domingo, 4 de dezembro de 2016

Super K (4)



Por um curto período quando comecei a enricar, fui assediado por pensamentos intrusivos que quase me escapavam da boca ― eram as idéias-berro ―, quando descia no ponto final do trem e voltava para casa pelos becos da favela, a cabeça punha-se a gritar de forma tão veemente que chegava a temer que as palavras saíssem pelos olhos. ‘Vocês estão vendo, imbecis? Sabem como se vira rico? É só aprender a extrair o ouro escondido na burrice do pobre. Vocês entenderam? Estão vendo eu aqui, andando no meio de vocês?, pois bem, daqui a pouco vou vir de helicóptero cagar em cima da cabeça dos otários. Seus otários!’ Era horripilante ouvir-me culpando as vítimas, desprezando-as, mesmo que em pensamento.
Entretanto, nunca me atrevi a dar livre curso aos rompantes de fúria, sou antes de tudo um rapaz cordato e educado. Tinha fé no sistema. Eu, Orlando, vim ao mundo com uma habilidade inata para decifrar códigos, nada mais natural que ascendesse socialmente para a casta dos eleitos, com sorte, ainda conseguiria trazer a família junto. Não que fosse cego para as injustiças, percebi de imediato a grande massa de excluídos amontoados em extensas Trenchtowns com cara de cenário Mad Max que circunda os resorts dos ricos. Nestes, o seleto grupo dos imortais curte a sua aisance em sofisticados bairros-conceito cujo urbanismo fluido combina os ambientes de floresta, jardim, clube e shopping center. A chave do paraíso era (ao menos assim acreditava) o mérito pessoal, a desigualdade então parecia-me feia, mas não injustificável.
Tudo ia bem, não fosse aquela conversa esquisita com o meu amigo Carlinhos. Dali em diante não pude mais sossegar até descobrir o segredo das vans laranja; com o acesso que a minha posição me franqueava, foi relativamente fácil solucionar o mistério. Na verdade, se mistério havia, talvez eu fosse um os poucos a estar por fora: era moeda corrente, tanto do lado de fora, como dentro da redoma dos endinheirados. Um segredinho sujo que mantinha aquela ordem de coisas em pé. Os metidos a bacanas surgiram pra mim numa insuportável luz negra: a vida eterna deles era uma gaiola de ouro, um pântano infinito de tédio e depressão no qual se afundariam, não fosse o requinte de exploração que ainda tinham a cara de pau de redobrar pra cima do povão.
Comprei a arma do Carlinhos. Havia contas urgentes a acertar.
Parei no bar da esquina, o dono me estranhou por ali tomando pinga e pagando rodada pra bebum. Não havia mais volta. Cambaleei na direção de casa, meus irmãos e irmãs menores não estavam, festa-de-sei-lá-o-quê. Só os velhos, dormindo. Diante da porta, perplexo: não consigo enfiar a chave na fechadura. Ganho impulso, derrubo o madeirite que faz as vezes de porta. Caio de pé no tapete da soleira. Ao cruzar a cozinha derrubo o maldito tacho fazendo um barulho dos diabos. Que se dane, melhor que acordem. Paro pra escutar, ninguém se mexe no quarto. Vou até eles, a dupla de monstros que me botou no mundo. Abro a porta, minha mãe se remexe na cama. Um, dois, três tiros no meu pai. Nem acorda, geme por alguns segundos. A cama se tingindo de sangue.
“Meu filho, que horror, por quê?”
“Por quê, mãe, você tem a coragem de me perguntar por quê?”
“Seus olhos, você bebeu? Como pode me olhar com tanto ódio?”
“E você, mãe? Como pode me olhar depois do que você e... ele fizeram? Acharam que eu nunca ia descobrir? Ou talvez tenham pensado que ia aceitar, afinal a vida é assim mesmo, né?”
“Abaixe essa arma, filho, me escute. Você está pondo tudo a perder, nós fizemos tantos sacrifícios por você, pra que pudesse...”
“Sim, vocês fizeram muito sacrifícios, mas esse sacrifícios eu chamo de barbaridade, de crime. Vocês ofereceram meus irmãos para aqueles... aqueles monstros da cidade rica! Mãe, onde estava com a cabeça? Achou que eu ia aceitar isso e simplesmente seguir em frente?!”
“Filho, essa é uma coisa que acontece já muito antes de você nascer! A gente não tinha escolha, ou acha que pra virar rico basta ter um talento? Eles pedem mais.”
“Muito bem, a senhora disse que não tinha escolha. Mas eu tinha! Devia ter me perguntado se eu aceitava os termos do negócio. Tenho cara de quem gosta de saber que aqueles malditos abusam dos meus irmãos?”
“A vida nem sempre é como a gente espera.”
“A morte também não, mãe!”
Dois tiros na cabeça dela. Na hora de estourar meus próprios miolos, a arma travou.



domingo, 27 de novembro de 2016

Super K (3)




Candy deu uma tragada no cigarro eletrônico desprendendo uma fumaça inodora, ajustou o equipo do soro no braço da paciente e regulou a infusão do anestésico e do relaxante muscular. A mulher deitada na cama hospitalar rapidamente perdeu a consciência. Fez uma mesura exagerada na direção de Ana Cecília, que acabara de entrar na sala de eletroconvulsoterapia.
“Ora, minha querida, retire esse meio sorriso desaprovador do seu rosto lindo e junte-se aos que batalham pela saúde mental da humanidade sofrente.”
“Não seria eu a tirar de você o prazer de um eletrochoque. Mas vim para lembrá-lo da reunião com a Anvisa, acho que vamos ter uma boa batalha hoje pela continuidade da nossa pesquisa em prol da ‘humanidade sofrente’.”
“Ora, bobagens! Os aparelhos antigos produziam pulsos longos, sinusoidais, agora veja esta belezinha: um eletrodo só na têmpora direita da dona Maria, um estímulo elétrico ultrabreve de 0,25 milissegundos e... voilà, tratamento antidepressivo rápido, menos efeitos colaterais, e remissão prolongada”, um pequeno estremecimento perpassou o corpo da paciente, cujo rosto se contraiu adquirindo uma coloração azulada evanescente, no canto da boca entreaberta escorria um filete espesso de saliva.
“Você acha mesmo que os benefícios dessa técnica compensam a perda de funções cognitivas que ela acarreta?”
“Minha cara, se ignorance is bliss, por que não o seria o esquecimento? No palácio da memória há muitas masmorras de suplício. Em primeiro lugar vem o dever, sendo assim, vamos.”
Candy tirou o jaleco e as luvas, deu uma rápida ajeitada no terno e carregou no celular os arquivos da sua fala para os técnicos do governo e os investidores privados. Sabia que os questionamentos quanto aos riscos da pesquisa que conduzia no laboratório colocavam em risco o fluxo dos financiamentos e doações, mas na sua auto-suficiência não havia espaço para hesitações. A mídia acompanhava com lupa os resultados do testes em cobaias humanas recrutadas nas prisões ― havia um óbvio interesse público na promessa contida no Super K, cura rápida e permanente da maior epidemia do século XXI, mas o número crescente de vítimas fatais do experimento clínico começava a despertar a crítica especializada. Alguns analistas falavam abertamente em rever os protocolos de segurança, mesmo quando se tratasse de condenados à morte ou prisão perpétua. Ana Cecília observava cada um dos seus gestos, numa atitude oscilante entre a dúvida e a admiração.
“Senhores e senhoras, antes de entrarmos no assunto específico desta reunião, permitam-me um pequeno excurso. Todos aqui sabem que as novas biotecnologias possibilitaram o que antes era assunto da ficção científica: superar o envelhecimento biológico e a morte. A idéia de que todos os organismos, e até mesmo a vida, sejam algoritmos dentro de um processamento de dados levou a avanços dramáticos em nossa estrutura política e social. O surgimento da computação quântica, o domínio do processo de envelhecimento celular, tecnicamente conhecida como apoptose, e o desenvolvimento das enzimas reparadoras de defeitos genômicos, que corrigem a degeneração causada pela radiação, levou ao advento de uma inédita geração de humanos imortais. Evidentemente, tais avanços trouxeram novos desafios: o custo das despesas médicas disparou, e, na prática, o que vemos hoje é uma sociedade dividida entre os que podem e os que não podem arcar com o preço destas tecnologias, entre os poucos bem-aventurados e os muitos mortais. Aprendemos a reformatar a realidade física e ecológica fora de nós, mas não entendemos bem como o sistema da economia dos afetos funciona. Isto resultou na ruptura deste sistema: vemos hoje uma população de privilegiados tombar sob o peso de distúrbios mentais resistentes aos tratamentos disponíveis...”
“Doutor Candido, sem querer interrompê-lo, mas já interrompendo, gostaria de deixar claro que esta reunião tem o objetivo de elaborar um discurso crível para a opinião pública”, a diretora-chefe iniciou a sabatina, secundada pelos membros do conselho.
“O fato, nu e cru, é que a sua pesquisa com os derivados da quetamina está simplesmente produzindo uma pilha de cadáveres.”
“Já há quem diga que as pesquisas médicas se tornaram um programa de extermínio em massa de pobres, que o Ministério da Saúde virou o Ministério da Morte!”
“Quando se tratava simplesmente de experimentar drogas perigosas em bandidos condenados, a população tolerava bem. No máximo dizia-se: um problema a menos. Mas a coisa saiu de controle.”
“O que o senhor teria a propor como estratégia de controle de danos à nossa imagem de promotores do bem-estar público?”
“Penso que deveríamos controlar o acesso aos dados preliminares da pesquisa”, Candy suava, demonstrando inabitual desconforto, “restringir a divulgação aos veículos mais, digamos, alinhados com as diretrizes governamentais, focar numa agenda positiva, afinal, há resultados animadores para mostrar. Duvido que uma pesquisa científica possa servir de estopim para revoltas populares”
Candido e Ana Cecília voltaram em silêncio, ela insistiu para que fossem descansar o resto do dia depois do massacre da reunião com as agências de fomento à pesquisa. Mas o colega e chefe não se mostrava inclinado a alterar a rotina de trabalho.
“Vou supervisionar uma cirurgia estereotáxica agora Ana, e depois, trabalhar é o que realmente me descansa.”
“Pára com isso, Candy, amanhã você pode fritar cérebros com à vontade. Tenho um Chatêau Lafitte em casa, e te prometo uma massagem relaxante. Até workaholics como você podem tirar uma tarde de descanso. By the way, gostei muito do que ocê falou sobre os sentimentos”
“Você sabe o que penso sobre o assunto: subterfúgios do egoísmo. Eu te amo para que você me ame. Vistos de perto, os sentimentos são quase sempre sinistros.”


