A oitenta quilômetros por hora, o impacto faz da superfície do mar uma crosta de pedras. E esta foi só a primeira descoberta do dia. Daí veio a mega-vaca, o tranco daquela catedral de água desabando em cima de mim ― uma sensação igual a nada que já tivesse experimentado antes. Dezoito metros. A onda fechou as mandíbulas de cristal bem nas minhas costas; por um segundo cheguei a ouvir o rugido dela quebrando e em seguida o silêncio me engoliu. Comparar com uma queda livre ou com a ausência de gravidade é pouco: até porque nessas paradas radicais há um certo consolo, já que os movimentos, ainda que sujeitos a condições especiais e adrenalizados pelo perigo, seguem obedientes à nossa vontade. Neste exato momento, apesar do risco físico extremo em que me encontro, não posso fazer absolutamente nada.
“Não é fácil renunciar por inteiro ao controle se estamos acordados”. Foi o sentido das palavras que consegui entender da minha amiga tahitiana, anteontem, diante do meu mapa astral; ela me explicou também que estou atravessando uma fase chamada de Retorno de Saturno. Mas eu não deveria pensar nisso agora. Aliás, o ideal mesmo é não focar o pensamento, apenas aceitar o instante que se apresenta; sem raiva e sem apego, como aprendi na meditação. Aprendi muita coisa viajando, deu pra conhecer uma pá de gente incrível em dez anos de circuito. Tenho vinte e nove anos e, até há menos de um minuto atrás, estava sobre a minha prancha e o meu corpo me pertencia ― não era esse boneco de pano que está sendo furiosamente sacudido, girado em todos os sentidos até perder todo o senso de direção e posição.
O colete salva-vidas foi arrancado e o meu pé acertou a testa com toda a força; então, o pânico passou e, como se fosse um programa automático, entraram em ação uma série de procedimentos de emergência que adquiri sem perceber numa vida de contato diário com o mar. Agrupei, quer dizer, consegui me fechar feito um tatu-bola. Ou um feto. Melhor: um ovo. Saturno é o finalizador de ciclos, ele traz a sabedoria retrospectiva que vem junto com a velhice, a dificuldade, a doença e as trevas. Acho que não devia pensar assim, mas o caldo me jogou na região das sombras infernais, no caos primitivo em que as sementes de todas as coisas estão confundidas e misturadas, que me arrasta como e para onde quer, e que torna qualquer decisão pesada como o chumbo que recheia as pranchas curtas dos big riders. Maraü disse ainda que nesta nova fase eu deveria rejeitar a casca e tomar o núcleo, purificar-me três vezes com o sol, o sal e a água, e que isto seria facilitado, pois Saturno viu o seu rosto refletido no espelho de Marte.
O filme passando na cabeça é conhecido, mas parece a biografia de várias pessoas que viviam em mim de forma independente; o primeiro campeonato que venci aos sete anos em Macaé, a saída de casa aos treze, o começo no profissionalismo, o logo do patrocinador, a estréia cabulosa no Qualifying em Todos Santos, daí, só pauleira: Backdoor, Off the Wall, Mentawai, Jaws, Padang, Puerto Escondido, J-Bay, Pico Alto, Lacanau... um carrossel de imagens nítidas, mas sem as emoções correspondentes. Será que já era, fui? Um estado suspenso? Regredi para o grumo original, o corpúsculo de possibilidades que ainda não sabe se vai germinar, um ovinho sendo turbilhonado por uma lavadora de roupas do tamanho de um prédio de seis andares. Achei o ninho do Simurgh, aqui, na barriga da baleia, as memórias explodem na mente: a caminhada fulminante no acesso ao W.C.T., alinhar nas baterias dos top 45, tocar na banda do Kelly, o casamento na Califa, as drogas, o seqüestro da irmã, a separação. Mas eu devia me preocupar só em manter a apnéia e não pensar nisso agora.
Apenas ficar ligado no presente, passado e futuro são Maīa, ilusões criadas para distrair ou sofrer. É preciso praticar a aceitação resignada, incorporar completamente a passividade e a compaixão plena ― o vazio serve de ponte entre o vácuo e a potência total. A rainha da série me pegou, quando ela parar, precisarei de forças para nadar. Om.
