domingo, 29 de julho de 2012

O corno do Bife (parte 1)




            Estão todos na sala, calados e constrangidos, não sabem o que dizer, não olham uns para os outros; claro, os Pais negam, mas os miúdos e a criadita já compreenderam que é a última vez que estarão ali, naquela mesa, naquela casa, naquele país que um dia pensaram que podia ser deles; e quem tinha razão era o catraio mais novo, que andava sempre a dizer que íamos todos para a Catralhamba; a Mãe fez uma aletria desastrada que insiste para que comam antes de ir para o aeroporto, a canela mal espalhada, os cabelos de anjo meio esfiapados demais, o leite talvez estragado demais, é a cacimba a dar cabo de tudo, ou talvez a guerra, que faz tudo sair do costume, que fecha o Park Miramar para o brinquedo e faz o pão chegar atrasado e as más notícias antes; e vai levando os vizinhos, os amigos, os professores, como levou a cabeleireira, o sapateiro e os colegas da escola, e faz aumentar os musseques, e traz a música monótona dos morteiros e dos tiros ao longe; o Menino nunca mais vai voltar a comer, sequer a ver, aletria sem nausear, a muitas tias vai fazer desfeita, em muitas casas fará cerimónia, porque já na massa doce do trigo ficou misturado o gosto azedo e distraído daquilo que não se compreende, apenas se vive.
            ― Olhem que perto do que está por vir, os massacres da UPA em sessenta e um vão parecer uma festa saloia... O Almirante Vermelho, este comuna de merda do Rosa Coutinho, vai levar isto aqui, conosco na boleia, à breca! ― o Doutor Cardoso não cansou de o alertar, mas o Pai tinha a cabeça dura das pacaças; achava-se mais esperto e bonito e abençoado do que os outros e custou a acreditar que o pior também acontece de vez em quando.
            ― As notícias não são boas nem de um lado, nem do outro: lá na metrópole, são maluqueiras atrás das outras desde o Vinte e Cinco de Abril, e cá... candengues ainda, já matam e esfolam, cortam mãos e orelhas à catanada por uma galinha; não digo nada se não voltarem ao canibalismo... ― a Dona Judite, esposa do Dr. Cardoso, tem muita paciência com as esquisitices da Mãe, ela, que ficou tão nervosa depois que o mais novo operou a vista na África do Sul; a Mãe é muito atirada, atravessa as falas dos outros, sai-se com assuntos pouco a propósito nas conversas, vive como se andasse no chão de gelatina da lua, onde os americanos espetaram uma bandeira antes dos russos; gasta a vida em infindáveis reuniões de entusiastas da TupperWare, um mundo de plásticos coloridos e felizes, um mundo de modistas da Prenda que copiavam os modelos das Burdas que havia em todas as casas, em que se ia ver as montras da casa Sarita; um mundo em que as mulheres fumavam e enchiam o cabelo de laca e punham lenço para andar de lambreta e usavam vestidos de estampas psicodélicas: O-bla-di-o-bla-dá...
            O Menino só sossegou depois de ver todos os livros que queria levar dentro da mala: os Tintins, os Astérix, os clássicos da Disney, as aventuras de Blake & Mortimer, a Série dos Cinco, Philemon, o náufrago do T; este era mesmo porreiro, a história de um rapaz que o barco afundava e ele ia parar no T do Oceano Atlântico... tínhamos sido despejados de uma existência pacífica para a condição de náufragos em poucos meses desde a Revolução dos Cravos; as conversas dos adultos, que o Menino escuta do alto da escada pretextando sonambulismo, deixaram de comentar os filmes de cowboiada do Trinitá, ou baixar o tom ao falar das marmeladas que fazia a Emanuelle no avião, ou das alhadas do Cantinflas, e de repente se enchem de palavras e siglas enigmáticas: Junta de Salvação Nacional, MRPP, MPLA, FNLA, UNITA, Jonas Savimbi, General Spínola, Holden Roberto, Agostinho Neto; em algumas das janelas do bairro começam a aparecer as bandeiras do Galo Negro: kwacha UNITA, kwacha Savimbi, talvez os pretos financiados por Pretória não nos deitassem ao mar.
            A rádio agora dava as listas dos desaparecidos antes da Simplesmente Maria, as aulas foram interrompidas após uma rajada de Kalashnikov destelhar a escola, a cabeça de um branco espetada num pau foi encontrada à beira da avenida lá para o lado dos Combatentes; o mundo voltava a ser em preto e branco depois de já ter sido a cores no cinema e nas fotografias, que televisão não tínhamos; o que havia era o Miramar, cinema ao ar livre com vista para o mar (já diz o nome), logo ao fim da nossa rua, a Alameda do Príncipe Real, número 14; da varanda da casa, a Criada ensinava ao Menino as cores das pessoas: aquela acolá é uma senhora (podia ser preta ou branca), lá vem um senhor (é branco), aquele lá, a descer do machimbombo, é um preto da tugi; e não se lhe metia na chipala que também ela podia ser uma pretinha do Quitexe, que nunca teve pai conhecido e que a mãe entregou para que pudesse ter comida e educação com os brancos da capital; mas agora, com a famelga massacrada pelos terroristas, também ela teria de fugir para o mundo, náufraga como nós; tínhamos ido todos para a Catralhamba, o puto estava certo.

sábado, 28 de julho de 2012

NIRVANA

A estrada é  longa.
Você vai indo,
vai tropeçando,
e vai caindo,
aos solavancos, aos solavancos.
Cai e levanta, levanta e cai.


Um belo dia
(assim, do nada)
acha uma porta
escancarada
aos cinco sentidos.


Vem o nirvana,
o tal do enlightment, 
e você agora até aninha pássaros.


Curte silêncios,
planta gerânios,
e talvez seja o abrigo
das tempestades.



domingo, 22 de julho de 2012

A mulher de algodão (epílogo)