domingo, 20 de novembro de 2016

Super K (2)



Até começar a conviver com os ricos, nunca soube o que realmente os diferenciava de nós, os pobres. Quer dizer, sabia o básico: eles mandam e conduzem, nós obedecemos e somos conduzidos ― debaixo de vara. Freqüentemente esta vara é bem visível, no mais das vezes ela parece vir de dentro, como um destino impresso nas más estrelas que presidem aos nascimentos, ou codificada em genes defeituosos que levam ao crime, ao desespero, às escolhas erradas. Sei que não é muito bonito dividir as pessoas em “nós” e “eles”, mas não fui eu que inventei esse jogo, apenas estou tentando jogá-lo da melhor maneira possível. Em todo caso, trata-se de aceitar os dados do mundo tal como o encontrei, a única mudança que parece viável é a da minha posição relativa no tabuleiro onde acontece a jogatina. Hoje estou na situação privilegiada de poder mudar de lado, falta pouco, dizem-me repetidamente. Possuo talentos inegáveis como autodidata na área de tecnologia da informação, ascendi por méritos próprios a consultor de riscos financeiros ― traduzindo, sou um dos melhores caçadores de fraudes econômicas da minha geração. Os setores onde moram e trabalham os bem-aventurados são incríveis: seguros, limpos, arborizados, (não há drones no policiamento ostensivo!), a sensação é de que ali nunca ninguém precisa levantar a voz para ser ouvido e/ou respeitado. No entanto, o meu ganha-pão me lembra constantemente o quanto os ricos são obcecados pelos desfalques, como se, depois de espoliar os mortais, não lhes restasse outra diversão que não roubar uns aos outros. Bem, esta é outra grande diferença entre o andar de cima e o de baixo: eles são imortais, nós não. A tecnologia que permite viver indefinidamente é cara e inacessível à grande maioria da população. Natural. Seria impossível alocar recursos para que todos pudessem consumir sem limites num sistema, que, afinal de contas, é finito. Uns vivem, outros apenas existem. Todos os dias testemunho esse contraste. Saio da casa dos meus pais e me desloco para a parte boa da cidade, o passe especial de trabalho permite adentrar a Green Zone sem necessidade de quarentena, apenas um scaneamento corporal completo. Nós pobres parecemos estar sempre sujos de uma sujeira que não está na pele, nem nas roupas, diria que é uma mancha estrutural, afetiva até, nossas alegrias ou tristezas são sempre exageradas, amazônicas, ao passo que os ricos são mais controlados nas manifestações exteriores, parecem dominar tudo à sua volta, principalmente a eles mesmos. Por tudo isso, e mais outras observações adicionais, é que cheguei a perceber a estranheza reinante no meu lar: há uma melancolia da minha família que nunca consegui explicar, uma espécie de nota triste, um ritmo de fundo, contínuo, lento como as doenças crônicas. Como se meus pais e irmãos fossem ainda mais miseráveis que a miséria reinante naquele lugar. Apesar da imensa quantidade de dados nas minhas mãos, aquela informação continuava a e escapar.
“Fala Orlando, tá indo pro trampo, irmão?”, um amigo de infância, Carlinhos, um daqueles moleques do bairro que nunca parece ter nada para fazer.
“É, vou pegar o trem daqui a pouco. Estranho isso, não...?”
“O que é estranho pra você, meu broder?”
“As unidades de transporte especial, sempre vejo essas vans laranja no pedaço e não entendo por quê. Pra levar as crianças pra escola é que não é.”
“Hehehe, tu passou tempo demais estudando pra entender certas coisas da vida”, levantou-se da pedra onde estava sentado e caminhou na minha direção. “Tem um tempinho?”
“Se vai me contar sobre as tais ‘certas coisas da vida’, tô dentro. Deixa só eu avisar que vou chegar um pouco atrasado.”
“Acho que vai gostar, pelo menos cê é dos que tem grana pra comprar a belezinha que vou te mostrar”, saímos andando, ele na frente, por um labirinto de vielas em Bidonville com os drones de vigilância nos filmando lá do alto. Finalmente ele parou, digitou um código na porta de um casebre abandonado e entramos.
“Cara, não vamos fazer nada ilegal, você sabe que eu...”
“Piano, bro, nós só vamos dar uma olhadinha. Olhar não tira pedaço, e depois, no mapa deles, isto aqui é só um centro comunitário pros zoiões lá de cima. Não pega nada.”
Fomos atravessando uma série de cômodos vazios no muquifo, subindo e descendo escadas na construção irregular, que, aparentemente, servia de esconderijo aos jovens do pedaço para fazer suas festas clandestinas. As paredes estavam grafitadas com slogans anarquistas, declarações de amor, tags, bombings. Num dos quartos havia um cofre, Carlinhos se ajoelhou e inseriu o segredo na tela, a porta se abriu. Puxou lá de dentro uma caixa de papelão. Fez uma pausa dramática antes de destampá-la.
“Muito bem, Orlando, te disseram um monte, falaram que isso não existia mais, mas agora cê vai conhecer o que é... o poder”, os olhos dele brilhavam no quarto semi-obscuro, as mãos tremiam levemente segurando a embalagem ainda fechada.
“Caramba, mano, parece que vai sair daí o gênio da lâmpada...”, tomei um susto quando ele mostrou a arma dentro da caixa. “Puta merda, cê tá louco? Isso é crime da pesada!”
“Pois é, mas tá aqui, funciona, e vem com munição. Quer pegar ela? Só pelo prazer da experiência, sente o peso, a sensação de poder que a bichinha te dá...”
Saímos em silêncio, eu não conseguia definir a maçaroca de emoções que me ocorriam naquele momento. Temia ser cúmplice de alguma coisa que não compreendia bem o alcance. Por outro lado, aquilo era o reverso de uma medalha que conhecia bem demais: quem não nascia em berço de ouro precisava se virar no contrabando, no escambo, bem ou mal, a ilegalidade não era exclusiva de nenhuma classe social específica. Carlinhos não tirava os olhos de mim, parecia escolher as palavras adequadas para comunicar algo muito importante ou íntimo.
“Então, mano, tu não é o nerdão do rolê? Mexe teus pauzinhos lá no sistema dos bacanas, não deve ser difícil pra tu saber o que são as vans laranjas.”
“Carlinhos, e por que você não me conta logo a fita toda de uma vez? Tá na cara que sabe.”
“Tem coisas, irmão, que a gente só acredita vendo com os próprios olhos. Tu nunca foi atrás disso porque tinha medo da resposta. Vai de boa, na paz de Jah.”