O Pacífico, imensidão desesperadora de tanto azul, me ensinou que qualquer pedaço de terra está no topo de uma cordilheira que se ergue do fundo dos oceanos. Terra, o planeta-mar. O Tahiti é uma dessas montanhas, situada pouco acima do paralelo 20 Sul na Polinésia francesa; uma ilha vulcânica em forma de oito inclinado, na ilhota menor, a sudoeste, fica Teahupoo. Os locais pronunciam ‘tchôpo’ e avisam logo: cuidado com a esmagadora de crânios. As mãos de Maraü preparam suco de noni, uma espécie de fruta-pão nativa que cura tudo, até o veneno do peixe-agulha. No tubo da onda está a manifestação da divindade no surfe: inspirar, mandar pra baixo, entubar profundo, passar a mão na parede e sair limpo na espuma. Teahupoo, o sonho/pesadelo dos surfistas: reef break de esquerdas rápidas, fortes e tubulares que “sugam o chão” do mar, arrebentando numa bancada rasa de corais afiadíssimos. O Teco, com o lash preso nas pedras, vivendo aqui o pior inferno dele.
Agonia e êxtase. O perfume misturado de sangue e de tiare, a gardênia tahitiana; será o meu destino abraçar Iemanjá nos mares do sul? Justo agora que me casei de novo, e o primeiro filho dorme sussu na placenta dentro da minha terceira mulher? Nunca fui um casca-grossa, fui criado na marolinha; quando mudei para Saquarema, respeitei aquelas ressacas, os swells nervosos, em Mavericks conheci o terror. Morar na baja Califórnia não fez do merrequeiro, especialista em manobras aéreas, um domador de titãs. Não, não devia pensar nisso agora. Há dois anos, quando voltei a competir e as contusões seguidas mostraram que já não agüentava a puxada competitiva, cheio de contas a pagar, encarei a parada do tow in e pedi abrigo na confraria dos caçadores de gigantes. Rebocado por jet ski, pude descer umas bombas que na remada não iam rolar. O falecido Mark Foo é que disse: quem quer pegar as maiores ondas, tem de estar preparado para pagar o maior dos preços.
Vacilei na saída do tubo, um erro cabaço, perdi visibilidade com a baforada, aquele suspiro que sopra do ventre da onda antes de se fechar. Saí da linha no solavanco, essas morras não têm a superfície lisa, e é por isso que a prancha leva lastro e os pés ficam presos como no snowboard. De repente a casa está caindo, um terremoto vai derrubando quartos, paredes, escadas, corredores e, lá no fundo, a gente vê uma única rota de fuga, só alcançando esta saída é que poderemos escapar da casa ruindo. Sair do tubo da onda é como nascer. Se emergir deste caldo, nasci de novo. Ninguém sabe o que uma onda realmente é; ela dura os poucos segundos de um sonho, lá dentro o tempo se dilata e acelera em momentos-século, e cada instante que chega é um paradoxo que altera os que o antecederam. Dizem que o Universo tem ondas, dobras nas quais se depositaram por gravidade os sóis, as galáxias, os asteróides, os planetas e... nós, poeira de estrelas. In utero. Agora estou preenchido de uma alegria juvenil, uma brancura silenciosa me envolve; experimento o nada, antes de todo e qualquer nascimento ou começo, sinto que estou na primeira fase da luta contra a morte, a entrada no invisível. Não sei mais o que está no alto ou em baixo, onde está a esquerda ou a direita; estou retornando para o zigoto, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas, sessenta e quatro células, uma mórula, os pólos animal e vegetal, a boca, o ânus, a gástrula, um cordão vertebral, uma noite tépida e feliz, feita de uma matéria clara e envolvente que une o ar e a água, o céu e a terra, uma imagem cósmica, ampla, imensa, suave.
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
O OVO CÓSMICO
Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Sim e Não
Não
Aos processos de iluminação
À razão
Sim a todos os caminhos
Não
Ao terceiro olho da visão
À devoção
Não às formas de ficar sozinho
Abra as tampas do pulmão
Abra o coração
Abra o quintal
Para o vizinho
Tire a cerca da separação
As muletas da sustentação
Só você
Para taça e vinho
Tire todos os escombros da demolição
Seja mato, seja pedra
Seja faca e pão
Céu e Terra andam juntos
Como dois irmãos
Seja sim e não!