Vida que segue. Irma tomou o ônibus de volta para o litoral; viagem que transcorreu debaixo de um céu azul sem nuvens, e mudou radicalmente na descida da serra para um fim de tarde chuvoso. Ela ainda não tem como saber, mas cada palavra da médium será confirmada ponto por ponto nas semanas seguintes. Ninguém a espera na rodoviária, o marido está fora da cidade a trabalho. Impossível pegar uma condução: os pontos dos ônibus de linha estão cheios de gente voltando para casa. Resolve ir de táxi.
Então, acontece a única coisa não prevista pela benzedeira do algodão; um dos molambos de gente da calçada se levanta e vem na sua direção.
― Irma, você ainda se lembra de mim? ― um rapaz magérrimo, um ‘nóia’, desses que vagam como zumbis pelas ruas. Mãos e cintura limpas, não está armado.
A moça encara o mendigo dentro dos olhos, o susto dando lugar pouco a pouco ao reconhecimento. ― Lembro sim, você... nós fomos vizinhos há muito tempo, como cê tá mudado...
― Irma, a gente namorou, você esqueceu? Eu fui seu primeiro namorado, e você, o meu primeiro amor...
― Verdade! Mas isso foi há muito tempo; eu era outra pessoa, e você, bem, era uma pessoa...
― Você pode me ajudar?, tem uns cara aí que me prometeram... querem me apagar ― o rapaz balançava os braços, como se desse corda em si mesmo para falar, agarrado a um cobertor exíguo que mal lhe cobria o tronco ossudo. O olhar parecia vagar a uma distância infinita dali.
Deu-lhe dez reais.
Tirou uma licença do serviço na prefeitura, onde trabalhava como técnica de informática. Precisava de tempo livre. Disse para o marido que ia visitar parentes no interior ― o que era rigorosamente verdade ―, só não lhe contou que ia conversar com a mulher que a pôs no mundo pela segunda vez em vinte e seis anos.
Potirendaba, cidadezinha com quinze mil habitantes na região de São José do Rio Preto. Todos lá conhecem a mãe dela, uma filha da elite local que mora numa casa arruinada, infestada por capim-gordura e gatos recolhidos da rua. Os vizinhos deixam-lhe pratos de comida na varanda que ela divide com os bichanos; no fim do dia, passa em um dos dois restaurantes da cidade e recolhe um marmitex para passar a noite trancada e falando alto sozinha.
― O nome dele está anotado nesse papel. Tive medo de um dia esquecer. Pode ter mudado, pode nem ser o nome certo, não sei; era um belo de um safado. Quando soube que as minhas irmãs tinham conseguido me deserdar, caiu no mundo.
Deu-lhe umas roupas velhas que tinha e seguiu caminho. Usavam praticamente o mesmo número de roupa. Percorreu diversas cidades do estado no encalço do pai, em todos os lugares, a mesma história: o sujeito vinha do nada, se amasiava com uma dona rica do local e ficava uns tempos desfrutando do bem bom. Depois, sumia de novo. Trabalho de carteira assinada parecia contra os seus princípios, dava expediente comercial em boteco. Descobriu nestas andanças tios e primos distantes, e mesmo algumas irmãs e irmãos seus, ou metade disso. Nenhum deles tinha pistas ou queria saber do fujão. Era tal e qual o chopim de que Eldenezir falara, espalhando filhos e sofrimento por onde passava. Até que perdeu a pista.
Foi quando se lembrou de uma colega de trabalho que havia passado num concurso; a moça estava lotada na Justiça Estadual e talvez pudesse acessar algum banco de dados de processos criminais. Uma hora um malaco desses dá uma falseta, não é possível ser liso sempre, pensou. As suspeitas da mãe louca (mas nem tanto) eram corretas, ele evitava usar o nome de batismo; mas, numa única vez, lavrou uma escritura com os documentos originais. Havia engabelado uma viúva dona de uma distribuidora de bebidas em Mogi das Cruzes, vendeu um terreno da coitada, e aí... fumaça. Recebeu pena mínima, o crime prescrevera há cinco anos. O registro, no entanto, ficou: estelionato.
A partir daí, o problema mudou dramaticamente de figura: do fio de informação que obteve de testemunhas da época puxou uma linha que a levava de volta para Santos, ou melhor, para a cidade em que morava a irmã dele que lhe lavava as roupas até hoje. E onde, como de costume, também tinha deixado uma cria para trás ― um filho que vinha a ser ninguém menos que seu meio-irmão e legítimo esposo! A identidade verdadeira do seu pai de mentira era uma verdadeira bomba. Uma bomba atômica capaz de arrasar toda a sua vida instantaneamente; um por um, Irma via comprometidos os alicerces daquilo por que mais lutara, a tão sonhada vida “normal”: um bom homem, filhos, casa própria, carro.
Por sorte, a ex-colega do tribunal não tinha como saber destes desdobramentos; ninguém poderia saber, esta a certeza solitária que lhe restara. O que fazer? Estava num mato sem cachorro. Toda a conversa com Eldenezir encaixava nos fatos, incluindo as materializações: o boneco mais moreno, seu marido; a boneca loira, ela. Unidos pelo pé. Horrorizada, compreendia subitamente a força animal que a arrastara para os braços daquele homem, em tudo oposto ao que escolheu para marido. O pior era pensar que não houve justiça dos homens, infernal ou divina capaz de interromper a trajetória daquele ser monstruoso. Como é que os céus tinham permitido tamanha barbaridade?
Recordou do sonho que tivera em Votuporanga e, de repente, a solução lhe veio inteira, simples, clara como água minando da pedra. Não ia deixar aquele vagabundo estragar tudo, não de novo. Comprou uma arma, o passo mais simples: tresoitão com numeração raspada. Achou o ex-namorado nas imediações da rodoviária, levou-lhe uma pedra. Esperou sentada na guia que ele a fumasse. Fez-lhe a proposta indecente: ganhava outra depois de um servicinho. Prometeu que pagaria a dívida dele com os cabeças: os bandidos não iam mais apagá-lo, e assim aquele burro poderia continuar atrás da única cenoura que ainda o fazia puxar a carroça. O rapaz desempenhou: abordou o malandro numa viela quando saía do bar, dois tiros no peito e um na cabeça. Chegou já sem vida ao PS do Ana Costa.
Fim da linha para o Zé Pilintra. O revólver, atirou-o do alto de uma ribanceira perto do rio Diana. Adeus papai, adeus sogrão, descanse na paz dos vermes da terra. Bem feitas as contas, era uma digna filha daquele filho da puta, com a diferença de que não deixaria rabo atrás de si. Pagou o trafica para ‘descer’ o nóia; menos um no mundo. Quem liga? Contabilizou seus três crimes: o aborto, o assassinato do pai e o do zumbi; concluiu que só lhe pesava mesmo o primeiro, abominação que carregaria pelo resto dos seus dias, uma alma pela qual rezava todas as noites. No mais, abriria mão de ter filhos, quem sabe convencia o marido a adotar ― por que não? Mas nada, nem ninguém, a faria desistir da paixão da sua vida. É muito difícil achar o amor verdadeiro hoje em dia.
Quando o marido chegou de noite, encontrou-a apertando um chumaço de algodão ensangüentado sobre o polegar.
― Que foi isso?
― Um corte de nada. A carne... estava fazendo a sua sopa, meu bem.

sábado, 21 de julho de 2012

Manifesto Da Da por uma multidão colorida




aproveite o dia
pode muito bem não haver nada
depois que isto acabar


não enlouqueça
da normalidade da massa


viva Da Da


você é o artista
de si mesmo

terça-feira, 17 de julho de 2012

A mulher de algodão (parte 2)



            Na manhã seguinte chegou cedo ao consultório da benzedeira. Ficou espantada com a quantidade de gente que àquelas horas moças já estava sentada nas cadeiras de plástico branco do corredor; uma espessa maioria de mulheres e idosos, algumas das pessoas com o aspecto muito doente. Fazer o quê? Outra longa espera que enfrentaria dando a volta no rosário, fazendo palavras cruzadas e sudoku. A paciência é a virtude dos fortes, dizia a frase emoldurada na parede.
            ― Sou de Nova Granada, reduto de colonização espanhola no interior de São Paulo, meu pai, franquista e católico fervoroso, no princípio, achou que eu estava mentindo quando comecei a relatar minhas primeiras visões aos quatro anos de idade. Fazia-me ajoelhar no milho para que a dor arrancasse a verdade da boca e a heresia do coração. Não adiantou: continuei a ver fumaça branca quando vinham os espíritos de luz, e fumaça preta quando baixavam os eguns trevosos. Não sendo mentira, então estava louca. Fui levada aos médicos da região, e até da capital, um depois do outro, até que, no último, veio a palavra certa: o meu caso não estava na seara da ciência, era um dom. Começaram a me chamar para ir benzer a casa das pessoas; eu ia lá e começava uma oração, enquanto rezava, o meu guia de transporte, Santo Antônio, dizia no meu ouvido: “Aqui está um trabalho de alta magia enterrado”. Os donos da casa faziam um buraco onde eu indicava, iam furando, furando, até que achavam o quebrante enterrado; de tudo vi sair da terra-mãe: tarântula atada com categute a boneco de cera, caveira com nome gravado, calcinhas negras, até um sapo pregado em cruz com foto costurada na boca... Virgem Santa, o que é a maldade humana! As materializações no algodão vieram bem depois... sabe, no começo não cobrava nada, mas isso não deu pé, passei miséria medonha, madrasta, caí na rua da amargura... Não tinha dinheiro nem pra cagar na rodoviária. Agora, minha filha, me diga: por que estou lhe contando isso tudo? Você faz idéia?
― É... não, quer dizer, acho que é porque eu nunca tinha visto... quer dizer, vindo antes, né? ― Irma não podia estar mais desconcertada com a conversa; um não sei quê no rosto alongado, nos olhinhos miúdos daquela senhora pesadamente perfumada, de sobrancelhas delineadas, cílios postiços e unhas com francesinha pink, jogando búzios enquanto falava, não batia com a líder espiritual do dia anterior.
― Então, criança, tenho setenta e um anos. Parece? Pois bem, estou há muito tempo no ramo da vidência para não ver que você está metida numa pua das grossas. Meu travesseiro é a lista telefônica, meu anjo, sei o número de todo mundo; por exemplo, aquele que tu tirou ontem na fila: não é bom, os algarismos se fecham, inquizilam. Abre o saco, Judas, despeja.
― Hmm, bem, acho que entendi o significado do que veio pra mim ontem, digo, os bonecos de bebê... (suspira) É que eu estou tentando engravidar e perdi uma criança, ainda não tinha nem dois meses...
― Certo. E o outro boneco que veio ligado nesse, é o quê?
― Um... um aborto que eu fiz, foi um erro tão grande na minha vida... ― ela não conseguiu segurar mais nada, abriu a torneira e chorou feito uma bezerra desmamada. ― Ontem sonhei... sonhei um sonho repetido que tinha de menina: eu entrava no banheiro de casa e lá havia um buraco na parede... (suspiro) pelo buraco, entravam uns homens estranhos que levavam meu pai embora; mas não era o pai que me criou, era o outro, o que nunca conheci... e eu não me sentia triste, pensava, melhor levarem ele mesmo.
― Ei, ei, calma, menina. Sua alma é tão nova e já apanhou tanto... não caia nesse angu de caroço; um erro não perde você se tiver fé e se apegar no caminho do bem, das boas obras. Estou vendo também um pássaro chopim rondando você, sabe?, aquele que bota ovo nos ninhos dos outros.
― É que... é que... ai, Jesus Misericordioso há de me perdoar, esse aborto eu fiz grávida do pai de meu marido... sniff, meu sogro é um homem muito do sem vergonha, vive às custas de uma mulher, enquanto passa o rodo em todas as amigas dela, é o capeta! Foi um momento de fraqueza, lhe juro, aquele filho de rapariga é um baita de um papo-doce, caí como uma troncha... mas, a real é que amo o meu marido, ele é um homem como nunca encontrei nem encontrarei na vida, amor verdadeiro... não sei o que me deu...
― Veja bem, quando há macho femeeiro e comedor na história, aparece o Zé Pilintra, em vez de pássaro-cuco. Entenda, não é que isso que você tá me contando já não seja grave o bastante, mas tem algo que não ‘orna’ nesse bololô: quando o caso é de aborto, materializa boneco de bebê; os seus não são. Além disso, dá pra ver que um é homem, mais escurinho, e o outro mulher, loira como você. Outra coisa: estavam amarrados pelo pé...
― Não sei, já não sei de mais nada, nada... tô perdidinha. Não será melhor viver feliz na ignorância? Tem coisas que a gente descobre, e depois já não é mais a mesma... viramos outra pessoa, uma pessoa com uma verdade, e a verdade cria novas solidões.
― Pera lá, pera lá, os meus guias de cabeça tão aqui segredando que você é adotada. Procede?
― Sou sim, meus pais nunca esconderam. Quando fiz dezesseis anos quis... fui lá conhecer minha mãe biológica, fui lá conversar com ela... me contou que o homem dela fugiu quando engravidou, por isso me entregou pra adoção. Daí, não fui mais atrás; quanto mais se mexe em merda, mais fede. E também, já sabia o que precisava.
― Santa Madre, menina, tanto a aprender e tanto por viver... Muitas encarnações pela frente. Às vezes, as aperturas neste plano vêm do tempo que foi, de outras vidas, do lixo cármico que a gente acumulou em outras encadernações... mas, no teu caso, parece que o atraso vem desta passagem mesmo. Você sabe pouco de onde veio pra saber aonde vai.
― Mas que passado é esse que impede o meu futuro? A senhora tá me dizendo para ir atrás... do meu pai de sangue?
― E por que não? Não é nada, não é nada, já é alguma coisa. Vai a gente saber de onde nos vem o enganche... Trabalho de magia é fácil de desfazer, difícil é o que vem da mente, do coração e da língua. Vai com Deus, minha filha.
A consulta terminara. Eldenezir e Irma, cada qual por motivos diferentes, sentiam um vago desassossego.

