domingo, 5 de dezembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 15

Aldeia dos Quatro Montes




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15

- Boas tardes, ilustre tertúlia!
Tão imersos estavam nas novas que o Senhor Director lhes transmitia que ninguém tinha reparado que o Senhor Doutor Juiz acabara de entrar.
- Uma nova era em 4 Montes, Senhor Director?
Pedro juntou mais uma cadeira à roda das duas mesas. Salústrio saiu da cozinha para servir mais um café.
- Serei eu que estou a ficar friorento ou houve uma baixa acentuada de temperatura?
Ti Joaquina olhou para  a rua, depois virou o olhar para o céu.
- Ó Senhor Doutor Juiz vê-se mesmo que o senhor não foi criado no campo. Estas nuvens e este frio trazem neve…
- Tão cedo? Estamos no início de Dezembro…
- Cedo será… Mas não somos nós quem manda! Alembro-me bem que, há-de haver p’ra aí uns vinte anos, nevou quase logo a seguir aos Santos… Seria pelos meados de Novembro, não mais… Foi, foi… ainda se andava ao rebusco da castanha! Portanto, não passaria dos meados do mês…
A conversa desandou para a análise das mudanças do tempo. Como quase todo o bom povo que vive no campo, os habitantes de 4 Montes tinham uma opinião bem fundada, no seu modo de ver, sobre o assunto.
- A mim ninguém me tira da cabeça que estes destemperos do tempo têm a ver com a ida do homem à Lua, arrematou a Ti Joaquina.
O Senhor Director não se conteve.
- Ora minha caríssima senhora! Na sua douta opinião, o simples facto de a humanidade ter conseguido dar um salto até ao nosso satélite natural…
- Ó senhor Director… Sabe que eu tenho muito respeito pelo senhor! Escreve muito bem, fala melhor… Mas faça-me o favor de não me confundir os miolos! Então não é verdade que, nos dias de agora, as colheitas andam destrambelhadas? Num ano, temos a castanha em Novembro, no ano a seguir lá pelos meados de Outubro já o ouriço se está a arreganhar…
Todos tinham uma opinião a acrescentar. Porque a época das vindimas varia muito… Porque num ano chove a potes e, depois, passam-se anos em que até os lameiros secam no fim do inverno…
Pedro trouxe a sua experiência de África. Até mesmo por lá os excessos da natureza eram sentidos.
A Ti Joaquina olhou, de novo, para a rua e notou que a tarde se findava.
- Ó Diabo!... Como o tempo passa!
Despediu-se e, antes de sair, anunciou que para o almoço do dia seguinte ia fazer uns milhos a acompanhar uma linguiça das de cozer… E, talvez, também um salpicão e uma chouriça de sangue.
O Senhor Director era perdidinho pelas chouriças de sangue da Ti Joaquina.
- Conte comigo! Faça-me o obséquio de reservar uma mesa… Caro Engenheiro Pedro dá-me a honra da sua companhia?
Ficou combinado que iriam todos almoçar à Pensão Moderna. Angélica ainda hesitou um pouco. Se nevasse, sabia que no Lar iriam ter problemas. Mas só de pensar nos milhos… Adorava aquela prato. Lá aceitou o convite do Senhor Director.
- Ena… Para tão distinta companhia, vou ter de me aprumar! Contem com uma surpresa das minhas para a sobremesa!
A saída da Ti Joaquina provocou a debandada, quase geral. Ficaram à mesa, Pedro e o Senhor Director. Salústrio serviu-lhes uma aguardente velha, com mais de dez anos de casco.
- Belíssima… Aprecie esta cor! Que me diz, meu rapaz?
- Pai, está muito boa! Ainda é daquela…?
- Exactamente! Tenho tido cuidado no gasto… Isto não é bebida para qualquer bico! Está reservada para os clientes especiais!
Pedro aproveitou uma ida do pai à garrafeira para voltar ao assunto do semáforo.
- Então, Sua Excelência quer fazer uma inauguração de arromba… Até vai meter discurso!
- Sabe, Pedro, também me parece um exagero… Mas…
- Bem vistas as coisas… Qualquer investimento tem de ser valorizado. Sua Excelência tem de tirar proveito de tudo para se mostrar aos eleitores!
- A mim o que mais me espantou foi aquela ideia de que se vai iniciar uma nova era! Está bem que os sinais… os semáforos são algo de moderno, nova tecnologia e isso tudo! Mas há aqui qualquer coisa que me escapa…
O Senhor Director era um profundo conhecedor dos meandros do poder local em 4 Montes.
- Não me lembro de, nestes seis anos de mandato de Sua Excelência, o ver preocupado com a modernização de 4 Montes! E, agora, assim sem justificação suficientemente plausível, aparece com esta ideia… Nova era?!
Pedro aquecia nas duas mãos o balão em que o pai lhe servira a aguardente. Antes de beber mais um trago, aspirou com visível prazer os aromas que o calor libertara.


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

2 comentários:

missosso disse...

carago, os novos tempos que se anunciam em 4 Montes são os nossos: clima descontrolado, opiniões desencontradas... ah, meu reino por essa aguardente com 10 anos de casco e uma boa morcela!

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
esteja á vontade! é só vir até uma certa terrinha que vc conhece e encontra tudo isso e muito mais... tirando as personagens malucas que o autor inventou mais as (espero eu...) interessantes peripécias em que se vão metendo.
abs