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Super K (1)



“Um brinde ao amor e, portanto, ao ódio, Liebe und Haß, como diriam nossos amigos de Manheim”, tentava manter a calma, mas estavam perdendo o paciente.
“Não está respondendo ao betabloqueador, a pressão subiu muito”, de olho nos monitores, a médica assistente fazia os procedimentos de urgência o melhor que podia.
“Está muito taquicárdico, 250 por minuto e não baixa. Você lembra dessa época, Aninha, Manheim?”
“Lembro dessa época com carinho, Candy, nós éramos doutorandos cheios de energia e sonhos, e, se bem me lembro, você ainda não tinha se transformado nessa pessoa tão cheia de si, tão... Você não percebe o que está acontecendo? Ele está indo, como os outros.”
“Ora, poupe-me do sermão, você sabe o quanto é comum que duas noções suficientemente díspares ou opostas estejam intimamente ligadas. Como a morte se opõe a tudo na vida, várias combinações são possíveis. Arte e morte. Natureza e morte. E o mais preocupante, nascimento e morte.”
“Entrou em fibrilação, me ajuda com o cardioversor e deixa de falar besteira.”
“Voltou. Mas ainda temos más notícias: a gasometria indica uma acidose metabólica, o rim dele parou”, ele limpou o suor da testa com as costas da mão num gesto desanimado.
“Iniciamos xilocaína e amiodarona?”
“Melhor não, custos desnecessários. Daqui em diante nossos esforços não poderiam ser mais irrelevantes, já vimos essa reação. Os mortos não respondem a mais ninguém, a mais nada. Assim que isto estiver terminado, podemos tentar escrever um artigo. O mundo clama por novos empiristas.”
“Não sei se tenho a sua, hã, disposição para o trabalho especulativo, você sabe muito bem que sou a devoradora de dados, a rainha das meta-análises. Empiristas, você disse? Nós sacrificamos tudo no altar das evidências disponíveis, e as evidências sugerem fortemente que esta droga não é segura. Não. Definitivamente não possuo essa sua veia poética e, por que não dizer, midiática.”
“Bom, bom, no ponto em que estamos ainda não é chegada a hora da exposição pública, mas acredito que estamos muito perto de algo grande. Não acha?”
“Quer saber mesmo o que eu acho? Acho que estamos brincando com fogo, isso sim. Este pode ser o melhor antidepressivo da história, mas é simplesmente tóxico demais. Olha pra ele, o rapaz mal tem 20 anos.”
“De novo, é um par de opostos saindo do lance de dados: veneno e remédio, tudo ou nada. Você viu os resultados preliminares dele, nós estamos na pista certa, Ana, sabemos que sim. Alguns sacrifícios são necessários pra que...”
“Houve um tempo em que acreditei nisso, Candy, achei mesmo que estávamos destinados a grandes descobertas, a penetrar os segredos mais bem guardados do cérebro. Uma tolinha romântica eu era, apaixonada pela sua maneira elástica de andar, pelas suas gravatas sofisticadas, por essa habilidade sibilina de sempre encontrar as palavras certas. Você sempre dominou a grande arte da retórica: fazer as coisas coincidirem com as palavras, dar a impressão de que o quebra-cabeças estava a poucos passos de ser resolvido. De uma vez e para sempre.”
“Além do mais, você sabe, esse daí não era boa bisca.”
Ana Cecília debruçou-se sobre o corpo na cama hospitalar e fechou-lhe os olhos, depois, subiu o lençol cuidadosamente cobrindo o rapaz por inteiro. Orlando da Silva Luís, paciente 23. Desligou todos os aparelhos de monitoramento dos sinais vitais. A linha do eletrocardiograma era uma reta monótona e ininterrupta. Na sua mente, clara como uma lâmpada de desenho animado, aparecia a imagem da sua cachorra de estimação imóvel sobre a mesa de metal do veterinário. Morto em poucas horas após administração endovenosa. Pico hipertensivo não respondente às drogas convencionais, somado a uma falência completa do sistema urinário: necrose renal bilateral extensa e lesões irreversíveis na bexiga. A química sem piedade, propósito ou remorsos. Estamos sujeitos às mesmas regras obscuras que infernizam nossos animais queridos, a grande coleira do não ser também está no nosso pescoço.
Candido Frota-Pessoa, psiquiatra-chefe do laboratório se fechara na sua sala e preenchia os relatórios de pesquisa detalhando cada uma das reações que o paciente apresentara antes de vir a óbito. Não era a mesma coisa de antes, ao menos, não para ela. Os novíssimos protocolos de pesquisa farmacêutica autorizavam testes fase 3 em humanos “selecionados” muito antes da segurança das drogas estar plenamente atestada em cobaias. A reanimação cardio-respiratória nem mesmo era obrigatória: os voluntários eram recrutados no presídio entre os condenados à morte. Era o novo Zeitgeist. Alguns humanos mereciam menos compaixão do que os bichos. Direitos humanos, dizia-se agora abertamente, só para os humanos direitos.
Ela e o chefe estavam imbuídos da missão mais intrigante do século, debelar a epidemia depressiva que varrera o planeta havia se tornado o Santo Graal das mentes científicas mais brilhantes e ambiciosas. Bilhões de dólares eram despejados nos laboratórios ao redor do globo, mas as descobertas não seguiam o ritmo desejado. A maioria das drogas antidepressivas disponíveis mal superavam a melhora obtida com placebos, e pior, demoravam meses para surtir efeitos parciais, além de serem pouco eficazes na prevenção de recaídas. O Super K e seus derivados, apesar de não serem propriamente moléculas novas, apareciam nas pesquisas mais recentes como a esperança de cura rápida ― e definitiva. Os cadáveres no caminho do progresso não contavam para as agências oficiais, a corrida estava apenas começando.


domingo, 30 de outubro de 2016

Cristiania (final)



(24 horas antes)

