quarta-feira, 15 de março de 2017

a missão do papagaio



Conta-se que o rei dos pássaros deixou cair no centro da China uma pluma esplêndida. A radiância das suas cores irisadas atraiu cem mil pássaros dos quatro cantos do mundo, eram tão numerosos que encobriam a lua e o peixe, as nuvens e o sol. Sabiam que a fortaleza de seu rei estava no Káf, a montanha circular que rodeia a Terra. Empreenderam a quase infinita aventura, superaram sete vales, outros tantos mares; o nome do penúltimo era vertigem, o ultimo se chamava aniquilação. Muitos peregrinos desertaram, alguns pereceram. Trinta purificados pelos trabalhos chegaram à montanha real e pisaram a soleira do palácio de cristal polido.
Enfim, contemplaram.
Aquele sobre o qual recai um encontro afortunado adquire imediatamente a posse de cem segredos, o sentido misterioso das coisas. No mesmo instante, aqueles bem-aventurados aprenderam a linguagem dos pássaros e foram cumulados de todos os bens. Asseguram as tradições que tal ciência possibilita conhecer a si mesmo, ao mundo e às criaturas na proporção que mantêm entre si, e também com sua essência ou origem. Foram informados que deveriam instruir a humanidade nesta língua tão antiga que mais parece canto, música, dança, e a sua expressão mais pura: o número.
Estavam em êxtase quando o monarca retirou os noventa e nove véus do seu rosto deslumbrante como o sol, produzindo incontáveis sombras sobre a terra. Depois, lançando um olhar sobre cada uma dessas puras sombras, desprendeu-se delas, deixando-as no mundo, e cada uma deu nascimento a um pássaro: poupa, lavadeira, papagaio, falcão, codorna, pavão, faisão, rola, pomba, rouxinol, pintassilgo, pato... Puderam compreender como as diferentes espécies de pássaros que vivem no mundo não são mais que a sombra desta presença, descobriram assim que se deve admirar com inteligência o mistério, mas divulgá-lo com mais sutileza ainda.
A poupa, líder e guia dos viajantes, foi quem primeiro percebeu que não há olho susceptível de admirar esta beleza, nem mente para compreendê-la, pois ela não se deixa aproximar como às belezas temporais. Porém, tamanha é a bondade do rei dos pássaros, que ele fez um espelho para refleti-la: o espelho é o coração. E por isto o coração deve ser um espelho resplendente e profundo, bastará olhar e ver aí sua imagem. E também por isto é que a linguagem dos anjos é mais facilmente aprendida pelos bebês, os loucos, os amantes e os poetas.
Então chegou a hora da poupa incumbir o papagaio da sua missão junto aos homens e mulheres habitantes das cidades. O papagaio vestia um traje verde como pistache e usava um colar de reluzente ouro em seu pescoço, comparado a seu fascínio, o gavião não era mais que um mosquito, por toda a parte o manto verde das florestas refletia o brilho de suas plumas.
― Ó poupa, os homens têm a alma vil e o coração de aço. Vão trancar-me numa gaiola de ferro, amarrar-me a correntes, cortar minhas asas e serrar meu bico. Tão gracioso sou, livre de suas perseguições!
― O cativeiro é duro com todos, principalmente com os espíritos verdadeiramente livres, mas não te enganes: quem deve aprender é o mais forte. Só poderás quebrar as cadeias do teu senhor quando ele estiver livre da escravidão que te impôs.
― As cidades dos homens são como desertos para quem se acostumou com a doçura dos frutos, a brandura da sombra das árvores, a felicidade de migrar em bando junto aos seus irmãos.
― Busca, papagaio, a água da vida e não percas a alegria dos caminhos. Põe-te em marcha, porque não terás a amêndoa, terás somente a casca. Age como o amante, renuncia à tua alma para procurar o coração do amado.
― E como farei eu, triste e cativo, para derrubar os muros de almas tão empedernidas que prendem os nascidos para voar e embelezar os céus?
― Repetirás as palavras que eles mesmos dizem, mas das quais são incapazes de escutar o verdadeiro sentido. Considera o todo, busca o todo, escolhe o todo, vê o todo.


Um comentário:

Vanessa Milred braga disse...

Ola Filipe desculpe usar o espaco para enviar recado mas estou tentando falar com o Marco peluso sem sucesso sobre um cartel que ele esta fazendo na escola brasileira de psicanalise. O tema que ele esta fazendo e: narcisismo e desejo do analista. Queria falar com ele sobre o tema e compartilhar esse texto:
Silent Treatment: Preferred Weapon of People with Narcissism

The silent treatment can feel like a punishment worse than death.

The silent treatment is a form of emotional abuse typically employed by people with narcissistic tendencies. It is designed to (1) place the abuser in a position of control; (2) silence the target’s attempts at assertion; (3) avoid conflict resolution/personal responsibility/compromise; or (4) punish the target for a perceived ego slight. Often, the result of the silent treatment is exactly what the person with narcissism wishes to create: a reaction from the target and a sense of control.


The target, who may possess high emotional intelligence, empathy, conflict-resolution skills, and the ability to compromise, may work diligently to respond to the deafening silence. He or she may frequently reach out to the narcissistic person via email, phone, or text to resolve greatly inflated misunderstandings, and is typically met with continued disdain, contempt, and silence. Essentially, the narcissistic person’s message is one of extreme disapproval to the degree that the silence renders the target so insignificant that he or she is ignored and becomes more or less nonexistent in the eyes of the narcissistic person.

The emotional maturity of a typical narcissistic person is akin to a 5-year-old child.