domingo, 14 de fevereiro de 2010

WWW.VACILÃO.COM.BR

A Origem do Mundo de Gustave Courbet (1866)

Tinha trabalhado duro uma semana inteira, média de 15 horas por dia, com paradas de meia horinha pra engolir umas quentinhas nojentas. As pessoas associam logo a minha profissão com glamour, baladas incríveis, esse tipo de coisas; só que para nós, da produção, o espetáculo não é lazer, é pegar no pesado, é ter que entregar sem falhas e com prazo curto. Eu levo a sério o métier, não fico pagando de sou-amigo-de-artista.

Daí acabou. Domingão livre, ou quase, ainda ficamos para a passagem de som até duas da tarde. Calor da porra. O show era no Rio, daí que fomos pro Braga tomar uns chopes e apreciar o mulherio. Uma coisa foi levando à outra e achei que seria uma boa aceitar o convite pra colar numa balada no Morro Dona Marta. O resto da galera não topou, foram para um festival de tecno na Marina da Glória.

— O lugar é coisa fina, meu irmão, de dia é um mercado com várias lojinhas, de noite, vira um recinto de bailes, sambinha maneiro, funk, batidão... o que for. ‘Bora nessa?

Confesso: não sou de encarar essas paradas de festa no morro no Rio de Janeiro, mas fui na confiança. Exagerar nos tinguás dá nisso. — Como é que você falou que se chamava o lance, Suvaco do Cristo?...

— É, fica embaixo do Redentor, bem do lado do braço esquerdo do Cristo. Daí o nome de Suvaco do Cristo. Dá tempo de tomar um banho no flat e cair pra dentro. Amanhã voamos de volta, a gente merece um pouco de boa-vida, né não?

Fomos de táxi até ao pé do morro. Chegar não foi terror, a vibe do pedaço era mesmo muito boa, paz, gente bonita e uma noite fresca. Daí veio a surpresa, tinha um prédio com vários andares lá no meio da favela. Quem ia imaginar isso? Passamos através de um stand center e pegamos um elevador de porta pantográfica toda enferrujada. O elevador rangia um bocado, mas dava uma boa panorâmica de cada andar. Manguaçar com o estômago vazio dá nisso.

A subida era lenta e irresistível. Havia uma coisa diferente ali, era uma balada e também não era porque em cada andar a festa se misturava com a ocupação habitual das lojas. O primeiro andar parecia um grande salão de manicure normal, exceto pela quantidade de homens no ambiente. Logo depois vinha uma espécie de escritório ou tabelionato, onde havia alguns caras engravatados. Descemos no terceiro andar.

As divisórias baixas deixavam à mostra uma série de lojas de perucas. Havia de todos os tipos: louras, morenas, ruivas, lisas, permanentes e black power, masculinas e femininas, de cabelo natural, próteses, apliques, alongamentos, cílios; mas as que se destacavam eram as coloridas, as prateadas e douradas, de caslon. Não me senti muito à vontade em descer ali pela presença de travestis.

Dois deles(as?) conversavam do nosso lado. — Seguinte: se você quiser esconder o número do seu celular sem mudar as configurações é só fazer assim, ó, quadrado-trinta-e-um-o-número-e-quadrado... A de cabelo verde digitava no celular, o outro camarada se debruçava interessado.

— Mas como, quadrado?... ah, peguei, você quer dizer jogo-da-velha! Então liga aí pra mim: #31# 67 11 83 22... quero ver se não aparece o seu número.

Sinalizei para o meu amigo e ele entendeu, apontou com um gesto da cabeça para a escada que estava à nossa direita. Na muvuca das drags, perdi de vista o meu amigo, mas não desisti de dar o fora dali. Resolvi que o andar de cima valia uma visita. Lá, a iluminação de luz negra só deixava visíveis os frisos e colantes fosforescentes das paredes; das poucas pessoas que circulavam por ali só se lhes via os dentes. A minha camiseta branca brilhava.

Como se acompanhantes invisíveis estivessem me levando, fui na direção de uma sala sem porta, só com uma cortina de miçangas coloridas pendurada no limiar. Algumas daquelas contas cintilaram quando passei por elas; o show dentro do quarto era pornô. Uma mulher inteiramente nua estava deitada numa plataforma giratória, ou talvez fosse uma cadeira de dentista, não dava para ver direito naquele breu relativo.

Impossível enxergar o rosto da moça. Ela enfiava um dedo na xoxota com movimentos lentos e ritmados. Não se ouvia nada, sussurros, gemidos, nadica. Aproximei-me para ver melhor a cena, comecei a desconfiar de uma coisa. De dentro da xoxota vinha um brilho fraco, com a vista já mais acostumada ao escuro, pude ver as 3 letrinhas inconfundíveis: “www".

— Você percebeu agora? — Era o meu amigo que falava às minhas costas; tinha entrado sem que me desse conta.

— Mas que porra de brincadeira é esta? O que é que eu tinha de entender aqui?

— Calma bro, é só uma pegadinha, todas as pessoas que você viu neste edifício são atores. A garota é um robô. É de um site chamado “vacilão”, www.vacilão.com.br, sacou cara? É só zoação. Agora você ganha o direito de fazer o mesmo com outro amigo seu...

— Ah é, e como é que eu tenho que fazer para levar as pessoas para um lugar destes?

8 comentários:

José Doutel Coroado disse...

vacilou...
boa estória!
tá todo mundo procurando a mesma coisa...

Júlia disse...

é pra q vejas. a moldura é horrorosa e a xoxota com todas outras, sem manual de instrução. como o verniz que protege a tela, uma agenda ideológica dita ordens à proprietária. haja profissionalismo pra fazer funcionar, hein?!

missosso disse...

a idéia que procuro trabalhar nesta estória é a do criador como um logrado pelas suas criações, ligeiramente a boreste da fórmula pessoana, a do poeta como gigolô (souteneur) das emoções, vejo o artista como o Grande Corno da arte, o último a saber do segredo de polichinelo da "mentira que diz verdades"; assim, há que primeiro ter caído em grandes esparrelas na vida para depois poder retratá-la em sua cruel dimensão ficcional. somos uns enganados e é o poeta, o maior entre os trouxas, que, com a sua ingenuidade perversa, no-lo denuncia por meio da sua perversidade naïve.

angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
angela disse...

Vacilei...sou distraida pra caceta

missosso disse...

Hahahaha, tks companheira, a ideia era essa mesma: provocar o vacilo.

Anônimo disse...

O Rio é como pizza e sexo, mesmo ruim é sempre bom "un rico vazilon"...rsrs

missosso disse...

concordo inteiramente com o (a?) anônimo!