domingo, 13 de dezembro de 2009

o homem que todos podiam matar e os 2 corpos do Rei



1.1 A SOCIEDADE É UM CORPO DE OUTROS CORPOS

1.2 Abaixo e acima da lei: o homo sacer e o corpo físico-político do Rei

2.0 Como vivem os que não existem? E como se vão os que nunca morrem?

2.1 Um em cada dez brasileiros não tem existência civil. Quase dezenove milhões de pessoas que não têm registro algum, que não podem estudar, viajar, abrir empresas, votar, se eleger, herdar ou adquirir bens, etc.; os sem-documentos, um não-país composto de não-cidadãos

2.2 As autoridades constituídas consideram este índice “razoável”. Melhoramos muito nos últimos tempos

3.1 O direito romano arcaico previa a horripilante figura do fora-da-lei absoluto, o homo sacer (homem sacro), sobre o qual não incidia lei alguma, sagrada ou profana. Aquele que a comunidade punha na condição de sagrado não poderia ser sacrificado aos deuses públicos e manes, mas poderia ser impunemente assassinado por qualquer cidadão

3.2 Insacrificável mas matável, o sacer se encontra fora — e abaixo — tanto do direito divino (ius divinum), quanto da legislação civil (ius humanum)

5.0 Corpo e imagem (in corpore et in effigie). O duplo sepultamento dos reis medievais na França e na Inglaterra rebate para cima, e em simetria perfeita, este tipo de ordenamento social. A origem divina do poder real assenta sobre um paradoxo: o soberano está, ao mesmo tempo, dentro e fora da soberania

5.2 Morto o rei, procedia-se à cerimônia de enterro do corpo físico deste, encerrando o período de luto nacional. Após sete dias, nos quais uma imagem em cera ou pintada do falecido monarca ficava exposta, acontecia o funus imaginarium (funeral da imagem), no qual o corpo místico do antigo soberano era sepultado. Só então é que se iniciava oficialmente o reinado do sucessor

5.3 Uma teologia da Lei, do Poder, da Cultura e da Linguagem só faz realçar a força da negatividade em que se apóiam, o Santo dos Santos que as funda é um vazio além e fora, consubstanciado na vida nua dos corpos que os integram: bandos, matilhas, gangues, corporações... sindicatos de ladrões.

6.4 Nos vídeos de corrupção explícita o dinheiro carregado junto ao corpo dos políticos, na cueca, na meia, na bolsa, no bolso; o biopoder é uma pornopolítica das imagens, em cuja pletora brilha por ausência a dimensão do sonho

6.4 A América Latina, com 8% da população mundial, concentra 42 % dos crimes contra a vida

7 Pecunia non ollet (o dinheiro não tem cheiro), o corpo sim

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