sábado, 7 de novembro de 2009

as moscas do tempo gostam de uma flecha



time flies
like an arrow
I dwelt
upon
thy knee
the line
of the thigh
thy back
the neckbone
arms pressing together
the outer side of fine
little breasts
I’ve got stuck
worshipping an idle
accentuated
body
exaggerated by disease
and rendered twice
over body
it was something in the highest degree
fleeting and tenuous
a thought
a delusion
the frightful
infinitely alluring
dream
whose unconscious questioning
of the universe
received no answer
save
a hollow silence

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DRAGÃO OCIDENTAL PADRÃO




Antes da excomunhão, os papas costumam condenar ao “silêncio obsequioso”,

que foi o que você fez comigo, sem tirar nem por,

usando palavras neutras e sonsas de manual de auto-ajuda

― é o próprio inferno, penso no que você me disse o dia inteiro:

“Esquece, ou você vai acabar me odiando, não posso mais ficar com você”

não dá, porra, sua ausência se alastrou como uma praga

dentro da minha cabeça, uma pústula inchada e vazia

meu apartamento parece um estádio de futebol, calado, imenso,

e pelas regras do jogo que jogávamos não posso reclamar,

pelas suas malditas regras eu posso ficar louco,

virado no cão, mas sempre quieto, digno e produtivo

devo aceitar o fim com maturidade (quase uma libertação),

chorar durante sete semanas frias e, ao fim, levantar o luto

virar a página, fazer a fila andar, não é assim?

cair na balada, ligar para os amigos, ativar a agenda e...

terminar a noite ligando bêbado para uma mensagem gravada

mas isto não vai ficar assim, vou te denunciar pro Denarc,

espalhar que você planta maconha no quintal, que vende crack pra velhinhas,

vou me suicidar no Facebook, divulgar nossas fotos na Praia do Sono, vou

vou nada!, vou o caralho!, vou é ficar aqui ruminando as suas pérolas:

“Quando o amor acaba, é como quando acaba a bebida da festa:

acende a luz, junta o lixo e vai embora”

como a vida é simples pra você, não?

acontece que eu te perdi, é tipo uma morte, sabia?

acontece que a vida acaba, mas a morte não

é como se você estivesse morta só pra mim,

só eu não posso te escrever, encontrar, falar e não adianta tentar explicar

NINGUÉM PODE ENTENDER O QUE EU PERDI (EM/COM) VOCÊ

e já que você sempre carrega frases tãntricas/tétricas

na algibeira que explicam toda e qualquer situação,

vou te lembrar uma historinha budista:

“Caminhava Buda por uma estrada quando
avistou um cachorro devorado pelos vermes,
encheu-se então o Buda de infinita compaixão
pelo cão e resolveu livrá-lo dos carrapatos;
retornava o Iluminado ao seu caminho, quando
foi tomado o seu coração de infinita compaixão
por eles, voltou atrás, cortou um pedaço da
própria carne e deu-a aos vermes.”

Você só não tem pena do sanguessuga que nunca deixei de

Ser

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o perfume tragicômico da carne



ah, minh’alma mal
acabada
sombra de um maldormido
sonho
por fora risonha e branca
trágica e vermelha
por dentro

ah, minha terra querida
nação moribunda
como é poética a imagem do moço
encontrado
morto dentro do carrinho
de supermercado

quanto vale, ou é por quilo?

amigos, que graça nascer no desespero resignado
de resignação desesperada
aqui o sol não morre nunca
nem nasce o mar sem plumas
berço e tumba
da nossa vergonha (coberta de asas)
libidinal nudez

ah, que idiota sou
compondo versos de água
elegias da neblina
elogios ao rio escuro de água
dormente
esse rio de noites estreladas
e águas cobertas de luar
e cadáveres desovados

meu canto é café coado
na calcinha
canto a luz do céu
de Suely
este meu coração funâmbulo
que desliza por rios
de matéria choca
que sofre e sonha e reza
para formas espectrais

a imperfeição de que tudo é feito
é o que o teu corpo solidário
derrama em mim
nas coisas
por que
passa