Toda folha tem raiz para nutrição
A montanha tem o teto e também o chão
Sim à flor, sua cor
E seus espinhos
Não às formas diferentes
De saudação
Não à ascensão
Não aos ritos elevados de depuração
Não à redenção
Não a todas as maneiras
De distinção
Sim a todos os caminhos
Toda folha tem raiz para nutrição
A montanha tem o teto e também o chão
Sim à flor, sua cor
E seus espinhos
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
o corpo é uma imagem do inconsciente

e a origem das neuras
a principal causa de desencontro entre o narcisismo da imagem do corpo da criança e seu esquema corporal (idade fisiológica), é notadamente quando o desejo libidinal oral de pegar, de saber e de compreender, e o desejo anal de fazer, agir, de experimentar, despertam na instância tutelar uma reação tão erótica ou tão recalcada (p.ex.: uma culpa enfiada no seu super-eu infantil). a mãe tomada de angústia, associa uma reação expressiva mais ou menos controlada, da qual a criança percebe sempre o `não dito´: olhares de desprezo, atitudes hostis, rupturas, palavras de censura que ela acredita serem educativas.
entretanto, a criança não tem sequer a oportunidade de recorrer ao fantasma do prazer arcaico; se for consolada pela mãe, pode reconciliar-se consigo mesma, identificar-se por introjeção com a mãe acolhedora para o bebê ainda impotente, o qual ela sabe acalmar. se por outro lado, a criança não for mais “amada”, for censurada e, se esta mãe aos olhos da criança, tem razão, numa identificação secundária com o agressor, tanto pior: ela está então submetida à introjeção de emoções insólitas, sem representações, ou por vezes uma representação de censura severa que pode se estender inclusive aos domínios do patronímico. surge então no inconsciente os efeitos da pulsão de morte, que investe contra as zonas erógenas do corpo provocando anorexias, vômitos, encoprese, enurese e insônia.
na clínica, encontramos pais e mães se acreditam “alvos”, como se tratasse de revide das criança que eles pretendem adestrar. quanto mais a criança apresenta os sintomas, mais eles querem adestrar: uma situação libidinal dramática, perversa: humanos que só podem destruir! a criança perde até a sensibilidade de suas sensações esfincterianas distintas, de suas sensações do trânsito intestinal, fica totalmente entregue às pulsões de morte, já que sua imagem de base, a mais fundamental, é associada à mãe e está ligada à vida e à morte. se da mãe apenas emergem signos de repulsa e recusa, se dela não brota mais nenhuma característica de vida para o espírito e o coração, então, para o corpo que não pode viver sem espírito e sem coração, ela se torna morte. A morte-mãe se torna a referência anti-existencial e existencial simultaneamente.[1]
estas crianças chegando no limite do vivente: sendo sujeitos extremamente inteligentes, não podem mais engolir, não podem mais mastigar: sua anorexia, que é uma falta generalizada do desejo de amar, do desejo de desejar, do desejo de trocar, é particular e psicótica. todas as crianças psicóticas entram em estado crônico que pode ser atravessado por atitudes bizarras passageiras do corpo que não podem ser ditas de outra forma. a criança psicótica fica refém de pulsões insólitas provocadas por fantasmas, acontecimento real ou pulsões agressivas contrarias à instância tutelar. em geral as pulsões de morte do sujeito do desejo são localizadas nas zonas erógenas. a única maneira de lutar contra a angústia com relação aos pais de hoje, é de se refugiar nas lembranças de seus pais de ontem, de um mesmo dele arcaico. podemos dizer que se trata de um processo de autismo, de uma defasagem em relação ao resto do ritmo de vida relacional atual, de sua imagem existencial; daí o retorno a certos componentes da imagem do corpo da criança que não pode permanecer focalizado em seu esquema corporal de hoje, e fazer corresponder a isto a manifestação de seus desejos de sujeito.
