quarta-feira, 30 de maio de 2012

a segunda pele



Quando um artista rompe
com a matéria de que é feito
equivale para o mundo
à descoberta da própria textura

Mais do que um público
a verdadeira arte abriga
usuários ambientes e conexões
cada obra se descobre participação e diálogo

Coexistem no objeto estético
realidades seres flutuantes inevitáveis
múltiplas arquiteturas simbólicas
o cortejo da infinita reprodutibilidade

A arte intervém como dobra
criação delirante libertação
por hipertrofia elemento aberrante
no jorro da vida

O habitat da poesia é a topografia
instável e transformadora do delírio
sonho tangível arte
não é resultado é resto

E o que resta é um esforço
para repotencializar a realidade
aumentá-la com metáforas deformar
saturar (ou subtrair) sentidos

A arte não transforma o mundo,
nem o artista mas revela percursos
imprevisíveis desconcertantes mentiras
aço e alabastro eterno simulacro

O artista ergue sua paisagem
de ocultas revelações geologia
de superfície cujo desabamento
contínuo soterra nosso frágil cotidiano

domingo, 27 de maio de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte 2)



O monsignore está muito preocupado. Apesar de ser o terceiro homem mais poderoso da Igreja Católica Romana, abaixo apenas do Papa e do Secretário de Estado do Vaticano, ele tem motivos de sobra para acreditar que suas três décadas de crescente poder na hierarquia eclesiástica se encaminham para um ocaso vergonhoso. Isto se conseguir escapar da prisão. Da janela da sua sala, situada no quarto e último andar do bloco central do Palácio do Governo, observa os jardins defronte onde o brasão de armas da Santa Sé está desenhado nos canteiros de grama milimetricamente aparada. Anela possuir aquelas chaves cruzadas de ouro e prata que representam as chaves do reino dos céus prometidas a São Pedro.
O arcebispo Casimir Markevicius precisa mover as peças com extrema prudência no tabuleiro da intrincada trama de política religiosa, finanças e poder mundano que ele mesmo ajudou tecer. Aos sessenta e um anos, ainda exala saúde e ostenta a compleição atlética que lhe valeu o apelido de “Gorila”; é um homem rico e influente, mas descobriu dolorosamente que não é inatingível. Anda freneticamente em todas as direções no seu gabinete, estrala os dedos das mãos, franze os ombros, sem conseguir achar saída ou sossego. Febril, acredita ter atingido a perturbadora lucidez dos patibulários: já ouvira falar dessa clareza mental que acomete os que sabem que vão morrer.
Percebe que a essência do seu ministério está fadada à incompreensão, seus modos, suas ações e seus métodos não se coadunam com a santimônia afetada dos seus pares. Se o futuro certamente o condenará, trata agora de evitar que o presente também o faça.
― Pode-se viver neste mundo sem se preocupar com o dinheiro? ― vocifera para as paredes ― Não se pode dirigir a Igreja com ave-marias!
A madrugada do dia 23 de junho de 1983 avança, mas, aquele que chegou a ser chamado de “banqueiro de Deus” e “guarda-costas do Papa” não se deixa vencer pelo sono. Relembra a infância pobre em Cicero, periferia sem lei da Chicago de Al Capone, relembra o decisivo apoio do cardeal de Nova York e capelão militar dos Estados Unidos, Francis Spellman, nos seus primeiros passos em Roma. Outros tempos, mas a mesma santa cruzada: o bom combate. Spellman cuidara pessoalmente dos financiamentos para evitar a infiltração comunista nos países da América do Sul e da OTAN, como quando enviou milhões de dólares para a Democracia Cristã de Alcide de Gasperi vencer as eleições italianas no pós-guerra imediato.
E qual reconhecimento obteve este clérigo admirável? Ficar marcado pela apropriação do dinheiro que os nazistas refugiados na América haviam roubado aos judeus. Em nada importava o bom uso destes recursos? Não era verdade, como se lê na primeira epístola de Pedro, que “a caridade cobre uma multidão de pecados”? Markevicius era o vértice oculto de uma encruzilhada histórica: ajudara Montini, o protegido de Pio XII, a se sagrar Papa depois do excessivamente liberal João XXIII, evitara, após a morte de Paulo VI, que o intransigente Luciani iniciasse um expurgo no Banco do Vaticano; Benelli, secretário de Montini e cúmplice no affair Luciani, não logrou o pontificado, mas a solução de compromisso Wojtila mostrou-se acertada no tocante à luta anticomunista.
Porém, a recente falência do Banco Ambrosiano de Milão tinha o potencial explosivo de todas as ogivas nucleares da Guerra Fria. Trapaceiros de variado calibre, políticos corruptos, capi da Cosa Nostra, empresários inescrupulosos, nobres, maçons, prelados complacentes e Cavaleiros do Santo Sepulcro viam-se assim sugados pelo buraco negro das finanças nada santas da Igreja.
Há mais de dez anos no comando do I.O.R. (Istituto per le Opere di Religione, o banco da Santa Sé), na prática, Casimir Markevicius gerenciava um banco off shore em pleno centro de Roma, cujas operações financeiras ficam fora dos acordos jurídicos e dos filtros antilavagem interbancários e internacionais. Um paraíso fiscal que negociava com altos depósitos e retiradas em espécie, títulos do governo italiano, ações norte-americanas falsificadas, contas numeradas ou em nome de “laranjas”, fundações religiosas de fachada e... dinheiro da Máfia. O rombo de quase dois bilhões de dólares do Ambrosiano expunha as entranhas de uma engrenagem que servira, entre tantos propósitos abstrusos, para financiar o sindicato Solidariedade na Polônia e iniciar a derrocada da Cortina de Ferro.
É necessário fechar rapidamente o contencioso com o Ambrosiano de modo a minimizar os danos de imagem e Casaroli, Secretário de Estado do Vaticano, estipula, junto a uma comissão mista com o Estado italiano, uma indenização de 100 milhões de dólares aos clientes do banco. Mas o poderoso cardeal se recusa a ressarcir a Máfia. O arcebispo sabe que as famiglias têm esse costume de mandar recados através de suas ações violentas. Dois envolvidos no escândalo morrem em “suicídios” mal esclarecidos, então, vem o atentado contra o Papa. O círculo de fogo se fecha; pela primeira vez, Markevicius não consegue evitar um atentado contra a vida de Sua Santidade.
E agora, o desaparecimento da menina.

