segunda-feira, 20 de julho de 2009

(às vezes) não consigo deixar de responder a um cínico


O Sr. Ferreira Gullar, poeta e opinador de ofício, para o bem e para o mal, tornou-se um interlocutor da questão manicomial; se movido pela sua condição, corajosamente assumida diga-se, de pai de dois psicóticos, ou por suas ambíguas relações com figuras ― estas sim ― de relevo que trabalharam na junção arte/loucura como Nise da Silveira e Lygia Clark, resta por esclarecer. A luta antimanicomial não é, e nem foi, feita por ingênuos movidos por boas intenções; é antes uma das vertentes do movimento de afirmação do direito à diferença de minorias e, mais importante, uma luta pelo reconhecimento da plenitude dos direitos civis destas no âmbito das modernas democracias. Ao contrário do que afirma o nosso Simão Bacamarte das letras, o cérebro não adoece como o coração e os rins, pelo simples fato de ser um órgão muito mais plástico e, digamos, “sob medida” que os outros. Exemplos: se me torno pianista, meu cérebro aumenta a área sensitiva e motora que representa as mãos; dois gêmeos idênticos possuem configurações cerebrais distintas, mas corações e rins iguais. Falta-lhe um curso de medicina para saber disto, Sr. Gullar, como para saber que o fato de haver genes envolvidos na esquizofrenia não faz dela uma “doença hereditária” e ponto. Genes têm complexas interações com o meio; na mesma carga genética, um ambiente favorável pode gerar um gênio e um desfavorável um louco, ou, combinações variáveis de ambos ― o citado Emygdio de Barros ilustra bem esta situação. Alas psiquiátricas integradas aos hospitais gerais são realidade há muito tempo em países atrasados como a Inglaterra e a França, não “hospitais psiquiátricos secretos”. Duvido que o colunista desconheça este fato. Internações fazem parte da biografia da maioria dos chamados loucos, são situações de exceção, necessárias e problemáticas, pois que devem servir para proteger o portador e o seu meio. Torná-las o mais breve e menos traumáticas que for possível é uma discussão necessária. Um fato: “loucos” não cometem mais crimes ou atos violentos que os “normais”; o problema mesmo é que eles incomodam um bocado.

7 comentários:

Antonio Bento disse...

um artista que não consegue criar pode virar um grande babaca, sabe a história de um pintor mediocre alemão?

Júlia disse...

frase do Vik Muniz: "não acho que todo mundo seja artista, mas se a pessoa se aplica e se desenvolve, pode um dia se tornar artista como eu"

angela disse...

Tem artista que é babaca mesmo.
Gostei da resposta, ele falou muita porcaria.
abraços

Antonio Bento disse...

ela é craque, olha isso: "O que é desenvolver? É fazer uma série de perguntas de maneira não analítica nem de maneira regressiva, mas de maneira interrogativo-problematizante, digamos assim, tentando pensar o não-pensado" (Bento Prado).

Anônimo disse...

You miss him don´t u?

mauverde disse...

Fazer arte não livra a cara de ninguém, hahahahahahaha

Antonio Bento disse...

ainda bem.