(desenho: Bruno Urbanavicius, 2012)

sábado, 14 de julho de 2012

A mulher de algodão (parte 1)




            Seguindo religiosamente a ordem das senhas retiradas horas antes, as pessoas se levantam dos bancos de madeira pintada de verde em silêncio e se aproximam do altar. Ninguém conseguiu até hoje explicar o mistério das “materializações” que estão prestes a acontecer diante de todos. A pequena multidão de oitenta consulentes vai se aglomerando num círculo irregular a meio metro do patamar de alvenaria onde fica o altar inusual: um tanque raso, uma cadeira de tira de plástico e uma mesinha com as imagens de Santo Antônio de Pádua, Nossa Senhora do Rosário, Iemanjá e Arádia, alta sacerdotisa da Antiga Religião.
            Carregam na mão, uma, duas, até quinze sacolas de plástico ― dessas há pouco banidas dos supermercados ―, que levarão para casa as materializações; no momento, porém, as sacolinhas contêm apenas algodão em rama e custaram dez reais cada no caixa da Casa Luz da Aurora. Após nova chamada, os romeiros sobem um a um o patamar e acercam-se do tanque de noventa centímetros de diâmetro para desfiar o algodão sobre a água; a superfície fica parecendo um lago juncado de improváveis icebergs, graças à grelha de arame acoplada na borda que mantém os chumaços à tona. O filho mais velho da médium (ela tem dez, seis de sangue e quatro adotivos) rega o algodão com água de mangueira e álcool benzido.
            O sol do começo da tarde derrama sua luz cálida através da porta por onde todos hão de sair, carregando nos braços as suas desgraças; por enquanto, no salão de paredes cobertas de frases motivacionais os presentes estão hipnotizados por aquela mulher de longos cabelos liso-acinzentados totalmente vestida de branco. É segunda feira, o dia consagrado aos que sofrem de problemas familiares, Eldenezir Munhoz dirige algumas palavras de boas vindas ao público, emenda um pai-nosso numa salve-rainha e entra em transe profundo. No momento em que mergulha os braços na maçaroca branca, um frêmito sacode a platéia; o murmúrio se eleva, ressoando no teto de telhas de amianto.
            No rosto da vidente transparece uma mescla de compenetração e cansaço, afinal, este é o seu trabalho há mais de cinco décadas. Eldenezir, conhecida como a “benzedeira do algodão”, a “médium do algodão”, faz surgir do tanquinho circular uma cornucópia de objetos que dão forma aos maus pensamentos, energias ruins e magia negra que todos acumularam ao longo da vida. Ela crava as mãos na pasta que se adensa, molha-se, macula as vestes alvas diante dos olhos atônitos dos espectadores; vai puxando de lá ossos de animais, cacos de vidro, fivelas, bricabraques, panelas, velas coloridas, frascos de perfume, peças íntimas, sapatos, bonecos de cera de pombas-gira, caveiras e exus de todas as estirpes.
            As mãos vão e vêm, ela faz força; como um escultor que enfrentasse gigantesco bloco de pedra, os braços parecem lutar para desentranhar a forma do informe, a matéria dura das felpas pardas. Em menos de meia hora retira dali mais de cem objetos: uma seleção bizarra que resume as dores, as perdas, as separações, as traíragens e as angústias que rapinam a alma dos sofredores. O descosido exército de trastes vai sendo jogado displicentemente por Eldenezir sobre folhas de jornal dispostas na mesa do altar; um outro ajudante-filho as embrulha e acondiciona para a viagem de volta. Com a sacola cheia de suas maldições, o consulente se retira pela porta lateral ― a mesma por onde entra o sol, que agora já arrefece seus raios.
            Irma aguarda receosa a sua vez; agora que está quase chegando o número da senha que tem na mão, hesita. Sente vontade de sair correndo dali, que se dane, já não lhe importa desperdiçar a longa viagem de ônibus desde Santos até Votuporanga, não quer mais saber; quer as respostas menos do que teme obtê-las. Procura distrair-se ouvindo a conversa  de um casal que conheceu na fila.
            ― Senti alívio na hora, é impressionante! Foi como se tirasse um peso de dentro ― ele carrega um osso enorme, talvez de boi, o que significa dificuldades em tudo que realiza.
            ― A gente só leva toba no dia a dia, tudo quase parando, problema financeiro. Aqui a gente ganha um encorajamento, e tem já que vai dar certo, vencer ― a mulher recebeu uma corrente, sinal de que a vida está amarrada.
            Irma se recolhe dentro de si, e é então que nasce a sua materialização. Enquanto desfiava as ramas sobre o tanque, evocara antigas sensações: o frio nevoso da serra, a sombra voadora dos pássaros, os perfumes do mato dormindo, que se juntam na brisa por um breve instante e pousam na água. Cada fibra do algodão se desprendia das suas mãos fazendo vibrar as outras coisas à sua volta, como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, contra a nossa ignorância sobre aquilo de que somos feitos.
            O veredicto da médium é de que deve ficar para uma consulta individual no dia seguinte. Vai lhe custar mais cento e vinte pilas, fora a hospedagem numa pensão. Eldenezir fez questão de não esconder a preocupação com o que saiu para Irma.
           
