terça-feira, 24 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 2

“Agosto de 1354. O intrépido almirante genovês Emilio da Medici acaba de infligir um duro golpe ao império do leão marinho, causando pânico e destruição na cidade aliada de Parenzo e já ameaça o próprio centro dos seus vastos domínios marítimos. As galeras do inimigo rondam ao largo de Veneza como feras predadoras sedentas de sangue, o povo se reúne nas igrejas e praças da cidade esperando pelo pior. Da Medici, conhecido como Garra Azul, é famoso por não fazer prisioneiros. No porto de San Nicolò, o populacho e os nobres membros da Signoria tentam, em esforço desesperado, bloquear a entrada do Gran Canale afundando barcos, gigantescas toras e barrotes de madeira ligados por pesadas correntes de ferro.

E quando tudo parecia não poder piorar, o Doge Tancredo Nivio morre repentinamente durante suas preces matinais. Os poderosos armadores e banqueiros do Rialto se perguntam quem poderá lhes valer, quem seria o homem forte a guiar os destinos da Serenissima Repubblica em hora tão extrema? Então, faz-se ouvir a voz do multifário conselheiro Giuseppe Dirceo: ‘Não será entre vós que encontrareis tal homem; olhai para o norte, até Avignon, para onde mandastes Antonio Palocci congratular o recém-empossado Papa Inocente’. Assim lhes falou e, contentes, pronto equiparam uma frota com a qual o novo Doge arrostaria o oceano para oferecer combate aos genoveses.

Grande foi o acerto do avisado consigliere, Antonio Palocci não só era um experimentado comandante, temperado nas duras batalhas do Levante, como era amado pelos venezianos, que o tratavam afetuosamente por Tonino, il caro contino. Após cruenta luta, na qual muitos barcos e vidas foram tragadas pelas frias águas do mar Adriático, a frota adversária foi obrigada a fugir desbaratada por impiedosa tunda. Salva estava a pátria, festejos eclodiram em extemporâneo carnaval que se alongou por uma semana de licenciosidades e regozijo. Mas, para Dirceo, o jogo estava só começando, sabia ele que o velho comandante era viúvo, o que não quadrava bem ao líder máximo da cidade-estado. Planejava apresentá-lo imediatamente à deslumbrante Anunziatta.”
***

“A riqueza do pobre são os filhos.
Nós éramos bem pobres. Nove filhos, onze bocas para dar de comer. Uma vida dura, mas cuja dureza era atenuada pela sensação, que trazia em si uma espécie de orgulho, de estarmos juntos no mesmo barco. No mesmo barco. Acho que a canoa virou nos anos que antecederam ao nascimento da minha irmã caçula; antes da Neuda, mamãe perdeu um bebê recém-nascido. Meus pais nunca mais foram os mesmos.

Os filhos nasciam em casa. Vinha a parteira, dona Ermínia, uma senhora bem velhinha, rezadeira que também tirava quebrante, e a molecada saía, espalhada na casa de um e outro parente. Nessas ocasiões sempre me mandavam para a casa da vó Balbina, eu era o xodó dela. Isso, a Neuda nunca aceitou.

Estou na casa da minha avó, mas já sou adulta, no entanto, ela e o meu avô falam aos cochichos, como faziam nos acontecimentos sérios que as crianças não podiam saber. Meu avô deixa escapar que tinha sido melhor assim, já que meu pai estava desempregado. Minha avó, sentada numa cadeira desproporcionalmente alta, assente: ‘Deus, em Sua imensa misericórdia, há de perdoar... num transe destes, não havia outra coisa a fazer...’

Uma escuridão sobe do assoalho e engole toda a cena. No instante seguinte, já estou na sala da nossa casa, mamãe está passando pilhas e pilhas de roupa com o ferro de carvão. O cheiro de madeira queimada me envolve numa névoa de lembranças descabeladas. Mas algo corre mal.

Minha mãe, desconsolada, os olhos muito fundos empapados no rosto magro de mamãe, a sombra da tristeza de mamãe que cairia durante anos infinitos sobre toda a nossa família. Ao menos para mim, até ali, tínhamos sido tão felizes...
O retrato do bebê na parede parece muito maior do que antes. Será possível que nunca tivesse reparado nisso? Neuda está na sala, ao lado de mamãe, como foi a vida toda."
***

Conhecer o sonho das outras pessoas é conhecer a toca do coelho, é ganhar uma chave que dá acesso aos bastidores daquilo que elas desejam, coisa que, em geral, são as primeiras a desconhecer. Percebi que quase todo mundo utiliza dois tipos de mapas caolhos: poucos entendem o tempo e o lugar onde estão, e menos ainda são os que sabem quem realmente são. Por isso é que somos tão facilmente manipulados.

No princípio, gostei de fazer o papel de menino precoce, bancar o sabe-tudo; cheguei a aparecer na TV, era um daqueles meninos-prodígio de programas de auditório, um menino-monstro; na real, todas as crianças ficam meio monstruosas na televisão. Virar uma espécie de aberração de circo mambembe acabou me cansando; acordados, os seres humanos na maioria das vezes são banais, não criam nada.

Vejam o meu caso e o dos meus companheiros de UTI: só estamos vivos enquanto pudermos inventar uma outra coisa. Quando alguém aqui esquece disso, vai. O professor, à minha esquerda, teve um caso incestuoso com a irmã, o que o preenche de culpa e apego a uma antiga história italiana, a senhorinha, por outro lado quer remontar um episódio da infância sobre o qual tem muitas dúvidas.

domingo, 22 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 1


“A imagem inicial é um imenso quadro a óleo; em primeiro plano, banhados por uma luz celestial, aparecem as figuras esplêndidas de um Doge de Veneza e sua esposa que avançam na direção de uma balaustrada. Trata-se de um homem velho de barba cinzenta, seus traços revelam, sob o bronzeado marcante, uma grande mistura de sentimentos, ora impetuosidade e orgulho, ora hesitação e inquietude; ela é jovem, quase menina, e não precisamos de muita imaginação para ver nela a aparição de um anjo, sua expressão cintila delicadas fulgurações de arrependimento, desesperança e fé. Atrás deles, paramentados com rico libré, um homem segura um guarda-sol ornado de borlas douradas e uma mulher carrega nos braços uma bacia de prata com água e toalhas brancas. Uma criança brinca no canto, junto às cortinas.

De um dos lados da balaustrada, um rapaz sopra uma concha de tritão e, nas águas abaixo dele, desliza uma gôndola ricamente decorada de onde se ergue a bandeira veneziana ladeada por dois remadores. Na larga extensão marinha que se vê ao fundo do quadro flutuam centenas de velas; à esquerda, divisa-se o campanário da basílica de San Marco, enquanto que, mais para a frente e à direita, as cúpulas da igreja de San Giorgio Maggiore e, mais além ainda, pontificam as torres arredondadas em estilo mourisco dos palácios de Veneza, a Magnífica. Na parte inferior, pintadas como se houvessem sido esculpidas num brasão de pedra, liam-se as seguintes palavras:

In una cascata di sangue
navigherò con una rossa vela
per orridi silenzi
ai cratèri
della luce promessa
A. Pozzi”

***


“É a velha casa da minha família, onde morei por toda a minha infância e onde meus pais moraram até morrer, na Ponte Rasa; mas a disposição dos cômodos lembra a dos meus avós, na verdade, o terreno de todas as casas era comum, meu avô foi construindo aos poucos no sistema de mutirão de vizinhos: nos fins de semana minha avó fazia uma galinhada, uns traziam pão caseiro, outros, maionese, farofa ou vinagrete, e assim se juntavam os homens e os rapazes com força de homem para ‘bater a laje’. Virar adulto, na época, era o mesmo que casar; todos os tios e tias ao casar ganhavam um puxadinho de parede colada no entorno da vila operária. A exceção foi o tio Miro, que se mudou para a casa dos fundos da família da mulher.

