segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Joaquim III



Recebi algumas reclamações da família do Joaquim. Lembram-se dele? Está algumas postagens abaixo no blogue entremeios .
Bem as reclamações foram por conta de alguns fatos que não relatei, por achar que seriam um pouco ...digamos ...demais.
Um pequeno resumo para aqueles mais preguiçosos que não irão procurar os textos:
Joaquim nasceu em um 14 de Julho e na infância contraiu meningite, escapou quase sem sequelas, melhor dizendo a sequela que ficou foi o excesso de mimo que recebeu da mãe e dos irmãos e até dos sobrinhos pelo resto de sua vida. Por esses dois fatos, a meningite e a queda da Bastilha, achou-se um premiado e nunca trabalhou na vida, nem assumiu qualquer responsabilidade que não fosse seu bem estar.
Os filhos que foi arranjando por ai, dava o nome dos irmãos como pai e quando sumia as mulheres iam atrás e assim quase estragou o casamento de um deles, depois todos já sabiam que quando chegava uma mulher com criança no colo era coisa de Joaquim e cuidavam deles.
Quando os pais morreram os irmãos continuaram a suprir suas necessidades e mais tarde seus sobrinhos. Foi o primeiro a nascer e o ultimo a morrer.
O que faltou relatar foi a passagem de quando fazia sua viagem a casa de um dos sobrinhos para arrecadar dinheiro.
Estava no ónibus indo de uma cidade a outra, no tempo que as estradas do estado eram em sua maioria de terra e as viagens eram longas, sentou-se ao lado de uma mulher já na meia idade mas ainda vistosa e veio puxando conversa. A Dinorah, esse era seu nome, mulher de prosa fácil e vida idem que logo Joaquim percebeu e se interessou. Conversa vai, conversa vem Joaquim conta que iria visitar um sobrinho que é dentista naquela cidade.
Dinorah diz que o conhece que é muito bom profissional e que ela deve um trabalho para ele. Reclama da vida e diz que em uma cidade pequena é difícil ganhar a vida, que as mulheres ficam de olho, a fofoca corre solta, etc e tal e que não sabia com iria pagar o Dr Regis.
Continuaram conversando até que chegaram a cidade se despediram e Joaquim foi para a casa do sobrinho. No dia seguinte de sua chegada conversando com Regis contou do encontro no ónibus e falou que Dinorah lhe havia dito que devia dinheiro para ele. Regis concordou e mostrou-se resignado, sabia que dificilmente conseguiria receber esse dinheiro, Joaquim foi imediatamente solidário e perguntou ao sobrinho se ele permitiria que ele recebesse em favores a divida de Dinorah. Recebeu todinha e nesta altura da vida já passava dos oitenta.
A segunda passagem diz respeito a morte de Joaquim, contei que ele morreu tentando agarrar a enfermeira que estava trocando seu curativo. Isto foi assim mesmo, com a resalva que naquele tempo de Santas Casas, as enfermeiras eram freiras e não contei que no enterro dele foi muito difícil as pessoas se conterem, alguns sorriam outros tinham que sair rapidamente para rir lá fora, só o padre olhava a todos com ares de censura o que tornava a cena mais engraçada ainda. Todos que se aproximavam do caixão saiam rindo.
Ninguém nunca tinha visto um morto com um sorriso mais safado no rosto, como o Vadinho de Jorge Amado, só que muito antes desse.


(fotos retiradas do google)

domingo, 27 de dezembro de 2009

o planetário de deus



A solidão é uma fortaleza


Que anseia o ataque


Das lembranças e da saudade



As lembranças sempre atacam


A saudade nunca chega...