Pedrinha na mão
Os poucos críticos que ainda pensavam a obra de Lygia Clark quando ela se declarou psicoterapeuta, aceitaram a explicação sem contestação. Ela partiu da criação pictórica no plano (telas) para formas autônomas (os “Bichos”), e então o objeto se tornou interativo com o espectador, - melhor dizendo, o participante; que em dado momento, deixa de precisar do objeto. O principal estava na interação entre o participante e o objeto, que vai se tornando mais e mais como um acessório de palco do que qualquer outra coisa. Então isso é muito lógico. Ela passa por um limiar quando decide fazer disso uma espécie de cura ou alguma coisa. Ela diz: “não troquei a arte pela psicanálise, desde que pedi a participação do espectador, que foi em 59, daí por diante meu trabalho exige a participação do espectador; meu trabalho foi sempre me conduzindo para outro experimentar, não só para vivência minha. Por ora, tenho a consciência de que meu trabalho é um campo experimental, rico em possibilidades e é só. (carta). Com os “Objetos Relacionais” ela chega ao ponto mínimo da materialidade do objeto: ele é apenas a encarnação da transmutação que se operou no sujeito. Saquinhos de plástico e pano contendo água, areia, ar, isopor; tubos de borracha, mel, conchas convocando o desmanchamento do contorno, o desregramento da imagem corporal. Uma viagem intensa para além da representação. Lygia deixava por prudência, uma pedrinha nas mãos do receptor para que ele pudesse, a exemplo de João e Maria, encontrar o caminho de volta. Volta para o familiar, a imagem, o humano – a prova de realidade de seu ritual. Ela propunha uma vivência na fronteira
[1] Sem contar que em francês, mort (morte) e mordre (morder) se inscreve na imagem do corpo.
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
teodicéia

deus ficou conhecido sub specie aeternitatis
como o nada, a não-coisa
e também: o pan, a tríade, o uno
o sem fora
creio para entender
(credo ut intelligam)
mas nunca compreendo
― naufrago no absurdo
o mais alto conhecimento
(magia, arte, filosofia, ciência)
não vale um beijo
de moça bonita
ninguém pergunta o que não sabe
pois o que se ignora
completamente
não pode ser perguntado
uma trilha nas estrelas também sou
Enterprise à deriva
odisséia mestiça e sem deuses
paranóico otimismo: o universo se importa
minha biografia impura de
ausências
sim, ativamente o vazio
a realidade vem de todos
e não apenas de alguns
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Domingo, 14 de Junho de 2009
Dois sonhos, imediatamente depois de fazer amor
Foto João Francisco Verderame
Os olhos negros do dragão a me fitar
Seu corpo imenso me rodeia
A bocarra escancara
E nenhum som se projeta
Estou no meio do olho
Do furacão negro, o negro
Dragão que me circunda
Segura em suas garras
Um ovo
Dourado
Translúcido
Lindo
E o deixa em minhas mãos atônitas
Antes de voar partindo.
*****************************************************************************
Caminho pela larga aléia encurvecida de pedras
Ninguém
Passo por várias portas que não me dizem respeito
Até chegar a uma em especial
A minha porta, após alguns poucos degraus de mármore velho
Como o mármore da casa de minha infância
A porta de madeira, com algum trabalho inespecífico
A maçaneta em metal, a sombra que se anuncia dentro
Do que não ousei desvelar
Era cedo ainda.
Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
A Resposta: Valentina é uma Capitu que fala!

Primeiramente gostaria de dizer que você não traiu minha confiança e te agradeço do fundo do coração por suas palavras e preocupação. Acho um pouco abusada, um tanto engraçada, um tanto perigosa, a sua idealização da minha pessoa nesse papel que, parece, você me destina: a Grande Dame. De todo modo, é uma necessidade sua.
Essa experiência amorosa com Mr. M se revelou uma entrega ao mistério, uma forma de desalojamento de si mesma em direção ao outro, uma renúncia de aspectos próprios a caminho de um destino que pensei poder compartilhar. É quase, meu amigo, um voltar à pureza da criança, sempre aberta ao que se revela, fluindo com a própria vida!
Amor esse, que por um tempo, foi um verdadeiro portal para vivências do sagrado, onde me abri genuinamente para o sentido da existência e da beleza em ser mulher. Você sempre insistiu neste ponto comigo, “A” mulher é uma construção, já que ninguém nasce “mulher” ― torna-se, segundo Freud ou Simone de Beauvoir.
Viver aberta para a aventura desse encontro foi de uma riqueza ímpar e isso, de fato, não combina com a palavra "migalheira", como me auto-referi. Posso dizer que me abri, que me arrisquei, me recriei, mas chegou a hora de aceitar que essa história chegou a um beco sem saída. Uma intimidade que, de transcendente, se transformou em tóxica como você bem me alertou.
