar ou pessoa importante que lhe são apresentados conseguem mais causar a mínima comoção.
O celular toca.
“Oi, querida, viu o meu recado?”
“Ai, Sílvia, li sim, e é sobre isso que preciso te falar... ai, meu santo, tô bem surtada. A Isabella também recebeu um pacote hoje de manhã, tem uma equipe de segurança aqui em casa, tá uma loucura!”
“Acalma, respira, você não acha que estamos um pouco over? Deve ser só uma brincadeira de meninas que estão com saudade, uma enviou pra outra e...”
“Sílvia Regina, acorda pra vida, sai da negação. Então por que as duas enganaram as babás e foram pegar as encomendas sozinhas na portaria? E por que depois não havia pacote, embrulho, nem nada com elas? Meninas de oito anos não recebem encomendas DHL!”
“Ok, tudo bem, é estranho, mas a gente deu uma busca nas coisas todas da Jojô, na casa toda, nos jardins do condomínio, e não achamos nada.”
“Tudo bem, pra você?! Pois deixa eu te contar uma novidade: os detetives descobriram que havia mesmo uma encomenda internacional pra Isa, de um tal Aylan Kurdi, que mora num país sei lá o quê, tá bom?”
“Agora você me assustou, o esquisito é que as meninas só ficam repetindo que era só uma mensagem. Vou ter que avisar o pai...”
“Mas como assim, teu marido ainda não está sabendo? Sil, não dá pra ficar de barata-voa, meu bem. Não sei se é um pedófilo, mafioso ou terrorista, mas coisa boa não deve ser.”
“Sabe como o meu marido é ocupado, né? Ele detesta ser interrompido em reunião.”
“Você vem dizer isso pra mim? O Caio Henrique vive grudado no prefeito mas teve que participar imediatamente, não tem mole pra ninguém nestas horas.”
Desligaram, ela pegou o embrulho das mãos da moça da loja e saiu sem se despedir, experimentava uma espécie de enlevo que já desacostumara, descia escadas e atravessava galerias em êxtase, uma coisa importante e urgente pra resolver, o marido teria de lhe conceder algum pedaço da sua escassa paciência com as miudezas das suas preocupações, afinal, aquela era uma situação de máxima importância, exatamente o que já não havia mais na sua vida: o perigo de algo real acontecer, algo novo e imprevisto, sozinha no elevador do shopping center, mirava-se nos reflexos em abismo das paredes espelhadas enfileirando uma cauda longa de Sílvias carregando sacolas e chorando, imagens encolhendo ao infinito, lá onde uma Sílvia minúscula já quase não sente o peso inexplicável do mundo.



domingo, 5 de junho de 2016

o mensageiro (3)




            “Como você sabe que o inferno existe?”, sentada na beira da cama, Giovanna não estava disposta a aceitar afirmações peremptórias, muito menos verdades subentendidas.
            “Simples, eu estive nele”.
            “Então me conta como é lá, tem casas, escritórios, árvores, monstros?”
            “Nada disso. É um barco.”
            “Como assim, Allan, um barco?”
            “Apenas um barco, e o mar: imenso, vazio, perigoso”, o menino remexia as mãos hesitando prosseguir no rumo da conversa.
            “Não estou entendendo, isso não se parece com o que me contaram...”
            “Aquilo não se parece com nada. Um esqueleto velho de madeira podre, todo enferrujado, conduzido por piratas que sabem que a maioria dos passageiros vai morrer na travessia.”
            “Um barco de piratas? Não sabia que piratas ainda existiam.”
            “Existem sim, são cruéis e cobram caro dos que precisam fugir da guerra. Minha mãe entregou a única jóia de ouro que ganhou no casamento pra gente ir da ilha de Kos ao porto de Bodrum na Turquia. Era tudo que nos restava, mas era pouco para aqueles homens, não tínhamos dinheiro pra dar a eles, por isso meus pais viajaram no porão e morreram sufocados, meus irmãos mais velhos iam no compartimento do meio, junto com o óleo que queimou a pele deles pra sempre, nós crianças viajávamos no convés, um lugar perigoso onde o vento e as ondas a toda hora derrubavam alguém pra fora do barco. Não havia salva-vidas nem bóias pra salvar os que caíam, e também ninguém se importava.”
            “Que horror! Nem dá pra acreditar que tem tanta malvadeza no mundo!”, os olhos de Giovanna eram duas órbitas congeladas na moldura dos cílios longos.
            “Mas foi assim. O navio todo rangia balançando, ameaçando se desfazer a cada onda, os gritos, as rezas, as rajadas de espuma salgada, tudo se tingia de uma cor escura mesmo embaixo do sol, os sentimentos rodopiavam dentro de mim feito ventos loucos, porque as coisas aconteciam sem nenhum sentido ou controle como se estivesse dentro de um sonho ruim, pra esquecer a fome repassava na cabeça as lembranças boas da minha vida e as cenas de um filme antigo, um senhor perdeu o juízo e se atirou no mar durante a tempestade, meu desespero era um choro silencioso que ninguém escutava, nem mesmo eu podia escutar.”
            “Allan... você perdeu seus pais?!”, grossas lágrimas quentes desciam pelo rosto de heroína de mangá da garota.
            “Giovanna, desculpa, não queria fazer você chorar. Acontece que esta é a minha história, não tenho onde me esconder dela.”
            “Tô bem, não se preocupe. Agora entendo porque você tá sempre triste e com medo das pessoas. Prefiro quando me dizem a verdade.”
            “Sei que a minha vida machuca, mas não queria te machucar. É que... só você tem a coragem de me ouvir, e eu tenho essa necessidade de contar, de dizer pra todos que tudo isso foi real.”
            “Minha mãe falou que você não existe, que é invenção da minha cabeça. Ela falou pra eu pensar que sou uma linda princesa que mora num lindo castelo, e assim vou conseguir dormir na hora que tem de dormir. Disse bem assim: ‘O Allan é só um amigo imaginário, daqui a pouco ele some’.”
            “Às vezes também penso que não sou de verdade. Não existe mais nada do que eu vivi, só esta prisão onde me jogaram. Perdi o lugar no mundo, ninguém quer receber o meu povo”.
            “Deu na televisão o nome da cidade que você morava.”
            “Ah, sim, é o noticiário das catástrofes nos lugares que só existem no mapa, a dor das pessoas imaginárias.”
            “Você sente saudade da sua casa?”
“Minha casa?... Seria aquela cidade onde as bombas caíam de surpresa enquanto dormíamos, ou então quando estávamos reunidos nas festas? Pedaços: de lojas e ruas, cachorros, carros abandonados, brinquedos deixados pra trás. Ruínas e pó.”
            “Tem alguma coisa que eu posso te ajudar, Allan?”
            “Tem sim, me dá seu endereço, vou te enviar uma encomenda. Provar que existo de verdade.”
            “E o que é que você vai me mandar?”
“Uma mensagem.”