sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o perfume tragicômico da carne



ah, minh’alma mal
acabada
sombra de um maldormido
sonho
por fora risonha e branca
trágica e vermelha
por dentro

ah, minha terra querida
nação moribunda
como é poética a imagem do moço
encontrado
morto dentro do carrinho
de supermercado

quanto vale, ou é por quilo?

amigos, que graça nascer no desespero resignado
de resignação desesperada
aqui o sol não morre nunca
nem nasce o mar sem plumas
berço e tumba
da nossa vergonha (coberta de asas)
libidinal nudez

ah, que idiota sou
compondo versos de água
elegias da neblina
elogios ao rio escuro de água
dormente
esse rio de noites estreladas
e águas cobertas de luar
e cadáveres desovados

meu canto é café coado
na calcinha
canto a luz do céu
de Suely
este meu coração funâmbulo
que desliza por rios
de matéria choca
que sofre e sonha e reza
para formas espectrais

a imperfeição de que tudo é feito
é o que o teu corpo solidário
derrama em mim
nas coisas
por que
passa

pois igual às perifas e favelas
morros, quebradas e montes aprazíveis
da minha terra
me sinto irmão dos que estão vivos
e dos mortos
órfão

humano só sou na dor

10 comentários:

Carl disse...

Is that a tattoo? Awesome picture

Anônimo disse...

De nada sabemos. Por um comentário aqui soube q vc é africano. Que coisa tbm sou. Outro dia ví numa reportagem meu bairro inteiro devastado. Não importa, tenho a lembrança do sol, da luz, dos cheiros e da forma como aquilo foi um dia. Isso ninguem me tira é somente meu.

missosso disse...

Yes it is a awesome tattoo. Entra no AngolaBela (o link está no blog), essa história que vivemos na carne ninguém no-la pode arrancar: é doída, mas é só nossa.

Dalva M. Ferreira disse...

Cara, sinto em nessa sua poesia uma torrente viva e sentida, igual a que existe na "Meditação sobre o Tietê"

... "Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
E eu não sabia! eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? sinão o incêndio nascituro do amor?...
Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas. ... "

Esse é dos bons. Deverá fulgurar, um dia, no pavilhão dos imortais. Porque santo de casa não faz milagre, ou demora para o populacho reconhecer o milagre, mas a gente tenta!

angela disse...

Me curvo diante da dor
Que não tem cura-dor
A dor de estar presente
Diante de sua dor.
A dor de existir somente
E ver tão claramente
Que a dor aqui presente
Dói com sua dor.

missosso disse...

que capitosos estes 2 últimos comentários, os poemas (belíssimos) são vossos, ó caríssimas?

Anônimo disse...

gencthy muito loko tudo issooo!!!!!!!

angela disse...

Caríssimo!
Capitosas são suas palavras, uma taça de bom vinho.
Uma vez comparei um texto seu com o de Mario de Andrade e você me zoou. Vai ter que pensar no caso, pois a Dalva acabou de comparar sua poesia com uma das dele. Não deve ser coincidência.

mauverde disse...

Poema banhado em dor, em desconforto, na incômoda sensação de estar vivo e verificar a desconstrução permanente do chão e das paredes, cercado de sombras. Tateando, estamos tateando e não há nada em que se apoiar. Pra mim é como acordar em uma casa completamente diferente todo dia, porque a de ontem morreu, com todos os seus ocupantes.

Dalva M. Ferreira disse...

Então, Missosso: como a Angela aí em cima matou a cobra e mostrou a arma, é o "Meditação sobre o Tietê", longo e difícil poema do Mário de Andrade. Eu fiz um trabalhinho (lhão) sobre ele no tempo da Letras, acho que tirei cinco, mas curti demais.