            

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Rosa faz anos (epílogo)



            Manda para baixo uma boa talagada da pinga esquisitona. A zonzeira danada lhe sobe quase instantaneamente, despenca de cara no tampo da mesa. Quando volta a conseguir erguer meio rosto e olhar em torno, descobre que não está mais na cozinha; endireita-se como pode no que parece ser uma carteira escolar, solitária na saleta abafada de paredes encardidas. Diante dela, sobre um estrado muito precário, de ripas soltas e podres, e com pregos perigosamente expostos, há uma mesa com pastas de arquivo, fitas cassete e fotos espalhadas.
Três homenzinhos minúsculos consultam os papéis e as fotos, fazem caretas e comentários em surdina entre si, põem e tiram freneticamente os óculos pequenos das carantonhas enormes. Vestem uma bata azul excessivamente apertada nos corpinhos gorduchos, o que ajuda a tornar ainda mais ridículos seus movimentos nervosos, e seriam absolutamente idênticos não fosse pelos penteados ― ocorre-lhe que parecem uma pantomima lamentável dos Três Patetas, exceto pelo carequinha que usa um barrete.
― Eh, bem, vamos iniciar o caso da senhora Rosa Maria Nonato de Sousa, 50 anos, que vem tendo pensamentos de auto-eliminação há seis meses... ― começou, como se estivesse lendo, o anãozinho de cabelos espetados em todas as direções.
― ... é nosso dever preveni-la de que esta é a derradeira instância, e que não caberá recurso, portanto, toda decisão tomada aqui... ― o de cabelo preto cortado em cuia prosseguiu do ponto onde o outro pausou, como num jogral.
― É, é isso mesmo: não é porque a sua vida está uma merda, que você vai se matar assim, sem mais... Temos informações precisas de que a senhora fala durante o sono: “Esta vida para quê?”; seu marido nunca escuta porque está sempre pra lá de Marrakesh quando deita ao seu lado... ― o da barretina nem bem acabou de falar, e os outros dois já o apostrofavam com cala-bocas e o cobriam de saraivadas de tabefes. Estabeleceu-se a confusão.
― Ei, ei, querem parar? Podem ao menos me explicar que lugar é este, quem são vocês e o que estamos fazendo? Parem de bater um no outro, já! Vamos, isso não são modos...
― Isso mesmo ― queixou-se o careca, enquanto descia do estrado para buscar o boné caído na confusão ―, vocês sabem muito bem que pra código 13 tem de haver três de nós, não adianta me mandar embora!
― Código 13?...
― É quando a ocorrência envolve tra-la-lás como você, que escolhem sair da sala antes de bater o sinal ― desta vez o máquina-zero não apanhou, mas ganhou olhares de ódio dos outros integrantes da mesa.
― O que esse débil mental quis dizer é que a senhora não passou para o lado de cá, isto é, não inteiramente, ainda há tempo de voltar para trás, retornar para os seus...
― Rosa, nós somos Assessores de Deus, ajudantes do Taumaturgo que criou os céus e a Terra, que lhe presenteou o mais precioso dos dons...
― Sei, com que então não morri, e isto não é o Inferno? ― à menção desta última palavra, um arrepio simultâneo percorreu os corpinhos dos seus interlocutores.
― Oh não, nada disso, não somos servidores de Semihazah, esse maldito entre os malditos, cujo único objetivo é destruir a Criação, obra magna do nosso Mestre.
            ― Estamos aqui para tentar convencê-la a desistir de morrer antes da hora, a seguir em frente... não há outro jogo Rosa: é estar na vida, boa ou ruim, ou nada...
            ― Azazel é que fez os homens acreditarem nessa patranha de vida após a morte, de castigos e recompensas futuras, como se vocês fossem os cachorrinhos de Pavlov que realmente são. Vamos abrir o jogo de uma vez: seu marido é um bosta; seu filho, que está passando cada objeto da casa nos cobres, vai se acabar no crack; sua filha, cérebro de ostra, vai embarrigar dos homens mais inúteis que encontrar... E quem vai cuidar ‘do’ lojinha?
            ― Quer dizer que eu só sirvo para cuidar dos outros? Vocês estão me dizendo que é o Tisnado que anda pondo idéias na minha cabeça?
            ― Claro! A destruição pode até criar uma coisinha ou outra, mas, em algum momento, sempre se volta contra a matéria viva. Porque acha que estamos sempre pressionando contra a pesquisa com células-tronco, o divórcio, a camisinha, o aborto? Não nos importa se o pato é macho, desde que bote ovo...
            ― O seu pensamento de há pouco estava errado: quem mais precisa de você hoje, é o Wanderson. Só ele interessa. Agüenta mais uns dez, quinze aninhos, que custa?
            ― Outra coisa, afaste-se da grande arte, ela põe muita merda na cabeça de pessoas até mais preparadas que você. Artistas têm essa mania de rivalizar com o Taumaturgo; é preciso que a Arte fique em seu lugar: as pessoas comuns podem sentir que há ali luz e trevas, mas nunca devem saber o que é o quê. Como isso foi acontecer com você Rosa, não sabemos; não teve educação, cuidado, carinho, nem outros meios, mas chegou a esse conhecimento.
            ― Tá certo, entendi. Mas é que, queria me encontrar com Deus antes de ir, posso? Um professor lá no museu disse que Ele estava morto...
            ― Er, veja, não vai dar... talvez não agüente a visão direta da Sua grandeza...
            ― Hmm, além disso, Ele está sempre muito ocupado com o Cosmos, você nem imagina a trabalheira que dá...
            ― E também, nega, o Velho tá muito é gagá; você imagine, tem uma eternidade de anos... Já não lembra de porra nenhuma, coitado; quem faz tudo s...
            Aí começou uma barafunda terrível: os dois anõezinhos com cabelos se atiraram sobre o do barrete aos xingos, muquetões, cuspidas e gritos; Rosa teve imensa dificuldade em tirá-los de cima do pobre-diabo. Quase o esganavam.
            ― Bom, já vou indo. Foi um pouco decepcionante saber que Deus já não se lembra de nós, Seus filhos; mas eu também já tinha me esquecido da razão de viver... Como vou fazer para continuar, sabendo o que sei agora?
            ―Não haverá problemas: tudo que vai sobrar na sua memória será um sonho desconexo e estranho; uma história que algo em você contou, mas que se recusará a entender.
Rosa abre bem os olhos, e ainda um pouco tonta, recompõe sua figura enquanto comprova que tudo continua igual na sua cozinha e na sua existência. Sabe, como o holandês lhe ensinou, que a tristeza durará para sempre; mas já não ouve mais o flautim, e as cores do mundo voltaram à imobilidade habitual: tudo na mais perfeita e triste ordem. Talvez seja melhor assim, voltar para a sua rotina grisalha e amorfa, voltar para este país maravilhoso e sem propósito, cruel e macio chamado realidade de todos os dias ― em outras palavras, contentar-se com o que tem para hoje.
Nunca mais voltou a conversar com o menino azul.

terça-feira, 3 de julho de 2012

como não se tornar um conformista mimado (ou retardar a chegada do Alemão)



como já dizia Gordon Gekko:
amadurecer
não é pra mariquinhas!

rebeldia
iniciativa
responsabilidade pessoal
vivência de extremos
estão sendo afastados de nossas vidas
em nome da “gestão de ricos”
oops, de riscos

vamos lá, coragem
afinal
estamos na era das listas:

deixe seus desejos respirarem
observe com paciência
olhe além da próxima esquina
confie no alvoroço da intuição
escute o murmúrio do Universo
libere a sua imaginação
entregue-se ao poder das emoções esquisitas
siga a bússola do seu coração

esse demolidor da sabedoria convencional
rume a passos firmes e medrosos

para o desconhecido

domingo, 1 de julho de 2012

Rosa faz anos (parte 3)