pois igual às perifas e favelas
morros, quebradas e montes aprazíveis
da minha terra
me sinto irmão dos que estão vivos
e dos mortos
órfão

humano só sou na dor

domingo, 18 de outubro de 2009

eu tenho a mania de ouvir poesia (no que os outros dizem)



sou irremediavelmente autodidata
leio com o estômago
escrevo com os ouvidos
apago frases incompreensíveis
com o fígado

sou brasileiro
natural de São Paulo
de Luanda
malandro-agulha
PhD em cultura
inútil

anoto frases dos outros
no ponto de ônibus
metrô, trem, lotação
enquanto espero na faixa
ou tomo café no balcão
leio o jornal da padoca
pergunto que horas
são

microculto em taras, trívia
patacoadas e perversão
macroignorante da vida
burguêsmente me assusto
com a bananalidade
do mel

adormeci e acordei
em Mumbuca, Tocantins
onde a doutora em paciência diz:
“A gente se formou em ter filhos
e eleger candidatos”

na teleaula do gratuito horário eleitoral
meu diploma é título
de otário
acadêmico da votação
formado em
desigualdade
violência
e beleza natural

sábado, 17 de outubro de 2009

Espaço Plínio Marcos, Editora Quizomba e Dasdoida convidam


terça-feira, 13 de outubro de 2009

anatomia patológica

ninguém nasce humano

torna-se

o homem não existe

é inventado

(cópia da máscara de outra cópia)

o que há é o homo sapiens

assassino

voraz

estuprador

sob a seda, a escapar dos punhos de renda

o orangotango

consumidor/explorador/detonador de tudo aquilo

que é e que não é

self

sem essa

de socialismo ou barbárie

sem essa

da natureza essencialmente má

sem essa

do selvagem naturalmente bom

isenção de impostos

para

a confissão agnóstica

já!


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

não se prenda

Untitled from Jamila Maia on Vimeo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

o Demônio de Maxwell



onde a coisa é
o vir-a-ser
copula
silêncio com pulso
objeto-sujeito
o ruído branco
a pausa
o mergulho

estar
evanescer

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

um Vietnã e meio por ano


os meninos estão raivosos
na correria, crescendo, matando
e são filhos meus seus nossos
os carros são furiosos e velozes


Malcolm X, gandola, tênis de basquete
DJ no prato, puxa o sample, faz o scratch
Wu-Tang Clan, Marvin Gaye, 2Pac, Sabotage
CGezinha, 765, AK
47


as meninas viram top
models, poetas
mulher-placa, vampiras lésbicas, operadoras
de telemarketing
calça popozuda, progressiva, Queen
Latifah, gloss


as bombas de fragmentação soltam
pedacinhos
os meninos lá, só filmando
o abismo
os meninos do vapor, tropeçando
no muro
e o que eles não aceitam é tomar no cu
sozinhos

não querem mais
pagar a fatura
se foderem amplo, irrestrito
e geral
na fratura do apartheid
social

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

DASDOIDA vida e saude publicas

sábado, 12 de setembro de 2009

A MÃO DIREITA DO CANHOTO


de esquerda é o burguês culpado
de direita, o burguês ressentido


de esquerda são os que persistem na discussão política
de direita, os que a crêem superada


de esquerda é quem vive no futuro
de direita, quem conjuga o futuro do pretérito


de esquerda é acreditar no Homem
de direita, se proteger da besta-fera


de esquerda é confiar no Estado
de direita, mantê-lo sob controle


de esquerda é querer mudar a História
de direita, reescrevê-la


de esquerda é desejar o progresso
de direita, pô-lo a serviço da tradição


de esquerda é o público gerindo o privado
de direita é, privadamente, digerir o público


de esquerda é o materialista nas idéias e idealista nas ações
de direita é o pragmático do espírito


de esquerda é quem se assume cristão na velhice
de direita, os nostálgicos de uma idade de ouro clássica


mas quando a coisa aperta pra valer,
mão direita e mão esquerda se juntam
e rezam

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

LACAN, VC NAUM VALI NADA MAIS EU GOSTO D' OCÊ!