Não sei dizer o que mais fortemente ficou gravado em mim da casa da vila. Poderiam ser os pratos americanos de bordas bisotadas com desenhos de flores geométricas. A fruteira de palha trançada no centro da mesa. Os talheres, comprados um a um, de tamanhos e formas diferentes. Ou ainda os copos, de vidro para os pais, de plástico opaco para nós, as crianças. O porta-guardanapos de ferro polido, presente de casamento, que ficava na cabeceira da mesa junto ao lugar do meu pai. A lata sem tampa onde se guardavam as fatias torradas do pão de véspera, de um azul desbotado em que estrelinhas douradas resistiam sob os arranhões e as partes enferrujadas. O feijão mulatinho, o arroz, que nos dias de festa vinha acompanhado de tomate, coentro e colorau.

Mas talvez sejam mesmo as fotos ― as únicas enquadradas ― que ficavam na sala, ao lado do rádio a válvula: uma casinhola de pedra em Brubno, na Croácia, de onde a família da minha mãe fugira na 1ª Guerra e, ao lado, a foto de um bebê. Coisas soltas e descasadas como eram os objetos daquela casa, coisas que venho carregando há tantos anos e com tanto trabalho, equilibrando-as para que não caiam e quebrem, levando junto consigo as relíquias memoriosas daquele tempo mágico.”

***

Eu sou mais sabido do que deveria para os meus onze anos incompletos. No começo, meus pais acharam que era a internet e a TV; bloquearam sítios e canais impróprios. Nada a ver. Depois veio a fase holística, me levaram a médiuns, benzedeiras e até mesmo a uma monja budista. Se eu dizia coisas tão surpreendentes, vai ver era ‘sensitivo’, ‘evoluído’, ou coisa assim. Ruim mesmo foi a fase dos psiquiatras infantis, fui tachado de bipolar, autista, DDA e superdotado. Atualmente, são os neurologistas.

É osso. Ninguém sabe o que está acontecendo e saem falando um monte de groselhas na maior cara de pau. Não sei como isso aconteceu, o que sei é que aprendi, ou vai ver já nasci sabendo, a entrar no sonho dos outros. Basta dormir perto de uma outra pessoa que está dormindo, e ploft!, já estou dentro dos sonhos e fantasias dela. Descobri isso depois de sonhar noites seguidas com músicas (as músicas mais lindas que já tinha ouvido!) e vôos pela cidade. Voava de árvore em árvore, cantava, escutava, procurava, pegava insetos, migalhas e minhocas e morria de medo dos gatos. Não existe nada melhor do que poder cantar e voar.

Levei meses para entender que estava dentro do sonho de uma sabiá que tinha feito ninho no galho perto da janela do meu quarto. Daí trouxe meu cachorro para dormir na minha cama e comecei a ter sonhos perfumosos, um mundo de cheiros incríveis que eu desconhecia totalmente. Me arrependi MUITO de ter pedido para voltar a dormir na cama dos meus pais. Mas aí não parei mais e, de tanto dormir, esqueci como se desperta.

Os médicos dizem que estou em coma sem causa aparente, mas dão esperança aos meus pais dizendo que há atividade cerebral. Se soubessem! Esses dois sonhos aí acima são dos meus vizinhos de UTI, uma senhora velhinha que sofreu um derrame e um professor de história que teve um acidente de carro. Eu só quero acordar.

sábado, 21 de maio de 2011

do luto à luta



no país da matadeira, Sandra Luzia reflete sobre mãe de jovem pardo: tamanho, documento, medida, valor, investimento
dia 20 de maio, sala 512 Puc-Sp. Dasdoida recomenda: leia o livro

quinta-feira, 19 de maio de 2011

caleidoscópio de ouvir



homem
árvore
sol
sol entre ramos
como ao nascente

uma certa
juventude
eterna e irreprimível

minha prosa
não é poética
minha poesia
algo prosaica

quarta-feira, 11 de maio de 2011

da mai da DASDOIDA



trilha pra documentário sobre a luta antimanicomial

a gente trabalhava num lugar legal,mas tinha donatário que tornou o ambiente insuportável
a gente se mandou e hoje é feliz, nóis fumu pro Embu, as arte tá aki
se vc quiser saber qual é que é, Dasdoida tá na pista e tem samba no pé
até a Lady Gaga usa e abusa. Dasdoida, meu amor, todo mundo usa
mas a ciência tem limite de montão, não venha me enfiar o uniforme do patrão
esta é a história de quem tá na vida, sem prêmio de chegada e sem garantia
Dasdoida é divertimento de montão, se joga minha irmã e meu irmão
numa maneira autista pra você ser artista, quem sabe cê descobre seu proibidão

domingo, 8 de maio de 2011

cheiro de cão molhado de chuva


afetos são vermes que roem
os invólucros da lembrança
voragem líquida da lente da memória
o mofo que recende na camera oscura
da consciência ― em tudo que deforma
os ritmos da luz e do sangue os encontramos
no Japão desocultam estes fluxos
rompem-se as eclusas da noite imensa
construída de trevas e espaço e olvido
carta fechada de um destino
a me ultrapassar por todos os lados
sob beirais e cimalhas nas sombras
dos portões de ferro a veneziana
que as formigas contornam subindo
a parede a beleza remida pelas idades
que impregna as coisas espécie de alma
das vidas vividas e daquilo que não poderá
ressuscitar o amor é apenas isso
um setembro guardado em papel
de rebuçado (rima rica solidão e sépia)
que todavia se apodera dos intervalos
comerciais das pedras de cantaria
dos antúrios da cidade sob
os escombros

amor de bicho


eu via
que ou visses
onde ele
déja viu


iconoclássica bobagem de quem não tem
dez paus
bilhete único vale-transporte ou a grana
do busão


microdespidas transex causam tremendo
rebuliço
agora escrevo o amanhã que já não sei
se há
se houve se haveria e
será


ao ir me indo vou
pasmo
porque o tesão não carna a rima
& a solução


tomo o elevador visionário (do shopping)
parei
de parar de balançar cem mil vezes o barco
bêbado
paixão é amor
de picas
jorrando ao céu
seus rufos


de que adianta construir pontes entre
os mistérios
e seguir caminhamando
sem sustos
?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Semelhanças


As pequenas gotas brilhavam nas grades do portão. Eram tão transparentes, tão puras como cristais pequenos. A luz do sol chegava ate elas, uma luz de fim de tarde de verão quando o calor e a claridade já não machucavam. Ficavam ali penduradas desafiando a gravidade.

Uma garoa fina e bem espaçada caia e refrescava ainda mais o dia. Sai andando aproveitando aquele tempo ameno e contornei o quarteirão. Acendi um cigarro (maldito vicio que pensei ter me livrado) e enquanto aproveitava meu pequeno intervalo vi uma mulher que me pareceu conhecida. Tinha o cabelo escuro, ondulado, farto e curto, a pele clara mais ou menos a mesma altura, peso e idade de uma amiga de trabalho perdida em algum volteio da vida. Chegando mais perto vi que não era ela e que deveria estar com a aparência diferente depois de tanto tempo.