_________

foto: Edmar, Ibitipoca, Mg

sábado, 26 de dezembro de 2009

garatujas

















Essas sombras
densas
negras
que desenham garatujas
na toalha semi-alva do boteco
quando o veneno das taças chega ao fim,

Quase-ocultam
meu sorriso
imaginário
ou a lagriminha tímida:
meu poema jaz, inédito,
doentio e trivial, num guardanapo de papel.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natividade


Sulamita amava Carlos Calado, que a amava também, dividiam o consultório de odontologia, um sobrado situado no Paraíso, mesmo bairro onde moravam há dez anos, desde que se haviam casado; ele, um especialista em endodontia, ocupava o andar de cima e tratava os dolorosos canais, ela ocupava a sala do térreo ao lado da secretária e cuidava da parte estética: implantes, clareamento, correção de serrilhado, etc.; completavam-se e prosperavam, tinham chegado àquele ponto do casamento em que as cobranças vinham em salvas constantes: “vocês se dão tão bem, quando é que vão encomendar os filhos?”, ou, em festas familiares, “quando vou ganhar netos?” e por aí a coisa ia, Carlos não dava muita bola, respondia apontando a barriga mais e mais proeminente dizendo que a criança já estava lá, só faltava sair; desfazia a pressão com piadas e ia levando, já para Sulita a banda tocava diferente, a marca assustadora dos quarenta anos parecia se aproximar cada vez mais rápido, as tentativas de inseminação natural e artificial sucediam-se infrutíferas (e caras: quinze mil a cada vez), as amigas pareciam ter combinado e engravidavam uma atrás da outra, arrastando-a para uma sucessão de chás de bebê, visitas a maternidades e aniversários de bufê que contribuíam ainda mais para a sua frustração; segundo os especialistas, os óvulos dela conseguiam ser fertilizados, sofriam uma primeira divisão e aí se esfarelavam misteriosamente; sentia-se em falta e incompleta, mas o pior era um sonho recorrente que começou a ter quase duas vezes por semana: Carlos invariavelmente aparecia conversando com outra mulher grávida, e quando ela tentava se aproximar e falar com ele, percebia que ele e a moça estavam muito distantes dela, em geral não lhe falavam, mas num dos sonhos a moça lhe disse que sabia quem ela era, “um fantasma do passado de Carlito”; este não era insensível ao que se passava com a mulher, insistia em vão para que começasse uma terapia, propôs-lhe a adoção ― Sula tinha verdadeiro horror a esta hipótese ―, percebia a instabilidade emocional que os tratamentos causavam, a bagunça que injeções de hormônios e estimuladores de ovulação produziam, nele mesmo os efeitos não eram menos devastadores, se pegou chorando numa daquelas cabininhas com revistas pornográficas em que o exame de esperma se transforma num lamentável pastiche da masturbação adolescente; mas nada se comparou ao dia em que ficou de “prontidão”, esperando que a temperatura da vagina subisse a determinada temperatura e lhe telefonassem da clínica de fertilidade para fazer sexo com hora marcada; daí por diante ele pirou o cabeçote e brochou completamente, o tesão tinha acabado, o carinho, o respeito e o casamento juntos; separaram-se, ela continuou morando no apartamento e ele ficou sozinho no consultório; Sussu trocou de carro e agora andava com essa mania de comer pistache o tempo todo, tanto, que acabou quebrando um dente numa casca e deixou-o sem reparo; ele chegou a achar que talvez tivesse que lhe tratar um canal ali logo, logo, mas ela não o procurava para mais nada, nem mesmo a auxiliar dela tinha levado; Maria da Conceição tinha sido contratada por um programa da prefeitura e funcionava como uma espécie de estagiária, agora desnecessária, mas que ele não poderia dispensar porque estava grávida de seis meses; vacilo de uma balada, o rapaz, que ela mal conhecia, viajara para o Nordeste sem saber de nada; era época das festas de fim de ano, Carlos foi atender uma urgência de um antigo cliente e aproveitou para entregar a Conceição uma cesta de Natal, eles escutam a porta do primeiro andar se abrir e assomam ao alto das escadas para dar de cara com Su imóvel na soleira da porta; sem dizer palavra ela sai em disparada, ele liga cinqüenta e três vezes para o celular dela, corre para a ex-casa, liga para toda a família, os amigos... sumiço total; de madrugada, um telefonema da polícia rodoviária o chama para reconhecer o corpo: tinha entrado na estrada velha de Santos, ninguém sabia como, e foi achada caída em um barranco; ficou em estado de choque ao se dar conta de que ela estava completamente nua esmagada nas ferragens do Honda Civic.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