O elevador esvaziava vagarosamente sua pequena multidão como se fosse a rainha de um cupinzeiro expelindo ovos nas paradas antes de chegar ao décimo quinto, e último, andar. Lojas de produtos eletrônicos, casas de câmbio, detetives particulares, puteiros privê, seguradoras, manicures, comércios de ouro, receptadores de jóias e celulares, assistências técnicas variadas, escritórios contábeis, empresas de representação e de fachada, advogados-porta-de-cadeia, cada uma das boutiques do edifício Cristiania engolia e regurgitava sua quantidade costumeira de fregueses assíduos e freqüentadores eventuais. Iam e voltavam, a carga humana subindo e descendo continuamente. Entre os passageiros daquela manhã uma mulher chamou a sua atenção, ela postou-se no canto de trás à sua esquerda, o mais oblíquo em relação a ele que ficava de frente para a entrada, alinhado ao mostrador onde operava os botões e manivelas do ascensor. Vestia-se como as garotas de muitos anos atrás, embora não escondesse ter vivido cada década desde então, um jeito mimoso envolto na atmosfera nevoenta de tempos mais inocentes. Ela não havia indicado o andar, e não se incomodava com nenhuma das paradas da geringonça barulhenta e brusca. Parecia vaidosa, bem maquiada e cuidada em cada detalhe; uma ponta de cabelo, a insinuar um cacho, saía propositalmente de um chapéu preto enfiado na cabeça. Do sapatinho de tira sobressaía a delicadeza dos pés miúdos, os braços escorriam ao longo do torso segurando uma carteira com fecho de pressão, o sorriso manso fazia pensar numa certa satisfação consigo mesma, apesar do enigmático mutismo que a impedia de declinar aonde ia.
― A senhora não vai descer? Já chegamos ao último andar, daqui pra diante só tem voltar ― não havia passageiros para entrar, nem chamadas de outros andares. O silêncio cortado apenas pelo burburinho da rua.
― De todo esse mundão de gente dessa cidade, achei que você seria o último que não ia me conhecer...
― E eu lhe conheço de onde, pode me dizer?
― Melhor ainda era perguntar: eu lhe conheço de quando?
― Bom, se é assim, então, de quando eu conheço a senhora?
― Preferia que não me chamasse de senhora, aumenta a idade, e as mulheres não gostam de nada que lhes aumente a idade. Nem que sejam palavras.
― Ainda assim, continuo sem entender onde quer chegar com essa parolagem...
― Já cheguei onde queria, acredite, não foi fácil encontrar você depois de tanto tempo. Não tinha muitas indicações, e também as pessoas não são de falar com quem não conhecem por estas bandas.
― É que num lugar deste tamanho ninguém conhece ninguém, aqui só o cachorro não esquece do dono.
― Será que eu mudei tanto assim? Enfeiei, arruinei demais, foi? ― tirou o chapeuzinho preto da cabeça timidamente, como se se desnudasse diante dele.
― Meu Padim Ciço! Será? Cris, é tu mesmo?
― Eu mesma, em carne, osso e medo. Já tava ficando arrependida de ter vindo e... bem, na verdade nem sei bem por que vim, só sabia que precisava lhe encontrar, lhe falar. É como se esses anos todos tivesse ficado uma conta aberta, uma ferida sem casca.
― Ferida, né? É, feridas ficaram muitas, sim. Espero que não tenha se abalado lá das lonjuras do norte só por causa de...
― Eu vim só por causa de nós dois ― pausou o tempo necessário para se certificar do desconcerto dele ―, chega uma hora que a gente começa a pensar que é melhor acertar todos os ponteiros. Não vai ter outra vida, acho que envelhecer é isso: descobrir que acabou o depois.
― Perdeu seu tempo. Não vejo como acertar nada agora... nem depois. Veio só?
― Sim.
― Nem sei por que perguntei, não muda nada. Nada mesmo.
― Você tá certo, não há nada pra mudar. Mas talvez inda haja o que acertar, afinal, você sumiu no mundo. Nunca mais soube do seu paradeiro.
― E pra quê saberia? Você fez a sua escolha, casou com o comerciante rico, que ainda por cima era meu primo. Teve uma vida fácil naquele cafundó onde era difícil pra todos, pegou o bilhete premiado. Quer mais o quê? Veio aqui pra olhar na minha cara e poder dizer: nossa, acertei mesmo, podia estar casada com esse zé-ninguém de ascensorista!
― As coisas que esse homem... meu Deus... Sabe muito bem que não foi desse jeito que falou: havia aquela menina que tu embarrigou, tu me disse na época que ia assumir a criança.
― Ia assumir a criança, mas não ia casar com ela! Daí a senhora catou o cara bem de vida, o que me sobrava? Aquela menina hoje é a minha esposa, a gente tem três filhos, pra seu governo.
― Veja como são as coisas: não tive filhos, Deus não quis assim. Ninguém recebe só as graças desta vida, da miséria todos têm seu quinhão.
― Quer que eu chore?
― Já chorei muito, demais até. Meu marido morreu o ano passado, fiquei esse tempo guardando luto. Então, enquanto pensava no que fazer comigo mesma, resolvi te procurar. Você fugiu de mim, achei que era...
― Nunca consegui fugir de você, não lá dentro, onde as coisas acontecem de verdade. Pode ver o lugar onde trabalho, Cristiane: edifício Cristiania, não é gozado? Bruta piada. Todos esses anos, eu, enterrado no serviço, subindo e descendo sem sair do lugar. Todo esse tempo eu estava colado nesse nome, nesse trabalho de merda, nessa vida de merda. Tá satisfeita de ver o estrago que causou?
― Ninguém sabe o que é viver de fato, o que as pessoas fazem é fugir, mas nunca conseguimos fugir realmente. Eu vim te dizer que sempre pensei em você, sempre imaginei que tudo poderia ter sido diferente. Mas agora, te vendo, entendi que não há alternativa, uma outra vida só ia me trazer outros sofrimentos. A gente não ia ser feliz juntos.
O elevador desceu, chamado pelo térreo por uma nova leva de visitantes. Ela saiu do prédio apressada e sem se despedir, ele ainda não sabia que nunca mais a veria.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cristiania (2)



            Pensou em como seria bom mudar pro centro da cidade. E então um intenso cansaço lhe desceu pelos órgãos do corpo e da alma, talvez não soubesse viver junto aos prédios descascados, andar por ruas onde o descaso varreu a mentira das cores, sentir no fim de tarde raiva ou desejo sexual misturados à buzina dos carros e aos gritos dos loucos e dos camelôs, passar fome e náusea com os churrasquinhos gregos, olhar as sacadas com varais improvisados, assistir aos truques dos saltimbancos nas esquinas, ouvir os autofalantes das liquidações, espiar através de janelas sem cortinas a beleza de corpos nus, o desterro de corpos vestidos. E depois ainda relembrar tudo isso diante do café coado e do pão com manteiga na chapa.
            Quase sem se dar conta, estava em frente à Pinacoteca. Folheou a carteira e constatou que não tinha dinheiro para a entrada, mesmo assim, seguiu a fila de pessoas e entrou no museu também quase sem se dar conta. Era o tipo de lugar onde habitualmente nunca punha os pés, mas aquele já não era um dia habitual sob nenhum aspecto. Surpreendeu-o a leveza e a monumentalidade do interior, o chão alternava cerâmicas delicadas nas áreas externas e parquet em madeira de lei nas salas, passarelas e corredores suspensos aproveitavam a iluminação natural, reforçando a sensação geral de arejamento da construção.
            Havia uma grande retrospectiva de um pintor do qual nunca ouvira falar. Os quadros da exposição eram grandes, todos muito semelhantes, recobriam as paredes de uma série de salas contíguas com pinturas a óleo como se repetissem uma ambição única ao infinito. Estava ali, bem na frente do seu nariz, a prova provada de uma outra temporalidade, uma duração que ia e voltava sem antes nem depois definidos. Sempre havia uma pessoa, nua, e quase mais nada ao redor, em geral um quarto vazio, uma poltrona, um canto de janela, ou corredor. Essas pessoas não eram belas, nem tinham corpos bonitos e malhados como na televisão e nos outdoors, corpos de pessoas ordinárias como ele, mas ostentando um desassombro incomum ― eles apenas estavam lá, por inteiro, mais à vontade do que ele jamais estivera em toda a sua vida.
            Sentiu vontade de tocar as telas, tinha a sensação de que estavam quentes.
            Constatou que os títulos das obras não surpreendiam nunca, regra geral simplesmente descreviam a cena representada: Homem, Mulher sentada, Mão sobre o peito, Mãos pousadas sobre o colo, etc.. O mais inquietante, porém, é que no centro da sala, expostas em vitrines envidraçadas, havia fotos do ateliê do artista com os modelos correspondentes aos quadros da parede. Como tantos, ele pensava que esses retratos seguiam regras pré-estabelecidas: o pintor e suas tintas atrás do cavalete, os modelos na sua pose. No entanto as fotos mostravam algo diferente, nelas, retratista e retratado davam a impressão de esperar, cada um do seu lado parecia aguardar alguma coisa que não estava no quadro. Como se ambos, artista e modelo, tivessem todo o tempo do mundo até se depositar no fundo de um grande vaso de vidro.
            Quase sem se dar conta, já não estava mais na Pinacoteca, mas sentado num banco do parque da Luz. Ao seu lado encontrava-se a modelo de um dos quadros da exposição, uma mulher pequena, de feições angulosas, com orelhas pequenas de criança e sorriso muito alvo ― a nudez dela, escandalosa à plena luz do dia, não parecia ser o efeito da ausência de roupas, antes uma espécie de condição original, anterior a qualquer sentimento de vergonha. Então a modelo se transformou na imagem da sua falecida mãe, ele chorava sem freios, encharcando a camisa branca que vestia. No momento seguinte a mãe levantou vôo, se encarapitou no alto de um abacateiro, e pôs-se a assobiar uma música antiga que ela lhe cantava para ninar.