Uma relação sem perspectiva nos joga fora da condição humana e nossa sobrevivência física e emocional fica ameaçada, é uma forma de experimentar morte em vida. Tive inúmeros sonhos e sintomas físicos que me mostraram isso!
A aceitação, desde o início, do lugar de "guardada" talvez já evidenciasse a falta de crescimento, o aprisionamento, a pseudosegurança afetiva que eu entrava. Percebo agora que, ao ser “guardada”, não fui legitimada, ao ser “protegida”, não pude viver a plenitude do que poderíamos alcançar. De que me adianta ficar com o príncipe ao final do jogo? ― a vida só existe no durante, meu amigo.
Estou sendo chamada a olhar que a proximidade com Mr M me revela o que não foi transcendido, transformado e curado em mim. Vou levar um tempo para me desintoxicar, mas já são quase quinze dias sem nenhum tipo de contato com o vício! Hoje é o primeiro do resto dos meus dias, como dizem nos grupos de auto-ajuda.
Meu querido amigo, não deixei de sonhar e continuo a acreditar, como diz Camus, que no inverno, descubro em mim um verão invencível! E você sempre me ajudou nisso, pontuando, relembrando o que vê de melhor em mim. Não sei se te convidei a ser meu espião, te sinto como um guardião, tanto daquilo que tenho de melhor quanto da minha sombra.
Tive um verdadeiro insight com aquela frase: NÃO SE PODE AMAR E SER FELIZ AO MESMO TEMPO. É pensando nessa impossibilidade de amar e ser feliz ao mesmo tempo que entro em relações que confirmem essa crença a meu ver absurda e limitadora. Nisso discordo de você: a vida não é sem sentido nem cruel, é apenas um mar de possibilidades que se abrem a quem as puder enxergar.
Com Amor
Valentina (está renascendo em mim)
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Sábado, 30 de Maio de 2009
não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo

Querida Valentina,
Se você está lendo estas linhas, então já sabe que traí miseravelmente a sua confiança e estou respondendo, talvez da pior forma possível, ao que me disse em nossa última conversa. Pese a meu favor o fato de a haver prevenido que faria de você personagem de uma história que ainda não escrevi, e que talvez nunca escreva, como tantas outras coisas que lhe prometi sem saber se poderia cumprir. Você sempre soube no fundo que isto tinha o potencial de vazar para além dos muros da nossa intimidade singularíssima; da sua parte, espero apenas o perdão, da minha, ofereço o mais candente esforço e sinceridade de que sou capaz. Não sei dizer o que para mim foi pior no seu desabafo: ser atualizado nas indignas/heróicas viravoltas da sua relação obsessiva com o Mr. M., ou escutar o horrendo adjetivo que você se autoaplicou: “migalheira”. Mulher migalheira, como tantas outras que há por aí, foi o que você disse. Arrepiante, preocupante mesmo, a ocorrência de dois absurdos na mesma frase: nem você é igual a tantas ou poucas que por aí andam, nem, o que é muito mais importante, se trata de migalhas, mas do exato oposto essa sua história com M.! É humilhante demais. Mandando às favas o meu orgulho, tenho que lhe dizer, a bem da verdade, que esse seu namoro porno-sado-masô é o sideral oposto do pedaço, da migalha, é, antes, sinal de uma imensa fome de absoluto, de um desejo de transcendência descontrolado; o que vocês vivem dista anos-luz do trivial, é uma ligação tão incomum e rara na intensidade que consome tudo à sua volta. Até a capacidade de auto-ironia, até a sua tão preciosa saúde, minha querida. Sei do que estou falando porque escrever é viver essa mesma oximorosa condição: eu sento aqui diante da folha em branco e acredito que me sento à mesa dos deuses, dos anjos, dos reis, mas acabo a noite de quatro, como um vira-lata, a disputar com os sabujos dos empíreos os restos corrompidos que caíram da mesa onde circulava a ambrosia e o hidromel. Não pense que me escapam as contradições em que vou incorrendo ― não estou preocupado com a coerência, estou preocupado com você ―, cara mia, ter a honra de conviver na época de uma grande mulher é ser testemunha histórica de um colossal, maravilhoso, equívoco de carne e osso. Eu sou o seu espião. Você me convidou a isso, como fez de M. um hacker psicossexual entregando-lhe cegamente todas as senhas do corpo e da alma. Ah, como gostaria de vociferar em prosa chula a