conto de Natal


Está frio… chove, chuvinha que se entranha.
Lá está a Igreja. Vou fumar um cigarro antes de entrar.
Puxa… está mais frio cá dentro do que na rua… deve ser da neve
Vou ver o presépio
Este ano a miudagem esmerou-se, tantas figurinhas…
Ué…
Será impressão minha?
Ia jurar (perdão…) que vi o bafo da vaca cair por cima do Menino…
Olha… é mesmo!
Cadê o burro?
Tanta figura e não tem o burro?
Ué… tou sentindo um bafo no cangote!

Eu já não avisei você para não voltar a entrar aqui?

Será que estou ouvindo bem? Quem me fala?

Ô… vê se acorda… isto não é lugar pra dormir…
Toca a andar lá pra fora!


Pôxa…
Tá frio… chuva danada…
Acho que o Menino vai sentir a falta do burro!



(foto de José Doutel Coroado tirada do meu blog, que está nos links - Vilarandelo - um dia uma imagem)

ORREALEALENGO



carcomio sovadobrioche quiasmodeu

ramassou corrabo

loucamentava incumpriveis promicias

hospideia quitinetencasa quartossala suiterrome

erromeutodomeu

oclusobtusa masbencomida emaculadadeira

teudastava manteudafoi

cespedinua ciprestecolmo dulcedebochavamos

subicumes nimbosemanticos

orgasmabundos

osculorida avidaera encompanhia

damadamavel

hidromantico pancometia rubaisgazeis

tefizaguisadeafiz

corfiel cordialetico assintorneime

porenfindoua felizporneia

defenes trastil cuoremio resderelicta

desquiciado

muimequedou arresvalosa

apequenina coisinhalouca

chamadamor

potrebe quialtera beladona

seusolhoscuros reviramaram

possasser tudopode machadodisse

aververemos ocasoclaro equeamoramei

tequisavera

atiamei

Tudo tem seu tempo


Um sobresalto

Quem diria?

Nessa altura da vida

Não caberia

Aprendi assim

Tudo tem seu tempo

E agora não era

Esse oTempo

Já faz tempo

Agora é sossego

Onde ele esta?

Me enganaram

Não me contaram

O coração só tem

Um tempo

É o tempo de amar


(foto retirada do Google)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

a lógica aberta da poesia

Fotoforma - paralelepípedos em Botucatu, 19/07/2006. Bruno Urbanavicius


a linguagem codifica um conjunto de regras

sistema de trocas entre signos

ela não diz respeito às cosmicoisas do mundo

mas pretende

qualquer obra tem a pretensão de não ser interpretada

a não ser pelos seus próprios jogos

toda arte precisa trazer a crise para o código

potencializar revelar ausências ignotas desvios falhas

na estrutura

abolido bibelô de sonora inanidade

na poesia não há deus nem sujeito

oculto ou enunciado

o poema invoca um dialeto desconhecido para melhor

se perder na linguagem

poesia é a cifrada mensagem que arrebenta o código

interrompendo a série prosaica

assim como a fala arreganha a língua

alimentando mensagem código fala e língua

a arte aumenta a percepção a poesia desdobra

o conhecimento

das palavras

das coisas

do amor
que há

ENTRE

sábado, 19 de dezembro de 2009

coração, bordel de quinta


poesia é uma coisa muito grande

talvez a maior que se possa fazer

não faço a poesia que posso

mas a que quero-quero

a linguagem não significa nada

a poesia tudo

o poema vem do mistério

e fétido existe no escuro

do coração

sua imagem está em cheio nas coisas

pelo amor do impuro vazio

você veio do meio do mundo

e está dentro agora

das minhas veias velas pandas

acesas

sobretudo na impossibilidade

da mulher mãe amante

ativamente no mercado triangular

ternura sexo

poesia



(Não me consuma, óleo s/t de Bruno Urbanavicius, 2009).

