sábado, 17 de setembro de 2011

Camilo, o Excessivo


Devolvo acertos, compro erros inaptos
dou passagem à gratidão

Quero matisses roubados
acorrentadas, nulas, solidões

Encomendo tradição ao acaso
injetando brevidades no adeus

Facilito a força dos prazeres
mas intenciono garantias alveoladas

Comemoro o absoluto invisível
sem comunicar a opinião da memória

Enjeito o poder dos poderosos
cancelo porquês com pecados

Flutuo no íntimo, coagulo,
ideológico, o azul cooptante

E sofro,
sofro à porta da tristeza crua

A desgraça do próprio destino
antecipado

Removo a montanha dos apesares
atinjo o que sente e não pensa

Contenho toda a distância, acaricio
a promessa e os profetas

E agora, alfinetado à vida
mariposa, dor e raiva

Tenho o caminho fechado para
ela ― Ah,

Não ser inocente, insensível, nem mesmo
um velho fantasma dos mortos perenes

domingo, 11 de setembro de 2011

é preciso reconhecer
a vida
não resiste

a uma pergunta
séria
e que é difícil

mesmo impossível
atribuir
sentido ao que não

tem
o brilho do nada
que

há em tudo que
vive
em tudo

quanto busca
o transcendente
pela

recusa do seu
falso
rosto máscara do

corpo
esse traidor em
potencial

virtuosamente
adestrado
hipocondríaco

higiênico
instagram
do universo

contemporâneo
cujos caminhos e leis
oferecem

sinais de inédito
ouro
invernal

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

os zerossexuais (parte final)


Do lado de fora do banheiro, a moça procurava acalmá-la, insistindo que parasse de gritar para que pudesse explicar a situação. Passou-lhe roupas pela porta assim que se convenceu de que não havia perigo. Chorava muito.
Até que tomou coragem e saiu.
Uma olhadela rápida desfez a hipótese maluca que se formara na sua cabeça: não tinha feito sexo com um travesti ou algo do gênero, diante dela, inteiramente nua, estava uma pessoa que positiva e definitivamente pertencia ao sexo feminino.
Na certa essa zinha daí havia se infiltrado na casa dela, enquanto o comparsa fazia a “limpa”. Detalhe incômodo que não encaixava: o que faziam as roupas do cara de ontem espalhadas pelo chão do quarto?
― Não tenho dinheiro vivo em casa, as poucas jóias você vai encontrar naquela gaveta...
― Você pode ficar descansada, não vim aqui atrás disso; este é um assunto delicado e que diz respeito a nós dois... digo, nós duas...
― Cadê o cara das flores, que veio ontem? Por quê vocês precisavam me enganar desse jeito? ― a Mulher soluçava desconsolada, só queria que tudo aquilo acabasse logo.
― Aí que tá, o Alfredo sou eu.
― Hahahaha, fala sério! Essa é boa, me diga... então você tava usando um consolo ontem à noite?... mas, e os peitos, e esse cabelão, como é que você disfarçou tudo enquanto me passava a cantada?
― Em primeiro lugar, não foi uma cantada; segundo, ontem eu ainda não tinha sido transformado por você...
― Como assim, transformado? É trans-for-ma-da, você é uma mulher!, ou está querendo me dizer que você é uma espécie, assim, de camaleão do sexo?
― Do sexo não, do amor. E você também é.
A Mulher deixou-se cair na cama queen size, era muita informação demais. O incrível é que agora, reparando bem, a fulana realmente parecia uma versão feminina do homem que lhe proporcionara uma noite inesquecível.
― Sei que não é fácil para você, como não foi para mim quando descobri... somos assim, adquirimos a forma daqueles a quem amamos.
― Somos?... somos? Fale apenas por si! Quem é você para me dizer o que eu sou ou deixo de ser?
― A maioria das pessoas tem, vamos supor, uma alma sexuada: homo, hetero, trans, bi... nós não, depende por quem nos apaixonamos; não é uma identidade definida à partida, mas que acontece enquanto o jogo é jogado.
― Sei, sei... quer dizer que você virou a casaca porque se apaixonou por mim, mas... e se eu não achar graça nenhuma em me relacionar com outra mulher? Como é que fica, você vai ter mudado à toa?
― Às vezes acontece; eu posso ter encontrado o que estava procurando, mas você não. Dependendo da ferida que isso me causar, posso continuar como estou ou voltar para a forma anterior. Não dá pra saber...
― Que maravilha de cenário: se te abandono, você volta a ser aquilo que eu queria que fosse...
Emprestou-lhe umas roupas suas meio fora de uso, já que as de Alfredo não lhe serviam mais ― pelada é que não ia deixá-la ficar. Passaram para a cozinha, um café bem forte seria a melhor maneira de tentar recomeçar aquela manhã esquisita.
― ... imagine que o gênero feminino e o masculino fiquem num continuum que vai de +1 a -1, são infinitas as variações... mas no meio haverá sempre o zero, que não é um número, mas um buraco na linha, um vazio cheio de possibilidades...
― Pode até ser, mas nesse seu layout atual, vai ficar ruim de encarar você de novo... ao menos como aconteceu ontem...
O sol da manhã batia no peitoril da janela, da cozinha ouviam a rua se encher dos ruídos do dia; encolhidos nos seus pensamentos, dois animais humanos, famintos e canibais, contabilizavam suas feridas avaliando o próximo passo.
A Mulher rumina, indecisa.
Na balança da vida pesam mais as dores e perdas; e só haverá redenção se obtivermos qualquer porção, grande ou pequena, efêmera ou duradoura, de conhecimento ou beleza ou amor.
Mas a verdadeira graça está no amor.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

os zerossexuais (parte 2)


