quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

a queda

Logo depois de completar trinta anos de idade, Munir começou a pensar seriamente que um dia faria quarenta. Então, talvez fizesse cinqüenta e, bem depois, sessenta, e até mesmo setenta anos. A idade atual do seu pai, que viajava ao seu lado. Tudo isto teria lhe parecido impensável até há bem pouco tempo.

A morte não é uma coisa que possa ser pensada. Ninguém sabe ao certo o que ela é, ao menos não em primeira mão, não por experiência direta. Verdade que se pode argumentar com os relatos de pessoas que tiveram experiências de quase-morte, mas aí tudo vai girar em torno desse exasperante “quase”.

Ainda assim, pensamentos de morte eram inevitáveis, já que faziam aquela viagem para cumprir a vontade da avó Latifa. Ela incumbira Faysal de levar pessoalmente suas cinzas e de as espalhar nas barrancas do Juruá. No Acre, dizia ela, a família Auad tinha sido brevemente feliz. A urna viajava no colo dele.

Munir sabia da fobia paniquenta que o pai nutria por viagens de avião. Admirava a valentia fingida com que o pai se portava, agarrado ao cofre como um náufrago ao restolho do mar. O pai tinha sido a grande esfinge da vida dele, até que se desinteressara de entendê-lo. Um homem tímido, macambúzio, um fracassado em todos os negócios que tentou; vítima habitual de sócios inescrupulosos.

Mesmo casado e com quatro filhos, Faysal nunca saiu da casa da mãe. Por um motivo ou por outro, sempre levou a mãe a tiracolo, e sempre foi ela que o socorreu nas inevitáveis bancarrotas. Como seria de se esperar, a vida do casal foi um inferno. A lembrança mais antiga de Munir era uma cena na cozinha com a mãe chorando e as lágrimas dela caindo sobre as claras batidas no pirex escuro.

Cada máxima de sabedoria do pai ele desmentira na sua trajetória exitosa. Não tenha nunca sócios, não confie em ninguém fora da família, ou fora da colônia, dedique-se a um negócio apenas, não se arrisque com o que não conhece e por aí afora. Munir tornou-se, em muito pouco tempo, um dos empresários do setor têxtil mais influentes do país, levantando do chão um império. Sozinho.

Mas não era um homem só. Pelo contrário, havia encontrado a felicidade na vida a dois. Mas era uma felicidade clandestina; em pleno século XXI, tinha de esconder o fato de amar um outro homem. Já se lobrigavam esparsos exemplos de tolerância relativa na colônia sírio-libanesa, porém, não alimentava esperanças quanto a ver a família Auad pelo menos admitir o declínio da Idade Média.

Foi quando o avião começou a cair. Sem aviso prévio, entraram numa zona de turbulência em que as cada vez mais comuns ― e gigantescas ― massas de nuvens arremessavam o avião em todas as direções possíveis. O terror instalou-se a bordo, o comandante berrava no alto-falante para que todos retornassem a seus lugares e iniciassem os procedimentos de emergência.

A angústia e o tédio são as duas maneiras principais de lutar contra a morte. Achar que se a pode enfrentar com habilidade e paciência é uma dessas maneiras; Munir praticava esportes radicais no limite da segurança. No outro pólo, seu pai fugira a vida toda de qualquer situação em que pudesse perder o controle; mesmo ao custo de se anular. Todos a bordo tinham deixado cair as máscaras. As cinzas da avó Latifa se espalhavam no chão da aeronave.

O avião continuava em queda livre, só restava o fundamental.

― Não quero saber se ele está em reunião, chama o Alfredo, é muito urgente!... Amor, sou eu, tô no avião, fica calmo, a gente está tendo problemas, hã?..., sim, parece sério, olha, eu quero dizer que te amo muito, você é tudo pra mim... alô, alô?... Droga, caiu! ― quando se virou, viu que o pai o olhava bem dentro dos olhos.

― Também preciso te dizer uma coisa...

Naquele momento, e depois de um silêncio que pareceu interminável, o comandante voltou a comunicar a todos que se mantivessem afivelados às poltronas porque dentro em breve deixariam a zona de turbulência. Quando pousaram no Aeroporto Plácido de Castro, Faysal se levantou rapidamente do seu lugar desvencilhando o braço do filho que queria conversar. Achou que não precisaria ter feito um gesto tão rude.

4 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
Gostei!! Bem bolado!
abs

Dalva Maria Ferreira disse...

Delirante!

missosso disse...

tks ledores, voltarei mais delirante, espero...

mauverde disse...

Um dos mais bem acabados, velho! Gostei muito!