sábado, 26 de maio de 2012

vida amor poesia verdade


quando uma verdade se torna a verdade
de todos
já não é de nenhum

a poesia tece a miragem
dos mundos
que o mundo não soube ser

o ente doa ao amor a presença
o mundo,
a falta

a vida é a obra de um sonho
em acontecimento

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Manuela, Barbara, Barbarella (parte 1)




            A chuva dura pouco, novamente o calor estival volta a fustigar os habitantes do menor país do mundo. A menina sai para caminhar tão logo termina o aguaceiro. Ela está chorando. Não é incomum acontecer; mas hoje isso não a preocupa por dois motivos: os óculos, que detesta usar, escondem as lágrimas curtas e, também, porque chora de felicidade. Descobriu que pode ser, que vai ser, aliás, já é feliz; a felicidade pode ser assim como uma tarde de sol que começou nublada. Caminha a passos largos, de quando em quando, entremeados por pulinhos de contentamento impaciente. Acabou de completar quinze anos e sente uma felicidade vital e desanuviada que só nessa idade se pode sentir. Tem uma vida maravilhosa pela frente.
            São as férias escolares de final de ano letivo, Manuela terminou o segundo ano do colegial no Liceo Scientifico com notas excelentes. É o orgulho dos pais e dos quatro irmãos. A família Morandi é de poucas posses, não há viagem de férias, nem acampamentos de jovens, como para muitos dos colegas de escola das crianças ― zelosos, Babo Emanuele e Mamma Marina são bastante estritos quanto a privilégios: se não houver regalias para todos, não as há para nenhum. Ninguém reclama.
A quarta filha dos Morandi, no entanto, demonstra uma extraordinária aptidão para a música; Manuela tem aulas de flauta transversal três vezes por semana e canta no coro da igreja de Santa Ana, dentro do Vaticano, onde vive desde que nasceu. Mesmo durante as férias grandes, continua a freqüentar as aulas da renomada Scuola Tommaso Ludovico da Victoria, conservatório ligado ao não menos importante Instituto Pontifício de Música Sacra. Contrariando seus hábitos, naquele dia toma a saída da Sala de Audiências, virando na Piazza dei Sant’Uffizio e seguindo a pé pela Via di Porta Cavallegeri até à barulhenta Gregório VII.
Balançando o estojo do seu instrumento no compasso de um rondó mental, ela se baladeia pelas ruas a perguntar: “Sou bela?, sou feia?, ou, pior que tudo: serei apenas... comum?!” Não, não pode mais duvidar, o mundo descobriu que ela possui algo de muito especial sob aluviões de timidez, inibição e medo. Às vezes tem a impressão de que as coisas se passam dentro de um filme; sofre como as heroínas dos romances, sim, sofre terrivelmente por causa de um assunto secreto que não tem coragem de contar a ninguém. Nem mesmo a um diário.
Só que agora, enquanto sai à direita na Via Aurelia, percebe que a alegria é um pássaro que perdeu o medo de se aninhar entre as suas mãos. O verão é uma estação louca, pensa, os jovens precisam sair das suas casas e andar, andar perdidamente, só para aspirar o odor pungente que sobe das ruas molhadas de chuva. “Manuela, quão leve é o ar que agora flui para teus pulmões”. A avenida contorna caprichosamente um imenso quarteirão à esquerda, onde uma mansão decrépita mal se entrevê atrás de um espesso bosque; é um lugar ermo que costuma evitar descendo do ônibus mais adiante, próximo à Via Paolo III. Um caçador de talentos, representante de uma companhia de cosméticos, um homem muito bem vestido, perfumado como uma senhora, disse que ela era quem ele estava procurando.
            ― Eu sei mana, mas escuta, pensar mal é pecado, mas às vezes se adivinha. Não digo que não seja possível... é que, bem, você nunca tinha se atrasado, a senhora Costanza telefonou.
― Você é a irmã mais velha, e eu respeito, mas é que você não viu: um cavalheiro tão distinto, me mostrou o cartão dele, os portfólios da campanha... depois, é uma grande companhia, eles querem um rosto de uma moça moderna, simples, não querem mais o jeito de boneca das modelos profissionais...
― Manuela, o papai sempre diz...
― Ah, você sabe que papai e mamãe têm medo de fantasmas, sempre são contra as nossas amizades, nunca nos deixam sair. O emprego do papai, as responsabilidades do cargo do papai. É só o que sabem dizer.
― De qualquer maneira, você não devia tomar nenhuma decisão antes de falar com eles. Prometa pra mim.
― Sabe o que ele me disse? Que eu poderia usar um nome artístico: Barbara Gregori. Não é demais?

domingo, 20 de maio de 2012

O MEU MUNDO É DIFERENTE



Subversão do programa:

o trabalho do sonho pressupõe toda outra

gama

de interconexões possíveis
 



Ievguêni Pietróvich

procurador do tribunal

percebe a ineficácia do discurso

lembra que o bom senso da vida

lhe veio não de sermões e leis

mas de fábulas, romances

poesias...
 