― Alfredo, de que planeta você vem?... essa certeza cega de que sou a mulher da sua vida, sei lá, parece uma coisa meio freak...
            ― Certeza, certeza, ninguém pode ter, em se tratando do que se trata... mas, veja, você mesma, contra a sua vontade, já está sentindo uma simpatia inexplicável por mim...
            Ela percebe que é verdade, mas não se dá por achada ― ... e não é tudo: você ainda me vem com essa de que eu nunca consegui me acertar com ninguém porque todos temos um amor prometido. Ai, ai, receio que você esteja no século errado.
            ― Bom, digamos que pessoas como nós sempre existiram, mas só agora começamos a nos reconhecer numa categoria à parte... hmm, dizer que somos solitários... o que acontece é que é muito difícil achar os nossos semelhantes.
            Nada do que ele dizia era particularmente original, nem mesmo interessante em si; o que realmente chamava a atenção da Mulher era a candura, o desassombro com que falava daquilo que para ela constituía um mistério da vida inteira.
            E então vinha esse rapaz, caído do azul do céu, reduzindo o enigma insolúvel a pó de traque com uma clareza meridiana: simplesmente não havia encontrado ― até agora, segundo ele ―, a pessoa certa.
            Daí uma coisa foi levando à outra: suave era a noite, o papo, solto, o passionário sopro, a brisa sussurrante, a blandícia de palavras e gestos; piano, piano, acabaram indo lontano: foram para a cama.
            Ele trazia camisinhas.
            “Safado”, ela pensou, “veio de caso pensado”. E adormeceu, depois da melhor transa da sua vida.
            No dia seguinte, a surpresa. Uma mulher deitada ao seu lado.
            Levantou-se gritando, puxando o lençol para se cobrir e se refugiou no banheiro; diante do espelho, perguntou a si mesma se continuava sonhando. “Ridículo, isto não está acontecendo”.
Estava assustada de verdade. Depois de uma noite de sonho, aquilo era um despertar de pesadelo. No lugar do desconhecido que dormira com ela, Godofredo ele disse?, agora havia uma igualmente desconhecida... mulher!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

os zerossexuais (parte 1)


            A campainha soa. Péim, péim, péeeim...
            Um toque apressado, impertinente, quase irritado de sem paciência. Quem seria a uma desora destas? A Mulher não está esperando ninguém.
            Pensa no que a avó lhe dizia: “Pra quê essa mania de independência? Pode isso?, ficar enfiada nesse apartamento num sábado à noite... acha que o príncipe encantado vai bater na sua porta?”
            Levanta-se do sofá, vai até à entrada. Abre a porta.
            Antes de completar o gesto, enquanto gira a maçaneta, vem o pânico: ninguém tinha sido anunciado pelo interfone do condomínio. Mas já não consegue interromper o movimento.
            Um homem, desconhecido.
            Que lhe estende um arranjo de flores amarrado com fita, de onde pende um pequeno envelope grampeado ao embrulho. O olhar dela escaneia rapidamente a figura do sujeito procurando adivinhar onde poderia estar escondida uma arma.
            ― Bem, se é só a entrega...
            ― Hãm, meu nome é Alfredo. Sei que você não perguntou, nem pediu para me ver, mas acho que é mais adequado começarmos assim.
            ― Começarmos... começar o quê, cara-pálida? E como é que a portaria deixou você subir sem me avisar, heim, Alberto?
            ― Alfredo. Mostrei o bilhete e eles entenderam, aliás, não vai ler?
            A Mulher permanecia em guarda na soleira, mantinha o lado esquerdo do corpo semi-oculto pela folha da porta. Não se dignava pegar as flores que o outro se esforçava por lhe entregar.
            Alfredo atura cada uma das questões e objeções com uma serenidade tão desabituada que ela não consegue deixar de se impressionar com o rapaz.
            A Mulher, finalmente, lê o cartão.
            Empalidece. O rosto dele se ilumina de expectativas. Um silêncio cavo constrange ambos no hall do elevador.
            ― Isto é uma brincadeira, ou você é maluco? Com que direito você invade a minha privacidade... vem dizer que me ama, que, se eu lhe der chance, também vou lhe amar, e que, depois que a nossa relação nos transformar, tem medo de que me afaste de você?!...
            ― É, a minha fachada não impressiona, mas se você chegar a me conhecer...
            ― Como assim, lhe conhecer? E você, de onde me conhece, senhor perfeito desconhecido?
            ― Ah, isso!, bem, com tanta informação por aí, você sabe, hoje dá pra saber quase tudo sobre alguém antes de conhecer propriamente...
            E por aí foi.
            Ela foi também, mas não sem que antes lhe viesse à mente outra frase dos tempos do zagaia: “Se a Terra gira, então andamos todos tontos”.
            Deixou que ele se explicasse na sala de estar. Fez-lhe um café. E um drinque. Alfredo tinha dito a verdade, e ela foi se encantando conforme o conhecia; embora a chocasse tamanha facilidade em aceitar um estranho dentro de casa.
           

domingo, 21 de agosto de 2011

Kathryn

Pronuncia-se “quétrin”, quase como em inglês, a única coisa que muda é o “h”, que em lugar do som aspirado do “th”, passa a ser letra muda. As palavras e as coisas não se entendem mesmo. Na vida real, não poderia haver duas pessoas mais diferentes no mundo, Catarina, a minha noiva, e Kathryn, uma garota com quem venho me encontrando nas viagens de trabalho.

