quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

tornar-se outro, ou a gênese do humano

autotélica
a experiência do vivido se fecha
sobre si mesma a duração
não encontra fim
mas acaba
sem justificar nada ou ninguém
(som & fúria & loucura & bebedeira & que não significam nada, etc., etc.)

posta no vazio a queimar
com sua luz própria
a obra
povoada de vidas circunstâncias pressões
e acaso
se perde sai do isolamento e inicia
uma fusão a frio entre
a arte e o ser

Fale comigo.
Você que me deixou só, mergulhado nas fornalhas,
os rios negros da Geena;
por que nunca fala o que está pensando?
Há conforto para você em seu silencioso céu
enquanto receio que as flores não amanheçam,
murchem
como os beijos que acabam?
Tive minha chuva de lágrimas;
foi noite escura, na certa,
foi a desolação deste lugar bravio.

concedo: viver é bem mais estranho
arriscado
estúpido
milagroso
e inútil do que a morte
angustio-me
― é inevitável
como os pedágios na autoestrada
as consultas do dermatologista e o controle
do colesterol

se não posso ser autista
realizo no entanto um esforço destro
essencialmente biográfico (e mutante) mas incapaz
de enfrentar o trânsito da metrópole
onde encontro com hora marcada o coração selvagem
da vida

se não posso evitar o sofrimento
ao menos aspiro criar o meu privado
equívoco
minha ilusão de inalienável idiotia
como fazem os heróis sem saber
como fazem os poetas por querer
como fazem todos na desmedida de suas
possibilidades

8 comentários:

Lídia Borges disse...

Deixa um travo amargo na boca, mas é um belíssimo poema cuja lucidez magoa de tão clara.

missosso disse...

tks pelas belas, ternas apreciações Lídia.

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
idem aspas aspas para as palavras de Lídia.
abs

Dalva Maria Ferreira disse...

Assim sendo, continuo do necessário afã de construir a minha bolha particular, onde nada e ninguém me fará desviver. Sem ser autista, mas me precavendo um poucochinho dessas circunstâncias, pressões e acaso.Foram ordens médicas!

Climacus disse...

No século xviii ocorreu um interessante debate entre pedagogos, como Basedow, que se diziam filantropos, e os humanistas, como Niethammer, desse debate restou a questão: que humano homem se pode amar? por outra: como se alcança esse homem demasiado humano, paideia ou poiesis?

missosso disse...

poiesis climacus, ou bolha dalva, tudo é viver (a vida?)

Climacus disse...

sim Missosso, hoje acho que é poiesis, mas, Hegel, Jagger, Gilberto Freire, Caio Prado e Antonio Candido apostavam na paideia.

missosso disse...

pois é climacus, mas ainda reluto em admitir que o humano seja educável (acreditei demais em rousseau...)