Queremos que a arte seja voluptuosa

e a vida estética

(melhor seria o contrário)

o universo fabulado satisfaz

a humana necessidade de humanizar

tudo
 



Assim a arte surge

como uma nova dimensão

a partir do som azul de Chagall

assim como a delicada expressão de Mozart

evoca doçuras

da voz
 



Há no universo a possibilidade

i-reconhecer o mundo

e com isto re-conhecer

a própria condição


Este universo é regido pela perigosa harmonia

das sombras

magia lúcida e atávica

a primitiva claridade

do mito


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Hai Kai



Vento de outono
dormem juntos, homens e cães
sob a marquise
(Luciana Bortoletto)


domingo, 13 de maio de 2012

a idade das coisas



Talvez não seja

lobo de manhã

leão ao meio dia

cão à noite;

a vida não tem um sentido

a serpente-tempo

todos





Talvez eu seja

o sonho de um sonho

ponto

ínfimo e tangente

de um infinito de sonhos

e de vidas



domingo, 6 de maio de 2012

Os BFFs (parte final)



Mansueto estava certo, se os dois ainda se esforçavam para manter o decoro quanto a manifestações de riqueza ― traço raro no novorriquismo ―, as mulheres deles se esbaldavam no consumo conspícuo. As respectivas Donas Encrencas haviam sido tragadas por uma orgia febril de gastanças, seus delírios bovaristas eram de deixar Becky Bloom arrastando o chinelo na 25 de março: shoppings de grife, joalherias, lojas de decoração, boutiques exclusivas e fechadíssimas, nada lhes diminuía o facho; Miami, de repente, tornara-se pequena para a fúria sagrada que as habitava. Amavam, sobretudo, comprar roupas juntas; a mulher de Walfrido, confessou certa vez à amiga, dentro do provador da Tânia Bulhões, a estranha sensação que o ruge-ruge de alguns tecidos lhe causava.
― Amiga, não sei nem te explicar, acontece principalmente com a seda pura, é o frufru passando no corpo, acho, tipo um roçamento, sabe?, e aí escuto esse sussurro brando: o grito da seda.
― Dá o dedinho aqui, isso, agora somos BFFs: best friends forever!

Na prefeitura ganharam o apelido de Chitãozinho e Chororó, muito embora não tivessem qualquer semelhança com os cantores. Circulavam boatos, aquela coisa de rádio-pião: ora era Mansueto que mordia a fronha, ora Walfrido que beliscava o azulejo; que isso e que aquilo, mas também jurar, ninguém jurava. O fato é que navegavam em mar de almirante e céu de brigadeiro, o prefeito caminhava tranqüilo para a reeleição, e WM se faziam mais e mais indispensáveis para o chefe. Na peculiar lógica que rege a política, eram considerados honestos, corretíssimos, dois varões de Plutarco; uma vez feito o desvio, não desviavam o já desviado: faziam chegar a todos o justo e devido na azeitada engrenagem que haviam montado.
― Mansueto, sei não cara... uma hora a nossa casa cai, sabe o como é: imprensa, oposição... esses caras podem levantar coisas, e aí quem dança somos nós, os bagrinhos. Olha que Deus não dorme nunca. A justiça dos homens...
― Pára já, pára com isso, meu irmãozinho! Bicho, é o seguinte: a gente sempre tem que molhar a mão de alguém pra governar, entendeu? Os caras não fazem no amor, tem que dar um café pros caras. A imprensa daqui é compreensiva (esfrega o polegar e o indicador) e a oposição... a oposição táqui, ó (bate a mão no bolso).
Tinham seus arrufos, como em toda a relação, mas a amizade sempre era maior ― amizade pura, ao contrário do que maldavam as línguas bifurcadas. Walfrido não era inteiramente cínico, pruria-lhe o gilvaz, acometiam-no as comichões do órgão moral, tinha pontadas de sinceros escrúpulos; já Mansueto, perdia o emprego mas não perdia a piada, era um gozador em período integral.
― Wal, entrei para uma nova seita...
― Como assim? Que seita?
― É a “aceita cheque”... Hahaha!
― Blasfemo. Só lhe perdôo porque sei que você tem a inconsciência das crianças...
― Hehe, para nós, chequistas, deu, é amor!
Compraram terrenos contíguos em Mongaguá onde construíram suas casas de praia, como bons filhos da ascendente classe média paulista que eram. Providenciaram uma comunicação interna entre as casas pelo jardim ― no litoral, finalmente, tornaram-se vizinhos de porta. Sempre aberta, aliás, para a livre circulação de filhos, cachorros e empregados.
A inauguração simultânea foi nababesca e discreta, como convinha, embora por força de uma megalicitação municipal, ambos tiveram de interromper o feriado, pois havia reunião na casa do presidente do partido. Deixaram mulheres e filhos curtindo a piscina e as comodidades das mansões de veraneio; as patroas não cabiam em si de contentamento.
Foi de supetão. Presos os cães, deitadas as crianças, ligados os alarmes, e com os criados dormindo na edícula, elas se divertiam experimentando novíssimos peignoirs da Victoria’s Secret sobre os lençóis acetinados da cama king size. Quando perceberam, estavam aos beijos e abraços, rolando no macio e tirando a lingerie uma da outra.
― Uau, é... nem sei o que dizer, nunca tinha feito isso... com uma mulher!
― Então não sabia o que estava perdendo...
― Hmm, menina, nunca tinha sido tocada assim...
― Boba. Foi o casamento que te acostumou mal, sabe?, o sexo no casamento é que nem a coca-cola...
― Já sei, com o tempo perde o gás...
― Sim, quer dizer, no começo é normal, depois é light, daí é zero.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os BFFs (parte 1)




