sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um Olhar

Numa quente noite de Verão, bem passada a uma da madrugada, descia uma das grandes avenidas de Lisboa.

Mãos nos bolsos, olhar despreocupado, pensamentos vagueando pelo nada.

A noite tropical trazia-me à pele lembranças de Angola… A falta de uma brisa, por pequena que fosse, os 26 graus, o silêncio… Se o ar fosse mais húmido julgar-me-ia andando pelas ruas do meu bairro de Luanda.

Tinha acabado de chegar do meu tempo de praia no Algarve. Já tinha perdido na memória a sensação de me ver tão moreno. Acho que quando fico assim o calor me produz uma doce sensação de bem-estar, quase impossível de traduzir por palavras.

Além disso, sentia-me cheio de energia e de vitalidade. O sol da praia e o nadar nas águas, por vezes geladas, de Loulé tinham recarregado as baterias para mais uma época de exames na faculdade.

Entrei no restaurante e procurei um lugar para me sentar ao balcão. Não queria demorar muito. Ainda queria dar mais um avanço na matéria.

Vi o João, colega de ano. Sentei-me ao lado dele.

Trocámos conversa de balcão… Patati-patátá… patati-patátá…

O garçon trouxe a lista mas pedi o habitual às terças… Era cliente certinho, tão certinho que até já conhecia de cor e salteado os pratos da casa.

Patati-patátá… Patati-patátá…

Quando me puseram o prato à frente, pedi um fino… O calor estava mesmo a pedir uma bebida geladinha.

Dei um gole e quando ia a pousar o copo… o meu olhar cruzou-se com o da pessoa que estava à minha frente.

Patati-patátá… patati-patátá…

De novo… Meu Deus! Que olhar…

Deixei de dar atenção ao patati-patátá do João.

Responder… eu respondia mas juro que não faço nem ideia do que dizia.

A cor… De que cor? Verdes? Não! Azuis? Não.

O olhar voltou a fixar-se no meu olhar…

Suave…

Doce…

Convite? Será…?

Patati-patátá… Patati-patátá

A pele muito morena… quase cor de cobre, a cor da minha perdição.

O penteado afro, muito fofinho e cheio…

O sorriso lindo, aberto… e

O olhar…

Suspensos ficámos durante… eu sei lá!

Patati-patátá… patati-patátá… O João falava e comia e falava e comia…

Eu… com o copo do fino numa mão… com o garfo na outra ia fazendo que comia…

Patati-patátá… patati-patátá…

O olhar… de novo…

eu só via os olhos… não conseguia desligar…

agarrado, preso…

e querendo continuar preso…

querendo que continuasse… mais… mais…

Patati-patátá… patati-patátá…

Pediu a conta… o empregado recebeu, fez o troco…

Levantou-se…

Patati-patátá… Patati-patátá…

Levantei-me sem pedir a conta e fui atrás daquele olhar…

5 comentários:

Lídia Borges disse...

Estimulante!

Ainda bem que o João Patati... Patatá... estava lá para pagar a conta. :)

L.B.

José Doutel Coroado disse...

Lídia,
ainda bem que gostou.
abs

missosso disse...

ah, que maravilha, a beleza passa, nos cativa, e lá vamos nós atrás dela! em direção a quê?, sabemos lá, só sabemos que temos de ir ... bela José!

José Doutel Coroado disse...

Missosso,
é...
ainda gostava de um dia entender como é que pode!
O que é que nos leva a ir?
abs

angela disse...

Gostei de reler e gostei mais ainda agora.