Por que a mocinha de “Desejo e Perigo” se entrega?

É uma decisão que toda mulher enfrenta mais cedo ou mais tarde: ser mulher. E aí cada uma terá de se haver com o quanto cedeu de seu desejo (ou o quanto correu de perigo).

Ela escolheu a vida, o sacrifício dela salva ao menos a vida dele. Porque perdidos ambos já estavam nas águas turvas da paixão carnal.

Nunca suportei a ideia de comunismo, socialismo, cubismo ― sem Marx e sem Bíblia. A dura verdade do capitalismo é que o universo é inflacionário. Impérios-bolha vão crescer e estourar. Cada vez mais rápido.

O que não tem solução, não solucionado está. Nós vamos ter que nos reorganizar em outros lugares, rever conceitos e levantar acampamento a toda hora. Como os nômades.

A fêmea é o humano que não existe, devém; ser mulher é uma profissão impossível, portanto, do alto da minha condição de não-existente, renuncio a resolver um enigma insalúgubre. Não sei o que fazer, não faço nada.

Por que deveria trabalhar para uma civilização que, nas versões judaica, cristã, islâmica, grega, ocidental ou oriental, me põe em segundo plano? Deixa cair o trambolho!

Lacan, você não vale nada mas eu gosto de você!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

muitas pessoas alegres não são mais felizes que as tristes







LUz





SinA




dA


meN

Te

terça-feira, 1 de setembro de 2009

depois que assisti Anti-Cristo



musica em busca de interprete II


(alcantilado)
as muié é perdedora, as muié é perdedora
já não quero ser muié

(gospel)
women is losers, women is losers, women is losers, women is losers

(alcantilado)
as muié é perdedora, as muié é perdedora, as muié é perdedora
também quero ser muié

(gospel)
women is losers, women is losers, women is losers, women is losers, women is losers, women is losers


musica em busca de interprete I



PSICANáLISE

para V.


já vem enroladinho de Paris
recheado com salame milanes
é chique, elegante
fala até inglês

(refrão)
de la crepe de Paris
canellone milanesi (bis)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

não se pode ocupar o lugar do vazio

o Abismo e seu Cavaleiro


Conta a lenda que um cavaleiro forte, alto e pouco experiente, a quem chamavam Ferrabraz, por motivos de honra virou noivo de uma donzela que nem conhecia. A família exigia que o casamento acontecesse imediatamente, pois em outra coisa não pensava Focaccia, a princesa.

No caminho do castelo de Payan ele encontrou uma linda feiticeira que lhe revelou que a noiva era feia como a necessidade e chata como uma mula empacada. Nela o cavaleiro não acreditou e, assim, a bruxa o lacrou com um tipo de feitiço embutido numa macumba.

De tudo a bruaca o ameaçou; a felicidade ao lado dela lhe prometia, fama, glória e dinheiro na caixinha. Vendo que debalde lançava rogos e pragas, a bela wicca o transformou em sapo sem respeito, de barriga laranja e fios de cabelo grossos como minhocas.

Cansada de esperar o cavaleiro que tardava, Focaccia em abismo se transformou e a engolir toda a maldade, orgulho e tontice do sapo principiou. Lá-lá-lá-ló-lú-lex-lá-lí. E Ferrabraz o Cavaleiro do Abismo se tornou.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Introdução à história sentimental do tucano-petismo




Companheiro M. C.,

Venho acompanhando, com intenso deleite estilístico, suas argúcias retóricas na defesa da Realpolitik do Nosso Guia ― mormente no emblemático e momentoso caso do presidente do senado. Ah, é a tal da ‘governabilidade’, responde o tal de pragmatismo que lubrifica os gonzos do nosso bissecular presidencialismo de maioria. Que entre nós o cargo máximo do país seja, circunstancialmente, eletivo não muda o fato de vivermos sob a égide de um carnavalesco 3º Império. Que se alternem PT ou PSDB, Arena ou MDB, udenistas ou pessedistas, café ou leite, saquaremas ou luzias, partido conservador 1 ou conservador 2 no poder, o que remanesce é este nosso capitalismo de ‘indução’ estatal.