            O acaso também há de ter a sua tecnologia; um maquinismo complexo e arbitrário capaz de fazer reagir a espessura do mundo, capaz de tecer os destinos mais improváveis, de cruzar os caminhos mais díspares ― até mesmo o aleatório teria as suas razões?
            Claro, porque, depois das duplas Pelé-Coutinho, Holmes e Watson, Johnson & Johnson, Laurel e Hardy, Washington-Assis, Tom e Jerry e do ZZ Top, todo mundo conhecia a dobradinha WM na prefeitura de São Bernardo; para amigos e conhecidos, Mansueto Carrascoza e Walfrido Pantaleão formavam a mesma, una e única, substância. Corda e caçamba, tranca e tramela; dois minutos antes do Big Bang já estavam juntos, brincavam.
Eram amigos de mijar cruzado, mas não que se conhecessem desde sempre, muito ao contrário. Ambos haviam cumprido carreiras paralelas no serviço público e na estrutura burocrática do mesmo partido político; Mansueto era gestor de recursos humanos em Itaquaquecetuba, enquanto Walfrido se destacava como assessor da área financeira em Mauá. Chegaram à cidade fundada pelo aventureiro João Ramalho a bordo dos famigerados cargos comissionados, os DAS (Direção e Assessoramento Superior).
Quando o partido ganhou as eleições para prefeito de São Bernardo do Campo depois de longo período na oposição, houve demanda por “quadros” qualificados para realizar uma administração modelo, que funcionasse como cartão de visitas na região. E assim, requisitados aos respectivos diretórios, é que foram se encontrar na secretaria que gerenciava os editais e as licitações da cidade com o 13º maior PIB municipal do Brasil.
WM realizavam uma tarefa importante e delicada, crítica mesmo, tanto no âmbito do governo como dentro da hierarquia partidária: direcionavam as compras de obras, equipamentos e serviços da municipalidade de modo a que os financiadores eleitorais e parceiros econômicos recebessem suas merecidas contrapartidas em contratos públicos. Pode-se dizer que eles, sim,  compreendiam o verdadeiro espírito do princípio de checks and balances.
Vista do alto, a coisa toda tinha a precisão dos relógios suíços que adornavam os pulsos dos nobres dignitários do ABC paulista: por meio de aditamentos de contrato, suplementações orçamentárias e verbas extras, gerava-se um sobrepreço nos gastos públicos que deveria custear os participantes do esquema, o silêncio da câmara de vereadores, além dos recursos para a cúpula do partido e a formação do caixa “não contabilizado” das futuras campanhas.
Walfrido era pastor evangélico, carismático, grande obreiro. Tanto fez que trouxe o colega e a mulher para a sua congregação; as famílias estreitavam a cada dia o convívio, tinham filhos quase com a mesma idade que eram colegas de classe na escola. Mansueto, empreendedor nato, montou com o amigo uma empresa de aluguel de carros blindados para transportar as quantias em espécie que circulavam farta e descuidadamente à sua volta em bolsas, jaquetas, meias, sutiãs e cuecas. Usaram as esposas como "laranjas” para registrar a transportadora.
― Manso, meu irmão, tô ficando com medo disso tudo... não sei, esse enrosco todo que a gente (suspiro), você sabe, desagrada a Deus, dinheiro não traz a felicidade...
― Sai dessa, Waldo, é claro que o dinheiro não traz a felicidade. Ele só acalma os nervos. Você tem mais é que aquietar os seus... veja o lado bom: não foi você que me disse que as brigas com a patroa diminuíram, acha que foi por quê?

sábado, 28 de abril de 2012

paisagem




a rua escurece azul
os topos ainda refulgem
a incandescência curta última
respiração da glória-lume

lâmpadas despertam
nos postes indefinidas
figuras na calçada
e o céu a explodir magentas

morros recortam horizontais
silhuetas pardos monumentos
contra o dia violeta
a invasão silenciosa do roxo

o vulto desenha na paisagem
radial volumes de concreto
tudo em volta a remoinhar
a espuma rala das nuvens

domingo, 22 de abril de 2012

Os filhos da cabeleireira (parte final)




