sábado, 20 de março de 2010

O Beijo

O cortejo fúnebre espraiava-se pela rua principal da aldeia. A carreta com o caixão vinha a seguir ao Padre João. A Maria Dolores, viúva desde o dia anterior, tinha ao seu lado a filha, Isabel. O filho, Marco, não estava na terra, tinha emigrado para França.

Toda coberta de negro, Maria Dolores caminhava lentamente, pesadamente. Nos olhos acumulavam-se águas que, de repente, sumiam num curto pestanejar. Ninguém lhe conseguiu ver uma lágrima rolar pelo rosto.

Aos cinquenta e dois anos, era uma senhora respeitada na aldeia.

Todos lhe conheciam a vida que tinha passado junto do marido, agora falecido.

O Manuel era homem de trabalho, honesto, respeitador e a sua palavra valia ouro. Não se metia em desvarios, não bebia nem tinha vícios que se lhe conhecessem.

Homem capaz de dar a camisa a quem dela necessitasse, cristão de missa de Domingo e dias santificados.

Eram de contas direitas, viviam folgadamente, ainda que sem luxos. A Isabel, que era a mais nova, tinha estudado e era professora primária. Dava aulas numa aldeia vizinha, porque na terra já há muitos anos se fechara a escola, por falta de crianças.

O filho, Marco, tinha desistido de estudar quando terminou o 12º ano. Na altura, correu pelo povo que o abandono tinha a haver com uma zanga com o pai, mas isso tinham sido vozes... Da boca dele, nunca ninguém ouvira justificação, muito menos o senhor Manuel dava azo a que abordassem o assunto. Passados uns meses tinha ido para França, trabalhar com um primo que já lá estava. Desde então, ainda não voltara uma única vez à terra natal.

O Manuel casara com a Maria Dolores, já homem feito. Na altura, levava à mulher mais de vinte anos. Ela, com dezasseis, tinha-se perdido de amores por ele e, bem antes dos noves meses de preceito, nasceu o Marco.

O parto não foi fácil porque, dizia a Ti Guilhermina, o rapaz vinha revirado.

Depois daquela noite de padecimento, Maria cuidou do filho, que tinha vindo ao mundo fracote, como se nada mais existisse.

O rapaz lá vingou, forte.. graças a Deus e Nossa Senhora... como costumava dizer a mãe.

Também... mimos não lhe faltavam... era o ai Jesus da Maria Dolores.

Se calhar devido à dificuldade do parto, o certo é que durante uns largos cinco anos a Maria Dolores não voltou a alcançar outra gravidez.

E, segundo ela, tal só aconteceu por ter feito uma promessa à Senhora de Fátima.

Lá para o fim do tempo, a Maria Dolores só pedia à Senhora que o parto não fosse igual ao do Marco. Até tremia só de pensar naquilo.

Quando deu à luz, tudo correu pelo melhor. O Manuel, que tinha andado aflito com aquela história toda, ficou radiante quando a Ti Guilhermina lhe veio dizer que já tinha uma filha.

As coisas começaram a ficar mais equilibradas lá em casa.

Enquanto o Marco era o ai Jesus da mãe, a Isabel passou a ser o ai Jesus do pai.

Para ver o Manuel feliz, bastava que a Isabel fizesse qualquer travessura. Quando disse a primeira palavra ninguém estranhou que tivesse sido - papá...

Pai mais babado não se conhecia.

O tempo foi passando.

O Marco, que no início nem tinha achado grande piada ao facto de ter uma irmãzita, foi ganhando um carinho muito especial à “minha Bel”, como lhe chamava.

Aos poucos, foram-se criando entre os dois irmãos laços tão estreitos que dava gosto vê-los juntos.

O senhor Manuel começou a sentir-se posto de lado pela Isabel. As atenções da miúda só iam para o irmão. Marco para aqui... Marco para acolá...

No entanto, cada dia que passava era maior o orgulho que sentia por aqueles dois filhos.

A vida corria sem grandes sobressaltos. Trabalho não faltava na serração de madeira de que era dono. Tirando um ou outro atraso de alguns clientes, o negócio não andava mau de todo. Olhando para o filho, começava a imaginar o futuro. Tinha que levar a serração para a frente de forma a, chegada a idade, poder entregá-la ao Marco.

A Maria Dolores, quando lhe falavam nos filhos, até os olhos se lhe riam.