Sempre acho estranho como vou encontrando “conhecidos” pelas ruas. É como se houvesse alguns padrões que se repetem e que com o tempo a gente esquece as particularidades. Ficam na memoria os traços gerais: o padrão. E é justamente esse esquecimento das particularidades que possibilita que eu imite as pequenas gotas desafiantes e por um segundo seja eu a desafiante das leis da natureza e reveja pessoas que já se foram e mate um pouco a saudades.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

a vida noturna das cobaias - epílogo


[Insatisfeita com os rumos desta história, Rivka Rappoport exigiu conversar com O Autor em particular, diálogo que rendemos a seguir verbatim. Os dois se dirigem a um recinto fechado, situado num metanível. As duas únicas cadeiras do ambiente estão posicionadas uma de frente para a outra. Sentam-se.]

A: ― Que rubrica ridícula é essa aí de cima? E que porra de lugar é este?

RR: ― Segura a língua boçal, só porque saímos da SUA narrativa não quer dizer que os leitores não possam NOS acompanhar aqui...

A: ― Aqui, aqui... isto aqui é lugar nenhum, é uma bosta de um não-lugar discursivo! Palhaçadas deste tipo é que fodem com o pacto ficcional leitor-autor, são o túmulo da verossimilhança e do foco narrativo... este nosso “diálogo” não passa de um excurso inútil e rebarbativo, subproduto da mania das digressões, a modinha das interferências e julgamentos de valor que nos legou o politicamente correto, essa fonte perene dos clichês pós-modernos!... pós-modernidade que, na literatura e na comunicação, aliás, só tem feito proliferar o ruído, o lugar-comum, a irrelevância e a euforia infantilóide ― O Autor tentou levantar-se, indignado, mas uma convenção tácita o prendia à cadeira.

RR: ― Humm, ficou putinho só porque agora não está mais no controle, é? Pois então, bonitão, seus dias de irresponsabilidade demiúrgica chegaram ao fim... você acha que é mole estar na pele dessa nerd sádica em que você me meteu?... Uma carreirista que vai para o Brasil, paga por uma das Big Pharmas, onde irá elaborar protocolos de testes de psicotrópicos em crianças africanas... É ruim, hem?

A: ― Estou farto. Pra mim chega, dar liberdade aos personagens tem que ter um limite... minha filha, acabei de introduzir você na trama, criei um clima, já, já, vai rolar uma tensão sexual entre você e o Oswaldo... serei generoso quando descrever seus atributos físicos mais adiante... ah, e ainda fui condescendente ao não revelar que você matou aquele rato a estiletadas...

RR: ― Sim, claro, Sua Alteza, O Grande Artista, cuidou para que se criasse logo de cara a empatia; primeiro você dá corda forçando a identificação com os meus sentimentos, depois, enforca no repuxo, quando aparecem as conseqüências dos meus atos... Foi isso que você aprendeu nesses cursos de escrita criativa? Eu era para ser só uma personificação da malvada economia de mercado e encarnar o casamento perverso do Saber com o Poder; mas acabei ganhando profundidade e relevo, uma certa ambigüidade de caráter que provoca a aderência do leitor, hipócrita e irmão.

A: ― Você não entende? Este desvio metalingüístico em que caimos, esta maldita dê-erre, faz os leitores fecharem o livro e pular na internet, na TV, no joguinho de celular, no caralho a quatro... a competição é cada vez mais feroz pela deficitária atenção da humanidade... procura outro trouxa, o papai aqui já desistiu de escrever sobre a filhinha rebelde!

RR: ― Filha sua sou sim, mas você não é pai, é mãe. Você me carregou dentro de você, é verdade, mas quem me cria é esse aí, que está nos lendo agora (ou não). Sator arepo tenet opera rotas, o semeador que tem nas mãos as rodas da charrua; será possível que o discurso indireto livre tenha lhe transtornado a esse ponto e você acredite mesmo nisso? Um Taumaturgo que assegura com sua força a rotação do universo...

A: ― ...se Deus pudesse contar a história do Universo, o Universo se tornaria fictício...

RR: ― ... Deus pode muito bem ser apenas mais um frustrado como você, que precisa expurgar nas personagens femininas a rivalidade com a irmã, essa ciumeira que nem vinte anos de divã psicanalisaram... Ela ainda te paga umas contas de vez em quando, não?

A: ― Puta que pariu! O que mais temo nos meus futuros biógrafos é essa psicologia de boteco, explicar minha obra pelas taras, os complexos e a inveja; um papo de cocô-xixi, o pipi do papai e a tetinha da mamãe... Saco!...

RR: ― “Futuros biógrafos”, hahaha, olha só o pedante, se achando o Chuck Palahniuk dos trópicos... acorda pra vida senhor Narrador Onisciente Intruso, você é um escriba obscuro de uma língua periférica... se ainda escrevesse em inglês ou mandarim, vá lá... falando nisso, por que não estou falando a minha língua mãe?

A: ― Bah, língua madrasta é o que é... Você não imagina o sofrimento que é ficcionar, colocar-se entre parênteses e dar vida ao que é familiar e estranho em você mesmo, se doar... olhe para dentro de si mesma: tudo que vai encontrar é um eu fascista e intoxicado de auto-referência...

RR: ― Pára, pára, que eu vou chorar... quanto altruísmo e doação, quase me faz esquecer a aliteração imbecil: “r” de Rivka, de Rappaport e... de rato! Um recadinho em código para os seus amiguinhos acadêmicos se masturbarem com a vibrante línguo-dental.

A: ― Bom, mas o que é que você quer de mim? Por que me chamou?

RR: ― Quero... hãam, ficar viva...

A: ― Kkkk, a doutora PhD, senior researcher da Clínica Mayo pede misericórdia implorando pela sua inexistente existência?

RR: ― Você poderia não me eliminar antes do final do livro? Assim eu continuo viva indefinidamente, ou até posso voltar em outra história...

A: ― Entendi... só que, em vez disso, vou te libertar de vez, como fez o Pirandello com aqueles seis... Por que você não poderia se tornar Hamlet?, afinal, Sócrates existiu mais ou menos que os heterônimos pessoanos?, quem era Whitman, me, I ou myself? Dizem até que Bioy Casares não passou de um personagem que Borges inventou para escrever o romance perfeito que nunca escreveu...

RR: ― Ei, já ouvi falar disso: Kafka dizia que o Quixote na verdade foi uma criação de Sancho para poder viver uma vida aventurosa; você acha que eu poderia...

A: ― Faça o mesmo que eu fiz, crie um universo, dê-lhe consistência e espere... em pouco tempo assistirá seus personagens ganharem vida... e as coisas sairão inevitavelmente do seu controle...

[Rivka Rappoport viu-se repentinamente sozinha no vácuo. Entendeu que havia somente uma coisa que podia fazer. Ela criou o Céu e a Terra em seis dias. Por uma questão de direitos autorais, nosso relato não poderá ir além deste ponto, Rivka Rappoport assinou com uma grande editora e será convidada especial da Flip.]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

a vida noturna das cobaias - 1ª parte



“― Brad costuma seguir uma minuciosa rotina no chuveiro: bate sete vezes no lado direito da cabeça, passa xampu na franja, bate mais sete vezes, desta vez do lado esquerdo, passa creme rinse e bate outras sete vezes. Alterna o lado das batidas para que nenhuma série fique ‘desequilibrada’; repete isto na parte de cima da cabeça e na parte de trás, depois passa para o rosto e o pescoço, e só então, passa para o resto do corpo...” ― a aula da pesquisadora Rivka Rappaport acontecia no salão nobre da Biblioteca Nacional de Medicina do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, Maryland, a alguns metros da avenida Wisconsin e a uns bons quinze minutos de carro do distrito federal, Washington DC.