           André se levantou com os punhos fechados pronto para socar a cara do irmão; a meio do caminho, pensou melhor. Pôs-se a andar em círculos pela cozinha como um tigre de circo. Pisava duro, parecia esperar por uma oportunidade melhor enquanto o irmão remexia o café na caneca com a maior calma do mundo.
            ― Quer saber? O Tiago morreu fazendo aquilo que mais gostava, cercado de amigos, irmãos de afinidade. Ele acreditava no que fazia. E você, bródi, qual é a tua mesmo? Pensa que não te filmei lá na Santa Zita, fingindo que rezava? Rapá, tudo na tua vida é fake, teu carro é o falso smart car, o cavanhaque, cê pintou de loiro, anda pra cima e pra baixo com esse cachimbinho de boiola que tu faz que fuma... fala sério, mano, tu é o maior espuma de chope, nada é à vera, até a filosofia é de araque... como é que é mesmo?, religião pros ateu, fé pra leigo... que porra é essa, hem? Mano, tu é falso que nem nota de três real.
            ― Bom, bom, chega; não vamos a lugar nenhum nessa toada. Nós dois estamos abalados... é uma seqüência de tragédias, mas precisamos esfriar a cabeça e falar a mesma língua, agora que a mãe... não está mais aqui. Ninguém tem o monopólio da dor.
            André parou na frente da pia, inclinou-se para alcançar a alavanca do vitrô basculante da janela. O frio havia piorado.
            ― Falando em monopólio, parece que temos um aqui... não é irmão?
            ― Como assim? Que é que você está querendo dizer?
            ― Não estou querendo, estou dizendo. Dona Gildair fez uma doação pra um de nós dois. E não foi pra mim.
            ― Como é que você...? Quer dizer, você está invertendo as coisas; não é bem assim...
            ― Ah tá, não deve ser assim, deve ser assado. Agora diz você pra mim: que é que eu vou pensar de um Judas que vê a mãe de luto, na pior, tomando uns tarja preta bem nervoso, e cola nela pra ficar com a casa onde ela mora?
            ― Não admito que você me fale desse jeito, não é...
            ― Não é, mas parece, meu bróder. Ainda mais quando a gente lembra que esta região valorizou muito depois da chegada da estação de metrô... diferente de tu, meninão, que nunca valorizou nem o bairro, nem a família de onde veio ― estendeu ambos os braços, virando de frente para o irmão mais velho ― Este cafofo agora vale uma gaita da boa.
            ― Pois foi pensando na família que a dona Gilda me chamou. Foi ela que me procurou. E quer saber? Ela estava muito preocupada com você, queria que eu cuidasse do patrimônio porque sabia que você não tem responsabilidade pra cuidar nem de um canário-da-terra.
            Logo após a morte do irmão, efetivamente, Lucas se reaproximara da mãe. Foi nesta breve convivência que acabou por descobrir a galinha dos ovos de ouro; a mãe falou-lhe da oferta de uma empreiteira que pretendia derrubar meio quarteirão da rua para construir um condomínio de luxo. Cardiopata, extremante abalada com o assassinato de Tiago, Gildair temia morrer de uma hora para a outra; receava, sobretudo, que André dissipasse a herança que deveria lhe garantir algum futuro.
            Lucas contratou um advogado de sua confiança que sacramentou na letra da lei a doação dos cinqüenta por cento do imóvel de que a mãe poderia dispor em vida. Assim, Lucas passava a ter direito sobre três quartos do valor do imóvel; o que ele não tinha como saber: a funcionária do cartório onde lavraram a operação era cliente do Gilda Beauty e revelou a tramóia toda para André.
            ― Luquita, tá ligado que a Cleide tá de barriga?...
            ― Sim, a mãe também me contou essa: mais uma das suas... já deve estar pra nascer, né? Por essas e por outras é que ela me pediu pra...
            ― Desliga a fita, meu, comigo não precisa fazer o número do arrimo-de-família, comigo não violão! Tu só serve de arrimo é pra ti mesmo... Acontece que tenho novidades: o brasilino não é meu, é do Tiago ― André fez uma pausa e esperou que a revelação fizesse efeito.
            ― Tá doidão? A Cleide sempre foi treta tua, Dé, que merda é essa agora?
            Na mosca.
            ― Olha aê, assim tu parece que foi criado na quebrada, não aquele mauricinho que põe blusa de gola rolê pra pagar de papo-cabeça...
            ― Pára de falar asneiras e me explica essa história, André.
            ― Acontece, Luqueta, que, sem herdeiros, nosso irmão Tiago sairia da frente na linha dos herdeiros, não é? Mas, e se ele tiver um filho?, e se a mãe desse filho me deixar administrar a parte dele enquanto ele for menor? Daí, queridão, a tua porcentagem da bolada, mesmo com a doação da mamãe, muda um pouco, precisa dividir mais, né não?
            ― Deixa de ser idiota, o filho é teu!
            ― É verdade. Mas você ainda deve lembrar que eu e o Tiago éramos gêmeos... como provar? Vai valer o que a Cleide disser.
            Lucas se encaminha na direção da saída com as chaves do carro na mão; treme de nervoso, mas procura disfarçar a comoção.
― Não acredito que você é capaz de uma coisa destas!...
            ― Dona Gilda também não acreditava que você ia me esfolar, Lucas, aliás, ela nunca soube avaliar os homens direito. Nem mesmo os próprios filhos. Já você, mano, acha que porque tem um canudo é mais ligeiro que todo mundo; é o problema dos inteligentes: acham que só eles são inteligentes.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os filhos da cabeleireira (parte 2)