CASO CAIAS



M T E R
A M O R
T E C E
D O R E S

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

um conto de natal


o menino-deus das tuas crenças

é o mesmo diabo-menino que te assalta a cada esquina

exigindo a justiça divina aqui na terra como no céu

.

e deus não sabe mais o quê fazer

vendo seu filho cheirar o crack de cada dia

procurando ressurgir dos mortos abandonados

para que a pedra lhe leve aos céus

.

nesse natal o menino-deus não nasce

é o diabo-menino quem morre...


(edmar oliveira)



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Toilet as a stronghold of philosophic reflection



I shall rot the kernel of truth
of that I am sure
divine purpose’s so populated
with superstition’n rumor

I despised hell and heaven
vomiting their entire bowels
into the toilet of infinite chaos
(harm done by psychoactive wisdom)

I will pay for awesome sins
not through any violence
nor even a Women’s Visionary Council
but by bad karma
that returns to roost

Ain’t nothing to do
except
waiting for it to arrive

Ain’t any better to do but
open up
a can of whoopass for you and me

-----------------------------------
O banheiro é o bastião da reflexão filosófica

Vou corromper a essência da verdade
disso estou certo e seguro
divinos desígnios são por demais populados
de superstição e rumor

Desprezei céus e infernos
vomitando suas tripas
na privada do infinito caos
(seqüelas de sabedoria psicoativa)

Pagarei por horrendos pecados
não pela violência
nem por um Conselho das Mulheres Visionárias
mas pelo mau karma
que retorna e manda

Nada a fazer a não ser
esperar
que chegue

Nada melhor do que
abrir
uma caixa de infortúnios pra você e eu

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sombras Bailarinas


O sol entre as folhas

Desenha rendas

No negro asfalto

Nas folhas, o vento

Faz desenhos dançar.

Vestidas de rendas

Sombras bailarinas

Com livres passos

Improvisam bailados

Como meu coração

Dança sem controlar

Frente ao seu negro olhar

(foto Google)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

nosso quarto tinha espelho nos lados produzindo a sensação de infinito



os homens maus sofrem da mania de ser bons

tão sacanas e mentirosos são

que acham que os outros haverão de ser bons

por compensação

sofrer é tão foda como o amor é foda

foder o amor é facinho

osso mesmo é foder a dor

maneiras há

fazendo os outros sofrer

já tentei

não me ajudou

a verdade é uma faca serrilhada

dói que nem

não posso simplesmente me declarar contente

com o presente mais-que-perfeito

o fim não tem pressa

nem significado

é fim ponto

se ao menos fosse uma surpresa ou um alívio

vá lá coisa do destino

poderíamos concluir conversar rir

mas é que no meio há o amor e o amor não tem caráter

dirige embriagado dá perdido não chega

na hora marcada

só damos por ele a destempo

quando já ficou

pra lá

(dizer que nem sequer tivemos a consciência a angústia porventura o prazer de pensar que houve uma hora em que ainda era relativamente cedo)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Eu, invento teu


Voa

Andorinha de tantos verões

Verão em mim as marcas

Do que me cerca

A cerca que me limita nas cercanias

Da minha porção de terra em torno do nada

Eu não crio nada

Eu não invento nada

Personagens, paisagens, pensamentos, palavras

Sou inventado pelo que me cerca

Inclusive por ti...