pusilanimidade dele ― um homem que não tem a coragem de amar a mulher que deveras ama; mas sei, por experiência própria, que a servidão que lhe assujeita agora é a pior de todas: aquela que faz parte do próprio sangue, a que faz de nós aquilo que somos num deslugar noturno do ser. A verdade é que M. usa com habilidade um segredinho sujo do malestar civilizadinho, a verdade é que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda, no jogo do amor, um homem “vale” mais que uma mulher, mesmo sendo um homenzinho cagalhão e looser, mesmo sendo um alumbramento de mulher como Valentina. São as malditas, hipócritas, escrotas regras do jogo social de ontem, hoje e sempre, que garantem que uns lucram, outros são lesados e todos perdem, porque sobre a primeira expropriação se apóiam todas as outras, porque uma dominação engendra a outra, porque, enfim, uma sociedade de libertos seria uma grande ameaça para a estabilidade da globalização, da contemporaneidade ciniquinha e limpinha. E também porque, amiga, apesar de o mundo ser o que é, não podemos simplesmente aceitá-lo pelo valor de face, como não posso simplesmente deixar de sofrer ao vê-la vivendo na pele dessa heroína às avessas, essa identidade secreta, espécie de existência paralela feita de espera vã e epifanias aflitas. Sim, você ouviu bem, eu lhe disse que essa intimidade é tóxica, voragenta; você piscou para o abismo e ele lhe escancarou a goela puante, as insaciáveis fauces. Valentina, darling, pode ser que a vida não seja nada disso que estou lhe dizendo, não me ouça, não lembre das minhas palavras, mas por favor não desista da sua beleza, da indomável liberdade que há nos seus cabelos, nunca deixe de visitar os jardins do mundo delirante onde vivem os Predicados e as Essências, onde tantas vezes adivinhamos os passos um do outro a correr nas caminheiras. Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, vero, mas não se pode viver sem um sonho assim.
Bjs,

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
Cinzel Sobre Sonhos, Escultura

Escultor, bato a ferro a pedra da minha vida.
Meu caminho, instintivamente, sempre foi o mais difícil, o lado mais íngreme, o lado escuro de qualquer astro. Não sirvo de exemplo nem para o meu filho, para quem sempre quis uma vida menos dura. Em vão. Lá foi ele, à esquerda na vida, sem entender o que se passa no mundo que não se passa dentro dele. Eu nunca soube fazer de outro jeito. Azar.
Saturno, ao me reger, prometeu o pote de ouro no fim do arco-íris de chumbo; fica assim a recompensa a quem se dedica ao bruto esporte de viver a vida e suas escolhas de um modo que ninguém conhece. Descobrimos que não amamos as mulheres superficiais, mas isso apenas depois de as abraçarmos. Descobrimos que a música que queremos fazer não existe, e quanto à nossa banda, provavelmente apenas o fã-clube da Bulgária será um pouquinho mais expressivo. Nosso pagamento será de tapinhas nas costas e abraços calorosos entre quatro ou cinco iniciados.
É saber, enfim, que a vida valeu muito e que não existia outro caminho, e que a coragem de ter sonhado com um enorme e vistoso lírio branco (e com aquele carrinho que parecia um bizarro carrinho de golfe, cuspindo flores para todos os lados) não era na verdade coragem de amar e ser amado por aquela mulher como ninguém mais o faria, mas a única trilha visível numa bruma que não permitia ver mais que meus próprios passos, mesmo que a dois dedos da morte e do inferno onde muitas vezes caí.
Até agora me ralei um tanto, mas até que foi divertido. Às vezes.
Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
a paixão carambola os substantivos com os adjetivos

(cedo ou tarde)
se revela
arte do mal
a poesia não precisa
ser justa
sincera ou veraz
não precisa nem ser boa
porque a arte
coitada
não é boa, má
nem coitada
nós
somos maus e bons
em variável indeterminada
razão
amar é tão
difícil
quanto a maldade
é simples
sou apenas um peixe
estouvado
uma partícula de tempo
uma pequena coisa doendo
na multidão
Terça-feira, 19 de Maio de 2009
I feira de saude mental e economia solidaria
No dia 23 de Maio (sábado), como parte da Semana da Luta Antimanicomial, a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária do Estado de São Paulo irá realizar a I Feira de Saúde Mental e Economia Solidária.
