sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cinzel Sobre Sonhos, Escultura



Escultor, bato a ferro a pedra da minha vida.

Meu caminho, instintivamente, sempre foi o mais difícil, o lado mais íngreme, o lado escuro de qualquer astro. Não sirvo de exemplo nem para o meu filho, para quem sempre quis uma vida menos dura. Em vão. Lá foi ele, à esquerda na vida, sem entender o que se passa no mundo que não se passa dentro dele. Eu nunca soube fazer de outro jeito. Azar.

Saturno, ao me reger, prometeu o pote de ouro no fim do arco-íris de chumbo; fica assim a recompensa a quem se dedica ao bruto esporte de viver a vida e suas escolhas de um modo que ninguém conhece. Descobrimos que não amamos as mulheres superficiais, mas isso apenas depois de as abraçarmos. Descobrimos que a música que queremos fazer não existe, e quanto à nossa banda, provavelmente apenas o fã-clube da Bulgária será um pouquinho mais expressivo. Nosso pagamento será de tapinhas nas costas e abraços calorosos entre quatro ou cinco iniciados.

É saber, enfim, que a vida valeu muito e que não existia outro caminho, e que a coragem de ter sonhado com um enorme e vistoso lírio branco (e com aquele carrinho que parecia um bizarro carrinho de golfe, cuspindo flores para todos os lados) não era na verdade coragem de amar e ser amado por aquela mulher como ninguém mais o faria, mas a única trilha visível numa bruma que não permitia ver mais que meus próprios passos, mesmo que a dois dedos da morte e do inferno onde muitas vezes caí.

Até agora me ralei um tanto, mas até que foi divertido. Às vezes.

10 comentários:

angela disse...

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida".
deve ser quem tem a alma de poeta que anda pelo lado escuro dos astros.

missosso disse...

companheiro, vc tem escarafunchado o dark side of life, muuuuuito boa essa produção sombria!

Anônimo disse...

That´s the bright side of life.

Antonio Bento disse...

Sim, mas o dia (hēméra) é filho da noite, nasce de manhãzinha, os armênios chamam-na de āmōr.

Anônimo disse...

Tá Antonio, e isso quer dizer o que?
That we are always in the dark?
That there is no light with
out dark?
That where Noa lost his fkn ark is the answer?

mauverde disse...

It is what it is. Não sei se cabe explicação. Cada um tem a sua :)

Talvez seja a maior graça da Arte: suscita uma coisa em cada um.

Anônimo disse...

explicou pq uai?

mauverde disse...

Não expliquei, respondi =]

Anônimo disse...

To whom?

angela disse...

Gostei do seu texto, esta bonito, bem escrito, um pouco sofrido, mas sem raiva ou ressentimento. Foi uma delicia le-lo