Está na febre de andar. O café forte lhe caiu bem, certamente melhor do que cairia a água sanitária. Sente correr o sangue do corpo e da alma, a euforia dos condenados libertos na hora fatal por uma clemência do rei. Em todo caso teria de sair: na despensa faltavam ovos, farinha de trigo e fermento para o bolo. Resolve evitar a mercearia próxima, a da bruaca, mas neste dia nevoento não se importa muito de dar uma volta maior; tem horas de solidão a preencher antes da hora de ir buscar o menino. Vá alguém saber a quantas da noite o marido volta, a filha, esquece, não vem nem para visitar o próprio filho; mudou de mala e cuia para o muquifo do seu futuro ex, o produtor-funkeiro-DJ. Recebe um SMS no celular, o caçula, pedindo dinheiro. Avisa que vem amanhã pegar ― menos um que lembrou. Só o Neno lhe ligou de manhãzinha.
            O dia até que estaria lindo, se não estivesse tão fechado. Vai cantar um parabéns sozinha com o neto, deixá-lo soprar as velinhas e dormir antes do marido chegar. É uma vida simples e bela, a sua. Rosa só precisa aprender a gostar dela. Só tem que aprender a gostar das ruas de terra deste bairro que se espraia num mar de morros a perder de vista, com as mesmas casas sem reboco, os mesmos moleques empinando pipa, as mesmas ladeiras crivadas de bares, borracheiros, templos e salões de beleza; talvez necessite apenas de um esforço extra para achar graça nesta gambiarra de lugar cortado por uma estradinha de mão dupla onde circulam os ônibus de linha.
            Uma van passa no pinote doido assustando os passantes; um galo canta nos arredores, e ela não consegue se impedir de imaginar uma solução limpa: atropelamento e fuga, os parentes sendo avisados pelo hospital, enterro em caixão fechado ― evitaria assim passar adiante o estigma da sua dor, a família não ficaria marcada. Golpe de fineza e habilidade supremas: imitar as artes inimitáveis do acaso. Uma pancada seca, e pronto!, já não vai mais acordar todos os dias com o peito pesando feito chumbo, movendo-se feito um fantoche, tateando no vazio insípido da sua vida incolor.
            No momento, porém, esse vazio recobra um ligeiro tom de cinza, como o do dia. Rosa caminha de um passo vivo e acelerado, ainda quer alcançar a liberdade, conserva intacta a audácia do jogo, mas logo se dá conta de que o filho precisa muito dela, ainda mais que o marido, e que esta, sim, é uma verdadeira razão para continuar vivendo e para dizer a si mesma que continuaria viva, muito viva. Se ainda houver quem precise dela, ela dirá ao povo que fica.
            Reparou em um homem que cambaleava poucos passos à sua frente; apesar de ter parado de chover, ele continuava com a cabeça embuçada pelo capuz da gandola e as mãos enterradas nos bolsos. A uma hora dessas e já tomou tinguá pra uma semana, pensou. De repente o homem executou uma trôpega meia volta e veio na direção dela. Então o reconheceu e se tranqüilizou, era um pau-d´água da quebrada, já o havia visto muitas vezes; vivia zanzando pelo bairro, falando sozinho e chorando pelos cantos dos bares.
            ― Boa noite ― disse o homem, com graciosa e surpreendente amabilidade.
            ― Quer dizer, bom dia ― ela respondeu.
            ― E quem Deus me manda avisar? Logo a senhora que sabe muito bem que só existe a noite, a escuridão. Durante o dia, só acontece uma única história debaixo do sol. E todos a repetem. Acha que eu sou um bêbado, mas também precisa se afastar de uma garrafa lá na sua cozinha, não é? Tome, basta um gole se quiser morrer de uma vez e para sempre ― sem mais palavra, ele sacou do bolso uma garrafada de pinga curtida em cobra com rolha de lacre, e a colocou no bolso do casaco da atônita aniversariante. Em seguida, embiocou por uma ruazinha lateral, sumindo depois de atravessar a pinguela sobre o córrego de esgoto.
            Voltou para casa sem comprar os ingredientes. Nem tentou seguir o vagabundo, estava por demais atarantada com o episódio todo, com os estranhos modos e os termos com que se dirigiu a ela. Sentou-se novamente à mesa da cozinha. Tirou a botelha com o líquido amarelento do bolso e a examinou; o cheiro era de cana, a cobra lá dentro, uma coral. Logo a alegria de estar sozinha passou e deu lugar na indecisa Rosa ao sentimento contrário, um profundo abatimento por aquela terrível solidão que a casa oferecia. A flauta encantadora tocando ao longe.
            O céu estava esbranquiçado, invadido por um verniz opaco, assim como em sua memória uma brancura opaca ia apagando a lembrança das sensações vividas na conversa de há pouco com o boêmio. Decide testar a sorte: se for só pinga, talvez clareie as idéias, como dizem que o álcool faz com os produtos da cabeça; se for veneno, vai viajar para aquele outro mundo, longínquo e sedutor, no qual vivem o filho do carteiro e o pintor suicida, que é apaixonado por ela.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Rosa faz anos (parte 2)




            Foi numa manhã cinzenta como esta, mesclando-se ao som da chuva que caía sobre os jardins suspensos do MASP, que a vigilante escutou pela primeira vez a melodia do pífano. A princípio, deixou-se estar, imóvel e aterrorizada; talvez fosse música ambiente, até que já não cabia dúvida: saindo da obra de Van Gogh, O Aluno, também chamada Garoto de Quepe Azul, ouvia o sedutor chamado que a convidava a entrar na tela e se perder no país dos suicidas. Um dos resultados de contemplar o mesmo quadro por muito tempo é que os detalhes se incorporam de maneira concreta, a pintura como que nos pertence ― vemos nela o que nenhuma outra pessoa poderá ver.
Neno bem que a tentou avisar.
― Cuidado, não entre no mundo da arte. Você vai destruir todas as obras, principalmente aquelas que mais ama.
Não tem tempo a perder; dentro de uma hora e meia precisa chegar a casa, pegar o neto e levar para a creche. A desmiolada da mãe, sua filha Elvira, já está em outra roubada; não há de ser uma criança que a impedirá de viver seu novo grande amor. São três conduções do serviço até sua casa de tijolo aparente em Parada de Taipas: metrô, ônibus e lotação; mesmo assim, não consegue deixar de passar pela sala do segundo andar para se despedir do filho do carteiro. O escolar do quepe azul, Camille Roulin. Numa carta para o irmão, Vincent escreveu: “pintei os retratos de toda a família; todos tipos bem franceses, embora tenham cara de russos”. Só Rosa compreende a que “russos” o pintor se referia: na verdade, quis dizer “rosas”, quis dizer exilados, trânsfugas, imigrantes de uma pátria triste: o país dos que cansaram.
Voltar na hora em que todos vêm é um exercício de solidão acompanhada; a massa no contrafluxo, rugindo de raiva e pressa, e ela na outra margem do rio da miséria cotidiana. Rosa ainda ouve o flautim ao descer no ponto; ainda não sabe explicar o fascínio daquele milagre da pura linguagem, mensagens de além-túmulo de um pobre diabo distante dela mais de cem anos. O dobro da idade que completa hoje. Se fizer um bolo, alguém se lembrará de lhe cantar um parabéns em casa? Decorou as falas do professor Tassotti nos cursos que incluem visita guiada ao acervo.
― ... reparem as extensas áreas monocromáticas, os contrastes impressionantes, a força que pulsa nas camadas espessas de tinta espremida diretamente das bisnagas. Mais adiante, no Passeio ao Crepúsculo, também de 1888, gostaria de lhes chamar a atenção para as duas zonas bem distintas da luz: no alto, à direita, os azuis escuros dos Alpilles, de onde a noite cai rapidamente; o casal dirige-se para a esquerda, onde predominam os verdes claros; na borda inferior, o detalhe malicioso do passarinho. É preciso levar em conta que esta era a perspectiva da janela do hospício em Saint-Rémy, onde o haviam internado; a metáfora do ato sexual parece-me bastante óbvia. Como lhes mostrarei mais tarde na sala de projeção, nas pinceladas convulsas do Trigal com Corvos e da Noite Estrelada, igualmente pertencendo a este período final na Provença, trava-se uma avassaladora batalha cósmica e já não estamos simplesmente acompanhando a evolução de um artista excepcional: é como se assistíssemos ao nascimento do Universo.
O marido a espera no portão de ferro sem pintura; o portão é meio caído dos engonços, precisa ser levantado para abrir. Está trombudo, como de costume; apressado, como de costume, para ir trabalhar ― a mesma pressa que lhe falta para voltar. Nem um beijo, nem uma palavrinha meiga. Que dirá, um feliz aniversário.
            ― Tô indo. O menino não comeu pão, só o leite tomou. Ah, vê se não faz macarrão de novo na janta, já foi onte e ontonte.
            Wanderson, o neto de cinco anos, vai arrastado para o ponto; ele é bem irrequieto, pudera, sem a mãe por perto as crianças de hoje em dia ficam incontroláveis. Enquanto passa o menino por baixo da catraca do ônibus pensa se o está criando bem. Talvez esteja apenas repetindo os mesmos erros que cometeu com os filhos. Tem só dois, Deus e o desinteresse do marido não lhe deram mais. O filho mais novo já não aparece muito, vive na rua; só dá as caras em casa a horas desencontradas, volta com um ar esquisito, transtornado. As coisas não param de sumir: na semana passada foi o liquidificador, que ela ainda nem tinha acabado de pagar no crediário.
            Rosa deixa o olhar vagar distraidamente pela cozinha, espera o café passar no coador de papel; não quer se voltar na direção da sala e do quintal que reclamam uma boa faxina. Em silêncio, morde os lábios ao reparar, junto do pote de café, entre pacotinhos de chá, sacos de pão dormido e latas de embutidos, uma garrafa pet cheia de água sanitária. Pensa em como é fácil morrer, e que não deve deixar escapar tão magnífica ocasião e lugar. Bastam uns goles daquela água que passarinho não bebe para apagar de uma vez todo aquele cotidiano de imagens cinza, de filhos perdidos, de marido desalmado, de tédio mortal no museu.
            ― Ô vida besta, Deus meu! ― disse para si mesma, para Deus ou para as paredes, tanto fazia.
            .Mas quando já estava a ponto de pegar a garrafa, quando o menino azul do quadro já recomeçara a tocar o pífano diabólico na sua cabeça, aconteceu de pensar no desgraçado do seu marido e de repente descobriu que havia algo no ar da manhã, nesse estar sozinha e triste na cozinha, que agitava seu sangue de um modo quase agradável. Na verdade, seu marido está pegando a vizinha da rua de baixo, a piriguete sem graça da mercearia (e o desgraçado achando que ela não sabe de nada); na verdade, o sem vergonha do marido é um espírito sem luz merecedor de compaixão, e precisa ser ajudado, o que não deixa de ser uma boa razão para seguir vivendo, para seguir preparando o café, para seguir tentando que seu marido recupere a alegria e volte a ser aquele homem encantador que havia conhecido no Playcenter há trinta anos, quando lhe pagou um algodão doce.
            Decidiu que vai fazer um bolo.