            Alguma coisa parecia pinicar Lucas, mas ele permanecia reticente, como se estivesse com dificuldade para achar as palavras certas. André, que de bobo não tinha nada, pescou no ar.
            ― Desembucha bro, quem tranca muito fica com hemorróida e intestino preso...
― É o lance do bilhete da mãe... como é que uma coisa dessas vai parar na televisão? É muita invasão, não entendo. Neste país não se pode publicar uma mísera biografia sem a sogra, o cachorro e o papagaio assinarem...
― Ih, fio, é o que eu tava te dizendo: nessa hora não há gente, só abutre. Você não tava aqui pra ver a romaria que isto virou, mano, nego me oferecia dinheiro, di-nhei-ro, só matando!, por pedaços da roupa que ela tava usando... naquele dia ― o maxilar de André crispava-se em espasmos furiosos. Tirou de vez a gravata preta.
― De certo modo, era previsível. Funerais revelam mais sobre os vivos do que sobre os mortos. Guardar este tipo de relíquias permite às pessoas se apoderar do ato do suicida, provar que até o mais individual e subjetivo dos atos pode ser transmutado em fato social... uma maneira de reafirmar a perdurabilidade da comunidade dos vivos.
            ― Luquita, não saco nada desse teu quás-quás-quás; intelectualês não é comigo, só te digo uma coisa...
            ― Aquilo que ela escreveu no bilhete não me sai da cabeça: “minha saudade nunca passa”.
            ― Bem, você sabe, sempre soubemos, né?, o Ti era o filhinho querido dela...
            Tiago.
            Finalmente haviam entrado no assunto que ambos sabiam inevitável. Tiago era gêmeo de André; pouco depois de eles nascerem é que o pai sumira. A história oficial rezava que o malaquias só tinha esperado Gildair voltar do hospital para cair no mundo. André não exagerava: Tiago era mesmo o escolhido da mãe, o mais cercado de quindins e agradinhos; aquele que sempre era perdoado e a quem ela, invariavelmente, passava a mão na cabeça. Coincidência ou não, só Tiago cortava o cabelo no salão da mãe.
            ― Nunca consegui entender como é que ela foi capaz de estabelecer uma diferença tão marcada entre duas pessoas idênticas. Coração de mãe é mesmo a boca da escuridão... Hahaha!
            ― Que foi que te deu, maluco, tá rindo de quê?
            ― Lembrei de como você alugava a paciência dela, lembra?, você a chamava de dona ‘Judiaí’... tudo por causa dos dengos dela com o Tiago; deixava ela uma onça. Mas vocês eram os irmãos que nunca se largavam, por outro lado...
            Tiago e André cresceram apavorando o bairro, brigavam na escola, na rua e nas baladas, granjeando a justa fama de valentões do pedaço. Chegados cronologicamente à idade adulta, só havia uma forma de conservarem a aura de malvados sem aderir ao banditismo puro e simples: aderiram então a uma torcida organizada de futebol. Graças à, digamos assim, expertise acumulada, galgaram paulatinamente os postos da hierarquia hooliganesca chegando à diretoria da agremiação. Deste ponto em diante, as brigas em que passaram a se envolver mudaram de patamar ― a escala aumentou, as conseqüências também: as mortes que inevitavelmente sucediam passaram a ser vingadas com sangue novo, num ciclo de vendettas sem fim entre as gangues uniformizadas.
            Tudo acontecera três meses antes.
Os irmãos desciam a avenida Inajar de Souza rumo ao Pacaembu onde se realizaria o maior clássico do futebol paulista, quando o grupo deles foi emboscado pelas torcidas rivais. O conflito se generalizou com as falanges de marmanjos se enfrentando armados de paus, socos-ingleses, pedras, barras de ferro e o que encontrassem pela frente. No meio da confusa escaramuça, surgiram motos de alta cilindrada arremetendo contra a multidão e dirigindo-se para um pequeno punhado de brigões que se haviam refugiado num posto de gasolina fechado; os motoqueiros sacaram armas automáticas e as descarregaram em Tiago e outro rapaz, que ficou paraplégico devido aos ferimentos. Tiago morreria dois dias depois no hospital.
            A conversa morreu de novo. André pegou o coador de papel no armário para passar um café; Lucas resmungou que não conseguiria dormir mais tarde. Você pretende dormir hoje?, respondeu-lhe o irmão secamente. Tomaram o café em silêncio.
            ― Uma merda o meu nome no meio disso tudo... ― Lucas falava mais para si mesmo, enquanto assoprava encostando os lábios na borda da caneca.
            ― O seu nome, caralho, o seu nome?! ― André perdeu a boa, esmurrava a mesa fuzilando o irmão com o olhar ― É com isso que cê tá preocupado? Maninho, deixa eu fazer um desenho pra você entender: nosso irmão foi assassinado, nossa mãe não agüentou o baque e SE MA-TOU! Se matou, imbecil, um foi morto, a outra se matou!
            ― Pra você é fácil falar, não é uma pessoa pública... que carreira você tem? Dirigente de torcida organizada de futebol, é essa a sua profissão, André?
            ― É sim, e daí? Não roubo nem engano ninguém; não sou como meu bróder que vive de extorquir velhotas na Terra Santa. Belo filósofo você, guia turístico de beatas milionetes em Jerusalém!
            ― Ah é?, fui eu que combinei aquela briga que matou nosso irmão? Quem foi que chegou até a ser preso como um dos principais suspeitos da polícia? Você, irmãozinho, você e o Tiago estavam envolvidos nisso até o pescoço, e você, VO-CÊ, é responsável pela morte do seu irmão e da sua mãe!

domingo, 15 de abril de 2012

Os filhos da cabeleireira (parte 1)