Na América Latina, recém-convertida à democracia-sem-instituições-democráticas, o Brasil está muito mais para regra do que para exceção ― e é por isto que a nossa ‘real diplomacia’ acomoda tanto um general Stroessner, quanto um coronel Chávez; no país das idéias fora de lugar, uma ditadura militar acolhe um mafioso (Salamone) com a mesma nonchalance com que uma ‘ditabranda’ de esquerda acoita terroristas (Lollo, Battisti, etc.) Está no DNA do pragmatismo tupiniquim, companheiro.

Eis porém então senão quando, o brilhante editorialista e publisher resolve se arriscar na seara da crítica cultural e nos brinda com um saboroso ensaio acerca da arte da fraude ou da fraude na arte. Acontece, entretanto, que a arte, a política e a fraude são ramos do mesmo cepo, a representação; se representam por meio da verossimilhança e não da veracidade, que culpa têm? É da natureza do escorpião ferroar o sapo, afinal, mas é também direito do sapo se perguntar para que servem os políticos. O que faz o senado?

Há décadas a verdadeira face da política nacional vem sendo o PMDB, esse amorfo monstro do pântano fétido que emergiu da ‘redemocratização’ à brasileira. Incapaz de ser, ou fazer, oposição ― até por carecer absolutamente de algo que pareça um programa ― o maior partido brasileiro mercadeja votos, alianças e maiorias ao preço que o sr. certamente não desconhece. Mas quem terá a coragem (e o rabo solto) de meter a fatídica bala de prata no vampiro? Eis o paradoxo em que o articulista e a nação estamos metidos: o pragmatismo, mola que move a política, as finanças e o marketing, transforma estas atividades-meio em fim em si mesmas. É o tipo de esperteza que acaba por engolir o esperto e o otário, sapos e escorpiões.

Não foi por outro motivo que o companheiro Platão baniu os poetas da sua utópica República: com suas cópias de cópias, com o temível veneno/remédio da mimese, todo aquele que representa ― e em sociedade todo mundo representa ― pode acabar servindo e/ou comendo as ‘gosminhas’ do chef Ferran Adrià, ou seja, gororoba ortomolecular temperada a pós-modernismo. Uma vez que se cria uma lei de incentivo à cultura via renúncia fiscal, a porteira está aberta para que artistas nacionais consagrados financiem seus lucrativo$ projeto$ e bancões banquem institutos culturais e até circos canadenses sem mexer no bolso (deles, claro está, basta-lhes o nosso.)

Ou bem se espinafra Maluf quando bravateia que nunca foi condenado, ou mal se escuta Chaui quando culpa a imprensa golpista no episódio do mensalão. Porque aos DEMfílicos mas demofóbicos tucanos, tadinhos, não restou sequer o grito de pega ladrão ― o ‘operador’ da maioria parlamentar estava consubstanciado na mesma e valéria pessoa! Se o sr. me permite a insolência, gostaria de fazer minhas as palavras do Comissário Zé Dirceu: “ A vida política, porém, é plena de armadilhas. Até os mais nobres e valorosos militantes podem ser arrastados a situações com as quais, no futuro, não concordem ideologicamente.” Magister dixit.

PT? Saudações! Cordialmente,
Missosso
(este texto reflete apenas as opiniões do seu autor e não dos colaboradores do blog como um todo)

sábado, 22 de agosto de 2009





eu me alimento de sorrisos
que devoro de peito aberto
sem medo do estalar do ossos no abraço denso
da felicidade graciosa e plácida

faço nascer estrelas nas testas
que giram mais rápido que o pensamento
e fazem os pés se elevarem num vôo rasante
sobre a vida que ainda não conheci

semeio perguntas e
me escondo atrás do arvoredo mas volto
timidamente, quase indecisa
para ver o que vem vindo

com um vaso de barro verto
as lágrimas que emprestei de outros rostos
elas vão beijando o chão, devagar
acordando a vida silenciosa
que se move abaixo da grama

disparo palavras
e as observo no trajeto
até os ouvidos de seda que as vão guardar

eu me ajoelho
e viro um castelo
onde ninguém mora mas todo mundo vive

e o Universo conspira a meu favor

diuturnamente

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

AVIFLORA & RIZOFAUNA


― Vó, quer ouvir uma história? Eu leio pra você...