Chamei a Catarina de noiva e já me arrependi, diria com mais acerto namorada, uma vez que é assim que nos apresentamos aos que não nos conhecem. Dez anos de namoro. Catarina pressiona cada vez mais: há coisa de uns três meses praticamente me obrigou a usar uma aliança de ouro na mão direita. O relógio biológico, costuma repetir.

Vai acostumando a usar, disse; um pré-noivado, porque o noivado mesmo ela já decidiu que vai ser no final do ano em alguma reunião familiar. Uma moça direita é o que é, gosta de rituais, das coisas certas, feitas do jeito certo e na hora certa. Quanto a mim, vou barrigando sem pressa, no vai da valsa. Deixo a vida me levar.

A maneira como conheci a Kathryn é um pouquinho difícil de explicar. Para falar a verdade toda, no momento a minha condição geral é bastante pouco precisa: aparentemente fui promovido ― ganho bem mais que antes ―, mas não faço idéia sobre o cargo que ocupo atualmente na empresa. Catarina sobe a serra com a vaguidão de uma situação profissional como esta.

Acontece que ninguém me fez o favor de ser claro acerca das reestruturações ocorridas, o pouco que sei conto para ela. Bem, não contei sobre a Kathryn. Até porque não sei definir o que me liga a uma garota tão sem eira nem beira; às vezes, nos meus devaneios, imagino que apresentei uma à outra e que fica tudo bem, como se nos unisse a mais santificadora amizade e não devêssemos satisfações a ninguém.

Nunca daria certo, e só agora me ocorre, também eu e Catarina não poderíamos ser mais diferentes um do outro. Ela, por exemplo, já teria esclarecido outra informação anterior: não se trata de viagens de trabalho, seria mais exato dizer que viajo todos os dias para ir e voltar do trabalho; de manhã cedinho pego o TAV, trem de alta velocidade, para um desses modernos “distritos de negócios” na região de Campinas.

As funções que exerço são as mesmas de sempre: examino contratos, participo de reuniões, negociações, seminários, workshops, etc. É meio estranho trabalhar num lugar onde ninguém mora, um bairrão artificial em que tudo foi construído de uma vez só e as calçadas servem para tudo, menos para andar nelas. A vida nas ruas inexiste fora dos horários de chegada, almoço e fim do expediente.

E, claro, também escasseiam nesta cidade-fantasma bares onde um cristão possa fazer uma horinha antes de voltar para casa; pelo contrário, no fim do dia, todos saem frenéticos na direção dos coletivos e automóveis, disparando para fora daqui. Talvez seja a razão por que não chego a formar um mapa mental deste mega-brega condomínio empresarial com a sobriedade típica de um emirado árabe.

O que salva a humanidade é que sempre existirão os botecos de caminhoneiro; num desses pés-pra-fora, nos arredores da estação do trem, vim a conhecer Kathryn. Foi como descobrir a dinamite. Cheguei nela com a conversa a mais manjada da história do universo: “você vem sempre aqui?”, “onde você trabalha?”; e por aí fui indo, imprudente, sem conseguir frear os clichês que borbotavam da minha boca.

Até que levei a cipoada. ― Que é isto Vicente, você tá preenchendo um cadastro, ou o quê?

― Hmm... e o que mais você sabe sobre mim? ― difícil discernir o que mais doía, se o tom em que falou, se os fúlgidos olhos escuros que cravou em mim ou o fato de saber o meu nome.

― Sei que as lágrimas que você chora são de má água, e que acorda assustado à noite, e que as suas angústias são os prazeres sujos que busca, sabe que mais?, quem está atrás de tudo, não encontra é nada...

― De qualquer maneira, admiro a sua coragem... um lugar como este...

― Sou uma mulher civilizada, não posso me dar ao luxo de acreditar na coragem. Confio bem mais na traição.

Com estas e outras Kathryn foi me quebrando as pernas, me pirando o cabeçote; além do que, não me exige nada, não pede nem fornece qualquer informação sobre o passado. Tudo que a pode interessar encontra-se estrita e radicalmente no aqui e agora. De noite, comecei a ter uma série de curiosíssimos sonhos recorrentes: estou num mundo paralelo (pesadelo, videogame?), lá, devo escalar uma torre, escapar de armadilhas, e tudo isso com um pernicioso limite de tempo.

Não tem apelo, ajunto, nem agravo; se erro na montagem dos quebra-cabeças, ou vacilo na escalada da enorme Babel, na qual se ascende subindo em caixas que se puxa e empilha, perco a vida e volto ao começo de cada estágio. Bizarro, não sabia que era possível sonhar assim, avançando através de fases, como se houvesse um problema a ser solucionado. A dificuldade varia de moderada a simplesmente cruel.