Não eram crianças de dar aflições. E, em caso de precisão, bastava pedir ao Marco que tomasse conta da irmã. Era serviço garantido e não precisava de se preocupar. Ainda hoje se ria de cada vez que se lembrava do que acontecera daquela vez que tinha pedido ao Marco para tomar conta da “Belinha”. Ela tinha de ir à loja do senhor Francisco. Quando voltava, rua acima, ouviu um burburinho. O coração deu-lhe um salto. Estugou o passo e o que viu ela? A Isabel chorava como se a estivessem a matar. O Marco à luta com dois miúdos, bem maiores do que ele. Largou o saco no chão e correu. Chegou ao mesmo tempo que a mãe do Joaquim, um dos rapazes. Cada uma delas agarrou na orelha do filho e lá conseguiram separá-los. O Marco estava esfolado num joelho e tinha um cotovelo a sangrar. Quando lhe perguntou qual a causa da bulha, o Marco, a choramingar, disse-lhe que os rapazes tinham tirado “à minha Bel” um pedacito de bolo. Como ela começara a chorar, ele não esteve com mais...

Fui-lhes òs focinhos , mãe

Na época, o Marco andava pelos oito anitos e os outros dois já tinham mais de treze.

O povo até costumava dizer que há crianças que não largam a saia à mãe, mas que a Isabel era diferente... andava sempre agarrada às calças do Marco.

Aos doze anos, a Isabel começou a transformar-se numa mulherzinha. O Marco, com dezassete, foi apreciando as mudanças na sua irmãzinha.

A Isabel continuou a agir como sempre fizera. Quando lhe dava na gana, agarrava-se ao irmão e, se para aí estivesse virada, repenicava-lhe um beijo na cara e... depois outro na testa.

Como tinha menos que estudar sobrava-lhe tempo. Nessas alturas ia até ao quarto do irmão. Sentia-se tão bem junto do Marco que ele tinha que a por do quarto para fora.

Muitas vezes a Isabel pedia ajuda ao Marco para resolver um trabalho de casa ou para tirar uma dúvida. Ele sempre tinha sido bom aluno e gostava muito de poder ajudar a “Bel”...

Um dia a Isabel chegou a casa e foi direita ao quarto do irmão, que estava a preparar-se para as provas do 12º.

Encostou a porta e, em voz baixa, meia sem jeito, perguntou-lhe se ele tinha um tempinho para falar com ela.

Marco estranhou o comportamento da irmã. Olhou para ela. Quase ficou admirado pela beleza da Bel. Não havia maneira de se habituar a vê-la transformar-se a cada dia que passava.

- Diz lá...

- Vais-te rir de mim...

- Hmm... que é que andaste a fazer?...

- Oh...

- Estava a brincar... anda cá...

A Isabel, alta para os seus treze anos, aproximou-se do irmão e sentou-se junto a ele.

- Queria-te perguntar uma coisa...

- Sim...

A Isabel virou-se para ele e... ali ficou a olhá-lo nos olhos...

- Posso dar-te um beijo?...

Marco não estava a perceber o que se passava... ou, melhor, já tinha percebido que a irmã queria alguma coisa mas estava a desconversar.

- Queres um beijo? É para já...

Marco inclinou-se e ia dar-lhe um beijo no rosto mas, a Isabel parou-o.

- Não... assim...

A Isabel colocou-lhe a mão na face e aproximou os lábios dos de Marco.

Paralisado, ele sentiu-a chegar-se a si. Como se o tempo corresse muito devagar... devagarinho... Marco sentiu o toque.

A Isabel ficou assim, de lábios nos lábios, olhar fixo nos olhos do irmão. Lentamente, foi fechando os olhos...

Marco continuou paralisado... nem respirava... o coração latindo...

De onde estava pode ver a porta a abrir-se.

Em câmara muito lenta... surgiu, aos poucos, a figura do pai.

O senhor Manuel... olhou mas não quis acreditar...

Petrificado que nem uma estátua, foi perdendo as cores... ficou sem pinga de sangue.

A mão continuou agarrada ao puxador da porta... os dedos ficaram brancos de tanto apertar.

Por fim, moveu-se.

Devagar... puxou a porta.

Alheia ao que acontecera, Isabel abriu os olhos e quebrou o beijo... o seu primeiro beijo.

******

Quando Marco arranjou coragem para ir falar com o pai esbarrou na incompreensão total. O pai recusou-se a acreditar no que ele contava.

No dia seguinte, pediu ao pai para lhe arranjar qualquer coisa, bem longe.

Foi para França e nunca mais voltou, nem quando soube que o pai tinha morrido.

Informação: qualquer semelhança com cenas e personagens da vida real será, certamente, mera coincidência.

7 comentários:

missosso disse...

esta é uma obra-prima que já pedi há tempos ao autor; experimentar é viciar!

Lídia Borges disse...

Uma leitura que prende, cativa.

L.B.

angela disse...

Muito bonito esse conto, intenso e surpreendente. Tratouu com delicadeza um tema muito dificil.

missosso disse...

delicadamente e sem mentir, é um milagre!

mauverde disse...

Muito bom mesmo, José. Prendeu-me do começo ao fim.

José Doutel Coroado disse...

grato pelos comentários.
abs

Dalva M. Ferreira disse...

Mulheres, mulheres...