            Saudade é canto magoado
            no coração de quem sente,
            é como a voz do passado
            ecoando no presente...

            Não, nada daquilo estava acontecendo de verdade, as transformações de mulher em pássaro, a sua mãe, nada era real. Devia estar sonhando em algum outro lugar que não ali, em algum outro dia que não aquele. Imediatamente a mulher-modelo do retrato desceu da árvore e retomou a forma humana, falando-lhe como se tivesse ouvido seus pensamentos. E só então ele a reconheceu: justo ela, a mulher que fizera tanta força para esquecer nesses anos todos. Reconheceu enfim mais uma das artimanhas do destino, mudando a memória na mesma medida em que mudamos no tempo. Nada está parado.
            ― Por que você tá querendo ir embora?
― Porque isto é um sonho ruim, porque eu não quero mais chorar.
― Acontece que se você acordar agora, nunca vai saber se estava sonhando que sabia que estava sonhando.
― Não preciso disso pra saber que você é falsa.
Tudo parecia com mais um dia normal de serviço: acordar, tomar café, pegar o lotação na Cidade Ademar, depois o trem em Jurubatuba, 2 conexões de metrô, descer na estação São Bento, andar 3 quadras a pé, entrar no edifício Cristiania, trocar de roupa no almoxarifado, e assumir seu posto de trabalho.



sábado, 22 de outubro de 2016

Cristiania (1)



            Enquanto caminha pelos corredores atafulhados de gente da estação Sé na interligação trem-metrô ― um caminho que mal escolhe, apenas se deixa levar pelo fluxo ―, tem a súbita sensação de que nada daquilo faz o menor sentido. Tudo parecia com mais um dia normal de serviço: acordar, tomar café, pegar o lotação na Cidade Ademar, depois o trem em Jurubatuba, 2 conexões de metrô, descer na estação São Bento, andar 3 quadras a pé, entrar no edifício Cristiania, trocar de roupa no almoxarifado, e assumir seu posto de trabalho. De repente, no meio da rua Varnhagen, não conseguiu seguir em frente. Em vez disso, parou numa lanchonete e pediu emprestada uma caneta e sacou papel do porta-guardanapos.
            Muitas vezes essa idéia havia aflorado seus pensamentos, mas nunca com tamanha limpidez e urgência. Experimentou diversas versões rascunhadas até escolher a mensagem mais simples para explicar a sua decisão daquela manhã. Afixou o papel no quadro de avisos ao lado do elevador e deixou o emprego de ascensorista que ocupou por tantos anos sem atrasos nem licenças médicas. Seus colegas mal podiam acreditar no recado breve com o qual se despedia definitivamente: “Não posso continuar no mesmo lugar. Deixei o uniforme dentro do armário. Tá destrancado. Adeus.” E assinava.
            Andou pelas ruas do centro velho sem rumo durante horas, cada esquina, cada fachada, as lojas, bancos, até mesmo os vendedores ambulantes, lhe apareciam de uma forma nova, transformada pela quebra repentina do hábito. Como fora possível não ter reparado nas pequenas maravilhas decrépitas que o cercavam diariamente sem pedir afago ou atenção? Por que nunca se dera ao trabalho de assistir a uma missa cantada no mosteiro? Ou mesmo uma parada breve no Largo do Café? Concluiu algo mortificado que andara por aquelas ruas estreitas e sem carros de olhos baixos, deixara de reparar nos becos de geometria irregular, no pavimento enigmático, distraído de alguma verdade agora revelada, fulgurante e sem álibis.
            Era como se todas as coisas falassem com ele. O toque do celular arrancou-o daquele devaneio que, entretanto, tinha muito de um despertar.
            ― Fala Josias.
― Rapaz, que bicho te mordeu? Endoidou de vez, foi?
― Nada, não. Só cansei da porra toda.
― Ah, cansou da porra toda?! Esqueceu que tu tá quase pra aposentar? Deixa de besteira e vem pra cá.
― Vou não. Tô de saco cheio, isso não é vida.
― Que foi que te deu, homem de Deus? Vem já que eu peguei teu lugar, e dei uma desculpa pro encarregado. Arranquei o bilhete maluco que tu deixou lá, só uns dois ou três...
― Dá mais não, Josias. Sabe quando você tá dormindo no meio da noite, e de repente a geladeira pára de fazer barulho? Então, é como isso: nessa hora o que te desperta não é o barulho, mas o silêncio que fica.
― ...
― Você tá me ouvindo?
― Virgem Santíssima, o homem endoidou foi de pedra mesmo! Moço, tu deu pra beber logo de manhazinha, é?
― Bebi nada, não. Tô mais são que nunca. Escuta, você podia me fazer um último favor?
― Último favor? Homem, não me diga que vai...
― Assossegue que não vou fazer bobagem nenhuma. Sabe aquele chapeuzinho que caiu da fachada?
― Chapeuzinho?Barulho de geladeira? Você não tem mais idade pra fumar erva danada, meu irmão.
― Então, é o chapeuzinho do “A”, do primeiro “A”. O verdadeiro nome do edifício é Cristiânia, o chapéu caiu faz um tempo e nunca consegui botar de novo. Você faria isso pra mim?


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Afterlights (final)




― Acho que aqui está tudo que precisa saber sobre mim. Mas talvez você ainda tenha de me explicar como é que isso vai funcionar.
― Ah é? Pensei que o pessoal da empresa já tivesse lhe contado os detalhes do procedimento. Na verdade essa não é a minha função no... bem, no processo. Mas, ok, vamos lá...
― Entenda, eu não estava muito com a cabeça no lugar quando contratei a Afterlights, acho que ninguém está numa hora dessas. Tudo que consigo me lembrar da conversa com o pessoal do suporte é que não ia sentir dor. Depois disso, recebi a papelada que me enviaram e assinei tudo reconhecido em cartório.
― Veja, ainda dá tempo de desistir. Pra falar a verdade, desistências têm sido bastante comuns na minha experiência com este negócio.
― Não vou desistir. Apenas quero entender um pouco mais, um sentimento bastante humano, não? Quando vieram buscar Sócrates para tomar o veneno que o mataria, encontraram-no aprendendo uma música na sua flauta. Os discípulos lhe perguntaram por que se ocupava disso em seus derradeiros momentos, e ele respondeu: porque assim terei aprendido uma coisa nova.
― Muito justo. Imagino que não se fazem mais sábios como antigamente. É bastante simples: primeiro, tem este aparelho que parece um secador de cabelos de salão de cabeleireiro antigo, ele faz um scanning completo do seu cérebro. Fica tudo salvo neste HD externo. Daí, nós passamos para a segunda fase, eu ligo este equipo de soro que injeta separadamente tionembutal, pancurônio e cloreto de potássio, e, em menos de vinte minutos, estará tudo terminado. A primeira droga anestesia e põe pra dormir, a segunda, relaxa seus músculos e pára a respiração, a terceira substância trava seu coração na hora em que ele se contrai. Raramente falha, e nesses casos, ainda assim, a empresa oferece um shot de morfina em doses cavalares para garantir. Limpo, indolor, e 100 % garantido.
― Tá certo, mas essa é a parte operacional da brincadeira, o que eu gostaria de entender é a parte negocial.
― Negocial?
― Ora, meu caro, trata-se de uma empresa, não é mesmo?, e no fim do dia as empresas têm de realizar lucro. Se estão pagando, a mim e a você, por isto, essa parafernália tem que ser lucrativa em algum ponto. No meu caso, a grana servirá pra pagar o enterro.
― Até onde consegui entender, senhor Ogawa, a parte importante é transferida para o HD. As suas memórias, é isso o que eles querem.
― Se fosse assim como diz, bastaria que viessem aqui fotografar este salão. Ao menos no meu caso, seria bastante fácil, além de economizar pessoal e aparelhagem. Não vejo como escarafunchar as lembranças de um velho solitário, esquisito e pobre possa se transformar em dinheiro. As crianças e os suicidas falam uma língua antiga, eu os outros já esqueceram. Quem decodifica?
― Bom, essa parte fica a cargo da equipe técnica, um bando de geeks que passa o dia vasculhando as informações coletadas. Hoje em dia, o que as empresas mais precisam é de informação sobre os consumidores.
― Informação? Olhe em volta, o que você enxerga? Acha mesmo que aqui se pode encontrar o perfil de algum ávido consumidor de bugigangas?
― Outra coisa que o patrão me contou é que qualquer pessoa, por mais inútil que pareça, em algum momento da vida, teve uma boa idéia.
― Essa é a melhor de todas, uma idéia que preste! Nunca imaginei que se pudesse vender idéias, que eu saiba, o que de verdade interessa são projetos ― ele tirou a boina, descobrindo as orelhas ínfimas ―, ou seja, a maneira de transformar sonhos em realidade.
― É que vivemos uma espécie de apagão de idéias razoáveis, e os especialistas não têm ajudado muito para o progresso geral dos povos...
Instalei o soro na veia tão logo o scaneamento terminou, ele adormeceu rapidamente. O celular tocou, era da Afterlights, queriam saber se tudo corria bem.
― Tá tudo certo, o pulso já parou. Er... posso levar uma lembrança daqui?
― Lembrança?
― É. Eu gostaria de ficar com as orelhas dele ― o cara desligou com um palavrão.
Pela janela, vi um passarinho cruzar o céu alto. Tirei meu relógio do pulso e depositei-o sobre uma tábua de passar roupa. As recordações continuavam todas quietas ao nosso redor.