sábado, 23 de junho de 2012

nada é real



nada mais certo:
envelheço
choro por qualquer motivo
perco a carteira
confundo rostos, paisagens
esqueço de ligar
o nome à pessoa
o quando e a coisa

viajo, perco países
escuto a tarde em rajadas
descubro
o semblante interior do suicida
apaixonado

penso cada vez menos
no nada,
cada vez mais
― o nada
(dizem os nadólogos)
está vazio de tudo
pleno
de possibilidades

ainda sinto que o mundo é pequeno
pra mim
grande demais para a minha
desimportância

desconfio
nada é o que parece
It’s not a question of when
just how
porque nada absolutamente
nada é real
só
o
amor

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rosa faz anos (parte 1)



            Todos os dias despertamos numa realidade diferente do dia anterior; ao acordar, nossos sentidos tateantes buscam o conforto dos objetos conhecidos, do lugar habitual, de maneira a tornar menos traumática a passagem. Não há precaução contra o imprevisível: agarramos qualquer velho pedaço do mundo de ontem para conjurar as ameaças contidas na mais pacífica das manhãs. A mente apavora diante do desconhecido ― embora secretamente deseje o novo ―, e por isso o cotidiano se organiza como formas e métodos de domesticar a angústia de viver. Rosa sabe que até as pedras mudam, e que algo nela mudou durante a noite passada em claro.
            Um piscar de olhos, um bocejo, uma coçada de queixo, um voltar-se para o lado onde não há nada que ver, assim provavelmente passou a linha divisória entre a véspera e o dia do aniversário da Rosa; à meia noite/zero hora já só lhe faltavam seis horas para largar o turno da noite na equipe de segurança do Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Não era a escala dela, trocara aquele plantão com o Neno, o único amigo que tinha no mundo: um colega da terceirizada que fazia a segurança do museu. Neno. Bom que ele tenha topado, vai poder ficar com a família; quer dizer, vai passar o dia seguinte arrumando e cozinhando, mas em casa.
            Rosa está fazendo cinqüenta anos. Sua vida está aos pedaços: o marido e os filhos se afastaram, a família, há muito distante lá nas Alagoas; para completar, no trabalho vê escassear os parceiros da velha guarda. O novo amigo é um desses jovens com que agora divide os turnos. Uma figura e tanto para um membro de guarda patrimonial: Neno é anão. Empresa grande, a lei obriga a ter cota. Por causa dele, aprendeu uma das mais duras lições sobre a natureza das nossas relações com a realidade, ou melhor, sobre a feição tantalizante do mundo: tudo nos é ofertado, tudo nos é negado. E como se nos nega o que é ofertado? Simplesmente não distinguimos uma coisa da outra.
            O mundo é uma mesa posta pela Tentação, cheia de inúmeros impedimentos e embaraços no caminho das graças com que nos brinda. Neno deu de odiar nordestino, solidificou ainda mais esta quizília trabalhando no turno vespertino; muitos visitantes não se contêm diante do soldadinho, e há mesmo os que chegam a perguntar aos monitores se o homenzinho faz parte da exposição.
            ― Ói lá, pai, que da hora! Posso brincar com o anãozinho?
            ― Moço, pode chegar mais pra perto da estauta? Só uma foto...
            Estas e outras quetais, fizeram-no passar a um nutrido ressentimento de classe. Por outro lado, babava o ovo dos funcionários da casa e dos superiores da empresa de segurança.
            ― Senhor Macedônio, estamos muito satisfeitos com o seu trabalho e da sua equipe.
            ― Gostaria de anunciar que o nosso querido Macedônio Fernandes foi novamente escolhido o funcionário do mês.
            Eram exatamente os mesmos que contavam piadas e não perdiam uma chance de mangar da “grande” capacidade e estatura moral do iludido rapaz. Um dos curadores da instituição chamou Rosa de canto certa vez para lhe comunicar uma incumbência especial. Depois de lhe explicar os detalhes da mostra que se iniciava em breve, o Professor Tassotti comentou:
            ― Então Rosa, você aqui conquistou um respeito e confiança enormes... só te daria um conselho de amigo, não leve a sério demais, é que queima o filme andar pra cima e pra baixo com um anão. Não pega bem.
            Rosa se pergunta se não sofremos todos da mesma miopia, se os nossos falhos instrumentos de navegação da realidade não brincam de enganar os sentidos (vãos) que emprestamos à vida. Seja como for, ela intui que vive um paradoxo: cada vez mais ela pinta a sua vida prática com as verdadeiras e duras cores do realismo; ao passo que, em seu íntimo, ela sente que desliza irremediavelmente para o delírio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O quartel de Dona Mocica (epílogo)