Havia no ar a expectativa do laboratório chefiado pela Dra. Rappoport ganhar um apoio financeiro substancioso com a campanha nacional de conscientização sobre o transtorno obsessivo-compulsivo. “―... seus rituais envolvem não só a ordem que acabei de lhes descrever, mas também a forma correta de jogar a água e, uma vez terminado o banho, finaliza com a maneira correta de pendurar a toalha. Se ele, no decorrer do circuito completo do banho, inverter alguma das fases ou estiver em dúvida quanto a ter seguido uma alternância estrita das batidas nos lados da cabeça, ele tem de recomeçar tudo do princípio”.

“― Soltos ou em cativeiro, normalmente, os ratos passam um terço da vida acordada se arrumando. Arrumar o pêlo lhes permite regular a temperatura, devido à evaporação da saliva, bem como influencia o comportamento sexual, pela ativação do estro nas fêmeas via os diferentes odores da saliva do macho. Mas o ato de se arrumar também ocorre durante a frustração e o conflito; nessas ocasiões, os ratos se arrumam mais ainda... de toda forma, eles exibem um padrão fixo de se arrumar, tão complicado quanto o de qualquer um dos nossos pacientes.”

A lavagem dos ratos é sempre da cabeça para a cauda: primeiro o focinho é higienizado pelas patas dianteiras umedecidas, em seguida é lambido o resto do corpo, coçar e farejar o rabo encerram o ritual. Inúmeros agentes químicos e lesões cerebrais despertam o programa de arrumação corporal; se retirarmos da pituitária o hormônio adrenocorticotrópico e o injetarmos no cérebro da cobaia, o bicho começará a se lavar exatamente como faz em estado natural. Há também uma série de drogas que fazem com que o rato pare de se lavar. E era uma destas promissoras moléculas que a equipe da Dra. Rivka tinha acabado de sintetizar; ela precisava convencer os decanos do poderoso N.I.H. a investir numa pesquisa com cheiro de Nobel.

“― A questão é saber se alguns animais se arrumam demais devido ao stress da vida em cativeiro...” ― ela já estava acostumada a ver a cena ao acender as luzes pela manhã no laboratório de genética animal: entre as milhares de gaiolas, verificava-se que em algumas todos os camundongos amanheciam com os pêlos e os bigodes completamente cortados.

Todos, menos um. “― O chamado ‘rato-barbeiro’ só age de noite, em geral é do sexo masculino e nunca há mais de um por gaiola...” ― nem ela nem ninguém podia jurar o que quer que fosse sobre a interpretação correta daquele tipo de comportamento, mas lhe fornecera um modelo animal para testar uma linha de medicações que iriam revolucionar o tratamento de pessoas sofrendo de tiques, obsessões, superstições e compulsões que iam desde verificações e lavagens estereotipadas até manias esquisitas como arrancar todos os pêlos do corpo.

Na platéia, o executivo de uma grande empresa farmacêutica européia ouve com atenção cada palavra da palestra; Oswaldo Canhenho Jr vai convidar a cientista americana para uma aula magna no Colégio Latinoamericano de Neurociências, a ser realizada no seu país de origem dali a seis meses. Ele já sabe que o pleito da Dra. Rappoport não receberá verbas federais. Só espera que a fala dela termine para se apresentar pessoalmente, encontro que mudará dramaticamente a vida de ambos.

“― ...em toda a hierarquia zoológica existem exemplos de padrões inatos de limpeza do ninho ou toca, como a retirada de fezes, o enterro de dejetos, defecar longe de casa... hábitos tão básicos para a sobrevivência que fazem parte do repertório de quase todos os mamíferos” ― o que a pesquisadora não consegue explicar a ninguém, nem à sua terapeuta, é o desalento que o seu trabalho vem lhe provocando ultimamente. Rivka Rappoport começou a suspeitar que nunca vai ter um trabalho laureado com o prêmio máximo da ciência; no momento, porém, tudo que pode acessar conscientemente dos seus próprios sentimentos é que começou a sentir algo pelos ratos do laboratório.

É difícil achar um lado positivo nos ratos. Eles são sujos. Eles transmitem doenças, eles guincham, eles se multiplicam sem parar, têm costas peludas e barrigas oleosas. Eles fogem e se esgueiram o tempo todo, mas reagem quando acuados e partem para o tudo ou nada. Na semana passada ela surpreendera uma reação num roedor prestes a receber uma dose letal de medicação. Ele a olhou dentro dos olhos. Primeiro sentiu pena, depois desprezo, então, viu-se tomada por uma raiva cega que a fez fugir imediatamente antes que o matasse.

O que a levou a suspeitar que talvez existisse alguma coisa naquelas criaturas ― a mesquinharia desenfreada? O egoísmo congênito? O apetite voraz, que lhe cai com tamanha naturalidade e que tão cruelmente a lembrou dela mesma?


[Insatisfeita com os rumos desta história, Rivka Rappoport exigiu conversar com O Autor em particular, diálogo que rendemos a seguir verbatim. Os dois se dirigem a um recinto fechado, situado num metanível. As duas únicas cadeiras do ambiente estão posicionadas uma de frente para a outra. Sentam-se.]

domingo, 17 de abril de 2011

Os Fukushima - epílogo


― Olha pra mim vagabundo, vê quem vai te mandar pro inferno ― Iuri estava numa clareira com a arma engatilhada a poucos metros de um bandido que caíra na fuga e tentava desesperadamente recarregar a garrucha. ― Minha Nossa senhora, não pode ser... você?!

― ... ― Yuriko não conseguia falar, contra a vontade dela os olhos se encheram de lágrimas. Estava vestida como se fosse um homem.

― Por que você tá assim? O que é que você tá fazendo no meio desses caras?... ― tentou ser durão por alguns segundos, mas correu para abraçá-la chorando como a criança que estava deixando de ser.

― De que outro jeito eu ia te procurar? Meus pais não queriam me deixar sair de casa, os celulares mudos... as estradas todas zoadas... escuta, os outros não podem saber que... você sabe...


Iuri voltou para junto da queda d’água e chamou o tio para uma conversa a sós. Queria se despedir e também pedir-lhe a bênção. Contou que estava partindo com a matula, pediu para ficar com a arma que portava e para levar uma das montarias. Hideo ouvia os argumentos do adolescente calado, a cara trombuda. Pensava, pesava os prós e contras da história toda.

― Moleque, como é que vou dizer pro seu pai e sua mãe que deixei você ir embora com um bando de marginais?

― Tio, ser feliz não é só se agarrar a um lugar a vida toda, diz pra eles que torçam por mim. Quando chegar a hora, que vai ser a hora de todos, vou estar do lado dela e vou estar feliz. É o que importa.

Mário Hideo Fukushima tomou o rumo de casa com a noite caindo e o ânimo surpreendentemente leve; não perdera nenhum homem em batalha, recuperara uma parte do milho roubado e sabia que estava fazendo exatamente o que queria fazer, vivendo exatamente a vida que desejou para si. Lembrou de uma passagem quando tinha mais ou menos a idade do sobrinho, época em que a sua família estava longe de ser a potência econômica de hoje. Fazia a ronda nos puteiros da região, mas não tinha um tusto nem pra puxar um gato pelo rabo; pedia uma cerveja que tinha de durar a noite toda e ficava lá, fazendo-se de amigo das “tias”. Até que uma marafona lhe abriu os olhos e disse: “Marinho, não se engane, você aqui só faz papel de tonto, a gente chama caras como você de ‘chimbador’: o sujeito vem, sente o perfume do amor, passa a mão, admira a mobília e... não faz nada! Guarde, espere, e só apareça quando puder ter uma dama de verdade”.