― História do quê?

― Do meu livro, é a lenda de Oxum.

― Xum, é?... menina boba que é você Adelaide, quem deixou você ler esses montes de história de catimbó?

― Meu nome é Talita, vó... que que é catimbó?

― Não sou sua avó, menina, pensa que ainda me engana Duda, você estuda comigo no Des Oiseaux...

― Claro que você é minha avó, a senhora é mãe da mamãe. Você está com a memória fraca, a Dinda que me contou...

― Que Dinda, que memória o quê... em vez de ler bestagem, você devia era se agarrar ao catecismo. As crianças de hoje não têm respeito, só falam asneira.

― Vó, pra quê esse espinho? Onde arranjou ele?

― Pára com esse vó, vó, vó, nem te conheço pirralha! Isso aqui é pra matar formiga, uma espetada, assim, e pronto, menos uma pra aporrinhar...

― ...e por quê a senhora não gosta delas?

― Sabe de onde veio o espinho dona perguntadora?, pois bem, arranquei ele do tronco da barriguda que tem lá na praça... não sabe o que é?, pois é uma árvore que protegeu a Sagrada Família quando fugia para o Egito, os soldados estavam perto e Deus mandou ela se abrir pra esconder o Menino Jesus lá dentro. E por isso ela ficou barriguda e cheia de espinhos.

― Muito dez essa história! Só que... a gente não devia atazanar as coitadinhas das formigas, elas não fazem mal a ninguém...

― Você que pensa, esses bichos são odientos que nem gente, ruins como aquela coruja que fica lá me olhando o dia todo. Ói lá ela, não sai do meu pé, a sarna...

― Aquela é a Dona Zulmira, mamãe chamou ela pra cuidar da senhora, porque a senhora é velhinha e precisa de ajuda.

― Quanta parvoíce! Sua mãe paga ela é pra cuidar de você, guria, ela sai pra trabalhar, não sai?, então?, eu não preciso de babá nenhuma... onde já se viu?!

― Foi a mamãe que falou...

― A Dinda disse, a mamãe falou... que criança mais quezilenta. Dá nisso: as mulheres agora têm filhos pros outros criarem, o mundo está todo virado mesmo.

― Ih, vó, aquela ali está se mexendo, tadinha, deve estar doendo...

― Dói nada, só dói em quem tem alma.

― Vó, o que é a alma?

― A alma Deus dá pra quem tem compaixão pelos outros, essas formigas aí, mais vermelhas, as grandonas de queixada grande, são umas desalmadas, elas são escravagistas...

― O que é isso?...

― Tenho que explicar tudo, é? A rainha das malvadas entra no formigueiro, mata a rainha das pequenas e esfrega os pedaços da morta no corpo dela e das outras para o cheiro ficar igual, daí o formigueiro todo vira escravo das malandronas para o resto da vida sem saber de nada.

― Elas podem até cheirar igual, mas são bem diferentes... as pequenininhas não vêem que estão sendo enganadas?

― Não, as formigas são quase cegas.

― ... vó, existe gente escravatista?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

DASDOIDA na FIESP - fundos

obra-de-arte é efêmera, é coisa pra acabar logo. é fazer e acabar, não vai para museu, no museu estão as drogas-de-arte. ferreira gullar (ou ribamar)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A Estratégia do Vírus



Ela começa pela memória recente, cousas lidas e ouvidas, biblioteca rápida de notícias, curiosidades atuais e corriqueiras ― a inesgotável ganga de faits divers que se adere à falta de assunto ―, mas, logo, mais séria, emendou: não existe profundidade, o que há é uma infinidade de camadas, superfícies derrotadas como cascas de cebola. De modo a liquidar eventuais dúvidas, tirou a blusa exibindo uma curiosa tatuagem, um colibri e um lagarto lascivamente enrodilhados, que lhe desciam do pescoço para o flanco direito. Jogada no espaldar da cadeira, a blusa lá ficou.