(Edmar Oliveira)

o homem que todos podiam matar e os 2 corpos do Rei



1.1 A SOCIEDADE É UM CORPO DE OUTROS CORPOS

1.2 Abaixo e acima da lei: o homo sacer e o corpo físico-político do Rei

2.0 Como vivem os que não existem? E como se vão os que nunca morrem?

2.1 Um em cada dez brasileiros não tem existência civil. Quase dezenove milhões de pessoas que não têm registro algum, que não podem estudar, viajar, abrir empresas, votar, se eleger, herdar ou adquirir bens, etc.; os sem-documentos, um não-país composto de não-cidadãos

2.2 As autoridades constituídas consideram este índice “razoável”. Melhoramos muito nos últimos tempos

3.1 O direito romano arcaico previa a horripilante figura do fora-da-lei absoluto, o homo sacer (homem sacro), sobre o qual não incidia lei alguma, sagrada ou profana. Aquele que a comunidade punha na condição de sagrado não poderia ser sacrificado aos deuses públicos e manes, mas poderia ser impunemente assassinado por qualquer cidadão

3.2 Insacrificável mas matável, o sacer se encontra fora — e abaixo — tanto do direito divino (ius divinum), quanto da legislação civil (ius humanum)

5.0 Corpo e imagem (in corpore et in effigie). O duplo sepultamento dos reis medievais na França e na Inglaterra rebate para cima, e em simetria perfeita, este tipo de ordenamento social. A origem divina do poder real assenta sobre um paradoxo: o soberano está, ao mesmo tempo, dentro e fora da soberania

5.2 Morto o rei, procedia-se à cerimônia de enterro do corpo físico deste, encerrando o período de luto nacional. Após sete dias, nos quais uma imagem em cera ou pintada do falecido monarca ficava exposta, acontecia o funus imaginarium (funeral da imagem), no qual o corpo místico do antigo soberano era sepultado. Só então é que se iniciava oficialmente o reinado do sucessor

5.3 Uma teologia da Lei, do Poder, da Cultura e da Linguagem só faz realçar a força da negatividade em que se apóiam, o Santo dos Santos que as funda é um vazio além e fora, consubstanciado na vida nua dos corpos que os integram: bandos, matilhas, gangues, corporações... sindicatos de ladrões.

6.4 Nos vídeos de corrupção explícita o dinheiro carregado junto ao corpo dos políticos, na cueca, na meia, na bolsa, no bolso; o biopoder é uma pornopolítica das imagens, em cuja pletora brilha por ausência a dimensão do sonho

6.4 A América Latina, com 8% da população mundial, concentra 42 % dos crimes contra a vida

7 Pecunia non ollet (o dinheiro não tem cheiro), o corpo sim

sábado, 12 de dezembro de 2009

Feriados não deveriam cair no Domingo




sem acostamento

a vida parece fluir como uma paisagem

rápida e eficiente

tudo meio que já acontece sendo passado

a noite non-stop o inverno quente a morte

24/24

o planeta precisa de uma boa depressão

sei lá

tipo tirar um ano sabático

mundial

galáctico

cósmico

o presente está tão rápido que esbarra

no futuro

quem ganha tempo faz do tempo

mercadoria

quem mata tempo fere a vida

desatento

o mar precisa de um bom banho os rios de um lago

as cidades não conseguem dormir

o tempo virá resgatar a surpresa

dos segredos da infância

pausar não é parar

queria viver 120 anos

mas às vezes não sei o que fazer numa tarde

de domingo

Vlado Lima: "Os Desperdiçados do Mundo Estão em Greve"




Esse poema é do Vlado Lima.

"OS DESPERDIÇADOS DO MUNDO ESTÃO EM GREVE


os desperdiçados do Cáucaso estão em greve
cruzaram os braços entre a 5ª e a 7ª hora da aurora de hoje
em solidariedade aos desperdiçados da Manchúria

os desperdiçados de Manhattan também estão em greve
assim como os desperdiçados de Botsuana
Patagônia Patópolis Pirituba
e os desperdiçados de Tijuana

o que pretendem os desperdiçados do mundo?
pergunta Larry King (ao vivo) pras cameras da CNN
querem derrubar o Império Romano do Baixo Gávea
ou apenas 15 minutos no sofá do Grande Irmão?


