sábado, 29 de setembro de 2012

uma relação pornográfica (parte final)



Cessadas as loucuras de amor, deixamo-nos ficar ali no bem bom, jogando conversa fora na jacuzzi, bebericando das flûtes o agora morno champanhe; invertia-se o mais manjado dos clichês da etiqueta sexual: começávamos realmente a nos conhecer depois da foda bem dada. Era com uma espécie de divertida curiosidade que me punha a explorar abaixo da pele que proporcionara química tão certeira; vejam, este tipo de enredo tornou-se uma brincadeira de criança com a internet; na China, usam o renren, no Japão, é o mixi, mas a mais engraçada é a rede da pegação gay: no Grindr os caras botam a foto do membro inferior central, as preferências e urgências, e o GPS já dá a localização para marcar a ponta. É pá e pum, sem delongas nem milongas.
― Contigo não tem tempo ruim, hem menina?, gostei, aprecio mulher que vai direto ao assunto, que sabe o que quer e o que não quer na cama, hmm, quer dizer, não parece ter muita coisa nesta última categoria...
― Bobão... logo você, que fala um monte na hora do rala e rola. Ainda tem champanhe?
― Chega o copo. É, hãm, valeu pela mãozinha que você me deu, aliás, o dedinho... é isso que eu tava te falando, curti sua presença de espírito. Tem mulher que trava nessa hora.
― O prazer briga com a tesão, ex-my love; o que você abre mão de um, você paga no outro. Não tem almoço grátis.
― Hãam?!
― Esquece. Homens não entendem de tesão, entendem no máximo de pinto: o seu próprio. My prreciousss!...
― Hahaha, isso eu consigo entender, e é a maior das verdades, sou obrigado a reconhecer.
...
― Escuta, bem, você, isto é, em casa... com o maridão, também dá esse empenho todo?
― Se é o que você quer saber, mantenho ele bem satisfeito, viu? Pra não andar caçando por aí que nem você... e essa namorada que cê tá enrolando há seis anos? Ainda mantêm a chama acesa, ou já dobraram o Cabo da Boa Esperança?
― Putz, para falar bem a verdade, deu uma embaçada geral na área do playground; não entendo, a minha namorada é um mulheraço: bonita, inteligente, bem sucedida, cheia de amor pra dar... A coisa pra mim nunca vai além de quatro meses, passou disso, o tesão vai na meia e começo a olhar em volta feito marinheiro acabado de descer em terra.
― É lindinho, não adianta usar calendário atrasado, ninguém pára o tempo. Casar vai te fazer bem, aposto. Vem cá, cê topa um jogo comigo?
― Que jogo?!
― Conta pra mim uma coisa que você nunca contou pra ninguém... depois é a minha vez.
― Deixa ver... ah, tá, quando era moleque, no quintal da casa da minha tia havia um terrenão, lá, bastava escavar um pouco e apareciam cacos... é, cacos de qualquer tipo: partes de azulejos, de telhas, travessas, serviços de chá, etc.; era uma riqueza de pedaços de outras vidas, de épocas que já só existiam em fotografias, fragmentos de tempos e pessoas que não conheci, mas que eu podia usar para me montar, me compor... foi assim que eu reconheci o passado, descobrindo no presente um defeito de fábrica, uma falta essencial que se cava atrás do instante presente, debaixo do mundo exterior, o qual percebia simultaneamente que me pertencia e também estava para sempre perdido. Agora você...
― Eu? Bem, eu a-do-ro sexo casual.
― Ah, vá! Não diga, agora que tal contar uma que eu não conheça... sei lá, tipo uma piada de Joãozinho, ou do papagaio...?
― É sério, cara. Entenda, sou incapaz de ter um amante, sabe assim?, tipo fixo... não é a minha, ia me sentir traindo meu marido...
― Caraca, esta é boa! E o que acabou de acontecer aqui, passou-se em outro plano da realidade, foi?
― Foi no plano do sexo, mas não do amor. Não vou pedir teu celular, MSN, nem vou deixar recadinho no teu Face, amanhã é outro dia. Amor e sexo podem ter tudo e nada a ver, isto daqui foi um jogo, bom, mas jogar não é tudo. Pensando bem, jogar outros jogos eu quis dizer, o que não se deve fazer é jogar um jogo só.
― Ah é?! E vai que o teu marido joga este jogo também, você ia gostar?
― Não de ficar sabendo. Olha, eu prefiro fantasiar na cama; mas também, é o risco: o toureiro está em vantagem covarde contra o touro, mas precisa reconhecer que ele também pode morrer. Faz parte do acordo.
― Sim, o exemplo é bom: sempre é uma questão de chifres...
― Se não, fica que nem você aí, tão cheio de medo que a tua mina faça o mesmo que você faz, que não consegue assumi-la até o fim. O outro é tão livre pra mentir como você, e você precisa aceitar isso.
― Não... as mulheres são diferentes, não têm essa necessidade que os ho...
― Kkk, você realmente lê best seller demais, deixa eu te perguntar uma coisinha: você faz isto direto, não faz?, pois bem, com quem você acha que vai pra cama?

2 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Caro filipe com i,
..."mas também, é o risco: o toureiro está em vantagem covarde contra o touro, mas precisa reconhecer que ele também pode morrer."
Gostei!
Abraço

Luisa Catunda disse...

Como assim?!?! Clichê com lição de moral?!?! Sei.....