Gozado como são os pequenos incidentes que mais podem descortinar os infinitos desfiladeiros da angústia. No moderno trem veloz, viaja-se praticamente sozinho; sempre que possível, os poucos passageiros preferem se isolar nas cabines amplas e iluminadas. Não conversar com o vizinho ao lado já está incorporado como o não fumar. Mas o camarada estava na minha frente, aos prantos, soluçava balbuciando ora para mim, ora para um celular que não completava a ligação: “atende, por favor... como é que pode desaparecer assim?...”

domingo, 14 de agosto de 2011

a bárbara multiplicidade do maravilhoso terrível


Todos os meus cachorros se chamam Bingo.

Quero dizer todos os que vieram depois do Bingo, o primeiro, aquele que desapareceu no mesmo dia em que terminou a minha infância. Ainda não ia para a escola, mas começaria no ano seguinte; acabava de completar seis anos.

Quase sempre, em meus devaneios, me transporto para aquela casa, e é sempre a mesma sala onde derivo sozinho, perdido entre painéis de mogno; (estou sentado no chão escuro), os dedos entrelaçados ao brocado do sofá, oprimido pelo estofamento e o peso das cortinas.

Às vezes quedo-me pasmando durante minutos ou horas, tenho esse costume de ficar de cisma, espécie de meditação involuntária que termina numa pergunta inútil: “Será possível que não tenham percebido a ação da Bloqueadora?”

A escada do sobrado onde morávamos tinha um patamar onde a Bloqueadora se escondia para nos tocaiar. Surgia do nada e impedia a passagem de um lado: “Oh, me desculpe”; depois do outro, “Me desculpe novamente”.

“Desculpe, desculpe, desculpe outra vez”, ela prosseguia até o primeiro grito; então, desaparecia correndo, deixando um dos irmãos mais novos a chorar. Eu era o caçula, tinha menos sete anos que ela. O único ser vivo que me ligava ao mundo era um fox paulistinha com jeito de vira-lata.

Castigos físicos não a assustavam, como se a certeza de saber infligir mais do que recebia lhe pagasse com alguma forma de corretagem da dor. Descobriu que podia maximizar a minha angústia adiando a retaliação e, sobretudo, variando suas muitas, e para mim incompreensíveis, vinganças.

Viajamos nessa época com toda a família, duas semanas em Caxambu. O carro cheio, a casa trancada e a Bloqueadora com um sorriso petulante. O Bingo ia ficar com uma vizinha que não conhecia; acho que foi a última vez que rezei ainda acreditando.

Voltamos e o Bingo não voltou. Anos depois disso, mudamos para um apartamento em outro bairro. Mas aí já era outra pessoa. Lembro que odiei a escola, os colegas, o bairro, e tudo mais que veio em seguida desde então.

Foi também quando comecei a desejar que Deus morresse. Até porque Ele tinha visto tudo: a trama da minha irmã, a omissão conivente de mamãe, a paralisia do meu pai, os primeiros sinais do problema do meu irmão...

Mas o que o cão tinha a ver com tudo isso me escapava, como ainda escapa. Nas lições da catequese descreveram-me o pecado como um cravo na madeira mole da alma; a confissão é capaz de remover o cravo, mas não a marca deixada por ele.

domingo, 7 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

na temporada dos furacões

É como uma revoada de pombos em fuga de um campanário que estronda subitamente. Hoje, principalmente agora que faço um esforço de sistematização nestas minhas memórias, percebo que as badaladas daquele sino me embriagaram o juízo e obstruíram os sentidos. Diziam-me: “Irany, você é o Collin Powell brasileiro”, “desse jeito ainda vai chegar a Ministro da Defesa”, “o primeiro negro no Estado-Maior do Exército”, ou ainda, “a importância da sua missão é maior do que se tivesse sido enviado para Marte”.


E não era pra menos, basta considerar o contexto da época: os americanos atolados no duplo front do Iraque e do Afeganistão, o Brasil aspirando ao protagonismo no cenário sul-americano e mundial, a situação na ilha deteriorando rapidamente para um quadro de guerra civil ― literalmente tudo parecia recomendar a missão de estabilização do Haiti decidida pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 2004. Os capacetes azuis seriam majoritariamente brasileiros e a chefia militar da Missão de Paz era minha, General de Divisão Irany Damião Galdino.


Embora muito me custe, porque amo a instituição à qual servi tantos anos ― e já que aqui me permito expor o que os nossos arquivos não revelarão nunca ―, sou forçado a admitir que a intervenção no Haiti é um redondo fracasso: político, estratégico, militar, humanitário, etc. Aliás, recomendo a qualquer um que habite um lugar onde chegue qualquer coisa que leve o nome de “missão de paz”, que fuja incontinenti. Sebo nas canelas. Nada é o que as palavras dizem, e não me espantaria se esta desastrada intromissão na soberania de um país entrar para a história como um sucesso retumbante.


O que você enxerga na figura abaixo?



Tanto pode ser um pato como um coelho; poderia até ser ambos, um ambíguo pato-coelho, mas também se pode dizer que nem uma coisa nem outra, pois não passa de um conjunto de pontos e linhas... onde vemos o que queremos ver! Assim é a linguagem, com a qual começamos por representar o mundo, mas que acaba por criar um mundo próprio com seus infindáveis jogos e disfarces. Assim sucedeu a mim, Monsieur le Général Galdino, lobo-ovelha & um dos muitos arquitetos do caos que arrasta os caribenhos para a miséria e o massacre ao sabor dos impérios que há séculos assolam suas águas azul-turquesa.