Ela estava certa. E agora, com o prazo encurtando feito um pavio, mais ainda perda de tempo seria viver no faz-de-conta, na mágoa disfarçada de saudade, ou mesmo praticar a violência desenfreada. O problema está justamente no tempo que se leva para perceber: sabemos imediatamente quando (quanto e como) sofremos, antecipamos milhões de dores imaginárias, o que muitas vezes só descobrimos depois é o tempo em que éramos felizes e não sabíamos. A velha história do farol que só ilumina para trás. Levantou a vista para o céu estrelado e os seus olhos procuraram imediatamente Buluc Chabtam, que lá estava, cada vez maior, o seu brilho mortífero engolindo progressivamente as Três Marias. Pensou nos dois adolescentes fujões, depois pensou nele mesmo, na mulher e nos filhos. Ainda lhes restava mais alguns meses.

sábado, 16 de abril de 2011

Os Fukushima - parte 2


― Iuri, seu tio não gosta de ver você desse jeito. Você faz um bom trabalho no computador, como quando recebeu o aviso de que a represa da Ponte Nova tinha estourado, mas não pode ficar o dia inteiro ligado nisso. Não há mais tempo pra ficar banzando, descubra o que é a coisa mais importante de todas na sua vida e faça o que tiver que fazer.

― Hideo-san, não tenho feito outra coisa... estou atrás dia e noite da única pessoa que me interessa. A Yuri, tio... a merda é que a internet agora passa a maior parte do tempo fora do ar...

― Yuri? Ah, sim, Yuriko! Ela é da família Tomome, não?... hmm, aquele pessoal lá como é que ficou? Lá também se arruinou uma barragem, não foi?, a Ribeirão do Carmo...

― Agora tenho uma informação, ela foi vista aqui perto, a leste de Ribeirão do Pote...

― Hmm, aquilo lá tá tudo alagado, a rodovia submergiu e o mato virou várzea... peraí, acho que é lá que estão muquiados aqueles vagabundos que cataram nossa colheita de milho, a gente podia chegar lá e tomar deles de volta ― Hideo calculava unir o arriscado ao útil, quer dizer, arriscado para o sobrinho, porque não havia garantias de encontrar a menina, mas útil para o seu grupo, onde vários homens estavam precisando descarregar sua testosterona contra um inimigo externo antes que se voltassem contra a própria comunidade.

Partiram cedo na manhã seguinte. O grupo reunia doze homens armados, três mulas e botes infláveis.

Por volta das duas da tarde, após descerem a estrada do Paraitinguinha, avistaram o talude derruído de uma pedreira que ficava contígua à rodovia Rolim de Moura. Um capiau passou com uma rede de pesca e um saco de juta. Cuidando para não serem vistos, os Fukushima resolveram cortar o caminho do pasto subindo por uma picada até o topo do morro, onde seguiram por três quilômetros de encosta até uma espécie de anfiteatro de erosão natural no meio das colinas. Um córrego descia morro abaixo partindo de uma garganta, parando ali como que para respirar numa lagoa escura e ampla rodeada por pedras. Cada um parou também para se refrescar, os homens se embrenharam na vegetação atrás de uns preás, o chefe da expedição sentou-se numa pedra à beira da lagoa e acendeu o cachimbo enquanto observava o sobrinho.

Um barulho na folhagem atraiu a atenção de ambos por um segundo; quando se viraram, na margem oposta havia um sujeito com uma cano serrado, à esquerda de onde Iuri se encontrava e bem de frente para Hideo. O cano da espingarda era um túnel escuro e indecifrável mirado diretamente neste, que permanecia cachimbando com toda a calma do mundo. Ninguém dizia nem fazia nada; os três apenas ficaram ali, sem se mexer do lugar, fixados no silêncio opressivo. Um gavião-carijó saiu do arvoredo batendo rapidamente as asas, até que ganhou altura ao pegar uma corrente de ar quente; lá do alto, soltou um guincho agudo que cortou os ares como um arrepio. Iuri entendeu que deveria entrar em ação para o tio escapar da cilada; jogou-se para trás do tronco de uma árvore disparando o revólver calibre 32 na direção do cara no outro lado do lago.

Hideo mergulhou para se esconder na mesma pedra em que estava sentado; ele ouviu o estampido dos tiros do sobrinho serem engolidos pelo da espingarda, que soou como um canhão ribombando nos morros da vizinhança. Sobre a sua cabeça, ramos de árvores e arbustos se rompiam como papel rasgado, lascas das pedras alvejadas se soltavam ao seu redor com um som metálico, a superfície da água verrumada por balas perdidas. O tiroteio generalizou-se num alvoroço fumacento e furioso; seus homens disparavam apavorados, fogos vindos do meio da capoeira respondiam, os projéteis passavam assobiando, perdendo-se no meio do mato ou escavando o lenho dos troncos com estalidos secos. Após um tempo, que pareceu durar horas, mas não passara de vinte minutos, a balaceira cedeu completamente. Pouco a pouco, os Fukushima se reagruparam em torno do chefe. Iuri tinha desaparecido.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Fukushima - parte 1


Supunhetemos
que de repentelho
o mundo se escabaçasse,
o que siririca de nós?
Nádegas, nádegas, nádegas...


Nos últimos tempos, essa cantilena, vinda de um ponto longínquo da infância de Hideo, irrompia-lhe no pensamento a qualquer hora do dia ou da noite; às vezes trauteava-a distraidamente em momentos vagos, até que se desse conta de que o fazia e parasse encabulado. Não tinha muitos ultimamente, os tais momentos ociosos, que lá isso não podia se dar a muitos desfrutes reflexivos; era uma situação muito delicada no mundo inteiro, e ele, na condição de homem de ação, tinha sido chamado a assumir uma liderança que lhe fora negada nos tempos da bonança. Se no plano coletivo a conjuntura era catastrófica, pessoalmente, Hideo experimentava, aos cinqüenta e seis anos de idade, uma inédita sensação de realização e plenitude: estava tão ciente como os outros de que ia morrer no cataclismo que se avizinhava, mas o reconhecimento tardio lavava-lhe a alma.

Tudo começara há quase um ano, quando a notícia começou a escapar dos meios científicos; a princípio, houve discórdias na confirmação independente dos dados, até que finalmente a comunidade dos astrônomos entrou em acordo que um calhau de cem quilômetros de diâmetro estava em rota de colisão com a Terra. Logo ficou óbvio que a espécie humana não sobreviveria ao impacto: o trambolho era dez vezes maior do que aquele que havia exterminado os dinossauros. O SKA, Square Kilometer Array, maior radiotelescópio do mundo, situado na África do Sul e o LINEAR, Lincoln Near-Earth Asteroid Research, consórcio da Força Aérea Americana, da Nasa e do Laboratório Lincoln do MIT, confirmavam que duas pedras gigantescas haviam se chocado no cinturão de asteróides que fica entre Marte e Júpiter, desprendendo um bólido batizado sarcasticamente com o nome do deus Maia dos sacrifícios humanos: 2012 Buluc Chabtam.