os desperdiçados do mundo estão em greve
passeatas comícios palavras de ordem
aqui & acolá explodem cartazes com gritos maiúsculos
DESPERDICEI MINHA JUVENTUDE NOS BRAÇOS DE HOMENS ESCROTOS!
A CACHAÇA FOI MINHA RUÍNA!
AS PUTAS ME FODERAM!
“A LITERATURA ESTRAGOU MINHAS MELHORES HORAS DE AMOR!”


os desperdiçados do mundo estão em greve
tio Juarez está em greve
o flanelinha paraplégico da Rua Albion está em greve
os sobreviventes da turma do fundão da 5ªD de 1979 do Florinda Cardoso estão em greve
só meu coração (pelego por experiência) é quem resiste aos mantras do sindicato
em outros tempos (quando os dinossauros dominavam a terra)
eu estaria lá, no cockipit do carro abre-alas puxando a galera da comissão de frente
mas hoje, depois de 40 e poucos anos tocando bumbo na banda do Coronel Buendia
sei que tudo isso não passa de um grande desperdício."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um dia eu invadi a agenda dela


Te amo dessa maneira
Abilolada, maluca
Às vezes olhando pra Lua
Dando pulinhos na rua

Te amo doce, macio
Em espiral ascendente
Ou até mesmo safado
Despudorado, indecente

Me arrisco assim, rabiscando
O seu caderno de virgem
Amando também a vertigem
De tê-lo uma vez violado

Dos versos não me arrependo
Perdoo-me, passarim
Afinal, todo mundo já fez
Por amor um poema ruim! :D

sábado, 5 de dezembro de 2009

as mulheres vão aonde os homens não entram: o próprio corpo

você produz profecias como quem anda

no fio do serrote

o que faria hoje com a sua morta biografia

transgressora?

tão flébil, tão engasgada de melancolia fértil

totalmente gesto

integralmente grito

a matéria não seria coisíssima nenhuma

sem o desejo

o seu desejo me agride com grosserias

você é tão passional que a tinta com que escrevo

sangra

você não me dá tempo para o sangue

secar

parece que sou um canalha ou que fui um covarde

enquanto você se queima em praça pública

para me aquecer

você fala demais, deixa abertas todas as possibilidades

muda de freqüência, descreve detalhes vergonhosos

dirige o seu carro de vidros escuros como louca

para o abismo

você permanece insuportável e me deixa confuso

a supor que mente o dito no vivido

e vice-versa

ou quando chama as deusas de biscates

você me deixa excitado com o ridículo e me comove

com o desprezível

você no fio suspenso me sacode de pavor e delírio

desequilibrista do contratempo que vai

da radical mitomania das palavras

à matriz poética da prosa

e nunca cai

não por inteiro

mas por não ter um norte, um porto seguro

não ter chão deve ser um incômodo para todos

menos para você

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

canto sangue-bom de asa rimada



eu canto porque a canção é tudo
não sou alegre nem triste
num dia estou certo, noutro mudo
só o instante existe

desmorono se edifico
sinto gozo e tormento
não sei se fujo ou fico
passo dia, noite, vento

sei que o meu sangue
é quente, encarnado
meu lugar o mangue
o nunca encontrado

no vento eu nuvem
passo
canto a luz, na treva
desfaço



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

a menor verdade é a realidade


o discurso do poder
sacrifica diariamente o desejável
no altar do possível
estiola a poesia em nome
do lugar comum
(até porque sonhar
é uma coisa muito outra)

ideologia
costura feita sem linha
sobre um pano invisível
de maneira a sentar os poucos
na cabeça dos muitos
(a culpa é minha,
ponho onde quiser)

o jogo cínico é cênico
quem não lê a cena
na cena
é hoje um analfabeto digital
(vamos abrir bandas largas
nos corações e mentes, plis)

não é a sociedade que faz
o espetáculo
é antes a cena que cria
espectadores

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

mundo em latim queria apenas dizer ‘ornamento’




eu ventoiiiiiiina nuvemiiiiiisou passo


no passoiiiiiiisou ventoiiiiiieu nuvem


sou nuvemiiiieu passoiiiiiiiino vento


mais
nada

domingo, 29 de novembro de 2009

Haikaí, ai-ai



quem caiu fui eu
meu mundo fez plof!
vaidade, moral
tudim, levou chão

híbris & em pós
nêmesis, pois é:
quem os deuses tão
maldiz, sete nós

ganha, gel anti
germe, gaze e
molho forçado
ponto-falso, ui!

