domingo, 28 de novembro de 2010

Aldeia dos 4 Montes - Cap. 13

Aldeia dos Quatro Montes




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13

Quando o Senhor Director assomou à entrada do gabinete de Felisberta, ela estava numa interessante conversa ao telefone que, muito a contra-gosto, teve de interromper.
-… Olha, já te ligo. Até já. Como está Senhor Director? Deseja falar com Sua Excelência?
- Se não fosse muito incómodo…
- É só um momento…
Felisberta ligou para a extensão do gabinete de Sua Excelência e informou o Senhor Director que podia entrar.
Ainda o Senhor Director não se tinha movido e já se abria a porta de Sua Excelência que fez questão de vir receber o jornalista.
- Então como vai?
Entraram para o amplo gabinete de Sua Excelência.
Felisberta esperou que a porta se fechasse e, imediatamente, pegou no telefone e marcou um número.
- Sim… Sou eu. Pois é… Não! Era o Senhor Director… Também me saiu cá um chato… Vê lá tu que não há semana que passe que não venha falar com Sua Excelência pelo menos duas ou três vezes… E, depois, com aquele ar de fidalgo… sempre muito empertigado…
- …
- … hummm…sim… sim… ah! Não me digas? Como é que é? Espera aí… Conta lá isso mais devagarinho, para ver se eu percebo bem. Tás-me a dizer que o Senhor Director…
- …
- Não!!...
- …
- Não!... Não acredito!
- …
- Olha, desculpa lá… Tenho uma chamada em linha, a gente encontra-se para lanchar e depois tens que me contar essa história. Tchauzinho!
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Xavier cumprimentou Angélica com dois beijinhos e apresentou-a a Pedro.
- Não me bata muito! Eu bem sei que ainda não mandei o pessoal para arranjar aquilo na garagem… Mas prometo que logo que acabemos de instalar isto começamos a resolver o problema das infiltrações.
Angélica estava farta de ouvir as mais diversas desculpas… Ou era porque, talvez, fosse melhor esperar pelo tempo mais seco ou porque, agora, não podia ser que tinha que acudir a uma conduta de água. Mas, simpatizava com o ar bonacheirão do Engenheiro Xavier e tentava levar as coisas sem se aborrecer muito.
- Se eu tivesse a certeza que umas traulitadas davam resultado… Veja lá… Qualquer dia começam as chuvas a sério e, depois, é que vão ser elas.
- Pode confiar em mim. Até porque desta vez, temos uma testemunha… Não quero ficar mal em frente a um colega de ofício.
Angélica não era de 4 Montes. Tinha conseguido o lugar no Lar, através de um amigo, que, por sua vez, era íntimo de Sua Excelência. Estava em 4 Montes, desde que o Lar começara a funcionar, já lá iam uns bons oito anos. A princípio, pensara que não se ia adaptar a uma terriola tão pequenina. Para ela, que tinha crescido numa pequena cidade do litoral, que gostava dos seus passeios à beira-mar, do pôr-do-sol visto da praia, a mudança meteu-lhe algum receio. Mas precisava de trabalhar… Já tinha acabado o curso há dois anos e, ainda, não conseguira nada de jeito. Fizera o estágio numa instituição que prestava apoio a idosos e gostara daquele tipo de trabalho, passou a ter gosto em falar com os velhotes… Muitos deles, só precisavam de ter alguém que os ouvisse, que lhes desse meia dúzia de minutos de atenção. Quando aquele tal amigo lhe perguntou se, eventualmente, estaria interessada em trabalhar num Lar de idosos, não teve qualquer dúvida em lhe responder afirmativamente. Aprendera a gostar de 4 Montes e os velhotes, melhor dizendo, as velhotas do Lar eram, para ela, quase como se fossem pessoas da sua família… Dias havia que lhe faziam a cabeça em água… Mas, de cada vez que conseguia um sorriso nos olhos de um dos residentes, sentia-se feliz… Não era uma tarefa fácil mas, até hoje, não tinha razão para se arrepender da decisão que tomara.
- Engenheiro, diga-me lá… Porque é que estão a colocar estes semáforos?
Xavier tinha acabado de dar resposta a uma idêntica pergunta de Pedro. Lá teve de repetir a mesma ladainha. Que não imaginava, não tinha a mais pequena ideia das motivações da Administração. Só sabia que na semana anterior lhe tinham pedido um orçamento para fazer aquela obra. Do resto…
Pedro e Xavier conheciam-se há muitos anos… Quando Xavier se tinha instalado em 4 Montes para romper uma estrada, passara a ser cliente do café do Pai.
- Pelo que vejo, isto é do mais moderno que existe… Sabes como é que vão regular os tempos de abertura do sinal?
- Isso não é connosco… A XP só trata da parte da colocação dos suportes e do armário. Mas, amanhã, já vem para aí a empresa que vai instalar o equipamento electrónico. Se quiseres, e estiveres interessado, posso-te apresentar o engenheiro que vem montar a geringonça.
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Salústrio estava a acabar de meter umas chávenas na máquina de lavar louça quando entrou o Senhor Director.
- Um cafezinho, por favor. Venho da Administração. Consegui falar com Sua Excelência…
- E já sabe qual a razão para que 4 Montes tenha direito a uns semáforos?


(Estória, em capítulos, aos Domingos e Quartas)
Aviso: qualquer semelhança com nomes ou situações reais será mera coincidência... Esta é uma obra de ficção, resultado da pouca imaginação do autor.

3 comentários:

angela disse...

Não há como saber o motivo tão cedo...
Muito bom José Doutel

José Doutel Coroado disse...

Cara Angela,
grato por acompanhar esta "estória".
abs

missosso disse...

o suspense tem o maior relevo em 4 Montes...