domingo, 2 de outubro de 2011

a curadora (parte 1)


O inferno dentro de mim durou poucos instantes, não mais que uns dois ou três minutos, mas, desde aquela tarde, voltaria de tempos em tempos, em períodos cada vez mais longos e eternos. Provavelmente cinco horas ou mais. A proximidade da noite sempre me trouxe uma espécie de melancolia feliz; tenho doze anos, estou deitado de costas no tapete da sala a olhar para o lustre, esparramado no chão da minha casa. Na parede uma foto antiga, daquelas coloridas à mão, retratando meus avós, que pareciam prestar atenção em todos os móveis e sombras e silêncios da sala e também olhar para mim.
Pela primeira vez me pergunto quem são eles, o que há dentro do rosto deles, de quem eu carrego semelhanças e a distância que vai dos vivos aos mortos; o que faz com que eles sejam eles e não eu? Meus pais saíram para visitar a minha tia que tinha sido operada, era um domingo e podia me entregar à vadiagem. Era bom demais ficar só e somente ser. Em seguida fecho os olhos e penso no escuro quem sou eu e o que faz com que eu seja eu e não aqueles outros, que também são eu, mas que já não são. Sou então atingido pelo susto assombroso, a consciência de que também um dia serei uma foto cafona na parede, um inseto preso pelo alfinete.

― Você que tava cantando naquela banda... hã, como é que chama, The Wailers? ― fui para aquela balada na fé, no flyer vinha a programação da noite temática: Afrobeat. E ainda trombo com a vocalista de uma das bandas no fumódromo da casa noturna, bem do meu lado.
― Eu mesma. E aí, gostou?
― Mais ou menos. A sua voz, é estranho, parece, tipo, várias vozes diferentes lutando entre si... aí, na boa, você não devia ter feito aquele cover da Amy...
― Hmm, é... o lance da voz sempre me acontece nesta fase do ciclo... Ei, relaxa, cara, não é esse ciclo que você tá pensando... sabe o que é?, tenho a mesma idade que ela e...
― Desculpa, eu aqui só dando pitaco...
― Que nada, você é fofo, sincero.
― Bom , não vai cair na maldição dos cantores de vinte e sete... sabe?, me preocupo com o Justin Bieber, ainda vamos ter que agüentar por mais dez anos!...
― Hahaha, boa, mas o pior é mais vinte anos de Restart...
Caímos na risada. Dali a pouco fui buscar umas cervas pra nós, a mina fumava um cigarro atrás do outro. Não desgrudamos mais o resto da noite, o papo fluía fácil com se nos conhecêssemos há mile ano. Lá pelas tantas, bebaços, nos pegamos num puta amasso. E como ela beijava! Fiquei ligadão, mas não deu pra arrastá-la dali para onde quer que fosse, ela precisava ir com os músicos, viajavam de manhã bem cedo.

Em retrospecto, percebo que fiquei doente desde então; como se tivesse me distraído de mim, ou do que eu pudesse ser, e até do sentido mais trivial da vida. Sofri diversos surtos depressivos depois daquele ‘aviso’ aos doze anos, cheguei às vezes a pensar que seria sempre assim, com aquela opressão no peito, aquele demônio do meio dia a obscurecer o meu destino. Foi como se houvesse perdido a familiaridade com as coisas mais comuns que faziam parte do meu cotidiano como comer um doce, jogar bola ou roubar frutas do terreno do vizinho ― hoje digo que me assustei com o susto de existir e, periodicamente, escorrego da existência de fato para um espaço onde eu me estranho e não me reconheço.
Quando conheci a cantora estava numa destas crises, mas, estranhamente, não fiquei trancado em casa desta vez, saía todas as noites. Balada de segunda a segunda. Passei a seguir os passos da banda The Healers pelo twitter; uma improvável turnê pela África: Luanda, Johanesburgo, Maputo, Nairóbi, Brazzaville, Dakar, Kinshasa e... Mogadíscio! Uma zona de guerra, um lugar em que até os marines tomam suadouro... Não fazia o menor sentido; de mais a mais, uma bandinha mequetrefe daquelas, como é que fazia um sucesso internacional de dar inveja em gente grande?
O que motivou a minha súbita conversão em groupie é que constituía para mim o maior mistério e a maior bênção: depois daquele beijo, não sentia mais nada. Acreditei então que a Era Glacial da Alma derretera. Estava me sentindo como nunca imaginei que fosse possível desde aquele domingo perdido na infância, que parecia finalmente ter acabado. Precisava encontrar com ela de novo de qualquer jeito.

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