quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Cada um dorme como quer


Lucas era um homem grande, forte, de meia idade, funcionário do cartório de uma pequena cidade que experimentava um período de crescimento econômico. Fato este que atraia muita gente de todo lugar e o que era pior de toda espécie. Os golpes e calotes eram constantes, os preços subiam demais, tudo estava ficando caro demais, até os respeitáveis senhores, velhos conhecidos seus, pareciam ter perdido o bom senso e a cidade parecia contaminada por uma febre de ganância nunca sonhada.

Cada dia mais desgostoso e aborrecido começou a fazer suas compras em outras cidades, medico, dentista, tudo começou a ser utilizado fora da cidade, para ele e para sua familia. Comparava os preços e fazia questão de falar das diferenças em voz alta, deixando descontentes muitas pessoas, mas não se importava. O que não queria mesmo era ser enganado. Surrupiado como costumava dizer.

Numa bela manhã um caminhão parou na porta de sua casa e dois homens desceram procurando por ele. O filho mais novo correu até o cartório a procura do pai e assim que o encontrou comunicou-lhe o fato. Lucas saiu rápido e chegando em sua casa viu vários vizinhos andando nas imediações curiosos em saber o que trazia aquele caminhão roxo de Piracicaba, cidade que ficava tão longe dali. Alguns andavam como se nada quisessem, outras varriam a frente da casa, outros conversavam, mas todos atentos ao caminhão.

Lucas percebeu tudo, mas não se importou e foi logo cumprimentando os dois homens que em seguida abriram a porta de traz do caminhão roxo e de lá retiraram um caixão. Um caixão grande de madeira boa, todo envernizado com alças brilhantes de bronze e entraram na casa carregando o fúnebre objeto. Lá dentro travou-se uma discussão entre Lucas e sua esposa sobre onde iriam guardar o caixão, discussão essa que foi ouvida todinha pela vizinha da direita, depois de algumas ponderações de ambas as partes ficou resolvido que o caixão ficaria em cima do guarda roupa do quarto do casal. E por lá ele permaneceu por mais de 20 anos garantindo o sono tranqüilo do Lucas, que sonhava não ser enganado nem depois de morto.

6 comentários:

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

uma surpresa no fim. o nosso heroi é de um calculismo magistral. Um abraço

missosso disse...

esta agora... histórias de cidades pequenas e progressistas estão a dar bons contos - grande Lucas, mais vale prevenir que remediar!

José Doutel Coroado disse...

Cara Angela,
gostei...
abs

Dalva Maria Ferreira disse...

20 anos olhando aquele caixãozão em cima do guarda-roupa, ninguém merece! Gostei também, Angelita.

angela disse...

Obrigada pelos comentários.
beijos

angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.