domingo, 18 de setembro de 2011

Síndrome de Muichkine (parte 2)

5.
― Respondendo à sua pergunta: sim e não; sim, ela vai se desenvolver normalmente do ponto vista físico e, no aspecto mental, até mesmo evoluirá num patamar superior às outras crianças; e, não, ela nunca vai atingir um rendimento psicológico comparável, no longo prazo, aos demais colegas. Precisa ficar claro que, sem a aquisição completa da linguagem, o indivíduo não consegue competir com os outros no que se refere à habilidade de integrar múltiplas competências, aí incluído o desembaraço social...

― (Suspiro) Doutor, esqueça quem está na sua frente e fale na bucha, o senhor arrodeia, arrodeia, pra me dizer que a minha filha tem um retardo, uma espécie de autismo, como é mesmo o nome?...

― De alta performance, autismo de alto funcionamento. Veja bem, hoje em dia, procuramos relativizar essa nomenclatura do “retardo” e da “deficiência”, até porque se trata de uma população de pessoas realizadoras e criativas: dedicam-se geralmente à pesquisa, à música e...

― Sei bem... gente que depende da caridade dos outros... mas não, não me interprete mal, afinal de contas, sei o que é isso: estive em cargo público a vida toda, não é mesmo? Pra lhe ser muito sincero doutor, vou no popular, cago montanhas para o que falam de mim, se o estado que governo é atrasado, a culpa é do povinho mofino que lá padece e vive. Não sou de latomias nem relambórios, doutor, sou homem de ensinar lei pra juiz, mas Deus me guarda de ensinar a medicina ao esculápio e a missa ao vigário. O causo é que punha tento de fazer da menina a continuadora da minha obra política...

― Ha-ham, no entanto, repito, ela é capaz de fazer contato pleno com mundo como ele é, capaz inclusive de uma leitura emocional das situações bastante sofisticada, embora seja, e vá ser pela vida afora, uma analfabeta funcional quanto ao manejo da metalinguagem...

― Tenha a bondade de me traduzir o latinório...

― Bem, quer dizer que há essa coisa na fala... quando ela se volta sobre si mesma, entende?, é... imagine um elevador com espelhos paralelos: de um lado, as regras lógicas e gramaticais, do outro, a combinatória infinita do código lingüístico. Pacientes com a forma mais grave da síndrome não desenvolvem esta reflexividade, o que, se não os impede de compreender, os impossibilita de usar trocadilhos, ironia, duplo sentido, persuasão, etc.,...

― A bichinha é incapaz... de mentir?!

― Isso mesmo. É a característica dominante, que inclusive serviu para batizar a condição. O príncipe Muichkine, de Dostoievski, não conseguia mentir em nenhuma situação. Sua criança tem cinco anos... bem, o senhor me procurou porque a conduta dela já começa a gerar conflito no ambiente escolar. Hãm, também não quer dizer que ela é dona da verdade, digo, da “verdadeira verdade”, afinal, a verdade das minhas proposições é o teste do meu entendimento destas proposições...

― Hehehe... doutor, o senhor não tem jeito não, me tira mesmo por tanso, vai dando as más notícias a conta-gotas... esse príncipe era idiota, né não? Sinceridade em política é veneno, veja o caso dos acessos de Ciro Gomes, o estrago que lhe fizeram... Traduzindo, o senhor está me dizendo: olhe que inteligente ela é, e como pai sabe disso, mas sua herdeira política é que nunca será! Tô certo?

― Quer dizer, talvez... sim. É uma ilusão rousseauísta pensar que, se pudéssemos dizer tudo o que pensamos o tempo todo, a sociedade seria menos hipócrita e as relações mais verdadeiras. O que se observa na família destes pacientes é o contrário: a interação torna-se tensa e o clima afetivo, irrespirável. A mentira tem o dom de “amaciar” a comunicação, de aparar as arestas do convívio social; quando “tudo” é dito na lata, podemos ficar sem ter mais nada a dizer uns aos outros.

            ― O senhor faz o mesmo que eu faço: doura a pílula. Em política também é assim: criamos fatos, versões, inventamos personagens, para, logo em seguida, deixar tudo pelo caminho. A língua do homem público é um jogo imprevisível, ou seja, sem convenções, pressupostos ou regras explícitas; não é racional nem irracional, apenas está lá. Como a nossa vida.

Um comentário:

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
gostei dessa Síndrome!
abs