Monsieur le Général. Desta maneira, com o suave acento creole, me tratava o meu intérprete e ajudante-de-ordens informal, Pascal Beauvoisin. Recrutado meio por acaso entre os milhares de jovens sem rumo nem futuro que enxameiam pelas ruas de Porto Príncipe, rapidamente Pascal se tornou imprescindível no meu trabalho que envolvia diretamente a população local. Através dele comecei a ter um vislumbre do que realmente se passava ali, e o que a princípio me parecia cristalinamente claro, mostrou ser um dos tipos mais cruéis de pato-coelho.


Foi na Ilha de Hispaniola, que hoje abriga o Haiti e a República Dominicana, que Colombo primeiro pisou a terra do Novo Mundo; no Haiti levou-se a cabo a primeira rebelião bem sucedida de ex-escravos; espanhóis, franceses, americanos, e agora, nós, a potência emergente, decidimos que não ia ser bem assim. Desde que a CIA e a NSA depuseram o último presidente haitiano democraticamente eleito, a única catástrofe que Washington e a “missão pacificadora” que chefiei não causaram diretamente foi o terremoto de 2010.


Porque até uma epidemia de cólera trouxemos para esta ilha onde 80 % das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. Um destacamento de soldados nepaleses contaminados; perfeita ilustração de como um encontro internacional de escoteiros pode muito bem encobrir os mais espúrios interesses geopolíticos ― o nome do jogo aqui é: vamos esvaziar a área de influência de Chávez e de Cuba e o povo haitiano que engula mais umas décadas de eleições fraudadas, governos-fantoches, corrupção e violência. Quando visitei Pascal, que morria esvaindo-se em diarréia naquele nauseabundo hospital de campanha em Bel Air, percebi que tinha chegado ao meu limite.


Há lembranças de todos os tamanhos e feitios, algumas até que são formas de esquecimento, e há aquelas imagens que ficam agarradas feito pano sujo à parede da memória; era um fim de tarde mormacento no início da temporada de furacões, meados de junho, quando o calor estival vem encerrar as primeiras enchentes do ano, como de hábito, retornava ao alívio refrigerado do escritório para organizar a agenda do dia seguinte e fazer hora até que a viração noturna tornasse respirável o ar no percurso de volta para a vila militar; ia entrando quando me apercebi da sombra que se movia lá dentro ― Pascal ―, de costas para a porta, deslizava de braços abertos e estendidos como a abraçar as prateleiras da minha biblioteca, suas mãos acariciavam as lombadas dos livros, na cabeça, pendida para trás, divisavam-se as narinas dilatadas parecendo absorver um perfume raro; o moço era uma traça: devorava os romances que lhe emprestava para aperfeiçoar o português: comecei com João Ubaldo e cheguei a Adolfo Caminha; anunciei a minha presença pigarreando, um raio de luz coado pela gelosia infiltrava um resto da radiação mais luminosa do dia, ele não se mostrou assustado nem constrangido, pegara uma edição ilustrada do Kama Sutra, perguntou porque eu guardava esse livro com a lombada virada, respondi: Pascal, há certas coisas que devemos esconder; retrucou-me em francês (o que quase nunca fazia), “ah bon?, c’est dommage ça...”, olhou dentro dos meus olhos e pôs-se a ler um trecho: “o amor é temido e desejado por homens e deuses, a morte, os homens temem e os deuses invejam”.


Bel Air, Cité Soleil, Port-au-Prince, favela que se preze tem de vir com esse humor mordaz embutido em seu nome: que o digam Heliópolis, Paraisópolis, Cidade de Deus... Às vezes precisamos viajar bem longe para entender as lições da própria terra.

domingo, 3 de julho de 2011

os pregos


Havia um problema na Pizzaria Galileo naquela tarde. Um cabeludo e andrajoso cliente tinha comido, bebido e tomado café, e agora recusava-se a pagar.

- O senhor não pode sair sem pagar, meu senhor...- o garçon começava a ficar irritado.

- Sinto muito irmão, não faço parte do mundo do capitalismo, vivo da caridade alheia enquanto propago a palavra do Pai.

Capitalista ou não, o garçon resolveu chamar o patrão, 'seu' Domenico, para desenrolar a pendenga. Se o cara fosse mesmo Filho do Homem, não era ele que ia se complicar por isso.

'Seu' Domenico não ficou com meias palavras:
- Escuta aqui, filhote de INRI Cristo, na frente do restaurante há uma praça com fonte e chafariz, se você fizer o Moonwalk do Michael Jackson em cima das águas tá tudo certo, caso contrário, chamo a polícia.

O homem dirigiu-se à fontana e começou a andar na superfície do tanquinho. Quer dizer, ele até que começava bem, dava dois passos sobre as águas, para logo afundar.

- E então?...

- Sabe o que é, meu bom homem, depois que me furaram os pés na Cruz, este milagre não sai mais direito...

