domingo, 6 de maio de 2012

Os BFFs (parte final)



Mansueto estava certo, se os dois ainda se esforçavam para manter o decoro quanto a manifestações de riqueza ― traço raro no novorriquismo ―, as mulheres deles se esbaldavam no consumo conspícuo. As respectivas Donas Encrencas haviam sido tragadas por uma orgia febril de gastanças, seus delírios bovaristas eram de deixar Becky Bloom arrastando o chinelo na 25 de março: shoppings de grife, joalherias, lojas de decoração, boutiques exclusivas e fechadíssimas, nada lhes diminuía o facho; Miami, de repente, tornara-se pequena para a fúria sagrada que as habitava. Amavam, sobretudo, comprar roupas juntas; a mulher de Walfrido, confessou certa vez à amiga, dentro do provador da Tânia Bulhões, a estranha sensação que o ruge-ruge de alguns tecidos lhe causava.
― Amiga, não sei nem te explicar, acontece principalmente com a seda pura, é o frufru passando no corpo, acho, tipo um roçamento, sabe?, e aí escuto esse sussurro brando: o grito da seda.
― Dá o dedinho aqui, isso, agora somos BFFs: best friends forever!

Na prefeitura ganharam o apelido de Chitãozinho e Chororó, muito embora não tivessem qualquer semelhança com os cantores. Circulavam boatos, aquela coisa de rádio-pião: ora era Mansueto que mordia a fronha, ora Walfrido que beliscava o azulejo; que isso e que aquilo, mas também jurar, ninguém jurava. O fato é que navegavam em mar de almirante e céu de brigadeiro, o prefeito caminhava tranqüilo para a reeleição, e WM se faziam mais e mais indispensáveis para o chefe. Na peculiar lógica que rege a política, eram considerados honestos, corretíssimos, dois varões de Plutarco; uma vez feito o desvio, não desviavam o já desviado: faziam chegar a todos o justo e devido na azeitada engrenagem que haviam montado.
― Mansueto, sei não cara... uma hora a nossa casa cai, sabe o como é: imprensa, oposição... esses caras podem levantar coisas, e aí quem dança somos nós, os bagrinhos. Olha que Deus não dorme nunca. A justiça dos homens...
― Pára já, pára com isso, meu irmãozinho! Bicho, é o seguinte: a gente sempre tem que molhar a mão de alguém pra governar, entendeu? Os caras não fazem no amor, tem que dar um café pros caras. A imprensa daqui é compreensiva (esfrega o polegar e o indicador) e a oposição... a oposição táqui, ó (bate a mão no bolso).
Tinham seus arrufos, como em toda a relação, mas a amizade sempre era maior ― amizade pura, ao contrário do que maldavam as línguas bifurcadas. Walfrido não era inteiramente cínico, pruria-lhe o gilvaz, acometiam-no as comichões do órgão moral, tinha pontadas de sinceros escrúpulos; já Mansueto, perdia o emprego mas não perdia a piada, era um gozador em período integral.
― Wal, entrei para uma nova seita...
― Como assim? Que seita?
― É a “aceita cheque”... Hahaha!
― Blasfemo. Só lhe perdôo porque sei que você tem a inconsciência das crianças...
― Hehe, para nós, chequistas, deu, é amor!
Compraram terrenos contíguos em Mongaguá onde construíram suas casas de praia, como bons filhos da ascendente classe média paulista que eram. Providenciaram uma comunicação interna entre as casas pelo jardim ― no litoral, finalmente, tornaram-se vizinhos de porta. Sempre aberta, aliás, para a livre circulação de filhos, cachorros e empregados.
A inauguração simultânea foi nababesca e discreta, como convinha, embora por força de uma megalicitação municipal, ambos tiveram de interromper o feriado, pois havia reunião na casa do presidente do partido. Deixaram mulheres e filhos curtindo a piscina e as comodidades das mansões de veraneio; as patroas não cabiam em si de contentamento.
Foi de supetão. Presos os cães, deitadas as crianças, ligados os alarmes, e com os criados dormindo na edícula, elas se divertiam experimentando novíssimos peignoirs da Victoria’s Secret sobre os lençóis acetinados da cama king size. Quando perceberam, estavam aos beijos e abraços, rolando no macio e tirando a lingerie uma da outra.
― Uau, é... nem sei o que dizer, nunca tinha feito isso... com uma mulher!
― Então não sabia o que estava perdendo...
― Hmm, menina, nunca tinha sido tocada assim...
― Boba. Foi o casamento que te acostumou mal, sabe?, o sexo no casamento é que nem a coca-cola...
― Já sei, com o tempo perde o gás...
― Sim, quer dizer, no começo é normal, depois é light, daí é zero.


2 comentários:

Johanna disse...

Gosto :)

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mauverde disse...

cê não perde tempo mesmo, rsrsrsrs

tá muito bom!