quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 12

Aldeia dos Quatro Montes


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12

O Lar da Nossa Senhora do Ó acolhia quase quarenta residentes. Uns mais velhotes, outros ainda com idades abaixo dos sessenta. A grande maioria eram senhoras, havendo só meia dúzia de homens.
A directora técnica, isto é, quem tinha a responsabilidade pelo funcionamento do dia a dia da instituição era a Dr.ª Angélica, ainda jovem, andaria nos seus trinta e poucos.
Da ampla janela do seu gabinete, estava a apreciar a azáfama no cruzamento onde estavam a ser instalados os semáforos. Bateram à porta e, logo de seguida, entrou a cozinheira, a senhora Aparícia.
- Ó senhora Dr.ª, isto assim não pode ser…
Angélica já estava habituada a estas entradas de rompante da cozinheira que, quase, todos os dias reclamava de alguma coisa.
- Diga lá…
- Então não é que pedi ao padeiro para me trazer mais pão para fazer a açorda de bacalhau na sexta-feira e o raio do homem só deixou o bastante para o gasto do dia?
- Diga lá, então, quantos pães precisa?
Enquanto ia ouvindo a senhora Aparícia, pegou no telefone e ligou para a padaria e recomendou que fizessem a entrega até à hora do almoço.
- Pronto! Já está resolvido. Mais alguma coisa?
- Ó senhora Dr.ª, a senhora já me conhece… Eu cá não sou de intrigas mas…
Angélica já sabia o que aí vinha… A mesma história de sempre, que o padeiro roubava no peso do pão, que isto e mais aquilo… A senhora Aparícia era parente do dono da outra padaria de 4 Montes e passava a vida a descascar no fornecedor do lar.
- Pois é… Mas olhe que os nossos velhotes gostam muito deste pão…
Angélica lá conseguiu que a cozinheira voltasse para o seu lugar, lembrando-lhe que era capaz de serem horas de começar a assar os marmelos para a sobremesa.
A senhora Aparícia era assim… Bom coração, sempre disposta a dar uma ajuda, mas quando embirrava para um lado, não havia nada que a fizesse mudar de ideias.
Angélica aproveitou para dar uma vista de olhos pela lavandaria, para ver se a nova máquina de secar estava a funcionar bem.
Ia ela pelo corredor fora quando ao passar por uma das salas de descanso dos residentes, ouviu uma voz alterada.
- Pois… A senhora Arlindinha…
Entrou na sala. Sentadas nos seus confortáveis sofás, estavam sete senhoras. A televisão estava ligada. Como sempre! A senhora Arlindinha continuava a falar, cada vez mais alto…
- … só a mim ninguém me liga! Porque é que temos de ver sempre o mesmo programa? Então eu, que nem gosto nada deste marmanjo, tenho que passar a manhã a aturar isto?
- Tem bom remédio… Ou tapa os ouvidos ou muda-se!, ripostou uma das velhotas.
- Olha lá! Mas tu achas que o meu dinheirinho é menos que o teu?… Teu, como quem diz… Se não fosse a tua nora, nem cá punhas o cúzio… Que tu, de teu, não tens coisa que se veja!
Angélica teve que se meter naquela alhada. Antes que a discussão se aprofundasse e as coisas se descontrolassem… Todos os dias era a mesma coisa. Por isto ou por aquilo, porque a fulana não me dá atenção, porque só fazem as vontadinhas todas à sicrana… Às vezes, apetecia-lhe dar outro rumo à vida. Quanta vezes, chegava ao fim do dia, estourada como se tivesse andado com uma enxada na mão.
Já nem foi à lavandaria… Foi buscar o isqueiro e os cigarros ao gabinete e saiu…
- Vou fumar um cigarro!, disse à moça que estava no balcão da entrada.
O dia estava frio mas o sol brilhava num céu bem azul. Arrependeu-se de não ter trazido o casaco…
Acendeu o cigarro e ficou a olhar para o fumo, branco, que ficava a flutuar à sua frente…
A entrada principal do Lar, ficava mesmo em frente ao cruzamento. Estavam a instalar as lâmpadas dos semáforos…
Reparou no engenheiro Xavier que dava indicações aos trabalhadores. Ainda bem que o via. Tinha de lhe lembrar que ainda não tinham vindo arranjar aquele problema das infiltrações na garagem.
Angélica caminhou até ao portão, fez sinal à moça da recepção para accionar a abertura automática e, ao sair para a rua, viu que, ao lado do engenheiro Xavier, estava Pedro.
Pedro estava a ouvir, atentamente, Xavier quando percebeu que este se distraíra com algo.
Levantou o olhar e, bem à sua frente, estava Angélica.

(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

4 comentários:

missosso disse...

eh lá, que a nossa história veio em adianto, na 4a feira!, e novas situações e personagens vão chegando, com a naturalidade de quem já conhecêssemos de há muito; o interessante de 4 Montes é que já não me parece ficção, mas crõnica de um lugar real. boa companheiro!

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
a partir desta semana e, durante um tempo indeterminado, haverá (pelo menos!!) dois capítulos, um ao Domingo e outro à Quarta.
abs

ps: acho que vou torrar a paciência de todo o mundo!! rrrrsss

angela disse...

Já vi que está crescendo e aquilo que começou conto outra coisa já virou. Estou gostando de ler.

José Doutel Coroado disse...

Cara Angela,
grato pelo coment.
abs