domingo, 21 de novembro de 2010

Livro dos Recordes Sexuais: a mulher mais satisfeita do mundo


Uma mulher pode ser bem sucedida na profissão, ser esclarecida politicamente, bonita, mau caráter, inteligente, fofoqueira, gostosa, magra, rica, pegadora de namorado alheio, etc., tudo isso, junto ou em combinações, lhe será perdoado, agora, experimente ela ser bem-comida e perderá todas as amizades que tiver ou supor ter. Nem as amigas mais zen, os amigos mais terapeutizados, agüentariam; a verdade é que ninguém perdoa a mulher plenamente realizada na cama. Aquele sorrisinho maroto no canto dos lábios a afrontar colegas de trabalho, digamos, numa segunda-feira de manhã ― suportar quem há de?

― Quando vou ter filhos?! Querida, minha idéia de sacanagem na madrugada não envolve mamadeira nem fralda, a não ser em dias de perversões mais bizarras... ― pela reação da amiga, percebeu que abrira demais a boca. Afinal, quem, no elegante escritório de arquitetura e design, poderia supor que fosse sexualmente feliz, ainda mais depois de nove anos de casamento com um jornalista cultural? A coisa toda começara há dois anos por culpa justamente dele, o marido, Talarico Berdinesque.

Críticos têm, como outras populações corporativas, uma distribuição em curva de sino no tocante à luxúria: vinte por cento de heteros ou homos de raiz, praticantes e apreciadores empedernidos dos jogos venéreos, e aqueles oitenta por cento de eternos indecisos que não sabem que apito tocam, não desocupam a moita, não saem de cima e só sabem foder mas é com a paciência dos outros. Talarico fazia parte desta maioria cinzenta, embora se destacasse como um proativo lambe-cu do dono do jornal onde trabalhava há vinte e um anos.

― Fia, seu Orixá pede uma obrigação ― dois anéis cinzentos cingiam os olhos de Mãe Catarina, olhos que não desgrudaram da tatuagem de um sol na mão direita dela enquanto mergulhava as suas numa cumbuca com água corrente, infusão de folhas de maçacá, corana branca e mel de abelha.

O que talvez seja mais certo dizer é que houve uma série de equívocos que começaram depois que, vencendo o receio de se deslocar sozinha noite adentro para o bairro distante do terreiro, resolveu que precisava apelar para todos os santos à disposição. De saída, antes que pudesse se explicar, a Ialorixá encasquetou que o problema era o chamego, a escassez de nheco-nheco, ao passo que ela queria mesmo era desamarrar as dívidas financeiras do casal. ― Ora ê ê, Oxum, Ora iê, iê! ― a mãe de santo puxou para si a urupemba de palha trançada com os dezesseis búzios por meio dos quais as poderosas entidades afroamericanas iam mandar sua mensagem.

As impressões do ritual voltaram-lhe em sonhos por meses: a galinha amarela, o pinto preto, a cabra e o cabritinho brancos, o cheiro do sangue mesclado ao do bolo de feijão com rodelas de ovo e cebola picada com malagueta, cebolinha e sal; o aroma acanelado do doce de banana prata, os pontos cantados, a gira, o baticum, os colares, brincos e pulseiras, as flores, o fumo, os incensos de perfumes cambiantes... Os sacrifícios da oferenda tinham sido pagos em dinheiro para as Iabás, a terrível “mão de faca” que mata os bichos, o “cargueiro”, que retirou o Ebó; mas restava um problema: o despacho precisava ser levado por mão de homem a uma queda d’água no meio da mata na lua crescente. A custo de muita teima e beicinho, Talarico aceitou fazer a entrega no sítio da família.

Preparou o banho de madrugadinha em casa, fez um café-tinta de forte para o marido, que ia pegar estrada, e trouxe as ervas trituradas para o box do banheiro: malva branca, vassourinha miúda, medalha, bem-me-quer, rosa amarela, baronesa e botão de ouro. Tirou a roupa puxando pelo avesso e largou-a no chão; depois de se lavar com sabonete, juntou os pés e levantou os braços, cantando para a sua santa de cabeça à medida que despejava a vasilha inteira sobre si. Naquele mesmo instante, o marido desistia da viagem a desoras e decidiu largar as tralhas numa esquina qualquer. Não estava para programa de índio, os deuses que achassem o que lhes era devido; que diferença faria o lugar da desova?

Não é improvável que um erro conserte outro, porém, o mais das vezes só faz piorar o que já era ruim. Parou o carro, retirou do bagageiro a tigela, apanhou as velas e dirigiu-se para a encruzilhada em forma de T; temendo ser reconhecido, incomodou-se com a presença de gente nas imediações (exagerava um pouco a fama que tinha), mas foi só acender a primeira vela que a moçada picou a mula rapidinho. Acontece que o Senhor das Encruzilhadas, assim como não curia bebida que passarinho não bebe, não fica sem entregar nada a quem de direito; Exu levou para a Senhora das Cachoeiras o que lhe era devido e esta achou de castigar o Talarico pela ofensa.