Kashf: 1. caminho 2. desvendamento


não diferem o amor e o desejo ardente
o amor é um oceano infinito
onde
os céus não passam de um micro
floco de espuma

o desejo aflui para o rio
caudaloso
do amor primordial
são as vagas do amor que giram
a roda dos dias
e das noites

o amor veio a mim
e aniquilou
meu eu encheu
todas as partes como um boneco
de pele

o amor não me quis deixar
mais
perdi todos os véus
minha realidade única
atingi
lo

de mim já não resta senão
um nome
tudo mais somente espelhos
capitoso
vinho que abundante escorre
da sua face

segunda-feira, 27 de junho de 2011

sem título

há no mundo um mundo
medra imerso em medo
agora
que voltei da volta ao mundo
minto
revolto ensombrado durmo
bruma adentro
de meias

entretanto movimento a mente estaca
entre
tempo entrante de mor
sorte ânsia & espanto
enfim um mar
a que sempre (diminuto)
volto

porque não vento nem chovo
de fato
nunca imerso impenso
desperto
o amor que o tempo des
dobra

dou de ombros consulto
oráculos
de fora a fora finjo
fujo da obra inverso
semi névoo sem tamanho nem
tento

mas sigo ainda sendo
cego
ovas mortas escutando
junto
ao muro olhos de pano
apostos atento a
mirarte

pois que um mundo tão
sem vôo
vou em frente enfrento
ar
onde ondas ondeiam e o mar sempre
volta

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DECIDIDAMENTE





















Decididamente
eu não estou feliz.


Com o pouco leite

que a vaca da vida
me deu por direito.

Decididamente
eu quero muito mais.

Eu quero
ter um carro
e uma casa decente.

E ter coisas boas,

como roupas novas
e caras e quentes, e lindas e tudo.




Eu quero ter saúde,
dentes
e
cabelos,
ir à manicure, ao cabelereiro: quero cheirar bem.



E que ninguém me venha com aquele papinho
manjado
e cretino
do Homem Feliz.


Decididamente.






foto: Dólares

domingo, 19 de junho de 2011

Ratazanas Humanas



Momentos de tremor.


Onze horas da noite. Decidimos não ir à Festa do Boi no Morro do Querosene. Dormimos.


Um barulho na casa ao lado, que está vazia há anos. Subo à laje e espero os olhos se acostumarem ao escuro.


Duas ratazanas humanas, esguias e ágeis, tentando pular o muro do jardim da minha casa.


Naquele ponto o alfeneiro do lado de cá se apóia na goiabeira do quintal do falecido vizinho. Um muro, uma tela e uma cerca viva de cafezeiros e sete-léguas dividem as casas.


Gritei feito louco lá de cima. As ratazanas escaparam para a rua pulando o portão da casa abandonada como se ele não existisse.


Sumiram pelas vielas que cortam os longos quarteirões do bairro. A polícia militar chegou em vinte minutos.


Tem acontecido muito na região: invasão de casas, estupros, roleta-russa, enfim, oportunidades únicas de vivenciar em primeira mão um conto de Rubem Braga.


Atenção: isto não é ficção.


É apenas um país que vai pra frente, praticando a justiça dos ricos, empurrando com a barriga o trânsito assassino, varrendo pra baixo do tapete terroristas italianos, deputados procurados pela Interpol, senadores que censuram jornais, sindicatos de ladrões e mafiosos que se tornam patrimônio nacional.


Boa sorte a todos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Revisita


O tempo parou
E eu voltei para beber
Teus muros arcos tijolos
Teus velhos mestres curvados
Teus anfiteatros
A alegria taberneira dos estudantes
O livreiro, agora velho, magro e de chapéu
Tua solenidade, oculta pela aparência moderna
Mostra a cara no portão de ferro trabalhado
Na cara de ferro dos seguranças
Nas enfermarias compungidas
Procurei pelo adolescente perdido
Que errava pelos corredores
Corria, corria, corria
Mas não chegava nunca
Porque não tinha aonde ir
Mas ele não estava lá
Não havia com quem fazer as pazes
Havia o café na cantina vazia
E um tempo que não volta
E não morre

sábado, 11 de junho de 2011

por que se mata o poeta?

Árdua entre as mais tarefas

que impõe a vida continuar

vivo não é fácil e requer

experiência

ninguém pediu para nascer

supostamente

por que então o poeta pede

para sair?

desce do trem e da vida antes

do fim da festa do pôr

do sol do inverno e da

colheita

o estouvado gesto é claro

erro crasso e necessário

a mim a vocês ao camponês

e ao operário

o poeta surfa a onda na velocidade

da luz

um vacilo e ele perde todos os espelhos

torna-se irremediável solitariamente

contrário

tragado pelo caldo primitivo nas entranhas

do Grande Buraco

em 1925 Siérguei Iessiênin corta os pulsos

escreve versos com sangue e

se enforca

grita Maiakovski contra os "versos velhos no velório" do jovem

porque somos chamados a sustentar o corpo imenso

do morto

já que sem poetas estamos um pouco menos

despertos

menos atentos à barulheira que faz a poesia

em nossos sentidos

os suicidas sempre deixam uma mensagem

em código

escrita numa língua antiga e indecifrável

a qual esquecemos

mas que afinal lembramos uma última vez

cedo ou tarde.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Medusa Obtusa (arte é legal, artista que é um saco: eumeu & meueu)




seu olhar

paralisa

meu

corpo

eu

me assento

no que carece

desespera da

mente de

apoio

eu

sábado, 28 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 3 (final)





“O quadro inicial se esclarece. Estaria completamente morto para a beleza aquele que não se enamorasse da divina Anunziatta uma vez que a visse, e o novo Duque da República de Veneza, apesar da provecta idade, não ficou imune à aura virginal que dela emanava. Anunziatta vinha a ser filha de um nobre de antiga cepa, Oreste della Quercia, com várias gerações da família inscritas no Libro d'Oro, no qual se registravam todos os nomes da nobreza veneziana. As bodas foram realizadas com a pompa do patriciado e a pressa do ardente desejo que espicaçava Tonino Palocci, o salvador da república, o conde eleito Duque. São eles, Doge e Dogaressa, que o quadro a óleo retrata.