Hideo Fukushima meditava sobre a balbúrdia que era finar-se o mundo de maneira tão sem sentido, uma desorientação em escala planetária se instalara: as instituições, os freios éticos, as religiões, tudo despencara num fenômeno global e simultâneo em que se assistiu ao derretimento dos laços sociais no decorrer de poucas semanas. O Apocalipse com hora marcada da ciência suplantava os pânicos milenaristas das profecias, mandando o esmalte civilizatório para a casa do chapéu; as pessoas abandonavam suas casas, suas famílias, as cidades ficaram desertas, bandos erráticos em busca de alimento tornaram-se a principal ameaça. A paralisação da infraestrutura energética levou à suspensão geral do transporte e das comunicações, o mundo voltava a ser local. Toda a cultura, tecnologia e desenvolvimento se mostraram impotentes para deter o emissário cego da morte e do caos; seria castigo divino por conta da pílula e do casamento gay, os séculos de queima de hereges e combustíveis fósseis, ou apenas a indiferença moral da natureza?

Em tempos tão confusos, o clã dos Fukushima ocupava um território privilegiado no cinturão verde da Grande São Paulo e dispunha da tecnologia adequada para subsistir, já que havia se estabelecido entre os principais fornecedores da região horti-fruti-fungi-flori-granjeira de Salesópolis. A extensa rede fluvial, as matas de proteção a mananciais, a experiência com agricultura orgânica e a disponibilidade de enxofre, carvão e salitre ― ingredientes da pólvora ―, fazia daquela uma região auto-suficiente, desde que ali houvesse uma comunidade disposta a defendê-la. Hideo foi o primeiro a perceber isto e a convencer todos de que se se espalhassem, nada mais os juntaria; morrer por morrer, quanto mais tarde, melhor, e, permanecendo juntos, não estariam à mercê dos roubos, assassinatos e estupros das gangues nômades.

A mãe e os cinco tios, que o haviam preterido na sucessão da empresa familiar que fundaram, aplaudiam-no agora que, por um golpe do destino, ele tomava as rédeas e mantinha a todos unidos em torno de um objetivo comum: sobreviver enquanto desse. Como líder, sabia intuitivamente que a saúde de um grupo depende do bem estar de todos e cada um e por isso é que andava tão preocupado com as atitudes de Iuri; o sobrinho era o geninho da informática, passava o dia conectando-se aos fiapos de conexão que alguns abnegados ainda conseguiam manter na internet, mas o emburramento sorumbático do garoto ficava cada vez mais evidente. Era o tio querido do garoto, que o escolhera como padrinho da perda da virgindade; Hideo levou-o à zona e o apresentou a cada uma das putas pelo nome, como cavalheiro que era.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Saude não é Higiene



Freud decifrou o enigma da mulher. Depois o trancou na instituição psicanalítica. Até hoje, a professora diante do piano sentencia: penisneid

! Efeitos d´isso: se a assertiva provocar indignação, o homo sapiens (demens) se dedica a escrever o Livro Negro da Psicanálise. Se o assombro produzir identificação secundária com o agressor, então se dedica a defender a mínima diferença. Se for uma pessoa encantada, pode criar uma Terapia, como fez a artista plástica Lygia Clark. Em 1911, Sabina Spielrein escreveu: a “Destruição com Causa do Devir”. Boa coisa pra lembrar neste dia mundial.

Saúde!

despertar

mesmo que as idéias e as imagens faleçam

em descrever

assim é a imersão no instante-distância que

sempre esteve ali

como se nos tirassem um capuz

da cabeça

que amplitude infinita que alívio

ver o que não foi visto antes como

se a calota da cabeça explodisse e

um bando de pássaros revoasse para fora do

ninho escuro

de repente não há mais causa nem efeito

e tudo apenas se reflete no espelho

nada

pode amarrar ou desamarrar não há fogo

nem fogueira

as coisas como elas são transparentes

bruxuleios ilusórios do

desejo que não mais te fustiga/escraviza

você

apenas está no irremediável fluxo até

mesmo as metáforas que te dei estão

fundidas num

todo sem margens abrangendo o

estado de compaixão a sabedoria as bênçãos a claridade a

ausência

do pensamento este é o despertar do sonho que sonhava

a si próprio

um profundo senso de humor brota de dentro e você

sorri

divertido com a inutilidade do que até então te

preenchia e

só agora te dás conta que inexiste algo além

a procurar nada mais a ser

esperado


segunda-feira, 4 de abril de 2011

o silêncio da água


EU é uma outra
presença
um mala sem alça
EU é um outro
ausente
uma perna sem calça

o ser é a caça
do tempo
o humano sua
doença

Samba Shiva, samba
vai consultar Ifá
ensina a deixar
toda mágoa pra trás

o homem divide tudo por zero
carregando às costas
a má consciência
judaico
cristã
islamo
confucionista

plurivíduo
unimúltiplo recém-nato
apenas saído do
azul
do manto de Iemanjá

Samba Shiva, samba
vai consultar Ifá
ensina a deixar
toda mágoa pra trás

quinta-feira, 31 de março de 2011

a força de atração






QWERTY me desafia:
― Não importa o que faças!


Ele está certo.
não sou nenhum Pessoa
mas carrego
muitas pessoas
em mins


as constantes mudanças de estilo e técnica
são sinais de falta de maturidade
indicam um período de transição
o que acontece é que o capitalismo faz deste período de transição um período
[permanente


pratico uma vida cotidiana graças aos objetos
(fujo, finjo, já que é por eles que deveria estar enlutado)
e isso me permite, ainda que regressivamente, viver


reconheço que é uma paixão de colecionador e que provoca uma certa perda
do sentimento de atualidade
uma vez que a organização da coleção ambiciona substituir a métrica do tempo,
um passatempo diria,
meu passatempo, mas, para mim, é muito mais que isso, já que o abole


é que um mundo sem carência seria impermeável, acarretaria
uma reabsorção definitiva da fatalidade, portanto, da sexualidade
acredito que alguns se destabacariam, convocando gigantescos/violentos sabás
para celebrar a morte da sociedade na euforia dos rituais de roupas e gestos
N.B.: a esperança de uma transparência geral e sem ruídos está perdida para sempre


esqueço, assim, a minha miserável condição humana
sinto-me nobre e grande como um morto
como um pobre que nenhum tesouro acha digno de suas mãos vazias
a vida, parada e recolhida, cria imponderáveis
gaivotas dizendo adeus aos que andam perdidos sobre as águas do mar
a chuva febril, murmurada por lábios frios,
transforma o meu olhar numa estátua incessante


hoje não estou propriamente mais feliz,
o trânsito está difícil
na outra mente há pensamentos, vendidos como suvenires em braile, lutando
para retornar à vida do aviador que não suporta a viagem crua
― o passado é um combate desigual
perdido em re-encenações, pantomimas grotescas, seriados


a convicção de realidade é o perfume do sonho, tão horizontal como instantes de perfil
― um sonho não se observa
não há propósito visual nele, decalque, ou cópia, só desligamento e ilegibilidades
o privilégio de emigrar, a prova do estrangeiro e
outros tantos acordos com o mundo tangível, a excitação sexual do espírito
participa da alucinação primitiva, modelo e molde da percepção meridiana que está nos fantasmas, revenants, paisagens desconhecidas
Paradoxo: é de olhos fechados que aprendemos a ver


isto, claro, combina com a feminilização generalizada dos produtos pela persuasão
publicitária
a forma deixa de ser um álibi para significar somente a idéia de função e se extingue
na contemplação beatífica de seu poderio


a mais eficaz mitologia social
muito mais assustador que um mundo animista povoado de forças vivas
é o organismo absoluto de uma realidade funcional
um mundo completamente inter-relacional
ou, como dizia o Fernandinho Beira-Mar,
tá tudo dominado.

