sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estiagem


O último aborígene da Austrália
A vampira órfã da Suécia
O homem que não pode mais ser branco
Mas ainda não é índio

Os desperdiçados da Manchúria
O carabineiro de vigia
A pesquisadora isolada
No sertão do Piauí

O xamã que guarda seu segredo
A erva borbulhando na caneca
O inca que caminha sem esforço
Na encosta da montanha

O músico tocando na campina
Sem outra pessoa pra escutar
O homem cuja vida já termina
Meditando sobre o fim

O amor sulcado de estiagem
A mensagem que não tem resposta
O telefonema bate e volta
Sem você dizer alô

Os armários sem nenhuma roupa
A garagem sem o nosso carro
Quarto sala mesa telefone
Já não tem ninguém ali

5 comentários:

angela disse...

Eta solidão danada!
Ao menos rendeu um lindo poema.

José Doutel Coroado disse...

Bonito... profundo... sentido!
Gostei.

mauverde disse...

O curioso é eu NÃO estar numa fase de solidão pessoal brava... pelo contrário, rsrs...

missosso disse...

boa Mauverdevermelho e cor de carvão, "já não ser branco e ainda não ter virado índio", aí me vejo por inteiro. obrigado

angela disse...

Que sei eu da realidade?
Sei que o poeta é um fingidor.