Fechava-se deste modo a teia de poder e influência que o talento de bastidores de Giuseppe Dirceo tecera: tornara-se fiador do líder máximo e, de quebra, apadrinhara uma aliança matrimonial com o influente círculo dos corretores da bolsa de Rialto. Fiel ao seu estilo de perfil baixo, o líder do influente Conselho dos Quarenta assistia ao Dia da Ascensão, que celebra a união de Veneza com o mar, de um balcão da Loggia do Palazzo Ducale. Na laguna à sua frente, tendo a Isola de Giudecca a limitar sua visão do mar para além do Gran Canale, assistia às manobras da galera oficial do estado, o Bucentoro.



O sol cadente resplandecia em brunidos tons de amarelo, vermelho e fúcsia, quando colossais massas de nuvens cobriram repentinamente os céus; o rugido apavorante dos trovões atroava, raios de prata iluminavam os ares, as águas, encapeladas por ondas gigantescas, balançavam o Bucentoro perigosamente aterrorizando a tripulação e o povo no porto. No trirreme de fundo chato, inapropriado para manobrar em mar tão agitado, viajavam 168 marinheiros, 90 autoridades da República sob um baldaquino de veludo vermelho e, no trono da popa, o Duque e sua esposa. Dir-se-ia que Netuno recusava o anel de ouro atirado às águas pelo Doge no ritual que marcava o dia da sua consagração.



Partindo do mole do porto de San Nicolò, um destemido gondoleiro faz-se ao mar manejando destramente sua pequena embarcação na tempestade, salvando Palocci e Anunziatta do naufrágio iminente. Era o belo Luigi Calamaro, vulgo Seppiolina. A multidão no cais carrega os três até à Piazzetta em delírio, pedindo aos brados que a Seppiolina fosse conferida a honra de ser o ‘Turco’ na festa do Giovedi Grasso. Oculto pela treliça de madeira de um muxarabi, Dirceo, que não perdera nenhum lance dos dramáticos acontecimentos, decide cooptar o novo herói popular, principalmente ao perceber o jovem magnetizado pela inebriante duquesa.



Chega o Carnaval, todos aguardam o ‘volo del Turco’, em que Seppiolina descerá uma vertiginosa tirolesa que se arma no campanário da basílica e cujo fio termina no balcão em inigualável estilo gótico da Dogana. Lá, em troca do ramalhete que traz em mãos, será recebido com honras e recompensado da proeza com régia quantia em ouro e ducados. Mas o boquirroto gondoleiro, alçado à condição de celebridade, não largara o hábito de se embebedar nas tascas e tabernas: numa destas esbórnias, um agente do serviço secreto de Dirceo aprende que ele reconhecera na duquesa sua meia-irmã, da qual fora separado em criança.



A história fazia sentido, era voz corrente que Oreste della Quercia gerara um filho bastardo, criado junto com filha legitima até à idade de dez anos, quando a Signora della Quercia descobriu tudo e expulsou a empregada e a criança de casa. Seria um escândalo se o novo queridinho das massas fizesse um discurso acusador aproveitando o palanque festivo. Assim que Seppiolina aterrissa e recebe sua recompensa, o consigliere o leva para conhecer o palácio, a um tempo, residência ducal e centro administrativo e judiciário da curiosa república, mistura de aristocracia e democracia.



Ciceroneado por Beppe Dirceo, Seppiolina se deixava levar como que enfeitiçado: afrescos, marinhas, esculturas pagãs, frisos de templos, espólios de nações bárbaras, sucediam-se numa panóplia infinita ao longo das alas do Palazzo Ducale, que, apesar da imponente fachada voltada para a laguna do Gran Canale, possui uma arquitetura interna extremamente leve e arejada. Mesmo para um veneziano nato, era arte demais.



Circulavam então versões maldosas de que o velho Doge tinha já muitas dificuldades em acordar suas forças viris; falava-se à boca pequena de nefandos sabás, no qual chegaria a correr sangue de inocentes, realizados nas câmaras secretas da Dogana, apenas para espevitar fugazmente o ‘nervo’ micróbio do macróbio guerreiro. Num aposento de altas portas folhadas a ouro, adamascado em tons escuros, maciços lambris, movelaria exótica e uma imensa cama de dossel de veludo lilás e lençóis de seda chinesa, Seppiolina soube que a verdade ia além do imaginável.



Ali, nobres e mercadores nacionais, embaixadores estrangeiros e tutti quanti, faziam fila para desfrutar do corpo angelical de Anunziatta; a pobre criança acreditava assim honestamente servir a seu país, enquanto o caviloso Dirceo celebrava seus acordos ― e o Duque se comprazia destas abomináveis orgias e profanações ao seu próprio leito conjugal! Luigi Calamaro, conhecido como Seppiolina, descobriu que idolatrara uma entidade bela, mas efêmera, a sua amada Serenissima Repubblica incorrera na mesma desmedida que havia destruído o seu modelo e limite, Atenas.