            O Mini Cooper, modelo Countryman de cor verde Oxford metálica, pára na frente do sobrado na zona norte. O motorista buzina três vezes, impaciente. A luz do corredor lateral por onde se acessa a habitação principal e a edícula acende, um rapaz desce lentamente a escada. Os degraus margeiam o pequeno jardim da frente da casa e angulam suavemente para a esquerda, dividindo-se em dois ramos: um vai diretamente para a porta da rua, o outro dá na garagem. O Mini estaciona ao lado de um Passat antigo de frente rebaixada.
            Os dois irmãos miram-se silenciosamente na luz desmaiada da lâmpada de 40 watts da garagem; o mais novo, que ainda mora na casa onde passaram a infância, segue na frente. Chuvisca de leve, a noite caiu há pouco.
            ― Uff, que frio! Tinha esquecido como aqui é mais frio que na cidade ― o mais velho, Lucas, tem trinta e nove anos e leciona filosofia da religião numa importante universidade privada.
            ― A cidade é a mesma pra todo mundo. O frio também. Pois é, faz tempo... nem sabia se você ia acertar com a igreja ― André tem três anos a menos, o torso hipertrofiado exibe tatuagens coloridas até o punho direito; no topo do crânio, raspado com máquina zero, tatuou o símbolo do Yin-Yang. Disputa rinhas clandestinas que lhe rendem mil reais de cachê e as orelhas deformadas típicas dos lutadores de vale-tudo. É diretor de uma torcida organizada de futebol e faixa marrom de Muay Thai.
            ― Talvez você não acredite que isto é difícil pra mim também... Achou que eu não lembrava mais onde era a Santa Zita? Também fui criado na Brasilândia, irmão, só não esperava uma missa de sétimo dia tão cheia...
            ― É o cheiro do sangue que atrai, mano, tragédia é que dá audiência, desgraça na casa dos outros é novela. O que não faltava lá era urubu, as boca-de-maria, umas comadre com ar de quem tá de rosca, fazendo cara de “tinha-que-dar-no-que-deu”. Olha, ainda bem que sou evangélico, esse povinho de missa só sabe é de dar moral nos outro...
            Gildair pesava como um buraco imenso, pesava como as sombras no salão de beleza vazio que ambos atravessavam rumo à cozinha. Na penumbra desolada, viam-se passar por espelhos acostumados ao alarido das clientes e à iluminação intensa dos LEDs e lâmpadas dicróicas ― as macas de massagem, as estantes, os secadores, os consoles e prateleiras repletos, as cadeiras hidráulicas, os lavatórios de marmorite preta, chapinhas, pincéis, escovas, tesouras, tudo parecia ter ido embora junto com a dona. A manicure que trabalhava com a mãe deles há mais de vinte anos a encontrara pela manhã, caída no chão junto a uma garrafa de uísque, um frasco de xarope de cereja silvestre e o bilhete. O Gilda Beauty, estética e cabeleireira, nunca mais voltaria a abrir.
            ― A vida da dona Gildair era isto aqui... educou três filhos se matando de segunda a domingo nos alisamento, manicure, cremes rinses e tonalizadores, uma guerreira!
            ― O que chamamos de beleza tem muito de reencontro: um alumbre da primeira visitação do horror na infância. E ainda nos jogamos aos pés dessa deusa bárbara e cruel para lhe agradecer o desprezo e abandono com que nos destrói... um pouco de Rilke em sua memória, dona Gilda.
            ― Maninho, tu é bico doce que é o carai, com esse xavequinho cansado daí, a mulherada dorme no barulho que eu tô ligado. Caranga da hora, professor e tal, tu tá bonito na foto, só no filé...
            Lucas foi para a geladeira; na falta de algo razoável, serviu-se de um copo de água. Os gostos da casa eram calóricos demais para ele; a sua imagem nos reflexos do salão veio-lhe então, junto com a constatação dolorosa do avanço da calvície. André retirou o paletó apertado (era do outro irmão), afrouxou a gravata e passou a observar os gestos do irmão escanchado numa cadeira com revestimento de fórmica igual ao da mesa. Lucas sentou-se do outro lado da mesa. A cozinha tinha sido para eles o centro emocional do lar, o parlamento e o supremo tribunal da família Letorazzi, ou do que sobrou dela depois que o pai abandonou a mulher com três filhos pequenos, deixando-lhes um sobrenome e explicação nenhuma.
            ― E o pai? Depois de todos esses anos desaparecido... como é que ele, quer dizer, quem...?
            ― Ah, esse tranqueira, veio ver se come algum, com certeza... fiquei no veneno de ir lá e dar uma no cara de pau! Quanto mais reza, mais aparece assombração: nego toma um chá de sumiço de mais de trinta anos e aparece, assim, do nada, na cara mais lavada do mundo! Dizem que estava na Itália, pra variar, vivendo nas costa de mulher; deve ter umas dez família espalhada por aí, esse mala sem alça...
            Pater familias et Mater dolorosa...
            ― Que foi?
            ― Nada.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Caixa (parte final)


