domingo, 26 de setembro de 2010

Aldeia dos Quatro Montes - Cap. 3

Aldeia dos Quatro Montes

(se desejar ler os capítulos anteriores: Cap.01, Cap.02)

3

Ana Luísa e António Augusto caminhavam, lado a lado, pela Rua dos Prazeres. Aproveitavam o sol morno de início de Outono…
- Personagem interessante o Senhor Director… Aquela vénia apanhou-me de surpresa.
- É uma pessoa fora do comum, nunca imaginei encontrar num lugarejo como este alguém como ele. Sabe que é um apreciador de música? A colecção de discos que tem em casa é assombrosa!
- Já percebo porque tem tanta consideração e estima por ele…
- Sabe, Ana Luísa, quando soube que iria ocupar a vaga de juiz em 4 Montes, pensei que iria estar desterrado, afastado do mundo, durante uns longos cinco anos…
- Mas quem o oiça falar percebe que adora esta terra… Ou estou enganada?
- Não, não… Tem toda a razão. Sabe… Aos poucos, fui dando valor a esta tranquilidade, a este ritmo de vida em que tenho tempo para pensar… Em que tenho tempo para olhar uma paisagem e, se me der na gana, sentar-me numa pedra e ficar ali a ver… Sabe que há lugares muito bonitos bem perto da Vila? E as pessoas… Aqui ninguém corre atrás da falta de tempo. Talvez essa seja a razão de me parecerem usar bem a vida…
Subindo a rua, vinham Sua Excelência e o seu assessor. Ao aproximarem-se do casal, interromperam a animada conversa que os ocupava. Trocaram algumas palavras de ocasião e seguiram o seu caminho…
- O Senhor Doutor Juiz sabe escolher as companhias…
Luís virou ligeiramente a cabeça para melhor poder avaliar os atributos da senhora…
- Sem dúvida… Sua Excelência lembra-se daquela outra, uma morena? Este juiz tem bom gosto, lá isso tem.
- Deixemos o bom gosto do juiz e diga-me lá… Já tem o orçamento?
Luís informou Sua Excelência do valor e das características do equipamento.
- Não estava à espera de ser um valor tão grande… E quanto ao prazo de entrega? Já sabe algo de concreto?
Depois de ouvir a resposta, Sua Excelência ficou-se por um silêncio longo… Luís acendeu um cigarro pois sabia que Sua Excelência iria dirigir-se ao ArcoBotante, coisa que demoraria uns cinco minutos… Conforme iam andando, Sua Excelência era cumprimentado por todos os que por ele passavam. Sua Excelência tinha para com cada eleitor uma palavrinha…
- Então como vai? Aquele assunto, de que me falou no outro dia, não está esquecido…
- Dona Joaquina… A fruta está que até apetece comê-la!
E, com isto, os cinco minutos foram-se transformando em dez… Mal se sentaram, Sua Excelência botou sentença.
- Temos de ter isso pronto antes da campanha… Não quero que me acusem de só fazer as coisas em cima da campanha. Portanto, vamos organizar o processo de forma a que esteja tudo a funcionar lá para meados de Novembro… Acha possível? Cuidado com os atrasos. Essa empresa tem o hábito de nunca cumprir um prazo… Veja lá! Fale com o Engenheiro e faça com que ele perceba que, desta vez, não pode falhar!

O Jardim dos Emigrantes estendia-se a um dos lados da Rua dos Prazeres, bem em frente ao edifício da Administração. O lugar era bem agradável… Árvores de grande porte ladeavam os caminhos que convergiam para um espaço central, adornado por um conjunto de fontes. O ruído da água que jorrava em múltiplos jactos cruzava-se com o leve som das folhas que vibravam com a brisa…
Ana Luísa caminhava calmamente. Apreciava os canteiros com suas sebes bem aparadas e era atraída pelos arranjos florais que ainda embelezavam o jardim. Sempre gostara de flores e jardins…
O céu estava de um azul intenso, em que algumas nuvens, fofinhas e bem brancas, se arrastavam lentamente.
António Augusto tinha-a convidado a passar uns dias em 4 Montes. Para Ana Luísa o convite acontecera no momento certo… Já se conheciam há anos, muito antes de ter casado. António Augusto era um dos poucos amigos, daqueles que são mesmo chegados, do seu marido. Entretanto, a vida tinha continuado… Cada um fora para seu lado e só se tinham voltado a encontrar aquando do funeral de Júlio, ainda não tinha passado um mês. O lento apagar de Júlio tinha-a deixado extremamente desgastada, sofrida. António Augusto tinha-se disponibilizado para o que fosse necessário e ela tinha recorrido a ele para resolver aquelas pequenas minudências que sempre acontecem quando alguém morre. Agora, sentia que tinha de voltar a viver a sua vida… As memórias da vida com Júlio ainda a faziam chorar de saudade mas… Sentia-se com força e garra para construir tudo de novo. O sonho que tinham idealizado juntos já não era realizável. Nem fazia sentido nenhum tentar continuar algo que estava amputado, irremediavelmente amputado, de um deles…
Um passarito pousou bem à frente dela, na beirada de uma das fontes. Virou a cabeça na sua direcção e depois mergulhou o bico na água. Que pena não ter ali consigo a máquina fotográfica…
Estava na hora de passar no Tribunal para ir almoçar com António Augusto. Por falar em almoçar, que bem lhe soubera aquela torrada com mel… Fazia-lhe recordar umas férias na praia, em Lagos. Júlio…
Ana Luísa sentiu um aperto no coração… Uma lágrima surgiu do nada.


(Estória, em capítulos semanais, aos Domingos)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

2 comentários:

missosso disse...

maravilha, aos poucos vamos nos familiarizar com estes interessantes personagens, o clima de folhetim e o bucólico são de inegável finura, mas a curiosidade aumenta...

José Doutel Coroado disse...

grato pelo coment.
abs