sábado, 1 de outubro de 2016

Afterlights (3)




A sala que ele chamou de acervo era uma antiga lavanderia adaptada na extremidade oeste do porão, que, na verdade, consistia no piso térreo da casa. No instante em que a porta se abriu, senti o cheiro de tecido mofado, ou de plantas murchas, enfim, o cheiro que as coisas exalam quando apodrecem. Era um espaço amplo, mas sujo e muito bagunçado. Objetos os mais diversos (talvez as peças da coleção?) estavam espalhados aqui e ali, sobre armários bambos e sem porta, largados nas cômodas e mesas, dispostos desordenadamente. Nada parecia estar no lugar certo.
Mas o que estava me incomodando não era a situação caótica da sala, era outra coisa. Demorei algum tempo para compreender o quê.
Andamos até o centro da sala. Era preciso prestar atenção a cada passo para não esbarrar em nada. Eu não queria nem imaginar como o sisudo senhor Ogawa esbravejaria se por acaso derrubasse ou quebrasse alguma coisa. O chão tinha o design moderno de muitos anos atrás, com ladrilhos hidráulicos em padrão mourisco sobre o cimento queimado. Graças às janelas estreitas no alto das paredes, pelas quais se via o céu e as plantas do jardim, a iluminação era boa, apesar de estarmos ligeiramente abaixo do nível do solo. Havia varais pendurados no teto, ferros de passar e antigas máquinas de torcer roupa caídas pela sala, vestígios do tempo em que ali funcionava uma lavanderia de verdade.
As salas de acervo, de qualquer natureza, costumam ser ambientes de aconchego familiar para mim, sempre gostei de passar o tempo encarando arquivos, fechado nesses claustros absolutamente silenciosos onde os visitantes não podem entrar. Mas aquela era diferente de qualquer sala de acervo que eu conhecesse. Era como se cada objeto se impusesse sem reservas, segundo seus próprios caprichos, criando uma dissonância insuportável. Mesmo em depósitos muito desorganizados sempre paira no ar um senso de solidariedade entre todas as peças reunidas por um mesmo museu. Mas ali não havia nenhum vínculo, nenhuma união, aqueles itens disparatados não tinham consideração suficiente nem para voltar o olhar para seus companheiros.
Isso me deixava aflito.
Um carretel, um dente de ouro, luvas, um pincel, botas de alpinismo, um batedor de ovos, gesso ortopédico, novelos de lã, um berço... Experimentei olhar com cuidado para cada uma das coisas próximas a mim, mas não adiantou. Só fiquei mais desorientado.
― São recordações dos conhecidos ― disse ele ―, dos meus conhecidos, uma peça de cada pessoa ou bicho de estimação que passou pela minha vida. Foi a maneira que encontrei de não perder, não me separar de ninguém. Como vivi muito, a maioria deles já morreu.
Sua voz ecoou estentórea e clara, apesar do cômodo se encontrar atulhado. Nesse momento finalmente percebi o motivo do meu desconforto. Ogawa-san usava uma boina enterrada quase à altura das sobrancelhas. Por entre o cabelo ralo e branco que ainda lhe restava, espiavam duas orelhas minúsculas, pequenas demais mesmo levando-se em conta a sua baixa estatura. Eram como duas rolhas secas carcomidas presas às laterais da cabeça. Tinham perdido completamente a forma de orelhas, eram apenas cicatrizes ao redor do buraco dos ouvidos.
― Nossa, são muitas... ― comentei hesitante, tentando desviar a atenção das orelhas.
― Comecei a reunir objetos pessoais quando fiz onze anos. Essa coleção tem uma história longa demais pra ser narrada. Mas vai ficar incompleta.
― E por quê?
― Não vou poder guardar nada de você.
À minha volta, naquele porão coberto de pó e teias de aranha, estava o resumo dos encontros e desencontros que era também o resumo da trajetória afetiva daquele homem. No dia em que completou onze anos, seu cachorro Koto morreu, e ele descobriu que também morreria. A insólita coleção testemunhava a aceitação e a revolta de uma criança contra esse fato irremediável de toda matéria que se torna viva. Talvez não tivesse sido fácil carregar muitas daquelas tralhas, principalmente para uma criança, mas, mesmo assim, ele conseguiu fazê-lo por muitas décadas. Contou-me que não lhe interessavam os souvenires banais, mas as coisas que guardassem, da forma mais vívida e fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram. Algo sem o que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que pudesse impedir a morte e o tempo de completarem sua sentença.
Vitória e derrota, permanência e perda. Não, não eram lembranças sentimentais, não tinha nada a ver com isso.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Afterlights (2)