A I Feira de Saúde Mental e ECOSOL tem como objetivo ser um espaço de sociabilidade, exposição e comercialização de produtos e serviços dos projetos de trabalho e renda e empreendimentos econômicos e solidários, dos trabalhadores e trabalhadoras, usuários da Rede de Saúde Mental do Estado de São Paulo. A I Feira contará com a comercialização de produtos de 25 projetos de trabalho e renda de diversas cidades do Estado de São Paulo.
A I Feira contará também com diversas apresentações culturais e a IV Parada do Orgulho Louco, visando um dialogo com o conjunto da sociedade para mostrar as potencialidades criativas e produtivas dos usuários da Rede de Saúde Mental.
Programação da I Feira de Saúde Mental e ECOSOL:
12:00 - concentração da IV Parada do Orgulho Louco – informações sobre o local na página eletrônica
13:00 - Chegada da Parada do Orgulho Louco na Feira - início
13:30 às 13:30 - música (dj tiago)
13:30 - Ato de Lançamento da Moeda Social Qualquer e fechamento do Ato com o Cordão Bibitantã
14:45 - música e microfone aberto
15:00 - Luis Groove (banda de jazz)
16:00 - DJ Nene
17:30 - dança cigana
18:00 - Ala loucos pela X
18:40 até o final - música (dj tiago)
Maiores Informações: http://saudeecosol.wordpress.com/
Apoios: Conselho Regional de Psicologia-SP, Secretária Estadual de Saúde, Escola de Enfermagem-USP, Associação Franco Basaglia, Associação Vida em Ação e Fórum Paulista de Economia Solidária.
Endereço: Rua Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 ( Escola de Enfermagem da USP - ao lado do Metrô Clínicas)
Domingo, 17 de Maio de 2009
Também se recolhem os cacos da sombra que voa
Sem título, óleo sobre tela, Bel Teixeira 2008.A sombra de um grito a correr, um grito
cheio de rachaduras na pele da noite lembrada.
Uma noite corria ao longo de janelas sonoras,
imediatas,
levando na sela, abertos como ela,
lenços.
Muito vivos, grandiosos, brancos, atados
a cascos céleres, correndo como sombras
que discordam da forma
como as coisas devem ser,
ou estar, com as patas na mesa da fantasia
noturna.
E são mulheres ou lenços, mulheres de corrida, mulheres-sonho
pousadas
ao abrigo da terra, como uma estrela
pousaria na sombra,
tremendo como as estrelas tremem na escuridão,
ante o poder extraordinário
que há em serem ditas.
O céu está a galope por cima
e elas passam esquecidas, angustiadas
com a noite esquecida/lembrada,
mas que logo, logo, volta a
correr, porque faz parte do desejo das sombras
correr,
correr como os lenços brancos das estrelas
― velas que se apagam à passagem
dos imateriais.
Eu lembro:
os gritos queimam,
como as éguas e suas crinas queimam,
assim como a aragem da noite-água
viva,
aberta, correndo, lembrando.
O miolo da fechadura guarda um segredo,
da palavra pode-se voltar a fazer imagens;
no centro da tormenta
dorme o silêncio.
Às vezes, nossa pessoa cresce a tal ponto
que é engolida pelos seus
ecos.
Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
Mulher com cigarro, técnica mista

na carne da montanha
dormi
despido por lençóis d’água
envernizado
na tua sala de estar-mogno
não sou de louça!
não tenho margem de manobra
não tenho quadris, nuca, nádegas
nem clarão fugitivo por onde o sentimento siga no encalço
minha cabeça de edemas
agudos
minha face bolachuda de angosturas
kármicas
sete perguntas quem era
sereia, sirene, verbena
veneris die
simultaneamente doce
instantaneamente morno
entregue às margens que estavam ali
enlaçadas ao vislumbre
da sarça ardente
ao corpo mal contado
e narrativo
ao menos deixa
ao menos por hoje
deitar
na cozinha da tua alma
Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
transformei meu amor em noite para te dar as estrelas
Ilustração: Thiago BoemekeReceber do outro o milagre que ele(a) nunca pôde haver
E, neste comércio de impossíveis, construir o mais louco dos paraísos
Quando jovem corria para o abismo, mesmo porque a neblina me cegava
Hoje, caviloso, poupo moedas para a velhice, sentindo que abraço nuvens
Ando às escuras, bem sei
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Sonho: O lado escuro do caminho

Eu ando pelo caminho escuro. Ando por seu solo imperfeito, suas manchas esverdeadas, seu piso como tijolos muito gastos pelo tempo. Sua noite particular.