Nocaute no primeiro golpe, acusei, este é o risco de enfrentar uma peso-pesado. Homens são incapazes de gerenciar simultaneamente tesão e raciocínio ― falha na barra multi-task, alega o fabricante. Cocei a ponta da orelha para ganhar tempo (um dos meus muitos tiques), buscando a guarda para provocar o clinch, tentando cozinhar o galo até soar o gongo. Com o resto de compostura que me sobrou, respondi que os homens enxergam ao longe e as mulheres são mestras nas curtas distâncias; afinal de contas, preciso lembrá-la quem está pagando a brincadeira.

Vocês vêem as grandes coisas, as mulheres vemos só as pequenas; mas olhamos dentro delas. Não deixa de ser um tipo de compensação pela pequena história de infâmias a que fomos confinadas. Calou-se. Repetiu a operação anterior com a calça. O mundo da narrativa pousou ali entre nós, deslizou as mãos destras e caprichosas pelo cinto de couro, detendo-se na fivela dourada; criando uma falsa expectativa, já que o cinto não a sustentava. Falo da calça saruel que ela vestia, dos movimentos solenes de quem manuseia relíquias, a densidade oculta do corpo a arrastar cios e senhas.

Nisso você está certa, concordei protestando, essa miopia está na base de um certo imediatismo feminino; um manual prático da existência onde tudo se explica por circunstâncias, minúcias e defeitos morais. Fazia que nem ligava para as notas, depositadas uma a uma no criado mudo, embora a dificuldade em se livrar de uma série de alças e faixas denunciasse algum embaraço. Agora era eu que procedia com vagar, aos poucos, gota a gota, sorvendo a beleza na língua, retendo no espírito cada detalhe da devoração. Cabelos presos, pingentes, lingerie e sapatos de salto agulha.

As aventuras, as desmesuras, as ousadias da excitação que antecipa acontecimentos, páginas roubadas pela pressa de se saber o fim. Dissimuladas delícias. Você nunca pensou estar aqui no meu lugar, inverter os sinais? Pra quê?, rebate agressiva, a cada manhã perco a obra noturna, se fui tigre na experiência vivida e quero retê-lo, sobra apenas um rabo de gato. Se um dia sonhei com você, diz enquanto solta a piranha do coque, já passou... Os brincos tinham ido parar no toucador sem que me houvesse dado conta do gesto que os arrancou.

Bem, são cifras diferentes, é certo, meu negócio é poder, o seu é dinheiro; a mim interessa a vã glória de mandar, a você, o lucro duvidoso de se dar. Quem poderá saber qual de nós anda menos iludido? Quando sobrevier a melancolia do repouso, quem estará mais órfão, a raposa ou o ouriço? O bustiê foi caindo com um traçado perverso, teimando em se agarrar aos bicos estrábicos dos peitos-canoinha. Assim, vai, perdura essa pena renovada, quero a acritude do ato consumado; as franjas e babados onde aspiro teus fluidos são restos de esquecimento que o despertar teceu para mim.

Mandar, desmandar, transitórios são os ensinamentos sobre o ódio, tão breves são os silêncios da morte... Os vírus anunciam que há uma epidemia de gente, que podemos levar tudo para o grau do inanimado (onde eles transitam de zero a legião), que falta água, que a Gaia faltam tetas para tantos humanos. Predadores no topo da cadeia alimentar, aquecimentos globais pré-históricos, trilobitas (!?) extintos em massa há 250 milhões de anos, etc., de tudo me acusou; do mais importante, porém, ela se desembaraçou em pé: uma dobrada de perna, uma puxada com três dedos e... calcinha no chão. Profissa.