            No mundo ― dizia Balzac ― não há nada que saia de um bloco único, tudo nele é mosaico. Não obstante, a imagem que se conservou em mim dos avós de Bauru é fotográfica; um cromo amarelado do álbum que mamãe guardou por toda vida e hoje integra o meu acervo.
É como se eles já não pudessem mais deixar as roupas e a idade que os sais de nitrato de prata fixaram no Studio Photographico Cantarelli: meu avô Joaquim, a farta barba hassídica a tornar mais fundos os olhos negros, as orelhas enormes, a calva coroada pela penugem rala do cocuruto; veste um paletó de tecido escuro e grosso, igual ao colete, a camisa branca de colarinho duro com as pontas dobradas como os cartões de visita, encimada por uma gravata preta lavallière. Ao lado dele, a figura meiga, mas altiva, de Vó Nininha: miúda, a boca fina a rasgar a suavidade do rosto com um ar zombeteiro, os cabelos presos no coque simples; nela sobressai a graça diáfana do vestido claro de mangas compridas, cheio de nervuras na frente, gola alta e debruada de rendinhas, arrematado por uma pelerine sobre os ombros.
O mesmo não ocorre com a casa em que moravam, esta, ainda agora posso percorrer de olhos fechados de cima a baixo, cômodo por cômodo, palmo a palmo, aqui, conheço o conteúdo de cada gaveta, o secreto perfume de cada recôndito; como se as reminiscências daquele período nunca houvessem esmaecido e a arquitetura do casarão, há muito demolido, resistisse em minha carne, ossos e nervos ― grão da imortalidade possível na alma corpórea.
Casa que, na verdade, era um palacete maciço de três pavimentos; bem ao estilo português, erguido no limiar da calçada. No andar térreo ficava o porão, de altura regular e plenamente habitável; o segundo andar era o plano nobre da habitação; no terceiro piso, os dormitórios. Nestes andares superiores, duas varandas simetricamente dispostas guarneciam a fachada principal; a primeira, ornada com arcos apoiados em robustas colunas fuseladas; e a segunda com pilastras pergoladas, cobertas por alamandas e buganvílias que subiam do quintal. Dois portões laterais de ferro, de esplêndida serralheria, davam acesso ao casarão; o da esquerda, mais estreito e ao nível do porão, levava às áreas de serviço e edículas; o portão da direita, mais amplo, constituía a entrada principal. Ao lado da entrada dos carros ficava a escadaria que conduzia à varanda do segundo andar, pavimentada com ladrilhos hidrográficos e assentada sobre um largo parapeito de onde apreciávamos o movimento da rua.
A única porta utilizada para ingressar na casa era a que ficava na ponta final do terraço; por ela se adentrava um pequeno foyer que dispunha de janelas duplas com vidro fosco e um porta-chapéus em madeira escura, cabides de prata e espelho de cristal. Pelas bengalas, sombrinhas, chapéus e casacos ali pendurados, sabíamos imediatamente quem estava em casa no momento. A partir deste compartimento abria-se um grande corredor que dividia a habitação em dois corpos distintos ligados por cômodos sucessivos; do hall, subia a imponente escadaria de dois lances em pinho-de-riga que conduzia aos quartos. O pé direito do segundo piso, desmesuradamente alto, dava ao hall um vão livre de cinco a seis metros, de cujo zênite um vitral despejava caleidoscópicos reflexos amarelos, verdes e vermelhos. Seguindo pelo eixo central, havia portas que abriam para a sala de estar ― a qual só uma vez vi aberta para receber visita de grande cerimônia ― e a sala de jantar, o maior cômodo e o centro afetivo da casa. O refeitório dava para o quintal através de uma escadaria em curva; depois, sucessivamente, vinham a copa, o lavabo e a cozinha.
O pavimento superior, reservado aos dormitórios, reproduzia a disposição do andar de baixo; no corredor, o tique-taque contínuo do carrilhão, em cujo mostrador lia-se uma frase em latim: tempus fugit irreparabile. Situado acima da saleta da entrada, ficava o quarto que fora de mamãe em solteira; a seguir, outro quarto, o de meus tios, e que servia de rouparia. Marcantes eram as duas enormes cômodas desta rouparia, com gavetões da base à face superior que pareciam feitos para gigantes; continham roupas de cama, fronhas, lençóis, toalhas de mesa, rendadas ou adamascadas, recendendo a cânfora em meio a bolinhas de naftalina. O quarto dos meus avós, logo a seguir, tinha as dimensões da sala de jantar; por fim, vinham o banheiro e mais três quartos, dois dos quais ocupávamos nas férias; no último dormitório, morava a tia-avó Inácia.
Havia apenas um banheiro no terceiro andar e bacias de ágata em cada dependência para as abluções, mas sempre preferi o lavabo do corredor, onde fingia usar o sabonete “de bola” dependurado a uma corrente junto à pia; dali, espiava de través o quarto de Dona Inácia, a irmã mais velha de meu avô que o criara desde os seis anos de idade depois do falecimento da minha bisavó. Poucos eram admitidos na sua presença, e nunca crianças, visto que a nossa algazarra parecia incomodá-la sobremaneira. Impressionava a nudez do aposento: apenas a mobília indispensável, nenhuma gravura na parede, nenhum enfeite, sequer um tapete no assoalho. A tristeza, companheira de toda a sua vida, vencera por fim; magérrima, sempre de pijama, ora deitada na cama de patente, ora sentada na cadeira austríaca de balanço a ler jornais, mantinha-se em obstinado silêncio. Seus olhos vazios, nas poucas vezes que cruzaram com os meus, jamais pareceram reconhecer minha presença. Hoje, visitado freqüentemente pelo cão negro da melancolia, entendo afinal que infinito mirava aquele olhar.
O que nunca alcancei compreender, e devo levar para o túmulo como enigma da vida inteira, foi um episódio envolvendo a governanta daquela casa, Dona Mocica. Em tudo e por tudo, era como um contraponto de Vó Nininha; miúda como ela, Dona Mocica em todo o resto se lhe opunha: as feições duras, o ar marcial, as vestes sempre negras, como se estivesse num luto eterno. Nunca a vi sorrir para ninguém, assim como nunca soube o seu verdadeiro nome; sua única particularidade conhecida era o orgulho que tinha do avô, oficial combatente da Guerra do Paraguai. Morava no andar de cima da edícula situada no fundo do amplo quintal. Ali, no espaço mítico que ia da garagem aos confins do galinheiro, se estendiam os domínios do meu reinado; por aquelas bandas vicejavam roseiras, buxinhos, crótons, dracenas, acalifas, damas-da-noite, manacás, jasmineiros, em deliciosa anarquia.
Foi durante umas férias de meio do ano, disso estou certo, pois era época de colheita do café. Não lembro porque, parte de um dos carregamentos ficou estocada nos fundos do casarão. Passei a tarde subindo e descendo as sacas empilhadas nos “meus” vastos territórios, até que me dei conta de que, subindo pelos sacos de aniagem rente ao muro da edícula, obtinha uma visão do quarto de Dona Mocica. Cooptei meu primo Nando para a aventura; Nando, um ano e meio mais novo do que eu, estava convencido que a pobre senhora era bruxa. Combinamos então uma expedição noturna para surpreender o pretenso sabá. Chegada a hora, percebemos que a escalada no escuro era bem mais problemática; por sorte, a unha-de-gato do muro facilitou nossa tarefa.
Trepados nas sacas que enchiam o ar com o cheiro do café, ocultos pelas sombras da noite, devassávamos a intimidade da governanta ― e, assim, descobri o quanto a realidade ultrapassa a mais louca fantasia. Eu e Nando não tínhamos idade para saber o que era aquilo, mas sentíamos a estranha eletricidade que nos percorria de alto a baixo: diante dos nossos olhos estupefatos, víamos aquela austera senhora travestida de militar andando pelo quarto. Era o uniforme completo do Regimento de Osório, tal qual o conhecíamos das figurinhas do sabonete Eucalol: o boné de pala azul, o dólmã azul-ferrete, as dragonas douradas no ombro, o cinto talabarte branco a combinar com as luvas, e as bombachas azuis, com as botas de couro preto cobrindo-as até aos joelhos.
Dona Mocica sorria.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

O quartel de Dona Mocica (primeira parte)




            A infância é um território do tempo feito de encantamento e deriva. Tudo que depois chamei de realidade resultou do ajuste ao padrão médio de percepção, um longo processo que me empalideceu a memória, a imaginação e o sonho. Daí que posso dizer que existem várias realidades, não sendo as coisas todas reais da mesma maneira, nem iguais para diferentes pessoas. Compreensível assim que, para o moleque sarambé que eu fui, magro, moreno, orelhas de abano e ar assustado, mais afeito às coisas do que às pessoas, aquele casarão dos meus avós adquirisse um halo de fantasia, cujas vibrações áureas ainda hoje ecoam em meu espírito.
            Meus avós maternos eram grandes senhores de terras, proprietários das fazendas do Tijuco, São Simão e Santa Eulália, onde criavam gado leiteiro, plantavam algodão, milho e, principalmente, café. Terceira de nove filhos, sete homens e duas mulheres, mamãe era a menina dos olhos de meu avô e, mesmo depois de casada, passava impreterivelmente as férias do meio e do fim do ano entre o casarão de Bauru e a sede no Tijuco. Morávamos na Alameda Lorena, num sobrado próximo à Haddock Lobo que deu lugar a um prédio de apartamentos; esta casa, onde morei de zero aos quinze anos de idade, estranhamente, não carrega tantas impressões, mantendo-se como que suspensa no ar.
            No primeiro dia das férias, acordávamos antes do sol para não perder o trem das sete horas na Estação da Luz. As malas dormiam arrumadas de véspera, as roupas de viajar nos aguardavam dobradas sobre a cômoda azul e as cadeiras de palhinha, ao lado dos sapatos com as meias a sair da boca. Vestíamo-nos estremunhados de frio e pressa ― essas manhãs gloriosas ficariam para sempre marcadas pelo tresnoite e a excitação da partida ―, íamos então para a cozinha “forrar o bucho”, como dizia a Zeza. Pão com manteiga ou requeijão caseiro, café com leite, banana nanica e um bolo de fubá quentinho; para me garantir, ainda enchia os bolsos do casaco com sequilhos, suspiros, losangos de doce de leite e biscoitos-de-jacareí.
            Carregado o táxi sob a porte cochère da nossa casa, deslizávamos por uma cidade completamente vazia (na minha memória sempre fustigada pela chuva), indo desembarcar numa ruazinha ao lado do Jardim da Luz junto ao hall de entrada da estação. No saguão, o rumor de uma multidão de viajantes chegando e saindo dos limbos da nave central, contrastava com as ruas adormecidas que acabávamos de atravessar. Enquanto papai confirmava os lugares num dos guichês da entrada, seguíamos em fila o moço das bagagens: eu, mamãe e a Zeza, arrastando pelas mãos minhas irmãs.
            O menino mira atordoado a descomunal estrutura de ferro e vidro do teto, que se eleva vertiginosamente sustentada por um conjunto de imponentes colunas de alvenaria, e não duvida: sob esta majestosa arcada em vão livre acontecem aventuras que nem as de Stevenson, Ballantyne, Mayne Reid e Emílio Salgari, da coleção Terramarear, que ele já devora solitário. Atravessamos o passadiço de ferro central para descer a longa escadaria em três lances que conduz à plataforma, onde a composição aguarda encostada. Afixados às paredes, cartazes da Herva Matte Unsigen, Elixir Dória, Rhum Creosotado, Aspirina Bayer, Casa Fuchs; brilhantes placas de bronze na armação metálica indicam a fabricação: Walter MacFarlane & Co., Glasgow.
            Papai preside atento a cada deslocamento da família, pagando o carregador, cumprimentando os conhecidos ou tomando qualquer providência final; eu acompanho todos os movimentos do seu chapéu de feltro Fedora, guaribado no topo e na aba frontal, a flutuar sobranceiro num mar de chapéus. Um cavalheiro que jamais saía de casa sem um lenço perfumado, o alfinete de pérola na lapela do paletó impecavelmente vincado, a gravata acetinada, as abotoaduras de pedra vermelha, os óculos acavalados no nariz pequeno, o bigode sobre a boca fina. Se ainda há tempo, sai comigo para comprar jornais e revistas em quadrinhos, ou até mesmo tomar um guaraná na lanchonete Vagliengo.
            Como se obedecesse a um ritual, ele sacava do colete o relógio Longines de corrente para avisar que era hora de subir no Pullman, encontrar nossos lugares e acomodar os volumes. A campainha disparava, um funcionário percorria a plataforma anunciando que o trem ia partir; um choque, os vagões se acomodavam nos engates, e então o monstro de aço se punha em marcha lentamente, afastando-se da cidade. Lá fora o dia despontava; com o nariz espremido contra o vidro do compartimento reservado, via as zonas industriais da cidade com suas altas chaminés cinzentas, depois vinha o casario monótono do subúrbio, os descampados, até que surgia triunfante a paisagem rural do planalto paulista.
            A jornada era longa, cansativa e, também, escaldante, tão logo nos afastávamos da Serra dos Cristais em Jundiaí; me esquecia horas pasmando na janela, acompanhando os fios dos postes que corriam paralelos à ferrovia, subindo e descendo, em compassos irregulares. De repente, um túnel, ao sair, o choque do mundo reverberando luz. Ainda hoje, mais de seis décadas passadas, trago gravadas na retina da alma cada minúcia do vagão: a tonalidade verde-escura dos estofados e da passadeira de linóleo; as arandelas em forma de tulipa, de vidro jateado e bordas bisotê; o console do reservado com cantoneiras de metal dourado, fixadas por parafusos sextavados; as duas linhas paralelas a toda volta do compartimento, uma violeta e outra amarela, formando um ornato retangular com o monograma, CP, da Companhia Paulista na parte central.
            Lá pelas onze, o sol, já a pino, nos cozinhava dentro daquela caixa de ferro; eu saía a procurar meu pai no salão, parlatório exclusivo dos homens. Para consolo da minha impaciência, ganhava um suculento filé com fritas no carro-restaurante; quando nada mais me fazia ficar quieto, o bilheteiro anunciava a estação de Brotas. Já faltava pouco; as próximas estações sabia-as de cor: Torrinha, Dous Córregos, Jahu, Banharão, Mineiros e, finalmente, Bauru. O trem descrevia uma longa volta em torno da cidade, da janela, me referenciava pela agulha da torre da matriz contra o céu azul. Com energia renovada, pegávamos um táxi na estação rumo à casa de meus avós, na rua Major Baleizão nº 262. Ali, no castelo dos meus sonhos, eu fui feliz
            Há quem diga que toda infância é infeliz; não sei, a julgar pelo que vivi, digo que a minha não deixou de ser ambas, feliz e infeliz; porém, com muito mais verdade diria que foi um luminoso desfile de seres e emoções que me atravessaram e marcaram perduravelmente. Ainda assim, por uma dessas contradições que é própria à condição humana, as memórias da minha meninez se enovelam qual teia confusa em torno de dois núcleos de intensa obscuridade: minha tia-avó Inácia e Dona Mocica.
            