(Que lindo
Capacete de pena
Que tem a
Cabocla Jurema )

pero que las hay, las hay

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

António Lobo Antunes



"As palmeiras inclinavam os quadris para o nascente como grandes girassóis inesperados"
(A. Lobo Antunes, em "Conhecimento do Inferno" Alfaguara editora, Rio, 1980)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

vestindo a nudez da escuridão por uma efemeridade longa e breve


[Tristeza, tristeza do sonoceano, por mais que a ignoremos]

não consigo fazer haikais
nem poesia digital
castelo de alusões/floresta de espelhos
e mais:
nunca me envolveria com peixes
que viram plantas
jamais
abriria a boca
p’ra que fugisse o absoluto
(em gotas ornamentais)


[o mundo desaparece. ascensão da razão]

mas nem tudo é mofino:
escrevo sem foco me amparo
ora sílvio ora joão
som-literatura
adotei a não-técnica
como indisciplina
confesso discretos vícios
entre fissura
e confusão


[todos têm seu medo especial, misturado a técnicas anti-paixão]

fui condenado ao estelionato estético
a mão-leve do diletante autônomo
e descuidista
tenho vergonha alheia do meu ridículo
de entranhar o esquisito
no estranho
hesito
vou de singular a leviano anônimo

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Haikai com fome



abutre alado
prometeu acorrentado
comer meu fígado

(Edmar Oliveira)
____________________
© Foto de Ke
vin Carter. Abutre aguarda morte de criança no Sudão.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

emma thomas



até que seria fácil ser um grande canalha
mas sempre seria preciso
ser grande
ser irmão e irmã adotar gatos fazer versos
isso sim
são coisas grandes demais
querida Sissi desista
de saber si
ou de querer esclarecer
como é e como foi pra mamãe
(Mystérios Gozozos)
funke-se quem puder
baby
deixe-a perder a mente
e virar bicho e voltar a ter cheiros fortes
e novos
e só lembrar do mais simples dos antigos
jogos
porque se é bicho também tem aquela máquina
de lembrar e esquecer fantasmas
afinal foi você mesma que disse
que nunca vou poder parar
de fugir
e me explicou que a fuga é uma arte
de parir umbigos
voa quem puxar por eles e sair do chão
uma vez que quem sonha que voa
está com medo (dos vivos)
e que é por isso que me perco e acerco do centro
em deslocamento
como é certo que todo aquele que aceita dormir
no teu sexo-restaurante
deve ser íntima
vítima da própria verdade
e mesmo que não fosse assim me diga
¿como poderia saber que jamais
em ti
ia encontrar paz
e seguiria assim
andariego
?
sou sempre precário sempre esboço
somente um moço
de recados
esforçado
boçal
e

haikai ao lago


A flor cai no lago

Desliza, bela, singela,

Afago que afoga...

(Edmar)

foto do flickr de "Míamalu"

domingo, 22 de novembro de 2009

a cama de Gonçalo Pires


Onde si rellatam os factos tais como foram sertificados nestes autos aquando da requisitação de huma cama na villa de são paullo durante visita de s. exa. o ouvidor real e da tomada da quall cama polos ofisiais da camara da sobredita villa.

Só o tempo mostra às vezes todo o bem que alguém fez, já o mal se percebe logo de cara. Naquela época o Brasil, colonizado por portugueses, holandeses e franceses, integrava os domínios dos reis Habsburgos conhecidos como os 3 Filipes de Espanha. Expandia-se a ocupação do país na direção do interior, vilas como São Paulo de Piratininga cresciam impulsionadas por uma gente orgulhosa e bravia. Era agosto de 1620.

