sábado, 6 de fevereiro de 2010

Dogen e o Portal da Agradável Tranqüilidade

Dogen Zenji (1200-1253) foi um dos principais reformadores da tradição budista japonesa, o Zen-budismo. Filho de aristocratas de Kyoto, viu-se órfão de pai e mãe muito cedo, decidindo tornar-se monge aos treze anos de idade.

O estudo das escrituras budistas logo lhe suscitou profundas indagações:
– Se a fonte do Caminho é universal e absoluta, por que distinguimos a prática da iluminação?
– O ensinamento supremo sendo livre, por que precisamos estudar os meios de atingi-lo?
– Já que o Caminho não se confunde com a delusão, por que então preocupar-se em eliminá-la?
– Se o Caminho está completamente presente onde se está, como é que poderíamos nos perder dele?

O jovem Dogen conseguiu convencer seu próprio mestre, Myozen, a empreender com ele uma viagem de peregrinação à China em busca de respostas. Assim que o navio em que viajavam aportou em terras chinesas, um velho subiu a bordo. O ancião era cozinheiro de um templo das redondezas e andava à procura de cogumelos para a refeição dos monges.

Dogen insistiu para que ele passasse a noite a bordo e repousasse, uma vez que a caminhada de volta ao templo era longa. O velho cozinheiro respondeu-lhe que seu trabalho era muito importante e não poderia ser adiado. Dogen perguntou-lhe se não havia no mosteiro quem o pudesse substituir, ao que ele lhe retorquiu dizendo que aquela era a tarefa que lhe cabia, se um outro a fizesse, o trabalho não seria mais seu.

Antes de se despedirem, Dogen ainda quis saber por que, em idade tão avançada, o cozinheiro ainda exercia uma atividade tão cansativa; ao que o idoso lhe disse que na resposta desta pergunta estava o verdadeiro significado dos ensinamentos de Buda.

Mestre e discípulo seguiram para o mosteiro de T’ien-t’ung-szu onde se devotaram intensamente à prática e aos estudos religiosos durante dois anos. Após este período, Dogen partiu em busca de novos ensinamentos que o conduzissem à experiência iluminada.

Nesta nova jornada, a qual empreendeu sozinho, encontrou diversas escolas do budismo chinês e ouviu a doutrina de muitos a quem consideravam sábios e Bodhisatvas, conhecendo os mais notáveis mestres daquele tempo. Seu desapontamento crescia à medida que viajava, pois que muitos destes mestres eram por demais ligados à vaidade e interesses mundanos.

Conheceu um renomado sábio que se dividia entre seus afazeres no templo e a corte de um poderoso senhor a quem servia na função de conselheiro; alguns destes falsos mestres chegavam a ter a ousadia de conferir o Selo do Darma em troca de favores e vantagens pessoais! Estava decidido a voltar ao Japão quando lhe chegou a notícia de que o grande e venerável mestre Ju-ching se tornara o superior do monastério de T’ien-t’ung-szu, onde passara os primeiros dois anos na China.

Resolveu retornar ao monastério acreditando que lá encontraria o seu verdadeiro mestre. Quando pôde conversar a sós com o líder espiritual ouviu as mais humildes palavras que um superior já lhe dirigira: a grande novidade não se encontrava ali, mas alhures, onde um monge que ele, Ju-ching, orientara finalmente atingira a ponte que leva diretamente à natureza-Buda.

Dogen foi informado que este irmão o aguardava ansiosamente porque sabia que não lhe restava muito tempo de vida. A linhagem do Zen é uma transmissão direta, face a face, de Buda a Buda, inquebrantável e suficiente. Não há nada a ser transmitido. Apenas Buda reconhece Buda.

No alto de uma montanha, num pomar de cerejeiras já quase sem flor o encontrou. E então Dogen se viu diante do velho monge cozinheiro. E compreendeu.

Não há dualismo, não há separação entre a vida diária e o Caminho.

O Buda que se ia estava sereno,
tranqüilo como um Dragão na água
ou um Tigre recostado na montanha.

O Buda que despertava
sentia-se enfim em casa,
no seu elemento natural

O Tranqüilo Estado de Liberdade Iluminada.




5 comentários:

José Doutel Coroado disse...

a falta de informação sobre Budismo é uma das minhas muitas lacunas do conhecimento.
ainda bem que o tema foi tratado aqui.
abs

christiana disse...

gosto muito. lembrei de um conto que cometi faz um tempo http://www.novoaemfolha.com/2004/03/a-luminosa-senda-do-vazio-perf.html

missosso disse...

José António, fico feliz de poder contar histórias, aliás, vale muito a pena a história da Christiana que está no site pessoal dela "Nóvoa em Folha". Blz!

angela disse...

História bem interessante e com um final surpreendente que da o sentido, como gostam os orientais (e muitos ocidentais como eu)
Tem o Zen, tem o budismo, o tantra, o tao, o induismo, etc.Tem tanta verdade...a negação da negação será um vazio ou um não?

mauverde disse...

Lindo, lindo, poético, paciente, delicado, amoroso. Obrigado!