domingo, 1 de fevereiro de 2009

livros que o Lula não leu nas férias


Homens e não (1945), de Elio Vittorini. Sem saber que Theodor Adorno proclamaria não ser possível a poesia depois de Auschwitz, uma geração de escritores engajados na luta contra o nazifascismo produzia, literalmente neste caso, no calor da batalha. Arte contra a barbárie, mas, ainda assim, arte que é, acima de tudo, a favor de si mesma. Pouco depois o autor romperia com o partido comunista.

Além dos Marimbus (1945), de Herberto Sales, é um primor de concisão e acabamento, neste road romance nada falta nem sobra; ourivesaria tão precisa e sofisticada consumiria décadas de trabalho do autor até à versão final, de 1961. Um curioso personagem secundário: o fazendeiro João Camilo, proto-ecologista em meio às hoje devastadas matas da região das lavras diamantinas da Bahia.



A Lua e as Fogueiras (1950), de Cesare Pavese, é uma obra prima. Após finalizar o livro, o autor se mataria, o suicídio, na época atribuído a um misterioso amor fracassado, figura entre os grandes enigmas da literatura mundial, como o desaparecimento de Carlos Castañeda, o rosto de J. D. Salinger, a vida privada de Shakespeare e o auto-exílio de Rimbaud na África.

Rituais (1995), de Cees Nooteboom, parece um filme francês: o protagonista não faz nada da vida, não se interessa verdadeiramente por nada nem ninguém, mas ― oh, surpresa! ― as pessoas à sua volta sentem-se atraídas por seu feroz, embora na aparência displicente, narcisismo. Bom de marketing, o autor estrelou uma edição recente da Flip, vendido como “o maior escritor holandês vivo”. Será?




A Ditadura Envergonhada (2002), de Elio Gaspari, é o primeiro de prometidos cinco livros sobre o período da última (esperamos) ditadura militar no Brasil. Documento vivo e fabulosamente rico em informações, a leitura traz puro deleite quando esquecemos de que horror se trata. Gaspari opta por focar dois personagens-chave no desenrolar dos acontecimentos: Geisel e Golbery; de quebra, discute a tese de que a administração do país criou, dentro do regime militar, uma insanável fonte de rebelião e anarquia. Quem pôs fim ao estado de exceção foram os próprios milicos. Ponto. De modo que o vezo autoritário, a exemplo da escravidão, talvez seja uma dessas marcas que a nação carrega como pecado original do qual não quer se livrar.




O Castelo na Floresta (2008) é o epitáfio de Norman Mailer. Ficção histórica ou história ficcionada, o livro trata da família Hitler e acompanha a infância e adolescência do maior avatar individual dos escabrosos totalitarismos que o século XX produziu. Detalhe: o narrador é um demônio encarregado dos anos de formação do menino-monstro que tem o poder de penetrar na mente dos personagens. O resultado, muito mais que assustador, serve para nos relembrar que a arte é um tipo de mentira que é mais verdadeira que a verdade ― quem, além deste camaleônico jornalista-gângster-escritor, poderia nos oferecer tamanho tratado de anatomia do Mal Radical? Previsivelmente, a crítica torceu o nariz; assim como na atual crise econômica que os “expertos” não detectaram, o caso é de cegueira generalizada. Confesso que, lendo estas páginas sombrias, ouvi mais de uma vez o riso sardônico do próprio Coisa-Ruim.








2 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Shame on me... dos quais eu só li o do Gaspari, e assim, meio nas coxas. Se eu viver mais umas duas ou três vezes, quem sabe terei tempo (e capacidade) para ler TUDO o que tio Lula não leu, mas que tio Missosso leu. Oremus.

missosso disse...

um dia, poderei comentar TODOS os posts de Dalva, que leio, mas nem sempre comento. Bjs querida