Mais do que tudo, acompanhei os olhares, a palavra que estremece; confidências furtivas dos inconfessáveis informes, imagens não-visuais reveladas no jogo muscular, nos ardis de fera acuada. Fiz este único reparo: por isso é que desconfio da metafísica, essa doença da palavra, ninho de canalhas e poetas, refúgio do pensamento que não sobrevive sem o sagrado. Como os vírus, a linguagem é um código que parasita outros códigos; de repente, acorda de latências seculares, reproduzindo de contrabando sua criptografia invasora. Só podemos esperar que o dia desfaça o que foi capturado pelo trabalho da noite: a vida é um programa muito mais amplo, uma língua maior que a linguagem. Caminhava confiante pelo quarto, a danada insistia em não tirar os sapatos. Tlec, tlec, tlec, tlec, tlec.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Erva do Cheiro

foto: erva-de-rato

.o cheiro do rabo
O olho não enxerga tudo que já viu
a perna não se articula.com
o corpo mítico do Pai
frag-mentado
o(s) sentido(s) do mundo(s)
não está pronto o PHÁRMAKON (veneno-remédio)
bocas, vulvas
surgem em alguns frames com uma concretude
escultórica

O GIGANTE DEITADO

a erva do ralo
a merda os tons marrons
a grana o rolo a bunda os sótons
a putaria a bandalheira
organizada na forma
de instabilidade
um modo de ser vida e morte
em constante permuta
ora signo
ora peso
ora grito

DIÁSPORA POÉTICA: NÃO SE DEVE CORTAR OS PÉS DO RATO

o sonho
segredo que conta
histórias

o horror cria segredos
para silenciar
a história

SUPORTAR AS ANARQUIAS DO AMOR E DA SORTE

o cheiro do rato
como conviver com o rato?
Esse rato nasceu do amor
veio do entrenós
parido no entretempo
terceiro
gerado no hálito humor
de álgidos túmulos

TERMINABILIDADE DO ENTE PRIMORDIAL

a concepçãO
loucura.com.br
problemas do Brasil-problemão:
a folia é um interesse econômico
uma habilidade social
enlouquecer como estratégia
de cura
para a normalidade absurda
[do mal]

DISCIPLINA AMPLECTIVA DO AFETO, A TECNOLOGIA CORPORAL DO NÔMADE

O MAL não é substância
mas relação
cediça

amor é despojamento
combustão espontânea pornográfica
do interstício
físico-simbólico

por mais desejo que haja na matéria
resta (o extemporâneo)
nos imprevistos da fatura
Eu-Mãe-Mundo

amar é trair
pátria, família, propriedade
trair o objeto do amor
trair o amor em si

quinta-feira, 30 de julho de 2009

"o" cara




― Pelo menos isso você tem de admitir: é “o” cara...

― É, num ponto ninguém tira dele, passou pelo teste do avesso...

― Hmm... a coisa da biografia única e tal, ser uma metamorfose ambulante?...

― ...ser uma proposta que suportou a esteira da linha de produção e desmonte, a velha e nada boa tortura dialética, e ainda ter sobrado lenha pra queimar do outro lado.

― Mas é esse o preço da representação, carregar sempre a coisa e o seu contrário...

― Na verdade, ele persistiu até ser aceito pelas razões, ou desrazões, que o fizeram ser rechaçado... você quer dizer?

― Mais ou menos. Perdição ou eleição só fazem sentido para a vaidade; sobreviver aos adversários e às adversidades, eis a regra de ouro da natureza e do reality-show-business...

― Daí que virou unanimidade.

― Não há, nunca houve, oposição neste país. Não faz parte da nossa natureza cordial.

― Veja os caras do mercado, os magos da macumba financeira...

― Viraram todos burros da noite para o dia... pois é, diante da realidade não há magos, só Magoos...

― Sim, sim eu lhe digo.

― Rsrs... você sabe por que não é possível um homem ser AO MESMO TEMPO, bonito, inteligente, hetero e honesto?

― Hahahaha! Porque aí já seria uma mulher...