Enquanto ele se refocilava no leito de Anunziatta, o povo cantava nas ruas em dialeto vêneto: ‘Il Dose Palocci/ della bella mujer/ I altri la gode/ é lui la mantien!*
Naquela noite dançaram a Bunga-Bunga."


***

“Nós tínhamos poucas diversões e passeios. Fui criada na primeira metade do século vinte, uma época em que o lazer era para poucos, e muito pouco para os pobres. Fazíamos muita economia porque havia um desejo mudo, mas sempre subentendido, de melhorar de vida. Festa de pobre, ao menos de pobres como nós, significava comilança.



Tenho vivas saudades dos piqueniques que fazíamos nas margens do Córrego da Água Rasa; também era comum pegar carona na camionete de frango e ir com merenda e parentada mais longe, até ao Tamanduateí.



Os rios de São Paulo são invertidos, isto é, correm para o interior em vez de irem para o mar. O Tamanduateí, por exemplo, desembocava no Tietê, mais ou menos onde hoje é a Avenida do Estado; já o Tamanduateí recebia as águas do antigo rio Anhangabaú lá onde a Avenida São João encontra o vale do Anhangabaú.



O vale sobrou, o rio não. Enterraram muito córrego, retificaram e desviaram muito rio nesta cidade construída em cima de várzeas. Foi numa destas várzeas, nas barrancas do Córrego dos Meninos, onde tudo aconteceu.



Eu não deveria ter feito dez anos e me encarregaram de olhar por Neuda, a caçulinha tão mimada por papai e mamãe. Neuda está com três anos, um verdadeiro azougue de menina a quem mamãe nunca disse não. Foi quando descobri a maldade, ao menos aquela que cabe no coração de uma criança.



Ela foge de mim, apressando o passo ao virar um capoeirão que ocultava a descida para a margem do riozinho. Um menino passa por ali correndo atrás de uma bola.Corro gritando, mandando que ela esperasse por mim; na saída dos tufos de capim-gordura, paro no topo do barranco. Neuda me olha com uma expressão estranha no rostinho sardento.



Não, não é possível... não consigo ver o que acontece então! Quando volto a mim, Neuda rolou morro abaixo e está se afogando. Há gritos. Meu pai se atira nas águas para pegá-la, minha mãe corre para a margem. Meus irmãos chegam.



Daí mamãe me pega, a fisionomia retorcida, os cabelos revoltos ao vento da tarde quente de novembro. Ela berra comigo. A princípio não escuto, mas aos poucos as palavras me atingem como lâminas em brasa, ela me aperta os braços e grita na minha cara: ‘Que é que você fez? Por que você empurrou sua irmã?’ Tento responder: ‘Não fui eu mamãe, não fui eu, juro!’ O choro me sufoca.



Neuda teve muitos problemas a vida toda. Bebia demais, aprontava demais. Sempre cuidei dela, como também cuidei de mamãe e papai até morrer. Passei a minha vida querendo provar que não tinha feito aquilo, que podiam confiar em mim, que sempre fui boa. Servi aos outros porque achei que não prestava para outra coisa.



Estou cada vez mais certa de que meus pais deram aquele filho que nasceu antes da Neuda para a adoção. Só isso pode explicar as trevas que envolvem a minha infância depois disso, só assim para entender os mimos e quindins com que criaram a filha que veio depois. Não acho outra explicação para a raiva que havia naquele olhar de minha mãe.”


***

Quanta ironia. Quanto mais vivemos, mais voltamos para a infância. O professor não consegue abandonar seu amor incestuoso pela irmã gêmea, Maria da Anunciação. Nunca se conformou de a ver casada com um homem bem mais velho, nunca deixou que outra mulher ocupasse o lugar dela, a mulher com quem se iniciou sexualmente e a quem nunca conseguiu renunciar completamente.



Já a senhora à direita do meu leito tem um problema também infantil, mas com uma volta a mais no parafuso. Ela não pode saber o que realmente aconteceu naquele dia. Ninguém pode. Por baixo da versão não há fato, apenas outras versões. É quase impossível sermos irmãos, queremos o amor de papai e mamãe só para nós. Que ela não tenha ido além da narração familiar foi um tremendo desperdício de vida.



Fui concebido por meio de uma técnica de fertilização assistida. O médico responsável encontra-se foragido da justiça acusado de inúmeros crimes. Nunca consegui contar aos meus pais que não sou filho deles, ao menos não em um sentido biológico. O tal especialista em reprodução utilizou material genético de outros, fez experiências comigo.



Há outras 44 crianças de várias idades em coma com a Doença do Sonho ao redor do mundo, todas foram geradas com a técnica de inoculação intracitoplasmática. Resumindo: injeta-se uma célula na outra furando-a com uma agulha muito fina. Isto fica bem bonito em telas de alta definição.



Embora este não seja o linguajar que se espera de uma criança da minha idade, devo lhes dizer que, neste momento, já existem governos e empresas que estão manipulando o genoma humano. Continuem sonhando.




(* Em tradução pudica: ‘O Doge Palocci/da bela mulher/os outros a aproveitam/e ele a mantém!’)