De modo a não passarem vergonha com o rústico mobiliário da Casa da Câmara, os “homens bons” da vila de São Paulo discutem a melhor forma de acomodar o Ouvidor Amâncio Rebêlo Coelho, incumbido de aplicar na colônia os rigorosos capítulos das Ordenações de Sua Majestade. O problema angustioso: não havia leitos decentes em toda a comarca e as notícias davam conta de que a liteira com redes de abrolho que transladava o alto dignitário já chegara a Cubatão.

Dormia-se in illo tempore segundo critérios étnicos: os brancos em camas, os negros em catres ou no duro chão da senzala e em redes os índios. Porém, as camas que serviam à classe senhorial paulistana não passavam de caixotes feitos na terra, mal se distinguindo das enxergas da escravaria. Seria um desdouro, uma incivilidade a manchar o nome e a fama da vila, se o magistrado itinerante tivesse de repousar os costados numa cama de negros!

Até que alguém se lembra da cama de Gonçalo Pires, uma bela cama de madeira carpintejada e coberta de rico dossel que ele trouxera da metrópole. Três expeditos vereadores vão requisitá-la na casa do dono que recusa todas as propostas, não empresta, não vende, não aluga e não cede a nenhum argumento. E ainda acrescenta: o senhor ouvidor que durma onde quiser, mas não na minha cama.

Diante da obstinada recusa, o juiz e o alcaide da vila mandam uma força municipal composta de dois oficiais armados com arcabuzes e seis índios com bordunas, machetes e cordas. Dois cabras são necessários para imobilizar um indignado Gonçalo Pires enquanto os índios desarmam a cama e a levam com o sobrecéu, os cobertores e lençóis de algodão rumo à Casa da Câmara, onde no dia seguinte iria dar descanso às fatigadas banhas do senhor Ouvidor.

Longos sete anos se passarão numa batalha jurídica na qual a câmara notifica, oferece compensações financeiras, ameaça, multa, roga e Gonçalo Pires sequer se digna a responder às mais altas autoridades da circunscrição. Amigos e conhecidos contavam que, perguntado, “... o quall respondeo que lha dessen como lha tomaram, que então a receberia”. Tal como o rio de Heráclito, que nunca é o mesmo a cada vez que se entra, o solerte Gonçalo sabia que aquela não era mais a sua cama.

ligo louco só pra ouvir a voz dela (homenagem ao poeta Gregório Delgado)

Os Mil Braços da Deusa da Misericórdia

não preciso do dinheiro
me fodo sozinho sei
amolar meio mundo mídia
vesgo vago meu amor via

somos parecidos desiguais
desejo beijo da lôca
doenteucorpoemeu
de amor incompleto
sofronésis sofroeu

CORPOTEU
POEMATEU
SOLIDÃO SE NOTA


grita o gregório
delgado pai de deus
(como pôde simplesmente assim ir
se quem criou)

fui eu(s)?



Eu E Minha Sombra Sufocada Pela Grande Sombra







Pessoa mediana




Eu cresci e virei uma pessoa mediana

Não entrei direto na USP, como previam
Não virei uma revelação musical, como torciam

Meu carro está batido
Eu ponho roupa no varal
Não vejo mais filmes iranianos
E eu não tenho passaporte

Fiz do inesperado meu trunfo
e ganhei a lucidez da visão
de que o perverso
estava no mapa colorido e 3D que me havia sido entregue.











Agora, só o vento.

sábado, 21 de novembro de 2009

casablanca



Meus olhos em águas de te ver partir

Enevoam tua imagem na minha lembrança

Te quero amiga sem te ver sofrer

Te quero sempre sem poder te ter

Conservo teus olhos nos olhares meus

É por ti gostar que te quero embora...

Embora chore por não ter-te amar-te amor-te morrer

Nos versos do poeta triste

(Edmar Oliveira)