            Evidentemente, não há amor-próprio que resista a uma traulitada dessas, o sujeito malhou implacavelmente o resultado de 3 anos de esforço insano em exatos e demolidores 1051 caracteres. Meu ego levou uma tunda pior que Judas no sábado de Aleluia, e foi dormir na praça. As devastadoras palavras finais em caixa alta reverberaram por meses na minha mente em viés de baixa: PASSE ADIANTE, PASSE ADIANTE, PASSE ADIANTE. Pareciam ser, como de fato eram, um decreto de ostracismo para a minha já pouco promissora carreira literária. E o pior de tudo é que, no fundo, sentia que o cara estava certo. Ponderei comigo mesmo que talvez me faltasse a experiência direta, como se ainda não tivesse provado o verdadeiro almoço nu, não houvesse chegado perto do coração selvagem da vida como ela é. Ora, se Joseph Conrad, Euclydes da Cunha, Le Clézio, Jack Kerouac, e até Guimarães Rosa, tinham posto a mão na massa e o pé na estrada para comporem suas obras-primas, talvez fosse o caso de cometer esse nefando crime contra todos os meus princípios: trabalhar.
            O figurino habitual do escritor frustrado recomendava um longo mergulho na depressão, nas drogas e na orgia, mas faltavam-me a vocação e a fortitude de caráter para suportar as contas atrasadas, além do mais, encarar a noite escura da alma de barriga vazia provoca gastrite e dá uma insônia do cacete. O trampo do aplicativo nada mais era do que uma extensão da inércia habitual, ficava em casa fazendo porra nenhuma durante dias até receber um endereço e um nome pelo celular. Eles chamavam isso de job: tem um job lá pra você no lugar tal, com fulano(a) de tal. A hora podia ser qualquer, do dia ou da noite, feriado ou dia santo. O primeiro rendez vous foi num galpão abandonado cheirando a bosta e mijo repleto de entulho, a todo momento imaginava que uma horda de crackudos ia me cercar e devorar o meu cérebro. Lancei o pó de ninja e vazei dali cagado de medo.
            Na segunda chamada melhorei dramaticamente de nível na escala social: bairro classe média alta, varanda gourmet, apartamentos de um por andar, humilhação básica na portaria e mordomo atendendo na porta do elevador pedindo para eu esperar no living enquanto madame se aprontava para me receber. Finalmente sentia que as coisas iam começar pra valer, já antecipava a esbórnia que faria com a grana do primeiro pagamento. Dona Irany Maracajá proporcionou-me novo chá de cadeira básico até despontar na sala rescendendo a perfume doce e vestida como se tivesse acabado de sair de Downtown Abbey, tinha os cabelos pintados num tom azul-violáceo, e devia andar lá pelos seus 90 e tra-la-lá.
            ― Venha por aqui, estaremos mais cômodos no escritório do meu falecido esposo. Você não se parece muito com a foto do perfil, aliás, nem parece que se dedica a este tipo de ocupação tão... singular.
― Verdade, essa foto que usei é de tempos melhores da minha vida. A senhora talvez não consiga avaliar o quanto a penúria econômica maltrata o cidadão, digamos assim, desfavorecido.
― Você é que não sabe nada da minha vida pra falar desse jeito comigo. O problema é que, diferentemente da estupidez, o bom senso é muito mal distribuído na população em geral. Seja sincero, é a primeira vez que...? A sua patente impertinência denota uma óbvia falta de experiência.
― Sinceramente, peço-lhe desculpas. Não queria ser grosseiro, acontece que, apesar de ser escritor, não sou muito bom com as palavras em situações de interação social. E, sim, é a minha primeira vez.
― A juventude é mesmo um transtorno, felizmente, tem cura. Percebo que se interessa pelos livros do meu marido, a maioria são de direito, mas também deve haver por aí algumas primeiras edições autografadas a merecer melhor destino. Apesar das estantes envidraçadas, não imagina a pó que essa tranqueira junta.
― Tranqueira, pó... a senhora não faz idéia do quanto eu gosto de ouvir esse tipo de comentários sobre os livros. Bom, mas nada disso diz respeito ao nosso objetivo aqui, podemos começar?
― Antes, quero lhe pedir um pequeno favor...
― Esteja à vontade, faça como se estivéssemos na sua casa.
― Fique de pé, por favor.
― Não estou entendendo...
― Você poderia se masturbar? Tranqüilo, não farei nada além de observar. Só peço que vá até o fim.
― Mas por que...?
Ganhei 50 pratas pelo “serviço”, mas não consegui realizar o job da Afterlights. Quase liguei pro meu editor, queria dizer a ele que há buracos ainda mais negros do que os da literatura.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Afterlights (1)




            Precisavam justamente de alguém com disponibilidade para trabalhar em “horários flexíveis”, e foi assim que emprestei a soldo minha absoluta falta do que fazer à empresa Afterlights. Disponibilidade é meu nome, sobrenome desocupado. Talvez na época eu tenha estranhado a contratação mega express ultra rápida (a entrevista com o dono da firma durou uns 15 minutos), mas devo ter-me convenientemente convencido que é assim que a banda toca no universo em desencanto das start ups: dinamismo, alta competitividade e zero conversa mole. Além do mais, os caras me registraram, e, nestes tempos golpistas e bicudos, “resistro” em carteira tá mais difícil de achar do que nota de 100. Abracei com as quatro patas.
            ― Estou vendo aqui no seu currículo que você é escritor, tá ciente da nossa cláusula de confidencialidade? A natureza específica do seu trabalho conosco é absolutamente sigilosa, não vai poder aparecer em futuro algum, nem em prosa nem em verso.
― Oh, não se preocupe com isso, talvez a melhor maneira de guardar um segredo seja dentro de um livro meu. Pro senhor fazer uma idéia, a minha mãe não foi no lançamento da coletânea de contos que publiquei no ano passado.
― Não me chame de senhor, sou mais novo que você. Espero que, a esta altura, já tenha estudado nossos propósitos, valores e missão no site, e esteja claro como é que o app funciona.
― Bom, li sim, mas admito que ainda restam algumas pequenas dúvidas do tipo: então eu fico cadastrado no aplicativo, foto de corpo inteiro, bio, links pra redes sociais, e, por sua vez, os clientes do portfólio escolhem pelas características, e tal, quer dizer, não vejo muito como eu poderia dar match com os usuários de vocês...
― Hehehe, nossos clientes têm os mais variados gostos, quanto a isto fica sussa, vai ter demanda. Lhe garanto. O salário é como no anúncio, você recebe um fixo mínimo e ganha comissão a partir de 10 clientes por semana. O mais importante é que você se familiarize o mais rápido possível com os equipamentos.
            Tudo conspirava para que me atirasse de cabeça na buena onda, aparentemente as minhas qualificações, ou a falta delas, faziam de mim o candidato ideal ao posto na Afterlights, pelo menos era o que garantia o CEO do boteco. Tinha acabado de reiniciar pela trocentésima vez meu segundo romance inacabado, impublicável e invendável como o primeiro, ou seja, dispunha de tempo, falta de dinheiro e vontade de ficar o mais longe possível da opressora página branca. Infelizmente para mim para o mundo, não era o famigerado bloqueio criativo a me paralisar, mas a autoestima que andava abaixo de cu de cobra: por um desses lapsos que Freud explica com um risinho no canto da boca, meu editor me respondeu um e-mail copiado com a avaliação dos originais pelo conselheiro editorial da casa. O camarada torou meu manuscrito sem dó, apanhei mais que pobre na mão da polícia.

Boa descrição, diálogos apresentáveis. Alguns momentos divertidos, outros delicados. Em resumo, um romance de palavras bem escolhidas. A estória, porém, é um saco. As primeiras 30 páginas se arrastam como uma lesma em slow motion, repletas de exposição, o resto não chega a seus pés. A trama principal, ou o que há dela, é recheada de coincidências convenientes e motivação fraca. O protagonista é homem, branco, heteronormativo, cisgênero e bidimensional, praticamente desprovido de interesse ou conflitos relevantes, tropica ao longo da narrativa embrulhado numa grossa camada de tédio – o que não impede de lhe acontecerem as coisas mais insólitas e de conhecer misteriosas personagens. Tensões não relacionadas que poderiam transformar-se em subtramas nunca chegam lá. Personagens nunca revelam ser algo mais do que parecem, a tantas horas, um providencial terremoto (!) livra o autor de resolver a maioria deles. Nenhum panorama momentâneo da vida interior dessas pessoas ou de sua sociedade. Freqüentes pseudodiscussões filosóficas regadas a erudição alheia truncam a fluidez do texto. É uma coleção sem vida de episódios previsíveis, mal contados e clichês que caminham a passo de bêbado para uma confusão sem sentido. PASSE ADIANTE.


sábado, 10 de setembro de 2016

o intruso (final)


― Desculpe, de qual apartamento o senhor disse que veio mesmo?
― Acho que não disse, esqueci, sou do 143, bloco A.
― Pois é aí que embaça: o senhor não é do 143, bloco A, a bem dizer, o senhor não mora aqui.