o assombro sempre é maior que a assombração

despindo a cara velando a máscara vazando a vista talvez se veja qualquer que vista da alma a casca furada a máscara despida a roupa virada a cara a vista falsa qualquer que seja ninguém está salvo despindo a cara velando a máscara vazando a vista talvez se veja qualquer que vista da alma a casca furada a máscara despida a roupa virada a cara a vista falsa qualquer que seja ninguém está salvo

terça-feira, 22 de março de 2011

abalo sísmico


















Edmar Oliveira


O nosso amor fez tremer o outro lado da terra
Um abalo sísmico das placas tectônicas do nosso querer
Destruiu a paixão que nos unia na calma oceânica

Bem que suspeitei das pichações enigmáticas:
“Celacanto provoca maremoto”

O menino nacional de olhos puxados
Não conseguiu deter o Godzila
Que em fúria feriu de morte as nossas ilhas

E o malefício da radiação atômica
Perdurará apagando os nossos momentos felizes

Minha queixa de amor
É você
____________________________
desenho: Katsushika Hokusa, ”A Grande Onda de Kanagawa” (1832)

quarta-feira, 16 de março de 2011

janeiro é um mês duas-caras


não será o destino
dos ícones
a evanescência, de tudo que um dia
chega a ser
transformar-se no seu contrário?

não seria a fé
exata definitiva fundamental
fechada
uma espécie de seita
dos descrentes?

só quero poder contar
histórias
a minha estória
essa
eu não suporto
mais

só quero o bálsamo
do oblívio
esse óbvio
alívio

a felicidade é uma foto velha
uma piada do caralho
antigo Oceano de lágrimas
famigerada flor do infame
Todomundo

a felicidade seria um tempo-
pétala
um instante-gota
a boiar perdida no universo
casca-de-noz

(se hoje estou mouco
e cheio de crepúsculos
é porque experimentei o que digo
conheço a esperança e o perigo
a solidão a doença a morte)

como posso queixar do que
tem sido a minha glória?

sábado, 12 de março de 2011

a outra



A entrevista em que a viu pela primeira vez era uma dessas reportagens que as televisões fazem habitualmente sobre temas do cotidiano ― seria o aumento das tarifas de ônibus e metrô? ―; o formato é conhecido: imagens do, ou da, jornalista falando, o mundaréu de indistintos cidadãos ao fundo entrando e saindo de coletivos, corta para uma fala editada do secretário de transportes, declarações de algum dirigente sindical, finalizando com os indefectíveis testemunhos de “populares”. Foi neste último bloco da reportagem, inteiramente por acaso, que fez a descoberta mais importante da sua vida até então. Não tinha como duvidar do que via e ouvia, ao vivo.

A emoção que a tomou mesclava susto e alívio, aquela embaralhada sensação de libertação que sentimos quando alguma coisa por muito tempo esperada/temida finalmente acontece. Daí em diante não sossegou mais, anotou o nome da repórter e o horário do telejornal. Só não conseguia era lembrar a birosca do nome da mulher ― poderia ser distinto, como Solange e Darcy, bem mais difícil é que fosse raro como Núbia ou Edwiges, fechava caso contra carnes-de-vaca do tipo Maria Aparecida, Marli, Regina Célia. Não teve Cristo na emissora que a impedisse de falar com a entrevistadora, a quem convenceu tratar-se de mais um caso de parentes afastados.

Prometeu que a avisaria para fazer um daqueles reencontros lacrimosos que tanto servem aos programas de auditório como aos jornalísticos em dias de pauta fraca. Conseguiu acesso à autorização que as pessoas entrevistadas pela TV assinam para que suas imagens sejam usadas; tinha agora o nome e o R.G., pouca coisa, mas já era um começo. Na verdade, se houvesse pensado um pouco, teria percebido a compulsão que a arrastou em cada passo posterior a estes fatos, como etapas inevitáveis rumo ao desfecho final. Na manhã seguinte foi à Santa Ifigênia comprar um CD-ROM que, por meros vinte reais, permitiu-lhe espiar as declarações do Imposto de Renda de todos os seus concidadãos.

Na posse das novas peças do quebra-cabeças (renda, nome completo, CPF, RG e endereço), deu o passo mais ousado: resolveu submergir e atravessar para a clandestinidade, onde teria os movimentos facilitados pelo anonimato. Abandonou a vida que levava sem titubear. Não foi uma tarefa simples, há sempre muitas coisas a explicar e gente a avisar: família, amigos, parceiros comerciais, etc. Percebeu o quão desavisadamente somos controlados em nossa supostamente livre individualidade; ninguém desaparece assim, do nada, sem levantar suspeitas. Pretextou uma viagem sabática ao exterior cujo diário seria um mural eletrônico de postais virtuais ― dois palitos montar fotos suas com monumentos ao fundo e textos engraçadinhos.

Arranjar uma cabeça-de-porco foi igualmente simples: aluguel adiantado, dinheiro vivo, nada de documentos, discrição e uma senhoria pouco perguntadeira; assim, ingressou na incerta fauna do Centrão, o centro velho da cidade. Deixava para trás uma carreira apagada de atriz em que, no entanto, se firmara como apresentadora de eventos e premiações, segmento no qual tinha se tornado uma queridinha dos diretores de casting. A independência financeira, conquistada sem que tivesse feito a si muitas perguntas, mostrava toda a serventia agora que se dedicava em período integral a investigar a vida de outra pessoa. Com o parceiro de apresentações internado numa rehab para drogados e bebuns, todos acharam perfeitamente natural que desse um tempo. Reciclagem.

A conversa transcorria em um apertado cubículo ao final do corredor à direita, quarto andar de um treme-treme na Líbero Badaró; a espelunca, situada num prédio que já devia ter conhecido seus dias de grandeza, atestada pela fachada em travertino e o elevador de porta pantográfica, resumia-se a três divisórias de compensado, um balcão de vidro exibindo placas de automóveis e duas cadeiras de estofado sintético preto. Em meio a uma miscelânea de comerciantes de ouro, lojinhas de games e DVDs piratas que populavam o edifício, a placa da porta anunciava os sóbrios serviços de despachante: limpava pontos na carteira e nomes no Serasa; na parede, um calendário com o mês atrasado e, no canto da sala, um vaso de plástico cor de telha com espadas-de-são-jorge.

― Iguais como duas gotas d’água. Repare, a perfeição está nas minúcias: os frisos, o carimbo, a contraluz, a granulação, os detalhes em 3D, chega ao detalhe da gramatura do papel... moça, tenha certeza, estas aqui são as Lamborghinis das réplicas, valem cada centavo que se paga por elas! Nós ainda lhe oferecemos um plus a mais, o número do documento é quente e sai limpinho em qualquer consulta no IIRGD...

― Erre-gê o quê? ― o homenzinho, que devia regular pela idade dela, tinha o bigode e os dedos irremediavelmente manchados pela nicotina; tratá-la por “moça” só se podia explicar pela tintura de vermelho intenso que aplicara aos cabelos recém cortados.

― Não, é i-i-erre-gê-dê. Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt, o órgão que expede os atestado de antecedentes criminais; qualquer um pode requerer a partir do número do RG. Aí é que está o nosso diferencial: toda a documentação que fornecemos vem virgem como um bebê.

― Hmm, aqui diz que eu sou do Maranhão...

― Pois é, a gente vai onde tá mais fácil, onde tem os esquemas; só trabalhamos com papelada branquinha, e no Maranhão, bem... aquilo lá é uma zona, lá ninguém verifica é nada, lavrou em qualquer cartório, um abraço, vira oficial. O sistema não é unificado no país, acredita?

― Ô, se acredito... ― naquele instante ela teve o vislumbre da próxima parte do plano; reexaminou as carteirinhas uma por uma, pela primeira vez ia interpretar uma personagem com documentos “de verdade”.