sábado, 2 de junho de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte final)



Como combinado, o signore Renato veio buscá-la no ponto de ônibus depois da aula de música; Manuela despediu-se da amiga que a acompanhava e embarcou na imponente BMW preta cuja porta um motorista uniformizado lhe abria de quepe na mão. Pararam numa gelateria nas imediações da Ponte Vittorio para se refrescar; os dois homens pareciam muito empenhados em detalhar com ela cada passo do importante encontro marcado para mais tarde com Mister Barkley, o representante da Avon Cosmetics Company.
Renatino e Pierluigi, o motorista, divertiam-na imensamente, principalmente este último, com sua cômica magreza e a voz infantil a contrastar com o linguajar chulo de forte sotaque ligúrio; aquilo que diziam tinha o poder inebriante de um licor exótico: a entrevista em inglês com um americano importante, os milhões de liras ― que ela se apressou a dizer que dividiria com os irmãos e os pais ―, as futuras capas de revista, etc. Não conhecia aquele sentimento, uma doce euforia que inunda a vida de possibilidades e tão facilmente se confunde com a boa ventura.
Gravou uma mensagem que entregariam à sua família para que se tranqüilizasse: nos próximos dias estaria envolvida em importantes negociações, ocupada de tal forma que talvez nem conseguisse telefonar para eles. A mensagem terminava com um recado para a sua irmã preferida, Loretta.
― Fique feliz por mim mana, nunca me senti tão bem, acalme papai e mamãe, você sabe como eles são, vêem perigo em tudo. Todos me tratam tão bem! Estou fazendo o que você sempre me disse para fazer: ir atrás dos meus sonhos. Não tenho realmente necessidade de um prazo para refletir, estou consciente do caminho que escolhi. Você pode fazer a sua vida sem mim mais facilmente do que eu sem você; não precisa de ninguém para construir o seu lugar no mundo. Comigo é diferente, me sinto como as andorinhas a brincar no céu... penso muito no que você me disse um dia: “quanta liberdade, por tão pouca responsabilidade”. Quando puder, volto e te conto tudinho, Lori, agora eu sou Barbara, a Barbarella, recorda?

Na casa dos Morandi o clima é de apreensão e terror naquela madrugada de quarta para quinta feira. Emanuele, o pai, desmoronou na poltrona depois de dar os três únicos telefonemas de que foi capaz: ligou para a polícia para comunicar o desaparecimento; para Irmã Costanza, diretora do conservatório, pedindo para ser imediatamente avisado caso alguma das colegas de aula tivesse informações; e, finalmente, para o arcebispo Casimir Markevicius, seu chefe no Banco do Vaticano. Confusamente, temendo as conclusões, ia juntando os cacos de conclusão na sua cabeça; a reação do monsignore deu a entender que o pior tinha acontecido: Manuela fora seqüestrada pela Máfia.
A polícia sugeriu que esperasse, afinal, o mais comum nestes casos é que a menina estivesse “passeando com amigos”.
Ele sabia, sabia de tudo e não podia abrir a boca; se o fizesse, as coisas poderiam se tornar ainda piores para a sua filha naquele momento. Sabia até o preço do resgate ― que nunca seria pedido à família ―, duzentos e cinqüenta milhões de dólares! Os filhos e a mulher estavam feito barata-voa pela casa, iam e vinham até perto do telefone, paravam como se lembrando de algo, para retomar em seguida a peregrinação aleatória com o olhar perdido. Ninguém dormia.
Emanuele Morandi arriscara demais ao fazer da sua menina protegée do todo-poderoso Markevicius; conhecia a fama do americano: fumava charutos cubanos, freqüentava salões e academias de ginástica muito mais do que sacristias, dividia a mesa com gângsteres e a cama com atrizes. A falência do Banco Ambrosiano causara pesadas perdas nas finanças do crime organizado, e eles agora buscavam reaver o dinheiro à sua maneira brutal. Do alto da torre Nicolau V, onde tinha certeza de não ter seus telefones grampeados, o monsignore acionava sua multitentacular rede de contatos; assegurando às famiglias ítalo-americanas que faria de tudo para indenizá-los. Soube que a adolescente estava nas mãos da Banda della Magliana, uma gangue romana chefiada por Enrico de Pedis ― o Renatino.
Apesar do apoio incondicional do Papa, que jogou seu prestígio para impedir a prisão do arcebispo pelo governo italiano, ninguém conseguiu dobrar o implacável secretário Agostino Casaroli, que já havia bloqueado a promoção de Markevicius à púrpura cardinalícia. A Igreja não reconheceria as contas secretas da Cosa Nostra em seu banco.
Dez dias depois, durante o Angelus da missa, o Santo Padre apelou aos captores de Manuela pela sua libertação. A hipótese de seqüestro era admitida oficial e publicamente pela primeira vez.

― Ninguém tinha me avisado que viria de Nova York para “fazer” uma criança... ― Donny Gambalonga, o tal Mr. Barkley, é na verdade um killer americano designado para acompanhar a operação de cobrança pelo clã dos Genovese.
― Se te faltar o sangue-frio, cugino, nós mesmos damos conta do caso ― De Pedis gostaria de resolver as coisas sem ingerências externas, mas ordens são ordens.
― Hmm, estou aqui para resolver problemas. É o meu trabalho. Se não fosse eu a fazê-lo, seria outro... não me custa mais nem menos. É verdade que a garota era do monsenhor?... Ok, acho que vou “brincar” um pouquinho com ela, antes.
Manuela compreendeu finalmente a verdade. Como sucede mais ou menos a todo mundo, aprende-se com a vida, mas sempre tarde demais.

― Vai doer muito, quer dizer, quando...?
― Não, bimba, vai doer só durante um minuto. Depois, passa tudo.