Prestes a obter as primeiras respostas desde que despertei, surgem-me duas idéias aparentemente desconexas entre si, embora a primeira decorra da situação e expectativa formadas: quem eu gostaria de encontrar agora?
Por outro lado, havia a história de um menino que recebeu um dom precioso, mas o medo e a mágoa fizeram dele um homem triste e poderoso, impedindo que se cumprisse seu grande destino. Onde vi, ou ouvi, isto é que não fica claro, porque a lembrança vem descosida de imagens ou informações biográficas.
Ouço passos, há alguém do outro lado.
Aproximo-me da porta, um tropel de medo e curiosidade hesitante pisando no acelerador e no freio descoordenadamente. O pouco que dá para ver de través, é um quarto com as mesmas paredes, o piso sintético, uma parte da cama e o buraco da privada. Sem janelas.
Deslizo arrastando os pés descalços com cautela até me postar por inteiro na abertura que liga as duas celas. É decepcionante não haver uma saída para fora, para qualquer outra coisa que não seja este mesmo lugar. Não há comunicação aparente para o exterior, apenas uma grossa porta de acrílico entre dois cômodos simétricos.
Lá está ele, o meu vizinho. Um homem atarracado e pálido metido no pijama amarelo, o ar desvairado que a barba e os cabelos compridos reforçam. Permanecemos silenciosos frente a frente durante um longo instante de observação mútua. O evidente atordoamento dele me faz desconfiar que também ignora tudo sobre a sua situação. Só não parecemos uma dupla de mímicos brincando de espelho porque estou sem a camisa do uniforme.
Ele toma a iniciativa.
― Kiu estas vi? Kio estas ĉi tiu loko? Kio estas ĉi tiu loko?
― Que azar, um estrangeiro... Não entendo patavina do que você fala, meu amigo. Do you speak english? English, do you speak english? ― não sabia que falava inglês, talvez só conheça estas palavras.
― Mi ne komprenas kion vi diras. Kie vi estas?
― Ai, ai, começamos mal, assim não nos entendemos. Esta conversa não ajuda nada deste jeito...
― Liaj haroj, lia barbo, vi batis tie ankaŭ! Kio okazis al ni?
O cara passa para o meu quarto e põe-se a andar por ele, esquadrinhando todos os cantos. Desconfortável. E antipático: um pouco entrão por demais. Vamos tentando manter um contato rudimentar por meio de gestos. Podia ao menos falar a minha língua, o paspalho.
― Como pode ver, este é o apartamento decorado, duplex, hãm, os aposentos são modestos, mas limpinhos. A vista é que não é lá essas coisas... ah, desista, você não vai entender nada mesmo...
― Kio estas ĉi tiu loko? ― o sujeito repete várias vezes esta pergunta falando consigo mesmo, o que me deixa ainda mais puto da vida. Loco, loco ele diz, loco é tu, mané.
O rosto dele é indefinível sob a barba hirsuta, tenho a impressão de que não se parece com os que estava acostumado a conviver na vida esquecida que deixei para trás; mas também nada me garante que isto seja verdade. Ele estaca, espia em torno, como para se certificar de que não somos escutados, e se aproxima do meu ouvido enquanto aponta ambos indicadores para o peito e a cabeça sublinhando as palavras.
― Volis scii, kiu mi estas, sed mi ne memoras ion.
Sem se importar com a minha incompreensão, puxou meu braço me arrastando para o canto. A manobra era de um ridículo pueril, como se, ao esconder a cara, houvéssemos deixado de ser vistos e passado para um aposento privado.
― Rigardu kion mi trovis en la angulo de la ĉelo...
De repente, vejo-o pondo a mão por baixo da camisa no gesto de buscar algo. Um lâmina rebrilha na obscuridade.
Balanço o tronco para trás instintivamente, mas interrompo o movimento voltando na direção dele com o joelho direito erguido atingindo-o em cheio na barriga. (Essas coisas são muito mais difíceis de começar do que parar.) Ele cai gritando de dor, eu me atiro em cima desfechando socos, mordidas e pontapés. Tamanha é a fúria que chego a me sentir tranqüilo, quase feliz, executando uma coreografia familiar de tão fácil; experimento, neste estado de suspensão, a estranha euforia que proporciona a proximidade da morte.
Depois de um tempo em que ele já não reage caído no chão, dou-lhe os últimos chutes e saio dali para me sentar na cama. Parece que já não respira.
Desmaio de cansaço.
Ao acordar, a cela está vazia. Não há sinais do meu vizinho; não fosse pelo sangue e os arranhões dos braços e do tronco, poderia acreditar que tinha tido um pesadelo. O pé direito está inchado, a unha de um dedo da mão, virada: os golpes existiram e foram para valer. Porém a dor não vem daí.
Faz um pouco de frio, resolvo colocar a camisa que está jogada no chão ao lado de onde vomitei. Ao me baixar, vejo uma tira de tecido coberta de sangue fresco. Era isso que o cara ia me mostrar: uma fita adesiva prateada.
O que fazer comigo? O sentido do que aconteceu escapa, mas sou capaz de antecipar o desolamento e aridez da responsabilidade total. O que fazer com o que eu fiz?
A única verdade que não dói é a dos outros. Se até há pouco tempo não sabia nada acerca de mim, na hora do sapeca iá-iá obtive a informação essencial: martelo ou prego?, lutar ou correr?; passei por uma tomografia ontológica só para descobrir que não existem bons ou maus, apenas homens que fazem o mal e homens que sonham com o mal. De um só golpe me vi do tamanho de Deus, velho como o Universo, abolindo o certo e o errado, emergindo em pleno nada, sem Deus, sem desculpas, diante de um futuro infinitamente culpado.
Decidi que vou guardar esse troço comigo; um souvenir da vida daqui pra frente. Parece pouco, e talvez seja muito pouco, mas é suficiente para contar a minha história. A do sobrevivente.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Claricianas, #3


A parte minha que ignoro
é uma maçã
no escuro

Lado oculto com que desejo
e busco
no vão de mim a mim

Onde menos sei
está
o que mais ensina:

Os avessos da pele
a ferocidade do hábito
a letra da paixão

Através do que não vejo
negocio com a época
que me coube viver

Estranhas cidades mortas
onde
formas petrificam circunstâncias

Mumificadas uma necrópole
de movimentos
de silêncios de vazios

A extraordinária sonoridade
do nada
feita do avesso do som

Extensas quedas admiráveis
o sono
sem sonho dos zumbis

Desfalecimento que amortalha
os mortos
numa vida onírica

A morte pela qual todo
um
torna-se espírito e outro