Eu ando pelo caminho do lado escuro, separado dos caminhos comuns que todos trilham, que sai deles e volta, como um atalho que ninguém vê. Eu evito os acidentes que não conheço, fico com medo de pisar em algo estranho ou nojento, mas não paro. Nele é difícil prosseguir, e às vezes acho que andei, mas estou no mesmo lugar. Minha respiração torna-se tão pesada que chega a parar. Angústia. Num susto, volto a respirar.
Eu ando pelo caminho à parte, que tem silêncio, onde a luz diminui, que os outros não conhecem. Temo, mas ao mesmo tempo vou com confiança, pois também é meu. Volto por ele ao lugar já conhecido de onde saí. Mas não sei quanto de mim ficou.
Domingo, 3 de Maio de 2009
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
pisado pelas circunstâncias, ou por si próprio
Domingo, 26 de Abril de 2009
tréplica de uma falsa polêmica (ô vício!)

1) Jarbas "às-favas-com-os-escrúpulos" Passarinho emporcalhou, sim (é da natureza das aves), o lugar que ocupou ― e emporcalhou com sangue (é da natureza da meganha). O nobre doxógrafo defende que se rasgue a Lei de Anistia ― o que seria o primeiro momento de auto-reflexão sincera na história do país das "transições suaves" ―, mas não acredito que intimamente leve a sério tal possibilidade, nem alimente a crença em processos judiciais à vera para os envolvidos. Não no país do Gilmar Mendes.
2) Mídia no singular explica-se pelo comportamento de manada, mormente as grandes mídias, pautadas que são pela TV. Compare a grita contra os "excessos" das ações policiais no Massacre da Castelinho durante o governo Saulo de Abreu Fº, digo, Alckmin, com a fuzilaria em cima dos Protógenes Fáusticos, dos Joaquins Policarpos Barbosas. Injustiça minha com Bucci: as polêmicas que entre nós prosperam vão do anódino ao supérfluo, orbitando em torno de ninharias, tecnicidades bacharelescas.
3) O meu jornal ideal é aquele que embrulha o peixe, molha, mas não rasga. Companheiro, vc acha mesmo que defender uma imprensa plural inclui colocar (mais) um canhão na mão de Sarneys, Delfins e Passarinhos? Conte à sua filha de 12 anos sobre a OBAN e depois pergunte se ela gostaria de te ver na companhia dessa galera medonha.
4) Você está certo sobre este ponto. Amei o meu epíteto: "contra-crítica chapa branca", é Gêmeos com ascendente em Gêmeos.
5) Seu nome no alto de um texto me faz pensar. Em dobro. Vc tentou relativizar a "dura", sim, ou talvez não tenha sido tão enfático em condená-la quanto a minha simplicidade de espírito careceria.
6) Estou aceitando parcerias públicas e privadas, vc talvez me compreenda, não tem sido fácil ganhar a vida neste nosso capitalismo de estado. A esquerda brazuca no pós-ditadura tinha (ainda tem) a faca e o queijo na mão, como teve a sua congênere italiana no pós-guerra, e o mesmo dilema moral: as cicatrizes do conflito armado de um lado e, de outro, a vontade de usufruir dos esquemas, de "fazer o que todo mundo faz", nas palavras imorredouras do Nosso Guia. Os compagni que não embarcaram num terrorismo equivocado, temporão e sanguinário, se lambuzaram na versão acomodatícia, com a conseqüente mafianização da vida social, política e econômica do país. Isso levou ao assassinato de Moro e Falcone, isso desagua em Berlusconi e na Lega Nord e agora... Battisti. Deve doer fundo na xenófoba alma peninsular ouvir o ministro brasileiro da Classificação Racial (outro dos seus impagáveis 'tags') afirmar que a justiça italiana não é confiável. Sendo assim, e se vc me permite, é melhor não perturbar demais sua conversão 'neocon' em campanhas revisionistas: colegas e aliados seus, antigos e atuais, poderiam ter constrangimentos na eventualidade do menor rasgo na Lei de Anistia. Cordiais saudações,
Missosso