Foi o maior susto da vida dela: o homem que voltou para casa naquele dia não se parecia com o marido, melhor dizendo, falava como ele, comportava-se como ele, mas não era a mesma pessoa! Daí pra frente, toda a noite um outro chegava em casa; ninguém mais percebia isso, os porteiros do prédio, os amigos, os colegas de trabalho, ninguém notava ― só ela podia ver que recebia em sua cama um homem diferente todas as noites. Experimentou marcar um jantar com o chefe dele em casa, só para se admirar com a absoluta normalidade com que todos se comportaram apesar de estar ali um homem negro com o físico de um guarda-costas em vez da sua habitual cara-metade.

O Talarico, em si, não mudou nada, de tudo que se passava inconsciente, continuava igual a si próprio: uma pitada de Todorov, um cheirinho de De Man, duas mãos cheias de Barthes e Benjamin; no mais, o mesmo: seguia abominando secretamente a santíssima trindade francesa, Derrida, Lévinas e Blanchot, e, no fundo, tal como o patrão, abraçava as idéias de Harold Bloom rechaçando tudo que destoasse do cânone clacissizante. Já na parte da cama, quanta diferença, quanta fartura em diversidade e diversão! O esposo-corno-de-si-mesmo acabou por confessar a falseta e Mãe Catarina pôde lhe explicar que o feitiço não seria desfeito senão ao cabo de sete anos; mas que ficasse sossegada porque os Orixás atuam sobre o plano material e não no plano espiritual, ele voltaria ao mesmo leite-azedo de sempre. Mais cinco anos ainda lhe restavam e ela tratou foi de aproveitar.

Conheceu muitos corpos desde então, descobria anatomias inéditas, comparava pernas, peles, torsos e quadris, jeitos de se mover e se comportar no fogo da carne e no depois do repouso; em cada um desses desconhecidos havia sempre um segredo, que ora se revelava, ora se furtava a ela, havia transas carnudas, úmidas, baixarias indescritíveis, tempestades lamacentas, sexos molhados, tristes ou febris, homens magoados, eufóricos, mortificados, preguiçosos, espontâneos, sem destino, violentos, transparentes ou compactos, uns cheiravam a perfumes e outros a sal, alguns suculentos como um fruto, outros livres como animais selvagens, por vezes difíceis, intensos, transtornados, necessitados, alvoroçados, esquecidos, esfomeados, meigos, suaves, raivosos, lúbricos, frios ou arrependidos; em muitos admirou o prodigioso calor, noutros a coragem, a vaidade, a astúcia, alguns a abordaram com esquivas e cautela, ou tranqüilos como a baía escondida de uma ilha, a outros, desbravou com a fúria das conquistadoras, tantos os que a calcinaram com a secura dos desertos; muitos deitaram-se ao seu lado para dormir, menos foram os que a comeram com um “C” bem grandão, com uns fez amor, mas a maior parte a fodia com “f”, de furreca mesmo; houve quem adivinhasse seus desejos e a possuísse com genuína comoção, mas houve também os distraídos, os prudentes como cobras, os de bocas famintas, (apareceram até mesmo dois transsexuais e uma mulher!), corpos em desordem que buscavam nela ainda mais desordem, enfim, cada noite lhe trazia um arrepio novo, a perspectiva do assombro e da novidade. Mas não se pode dizer que o traía, a não ser uma vez, em que ele mesmo a levou a uma casa de swing. Numa sala semi-escura da boate Babilônia, amarrada a um estrado giratório, foi comida por doze desconhecidos; Talarico observava calado, à distância.

8 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
brilhante "estória"!
abs

missosso disse...

sorry ter tirado a sua ainda mais brilhante crônica da abertura...

José Doutel Coroado disse...

Caro Missosso,
que é isso de "sorry"?
todo mundo lê tudo...
abs

angela disse...

Esses Orixás são amigos de mulher. Até quando castigam.
Pode perder as amigas restam os orixas...rs
Uma aula e tanto

Rodrigo Passos disse...

ótima reflexão!

missosso disse...

tks, amigos(as) leitores(as) e leitores(as) amigos(as); faz sentido afirmar que os orixás têm mais lugar para as mulheres que a religão em geral.

Dalva Maria Ferreira disse...

De gênio. De gênio!

Anônimo disse...

Se os orixás privilegiam as mulheres, não sei, mas jamais vi melhor castigo em minha existência. O ritmo e as imagens são ótimas. Alucinante como os sons de um bom terreiro.