Foi a minha vez de levar um susto. Dei um passo para trás como se fugisse da pior das notícias, só que, mesmo depois de terem cessado de vibrar no ar, aquelas palavras entraram em violenta agitação dentro de mim, seres estranhos a meio caminho entre a matéria e a vida, como que me giravam à roda da cabeça, ondulantes, peremptórias, inundando a corrente sanguínea com os instintos básicos de lutar ou fugir. “O senhor não mora mais aqui”, repetia o pensamento, “não mora aqui”, mas a memória disparava o alarme com o tal do “mais”: “não mais aqui”, (claro!, que imbecil, como poderia ter esquecido?, morei neste prédio há muitos anos, meu último endereço antes de deixar a casa dos pais), de forma que a questão óbvia era saber se a minha família ainda residia ali. O porteiro tirou da gaveta uma pasta encadernada com folhas de plástico onde constavam os nomes e os respectivos conjuntos dos moradores do condomínio, e esperou com calma budista que, apresentado ao encadeamento de causas e efeitos sob a luz ofuscante das evidências, acabasse por finalmente aceitar a minha condição de forasteiro. Para cúmulo do desespero, segundo o caderninho que ele me estendera, no apartamento 143, bloco A, moravam pessoas que eu desconhecia por completo.

― Peixoto, você não tá suspeitando de mim, tá?
― Tô sim, mas, por outro lado, se você estivesse assaltando nós, já teria botado um cano na minha cara.
― Bem, não deixa de ser uma forma de confiança...
― Você é branco, bem vestido, fala difícil... por que escolheria o edifício Presidente, que só tem fodido e tiozinho aposentado?
― E quanto ao cara do 14° andar? Ainda precisamos fazer alguma coisa a respeito.
― Ok, mas veja, se eu for acreditar no que tá me dizendo, são 2 os desconhecidos: você, e o tal sujeito...
― Mas eu não estou tentando invadir a casa de ninguém, Peixoto!
― Depende, o senhor disse que faz poucos minutos estava num apartamento que não lhe pertence, e agorinha entrou feito pé de vento nesta guarita falando um monte de coisas sem pé nem cabeça.

Não havia como retrucar a uma lógica tão meridiana e embasada em tantos fatos sólidos. Fiquei sem resposta, esfregava nervosamente o rosto com as mãos como se a solução pudesse ser extraída dali a fórceps. Só me restava apelar para o resto de credibilidade que a aparência conferia aos propósitos descabelados da minha conduta. Quanto mais eu refletia sobre a situação, mais suscitava questões acerca das minhas atitudes: parecia um ator amador, cuja voz diz uma coisa, e cujos gestos e olhar, outra. Era tudo muito confuso. Mas, como os sonhos ou as mentiras, mensagens confusas também são mensagens. E verdades contadas atabalhoadamente podem ser mais reveladoras, e até mais verdadeiras, que outros tipos de verdade.

            ― Vamos fazer o seguinte: o senhor fica aqui no meu lugar um instante, que eu vou dar uma olhada nos elevadores ver se há alguma movimentação estranha. Valeu?
― Só posso lhe agradecer a confiança. Espere, espere, E como faço pra abrir a porta aos moradores que chegarem ou saírem?

Explicou-me o sistema de abertura das portas e garagens e saiu caminhando mansamente pelo hall na direção dos elevadores. Sentia uma certa calma, o primeiro bálsamo de relaxamento daquela noite esquisita, as coisas pareciam haver retomado os trilhos da normalidade. Abri e fechei portões, recebi entregadores de pizza, forneci indicação de ruas a passantes eventuais, e, tirando um ou outro condômino que estranhou minha presença na guarita, tudo corria em paz. O ambiente da portaria era de uma desolação atroz: a luz branca, o espaço mesquinho, a obrigação de imobilidade completa, tudo isso arrematado pelo radinho sintonizado num programa policialesco. Passada uma hora desta rotina, comecei a entrar novamente em pânico: por que o Peixoto não voltava? Estava a ponto de abandonar o meu posto, quando apareceu saindo do prédio um homem alto, envergava um incongruente sobretudo para a noite de verão. Era a encarnação perfeita do típico suspeito de filme noir.

            ― Ei, senhor, por favor, de onde está vindo?
― Perdão?!
― O senhor me desculpe, é que estamos tendo um pequeno problema com um entregador que subiu e...
― Então é sua obrigação resolver o problema, e não importunar os moradores. Aliás, por que está sem o uniforme de trabalho?
― Justamente, o porteiro precisou sair pra verificar e fiquei aqui no lugar dele. O senhor viu alguma movimentação fora do habitual?
― A única coisa fora do habitual aqui é você, faça o favor de me abrir a porta, sim? Outra coisa: procure tratamento, pelo jeito o senhor está bem fora da casinha.

O camarada saiu de maus bofes, pisando duro no pavimento da entrada social. Não havia nada a fazer, retombei numa desesperança opaca e impotente. E se o homem do sobretudo estivesse certo? Eu poderia estar louco, ou talvez sonhando. Abri a gaveta à minha frente sem saber exatamente o que procurava. Um canivete chamou-me a atenção, pensei: se estiver sonhando, só há uma maneira de sair daqui ― morrer no sonho significa acordar na realidade. Quando morri, um dia abri os olhos e era a cidade. Eu estava sozinho no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer.



domingo, 4 de setembro de 2016

o intruso (3)




            ― Desculpa moço, foi mal entrar assim aqui sem avisar, mas é que... bom, é uma emergência, eu estava lá em casa e um cara veio com um papo esquisito de uma entrega, e aí ele começou a forçar a porta...
― Oxe, quase me mata de susto! Pensei logo que era assalto, agora se acalme e conte tudo direitinho, não tô entendendo é nada.
― Tá bom, tá bom, vamos começar tudo de novo: eu estava em casa estudando uns pontos de lógica formal... quer dizer, isso não vem ao caso, o que sim é importante é que a campainha tocou e ninguém foi abrir, então tive que ir mesmo estando ocupado como me encontrava naquele momento, veja, é estranho alguém subir direto sem antes a portaria avisar, não é?
― Claro que é.
― Então?...
― Então o quê?
― Me diga você que estava aqui, como é que alguém sobe pra entregar um pacote pelo elevador social a esta hora? Ainda mais sem interfonar antes...
― Vamos lá, senhor, são duas coisas bem diferentes: uma é norma de segurança, ninguém sobe sem ser anunciado, a outra coisa é, eu não tenho como saber.
― Como assim?! Você está aí pra isso, alguém chega e diz que vai entregar algo no apartamento X, daí você liga pro número correspondente nesse comunicador bem na sua frente, e tchan-tchan-tchan: o morador do número X atende, desce, assina os papéis e o entregador vai embora. Não precisa nem entrar no prédio, certo?
― Certo.
― Bom, então me diga... como é mesmo o seu nome?
― Waldomiro Peixoto, mas só me chamam de Peixoto.
― Então, Peixoto, quem era esse cara, o que ele vinha entregar, pra quem era a encomenda?
― Já lhe disse: não tenho como saber.
― Parece que estamos tendo um sério problema de comunicação aqui. Me explique como é que aquele homem se materializou na porta da minha casa sem antes ter passado por você.
― E como vou saber? Acabei de pegar o serviço agora. Esse camarada deve ter subido antes de eu chegar, o rapaz que tava aqui saiu inda agorinha...
― Minha nossa, que cagada. Desculpe o palavrão, mas é que o assunto é sério, esse cara deve ter jogado uma conversa no seu colega e subiu, ou, sei lá, alguém na minha casa atendeu o interfone e deixou ele subir inadvertidamente, então vocês trocaram o turno e, nessas, enquanto você assumia aqui, o malandro já estava lá apertando a campainha de casa cheio de más intenções.
― Se acalme, homem, como tem tanta certeza de que o tal entregador tinha más intenções?
― Primeiro pela atitude, o cara tinha pouca educação e muita pressa que eu lhe abrisse a porta, além do mais, quando disse pra ele descer e deixar o pacote na portaria, ficou mudo e começou a girar a maçaneta e a empurrar a porta.
― Essa realmente é uma atitude suspeita.
― Sem querer lhe dizer como é que se faz o seu serviço, mas já dizendo, não acha deveríamos estar ligando pra polícia e prevenindo os outros moradores neste momento?
― Verdade seja dita, o senhor tem razão, mas ainda temos um último probleminha.
― E qual seria este último problema que nos impede de agir imediatamente, Peixoto?
― Qual apartamento o senhor disse que mora mesmo?
― Acho que não disse, esqueci, sou do 143, bloco A.
― Pois é aí que mora a encrenca: o senhor não é do 143, bloco A, o senhor não é morador daqui..