domingo, 14 de outubro de 2012

Sul (parte 2)



            Um sentimento infuso toma conta de mim conforme a correnteza me arrasta mais e mais ao sul: o pasmo. Acentuado pela circunstância de não haver insinuação da mais leve sombra de outra qualquer vivalma nas redondezas; não que o pasmo alheio me interesse, nem a mim interessa pasmar: sou apenas solitária testemunha.
            Tudo tão fosco!
            Estou reduzido à simples condição humana, o vazio sobre a cabeça e sob os pés, e sobretudo dentro, dentro da alma. Posso ser um maldito pré-cadáver, pode ser que o movimento involuntário deste barco cave abismos irrefreáveis, mas recuso-me a ser enterrado em vida — o meu fogo-fátuo escolho queimá-lo em meu próprio gozo, num auto-de-fé de perplexidade e gases.
            Um novo fenômeno atrai minha atenção de navegante passivo: a progressiva tonalidade violácea que adquirem as águas vulcânicas por onde trafego. Frio e calor extremos divididos pela linha da água. Nada faz sentido para além desta casca de noz, e mesmo a bordo começam a esgarçar os laços da razão. Soa a terrível pergunta no silêncio da mente: quem sou eu? A ipseidade, sensação de ser quem se é, parece imediata, biográfica e óbvia quando presente, mas revela-se uma perda desorientadora quando some.
            Sempre me perturbou o fato de estar pintando um quadro impressionista ou cubista, quando deveria tirar uma foto, ao pensar em mim mesmo. Todo tipo de fatores limitam a minha confiabilidade como observador — preconceitos, estados da alma, padrões de reação, a limitação do ponto de vista, etc. —, fazendo com que eu, o narrador, selecione e edite coisas que engendram um outro eu, o narrado. Quanto mais penso nisso, mais prefiro protelar o tópico mim mesmo; o que gostaria era saber mais sobre a realidade objetiva fora de mim.
            As trevas aumentaram, aliviadas tão somente pela reflexão nas águas da catarata vaporosa. Numerosas aves, de porte gigantesco e brilhante alva plumagem, sobrevoam o barco desde cedo. E agora a corrente nos conduz, a mim e ao barco, na direção do centro da cortina nebulosa; mas logo à frente, interrompendo a trajetória, ergue-se do mar uma figura velada de proporções descomunais — um colosso de feições humanas, mas súbito e imponente como as aparições divinas. Em sua face luzia uma inexprimível bonomia e a pele era branca como a neve.
            Profundo abatimento me invadiu quando percebi que "ele" não era a estação final da curiosa odisséia; a canoa passou perto o suficiente para uma segunda constatação deprimente: o gigante dava mostras de sofrer com o calor da água, bem como com o frio atmosférico.
            Depois de vogar por um tempo indeterminado por aquela região em que as estrelas giram sem sair do céu e o sol leva meses para se pôr, finalmente avistava o continente antártico, uma massa de gelo eterno e uniforme tomando toda a extensão visível à frente da proa. Duas escarpas de alvura sem falhas erguiam-se da geleira litorânea a uma altura de vertigem: calculei em mil metros do sopé ao cume; mediando as estranhamente delgadas montanhas havia uma espécie de gruta, para onde o bote me conduzia irresistivelmente.
            Novamente iludido pela distância, veio o absurdo desenganar-me na aproximação da terra: não eram rochas, nem gelo tampouco; no lugar das montanhas siamesas, distinguia claramente duas pernas de mulher — mas que mulher poderia ter aquelas dimensões de pesadelo? Onde antes havia a caverna, avistava um despenhadeiro de... nada; o vórtice de ausência não possuía forma, cor, sequer escuridão, apenas um vácuo no lugar em que as mulheres, mesmo as gigantas, têm a vagina. Era para lá que rumava o barco. O opaco abismo abria-se, esperando.


            — Estão te chamando, parece que há alguma coisa... sei lá, só sei tem que ser você.
            — Ai minha nossa, coisa boa não deve ser. Esse tempo todo demorando, algo não vai bem, posso sentir...
            — É. Deve ser importante mesmo, senão o chefe da equipe não chamaria você... Ah, é naquela salinha lá no fim do andar.
            — Você me espera aqui, tá? Não estou gostando nada dessa falta de notícias, gente correndo pra lá e pra cá...
            — Claro que fico, vai tranqüila.

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