― Faço desconto se for o pacote completo, ok?... Dá até pra pagar em vezes no cartão, bom, né?, ficou uma tetéia o trabalho no seu passaporte, entrada na Europa pelo aeroporto de Barajas, olha só, data e hora, e ali, ó, é de Bali daqui a dois meses... na outra pasta tem sua nova vida: RG, CIC, CNH, PIS e PASEP, tudinho. Muita gente faz isso hoje, às vezes tem até mais de um, chamamos de registro “anfitrião”; do jeito que a coisa anda, é mais garantido fazer, a gente nunca sabe quando vai ter problemas na identidade principal.

Um dos mais importantes facilitadores é que o patrimônio dela possuía alta liquidez, encontrando-se aplicado majoritariamente em três bancos de investimento. Para estas instituições, ela não só não havia viajado, como fazia freqüentes retiradas e transferências para uma conta de pessoa física que até então nunca constara em seus extratos ― que, aliás, junto com as contas de celular e cartão de crédito, redirecionara para o e-mail de modo a fazer todos os pagamentos via internet. Fingir uma temporada no exterior, continuando a morar e se locomover na mesma cidade, é façanha que só se explica numa megalópole; porém, tudo isto apenas esclarece o como ocorreu a transformação, apenas tangenciando o busílis, ou seja, o porquê do processo.

O fato é que não tinha topado com alguém que se parecia com ela num sentido convencional, algo assim como uma sósia que se encontra por acaso na rua ou numa festa; aquela moça simplesmente era ela vivendo na pele de outra pessoa! Essa mulher ― que agora seguia pelas ruas, pelos cafés e restaurantes, a quem acompanhava secretamente nas constantes viagens a trabalho, com quem ia às baladas e até mesmo visitar parentes no interior ―, de alguma maneira que lhe escapava ao entendimento, era absolutamente idêntica a ela. Não era semelhança ou parecença, mas ipseidade, um sentimento intraduzível para além da primeira pessoa do singular; a voz, os tiques, o gesto, as mesmas jequices, as mesmas pausas e vacilações. Duas gotas d’água.

Talvez fosse uma forma de arrumar a madeixa de cabelo, escorregando a hesitante mão boba para o lóbulo da orelha, enquanto sorria desavontade ― de imediato, soube que ela mentira para aparecer na TV: gerente de uma grande empresa, ela nunca usava transporte público. Lembrou desta cena inicial, por alguma razão enigmática, durante a conversa com R4z0r, uma lenda viva entre os hacktivistas; na cafeteria semivazia, com o notebook do rapaz sobre a mesa de fórmica riscada, procurava delinear-lhe as feições escondidas atrás de enormes óculos escuros e enterradas sob um boné dos Cardinals com a pala furada de piercings.

― ...certo, o que você quer não pode ser resolvido pelo ultravnc.exe, ia precisar que a pessoa baixasse e executasse o programa voluntariamente, o que não é o caso, precisa pegar um rastreador de IP, você sabe que estará hackeando o outro usuário, que vai se tornar um IP atacante não sabe?, então, alguns firewalls do Zone Alarm Pro podem te detectar. No próprio windows há o comando externo tracert que...?

― Posso ser processada por isso? ― era um sujeito curioso o tal R4z0r, pensou, procurado no mundo inteiro e no entanto incapaz de ir além de uma área de poucos quarteirões no bairro onde nascera. Agorafobia, diziam.

― Sempre pode dar merda, na rede sempre ficam rastros, os logs; cada computador só se liga à rede mundial por um número IP que é atribuído automaticamente, uma identidade de quatro octetos, olha o nosso agora: 192.168.171.299; a primeira metade designa as redes que nos conectam e os dois últimos identificam o host, ou seja, este meu computador aqui; entrou na web, pá, um número. Por isso nós podemos rastrear o IP dessa pessoa que você quer, daí mandamos um spyware para o PC dela, gosta do Messenger Plus?, ele dá as teclas digitadas, os movimentos do mouse, os sites visitados, as senhas, as fotos, vídeos, músicas, as pesquisas... melhor que ser amigo na rede social, não?

O próximo encontro foi mais difícil de chegar; o lugar era no final (!) da Estrada do M’Boi Mirim, bem depois de onde o Judas perdeu as botas, virando à esquerda. Por sorte era de dia, pois, a partir de certa altura, o motorista de táxi recusou-se a continuar e só a muito custo é que a deixou no ponto do lotação que a levou ao quilômetro da entradinha. Andou mais um troço de caminho pelo meio do mato até chegar a um portão com o número pintado a graxa no chapisco do muro sem reboco. O silêncio dali fazia com que a cidade parecesse uma entidade distante; dois pit bulls surgiram no terreno contornando um casebre na frente do terreno e ficaram rosnando para ela atrás das barras do portão de ferro. Lá dos fundos gritaram para que entrasse, antes que pudesse responder, um silvo agudo soou e os cães voltaram pelo lado oposto de onde tinham surgido.

― Belê, hmm pode sentar aí, os pneu é firmeza, vou contar a grana, só um momentinho... combinado não é caro, né? ― Peruquinha deixava os interlocutores na dúvida se era um homem muito feio, ou uma mulher que a natureza tinha escolhido para sacanear. Chefia do desmanche de carros, não ostentava um único pêlo no corpo disformemente obeso; o adereço que fazia jus ao apelido era um ignóbil chinó que mais parecia um Black Power de carnaval.

― Ok, ah, a automática tá no porta-luvas do carro, e fica sussa: a placa é clonada, mas se os homens te parar é raro eles conferir o chassi...

O silêncio daquele lugar continuava a assombrá-la, onde andariam os pit bulls? Alegou que comprava a arma para defesa.

― O caralho, fia, joga merda nos meus olhos não, tu vai apagar alguém, que eu sei. Não dá outra, é sempre nisso que essas paradas acabam. Sabe por que é que nego tira a roupa um do outro antes de trepar e depois cada um se veste sozinho? Porque depois que você tá fudido ninguém mais quer te ajudar! Hahaha! Relaxa, mina, o que você tem é que pegar na M’Boi à direita e nunca mais voltar, se tu rodar e abrir o bico sobre isto aqui, eu te acho na cadeia, valeu?

Ele/ela sacara o essencial, mas faltara a sutileza, já que, a rigor, ia se matar; o seu antigo eu ia voltar de viagem e morrer durante um assalto, isto é, colocaria o cadáver da outra na cena do crime vestindo as suas roupas e com os seus documentos na bolsa. Daí em diante assumiria plenamente a identidade que conhecia nos mais íntimos detalhes, ninguém perceberia a diferença. Na falta de um tempero passional para atiçar a mídia, e tendo a sorte de haver outro assunto de ocasião mais suculento, o caso iria engordar as estatísticas de latrocínio despercebidamente. Sentia um pouco, mas não demais, pelo sofrimento que causaria à família; mas a compensação da herança que lhes deixava seria sopa no mel para os irmãos e o pai viúvo.

Ainda não tinha chegado à Santo Amaro quando se deu conta de uma pequena falha no estratagema: o passaporte! O passaporte é o único documento que vincula um dado antropométrico, as digitais, às certidões cartoriais e à foto ― impressões dos cinco dedos da mão direita ficam armazenados no sistema da polícia federal, o que lhe impediria a renovação. Ficaria presa dentro das fronteiras do Mercosul, gaiola enorme é certo, mas o caso é que havia um buraco na coisa toda.


(plágiomenagem a José Saramago)